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Católico pode se casar com protestante?
Doutrina

Católico pode se casar com protestante?

Católico pode se casar com protestante?

Casar-se com alguém de outra religião, em princípio, é até possível, mas, se você ainda está solteiro e nos permite um conselho, aqui vai uma orientação dos Papas da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Agosto de 2018
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Nesta matéria, vamos falar de uma das principais causas da indiferença religiosa que existe hoje no mundo. Trata-se dos chamados “casamentos mistos”.

Um aluno envia-nos uma pergunta a esse respeito, manifestando dúvidas sobre como seria o casamento de um católico, por exemplo, com uma protestante, e quais são as recomendações e ressalvas da Igreja quanto a isso.

Por uma questão de clareza, diferenciemos antes entre “casamento misto” (entre um católico e um batizado não católico) e “casamento com disparidade de culto” (entre um católico e alguém que sequer foi batizado). Embora as consequências de tais situações sejam muito parecidas na prática, canonicamente se trata de coisas diversas.

Respondamos à questão com aquilo que a Igreja sempre ensinou a esse propósito. Para tanto, vamos nos servir de algumas manifestações mais antigas do Magistério, a fim de que todos entendam como a doutrina católica é uma rocha firme, e não um punhado de grãos de areia “batidos pelas ondas e levados por qualquer vento de doutrina” (Ef 4, 14).

Esclareçamos desde já o porquê das palavras duras e enérgicas que serão lidas mais adiante. Trata-se de conselhos paternos, necessários sobretudo para as pessoas que estão ainda na fase de namoro e talvez estejam “apaixonadas” por alguém de outra religião, seja ele cristão ou não. (Para quem já se encontra casado nesta situação, a conversa é evidentemente diferente.)

Como palavras de um pai, são palavras graves, sim, mas isso porque são igualmente graves as consequências de se entrar em um arranjo familiar como esse. De fato, é por ter em vista os grandes prejuízos dessa forma de relacionamento que a Igreja usava essa linguagem dura (não muito diferente da que vai nos próprios Evangelhos), tentando dissuadir os católicos, que receberam o dom precioso da fé no dia do Batismo, de colocarem em risco a salvação de suas almas, contraindo matrimônio — uma responsabilidade tão séria e, lembremo-nos, por toda a vida — com alguém que não ama e não odeia as mesmas coisas que eles.

Ouçamos em primeiro lugar o Papa Bento XIV, no ano de 1741:

No que se refere àqueles matrimônios que são contraídos por católicos com hereges, seja que um homem católico espose uma mulher herege, seja que uma mulher católica espose um homem herege: Sua Santidade, antes de tudo grandemente amargurado pelo fato de haver católicos que, torpemente enlouquecidos por um amor doentio, não fogem de toda a alma desses matrimônios detestáveis, que a santa mãe Igreja sempre tem condenado e proibido, e não acham que devem absolutamente se abster, exorta e admoesta [os pastores de almas] de modo sério e grave para que, na medida do possível, afastem os católicos de ambos os sexos de contrair semelhantes matrimônios para ruína das próprias almas e façam de tudo para obstaculizar da melhor maneira tais núpcias e impedi-las de modo eficaz.” [1]

Ouçamos também o Papa Leão XIII, na encíclica “Arcanum”, de 1880:

Deve-se ter o cuidado de não se desejar com facilidade o casamento com pessoas que não pertencem à Igreja Católica, pois dificilmente pode-se esperar que os ânimos discordes sobre a religião consigam a concórdia em tudo o mais. E que se devam evitar esses casamentos entende-se especialmente disso: (i) impedem a participação comum às coisas sagradas, (ii) criam perigo para a religião do cônjuge católico, (iii) impedem uma boa educação dos filhos e muitas vezes (iv) levam os ânimos a ter na mesma estima todas as religiões, tirando toda diferença entre o falso e o verdadeiro.” [2]

Por fim, ouçamos o Papa Pio XI, na encíclica “Casti Connubii”, de 1930:

Muito faltam neste ponto e, por vezes, pondo em perigo a própria salvação eterna, os que temerariamente contraem matrimônio misto, do qual a providência e o amor materno da Igreja afastam os fiéis por gravíssimas razões [...]. E se a Igreja, por vezes, em virtude das circunstâncias dos tempos, das coisas e das pessoas, é levada a conceder a dispensa destas severas disposições [...], só muito dificilmente é que o cônjuge católico não recebe qualquer dano de tal matrimônio. De fato, dele deriva, não raro, uma triste defecção da religião nos descendentes, ou, pelo menos, a queda fácil naquela negligência religiosa que se chama indiferença, tão vizinha da incredulidade e da impiedade. Acresce ainda que, nos matrimônios mistos, se torna muito mais difícil aquela viva união dos espíritos, que deve imitar o mistério [...] da inefável união da Igreja com Cristo. [3]

Antes de qualquer coisa, portanto, tiremos de nossas cabeças a mentalidade do “tanto faz, como se não houvesse nenhum problema em se casar com pessoas mundanas e sem fé católica. Se a Igreja possui uma orientação a respeito desse tema, investiguemos-lhe as razões.

Por que a mesma religião?

Partamos do que diz Leão XIII, e que facilmente podemos comprovar no dia a dia de nossas vidas: “Dificilmente pode-se esperar que os ânimos discordes sobre a religião consigam a concórdia em tudo o mais”. Ou seja, não é possível haver verdadeira amizade — e, mais do que isso, verdadeira “união dos espíritos”, como deve acontecer no casamento — sem que haja, em primeiro lugar, uma comunhão na fé e nos princípios católicos.

O primeiro ponto é enxergar, pois, com toda clareza, que papel tem a religião na sua vida. Se a fé católica é o seu “amuleto”; se Deus não passa de uma coisa superficial e acessória para você, à qual só de vez em quando vale a pena recorrer, você nunca será capaz de entender o que esses Papas estão querendo dizer.

Se, ao contrário, você vê na Igreja Católica — como deveriam ver todos os batizados — a “Mãe e Mestra da Verdade”, como cantamos no Hino Pontifício; o instrumento que o próprio Jesus Cristo instituiu e deixou no mundo para salvar a humanidade, você entende facilmente que a religião não pode ser algo marginal e de pouca importância na vida de um católico, mas, sim, uma realidade que compromete e transforma toda a sua vida.

Assim sendo, um católico que procura sua esposa na Igreja Católica não está fazendo mais do que subordinar aos seus afetos meramente naturais o afeto sobrenatural devido a Deus e à religião que Ele mesmo instituiu. Não sem razão o Papa Bento XIV usa acima a expressão “torpemente enlouquecidos por um amor doentio”, que é dura, sim, mas que pode ser uma luz para muitas pessoas. Quantos, de fato, não são os que entram em um negócio visivelmente fadado ao fracasso — pois pessoas boas e prudentes já as aconselharam — e, mesmo assim, movidos por um sentimento irracional, terminam “se amarrando” por toda a vida?

Falando de modo mais concreto, os problemas dos casamentos mistos, ou mesmo com disparidade de culto, são brevemente resumidos abaixo por Leão XIII — e quem quer que tenha entrado nesta “empresa” pode dar o seu testemunho de que, salvo exceções, é assim mesmo que as coisas acontecem. Esses relacionamentos:

  1. “impedem a participação comum nas coisas sagradas,
  2. criam perigo para a religião do cônjuge católico,
  3. impedem uma boa educação dos filhos e
  4. muitas vezes levam os ânimos a ter na mesma estima todas as religiões, tirando toda diferença entre o falso e o verdadeiro”.

E não é justamente o que vemos hoje em nossas igrejas? Famílias separadas, filhos que não seguem a religião dos pais, e até pior, pessoas que acham que “tanto faz” pertencer a esta ou aquela religião, desde que se “seja bom” — como se pudéssemos ser bons sem a graça de Deus, que vem a nós pela fé e os sacramentos. Todo esse quadro deve-se em grande parte aos maus casamentos e às famílias despedaçadas pela desunião principalmente em matéria religiosa.

Desfazendo mal-entendidos

Alguém nos interpelará dizendo que “as pessoas podem mudar”, e nós responderemos que sim, é verdade, a graça de Deus pode operar verdadeiros milagres dentro das famílias, principalmente quando seus membros se entregam à oração e à penitência uns pelos outros. Isso é inegável e nós recebemos testemunhos todos os dias dessa verdade. Mas a experiência demonstra também que, em nossa condição decaída, é muito mais fácil que um cônjuge mundano arraste consigo o outro que vai à Igreja do que o contrário.

Alguém poderia perguntar ainda se, após o Concílio Vaticano II, a Igreja não teria mudado seu parecer a esse respeito, aceitando mais facilmente esses relacionamentos. Quanto a isso, é importante desfazer aqui um mal-entendido muito comum: o de que, nas coisas de Deus, “o que valia ontem não vale mais hoje e pode até mudar por completo amanhã”. Mudanças acidentais podem acontecer, é claro — como o Código de Direito Canônico, que efetivamente mudou, trazendo novos cânones sobre os casamentos mistos —, mas a sabedoria da Igreja tem uma linha de continuidade que não pode ser simplesmente rompida.

Veja-se, por exemplo, como o Catecismo da Igreja Católica, ainda que com palavras mais suaves, continua a ensinar a mesmíssima coisa que os Papas Leão XIII e Pio XI ensinaram:

“A diferença de confissão entre os cônjuges não constitui obstáculo insuperável para o casamento, desde que consigam pôr em comum o que cada um deles recebeu em sua comunidade e aprender um do outro o modo de viver sua fidelidade a Cristo. Mas nem por isso devem ser subestimadas as dificuldades dos casamentos mistos. Elas se devem ao fato de que a separação dos cristãos é uma questão ainda não resolvida. Os esposos correm o risco de sentir o drama da desunião dos cristãos no seio do próprio lar. A disparidade de culto pode agravar ainda mais essas dificuldades. As divergências concernentes à fé, à própria concepção do casamento, como também mentalidades religiosas diferentes, podem constituir uma fonte de tensões no casamento, principalmente no que tange à educação dos filhos. Uma tentação pode então apresentar-se: a indiferença religiosa.” [4]

Assim, seja com a linguagem pastoral mais firme de outros tempos, seja com a linguagem mais branda de agora, ouçamos o “cave” da Igreja: não se devem subestimar as dificuldades dos casamentos mistos. Quem já está decidido a entrar em um matrimônio desse tipo e deseja apenas conhecer os trâmites canônicos para tanto, basta consultar os cânones 1124 a 1129 do Código de Direito Canônico, aqui. Mas, para quem ainda está namorando ou pensando em fazê-lo, talvez seja melhor pensar — e rezar — um pouco mais sobre o assunto.

Referências

  1. Papa Bento XIV, Declaração “Matrimonia quae in locis”, 4 nov. 1741: DH 2518.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Arcanum”, 10 fev. 1880, n. 68.
  3. Papa Pio XI, Carta Encíclica “Casti Connubii”, 31 dez. 1930, n. 82-83.
  4. Catecismo da Igreja Católica, §1634.

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E se fosse hoje o dia da sua morte?
Cursos

E se fosse hoje o dia da sua morte?

E se fosse hoje o dia da sua morte?

Um destino eterno aguarda todo homem que vem a este mundo: ou a glória do céu ou a amargura sem termo do inferno. Cabe a nós, no curso da vida presente, decidir para onde queremos ir.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2018
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Os católicos de hoje sofrem de um mal quase desconhecido das gerações passadas: uma total indisposição para pensar na morte e nas realidades que, queiramos ou não, nos aguardam a todos depois dela — os novíssimos.

Derivado do adjetivo latino novum, o termo é um aportuguesamento do superlativo novissimum, que significa o mesmo que “último” ou “final” em alguma ordem de coisas. No sentido em que aqui nos interessa, a expressão “novíssimos” refere-se às realidades últimas que, a partir da morte, estão à espera de todo ser humano: “Em tudo o que fizeres”, diz o Eclesiástico, “lembra-te dos teus novíssimos”, isto é, do teu fim, “e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

Neste derradeiro capítulo de nosso curso “Catequese para Adultos”, Padre Paulo Ricardo faz um estudo sobre a escatologia cristã e explica, de acordo com o que sempre ensinou a Igreja, o que é a morte e o juízo particular que a ela se segue, qual o destino eterno de toda alma e o que acontecerá no fim dos tempos com toda a humanidade.

O teaser acima contém trechos da aula 32, intitulada “Depois da morte vem o juízo”.

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A Igreja Católica é intolerante?
Doutrina

A Igreja Católica é intolerante?

A Igreja Católica é intolerante?

Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Mas condenar a verdade à tolerância é o mesmo que sentenciá-la ao suicídio. Entenda neste texto, extraído de um antigo sermão, em que sentido a Igreja Católica é intolerante.

Cardeal Pie20 de Setembro de 2018
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Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante.

Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade, e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

É da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas.

Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 são 4?

Nada é tão exclusivo, meus irmãos, quanto a unidade. Ouvi a palavra de São Paulo: Unus Dominus, una fides, unum baptisma. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma.

Assim, a unidade divina que resplandece por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico, cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: Se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca.

E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo.

O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o de sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um decreto do senado, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes.

Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie eius, “Eis que surge o Senhor, e os ídolos estremecem diante de sua face” (Is 19, 1).

Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium.

Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo de fé, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática.

Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos de fé? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade.

Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: “Eu sou a verdade”, Ego sum veritas, é necessário, por uma consequência inevitável, que a Igreja de Cristo conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos, meus irmãos, com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil.

Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo de fé o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rousseau foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins.

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras.

A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina, meus irmãos, que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França.

— A que ponto de loucura chegamos então?

— Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis, “Vós sois de vosso pai, o diabo”. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as expressões que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque tendes a unidade e, porque sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

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É possível provar a existência da alma?
Fé e Razão

É possível provar a existência da alma?

É possível provar a existência da alma?

A experiência interna da liberdade é uma prova clara de que a ação humana é especificamente distinta da de um animal ou de um computador e só pode ser explicada por referência a um princípio superior à matéria.

Padre Paulo Ricardo19 de Setembro de 2018
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Podemos provar a existência da alma humana? Dizemos provar, e não demonstrar, porque o que nos importa saber é se é possível, ao menos em certa medida, ter experiência da própria alma, de maneira que a existência dela se nos apresente como um fato provado, ou seja, como realidade vivida e incontestável. Antes porém de analisar a prova, convém entender o método em que ela se baseia.

Partimos aqui da comparação entre o que percebemos dentro de nós e o que vemos nos animais e computadores. Se pudermos constatar que algum fenômeno da interioridade humana — acessível a qualquer pessoa — é inexplicável em termos de pura neurologia animal ou de funções computacionais, então é forçoso reconhecer em nós a existência de um princípio de operações irredutível à matéria.

Visto isso, olhemos primeiro para os animais. Sabemos que a conduta dos demais seres vivos é instintiva; obedece, por assim dizer, a uma “programação” prévia que os determina a agir e reagir de forma padronizada diante de determinados estímulos. Ora, todo ser vivo possui, como instinto básico e inato, a tendência à autoconservação, que se traduz fundamentalmente como busca natural do prazer e repúdio natural da dor.

No caso dos animais irracionais, essa tendência se manifesta de modo mais ou menos automático, desprovida de um momento reflexivo prévio acerca de sua própria finalidade. Ainda que o comportamento animal, sobretudo nas espécies superiores, não seja simples automatismo — reflexo e involuntário —, é evidente que os animais não sabem o que fazem, como o fazem nem por que o fazem, o que revela que a sua conduta não é resultado de eleição. Daí que eles sejam incapazes, por um lado, de renunciar ao que lhes parece bom (um prazer, por exemplo) aqui a agora e, por outro, de considerar como um bem o que apreendem como mal (uma situação de perigo, uma dor etc.).

O ser humano, ao contrário, pode transcender e pôr entre parênteses sua tendência à autoconservação, reorientando livremente seus desejos e receios. De fato, todos nós experimentamos dia após dia essa liberdade interior, que nos permite atuar e escolher com relativa independência da nossa “programação” biológica e cerebral. Não estamos, noutras palavras, obrigados a agir conforme os impulsos de um desejo, já que podemos a qualquer momento pôr em cheque a bondade, a conveniência, a oportunidade, a possibilidade etc. daquilo que desejamos.

É por isso que somos capazes de renúncia, de sacrifício, de nos propor ideais e, inclusive, de nos sentir angustiados ante o horizonte de alternativas possibilitadas pela nossa vontade [1].

Esse livre dinamismo da conduta humana também evidencia que o homem não se comporta como um computador. Um computador, com efeito, só pode funcionar a partir do que já possui, ou seja, limitando-se ao que faz parte da sua configuração. Um computador só pode alterar a própria programação ou “aprender” novos comandos ou soluções se essas possibilidades já fizerem parte de sua estrutura, elaborada sempre por alguém distinto do mesmo computador.

Tudo isso nos indica claramente que a liberdade, um fenômeno que qualquer pessoa pode verificar dentro de si, está vinculada a uma dimensão do ser humano que não é material, que não encontra explicação plausível em nenhuma condição ou lei física, química, biológica ou eletrônica. A existência de um princípio interno e imaterial surge, assim, como exigência necessária para poder explicar a especificidade do nosso agir livre, o qual só pode ser efeito da atuação de uma alma espiritual.

“Esta afirmação”, obviamente, “em nada se opõe às leis naturais nem ao espírito científico; simplesmente afirma que, junto com as dimensões que podem ser estudadas pela ciência experimental, existem outras (as espirituais) que, por transcenderem o âmbito natural, também transcendem o âmbito das ciências. Trata-se, porém, de dimensões reais, que devem ser admitidas para explicar os dados da experiência” [2], realizável por qualquer um, e inclusive da própria ciência como atividade humana.

Referências

  1. Cf. J. A. García Cuadrado, Antropología Filosófica. 6.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2014, pp. 160-162.
  2. Mariano Artigas, Filosofía de la Naturaleza. 5.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2003, p. 272.

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Os leigos e a crise na Igreja
Espiritualidade

Os leigos e a crise na Igreja

Os leigos e a crise na Igreja

Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja, os fiéis leigos não só podem, como devem “pregar”, especialmente em tempos como os nossos.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2018
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Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja (o Papa e os bispos em si mesmos, e padres e diáconos por extensão), os leigos não só podem, como devem “pregar”. Neste tempo de grande confusão entre os próprios membros da hierarquia, que supostamente deveriam exercer esse ofício, a “pregação” do laicato  — incluindo sua maciça presença na internet — assume uma importância ainda maior.

Esse tema já foi abordado pelo Papa Leão XIII em sua carta encíclica Sapientiae Christianae, de 1890. Tendo recordado que cabe ao episcopado ensinar com autoridade em nome de Cristo, o Papa afasta uma falsa conclusão que disso se poderia extrair:

Não pense ninguém que ficou proibido aos particulares cooperar com alguma diligência nesse ministério de ensinar, principalmente aos homens a quem Deus concedeu dotes de inteligência junto com o desejo de serem úteis ao próximo. […] ‘A todos os fiéis cristãos, principalmente àqueles que tem superioridade e obrigação de ensino, suplicamos pelas entranhas de Jesus Cristo, e em virtude da autoridade deste mesmo Senhor e Salvador nosso lhes ordenamos, que apliquem todo o seu zelo e trabalho em desviar esses erros e eliminá-los da luta da Igreja, e difundir a luz puríssima da nossa fé’ (Concílio Vaticano I, Cons. Dogm. Dei Filius).

Por fim, lembrem-se todos que podem e devem disseminar a fé católica com a autoridade do exemplo e pregá-la com uma profissão constante. Desse modo, nos deveres que nos ligam com Deus e com a Igreja está em primeiro lugar o zelo com que cada qual deve trabalhar segundo as suas forças em propagar a doutrina cristã e refutar os erros.

Quando uma pessoa é batizada, ela é introduzida no múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo Senhor (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 901-913): é o que denominamos “sacerdócio universal dos fiéis”. Devido ao caráter sacramental impresso na essência de suas almas, os cristãos têm o poder de oferecer a Deus seus corpos e almas, seus trabalhos e sofrimentos — o mundo inteiro, enfim, que geme por salvação. Esse ato de auto-oblação, em união com o Salvador da humanidade, e de esforço por conduzir as realidades temporais à sua finalidade evangélica, deve penetrar todos os aspectos da vida diária do cristão, ainda que ele sempre venha a encontrar a resistência do mundo, da carne e do diabo.

É assim também que Santo Tomás de Aquino entende os efeitos do sacramento da Confirmação (cf. Suma Teológica, III, q. 72): a todo cristão, em virtude do caráter sacramental conferido por essa unção, é dada a força para testemunhar publicamente a única fé verdadeira, seja pelo exemplo de vida, seja pela pregação e a apologética, seja por qualquer outro tipo de testemunho, inclusive o do sofrimento silencioso.

Para o laicato, assim como para as pessoas que estão na vida religiosa, pregar obviamente não significa uma pregação formal no contexto da liturgia. Mas, se tivermos um entendimento mais profundo de pregar como levar o Evangelho ao mundo e torná-lo vivo pela graça de Deus, veremos que não há limites para o número de maneiras através das quais a Boa Nova pode ser espalhada e compartilhada com as pessoas.

Cada religioso ou religiosa contemplativa que reza para a verdadeira reforma da Igreja, para a purificação e santificação do clero, bem como para o sucesso dos leigos em seu trabalho cristão no meio do mundo, pôe-se a serviço da missão apostólica de pregar. Sem as orações dos contemplativos, essas boas obras jamais se multiplicariam ou viriam a dar muitos frutos.

A mãe e o pai de família que ensinam seus filhos sobre Deus, que os introduzem na vida de Jesus, de sua Mãe e dos santos, são verdadeiros anunciadores da Boa Nova, transmissores do depósito da fé, “mestres da verdade e pregadores da graça”, como São Domingos. Através de um direito e um dever ao mesmo tempo natural e dado por Deus, eles servem como os primeiros catequistas e pregadores da fé a seus filhos e, nesse sentido, eles possuem um direito e um dever de transmitir a ortodoxia e afastar a heresia, que não podem ser removidos nem substituídos por pastor algum da Igreja — ainda que seja também verdade que o laicato permanece sob a guia e a autoridade magisterial de seus pastores, responsáveis que são por transmitir a palavra da verdade.

A pregação àqueles afundados no erro ou na descrença deve ser, no mais das vezes, ou apologética ou argumentativa, tentando mostrar a essas pessoas a verdade da posição católica. Mas também precisa fomentar as questões para as quais só o Evangelho — ou melhor, a Pessoa mesma de Cristo — pode dar respostas definitivas. Devido à disseminação do materialismo científico e comercial, existe hoje uma tremenda ignorância das realidades espirituais, uma falta de admiração a respeito de Deus e da alma, uma falta do tipo de questões que constituem terreno fértil para a graça da conversão. O convite a um banquete não é atrativo senão quando se tem fome e sede.

A pregação àqueles que já são católicos, seja os de nome, seja os que estão à margem, seja aos confusos, seja aos sinceros, tenderá a ser, por outro lado, expositiva e exortativa, um esforço por conduzir essas pessoas a um entendimento mais profundo, bem como a uma integração mais consistente de fé e vida. Os melhores “pregadores” leigos devem encontrar modos de acender nos católicos uma consciência do imenso caudal de graças que eles receberam no Batismo — sobretudo, o poder de receber Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na Santa Comunhão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 56), e a tremenda misericórdia do sacramento da Confissão, por meio do qual o mesmo sangue lava os nossos pecados e restaura ou aumenta a graça em nossas almas.

Em tudo isso, nós podemos ver o enorme poder e responsabilidade do jornalismo e das publicações católicas em todos os meios de comunicação. Esse trabalho é parte da missão evangelizadora da Igreja, um verdadeiro apostolado de repassar a fé católica recebida.

Então, da próxima vez que você for tentado a reclamar de uma homilia ruim que escutou ou de um pastor que não está vivendo de acordo com seu ofício de pregador (seja porque ele está dizendo falsidades, sem falar nada de substancial, seja porque está vivendo de uma maneira que contradiz a fé católica), faça uma pausa, olhe para dentro de si mesmo e pergunte-se como anda a sua própria “pregação”: seu compromisso com a vida de oração, seu bom exemplo e suas obras de testemunho.

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