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A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman
Igreja Católica

A falta de fé, profetizada
por São John Henry Newman

A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman

O perigo especial de nossa época é a difusão da praga da falta de fé, que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja.

São John Henry NewmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 10 minutos
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A transmissão da verdade de uma geração à outra é, obviamente, a principal razão por que se instituem seminários destinados à educação do clero. 

O cristianismo é uma ideia religiosa. Sobre-humana em sua origem, ela difere de todas as outras religiões. Como o homem difere do quadrúpede, da ave ou do réptil, assim o cristianismo difere das superstições, heresias e filosofias ao seu redor. Ele possui uma teologia e um sistema ético próprios, que constituem sua indestrutível identidade. Como assegurar e perpetuar no mundo esse dom do alto? Como preservar para o povo cristão esse dom, tão especial, tão divino, e que tão facilmente se perde ou se esconde em meio às falsidades que se impõem e abundam no mundo? 

A providência divina é a seguinte. Cada círculo de cristãos tem o seu próprio sacerdote, que é o representante da mensagem divina para esse círculo, em seus aspectos teológicos e éticos. Ele ensina o povo, catequiza seus filhos, trazendo todos e cada um deles àquela forma de doutrina, que é a sua própria. 

Mas a Igreja é formada por vários desses círculos. Como assegurar que todos eles professem uma única e mesma doutrina? E que ela seja a dos Apóstolos? 

Da seguinte forma: pela regra de que seus respectivos sacerdotes devem todos ser ensinados por um único e mesmo centro, ou seja, por seu pai comum, o bispo da diocese. Eles são educados em uma escola, isto é, em um seminário; sob a regra, pela voz e o exemplo do único pastor de todos esses grupos ou círculos de cristãos, dos quais eles todos no futuro serão os professores. A doutrina católica, a moral católica, o culto e a disciplina católicas, o caráter, a vida e a conduta cristãs, tudo o que é necessário para ser um bom sacerdote, todos e cada um deles o aprendem nessa escola religiosa, que é a preparação designada para os ofícios ministeriais. 

Assim como os jovens são preparados para sua vocação secular por escolas e professores que lhes ensinem o que ela requer, como as escolas clássicas e as comerciais, os professores de cada profissão e os de várias artes e ciências, assim também os ministros sagrados da Igreja se tornam verdadeiros representantes de seu bispo quando são designados ao cuidado do povo cristão, porque eles provêm de um único centro de educação e da tutela de uma cabeça.

É por isso que Santo Inácio, o bispo mártir de Antioquia, no primeiro século da Igreja, falando da hierarquia eclesiástica e comparando a união das Ordens sacras com o bispo, refere-se a uma cítara em perfeita sintonia. Ele escreve em sua Epístola aos Efésios (n. 4): 

Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute.

E se, em todos os tempos, essa simples unidade, esse entendimento perfeito dos membros com a cabeça, é necessário para a ação salutar da Igreja, nestes tempos perigosos ela é especialmente necessária. Sei que todos os tempos são perigosos, e que, em cada época, mentes sérias e aflitas, vivamente atentas à honra de Deus e às necessidades do homem, são capazes de considerar que nenhuma época é tão perigosa quanto a sua. Em todos os tempos o inimigo das almas ataca com fúria a Igreja, que é verdadeira mãe delas, e, se não consegue lhe causar prejuízo, ao menos a ameaça e aterroriza. E todos os tempos têm suas provações especiais, que outros não têm. Vou ao ponto de admitir que havia certos perigos, específicos aos cristãos de outras épocas, que hoje não mais existem. 

Mesmo assim, considero que as provações que se nos afiguram são tais que assustariam e deixariam atordoados até mesmo corações corajosos como Santo Atanásio, São Gregório Magno ou São Gregório VII. E eles confessariam que, por mais obscura que várias vezes lhes parecesse a perspectiva de seu tempo, o nosso tem uma escuridão de um tipo diferente de qualquer outra que tenha existido antes.

O perigo especial do tempo que temos diante de nós é a difusão desta praga da falta de fé [1], que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja. E está sobrevindo ao mundo uma sombra, pelo menos, uma imagem típica dos últimos tempos. Eu não pretendo presumir que estes tempos são os últimos; eles têm a má prerrogativa, no entanto, de se parecerem com aquele período mais terrível, do qual se diz que os próprios eleitos correrão o risco de se perderem [...].

Estou falando de males que, em sua intensidade e extensão, são peculiares destes tempos. Mas não falei ainda da raiz de todas essas falsidades — que sempre esteve escondida, mas nesta época foi deixada à vista e desavergonhadamente confessada —, ou seja, desse mesmo espírito de falta de fé, ao qual me referi como ao grande mal dos nossos tempos e do qual as objeções que nós constantemente ouvimos e ouviremos serem feitas ao cristianismo ganham sua plausibilidade [2].

A proposição elementar dessa nova filosofia, agora tão ameaçadora, é a seguinte: que em todas as coisas nós devemos ir pela razão, e em nada pela fé; que as coisas são conhecidas e devem ser recebidas à medida que puderem ser provadas. Todos os outros conhecimentos têm provas, dizem seus defensores, por que a religião deveria ser uma exceção? E o modo de prova é avançar do que sabemos para o que não sabemos, de fatos sensíveis e tangíveis para conclusões seguras. O mundo perseguiu o caminho da fé no que diz respeito à natureza física, e o que adveio disso? Até trezentos anos atrás eles acreditavam, porque era essa a tradição, que os corpos celestes estavam fixos em esferas cristalinas sólidas e se moviam ao redor da terra no curso de 24 horas! Por que aquele método que tanto fez no campo da física não poderia beneficiar também esse conhecimento superior que o mundo acredita ter ganhado através da revelação? Não há revelação alguma de cima. Não há exercício de fé algum. Ver e provar são a única base para crer. Eles vão adiante dizendo que, como a prova admite graus, dificilmente se pode ter uma demonstração fora da matemática; nós não podemos ter jamais um simples conhecimento que seja; as verdades são apenas probabilidades. Assim, a fé se torna um erro de duas formas: primeiro, porque usurpa o lugar da razão e, segundo, porque implica um assentimento absoluto a doutrinas, e isso é dogmático, e assentimento absoluto é irracional. Do mesmo modo você encontrará, certamente no futuro, mas — que digo? — mesmo agora, mesmo agora, que os escritores e pensadores do momento sequer acreditam que Deus existe. Eles não acreditam tampouco no objeto — um Deus pessoal, uma Providência e um Governador moral; e, em segundo lugar, aquilo em que eles acreditam, isto é, que há alguma causa primeira ou outra, eles não o sustentam com fé, absolutamente, mas como uma probabilidade.

Vós me direis que suas teorias têm estado no mundo e não são coisa nova. Não. Indivíduos já a tinham trazido à luz, mas elas não eram ideias correntes e populares. O cristianismo não teve jamais a experiência de um mundo simplesmente irreligioso. Talvez a China seja uma exceção. Nós não a conhecemos o suficiente para dizer, mas considerai o que era o mundo greco-romano quando o cristianismo apareceu. Ele era repleto de superstição, não de infidelidade. Havia bastante descrença em todos, quanto à mitologia, e em cada homem instruído, quanto ao castigo eterno. Mas não havia um expurgo da ideia de religião, nem de poderes invisíveis que governavam o mundo. Quando eles falavam do fado (do destino), mesmo aqui eles consideravam que havia uma grande regência moral do mundo, governada por leis inexoráveis. Seus primeiros princípios eram os mesmos que os nossos. Mesmo em meio aos céticos de Atenas, São Paulo podia apelar ao Deus desconhecido. Mesmo à população ignorante de Listra, ele podia falar do Deus vivo que do céu lhes fazia o bem. E, então, quando mais tarde vieram os bárbaros do norte, eles, em meio a todas as suas superstições, acreditavam numa Providência invisível e na lei moral. Nós, porém, estamos nos aproximando de uma época em que o mundo não reconhece nossos primeiros princípios [...].

Que a disciplina de um seminário seja exatamente o necessário para confrontar o atual estado das coisas, não é preciso que seja eu a sugeri-lo [...]. O seminário é a única verdadeira garantia da criação de um espírito eclesiástico. E é essa a primeira arma de verdade para confrontar a época, não a controvérsia. É claro que todo católico deve ter uma abordagem inteligente da própria religião, como diz São Pedro, mas ainda assim a controvérsia não é o instrumento por meio do qual se deve resistir ao mundo e vencê-lo. E isso nós podemos ver se estudarmos essa epístola, que traz consigo uma autoridade própria, por ter sido colocada pelo Espírito Santo na boca do chefe dos Apóstolos. O que ele diz a todos os cristãos, é especialmente conveniente aos sacerdotes. De fato, ele a escreveu em um tempo durante o qual os deveres tanto de uns quanto de outros, contra o mundo pagão, eram os mesmos. Em primeiro lugar, ele os recorda do que eles realmente eram enquanto cristãos, e com certeza nós devemos tomar essas palavras como especialmente dirigidas a nós, do clero. “Vós sois uma geração escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus…” (1Pd 2, 9). 

Nesse espírito eclesiástico, limitar-me-ei a mencionar um espírito de seriedade ou recolhimento. Nós devemos adquirir o hábito de sentir que estamos na presença de Deus, que Ele vê o que o estamos fazendo; e um gosto de que Ele o faça, um amor por esse conhecimento, um prazer nesta reflexão: “Vós, Senhor, me vedes”. Um sacerdote que sinta isso profundamente não se comportará mal em uma sociedade misturada. Isso o guardará da familiaridade excessiva com quaisquer do seu povo; o guardará das muitas palavras, do falatório néscio ou imprudente; o ensinará a ordenar os seus pensamentos. Será um princípio de desapego entre ele e até mesmo seu próprio povo; pois aquele que se habituou a confiar no Deus Invisível, jamais será capaz de se apegar realmente a qualquer de suas criaturas. E assim se criará uma elevação da mente, que é a verdadeira arma que ele deve empunhar contra a falta de fé do mundo (daí o que diz São Pedro em 1Pd 2, 12.15; 3, 16).

Eis o que eu considero ser a verdadeira arma com que a falta de fé do mundo deve ser combatida. 

E, por fim, mais importante na mesma guerra, e aqui também vereis como ela está ligada ao seminário, é um conhecimento sadio, correto e completo da teologia católica. Isso, ainda que não seja controverso, é a melhor arma (depois de uma vida santa) na controvérsia. Qualquer criança bem instruída no catecismo é, mesmo que não o pretenda, uma verdadeira missionária. E por quê? Porque o mundo está cheio de dúvidas e incertezas, e de doutrina inconsistente — e uma ideia claramente consistente da verdade revelada, pelo contrário, não pode ser encontrada fora da Igreja Católica. Consistência e plenitude são um ótimo argumento para persuadir da verdade de um sistema. Se não for consistente, ele não é verdadeiro. 

Referências

  • [São] John Henry Newman. The Infidelity of the Future (Opening of St. Bernard’s Seminary, 2nd October 1873). in: Faith and Prejudice and Other Unpublished Sermons. New York: Sheed & Ward, 1956, pp. 114-128.

Notas

  1. A expressão infidelity é central para este sermão, constando inclusive de seu título. Nesta tradução, achamos por bem vertê-la para “falta de fé”, ao invés de seu cognato “infidelidade”, porque a expressão traduz melhor a apostasia ilustrada por Newman (Nota da Equipe CNP).
  2. Aqui e em um outro trecho mais abaixo, fizemos algumas leves adaptações na tradução, com vistas à clareza e ao melhor entendimento do texto (Nota da Equipe CNP).

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Isto não é misericórdia!
Igreja Católica

Isto não é misericórdia!

Isto não é misericórdia!

Infelizmente prevalece hoje, na cultura assim como na Igreja, uma falsa ideia de misericórdia, segundo a qual os pecados dos outros não devem ser corrigidos. O verdadeiro “pecado” seria “ofender” as pessoas com a verdade do Evangelho.

Gina SowerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 30-37).

Ao final desta parábola, Jesus nos diz que, se quisermos ser como o bom samaritano, devemos tratar as pessoas com misericórdia. Contudo, prevalece não apenas em nossa cultura, mas também na Igreja uma falsa ideia de misericórdia

Ouvimos falar com frequência em misericórdia, quase com a mesma frequência com que ouvimos falar em amor. Não me entenda mal. Como católica, aceito plenamente o amor e a misericórdia. São palavras que deveriam definir qualquer um que se considere católico. O problema está na incapacidade de definir o verdadeiro significado dessas palavras e como elas deveriam ser implementadas em nossas vidas. Infelizmente, para muitas pessoas, misericórdia significa aceitar o comportamento pecaminoso do outro e considerar que o verdadeiro “pecado” é “ofendê-lo” com a verdade do Evangelho.

As ações do bom samaritano foram misericordiosas justamente porque ele viu as feridas do outro e não lhes fez vista grossa. A verdadeira misericórdia não significa ignorar as necessidades do próximo, mas oferecer um remédio para sua doença, a exemplo do bom samaritano. A misericórdia, assim como o amor, é orientada para o bem verdadeiro do outro, particularmente para o bem de sua alma. Não tem nada a ver com aceitar o estilo de vida de outra pessoa, se ele estiver na contramão de sua salvação.

A maioria de nós não vê problema em agir com misericórdia quando lidamos com necessidades físicas. Por exemplo, ninguém tem medo de alimentar os pobres ou de vestir os nus. As obras corporais de misericórdia são, em sua maioria, bem vistas na nossa cultura. São as obras espirituais de misericórdia (por exemplo, advertir os pecadores) que se consideram intolerantes ou mesmo odiosas. Nossa cultura vê a misericórdia como uma aceitação do pecado, embora a verdadeira misericórdia liberte as pessoas da escravidão do pecado e da morte. A misericórdia está em enxergar a alma ferida e lhe oferecer um remédio verdadeiro.  

É um fato triste, mas a distorção da misericórdia infiltrou-se na Igreja. Em vez de influenciar a cultura, é a cultura que tem influenciado a Igreja. Se quisermos contornar a situação e ver as verdades de nossa fé influenciarem a cultura, então teremos de começar mostrando a verdadeira misericórdia, particularmente aos que não tiveram a sorte de ouvir falar dela.

Há algum tempo, levei a uma palestra sobre pureza uma adolescente rebelde com quem tenho parentesco. Fiquei hesitante em convidá-la por causa de todas as razões normais, como o medo da rejeição e a preocupação com o que ela e outros membros da família poderiam pensar. Finalmente, tomei coragem para convidá-la e, para minha surpresa, ela foi. Jamais esquecerei como ela me olhou depois da palestra e disse: “Como gostaria de ter aprendido isso antes”. Por um lado, fiquei empolgada porque se lhe abriram os olhos: as mentiras foram destruídas por palavras de misericórdia e de verdade. Ao mesmo tempo, porém, fiquei desolada por ela ter levado tanto tempo para ouvir aquilo. 

É triste o fato de muitos católicos serem como minha parente. Também lhes venderam as mentiras de nossa cultura. Fico desconcertada com o fato não se dizer nada nas paróquias para ajudar a maioria dos leigos, que sucumbiram aos ideais do mundo e se encontram em estado de pecado mortal. Por exemplo, a maioria dos católicos hoje usa contraceptivos, vive na fornicação e muitos já abriram mão de questões como sodomia e aborto, considerando-as perfeitamente aceitáveis — sem falar que quase 75% deles não creem na presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote ou o bispo que ignora as almas feridas da maioria de seu rebanho pode ser comparado ao sacerdote da parábola do bom samaritano, que viu o homem sangrando e largado para morrer, mas ainda assim escolheu ignorá-lo. Pensemos em quantas almas poderiam ser convertidas se bispos, sacerdotes e leigos parassem de ficar com medo e tivessem a coragem de agir com metade da franqueza de nossos oponentes. Porém, não somos corajosos porque tememos a possibilidade de as pessoas não gostarem de nós; temos medo de ofender e afastar da fé os católicos de nome.

Recentemente, eu e meu marido tivemos de lutar contra todos esses temores quando fomos convidados para participar do “casamento” de um parente que estava tentando se casar com uma pessoa divorciada duas vezes.

Amamos muito as duas pessoas, mas não poderíamos confirmar a participação na cerimônia sem saber se matrimônios ou tentativas de matrimônio anteriores haviam sido declarados nulos. Minha maior preocupação não era tanto com o que outras pessoas pensariam de nós, mas com a possibilidade de seu recente interesse pelo catolicismo desaparecer por não participarmos da cerimônia. Antes do evento, meu marido e eu explicamos a eles nossa preocupação e o que a Igreja ensina sobre um relacionamento como o deles. A conversa foi boa, mas ainda assim eu fiquei preocupada com a possibilidade de nos tornarmos a causa da perda de seu interesse pelo catolicismo. 

Pouco depois de nossa decisão de não ir à cerimônia, deparei com a história do jovem rico em Mc 10, 17-31. Depois de refletir sobre a passagem, percebi que, embora houvesse a possibilidade de aquele casal perder o interesse pela Igreja, perante Deus ainda tínhamos o dever de ser honestos com eles quanto à doutrina da Igreja e à razão pela qual não poderíamos participar da cerimônia. Vejamos cuidadosamente a resposta de Jesus depois de o jovem rico lhe perguntar o que devemos fazer para nos salvar e como o jovem reagiu:   

Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ele entristeceu-se com essas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens (Mc 10, 21-22).

Reparemos no seguinte. Antes de Jesus dizer a verdade ao homem, a passagem diz: “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe…”. Vemos que foi o amor que levou Jesus a dizer a esse jovem algo que ele não queria ouvir. O fato de que o jovem tinha a liberdade de ir embora não impediu Jesus de lhe contar a dura verdade sobre sua situação espiritual. Jesus sabia que o jovem amava sua riqueza mais do que a Ele, e que seu amor ao dinheiro era um obstáculo à sua salvação. Como podemos ver no versículo seguinte, o jovem não aceita o convite de Jesus e prefere o amor ao dinheiro ao amor a Deus. Se quisermos agir com verdadeira misericórdia, temos de fazer como Jesus, amor e misericórdia encarnados: oferecer a cura, mesmo que ela possa ser rejeitada.  

No final da parábola do bom samaritano, Jesus nos instrui a ir e oferecer o mesmo tipo de misericórdia que o bom samaritano ofereceu ao próximo. Nem sempre é fácil agir com misericórdia ou ser tratado com misericórdia, porque ela trará as marcas de Cristo crucificado. Jesus não ressuscitou dos mortos sem antes ter sido crucificado e morto. A misericórdia de Deus está em Ele ir nos purificando a fim de nos tornarmos semelhantes a Ele, e isso não acontecerá se não seguirmos seus passos. Nós também devemos morrer para que Ele possa viver e reinar em nossas almas. Este é o maior dos gestos de misericórdia, e é a mesma misericórdia que devemos ter com o nosso próximo. Caso contrário, não será misericórdia.  

A santa Igreja Católica é, de fato, a maior estalajadeira de toda a história, pois ela transmite a plenitude da verdade e, por meio de seus sacramentos (que comunicam a verdadeira misericórdia), fornece óleo e vinho para limpar, atar e curar as almas feridas. Paremos de ocultar o significado da misericórdia e comecemos a partilhá-lo com quem está fora da Igreja. Sejamos realistas sobre quem Jesus é e a misericórdia que Ele deseja nos dar

“Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 37).

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Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto
Pró-Vida

Cem anos atrás,
a Rússia comunista legalizava o aborto

Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto

18 de novembro de 1920: há um século, o aborto era legalizado na Rússia soviética — episódio marcante e com consequências terríveis, para todo o mundo. Os socialistas bolcheviques liberaram a prática assim que tomaram o poder.

Paul KengorTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Há cem anos, no dia 18 de novembro de 1920, o regime bolchevique na Rússia soviética legalizava o aborto — episódio marcante de um dia de infâmia, com consequências terríveis, para a Rússia e para o mundo [1].

A prática foi legalizada pelos bolcheviques logo depois de eles tomarem o poder. Sua revolução começou em São Petersburgo, em outubro de 1917, seguida imediatamente de uma brutal guerra civil entre 1918 e 1921, que, segundo o historiador W. Bruce Lincoln, ceifou a vida de 7 milhões de homens, mulheres e crianças russas. Mas isso não foi nada comparado com as mortes de nascituros que começaram a ocorrer quando os bolcheviques legalizaram o aborto em novembro de 1920.

Curiosamente, no regime bolchevique os russos não eram livres para ter uma fazenda, uma fábrica, uma empresa, uma conta bancária, nem para ir à igreja. Os comunistas tomaram os casacos de pele e as contas bancárias das mulheres russas. Os bebês já não podiam ser batizados. E mesmo assim o céu era o limite quando se tratava de realizar um aborto (ou de divorciar-se). Havia plena liberdade nessa área tão particular.  

Em novembro de 1920, após subverter a nação e matar (literalmente esquartejar) toda a família Romanov em julho de 1918, os bolcheviques honraram a promessa feita por Vladimir Lênin em junho de 1913 (publicada no Pravda) de “anular incondicionalmente todas as leis contrárias ao aborto”. Como suas crias progressistas viriam a fazer mais tarde no Ocidente, os soviéticos publicaram seu decreto usando como pretexto a “saúde das mulheres”. O decreto de Lênin foi intitulado: “Sobre a Proteção da Saúde das Mulheres”. O aborto tornou-se plenamente disponível e gratuito para as russas. 

Como geralmente acontece quando um certo vício é legalizado, a sociedade passou a ver mais dele — e, então, ainda mais. O número de abortos disparou. Surpreendentemente, por volta de 1934 as mulheres de Moscou realizavam três abortos para cada bebê nascido vivo — números chocantes que as mulheres norte-americanas nunca alcançaram, mesmo depois de Roe vs. Wade [n.d.t.: a decisão judicial de 1973 que legalizou o aborto nos Estados Unidos]. 

A situação fugiu tanto do controle, que até a eugenista Margaret Sanger ficou surpresa. Como muitos peregrinos políticos e progressistas simpáticos ao regime soviético daquela época, a matrona da Planned Parenthood peregrinou até a URSS na década de 1930 para aprender com o “grande experimento” soviético — como disse John Dewey, o “pai moderno da educação experimental”. Alguns dos admiradores eram George Bernard Shaw, colega de Sanger, e H. G. Wells, namorado dela (um dos muitos que ela teve, mesmo sendo casada). Sanger foi até a URSS no verão de 1934. Ela fora seduzida pelos avanços de Lênin e Stálin no campo do controle de natalidade e falou sobre eles com entusiasmo na edição de junho de 1955 de seu jornal, Birth Control Review, num artigo chamado Birth Control in Russia [“Controle de Natalidade na Rússia”]. 

Vladimir Lênin.

“Teoricamente, não há na Rússia obstáculos para o controle de natalidade”, escreveu Sanger maravilhada. “Ele é aceito […] por razões de saúde e por ser considerado um direito humano”. Mostrando estar muito à frente de seu tempo, ela disse o seguinte sobre os Estados Unidos: “Poderíamos muito bem seguir o exemplo da Rússia, onde não há restrições legais e nenhuma condenação religiosa, e onde a instrução sobre o controle de natalidade é parte das políticas de bem-estar regulares do governo”. 

Levou algum tempo até que os progressistas americanos alcançassem as políticas de Stálin sobre controle de natalidade, mas eles já chegaram lá.

Curiosamente, no entanto, embora Sanger tivesse uma visão muito positiva do controle populacional na Rússia, ela ficou horrorizada com a repentina proliferação do aborto, que pareceu ter piorado tão rápido a ponto de os planejadores centrais bolcheviques não saberem quantos abortos estavam sendo realizados. “O número total é desconhecido”, relatou ela, “mas só em Moscou o número é estimado em cerca de 100.000 por ano”.

Joseph Stálin tinha uma estimativa. Na verdade, a proliferação de casos o preocupava. Em 1936, a taxa de abortos era tão espantosa, que um horrorizado Stálin (que não era exatamente um grande humanista) tentou controlar a situação. Ele proibiu o aborto naquele ano, havendo ponderado seriamente que, se aquela loucura continuasse, a Rússia não teria futuro. 

Para ficar claro: nem todos os companheiros de Stálin concordavam com ele. Seu antigo aliado, León Trótski, então em exílio forçado, protestou com veemência. Em seu livro A Revolução Traída, Trótski insistiu na ideia de que “o poder revolucionário havia dado às mulheres o direito ao aborto” como “um de seus mais importantes direitos civis, políticos e culturais”. Isso estava implícito na visão de Trótski a respeito da “nova família”. Para realizá-la, disse ele, “a antiga família continua a se dissolver de forma muito mais rápida”. Não há nada melhor do que o aborto para ajudar nessa dissolução

“Não é possível abolir a família”, ensinava Trótski. “É necessário substituí-la.”

Trótski estava aperfeiçoando Marx e Engels, que declararam no Manifesto Comunista: “Abolição da família! Mesmo os mais radicais se exaltam com essa infame proposta dos comunistas”.

Como o processo dessa abolição não estivesse avançando na velocidade devida — ao contrário do que aconteceu à propriedade privada, ao capital e a “toda a moralidade” (nas palavras de Marx e Engels —, os bolcheviques estavam dispostos a dar um empurrão

Por fim, prevaleceu entre os comunistas o ponto de vista de Trótski, o qual literalmente durou mais que Stálin, que se encontrou com o Ceifador em 5 de março de 1953. Após a morte de Stálin, o aborto foi rapidamente legalizado outra vez. Nikita Khrushchev, mais progressista, pôs as coisas em ordem de novo em 1955, revertendo a proibição do aborto determinada por Stálin, permitindo assim que as taxas de aborto chegassem a um patamar jamais visto na história humana. O professor H. Kent Geiger, uma fonte confiável do fim da década de 1960, relatou o seguinte numa obra publicada pela Harvard University Press: “É possível encontrar mulheres soviéticas que fizeram vinte abortos”.

Na década de 1970, segundo estatísticas oficiais do Ministério da Saúde Soviético, era feita na URSS uma média de 7 a 8 milhões de abortos por ano, aniquilando futuras gerações inteiras de crianças russas. Foi só há pouco tempo, no governo de Vladimir Putin, que enfrentou a projeção de decréscimo populacional de 140 milhões de russos no ano 2000 para 104 milhões em 2050 (segundo projeções da Organização Mundial da Saúde), que a Rússia pôs restrições ao aborto e criou políticas para incentivar a fertilidade.

Pensemos nestes números: 7 ou 8 milhões de aborto por ano! Muitas vezes enfatizamos, perplexos, o número de russos mortos na I Guerra Mundial (mais do que qualquer outra nação), na II Guerra (ao menos 20 milhões; outra vez, mais do que qualquer outra nação), ou que foram mortos por seus próprio governo por meio dos expurgos, da fome e dos gulags. O número total de cidadãos soviéticos mortos por causa do comunismo varia entre 20 milhões (segundo o Livro Negro do Comunismo) e 60 ou 70 milhões “aniquilados somente por Stálin” (segundo Alexander Yakovlev).

Mesmo assim, o número total de vítimas do aborto soviético é campeão. Estamos falando de aproximadamente 70 ou 80 milhões de abortos na URSS apenas na década de 1970

Agora entendemos por que Nossa Senhora de Fátima voltou seus olhos para a Rússia bolchevique com preocupação e dor maternais. Trata-se de uma tragédia difícil até mesmo de ser compreendida.  

Naturalmente, essa compulsão pelo aborto legal não era de modo algum uma simples aberração no regime bolchevique. Os comunistas geralmente defendiam o aborto com agressividade. Muito antes de os esquerdistas americanos pró-aborto promoverem slogans como: “Isso é meu corpo” (algo assustador, pois é uma inversão exata das palavras sacrificiais de Jesus Cristo), “Meu corpo, minha escolha”, ou “Mantenha suas mãos longe do meu corpo”, na década de 1920, as mulheres comunistas na Alemanha encorajavam o aborto por meio do slogan: “Seu corpo pertence a você”. Os comunistas estavam décadas à frente dos progressistas americanos em muitas áreas (inclusive na promoção de mudanças radicais na sexualidade), mas estes finalmente terminaram alcançando aqueles.

Até hoje os países com as mais elevadas taxas de aborto ainda são comunistas ou deixaram de sê-lo só recentemente: Rússia, Cuba, Romênia, Vietnã, China. É claro que nenhum país superou a perversidade da China contra os nascituros. Muitos dos abortos feitos na China (senão a maioria) foram forçados pela política do filho único, implantada pelo governo há mais de 40 anos. Tratou-se de um dos maiores ataques à vida familiar já realizados por um governo. É difícil calcular a taxa de mortalidade dessa política, e mais ainda assimilá-la mental e politicamente.  

Em consonância com a filosofia comunista, tais políticas pró-aborto foram apresentadas como uma “emancipação” das mulheres. Um dos acontecimentos mais horríveis que acompanho e sobre o qual escrevo é a falsa alegação de que o comunismo fez bem às mulheres, promovida pela esquerda nas universidades. É algo tão perverso, que incluí em meu livro O guia politicamente incorreto do comunismo um capítulo sobre o tema. Recebo com regularidade mensagens de jovens angustiados dizendo que algum professor (ou o New York Times) lhes disse que o comunismo é uma libertação fantástica para as mulheres. 

Percebi isso pela primeira vez cerca de vinte anos atrás, quando analisava uma pesquisa sobre textos cívicos de alunos do Ensino Médio. Revisei dezenas de textos usados por distritos escolares em todo o país. Aqueles textos não apresentavam nenhuma condenação ao que o comunismo fazia com as mulheres; ao contrário, elogiavam-no como algo positivo para elas. Eu poderia dar muitos exemplos, mas o primeiro — e muito característico — que me chamou a atenção foi um texto popular intitulado simplesmente The World’s History. Em determinado trecho, na página 618, os autores (acadêmicos de nossas universidades) afirmaram o seguinte ao falar da vida no regime comunista: “Em termos legais, a situação das mulheres russas era melhor que a das mulheres do restante do mundo.”     

Quê? Isso foi na década de 1920, durante os regimes de Lênin e Stálin. Quais foram os “fabulosos direitos” adquiridos pelas mulheres russas?

Chocado com essa afirmação absurda, deparei com a explicação na frase seguinte: as mulheres russas, diziam os autores, tinham acesso ao aborto. Entre os grandes avanços feitos em prol das mulheres soviéticas, estavam os “métodos eficazes de controle de natalidade”, que, anunciava o livro didático para estudantes do Ensino Médio, “se tornaram tão comuns que foram banidos por um tempo em 1936 [isto é, o aborto]”. As mulheres russas tinham acesso ao aborto e, portanto, “em termos legais […] estavam numa situação muito melhor que a das mulheres no restante do mundo”.

Afinal, de que outro direito as mulheres precisariam, não é mesmo?… 

Ironias à parte, a realidade é que não há nada que celebrar. O centenário da legalização do aborto pela Rússia bolchevique é algo para ser lembrado com seriedade. Deveríamos rezar não somente por essa terrível perda para a humanidade, mas para que as nações de hoje parem de seguir esse mesmo caminho mortal de destruição humana.

Notas

  1. Tomamos a liberdade de adaptar, em favor da fluidez, os três primeiros parágrafos do texto original. Destaque-se, porém, a menção honrosa feita pelo autor às instituições que recordaram esse triste centenário do aborto na Rússia: a organização Rachel’s Vineyard, a comunidade religiosa Sisters in Jesus the Lord e o Ruth Institute (Nota da Equipe CNP).

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A coisa mais cruel que Jesus já disse
Doutrina

A coisa mais cruel que Jesus já disse

A coisa mais cruel que Jesus já disse

“Quanto a esses inimigos, trazei-os aqui e matai-os na minha frente”: o final da parábola das minas tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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O Evangelho da Missa de quarta-feira da última semana (a 33.ª do Tempo Comum) é conhecido como a parábola das minas (cf. Lc 19, 11-27). Ele tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Eu gostaria de olhar para o Evangelho e refletir sobre esse final chocante. A parábola é como a dos talentos, de Mateus, mas com algumas diferenças significativas. Na de Lucas, dez pessoas recebem uma moeda de ouro cada uma. Ouvimos apenas o relato de três deles (como em Mateus): dois que dão lucro e um que não o dá.

Outra diferença é o entrelaçamento de outra parábola (vamos chamá-la de “parábola do rei rejeitado”) dentro da mesma história. Aqui está uma versão abreviada, incluindo o final chocante:

Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar… Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: “Nós não queremos que esse homem reine sobre nós”... Mas o homem foi coroado rei e, quando voltou..., [disse]: “E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 12.14.15a.27).

Ao analisar um texto como este, devo dizer que fiquei desapontado com o silêncio que a maioria dos comentários guarda a respeito desse final. A frase chocante: “matai-os na minha frente” (“massacrai-os na minha presença”, na tradução da Ave-Maria) passa quase despercebida.

Os Padres da Igreja parecem falar pouco sobre isso. Consegui, no entanto, encontrar duas referências na Catena Aurea, de S. Tomás de Aquino. Sobre este versículo, S. Agostinho ressalta a impiedade dos judeus, que se recusaram a se converter a Jesus. Teófilo escreveu: “A esses, ele os entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas, neste mundo, eles foram mortos de modo lastimável pelo exército romano”.

Consequentemente, ambos os Padres consideram o versículo ao pé da letra, declarando-o historicamente cumprido na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Flávio Josefo relatou em sua obra que 1,2 milhão de judeus foram mortos naquela guerra terrível.

Cumprido historicamente ou não, o tom triunfal e vingativo de Jesus ainda me intriga. Se este versículo se refere à destruição de 70 d.C., como explicar o tom de Jesus aqui, sendo que apenas alguns versículos mais tarde Ele irá chorar por Jerusalém (cf. Lc 19, 41)?

Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, ele chorou e disse:

Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada (Lc 19, 41-44).

De fato, uma variedade de emoções pode abater até mesmo Jesus, Deus feito homem [1]; deixe-me, porém, sugerir algumas considerações contextuais e culturais relacionadas com as palavras surpreendentes e “maldosas” de Jesus: “Quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 27).

“Jesus purificando o Templo”, de Carl Bloch.

1. Jesus estava falando na tradição profética. — Os profetas frequentemente falavam dessa forma, usando imagens e caracterizações surpreendentes e, muitas vezes, mordazes. Embora muitos hoje tentem “amordaçar” Jesus, o verdadeiro Jesus falou com vivacidade, na tradição profética. Ele costumava usar imagens chocantes e paradoxais. Falava sem rodeios, como faziam os profetas, chamando seus interlocutores hostis de hipócritas, víboras, filhos do diabo, sepulcros caiados, maus, tolos, guias cegos e filhos daqueles que assassinaram os profetas. Ele os advertiu de que seriam condenados ao inferno, a menos que se arrependessem, e os expôs por sua contradição e dureza de coração. É assim que os profetas falavam.

Ao falar dessa maneira “rude”, Jesus seguia firmemente a tradição dos profetas, que falavam de maneira semelhante. Assim, para compreender as palavras duras de Jesus, não podemos ignorar o contexto profético. Suas palavras, que nos parecem iradas e até vingativas, eram esperadas na tradição profética na qual Ele falou; elas foram intencionalmente chocantes. Seu objetivo era provocar uma resposta.

Os profetas usaram hipérboles e palavras chocantes para transmitir e sublinhar seu chamado ao arrependimento. E embora não devamos descartar as palavras de Jesus como “exageradas”, não devemos deixar de vê-las no contexto tradicional do discurso profético.

Portanto, as palavras de Jesus não eram sinal de vingança em seu coração, mas antes uma profecia dirigida àqueles que se recusavam a se arrepender: “Morrereis no vosso pecado” (Jo 8, 21.24). Na verdade, a recusa deles em se reconciliar com Deus e seus vizinhos (neste caso, os romanos) levou a uma guerra terrível na qual foram mortos.

2. A cultura e a linguagem judaicas costumavam ser hiperbólicas. — Mesmo fora da tradição profética, os antigos judeus costumavam usar a linguagem do “tudo ou nada”. Embora eu não seja um estudioso do hebraico, aprendi que a língua hebraica contém muito menos palavras comparativas (por exemplo, “mais”, “menos”, “maior”, “menor” etc.) do que as línguas modernas. Se perguntassem a um judeu antigo se ele gostava mais de chocolate ou sorvete de baunilha, ele responderia: “Gosto de chocolate e odeio baunilha”. Com isso, o que ele realmente quis dizer foi: “Gosto mais de chocolate que de baunilha”. Quando Jesus disse em outro lugar que devemos amá-lo e odiar nossos pais, cônjuge e filhos (cf. Lc 14, 26), Ele não quis dizer que devamos odiá-los em sentido forte. Era uma maneira judaica de dizer que devemos amá-lo mais do que a eles.

Esse pano de fundo explica a antiga tendência judaica de usar hipérboles. Não é que eles não compreendessem as nuances; eles apenas não falavam dessa maneira, permitindo que o contexto explicitasse que “ódio” não significava ódio em sentido literal.

Essa contextualização linguística ajuda a entender como os elementos mais extremistas da linguagem profética tomam forma.

Devemos ter cuidado, entretanto, para não descartar as coisas como se fossem simples hipérboles. Nós, modernos, podemos adorar que nosso idioma permita maiores nuances; mas, às vezes, temos tantas nuances em nossa fala, que acabamos dizendo menos do que o devido. Há momentos em que é preciso dizer sim ou não; em que é preciso estar com Deus ou contra Ele. No final (mesmo que haja o Purgatório), só se pode ir para o Céu ou para o Inferno.

A antiga maneira judaica de falar, um pouco ao modo do “tudo ou nada”, não era primitiva em si. Era uma forma diferente e honesta de insistir que é preciso decidir estar contra Deus ou ao seu lado, é preciso decidir-se pelo que é certo e justo.

Portanto, embora as palavras de Jesus sejam duras, elas tocam num ponto importante: porque ou escolhemos a Deus e vivemos, ou escolhemos o pecado e morremos espiritualmente. “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

3. Jesus estava falando a pecadores endurecidos. — Os ouvintes aqui também são importantes. Ao se aproximar de Jerusalém, Jesus entrava em território hostil. Os pecadores e incrédulos que Ele encontrou eram muito rígidos e tinham endurecido seus corações contra Ele. As palavras de Jesus, portanto, devem ser entendidas como um forte remédio.

Pode-se imaginar um médico dizer a um paciente teimoso: “Se você não mudar de hábitos, morrerá em breve e eu o verei no seu funeral”. Embora alguns possam considerar isso uma atitude inadequada para com um doente, há pacientes para os quais essa linguagem é apropriada e necessária.

Jesus falou sem rodeios porque estava lidando com pecadores empedernidos. Eles estavam indo para a morte e o Inferno, e Ele disse isso abertamente.

Talvez nós, que vivemos nestes tempos “delicados”, que nos ofendemos tão facilmente e temos tanto medo de ofender, possamos aprender algo com essa abordagem. Há quem precise ouvir de padres, pais e outros: “Se você não mudar de caminho, não vejo como você possa evitar sua condenação ao Inferno”.

4. Um pensamento final (uma teoria, na verdade) sustentado por alguns. — De acordo com uma teoria, Jesus estava se referindo a um incidente histórico real, do qual se serviu para desiludir os ouvintes de suas vãs expectativas por um novo rei. Após a morte de Herodes, o Grande, seu filho Arquelau foi a Roma para solicitar o título de rei. Um grupo de judeus também compareceu perante César Augusto, opondo-se ao pedido de Arquelau. Embora não tenha recebido o título, Arquelau foi nomeado governante da Judeia e da Samaria; mais tarde, ele mandou matar os judeus que se opuseram a ele.

Os reis frequentemente são tiranos. — Como os judeus pensavam que o Messias (quando viesse) seria um rei, alguns esperavam que Jesus estivesse viajando para Jerusalém a fim de assumir o papel de monarca terreno. Segundo essa teoria, como o povo ansiava por um rei, Jesus usou essa parábola assustadora como um lembrete de que os reis terrenos geralmente são tiranos. Jesus, portanto, os estava tentando desiludir da ideia de que Ele ou qualquer outra pessoa deveria ser seu rei terreno.

Embora essa teoria seja aceitável, especialmente quanto aos precedentes históricos, parece improvável que o texto do Evangelho aponte para um evento historicamente tão localizado. Jesus não estava apenas falando às pessoas daquela época e lugar; Ele também está falando conosco. Mesmo que esse trecho se enquadre em um contexto histórico parcial, o significado precisa ser estendido para além de um incidente antigo.

Portanto, Jesus está sendo mau aqui? Não. Ele está sendo direto e dolorosamente claro? Sim. E, francamente, muitos de nós precisamos disso. Nestes tempos difíceis, podemos nos irritar com esse tipo de conversa, mas esse problema é nosso. A honestidade e um diagnóstico claro são muito mais importantes do que nossos “preciosos” sentimentos.

Notas

  1. A rigor, a tristeza vivida por Cristo foi o que alguns teólogos (entre eles, S. Tomás de Aquino) costumam chamar de “pro-paixão”, um movimento inicial do apetite concupiscível que não o extrapola, mas se mantém sob o controle da racionalidade. Quanto à paixão da ira, é certo que Cristo a experimentou de fato, não como apetite desordenado de vingança, mas como desejo de impor ao culpado o castigo devido; trata-se de uma ira justa e louvável, que Cristo mantinha perfeitamente subordinada à reta razão. O “abatimento” de que fala o autor do artigo deve entender-se em referência à intensidade dessas paixões (Cristo chorou de tristeza; por ira, disse palavras duras e justíssimas etc.), mas não em referência ao descontrole e insubordinação à razão que, em nós, elas costumam provocar (Nota da Equipe CNP).

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Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!
Santos & Mártires

Não, Carlo Acutis
não era um jovem comum!

Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!

Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Enquanto alguns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 ele já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A beatificação do jovem Carlo Acutis chamou a atenção dos católicos no mundo inteiro. Na internet, há alguns meses, não se falava de outra coisa. O túmulo do beato, em Assis, recebeu a visita de mais de 40 mil pessoas só na primeira quinzena de outubro, mesmo em meio a severas restrições devido à pandemia do novo coronavírus. 

Infelizmente, porém, como acontece com seja qual for a devoção, a seja qual for o santo, poucas pessoas procurarão ir a fundo na história desse menino e fazer-se realmente devotas dele, imitando-lhe a vida e as virtudes.

O que é uma pena, pois a primeira biografia a seu respeito, escrita pelo italiano Nicola Gori, encontra-se facilmente à disposição em língua portuguesa no site Cultor de Livros, e todos os jovens católicos brasileiros fariam um bem enorme a si, a seus amigos, a seus familiares, a seus grupos de oração, a todos que os rodeiam, enfim, se procurassem ler e estudar a vida do agora beato Carlo.

Os santos não se improvisam!

Sim, pois não basta nutrir, com relação a ele, o entusiasmo superficial de quem se identifica com sua camisa polo, com seu tênis de marca, com seu amor por videogames ou com sua aptidão geral para as novas tecnologias. Todos esses aspectos contemporâneos do Carlo são, sem dúvida, um estímulo para nós, mas não devemos parar neles, pois a essência da santidade está em outras coisas, não nestas. A esse respeito, o escritor Peter Kwasniewski teceu algumas considerações muito relevantes, justamente ao escrever sobre os santos mais novos da Igreja:

No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

Trocando em miúdos: se o menino Carlo Acutis vier a ser canonizado, não será porque ele “manjava” de informática ou de jogos virtuais. Isso é acidental à santidade. (A propósito, se o quiséssemos imitar inclusive nesses aspectos, valeria a pena considerar também que, como penitência, Carlo não despendia em seu PlayStation 2 mais do que uma hora por semana — um tempo certamente bem inferior àquele com o qual estão acostumados nossos jovens. A santidade não se resume a isso, é certo, mas o exemplo é válido para reforçar a ideia: se vamos imitar o beato, que seja no que ele fazia de beatificante, e não só no que nos parece mais agradável ou atrativo!)

A pureza de Carlo

Comecemos a desenhar um retrato da santidade de Carlo a partir da pureza, que ele viveu com grande fidelidade, mesmo em meio aos inúmeros perigos que nossa época apresenta para a vivência dessa virtude. A mãe do menino e um rapaz que trabalhava em sua casa testemunham: ele “tapava os olhos com as mãos se passasse algum programa ou propaganda escandalosos na televisão” [1]. Os registros do computador que ele utilizava atestam a mesma delicadeza de consciência: nenhum vestígio de acesso a algum site da internet que fosse menos decente. 

No relacionamento com as meninas, seu comportamento era o apropriado para um rapaz de sua idade (lembrando que Carlo morreu com apenas 15 anos): nada de “namoricos” indevidos, nem de interesses precoces. O menino chegaria a declarar, com a maturidade própria de quem compreendeu o que significa amar a Deus de modo esponsal: “Nossa Senhora é a única mulher da minha vida!” [2].

Carlo Acutis, quando criança.

Esses fatos não estão muito além do que se deve esperar de um discípulo de Cristo, sim, mas precisam ser recordados a uma época como a nossa, que tanto avançou na degradação da sexualidade e que corrompeu a sua juventude praticamente sem deixar sobreviventes. O acesso à pornografia, por exemplo, nunca foi tão fácil como agora, e as crianças e adolescentes estão tendo contato com esse tipo de conteúdo cada vez mais cedo, com consequências seriíssimas para sua saúde mental, física e espiritual. 

Se quisermos ser verdadeiros devotos do beato Carlo Acutis, precisamos “correr atrás do prejuízo”, se já fomos manchados de alguma forma nessa matéria, procurando imitá-lo na penitência, já que perdemos a nossa primeira inocência [3]. Mesmo os que foram preservados, no entanto, não devem dormir jamais: quando o assunto são os pecados contra a castidade, confirma-se com ainda mais força que o nosso adversário “ronda como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8).

Os que já servem a Deus, enfim, seja na vocação do Matrimônio, seja no celibato ou na vida consagrada, podem aprender com Carlo a experiência do coração indiviso, que ele viveu como uma graça extraordinária desde a mais tenra idade. Será que nós temos real dimensão do que é um menino proclamar, de coração, que a Santíssima Virgem é a “única mulher” da sua vida? 

Deixemos que essa declaração íntima de amor, de uma criança a sua Mãe celeste, nos impressione e examine a consciência, elevando nossos corações ao alto, purificando nossa relação com Deus, ordenando, enfim, nossos amores nesta terra. Afinal de contas, a que outra pessoa nos uniremos por toda a eternidade, sem morte alguma que nos venha a separar, senão a Deus, Nosso Senhor?

Carlo já vivia aqui, nesta vida, o que ele agora experimenta no Céu.

Carlo e a eternidade

E como pensava no Céu o pequeno Carlo, como o queria, como ansiava por ele! Seu contato com tudo quanto era livro de espiritualidade, vida dos santos, revelações privadas, não tinha como motor uma simples curiosidade malsã e desordenada; não, era um desejo da vida eterna que o impulsionava

  • Quando lia sobre os milagres eucarísticos, era para aumentar seu fervor na participação da Santa Missa — à qual ele assistia todos os dias. 
  • Quando lia relatos extraordinários sobre o Purgatório, era para rezar mais pelas almas, para buscar mais intensamente o Céu e para se estimular no combate aos próprios vícios — dos quais, ele mesmo dizia, a gula e a preguiça eram os principais [4]. 
  • Quando lia sobre as mais diversas devoções que o tesouro de dois mil anos da Igreja lhe oferecia — fosse a devoção ao Sagrado Coração, à Divina Misericórdia, à Virgem de Fátima ou à de Lourdes —, era para crescer cada vez mais em amor a Jesus e Maria. 

Justamente porque tinha os olhos voltados para o alto, era visível em Carlo uma conformidade profunda com a vontade de Deus. Um colega de escola que passou anos ao seu lado conta: “Um aspecto dele que me tocou muito era que, além de uma fé que vi em poucos, tinha um senso de satisfação e de felicidade por cada momento da vida, fosse feliz ou triste: sempre encontrei em seu rosto um sorriso sem limites” [5]. 

Numa sociedade que se preocupa continuamente com o número crescente de suicídios entre seus jovens, não deixa de ser significativa mais essa característica do pequeno Carlo Acutis. Seu segredo, porém, não pode ser buscado neste mundo. Esse “senso de satisfação” que brilhava em seu rosto é um dom que recebem todos os que amam a Deus: para estes, de fato, tudo concorre para o bem (cf. Rm 8, 28); os santos sempre estão felizes, porque querem o que Deus quer. Quando são contrariados, homens da estirpe de Carlo Acutis — movidos, é claro, pela graça divina — não lamentam, nem reclamam: maduros que são, o que eles fazem é oferecer, doar-se.

Foi o que ele fez nos últimos dias de sua vida. Como viveu, Carlo morreu. Preparado por Deus ao longo de sua breve vida, a notícia da leucemia não foi um “baque” para ele, nem seus sofrimentos finais foram capazes de perturbá-lo e tirar-lhe a paz da alma. De fato, antes de ser internado em definitivo no hospital, com prontidão de espírito aquele jovem declarou (percebam como ele não perdia de vista a eternidade, como ele a desejava!...): “Ofereço todo o sofrimento que deverei padecer no Senhor pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao purgatório e entrar direto no céu” [6].

“Ofereço”, ele dizia. Eis aí uma palavra forte, que as pessoas não costumam esperar da boca de um adolescente. 

Mas Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Os que conviviam com ele já diziam: “Parecia ser mais velho do que era” [7]. Enquanto uns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 anos Carlo já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus. No hospital, se lhe perguntavam como estava, ele dizia: “Como sempre, bem!”. Nas palavras de uma enfermeira, “Carlo era uma daquelas pessoas que, quando alguém lhe oferece a mão, segura-a com amor e transmite serenidade, uma serenidade maior do que a que eu deveria lhe oferecer” [8].

Foi assim, aceitando plenamente os desígnios de Deus para si e fazendo-se tudo para os outros, que morreu, no dia 12 de outubro de 2006, o jovem Carlo Acutis.

Aos olhos do mundo, seu falecimento aos 15 anos pareceu, desde então, uma perda irreparável. Muitos dos que o conheceram não podiam se conformar com o fato de aquele menino, precoce em tudo, ser precoce também para morrer. Uma religiosa de clausura, porém, que conheceu Carlo, e que o viu receber precocemente a primeira Eucaristia o sacramento da Crisma, encontrou na Sagrada Escritura [9] o motivo para Deus levar tão cedo deste mundo aquele jovem rapaz: “Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade” (Sb 4, 13-14).

Notas

  1. Nicola Gori. Eucaristia, minha estrada para o Céu. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 42.
  2. Ibid., p. 81.
  3. Esse conhecido jogo de palavras encontra-se na oração que a liturgia da Igreja propõe para a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude.
  4. Nicola Gori, op. cit., p. 102.
  5. Ibid., 44.
  6. Ibid., p. 131.
  7. Ibid., p. 35.
  8. Ibid., pp. 133s.
  9. Ibid., p. 99.

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