Para entender o significado do Natal, voltemo-nos à oração Coleta de amanhã:

Deus, qui nos redemptiónis nostrae ánnua exspectatióne laetíficas; praesta, ut Unigénitum tuum, quem Redemptórem laeti suscípimus, venientem quoque júdicem secúri videámus, Dóminum nostrum Jesum Christum Filium tuum. Qui tecum vivit et regnat in unitáte… — Deus, que nos alegrais todos os anos com a expectativa de nossa redenção; concedei que, tendo recebido alegres como redentor ao vosso Filho unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, o vejamos confiantes vir também como juiz. Ele, que convosco vive e reina na unidade… [1]

Amanhã, no calendário de 1962, é a Missa da Vigília de Natal. Não é uma Missa de antecipação que “conta” para o dia seguinte, nem é a Missa da meia-noite, que é a primeira de Natal. As Missas de vigília são eventos penitenciais que precedem imediatamente uma grande festa. Antes do Vaticano II, 24 de dezembro era dia de jejum total e abstinência.

“Adoração do Menino”, por Gerard van Honthorst.

A vigília de amanhã, porém, não pode esconder a alegria da Igreja pela vinda do Messias. A Secreta [N.T.: o equivalente à oração das oferendas no rito tridentino] fala do “adorável nascimento” do Filho de Deus (adoranda natalitia) [2], enquanto a [oração] Pós-comunhão reza para que possamos “recuperar novamente o fôlego” (respirare) celebrando a Natividade [3].

A Coleta também é alegre, embora dê uma reviravolta. Deus “nos alegra” a cada ano com a expectativa anual de nossa redenção. A redemptiónis nostrae ánnua exspectatio pode ser realizada de duas maneiras. O significado predominante é a expectativa da festa de nossa redenção, a saber: o dia de Natal (as orações romanas costumam ser abreviadas). Por outra parte, também pode significar uma expectativa do juízo final, ao qual São Paulo chama “o dia da redenção” (Ef 4,30). Ambos os significados são o tema da apódose (segunda metade da oração) da Coleta: assim como estamos atualmente felizes em celebrar Cristo, que veio como nosso redentor, rezamos para ser capazes de alegrar-nos também em conhecê-lo como o juiz que há de vir.

A ambivalência de redemptiónis nostræ ánnua exspectatio é, suspeito fortemente, deliberada. A Igreja quer que confundamos os limites entre os dois acontecimentos, a fim de indicar a relação entre as três vindas de Cristo. O propósito de celebrar anualmente a Natividade terrena de Cristo é renovar nossa fé e recebê-lo mais plenamente em nossos corações, e quanto mais plenamente entrar Cristo em nossos corações, mais prontos estaremos para a sua segunda vinda. O objetivo, como sugere a Coleta, é estar tão bem preparado, que ver Jesus Cristo como nosso juiz no último dia não seja mais tremendo que vê-lo como bebê na manjedoura.

É um objetivo e tanto! Embora, como cristãos, devamos ansiar o fim do mundo e o retorno glorioso de Cristo, é compreensível que a maioria de nós não esteja exatamente eufórica e entusiasmada com a perspectiva do Armagedom. Além disso, qualquer um com a mínima dose de autoconhecimento tem motivos para se preocupar com a perspectiva de ver Cristo em todo o seu esplendor aterrorizante no dia do juízo. Como escreve Santo Agostinho:

Quando se espera que Ele venha do céu como juiz dos vivos e dos mortos, isso causa grande terror nos negligentes, de modo que se voltam para uma diligente [preparação] e [aprendem como] ansiar por sua vinda agindo bem, em vez de temer agindo mal (Sobre a doutrina cristã, 15.1.14).

Os últimos domingos depois de Pentecostes e todo o tempo do Natal servem para oferecer uma “preparação diligente”, capaz de converter alguém aterrorizado e “negligente” numa alma santa “que anseia sua vinda”. Começando por volta do 18.º Domingo depois de Pentecostes, os [textos] próprios da Missa [tridentina] abordam os medos do negligente, assumindo notas apocalípticas in crescendo até o último Domingo depois de Pentecostes e sua leitura do Evangelho, uma descrição detalhada do fim do mundo segundo São Mateus (cf. 24,15-35). 

Na semana seguinte, o 1.º Domingo do Advento continua o tema do santo terror; por outro lado, a leitura do Evangelho traz a descrição que faz São Lucas do fim do mundo, mais curta e possivelmente menos assustadora. Uma mudança está, pois, em andamento, e quando chegamos ao dia de Natal, o medo foi substituído pela alegria, a ponto de nos podermos imaginar tão transformados pela redenção em curso, que estamos realmente ansiosos para o juízo final: como diz a Coleta, aspiramos estar confiantes ou securi, que significa literalmente “sem cuidados” (sine cura) no mundo [4].

Que presente de Natal seria estar verdadeiramente securus! Felizmente, é algo que Deus todo-poderoso, mediante o ritmo do calendário da Igreja, torna possível a cada ano.

Notas

  1. Essa Coleta permanece, na íntegra, na atual Missa da Vigília de Natal (que no rito novo perdeu seu caráter penitencial) (N.T.).
  2. Embora tenha sido preservada no rito reformado, essa oração foi transferida para a Pós-comunhão da Missa matutina de 24 de dezembro (N.T.).
  3. No rito de Paulo VI, esta oração permanece no mesmo lugar de antes, trazendo agora, no entanto, no lugar de respirare, o verbo vegetari (lit., “ser animado”, “ser revigorado”). A tradução brasileira pede que “sejamos renovados” (N.T.). 
  4. Ao traduzir laeti e securi para o inglês, o autor usou no lugar dos adjetivos os advérbios joyfully e confidently. Aqui, no texto, ele fala da “aposta” que fez e explica que, no original latino, as palavras usadas “não são advérbios, mas adjetivos, atributos do nosso estado de ser, não meros qualificativos de uma ação transitória” (N.T.).