Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 14, 25-33)
Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.
Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’
Ou ainda: Qual rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”
Celebramos hoje, com grande alegria, a memória de São Carlos Borromeu, grande bispo que desempenhou um papel fundamental na verdadeira reforma da Igreja promovida pelo Concílio de Trento.
Seu nome está particularmente ligado à criação dos seminários, destinados à formação dos sacerdotes, e à reforma do clero, trazendo uma mensagem especialíssima para os nossos dias, em que atravessamos uma crise eclesial que, no fundo, é também uma crise clerical. Por isso, a memória de São Carlos Borromeu vem muito oportunamente lançar luz sobre o Evangelho que hoje meditamos, no qual Jesus nos apresenta o preço que é necessário pagar para segui-lo.
Nesse ensinamento, que vale tanto para os sacerdotes e seminaristas quanto para os demais fiéis, Nosso Senhor diz: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26), deixando claro que existe um preço a pagar para segui-lo.
Se Ele dirige essa exigência a todos os discípulos, imagine o que pediu dos Apóstolos! Sim, porque, entre aqueles que acompanhavam Nosso Senhor, havia os discípulos em geral e os Doze, escolhidos de maneira particular. Estes deixaram tudo — pai, mãe, mulher, filhos, casas e campos — para seguir seu Mestre.
É essa entrega que deve estar no coração do sacerdócio católico. O sacerdote não é simplesmente alguém que cumpre determinada jornada de trabalho diária para, depois, voltar para casa e cuidar da própria vida, mas é alguém chamado a ser sacramento, ou seja, um sinal visível daquela dedicação e daquela entrega que todos os discípulos de Cristo precisam viver, cada um a seu modo.
Para isso, devemos nos desapegar para amar Jesus acima de todas as coisas; caso contrário, não poderemos ser verdadeiramente seus discípulos. Mas como viver concretamente esse desapego? Compreendendo que tudo deve ser amado por Cristo, com Cristo e em Cristo, uma vez que Ele é a causa final e a razão de ser de nossa existência. Nisto consiste amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todo o entendimento: entregar-nos inteiramente a Ele.
Como dizia Santa Teresa d’Ávila: “Darse del todo al Todo, sin hacerse partes”, “Dar-se inteiramente ao Tudo, sem se dividir em partes”. Se amamos alguma coisa, é necessário amá-la em razão desse fim último que é Jesus Cristo. Por isso, aquilo que não podemos amar n’Ele também não deve encontrar lugar em nosso coração, porque tudo aquilo que amamos deve poder ser amado n’Ele e por causa d’Ele.
Essa verdade, que diz respeito a todo discípulo, resplandece de maneira particular na vocação sacerdotal. O sacerdote, seja padre ou bispo, é chamado a manifestar publicamente esse grande amor fazendo de sua própria vida um sacrifício e aprendendo a amar todas as coisas por Jesus.
São Carlos Borromeu foi um exemplo luminoso dessa entrega, vivendo-a por meio de seu profundo zelo pastoral, de sua dedicação à salvação das almas e no amor àqueles que lhe foram confiados por Cristo, e também nós devemos pedir a Deus que nos conceda a humildade que marcou a vida desse grande santo, cujo lema episcopal era justamente a “Humilitas”, a “Humildade”.
Tal ensinamento pode parecer radical aos olhos do mundo, ao ponto de alguém objetar: “Isso é radicalismo! Não precisa ser assim”. Entretanto, não devemos ser radicais no amor? Poderíamos entregar-nos a Deus apenas em parte? Santa Teresa nos recorda que não: é preciso entregar-se por inteiro. Afinal, o Senhor não quer apenas pequenos pedaços de nossa vida; Ele nos quer inteiros, porque deseja que sejamos plenamente felizes.
Amemos, portanto, todas as coisas em Jesus e entreguemo-nos inteiramente Àquele que se entregou inteiramente por nós. Desse modo, unidos a Ele, caminharemos para Deus, dando-lhe glória com uma vida verdadeiramente santa, como fizeram São Carlos Borromeu e todos os santos.




















