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A fé segundo Santa Catarina de Sena
Santos & Mártires

A fé segundo Santa Catarina de Sena

A fé segundo Santa Catarina de Sena

Na doutrina de Santa Catarina de Sena, a fé aparece não só como uma adesão obrigatória a uma fórmula revelada e proposta pela Igreja, mas também como uma vida intensa e radiante.

Pe. Reginald Garrigou-LagrangeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Abril de 2021Tempo de leitura: 17 minutos
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Uma das melhores maneiras de penetrar a espiritualidade dos santos é ver o que eles disseram sobre as três maiores virtudes que existem — isto é, as três virtudes teologais — e como viveram cada uma delas; estas virtudes unem a alma cada vez mais intimamente a Deus e inspiram todas as outras virtudes a se elevarem.

Por isso, trataremos agora da segundo S. Catarina de Sena, particularmente no que se encontra em seu Diálogo, ditado por ela mesma em seus repetidos êxtases, cerca de dois anos antes de sua morte [1]. Primeiro, veremos o que é a fé em si mesma; em seguida, por que ela é frequentemente obscurecida, coberta de nuvens, no pecador; depois, como deve ser o seu desenvolvimento e como devemos viver com base nela, considerando todas as coisas sob a sua luz sobrenatural.

Muitos psicólogos ensinam [2] que a vida dos místicos é dominada por uma grande e nobre emoção, que depois se traduz em sua inteligência pelas ideias que nos expressam. O seu pensamento seguiria, portanto, a emoção ou o movimento da sensibilidade. Assim, parece que ela não teria senão um fundamento frágil e incerto, que seria, talvez, o nosso subconsciente. Dessa maneira, a inteligência dos místicos cristãos não se nutriria, em primeiro lugar, da verdade imutável e incontestável; seus julgamentos seriam apenas o reflexo de vivas emoções vindas do coração.

Outra, porém, é a doutrina de S. Catarina de Sena, que nos ajuda a ver a profunda verdade do tratado teológico da fé e nos manifesta a vida dessa virtude teologal. A fé aparece aqui não só como uma adesão obrigatória a uma fórmula revelada e proposta pela Igreja, mas também como uma vida intensa e radiante.

Que é a fé infusa

A fé, disse a santa [3], é uma luz que recebemos no Batismo, que nos mostra o caminho que conduz à vida eterna. E neste caminho devemos marchar corajosamente, sem a menor hesitação, porque a luz que no-lo apresenta vem de Deus, que não nos pode enganar. Por meio dela, com efeito, conhecemos de modo sobrenatural e infalível o fim da nossa peregrinação e Aquele que é “o caminho, a verdade e a vida” [4]. 

“Santa Catarina de Sena”, por Franceschini Baldassare.

Definida, assim, como um instinto intelectual que nos leva em direção ao fim último, a fé pode ser comparada, por exemplo, com o instinto que guia a andorinha a um país tão distante na primavera. Na andorinha, esse instinto a conduz de modo certo, ainda que ela esteja sozinha, seja jovem e se encontre, acidentalmente, muito longe do destino da viagem, em um lugar em que jamais estivera antes. Existe, portanto, na ordem natural algo maravilhoso que é símbolo de um instinto espiritual imensamente superior.

“A fé”, disse ainda a santa [5], “é a pupila do olho da inteligência; sua luz faz discernir, conhecer e seguir o caminho e a doutrina da verdade, o Verbo encarnado [6]. Sem essa pupila da fé, a alma não conseguiria ver (no plano da salvação), pois se assemelharia a um homem que tem os olhos sãos, mas cuja pupila, pela qual o olho vê, estaria recoberta por um véu. A inteligência é o olho da alma e a pupila deste olho é a fé”.

Este modo simbólico de falar da fé como uma “pupila inserida no olho da inteligência por meio do Batismo” [7], mostra de forma clara que a fé infusa é essencialmente sobrenatural, muito superior à atividade natural da nossa inteligência e até mesmo da inteligência angélica. Trata-se de uma participação no conhecimento que Deus tem de sua vida íntima e do que Ele prepara aos que O amam. Este objeto sublime, como disse S. Paulo, “o olho do homem não viu” (1Cor 2, 9) nem sua inteligência ou a inteligência angélica podem conhecer naturalmente. Mas Deus no-lo revelou pelo seu Espírito, de sorte que, pelo dom sobrenatural da fé, aderimos à Verdade primeira revelante e aos mistérios revelados propostos pela Igreja.

Comparada com a pupila ou o centro do olho, a fé infusa amplia consideravelmente as fronteiras da nossa inteligência e eleva-a para o conhecimento certo, ainda que obscuro, da vida íntima de Deus. Dessa forma, a fé, como disse a santa [8], oferece “um antegosto da vida eterna”; ela é o princípio, o gérmen, “a substância das coisas que esperamos” (Hb 11, 1) [9], às quais nos faz aderir firmemente, ainda que não as vejamos. Não conhecemos, portanto, somente as emoções do nosso coração, mas também o que S. Paulo chama “as profundezas de Deus” (1Cor 2, 10).

A fé, por essa razão, possui um valor inestimável. Se, ao falar de quem mais amamos, dizemos comumente que o guardamos “como a pupila dos olhos”, que não deveríamos dizer da fé infusa, que é a pupila do olho espiritual e deve subsistir em nós até que seja sucedida pela luz da glória, a qual nos fará ver claramente a essência divina sem o intermédio de criatura alguma nem mesmo ideia criada nenhuma?

A fé obscurecida

Essa luz tão preciosa da fé, porém, está frequentemente coberta de nuvens na alma em pecado mortal, porque o cristão, depois de ter recebido a fé infusa no Batismo, só a perde por meio de um pecado mortal que seja diretamente contrário à própria fé, negando ou colocando em dúvida, de modo formal, uma verdade revelada que lhe foi suficientemente proposta.

Graças a Deus, os pecados mortais diretamente contrários à fé são relativamente raros, razão por que a fé infusa, junto com a esperança, permanece ainda em muitos dos batizados que se encontram em estado de pecado mortal, como permanece a raiz de uma árvore que foi cortada e, por isso, poderá reviver.

A fé infusa, contudo, está presente nos pecadores sem a caridade e as virtudes morais infusas, ou seja, ela permanece, mas obnubilada, como que coberta de nuvens. S. Catarina de Sena insiste repetidamente sobre este ponto de maneira impressionante [10]: 

Em vez de usufruírem ao máximo das luzes da fé para que, na graça, nasçam as obras de vida, eles [os que se encontram em estado de pecado mortal] produzem apenas obras de morte. Sim, suas obras são mortas, porque todas se realizam no pecado mortal […]. Eles têm ainda a forma do santo Batismo [o caráter batismal], mas não possuem mais a luz [a graça santificante]; e são privados desta luz por conta da escuridão que é a falta cometida por amor próprio, treva que recobriu a pupila que lhes permitia ver. O mesmo há de dizer-se dos que têm a fé sem as obras: a fé é morta [já que ela não produz mais atos meritórios].

A santa não disse que a fé desapareceu ou que a alma a perdeu. Não, a fé ainda está lá, mas semelhante a uma pupila encoberta por uma nuvem de maior ou menor espessura [11].

Quando a fé é obscurecida numa alma, como foi dito, é como se o homem, mesmo muito inteligente por natureza, não tivesse o olhar voltado para o céu; ele vê diante de si as coisas que estão à sua altura ou que lhe são inferiores, e demonstra, muito frequentemente, perspicácia em suas atividades, mas está como que cerrado às realidades superiores:

O pecador — escreve Santa Catarina — não reconhece mais em si mesmo a minha Bondade, a qual lhe concedeu o ser, e também todas as graças de que o cumulei. Não me conhece, nem se conhece a si mesmo, e não detesta em si a sensualidade egoísta; além disso, ama-a e dela se utiliza para satisfazer-lhe os desejos. […] A mim não me ama, diz o Senhor; não me amando, não ama aqueles que amo, ou seja, seu próximo; e não coloca seu prazer em fazer o que me apraz [12].

Dessa maneira, o amor egoísta cobre com uma venda espessa a pupila da fé [13].

Sem dúvida, o pecado venial deliberado não pode tornar a fé morta, mas produz em certas almas que estão em estado de graça um efeito análogo à obscuridade da qual falávamos agora mesmo: essas almas ficam muito apegadas ao seu próprio julgamento e deixam-se mais ou menos iludir pelo inimigo de todo bem. Gostaríamos de poder dar aos seus olhos a simplicidade, elevação e doçura que só podem vir de Deus.

A obscuridade inferior, que vem da matéria, do erro e do pecado, impede a alma de penetrar a obscuridade superior, que nasce de uma fortíssima luz para os fracos olhos do nosso espírito.

A fé iluminada pelos dons do Espírito Santo

Se a fé do cristão em estado de pecado mortal está cercada de nuvens ou névoas, a fé do justo, por outro lado, sobretudo quando ele é generoso, é cada vez mais iluminada pelos dons do Espírito Santo, particularmente pelos dons de inteligência e de sabedoria, os quais tornam a fé penetrante e saborosa.

S. Catarina chama a estes dons uma luz especial concedida aos justos pela qual veem que Deus, doce e suprema Verdade, dá a cada um o estado, o tempo e o lugar, as consolações e as tribulações, em vista do que é necessário à nossa salvação e à perfeição a que Ele chama as almas [14]. S. Tomás ensina que a fé nos faz aderir à verdade divina e dirige a nossa vida, e é especialmente neste sentido prático da fé que se fala aqui. Vemos assim como esta virtude é o fundamento positivo de toda a espiritualidade. 

Se a alma fosse verdadeiramente humilde — disse o Senhor — e sem presunção alguma, enxergaria sob essa luz tudo o que vem de mim; é por amor que eu lhe ofereço e, portanto, é com amor e reverência que deve receber tudo quanto lhe envio [15]. 

Os justos muito mais esclarecidos “estimam-se dignos de todas as aflições, como também de serem privados de todas as consolações pessoais e de todo bem, seja ele qual for […]. Sob essa luz, conheceram e saborearam minha vontade eterna, que não quer outra coisa senão o vosso bem, e que não vos envia nem permite o sofrimento senão para que sejais santificados em mim” [16].

Certos sábios, no entanto, por causa do orgulho, são privados dessa luz que concede uma fé penetrante e saborosa:

Os que se envaidecem de sua ciência ficam cegos a essa luz, pois o orgulho e a nuvem do amor-próprio recobrem e ocultam essa claridade. É por isso que eles entendem a S. Escritura mais literal do que espiritualmente; só apreciam a letra, devido ao manuseio de muitos livros, e não saboreiam o cerne da Escritura, uma vez que estão privados da luz que a compôs e que também revela o seu sentido.

Estes belos eruditos se admiram, e caem na maledicência quando veem as pessoas pobres, rudes e sem instrução saborearem a S. Escritura e desfrutarem da minha Verdade […]. Digo-te, por isso, que para pedir conselho sobre a salvação da alma é muito melhor ir a um destes humildes, que possuem uma consciência reta e santa, do que àquele erudito orgulhoso que fez por seus estudos o percurso da ciência. Este só pode dar o que possui. Por isso, muitas vezes, em razão de sua vida nas trevas, é apenas em trevas que ele distribuirá a luz da S. Escritura, ao passo que os meus servos espalham a luz que possuem em si mesmos, desejosos e como que inflamados da salvação das almas.

Com efeito, a fé viva pressupõe e gera o amor:

Com esta luz, amam-me, porque o amor segue a inteligência. Quanto mais se conhece, mais se ama, e quanto mais se ama, mais se conhece. Assim, amor e conhecimento se alimentam reciprocamente [17].

Esta doutrina está de acordo com a de S. Tomás de Aquino sob todos os aspectos: a mais elevada das nossas faculdades é a inteligência, a qual dirige a vontade; e a caridade é a mais elevada das virtudes, a qual é princípio de todo mérito.

O espírito de fé e a contemplação dos mistérios de Cristo

No justo que é cada vez mais dócil ao Espírito Santo a fé torna-se progressivamente penetrante; ele compreende cada vez melhor a realidade divina sob as figuras e revela-nos sempre mais a grandeza do mistério do Cristo redentor, cujo sacrifício se perpetua até o fim dos tempos pela consagração eucarística. 

“Estigmatização de Santa Catarina”, por Eduardo Rosales Gallinas.

Ademais, o justo vê segundo o espírito de fé. O espírito ou a mentalidade de alguém é a sua maneira de ver, julgar, simpatizar, querer e agir. Há um espírito “de natureza”, que não se eleva acima do egoísmo mais ou menos consciente de si mesmo. O espírito de fé, ao contrário, leva-nos a considerar todas as coisas à luz da Revelação divina: Deus, antes de tudo; todos os mistérios da salvação; a nossa alma; o próximo; e os acontecimentos agradáveis ou dolorosos que acontecem.

Em S. Catarina de Sena, a fé é de tal modo viva que, assim como vemos as cores de uma paisagem à luz do Sol, ela parece ver o Cristo na hóstia consagrada e ativo nas almas. A santa julga a saúde espiritual das almas regeneradas pelo Sangue de Cristo como nós julgamos a saúde do corpo. Ela vê nas almas as feridas espirituais, o orgulho, a concupiscência da carne e dos olhos, da mesma maneira que vemos as feridas purulentas de um corpo devorado pela doença.

A Jesus Cristo, o Salvador, cuja obra redentora perdura até o fim dos séculos, a santa não O perde de vista nem por um instante. Ela tem do Salvador uma ideia não somente visível, mas também profundamente vivida. Trata-se da vida íntima da fé, e não somente da adesão obrigatória a uma fórmula revelada. Disse-lhe o Pai celeste:

Por causa da união entre a natureza divina e a natureza humana em meu Filho unigênito, aceitei o sacrifício de seu Sangue […]; o fogo da divina caridade foi o vínculo que O atou e pregou na cruz [18].

Jesus — disse ela — é o grande Médico, que curou o enfermo bebendo o remédio amargo que o homem não poderia beber, já que estava muito enfraquecido [19].

Ele é o Médico da humanidade, que acompanha todas as gerações humanas, a fim de conduzi-las à salvação. Além disso, nutre-as de si mesmo para dar-lhes a vida. 

Realmente presente na Eucaristia, Ele continua a oferecer-se e não cessa de interceder por nós. Ele é como a ponte [20], disse-nos a santa, ou o imenso arco que une a terra ao céu, a via pela qual todos os homens devem passar para alcançar a vida eterna.

À luz de sua fé vivíssima e dos dons do Espírito Santo, S. Catarina penetra admiravelmente os sentimentos mais íntimos de Nosso Senhor, e mostra-nos como Ele, do alto da cruz, entregou-se inteiramente à dor, sem perder contudo a suprema bem-aventurança na parte mais elevada da sua santa alma:

Sobre a cruz, Ele estava ao mesmo tempo feliz e sofredor: sofria por carregar a cruz material e a cruz do desejo da salvação das almas […], mas estava também feliz, porque a natureza divina unida à natureza humana estava impassível e fazia sempre feliz sua alma, revelando-se-lhe ela sem véu [21].

Do mesmo modo, disse a santa, os amigos íntimos do Senhor Jesus sofrem à vista do pecado, que ofende a Deus e devasta as almas, mas ao mesmo tempo estão felizes, pois o júbilo da caridade que possuem não lhes pode ser tirado, e é ela que faz sua alegria e felicidade.

“Santa Catarina de Sena”, por Alessandro Franchi.

A fé de S. Catarina de Sena penetra também, cada vez mais, a vida íntima da Igreja, Corpo místico do Salvador. Ela vê como Ele comunica a vida às almas que, por assim dizer, incorpora a si mesmo, fazendo-as participar primeiro de sua infância, depois de sua vida escondida e, por fim, de sua vida dolorosa, antes de fazê-los participar de sua vida gloriosa no céu.

A virgem de Sena vê como a Igreja, vivendo assim dos pensamentos, do amor, da vontade do Cristo, é sua verdadeira esposa. É na Igreja que, em certo sentido, continuam a grande oração e o sofrimento redentor do Salvador, até o fim do mundo. Como um rio espiritual, a vida sobrenatural da graça, por meio da humanidade de Jesus, desce de Deus sobre todas as almas, para subir novamente a Ele sob a forma de adoração, de reparação, de súplica e de ação de graças. “O Precioso Sangue, deste modo, opera sempre para a salvação” [22].

A Igreja aparece a S. Catarina de Sena sob a figura de uma virgem de traços nobres, de olhos muito puros, mas cuja face está corroída pela lepra, devido às faltas de muitos pobres cristãos [23]. “Vê, minha filha — disse-lhe o Senhor —, como as faltas desfiguram a face da minha esposa” [24]. Apesar da lepra, a Santa Igreja continua muito unida a Cristo e sempre vivificada por Ele, compreende-o Catarina [25]. As faltas, simbolizadas desse modo, “não podem debilitar ou dividir o mistério do sacramento da Eucaristia” [26]. O tesouro do Precioso Sangue está intacto, mas as faltas precisam ser reparadas.

E S. Catarina ouve também as seguintes palavras:

Pega teu suor, tuas lágrimas, coloca-os na fonte da minha divina caridade e, com eles, em união com meus outros servos, lava a face da minha esposa. Eu te prometo que este remédio lhe restituirá a beleza. Não é a espada nem a guerra que a podem restituir, mas, sim, a oração humilde e assídua, os suores e as lágrimas derramados com um desejo ardente, que vêm dos meus servos. Sem cessar, faz subir até mim o incenso de orações perfumadas para a salvação das almas, porque Eu vou fazer misericórdia para o mundo.

Não tenhais medo: se o mundo vos perseguir, eu estarei ao vosso lado e em nenhum momento vos faltará minha Providência [27].

De fato, essa é a grande fé viva iluminada pelos dons do Espírito Santo, a qual desabrochou nessa contemplação dos mistérios do Cristo e da Igreja [28].

Por fim, a fé de S. Catarina de Sena desabrochou na contemplação do Mistério supremo:

Ó Trindade eterna! Ó divindade, ó natureza divina que concedeu um tal preço ao Sangue de vosso Filho! Vós, Trindade eterna, sois um mar profundíssimo no qual eu mergulho; e quanto mais vos encontro, mais ainda vos procuro. De vós não se pode dizer jamais: é o suficiente! A alma que se sacia em vossa profundeza vos deseja sem cessar, pois está sempre mais faminta de vós [29].

E a definição de felicidade dada por S. Agostinho diz o seguinte: o estado de alma ao mesmo tempo satisfeita e sempre faminta.

Essa elevação à Santíssima Trindade é concluída com um cântico sobre a grandeza da fé:

Pela luz da fé, possuo a sabedoria, na sabedoria do Verbo, vosso Filho. Pela luz da fé, sou forte, constante e perseverante. Pela luz da fé, eu espero e não me desfaleço no caminho […]. Revesti-me, Verdade eterna, revesti-me de vós mesmo, para que eu viva esta vida mortal na verdadeira obediência e na luz da santíssima fé, da qual inebriais novamente minha alma [30].

Com estas palavras, Santa Catarina termina o livro, no ano do Senhor de 1378.

Conclusão

Fica claro, portanto, como seria errado afirmar que as ideias e julgamentos dos místicos cristãos são apenas um reflexo de emoções ou dos movimentos da sensibilidade. Pois sua inteligência se nutre, em primeiro lugar, da verdade divina revelada: trata-se da fé divina, e não de uma emoção que domina sua vida. E é porque sua inteligência se fixa na verdade de Deus que sua vontade é profundamente retificada e fortificada e sua ação é fecunda, não somente por um tempo ou pelas gerações seguintes, mas pela eternidade. Esta fecundidade é uma das grandes diferenças que separam a mística cristã da mística oriental que se encontra, por exemplo, no budismo. O pensamento e o amor dos místicos cristãos vêm de Deus, razão por que eles podem elevar-se até Ele.

Peçamos, também nós, por intercessão de S. Catarina, o grande espírito de fé que nos fará considerar, à luz da revelação divina, a Deus; a sua vida íntima; a humanidade do Salvador; a Igreja; a nossa alma, que deve ser salva; o nosso próximo, que deve ser socorrido; e os acontecimentos agradáveis ou dolorosos que ocorrem durante nossa viagem rumo à eternidade. Dessa fé viva resultará em nós um duplo conhecimento: o da nossa indigência e miséria e o da infinita grandeza e bondade de Deus. Ambos, disse a santa, são como o ponto mais baixo e o ponto mais alto de um círculo que crescerá sempre: “Eu sou Aquele que é; tu és aquela que não é” [31].

Referências

  • Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. La foi selon Sainte Catherine de Sienne, in Vie Spirituelle 45 (1935), pp. 236-249. (Tradução e grifos de nossa equipe.)

Notas

  1. S. Catarina de Sena tinha então trinta e dois anos. Lembre-se que ela havia recebido a graça do matrimônio espiritual ou união transformante aos vinte anos. Cf. sua Vida, escrita pelo Beato Raimundo de Cápua, 1.ª Parte, cc. IX e XII. 
  2. Este era ainda o modo de ver de M. Henri Bergson em Las deux sources de la morale et de la religion; mas parece que ele progrediu depois disso.
  3. Diálogo, c. 29.
  4. Essa definição se articula por referência à ação, à inclinação para o fim último, mas está fundamentada sobre a verdade revelada. Trata-se de um “pragmatismo” superior que, no fundo, ironiza o pragmatismo.
  5. Diálogo, c. 45.
  6. S. Tomás fala exatamente o mesmo em In III Sent., d. 24, a. 2 e 3.
  7. Diálogo, c. 46.
  8. Id., c. 45.
  9. Fides est sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium”.
  10. Id., c. 46.
  11. Diálogo, c. 110. A fé sem a caridade compara-se com o pavio de um círio molhado, que não acende mais.
  12. Diálogo, c. 46.
  13. Um dos mais tristes efeitos desse obscurecimento é não entender a preciosidade da fé. Neste estado de morte espiritual, a fé não se apropria mais de si mesma. É, portanto, uma grandíssima misericórdia que Deus concede à alma deixar que, não obstante seu pecado, permaneça nela a fé infusa, mas informe. Esta fé obnubilada, cercada como que por uma densa névoa, não é a cegueira absoluta em que se pode cair por um pecado mortal contra a luz. A esse respeito, é verdade que o Senhor pode restituir a fé infusa que havia antes da morte àquele que a perdeu; trata-se, porém, de uma graça de imensa misericórdia, e não se pode ter por certo obtê-la. Ao pensar nesta graça, o pecador que ainda não a perdeu deve refletir sobre o valor sobrenatural do dom que ainda conserva em si, como a raiz de uma árvore cortada, e tudo fazer para reencontrar a fé viva, a única que nos conduz efetivamente à união divina.
  14. Diálogo, c. 99.
  15. Id., ibid. 
  16. Id., c. 100.
  17. Id., c. 85.
  18. Id., c. 85.
  19. Id., ibid.
  20. Id., c. 127.
  21. Id., c. 78.
  22. Id., c. 14.
  23. Id., c. 86.
  24. Id., c. 14.
  25. Id., c. 12.
  26. Id., c. 118.
  27. Id., c. 86.
  28. Sem dúvida, toda essa realidade era incomparavelmente mais viva na alma de S. Catarina do que no livro do Diálogo; este livro, contudo, revive à medida que nossa fé se eleva e se torna mais penetrante. Quando S. Ângela de Foligno, depois de ter ditado o que ela via na contemplação, relia o que estava escrito, não mais o reconhecia, por assim dizer; as palavras lhe pareciam sem vida, em comparação com o que ela tinha vivido interiormente. S. Catarina de Sena devia ter a mesma impressão ao reler o diálogo que ditara em êxtase.
  29. Diálogo, c. 167.
  30. Id., ibid.
  31. Id., cc. 4 e 72.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

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Corpus Christi não acabou!
Liturgia

Corpus Christi não acabou!

Corpus Christi não acabou!

A Eucaristia é um mistério tão grandioso que, antigamente, a Igreja dedicava uma semana inteira só para meditar a seu respeito. Era a oitava de Corpus Christi, que se encerrava com a festa do Coração de Jesus. Saiba como viver ainda hoje essa tradição.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Há não muito tempo, a festa de Corpus Christi, assim como a Páscoa, o Natal e Pentecostes, tinha uma oitava [1], como explica neste texto o professor Peter Kwasniewski:

Corpus Christi foi originalmente instituído como uma oitava. Quem quer que acredite que Nosso Senhor está real, verdadeira e substancialmente presente no Santíssimo Sacramento, não seria capaz de celebrar esse “incompreensível mistério de amor” por apenas um dia e então ir embora, como quem risca uma tarefa numa lista de afazeres para cumprir a próxima. Não, é preciso que haja o louvor completo, pleno e pródigo de oito dias: o tempo pára, e nós nos deleitamos na glória do Deus encarnado em nosso meio até que se findem os tempos e cessem os sinais.

É tão óbvio esse instinto eclesial que, quando Nosso Senhor mesmo apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque para pedir a instituição de uma festa em honra ao seu Sagrado Coração, Ele especificou que a queria “na sexta-feira depois da oitava de Corpus Christi. É por isso que ela ocorre na sexta-feira da semana seguinte a essa festa. Ela [a festa do Sagrado Coração] manteve seu lugar nos calendários de 1962 e 1969, uma posição que poderia parecer aleatória na ausência da oitava [...].

Ou seja, a festa do Corpo do Senhor [2], na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, tem uma relação muito próxima com a festa do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na sexta-feira da semana seguinte. (Foi em 1955, ainda sob Pio XII, que caiu a oitava de Corpus Christi.)

Neste texto, porém, gostaríamos de apresentar outra razão para que, não obstante a supressão dessa oitava, os fiéis com suas famílias continuem a honrar o Santíssimo Sacramento por mais uma semana — e os sacerdotes, se possível, celebrem nas igrejas Missas votivas em honra desse mistério. O motivo é bem simples e pode ser apresentado nestas cinco expressões: Lauda Sion, Pange lingua, Adoro te devote, Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens. Esses são os títulos dos poemas que Santo Tomás de Aquino compôs sobre a Eucaristia, textos de uma riqueza grandiosa, que não podem ser esgotados em um único dia.

Essas pérolas foram escritas em latim, evidentemente, mas possuem versões portuguesas que podem ser encontradas com facilidade na internet. Mas, por belas que sejam as traduções, é sempre melhor acessar e procurar entender os originais latinos, especialmente por terem vindo da pena do “mais santo dos sábios e mais sábio dos santos”.

A sequência de Corpus Christi

Temos, em primeiro lugar, a mais extensa das sequências para Missa que foram preservadas no rito romano: o Lauda Sion, composta de 24 estrofes. É tão longo esse texto que uma alternativa menor é oferecida na liturgia, a começar por sua 21.ª estrofe: Ecce panis angelorum (na tradução litúrgica brasileira: “Eis o pão que os anjos comem”). 

Este canto é um verdadeiro tratado sobre a Eucaristia e um cumprimento quase literal de três de seus versos: Quantum potes tantum aude, quia maior omni laude, nec laudare sufficis (lit., “Quanto podes, tanto ousa, porque é maior que toda loa, nem de louvá-lo és capaz”; na tradução litúrgica brasileira: “Tanto possas, tanto ouses, em louvá-lo não repouses: sempre excede o teu louvor!”). Ou seja, Santo Tomás compôs toda esta sequência em honra ao Santíssimo Corpo do Senhor — e, como vimos, não só esta sequência, mas muitos outros cantos —, e ainda assim não foi o suficiente… Afinal, do próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento nunca falaremos o suficiente.

Quod non capis, quod non vides, animosa firmat fides, praeter rerum ordinem (lit., “O que não entendes, o que não vês, garante-o a fé ardente, além da ordem das coisas”; na tradução litúrgica brasileira: “Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”). Essa ideia é uma constante nas composições de Santo Tomás, ressaltando a fé como uma espécie de “sexto sentido”, que supre o defeito dos outros cinco — como diz o Pange lingua: Praestet fides supplementum sensuum defectui (lit., “Seja a fé suplemento ao defeito dos sentidos”; na tradução litúrgica brasileira: “Venha a fé por suplemento os sentidos completar”). 

De fato, quando olhamos para o altar, após a consagração, o que vemos é pão; quando comungamos, tanto a hóstia quanto o vinho consagrados têm gosto de pão e vinho… A fé, porém, nos diz que, pelo milagre da transubstanciação, todo o pão e todo o vinho foram realmente transformados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Não há mais pão nem vinho, embora nossos sentidos experimentem o contrário. Por isso diz, também, o Adoro te devote: visus, tactus, gustus in te fállitur, sed audítu solo tuto créditur (lit., “Adoro-te com devoção: a vista, o tato, o gosto sobre ti se enganam, mas crê-se sem medo com a só audição”).

Caro cibus, sanguis potus: manet tamen Christus totus, sub utráque specie (lit., “A carne, comida; o sangue, bebida: está porém o Cristo todo sob ambas as espécies”; na tradução litúrgica brasileira: “Alimento verdadeiro, permanece o Cristo inteiro quer no vinho, quer no pão”). Outra lição importante é passada aqui: como Jesus, depois da Ressurreição, não pode mais morrer; como seu Corpo e Sangue estão para sempre unidos, sem possibilidade de separação, quando o sacerdote consagra o pão e o vinho, fica presente, tanto em um quanto em outro, Nosso Senhor inteiro. É por isso que nós, católicos, não precisamos comungar sob as duas espécies; “no que diz respeito ao fruto, os que recebem uma só espécie não são privados de nenhuma graça necessária à salvação” [3].

Nessa mesma linha, continua o canto, o Deus que se dá a um fiel é o mesmo que se dá ao outro, sem divisão: A suménte non concísus, non confráctus, non divísus: intéger accípitur. Sumit unus, sumunt mille: quantum isti, tantum ille: nec sumptus consúmitur (lit., “Por quem toma não partido, nem quebrado ou dividido, mas é íntegro recebido. Toma um, tomam mil, tantos estes quanto aquele, mas nem tomado é consumido”; na tradução litúrgica brasileira: “É por todos recebido, não em parte ou dividido, pois inteiro é que se dá! Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o Senhor”).

O problema das comunhões sacrílegas

Outra lição valiosíssima dessa sequência, infelizmente esquecida em nossos dias, é o das comunhões indignas. Diz Santo Tomás: Sumunt boni, sumunt mali: sorte tamen inaequáli, vitae vel intéritus. Mors est malis, vita bonis: vide paris sumptionis quam sit dispar éxitus (lit., “Tomam bons, tomam maus, com sorte porém desigual, de vida ou de ruína. A morte é para os maus, a vida para os bons: vê como da mesma mesa haja tão diversa saída”; na tradução litúrgica brasileira, “Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte traz em si. Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a morte para o mau”). 

Sim, essas palavras são apenas um eco de São Paulo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado quanto ao corpo e sangue do Senhor” (1Cor 11, 27). Mas esse versículo, curiosamente, não consta em nenhum lugar no atual lecionário — e considerando que, devido a sua extensão, a primeira parte do Lauda Sion dificilmente é cantada em nossas paróquias, o resultado prático é que as pessoas simplesmente jamais ouvem falar da possibilidade (muitíssimo real, muitíssimo frequente) das comunhões sacrílegas. A esse respeito, observa ainda o prof. Peter Kwasniewski:

O alerta de São Paulo para que evitemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente, isto é, para a nossa própria condenação, foi omitido de todas as Missas no Novus Ordo por quase meio século. E, no entanto, na Missa latina tradicional, esses versículos são escutados ao menos três vezes todos os anos: uma na Quinta-feira Santa [...] e duas em Corpus Christi [...]. Os católicos que frequentam o usus antiquior sempre terão essas palavras desafiadoras colocadas diante de suas consciências. Sejamos francos: o conceito de uma Comunhão indigna simplesmente desapareceu da consciência católica em geral.

Como consequência do silêncio (e apostasia) do clero — e da má catequese de nossos dias —, então, o pão dos filhos é tragicamente “lançado aos cães” (conforme expressão da própria sequência: Ecce panis angelorum, factus cibus viatorum, vere panis filiorum, non mittendus canibus; lit., “Eis o pão dos anjos, feito pão dos viandantes, verdadeiro pão dos filhos, que não se deve dar aos cães”). 

A discussão, por exemplo, que está acontecendo nos Estados Unidos a respeito da Comunhão para pessoas em pecado público (especialmente políticos favoráveis ao aborto) nem sequer é tocada no Brasil, quando deveria ser óbvio para qualquer católico que uma pessoa que defende o assassinato de crianças no ventre materno não deveria jamais se aproximar da Sagrada Eucaristia; e, se ela promove publicamente essa causa, deve sim ter a Comunhão negada pelos ministros da Igreja. 

Santo Tomás (cf. STh III 80 6c.) e dois mil anos de Tradição e Magistério o afirmam claramente; nosso Código de Direito Canônico o ordena expressamente (cf. Cân. 915: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”); mas, pelo visto, nossa época é mais sábia que os santos e Doutores que nos precederam...

“Quanto podes, tanto ousa”

Dos hinos compostos por Santo Tomás, o Pange lingua é sem dúvida o mais conhecido, principalmente por suas duas últimas estrofes, iniciadas em Tantum ergo sacramentum (“Tão sublime sacramento”). É prescrito pela liturgia que ele seja cantado nas Vésperas do ofício de Corpus Christi, bem como durante as bênçãos com o Santíssimo.

Também muito belo e conhecido é o Adoro te devote, onde Santo Tomás recorda que, do Sangue de Nosso Senhor, uma única gota seria suficiente para remir o mundo inteiro (Cuius una stilla salvum fácere totum mundum quit ab omni scélere; lit., “Do qual uma só gota o mundo inteiro salvar pode de todo crime”).

Menos conhecidos, mas nem por isso menos bem elaborados, são os hinos Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens, prescritos respectivamente para as Matinas (atual Ofício das Leituras) e Laudes de Corpus Christi. Deles são extraídos os cantos menores Panis angelicus (“Pão angélico”) e O salutaris hostia (“Ó Hóstia salutar”).

No primeiro, apresenta-se uma verdade, também questionada hoje por teólogos modernos: a de que a celebração da Eucaristia está reservada somente aos sacerdotes, e a mais ninguém: Sic sacrificium istud instituit, cuius officium committi voluit solis presbyteris, quibus sic congruit, ut sumant, et dent ceteris (lit., “Assim este sacrifício instituiu, cujo ofício só aos presbíteros quis reservar, aos quais compete tomá-lo e dá-lo aos demais; na tradução litúrgica brasileira, o solis desaparece: “Instituído estava o sacrifício, que aos seus ministros Cristo confiou. Devem tomá-lo e dá-lo aos seus irmãos, seguindo assim as ordens do Senhor”).

No segundo canto, brilha um dos mais belos versos de todas as composições do Aquinate: O res mirabilis: manducat Dominum pauper, servus et humilis (lit., “Ó coisa admirável: come ao Senhor o pobre, o servo e o humilde”; na tradução litúrgica brasileira, “Oh maravilha: a carne do Senhor é dada a pobres, frágeis criaturas”.

Todos os cantos se encerram com súplicas escatológicas: no Adoro te devote, por exemplo, o fiel que canta ao Santíssimo Sacramento pede a Deus a graça de contemplá-lo um dia face a face, no Céu: Jesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sítio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae (lit., “Ó Jesus, a quem velado agora vejo, peço venha logo aquilo que tanto desejo: que, vendo-te de face desvelada, seja eu feliz com a visão da tua glória”).

É uma pena que o latim encontre tão poucos amantes; que nossas liturgias não usem mais o canto gregoriano; que a teologia de Santo Tomás seja tão desprezada em nossos dias. Resgatar tudo isso, porém, pode ser um ótimo começo para redescobrirmos a grandeza da Santíssima Eucaristia. Não percamos tempo, portanto, e empreguemos não só estes dias, mas toda a nossa vida, na meditação desse precioso mistério.

Notas

  1. Também sobre esse assunto, pontifica Gregory DiPippo: “As oitavas são para a contemplação de mistérios que são grandes demais para um dia só, e é certamente verdadeiro que repetita juvant (‘as coisas repetidas agradam’), um provérbio que o rito romano, com seu conservadorismo habitual, historicamente levou muito ao coração.”
  2. Também vale a pena notar que, no rito antigo, a festa de Corpus Christi se limitava a celebrar o Corpo do Senhor; no dia 1.º de julho, havia uma festa de I classe (o equivalente às solenidades de hoje) reservada só ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, a reforma de Paulo VI aboliu essa celebração, que está restrita agora ao âmbito das Missas votivas.
  3. Concílio de Trento, Doutrina e cânones sobre a comunhão sob as duas espécies e a comunhão das crianças, 16 jul. 1562, s. XXI, c. 3 (DH 1729).

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Sexo antes do casamento é pecado mesmo?
Doutrina

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Junho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Uma adolescente enviou-nos há dias a seguinte mensagem, que reproduzimos com pequenas modificações. (A divisão em 8 pontos é nossa, para facilitar a leitura da resposta. Omitimos também algumas considerações finais, por não virem ao caso.)

Estava estudando sobre “sexo antes do casamento”, quando me deparei com o seu blog.

1. O que mais me intriga em relação a essa questão é que no Antigo Testamento essa questão de virgindade pré-matrimonial era uma regra apenas para as mulheres, e não estava relacionada com a pureza sexual e uma maior virtude, mas sim com relação à gravidez, para que, quando uma mulher engravidasse, se tivesse a certeza [de] que o filho era realmente israelita.

2. Essa questão de pureza sexual surgiu no Novo Testamento com o apóstolo Paulo, mas lembremos que Paulo não era perfeito e, atualmente, não seguimos tudo [o] que ele ensinou (como a questão da obrigatoriedade do véu, por exemplo).

3. E outro fato muito importante é que, nas épocas bíblicas, as pessoas geralmente se casavam um pouco depois da puberdade, ou seja, tinham relações sexuais desde o início do desenvolvimento da sua sexualidade. Hoje é um absurdo ter relações sexuais desde tão cedo, e é até crime no nosso país. 

4. Outro ponto importante é que hoje existem preservativos que impedem doenças sexualmente transmissíveis e impedem também alguma gravidez indesejada. 

5. Jesus nunca falou que o sexo fora do casamento era pecado. O senhor cita no blog Mt 5, 28, mas fica claro que no verso ele se refere a quando um homem comprometido deseja algo com outra mulher. 

6. O senhor disse também: “O sexo fora do casamento é uma forma de usar o outro e não de amar”. Mas poderíamos nós julgar o outro? Falar o que ele sente? Duas pessoas podem se amar e não querer casar por questões financeiras, por exemplo. 

7. Os jovens, a partir de quando atingissem a idade adulta, não poderiam ter o direito de desenvolver sua sexualidade? Não deveriam ser eles orientados para terem relações sexuais com responsabilidade, ao invés de serem reprimidos? 

8. Dizer que isso é pecado só porque Paulo disse não é algo um pouco vasto [sic]? 

1) A primeira colocação, de “O que mais me intriga” até “para que se tivesse certeza [de] que o filho era israelita”, além de gratuita, é falsa. O sexo pré-matrimonial é outro nome para o pecado de fornicação simples, isto é, a cópula consensual entre um homem e uma mulher não ligados entre si nem a outrem por vínculo conjugal. O Antigo Testamento o proíbe em algumas passagens, referindo-se não só às mulheres, mas sobretudo aos varões (cf. Dt 23, 18; Os 4, 11; Eclo 19, 3s; 41, 21; Tb 4, 13). Obviamente, um dos motivos pelos quais a fornicação é pecado, ou seja, contrária ao direito natural, é por dificultar a identificação do pai legítimo e, por conseguinte, o reconhecimento da prole como pertencente a uma determinada estirpe ou comunidade. Mas não é a única razão, nem expressa preocupações meramente pragmáticas. 

2) A segunda colocação, de “Essa questão de pureza legal” até “como a questão da obrigatoriedade do véu”, tem algo de verdade e um pouco de confusão. 

a) É verdade que, comparado com o Antigo, o Novo Testamento representa uma evolução em termos morais, especialmente em matéria sexual. Exemplo disso é a proibição dos pecados internos ou de mero desejo (cf. Mt 5, 28), aos quais a antiga Lei não dera tanta importância, ao menos em comparação com o Evangelho. É falso, no entanto, que somente no Novo Testamento tenha “surgido” o pecado de fornicação, como se S. Paulo ou outro apóstolo tivesse proibido o que até então era permitido. Vimos no item anterior que a prática já era condenada no Antigo [1].

b) Além disso, confundem-se aqui questões de ordem distinta. O véu que S. Paulo manda as fiéis de Corinto usarem (cf. 1Cor 11, 15) é, naturalmente, uma disciplina ritual suscetível de mudança, em função de necessidades ou costumes locais; a sexualidade não, por ser uma inclinação natural básica e em si mesma ordenada à reprodução, a qual, portanto, deve ser regulada e exercida segundo as exigências da razão humana, a mesma para todos, em todos os tempos e lugares [2]. 

3) A terceira colocação, de “E outro fato muito importante” até “no nosso país”, parece deslocada e irrelevante para o ponto em debate, que é a moralidade ou imoralidade do sexo pré-matrimonial. A puberdade é um fato biológico, em virtude do qual o indivíduo se encontra, ao menos fisicamente, preparado para a vida sexual. É mera aptidão para procriar. Em que momento, atingida a idade púbere, se considera aceitável ou oportuno o exercício da sexualidade, é coisa que também pode variar em função de certos fatores (culturais, demográficos, sanitários etc.). Em Israel, como em muitas outras civilizações antigas do Oriente Próximo, nas quais a expectativa de vida era, de regra, bastante baixa, seria mesmo de se esperar que os casamentos fossem celebrados cedo, tão-logo os jovens entrassem em idade féritil, por volta dos 12–14 anos [3]. 

Aliás, essa é provavelmente uma das razões por que no Antigo Testamento se fala pouco da fornicação simples. Como os jovens se casavam cedo, em uma sociedade eminentemente tribal, não havia “tempo” para os desregramentos tão frequentes hoje em dia. A maturidade sexual era quase simultânea à contração de núpcias, de maneira que, se se pecava contra a castidade, se pecava também, quase sempre, contra a fidelidade conjugal. 

4) A quarta colocação, de “Outro ponto importante” até “gravidez indesejada”, não serve de justificativa para o sexo pré-matrimonial, porque revela justamente um dos muitos efeitos negativos de sua “normalização”, qual seja: o divórcio entre cópula e reprodução, sexo e família. O sexo antes do casamento começa a tornar-se comum a partir do momento em que, individual e socialmente, já não se vê (ou não se quer ver) a vinculação intrínseca entre o ato sexual e sua finalidade própria, que é a geração de uma nova vida, cuja criação adequada, tanto física quanto intelectual e moral, só é possível dentro da família, com a cooperação perpétua de um pai e de uma mãe [4]. Se os casais fossem fiéis e castos nem houvesse fornicação e adultério no mundo, dificilmente existiriam DSTs nem, portanto, a “necessidade” de usar preservativo para evitar “gestações indesejadas”. 

Assim como o fornicador busca o prazer sexual sem querer as consequências que lhe são inerentes, mantendo-se assim num estado de imaturidade e egoísmo, o bulímico busca por um momento a sensação de saciedade sem querer o risco de engordar, privando-se assim dos nutrientes necessários. A analogia porém é fraca, porque aquele peca por malícia, este age às vezes por compulsão; a desnutrição deste é física, enquanto a daquele é pior, por afetar antes a alma que o corpo. 

5) A quinta colocação, de “Jesus nunca falou” até “com outra mulher”, está correta, mas desconsidera algumas coisas. De fato, em Mt 5, 28 Nosso Senhor fala do pecado de adultério, nem consta nos Evangelhos qualquer palavra dele contra a fornicação simples. Mas daí não se segue que ela seja permitida ou mesmo compatível com o restante da doutrina cristã.

a) Em primeiro lugar, o objetivo dos Evangelhos é testemunhar a natureza messiânica e divina de Cristo, provada em sua vida e palavras, em suas profecias e milagres, em sua morte e ressurreição, e não o de apresentar uma “súmula” dos ensinamentos de Jesus (cf. Jo 16, 12; 21, 25), como se abarcassem todo o dito por Ele, sem necessidade de atender à pregação oral dos Apóstolos, ao Magistério e à Tradição da Igreja ou mesmo à simples capacidade de dedução. Cristo, por exemplo, não falou de muitos outros pecados sexuais: não falou do estupro, não falou do rapto, não falou do incesto nem do sacrilégio e dos atos contra a natureza. Daí se há de concluir que não são pecados?

b) Em segundo lugar, o fato mesmo de Cristo e as Escrituras como um todo insistirem na malícia do adultério, e não tanto na de outras práticas imorais, é em si mesmo significativo. É sinal de que, para judeus e cristãos, o matrimônio é o único contexto em que o uso da sexualidade é lícito, porque se funda numa relação de fidelidade e entrega mútua que não pode ser rompida sem grave responsabilidade de uma das partes [5]. 

6) A sexta colocação, de “O senhor disse também” até “por questões financeiras, por exemplo”, perde de vista uma verdade importante. Nós podemos, sim, julgar os outros, menos porém por suas intenções que pelas ações que praticam. Os atos humanos têm sempre uma dimensão objetiva, que é precisamente o que os especifica como atos de tal ou qual tipo, tanto na linha da virtude quanto na do vício. Um ato não se define como furto, por exemplo, apenas pela intenção subjetiva do agente, mas antes de tudo pelo objeto mesmo da ação, isto é, por aquilo a que a vontade tende própria e primariamente ao escolher realizá-la [6]: subtrair coisa alheia ao justo possessor, independentemente do “para que” se subtrai. 

O mesmo se aplica ao sexo pré-matrimonial. Os que o praticam podem justificar-se dizendo que “se amam”, quando, na verdade, fazem uso da sexualidade privando-o da “ordem exigida pelo bem da espécie humana não só a ser gerada do modo devido, mas também a ser educada em uma sociedade permanente entre homem e mulher tanto de fato como de direito” [7]. 

Além disso, vale notar: quem, estando solteiro, não pode arcar com os encargos mínimos (econômicos, afetivos etc.) do casamento não deve buscar os direitos ou privilégios de um casado. O contrário seria tratar o sexo como “passatempo” e o outro como simples fonte de prazer, sem o comprometimento que uma vida a dois — na qual são comuns as alegrias, mas também as contas — por si mesma reclama. 

7) A sétima colocação, de “Os jovens” até “serem reprimidos”, é algo contraditória. Com efeito, se atingiram a idade adulta, não são mais jovens, mas adultos e, como tais, devem viver uma sexualidade igualmente adulta, o que significa autodomínio, respeito à dignidade do corpo alheio, senso de compromisso e sacrifício. Sexo não é diversão nem “experimento” para curiosos. Não é uma “técnica” que precise ser “desenvolvida” ou “aprendida” como se aprende, por exemplo, a conduzir um veículo. É uma função orgânica com uma finalidade tão natural como é o ver para os olhos, o ouvir para os ouvidos e o comer para a boca. A diferença está em que o sexo é uma operação que se realiza a dois, e se o seu fim primário é a geração da prole, os dois envolvidos devem ter as condições necessárias à adequada criação dela, ou seja, estar pelo menos unidos por união formal e indissolúvel. 

8) Cremos que essas considerações são suficientes para desmentir a oitava e última colocação, a de que dizemos isso “só porque Paulo disse”. Sim, para os católicos a autoridade de Paulo tem grande peso. Afinal, cremos que suas cartas são divinamente inspiradas e gozam, portanto, de inerrância. É por isso, diga-se de passagem, que consideramos suas palavras contra a fornicação (cf. Ef 5, 5s; 1Cor 6, 9s.15-20; Gl 5, 19-21) como expressão não só da lei natural, que a proíbe pelo dano que causa à prole, mas de um direito divino positivo, que a proíbe, entre outras coisas, porque nos impede de alcançar nosso fim sobrenatural. No entanto, mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado [8]. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Notas

  1. S. Paulo proíbe especial e insistentemente a fornicação em suas cartas porque escreve a fiéis vindos do paganismo, e os gentios, como observa S. Tomás de Aquino, não consideravam a fornicação um pecado (cf. STh I-II 103, 4 ad 3). O Apóstolo não “inova” a moral judaica, que ele, fariseu zeloso (cf. Fp 3, 4ss), sempre observara, mas faz questão de inculcar nos fiéis princípios que, se já eram claros para os hebreus, são indiscutíveis para os cristãos: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” (Mt 5, 8).
  2. Cf. Martin Rhonheimer, La perspectiva de la moral. Fundamentos de la ética filosófica. Trad. esp. de José C. Mardomingo. 2.ª ed., Madri, Rialp, 2007: “As inclinações naturais são um ‘bem para o homem’ na medida em que forem captadas e reguladas pela razão” (p. 285); “[…] uma tendência humana, dado que é natural, é reconhecida pela razão de modo também natural como um bem humano. Mas revela sua identidade como ‘bem humano’ somente na medida em que é reconhecida pela razão como ‘boa’, e não já por ser ‘natural’” (p. 286); “Sem inclinação natural não haveria princípios práticos nem ações. Mas os princípios mesmos não são essas inclinações como juízos naturais, mas como juízos práticos universais do tipo ‘p é bom’ referidos a essas inclinações” (p. 289); “[…] estas inclinações naturais constituem bens humanos e princípios práticos na medida em que se tende a eles na ordem da razão, isto é, na medida em que a vontade tende a eles em conformidade com a ordem da razão, como ‘bem da razão’. A autoconservação e a sexualidade — como bens humanos, e não só como inclinações naturais — são sempre também vontade de autoconservação e querer (ou amar) outra pessoa. A captação destas inclinações pela razão ordena essas inclinações em conformidade com as exigências da razão, e só assim são objeto da vontade e princípio de ações humanas” (p. 290).
  3. No Brasil, a lei permite o casamento a partir dos 16 e até antes, excepcionalmente, em caso de gravidez, sempre que haja autorização dos pais ou responsáveis legais (cf. CDC, arts. 1517, caput, e 1520).
  4. Cf. Joseph Gredt, Elementa. 13.ª ed., Barcelona, Herder, vol. 2, 1961: “A sociedade conjugal, ou matrimônio, se se toma formalmente, é a união legítima, perpétua e exclusiva do homem e da mulher, nascida do mútuo consentimento deles e ordenada à procriação e à educação da prole. A causa, pois, formal ou o fim, ao menos principal, do matrimônio é a geração e a educação da prole, ou a propagação do gênero humano” (p. 462, n. 1012); “O homem não tem desde o início toda a sua perfeição, senão que, logo ao nascer, tanto corporal como espiritualmente, ou quanto ao intelecto e à vontade, está em estado de imperfeição, a partir do qual paulatinamente se desenvolve. Não pode, porém, desenvolver-se por si só, mas necessita de múltiplos auxílios. Ora, nesta assistência ao seu desenvolvimento, tanto corporal quanto espiritual, consiste a educação. A qual, por isso, é dupla: corporal, que se realiza dando alimento e tudo aquilo de que o corpo naturalmente necessita, e espiritual (à qual pertence a instrução religiosa e social), que se realiza pelo ensino [doctrina] não só especulativo, mas também prático, ou por admonição, correção, punição, de maneira que não somente o intelecto seja conduzido a conhecer a verdade, o que é necessário à consecução do fim último, mas também a vontade se incline a fazer o bem” (p. 367, n. 1017).
  5. É evidente, ademais, que o adultério, objetivamente considerado, é mais grave do que a fornicação simples, por ferir a um tempo duas virtudes — a castidade e a justiça —, ao passo que a fornicação fere, em geral, apenas a primeira delas (cf. M. Zalba, Theologiæ Moralis Compendium. Madri, BAC, 1958, vol. 2, p. 767, n. 1405).
  6. Cf. Martin Rhonheimer, op. cit.: “As ações intencionais básicas [isto é, enquanto especificadas por seu fim intrínseco e constitutivo, chamado finis operis por contraposição ao finis operantis, que é extrínseco à ação e corresponde grosso modo ao que este autor denomina ‘intenção’] possuem já em si mesmas uma identidade intencional que é objeto ou conteúdo de atos de eleição. As ações possuidoras dessa identidade têm sentido e são inteligíveis em si mesmas. A este conteúdo inteligível básico dotado de sentido, ‘primeiro’ enquanto fundamental, damos o nome de objeto de uma ação (por exemplo, ‘descansar’), o qual é objeto da razão prática enquanto bem a perseguir ou mal a evitar e cumpre uma descrição (intencional) sob a qual se escolhe esta ação. A estruturação objetivo-intencional das ações é obra da razão. Esta última constitui determinados tipos de ação, como ‘descansar’, ‘trabalhar’, ‘cometer adultério’, ‘assassinar alguém’, ‘alimentar-se’ etc. Todos esses atos não são sucessos naturais, estados físicos nem movimentos corporais, mas ações. Cada uma delas forma um tipo de ação ou uma espécie do gênero ação (um modo de ação)” (p. 151).
  7. M. Zalba, op. cit., p. 762, n. 1389.
  8. Cf. S. Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 33, q. 1, a. 3, qc. 2c.: “Não há dúvida de que a fornicação simples é, de si, pecado mortal, ainda que não houvesse lei escrita”; STh II-II 154, 2c: “[…] sem dúvida alguma, há de sustentar-se que a fornicação simples é pecado mortal. Para evidenciá-lo, deve-se considerar que é pecado mortal todo pecado cometido diretamente contra a vida do homem. Ora, a fornicação simples importa uma desordem que recai em prejuízo da vida daquele que nasce de tal união [concubitu]. […] Ora, é evidente que para a educação do homem não só se requer o cuidado da mãe, pela qual é nutrido, mas muito mais o cuidado do pai, por quem deve ser instruído e defendido, e provido de bens tanto interiores quanto exteriores. E por isso é contra a natureza do homem que se unam não casados [quod utatur vago concubitu], senão que é necessário que se una um homem com uma mulher determinada, com a qual permaneça, não por um breve tempo, mas diuturnamente, ou mesmo por toda a vida. E daí provém que, naturalmente, seja importante para os machos da espécie humana a certeza da prole, já que lhes incumbe a educação dela. Esta certeza, porém, desapareceria se a união fosse indeterminada [concubitus vagus]. Ora, esta determinação de uma mulher certa chama-se matrimônio. E por isso se diz que é de direito natural. Mas porque a união sexual [concubitus] se ordena ao bem comum de todo o gênero humano, e os bens comuns caem sob a determinação da lei <humana> […], segue-se que esta conjunção entre um homem e uma mulher, que se chama matrimônio, há de ser determinada por alguma lei […]. Por isso, sendo a fornicação uma união indeterminada [concubitus vagus], por ser feita fora do matrimônio, é contra o bem da prole a ser educada. E por isso é pecado mortal. Não importa que alguém, fornicando com outra, providencie suficientemente educação à prole. Porque o que cai sob a determinação da lei julga-se segundo o que acontece comumente, e não segundo o que em algum caso pode acontecer”.

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