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O homem precisa de fé para manter-se homem
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O homem precisa de fé
para manter-se homem

O homem precisa de fé para manter-se homem

O primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo. Aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Junho de 2017
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É conhecida por quase todos os católicos aquela expressão com que São Paulo fala da justificação do homem: "O justo vive pela fé" ( Rm 1, 17). Com essa expressão, retirada do livro do profeta Habacuc, o apóstolo das gentes queria manifestar aos cristãos de sua época a importância da fidelidade à aliança com Deus. Como solenemente afirmou o Concílio de Trento, a "fé é princípio da salvação humana, fundamento e raiz de toda a justificação; sem ela é impossível agradar a Deus e chegar a ser filhos Seus" [1].

O mundo moderno, erigido sobre os ideais iluministas e anticlericais, inverteu esse pensamento paulino, de modo que hoje é quase comum encontrar pessoas indiferentes à religião, senão até hostis. A fé virou sinônimo de alienação e injustiça. Para o mundo moderno, apóstolo do humanismo, a religiosidade seria apenas um limite, uma espécie de prisão que impede o homem de alçar voo e descobrir sua verdadeira natureza.

Agora livre dos códigos e preceitos morais, pensa-se, o homem moderno pode finalmente contribuir para a criação de um mundo melhor: ele não vive mais de fé; vive da realidade que o circunda e que precisa urgentemente ser transformada. E que belo será este mundo, que bela será a Nova Atlântida que há de vir dos escombros de uma época de trevas e ignorância, à qual o homem esteve tanto tempo aprisionado. Assim bradavam os humanistas com otimismo estridente, assim ainda falam hoje os inimigos da religião. E vieram as duas grandes guerras, o nazismo, os gulags e toda a sorte de (ir)realizações que o homem moderno, o homem orgulhosamente sem fé, conseguiu produzir.

Que teria dado errado? A verdade parece ser uma só: a crença equivocada do homem moderno de que, para encontrar sua verdadeira natureza, ele teria de voar, a fim de contemplar-se de cima para baixo. E o que encontrou foi apenas o seu "eu exterior", pelo qual acabou desgraçadamente se apaixonando: aquele homem cafajeste, cuja única pretensão é satisfazer o próprio ego, não importando os meios nem os fins.

Em sua obra monumental Dois amores e duas cidades, livro obrigatório para quem deseja entender o que aconteceu com a civilização ocidental após a loucura nominalista, Gustavo Corção recorda que o motor da história não é a economia, como erroneamente pensava Karl Marx, mas a maneira e em que ordem o homem ama as coisas e se ama a si mesmo. O que ocorreu na idade moderna foi precisamente a desordem completa do amor, de sorte que as pessoas tomaram como principal de si mesmas a "vida exterior" e as coisas que poderiam torná-la mais confortável, esquecendo-se, por completo, de se prepararem para a vida eterna. Para descobrir o corpo, o homem decidiu perder a alma. E não poderia haver material mais explosivo que o amor desordenado por si mesmo.

Se é, portanto, no "eu exterior" que se forma o amor-próprio, fonte de todos os pecados, o homem, então, não necessita voar para descobrir quem ele é; precisa, antes, de um mergulho na intimidade de seu ser, lá no interior intimo meo de Santo Agostinho, onde se encontra a razão de sua existência, o "eu interior". Em suma, trata-se de uma espécie de socratismo cristão, isto é, a regra do "conhece-te a ti mesmo" vivida em Deus.

Ocorre que esse mergulho nas profundezas do próprio ser está para além das forças humanas. A experiência dos últimos séculos só tem comprovado isso nas tantas e tantas filosofias vãs que ora reduziram o homem ao animalesco, ora o colocaram no pedestal do mundo, quase como um deus ou super-homem.

Necessita-se de uma luz. E é aí que deve entrar a fé, virtude sobre a qual muito escreveu o Papa Francisco no início de seu pontificado.

A humanidade precisa da luz da fé para atravessar a sua escuridão mais íntima e encontrar tanto a própria identidade quanto aquela "Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" [2]. Porque a fé é mais que um arrepio do corpo, ela nos concede um fundamento novo, a prova das realidades invisíveis, que é aquela rocha firme sobre a qual o homem deve edificar a sua casa, sem risco de que desmorone tudo ao primeiro vento: as frustrações pessoais, o tédio da vida corrente, uma situação irremediável etc. É por isso que Bento XVI, com toda a razão, dizia que o primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo; aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

Na mesma obra já citada, Gustavo Corção assevera que "a sorte de uma civilização depende dos valores transformados em ideais no firmamento cultural dessa civilização" [3]. Em que pesem todos os erros cometidos pelos homens medievais, eles só souberam preservar o Ocidente e levá-lo adiante porque antes nutriam uns pelos outros aquela familiaridade própria de quem deseja ver o amigo no Céu. A base cultural da Idade Média era a fé e a busca da salvação, de modo que seus homens tinham a peito o estandarte da cruz e lutavam aqui na terra para construir sua casa na morada celeste. O Ocidente contemporâneo, em sentido inverso, morre dia após dia porque se esqueceu de suas raízes, julgou desnecessária a vida interior e passou a viver apenas de aparência e tolerância. Uma civilização que não sabe quem é, não tem por que lutar.

A vida do homem é movida por um motor ou causa final, como diria Santo Tomás, ou sentido, como diria Viktor Frankl. Aqui então se aplica a regra física de Newton: uma força produz o movimento de uma massa, que cresce progressivamente em velocidade segundo certa aceleração. Para a humanidade, essa força motora pode ser tanto a força da fé como a força gravitacional da Terra. E esse movimento será tanto mais acelerado quanto mais próximo estiver da força que o atrai. Daí se entende porque o homem medieval construía aquelas belíssimas catedrais voltadas para o Céu e, hoje, o homem moderno está a um passo de abandonar a posição ereta para literalmente voltar a andar sobre quatro patas.

O homem precisa de fé para manter-se homem, para manter-se viril e lidar com as pressões do mundo exterior com honestidade e coragem. Ele precisa então de uma verdadeira psicologia do profundo, voltar-se para seu eu interior, a fim de descobrir o núcleo de sua personalidade, sua substância ou essência, como queiram dizer, a fim de que não se deixe corromper pelos acidentes e apetites desordenados da carne. Enfim, precisa parar de cantarolar Imagine e voltar a recitar os salmos: "Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo" (Sl 22, 4). Deus queira que se convença disso o quanto antes!

Referências

  1. De justificatione, c. 8.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  3. Gustavo Corção, Dois amores e duas cidades, Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 53.

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O que Santo Tomás diria sobre os videogames?
Doutrina

O que Santo Tomás
diria sobre os videogames?

O que Santo Tomás diria sobre os videogames?

É possível usar de modo sadio e equilibrado dos lazeres proporcionados pela internet? Descubra a resposta a partir de uma seção pouco conhecida da obra de Santo Tomás de Aquino: a teologia dos divertimentos.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Junho de 2018
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Pode parecer impressionante, mas Santo Tomás de Aquino, do longínquo século XIII, possui uma das reflexões mais interessantes e profundas a respeito de jogos e diversões — e isso numa época em que não existia nem computador, Xbox, nem PlayStation… A atualidade do Doutor Angélico mostra como o ser humano é essencialmente o mesmo: ainda que mudem os tempos, “nada há de novo debaixo do sol” (Ecle 1, 9).

Estas breves considerações que pretendemos fazer, no entanto, são mais do que necessárias nos últimos anos, à medida que se aperfeiçoam os gráficos dos videogames e em que aumentam — especialmente para os jovens, mas não só para eles — os riscos de “refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou expor-se excessivamente ao mundo virtual” [1].

Partamos logo, então, à madura análise de Santo Tomás de Aquino sobre esse assunto, que se encontra na Suma Teológica, II-II, q. 168.

A primeira coisa que faz esse santo Doutor é examinar se pode haver alguma virtude nas atividades lúdicas. Pode até parecer estranho para alguns, mas a sua resposta é positiva. Trata-se da virtude moral da eutrapelia, “que tem por objeto regular, segundo a reta ordem da razão, os jogos e diversões” [2]. O Aquinate explica:

Assim como o homem precisa de repouso para refazer as forças do corpo, que não pode trabalhar sem parar, assim também é preciso que o cansaço mental se dissipe pelo repouso mental. O repouso da mente é o prazer, como acima se explanou ao se falar das paixões. Daí a necessidade de buscar remédio à fadiga da alma em algum prazer, afrouxando o esforço do labor mental. Essas palavras e ações nas quais não se busca senão o prazer da alma chamam-se divertimentos ou recreações. Lançar mão delas, de quando em quando, é uma necessidade para o descanso da alma. Por isso, é preciso praticá-los de vez em quando.

Com isso, Santo Tomás afasta desde o princípio o extremo da austeridade excessiva de quem “rechaça até a recreação honesta e saudável” [3]. “Nas ações humanas”, continua ele, “tudo o que vai contra a razão é vicioso. Ora, é contra a razão ser um peso para os outros, não lhes proporcionando, por exemplo, nenhum prazer e impedindo o prazer deles.”

Na mesma questão, porém, o santo alerta para três cuidados importantes que devem ser tomados nessa matéria.

O primeiro é o de não recrear-se com atos ou palavras indecentes e nocivos ao próximo, coisa que constituiria, por si só, pecado mortal. Aqui poderiam ser mencionados certos tipos de música e de dança que, incitando a sensualidade, facilmente conduzem as pessoas envolvidas ao pecado. Não é diversão legítima aquela que nos faz cair no vício.

O segundo é não perder totalmente a seriedade de alma, a exemplo de Santa Isabel da Hungria, que “jogava às vezes e achava-se presente nas reuniões de divertimentos, sem que com isso perdesse a sua devoção” [4].

Nossa vida é um dom muito precioso que nos foi confiado por Deus: fomos colocados neste mundo para uma finalidade, que é amá-lo e cumprir com a sua santa vontade, buscando a glória do Céu. Há um verdadeiro combate acontecendo nos ares (cf. Ef 6, 12), com nossa alma correndo sério risco de perder-se, especialmente em tempos como os nossos. Nossa vida não deve ser levada de qualquer modo, como se fosse uma brincadeira. Por isso, diz o romano Cícero — citado pelo Aquinate — que “também em nosso divertimento deve brilhar a luz de um espírito virtuoso”.

A terceira advertência de Santo Tomás é, enfim, a mais séria e negligenciada de todas: existem circunstâncias apropriadas para brincarmos. O santo Doutor da Igreja menciona as palavras acertadíssimas de Cícero: “Certamente, podemos nos entregar a jogos e brincadeiras, mas, como no sono e em outros descansos, só depois de satisfeitas as nossas obrigações graves e sérias”. Noutras palavras, como diz um ditado famoso: primeiro o dever, depois o lazer.

É São Francisco de Sales quem manifesta o porquê disso:

Se dás muito tempo ao jogo, ele já não é um divertimento, mas fica sendo uma ocupação, de modo que, em vez de aliviar o espírito e o corpo, sai-se do jogo cansado e estafado, como acontece aos que jogaram xadrez por cinco ou seis horas sem parar, ou, então, tendo gasto muitas forças e energias, como quem joga bola por muito tempo, continuamente. [5]

Ora, não é verdade que os jogos virtuais, para muitas crianças, jovens e até adultos, ao invés de ser um simples passatempo de fim de semana, se converteu na dissipação completa do tempo de que dispõem? A internet e os videogames não se tornaram, na verdade, a grande fonte de perda de tempo para a nossa época?

São Francisco de Sales menciona, em sua época, pessoas que “jogaram xadrez por cinco ou seis horas sem parar”, mas quantos já não repetiram essa mesma cifra com atividades semelhantes, e repetem-na incessantemente, fazendo com que toda a sua vida se passe diante de uma tela de celular, de TV ou de computador?

Justamente nessa falta de equilíbrio é que se aplica a justa intervenção paterna. Se as crianças não têm limites, são os pais os responsáveis por ordenar segundo a reta razão as atividades de lazer de seus filhos. Se a falta de moderação é dos adultos, porém, é necessário tomar consciência do problema e agir de modo efetivo para aproveitar melhor o tempo que nos é dado por Deus. Que diferença não faríamos no mundo, se estivéssemos buscando as coisas de Deus com a mesma determinação que temos para usufruir das tecnologias deste mundo!

Atentemo-nos, por fim, a um último conselho de São Francisco de Sales e aprendamos de uma vez a dar valor às coisas que realmente importam:

Sobretudo, toma todo o cuidado, Filotéia, que teu coração não se apegue a estas coisas, porque, por melhor que seja um divertimento, não devemos atar a ele o coração e o afeto. Não digo que não se ache gosto no jogo, quando se está jogando, porque senão não seria um divertimento; digo somente que não se deve ir a ponto de desejá-lo ansiosamente, como uma coisa de grande importância. [6]

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Seis súplicas a São Luís Gonzaga
Oração

Seis súplicas a São Luís Gonzaga

Seis súplicas a São Luís Gonzaga

Que o Senhor nos conceda, pelos méritos e preces de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude católica, “imitá-lo na penitência, se não o seguimos na inocência”.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Junho de 2018
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Amanhã, dia 21 de junho, a Igreja celebra a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude católica.

Quem deseja conhecer sua vida pode assistir, no vídeo abaixo, a uma aula que Padre Paulo Ricardo já fez contando um pouco de sua biografia. A quem deseja mais, no entanto, as súplicas abaixo, coletadas de um antigo devocionário, podem servir para nos colocar em contato mais íntimo com essa alma bem-aventurada.

Que a intercessão de São Luís Gonzaga nos alcance de Deus as graças necessárias para vivermos, aqui e agora, a mesma vida de virtudes que ele levou.


1. Suplico-vos, ó ilibadíssimo S. Luís, pela vossa admirável pureza, que me deis dese­jo de vos imitar nesta angélica virtude, vencen­do todas as ocasiões de manchá-la, de modo que a conserve inviolada até me unir convosco na celeste bem-aventurança, prometida aos inocentes e limpos de coração.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

2. Suplico-vos, ó amabilíssimo S. Luís, pela vossa austera penitência, e pela guarda dos vossos sentidos, que me obtenhais um ódio santo contra mim mesmo, para que, mortificando os meus sentidos, os faça servir de instrumento para honrar e nunca para ultrajar a divina Majestade.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

3. Suplico-vos, ó gloriosíssimo S. Luís, pela vitória que alcançastes de vossas paixões, que me alcanceis coragem para domar as minhas, e especialmente a que em mim predomina, de modo que, mortificada e vencida esta, mere­ça convosco ter coroa de glória imortal.
Pa­i-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

4. Suplico-vos, religiosíssimo S. Luís, pela vossa obediência tão exata às regras do vosso instituto, e às ordens dos vossos superiores, que me impetreis a graça de observar a lei de Deus e as obrigações do meu estado, para que, fazen­do a vontade de Deus na terra, mereça fazê-la eternamente em vossa companhia no Céu.
Pa­i-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

5. Suplico-vos, ó humilíssimo S. Luís, pelo aborrecimento que tivestes às vaidades do mundo, pondo debaixo dos pés todos os respei­tos humanos, me alcanceis o desapego dos bens da terra e o desprezo das máximas do mundo, para que possa caminhar com fervor e perseve­rança pela senda da divina vontade, e gozar da perfeita liberdade dos filhos de Deus.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

6. Suplico-vos, por último, querido São Luís, coroeis todas as vossas graças com a maior que vos peço, e é que me impetreis do Senhor um ato perfeito de amor de Deus, particular­mente no último ponto da minha vida, para que assegure a graça da perseverança final, e ante­cipe na terra o que desejo e espero fazer bem-aventuradamente no Céu, isto é, amar o meu Deus com toda a perfeição por toda a eternidade.
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

V. Rogai por nós, São Luís.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:
Ó Deus, fonte dos dons celestes, reunistes no jovem Luís Gonzaga a prática da penitência e a admirável pureza de vida. Concedei-nos, por seus méritos e preces, imitá-lo na penitência, se não o seguimos na inocência. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

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Por que celebramos a morte de nossos próprios filhos?
Sociedade

Por que celebramos
a morte de nossos próprios filhos?

Por que celebramos a morte de nossos próprios filhos?

Como explicar tantas pessoas comemorando o que, por qualquer um minimamente consciente da verdade do aborto, seria de se chorar e lamentar?

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Junho de 2018
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Depois de o aborto ser legalizado por referendo na Irlanda, na última semana foi a vez da Argentina. Com a diferença de que, aqui, na América Latina, o aborto foi aprovado pelos deputados (falta ainda a ratificação do Senado). Em ambos os casos, no entanto, as mesmas cenas se repetiram: inúmeras mulheres nas ruas celebrando a futura morte dos próprios filhos.

A razão de ser desta matéria é, mais do que qualquer outra coisa, comentar essa estranha reação.

Poderíamos falar aqui do número de abortos que — ao contrário do que a mídia mentirosamente propaga — certamente aumentará na Argentina, assim como aumentou no Uruguai e em inúmeros outros países onde o aborto foi despenalizado. (Isso, é claro, se o projeto passar também no Senado, como já dito.) Poderíamos desenvolver toda uma argumentação respondendo, uma a uma, as farsas relacionadas com a legalização do aborto. Poderíamos falar, ainda, da principal organização por trás dessa ação na Argentina, que não, não é o movimento feminista, mas sim o Fundo Monetário Internacional.

Mas o impacto de um punhado de jovens mulheres festejando a descriminação do aborto é forte demais para que falemos de outra coisa. Como explicar tantas pessoas comemorando o que, por qualquer pessoa minimamente consciente da verdade do aborto, seria de se chorar e lamentar? O que explica uma geração — a nossa, no caso — que faz festa com a autorização para seres humanos inocentes serem assassinados no ventre de suas mães?

Procuramos fornecer uma espécie de resposta a essa pergunta quando comentamos o caso da legalização do aborto na Irlanda. A grande razão para comemorações como essa deve ser procurada em um obscurecimento — quando não em uma completa negação — do direito natural. O que é errado não pode tornar-se certo, o que é mau não pode tornar-se bom por força de lei. As pessoas só chegam a celebrar o mal, portanto, se antes o relativizaram.

O Papa São João Paulo II havia notado esse mesmo problema quando escreveu, 23 anos atrás, que:

Dentre todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente grave e abjurável.

[…] Mas hoje a percepção da sua gravidade vai-se obscurecendo progressivamente em muitas consciências. A aceitação do aborto na mentalidade, nos costumes e na própria lei, é sinal eloquente de uma perigosíssima crise do sentido moral que se torna cada vez mais incapaz de distinguir o bem do mal, mesmo quando está em jogo o direito fundamental à vida. Diante de tão grave situação, impõe-se mais que nunca a coragem de olhar frontalmente a verdade e chamar as coisas pelo seu nome, sem ceder a compromissos com o que nos é mais cômodo, nem à tentação de auto-engano. A propósito disto, ressoa categórica a censura do Profeta: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que têm as trevas por luz e a luz por trevas” (Is 5, 20). Precisamente no caso do aborto, verifica-se a difusão de uma terminologia ambígua, como “interrupção da gravidez”, que tende a esconder a verdadeira natureza dele e a atenuar a sua gravidade na opinião pública. Talvez este fenômeno linguístico seja já, em si mesmo, sintoma de um mal-estar das consciências. Mas nenhuma palavra basta para alterar a realidade das coisas: o aborto provocado é a morte deliberada e direta, independentemente da forma como venha realizada, de um ser humano na fase inicial da sua existência, que vai da concepção ao nascimento. [1]

Trocando em miúdos, as inúmeras pessoas que — tanto na Irlanda, quanto na Argentina — foram às ruas para manifestar a sua aprovação ao aborto, fizeram-no achando que estavam a celebrar um bem.

Com isso já é possível compreender o quão perigoso é dar às consciências o primado da razão, como se o ser humano pudesse autonomamente decidir o que é certo e o que é errado, sem referência a nenhuma moral objetiva. Contra essa ideia relativamente bem difundida (às vezes dentro da própria Igreja), cabe dizer: o que importa ao ser humano não é simplesmente “seguir a própria consciência”; antes, é necessário que nos preocupemos em formá-la da maneira correta, procurando adequá-la à realidade das coisas, sob o risco de que nos tornemos tiranetes, sonhando em “mudar o mundo” só para que ele caiba nas loucuras que nós mesmos inventamos.

Essas loucuras nossa época inventa para não ter de se confrontar com a verdade. À parte aquelas pessoas realmente enganadas por maus professores e pela manipulação midiática — cujo número não se pode subestimar —, o que boa parte dos que defendem a despenalização do aborto quer é uma “válvula de escape” para viver a vida como bem entende, sem enfrentar o incômodo de lidar com as consequências dos próprios atos.

Sim, porque — gostem ou não — a grande responsável por estarmos festejando a morte de nossos filhos chama-se “mentalidade contraceptiva”. O Papa São João Paulo II mesmo aludiu a ela quando afirmou, em relação ao crime do aborto, que “uma responsabilidade geral, mas não menos grave, cabe a todos aqueles que favoreceram a difusão de uma mentalidade de permissivismo sexual e de menosprezo pela maternidade” [2].

A nossa sociedade, antes de matar os filhos nos ventres de suas mães, mata-os na própria mente, em seus planos de vida, no modo como se relaciona sexualmente.

Filhos normalmente não são queridos, mas, quando o são, não devem passar de um ou dois. Pensar em filhos, para a nossa época, tão habituada a viver o sexo fora da família, é viver em pavor constante. Os homens não os querem de jeito nenhum, porque não querem responsabilidade; as mulheres entram na mesma onda e temem que a maternidade lhes roube a liberdade e a beleza física… Quando a criança já foi concebida, então, o que resta à nossa sociedade irresponsável, senão pedir às autoridades que risquem da lei penal o crime do aborto — como fizeram na Irlanda, estão fazendo na Argentina e alguns ministros do STF não vêem a hora de fazer também no Brasil?

Os países que legalizaram o aborto comprovam: quando essa prática é descriminada, o seu número não diminui; pelo contrário, transforma-se em método “contraceptivo” — com a diferença de que preservativos frustram a vida antes de ela existir; o aborto faz isso depois, ou seja, mata.

Quando um país decreta, portanto, que seus filhos podem ser mortos antes de nascer, muito antes está a ideia — menos grave, sim, mas nem por isso inofensiva — de que seus filhos podem ser mortos antes de ser concebidos. Essa mentalidade é a primeira inimiga da vida intrauterina e, a longo prazo, a única maneira de recuperar nossa civilização é mudando completamente a cultura antinatalista em que estamos imersos.

Até lá, todo e qualquer remédio será sempre paliativo. Até lá, ainda assistiremos a muitas pessoas, tragicamente, comemorando a futura morte dos próprios filhos.

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A amiga da Irmã Lúcia que “estará no Purgatório até o fim do mundo”
Doutrina

A amiga da Irmã Lúcia que “estará
no Purgatório até o fim do mundo”

A amiga da Irmã Lúcia que “estará no Purgatório até o fim do mundo”

Mais uma revelação de Nossa Senhora de Fátima muito útil para nos mover a trabalhar com mais afinco por Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Junho de 2018
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Das Memórias da Irmã Lúcia:

— E eu também vou para o Céu?
— Sim, vais.
— E a Jacinta? 
— Também. 
— E o Francisco? 
— Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com minha irmã mais velha. 
— A Maria das Neves já está no Céu? 
— Sim, está.
Parece-me que devia ter uns 16 anos. 
— E a Amélia? 
Estará no purgatório até ao fim do mundo. [1]

Talvez a revelação da Virgem Santíssima à Irmã Lúcia assuste-nos um pouco. É de fato impressionante a ideia de uma alma sofrendo no Purgatório até a consumação dos tempos. Movidos pela curiosidade, podemos chegar a nos perguntar o que teria feito Amélia para merecer uma punição assim tão severa da justiça divina.

O que mais nos aproveita, porém, é pensar que todos nós podemos muito bem ter a mesma sorte dessa amiga da Irmã Lúcia, caso levemos uma vida medíocre, “mais ou menos”, sem peso; caso não queiramos pagar, nesta existência, o alto preço do amor. O Purgatório é, afinal, o lugar para onde vão as almas que, embora se tenham salvo, não quiseram se entregar totalmente a Deus; embora se tenham salvo, ainda estavam muito apegadas às coisas deste mundo.

A pena de Amélia leva-nos a lembrar, também, daquela visão de Santa Francisca Romana, segundo a qual “por cada pecado mortal perdoado”, restaria “à alma culpada passar por um sofrimento de sete anos” no Purgatório. A amiga da Irmã Lúcia talvez tenha sido uma dessas almas que acumularam em vida inúmeros pecados mortais, dos quais se arrependeram, sem que tenham tido tempo, no entanto, para repará-los nesta vida.

Com revelações como essa, Deus quer fazer um apelo à nossa indiferença, dar um grito para romper a nossa surdez. Não se entra no Céu senão por meio de muitos sofrimentos (cf. At 14, 22). Se não quisermos sofrer aqui, teremos de sofrer no outro mundo. E daí não saíremos enquanto não houvermos pago “até o último centavo” (Mt 5, 26).

Cumpre dizer, de outro lado, para não retratar o Purgatório com cores demasiado duras, que evidentemente é bem mais consoladora a sorte de Amélia que a das inúmeras almas que os pastorinhos de Fátima viram precipitando-se no Inferno. É evidente que os dois estados não podem ser equiparados, por mais doloroso e duradouro que seja o Purgatório.

O problema de muitos de nós é o quão longe estamos da meta, o quão mesquinha é muitas vezes a lógica com que vivemos a nossa fé. Quantas vezes não pensamos, por exemplo, ou até dizemos: “Se eu chegar ao Purgatório, já me darei por satisfeito”, ou: “Se for ao Purgatório, já estarei no lucro”?

Não que isso não seja verdade, mas é uma verdade contada pela metade. É como a história do jovem rico (cf. Mc 10, 17-27), que poderia ser um grande discípulo de Cristo, e não foi.

Poderíamos até nos perguntar se essa personagem anônima dos Evangelhos, da qual não mais tivemos notícia, realmente se salvou. Talvez até tenha tido a “sorte” de passar o Purgatório com Amélia até o fim do mundo. Talvez já esteja no Céu agora, tendo passado por um brevíssimo Purgatório. A verdade é que, do jeito como ele deixou a famosa cena do Evangelho, seu lugar ainda não era o Céu. Porque o Céu não é simplesmente o lugar de quem não tem pecados (como o jovem rico parecia não ter); o Céu é o lugar dos que amam, dos que querem se unir a Deus mais do que qualquer coisa nesta vida.

Mas e nós, queremos isso? Queremos amar a Deus de todo o coração, ou nos contentaremos com garantir nossa salvação? Queremos viver plenamente o chamado de Deus para nós ou nos bastará “garantir uma vaga” no Purgatório?

Ninguém pense que se trata de desejos vãos. O quanto quisermos indicará a medida com que trabalharemos. Quem pensa em atingir o Purgatório, se esforçará o necessário para chegar aí. Se trabalharmos para o Céu, no entanto, tudo mudará. Inclusive nossa sorte na outra vida.

Que o exemplo dessa amiga da Irmã Lúcia nos ajude a imitar os pastorinhos de Fátima, que viveram sua vocação com heroísmo e, como recompensa, foram acolhidos sem demora no Reino dos Céus. Quanto à alma de Amélia, só o que lhe resta é contar com as nossas orações… “até ao fim do mundo”.

Referências

  1. Aparição de 13 de maio de 1917. Em: Memórias da Irmã Lúcia. 13.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, p. 173.

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