Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 9, 57-62)
Naquele tempo, enquanto Jesus e seus discípulos caminhavam, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”. Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. Jesus disse a outro: “Segue-me”. Este respondeu: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai”. Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”. Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus”.
Celebramos hoje, com grande alegria, a memória de São Jerônimo, grande Doutor da Igreja. Este santo é conhecido pelo seu amor às Sagradas Escrituras, e é exatamente por causa de sua memória litúrgica, no último dia de setembro, que dedicamos este mês à Bíblia.
São Jerônimo nasceu em uma região chamada Dalmácia, atual Croácia, e viveu no final do século IV. Saindo cedo de casa, foi para Roma estudar, e lá tornou-se um grande intelectual. Tinha um latim tão especialíssimo e belo que se tornou, juntamente com Santo Agostinho, o melhor escritor da língua, poesia e recursos da retórica latina.
Como era costume na época, ele se converteu e foi batizado já adulto, dedicando-se à vida de oração e de rígidas penitências na vida monástica, e fazendo tantos jejuns que seus discípulos achavam que ele iria morrer.
Certa vez, estando gravemente enfermo e quase à beira da morte, Jerônimo teve um sonho extraordinário, que mais tarde relatou em uma carta a Santa Eustóquia, sua discípula. Em sua visão, ele havia morrido e apresentou-se diante do trono de Deus para ser julgado. Ali, o Senhor lhe perguntou: “Quem és tu?”. Jerônimo respondeu: “Sou cristão”. Jesus, porém, que presidia ao julgamento, repreendeu-o por sua resposta, dizendo que ele não era cristão, mas ciceroniano.
Ora, ninguém duvida da generosidade desse santo em suas penitências, orações e entregas. Entretanto, Nosso Senhor o advertiu dessa forma porque Jerônimo considerava o latim da Bíblia sem elegância e com uma linguagem difícil — devido ao pensamento semítico —, e sentia certa aversão ao ver que aquele estilo literário não possuía a mesma beleza do estilo de Marco Túlio Cícero — um grande orador romano considerado como modelo para a literatura latina.
Mas por que Jesus foi “cruel” com Jerônimo? Na realidade, trata-se do contrário: Nosso Senhor foi extremamente bondoso e teve uma caridade divina extraordinária para com ele, pois somente Deus sabe do que precisamos para sermos santos. Ele mostrou que não adiantava São Jerônimo ficar lacerando o seu corpo e fazendo grandes penitências, pois o que estava impedindo-o de ser um grande santo e de voar nas asas da caridade era o apego aos gostos literários.
Se queremos nos tornar grandes santos, é evidente que precisamos abandonar a vida de pecado, fazer penitência, cultivar uma vida de oração e nos purificarmos. Contudo, para que a caridade brote e cresça em nossos corações, é necessária também uma intervenção divina: Deus precisa nos revelar aquele erro a que ainda permanecemos mais apegados, para que possamos reconhecê-lo e cortar o mal pela raiz.
Assim, agindo como o extraordinário São Jerônimo, que se desprendeu de tudo aquilo que o afastava do Senhor e se entregou inteiramente a Ele, poderemos avançar no caminho da santidade, uma vez que apenas encontraremos a verdadeira felicidade quando Deus tiver lugar em nossos corações e for amado por nós acima de todas as coisas.



















