Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 10, 38-42)
Naquele tempo, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!” O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.
No Evangelho de hoje, contemplamos o conhecido episódio de Marta e Maria, no qual Jesus é recebido na casa dessas duas irmãs: enquanto uma se encontra agitada com seus afazeres, a outra permanece contemplativa, aos pés de Nosso Senhor. E, na repreensão dirigida a Marta, encontramos uma realidade que todos nós precisamos alcançar para sermos santos.
Um santo deve ser de tal forma arrebatado pelo amor de Deus que se desapega completamente das coisas mundanas. Para nós, porém, esse desapego pode parecer uma crueldade, como se Deus estivesse pedindo algo insensato. Afinal, é natural pensarmos: “Eu tenho de cuidar da minha vida, das minhas obrigações… Como ficam todas essas coisas?”. Então, a fim de entendermos melhor como o coração pode ser arrebatado pelo Único Necessário, imaginemos a seguinte situação que metaforicamente ilustra aquilo que Deus espera de nós — e que acontece no coração dos santos.
Uma senhora é convidada para ser testemunha de um casamento. Durante meses, ela prepara o vestido e, no dia da cerimônia, passa a tarde cuidando da maquiagem e do penteado. Seu filho, de cinco anos de idade, também participará do casamento como pajem e está devidamente arrumado, de terno e gravata. Tudo parece correr perfeitamente até que, no caminho para a cerimônia, a mãe olha para o banco de trás do carro e percebe que o menino encontrou uma barra de chocolate e lambuzou-se dos pés à cabeça. Ela estaciona e, invocando a ajuda de todos os anjos e santos para conservar a paciência, pensa no horário do casamento e em como conseguirá limpar a criança. Contudo, ao tentar tirá-la do carro, o menino se agita, começa a chorar, suja o vestido da mãe, desarruma o seu cabelo e, de repente, tudo aquilo que estava cuidadosamente planejado parece transformar-se em um caos.
Entretanto, nesse momento, uma bala perdida atinge o ombro da criança. Imediatamente, aquela mãe se desapega de tudo o que até então a preocupava. O casamento, o horário, o vestido, o penteado e as manchas deixam de ter importância. Agora, existe uma única coisa necessária: salvar a vida do filho que ela tanto ama. Sem pensar no restante, leva-o imediatamente ao hospital.
Se, durante o caminho, alguém a detivesse e perguntasse: “Senhora, e o casamento? Você está atrasada! Está despenteada e suja de sangue; como poderá ser testemunha desse jeito?”, tais preocupações lhe pareceriam completamente absurdas. Aquilo que há poucos instantes a inquietava — o cabelo desarrumado, o vestido manchado e o atraso — tornou-se absolutamente irrelevante.
É assim que funciona o coração tomado por um grande amor. No caso dessa mãe, o amor pelo filho que precisava ser salvo tornou todas as suas outras preocupações relativas e produziu espontaneamente o desapego. E é exatamente esse desapego que ocorre na vida dos santos.
Por meio da oração e do contato com a Palavra de Deus, o santo permanece como Maria no Evangelho, aos pés de Jesus, mendigando aquilo que somente Ele pode dar. Pouco a pouco, esse amor transforma o seu modo de olhar para as coisas terrenas, e aquilo que antes o atormentava já não possui a mesma força sobre ele.
“Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária” (Lc 10, 41-42). Ou seja, o desprendimento das agitações mundanas só é possível quando o amor do Único Necessário conquista o nosso coração. Não se trata de algo produzido simplesmente pela força humana, mas de uma graça que deve ser pedida a Deus. E, ao compreendermos aquilo que o Evangelho nos apresenta, saberemos também o que suplicar a Ele em nossa oração: “Senhor, dai-me um amor pelo Único Necessário que arrebate o meu coração e torne mais leves a cruz e as agitações do meu dia a dia, para que eu seja verdadeiramente livre e desapegado para vos amar plenamente”.



















