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Como São Bento pode ajudar a salvar o nosso século
Sociedade

Como São Bento pode
ajudar a salvar o nosso século

Como São Bento pode ajudar a salvar o nosso século

Quando viu a decadência moral e espiritual de seu tempo, o jovem Bento decidiu subir para as montanhas e tornar-se eremita. Qualquer semelhança com a nossa época não é mera coincidência.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Abril de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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Pelo final do século V, o Império Romano estava em ruínas. Enfraquecida desde dentro pela corrupção, pela opulência, pela luxúria e pelo comodismo, a cidade de Roma foi, durante boa parte do século, violentamente invadida por povos estrangeiros.

O Império foi à bancarrota, tanto moral quanto financeiramente, e, por volta do ano 500, Bento — um jovem nobre da cidade de Núrsia — decidiu que a melhor coisa que poderia fazer era subir para as montanhas e tornar-se eremita. Primeiro, ele foi a Subiaco e viveu em uma caverna, onde foi orientado por um monge mais velho. Finalmente, mudou-se para o sul, em Monte Cassino, onde estabeleceu pequenas comunidades de homens e mulheres que pudessem seguir uma vida simples e digna de trabalho, estudo e oração.

G. K. Chesterton diz que cada século é salvo pelo santo que lhe é mais contrário. A simplicidade monástica de São Bento era justamente a resposta de que a corrupção e a opulência do decadente Império Romano precisavam. Ele respondeu à luxúria com a pureza, à avareza com a simplicidade, à ignorância com a sabedoria, à decadência com a indústria e ao cinismo com a fé. Suas comunidades nas montanhas se tornaram faróis em uma época de trevas e um refúgio para as tempestades que estavam prestes a cair.

Vale a pena lembrar o exemplo de Bento hoje, quando muitos vêem aproximar-se as mesmas tempestades do que parece ser a derrocada da civilização ocidental. Quando consideramos o fim que levou a Roma pagã, os paralelos são sensivelmente similares.

Também a nossa cultura está enfraquecida desde dentro por incríveis opulência, luxúria e sensualidade. Como os antigos romanos, a nossa sociedade mata os seus filhos que ainda não nasceram em um nível alarmante e também investe grandes montantes em máquinas militares para dominar o mundo. Nossos ricos "patrícios" reinam de seus templos de poder sem nenhuma preocupação com o povo, enquanto os "plebeus" comuns rangem os dentes com descontentamento cada vez maior. Também nós nos sentimos ameaçados por bárbaros desconhecidos que vêm do outro lado do mundo e também nós nos preocupamos em defender-nos das hordas que cruzam as nossas fronteiras.

Por que Bento escolheu simplesmente retirar-se? Acredito que ele o fez porque percebeu que a civilização romana não tinha salvação, ela já tinha chegado ao fim de sua vida útil. O primeiro capítulo da Epístola de São Paulo aos Romanos explica como Deus entrega as pessoas aos seus desejos pecaminosos e, por isso, as suas mentes ficam obscurecidas. Elas se tornam viciadas e cegas pelo pecado e são incapazes de pensar retamente. Bento subiu para as montanhas porque percebeu que com os romanos não havia diálogo. Não havia argumento possível porque os seus corações e mentes estavam obscurecidos. Eles tinham perdido a capacidade de raciocinar e a habilidade de escutar e amar a verdade.

Essa é cada vez mais a situação do mundo de hoje. Já há muito tempo que a nossa civilização virou as costas para a verdade, para a beleza e a para a bondade da fé cristã; que temos nos sujeitado ao comodismo, entregando-nos a grandes pecados de luxúria, crueldade e assassinato. Como sociedade, nós destruímos o matrimônio, abusamos de nossas crianças, matamo-nos uns aos outros, travamos guerras e roubamos dos mais pobres. Nossos corações e mentes estão agora obscurecidos. Atingidos pelo câncer intelectual do relativismo, não somos capazes nem de ouvir a razão nem de produzir argumentos. Fomos abandonados ao turbilhão de nossas emoções, agitados pela raiva, pelo ódio irracional e pela frustração demoníaca.

O que podemos fazer? Como católicos, nós viveremos cada vez mais a "opção beneditina". Há quem pense que terminaremos nos escondendo em nossos próprios enclaves, como sobreviventes de um holocausto nuclear, mais ou menos como uma volta às catacumbas. Eu não seria tão pessimista. Acredito que a "opção beneditina" pode ser simplesmente uma percepção de que precisamos retornar à essência da nossa fé e vivê-la em nossas já existentes comunidades paroquiais. Nossas paróquias podem tornar-se refúgios de paz, centros de cultura, educação e razão. Elas podem tornar-se lugares onde a oração, o trabalho e o estudo são valorizados.

Sem formar novas comunidades monásticas, nossas famílias e paróquias podem transformar-se em "mosteiros domésticos", onde nós viveremos com simplicidade e cultivaremos com consciência a nossa fé, refugiando-nos do dilúvio que devasta a nossa sociedade.

Para tanto, nós precisaremos reavaliar a nossa relação com a cultura que nos rodeia. Precisaremos simplificar as nossas vidas. Será que realmente precisamos de todas essas coisas materiais que nos puxam para baixo e nos atolam nas dívidas e no estresse? Será que realmente precisamos correr tão freneticamente, com tanta pressa, o tempo todo? Temos realmente que nos conformar com a sociedade agitada, vaidosa e avarenta em que vivemos? Realmente precisamos de todo esse entretenimento e distração que nos leva à destruição? Acho que não.

Contra tudo isso, a "opção beneditina" colocará o nosso foco nos votos que estão no coração da Regra de São Bento: estabilidade, obediência e conversão de vida. A estabilidade nos ajudará a desenvolver raízes profundas em nossa fé, em nossas famílias e em nossa Igreja. Encontraremos aí a nossa segurança, e não em nosso trabalho, em nosso dinheiro ou em nossas realizações. A obediência significa que procuraremos submeter-nos constantemente às Sagradas Escrituras, aos ensinamentos da Igreja, a Deus e uns aos outros. A conversão de vida significa que tudo o que fizermos e dissermos, e toda decisão que tomarmos, será determinada por nosso desejo de sermos completamente transformados na imagem de Cristo. Ou, como São Bento põe em sua regra, "Christo nihil praeponere — nada antepor a Cristo".

As simples e humildes comunidades beneditinas se tornaram a fundação da maior civilização que o mundo já viu. Por um milênio, a Europa cristã esteve enraízada na singela intuição de São Bento de Núrsia. Se os católicos fizerem essa opção, ainda podemos forjar uma fundação forte e vigorosa para o futuro da nossa sociedade.

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Os pais dos santos e a vocação dos filhos
Santos & Mártires

Os pais dos santos e a vocação dos filhos

Os pais dos santos e a vocação dos filhos

Ao guiarem seus filhos com amor em direção ao plano de Deus, eles foram “astutos como as serpentes e inocentes como as pombas”. Saiba o que os pais dos santos têm a nos ensinar quando o assunto é o discernimento vocacional dos nossos próprios filhos.

Patrick O’HearnTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Um amigo meu ficou em conflito durante vários anos por causa de sua vocação. “Deveria ser sacerdote? Deveria me casar? Para qual caminho me chamais, Senhor?” Havia um entrave no caminho dele. Surpreendentemente, o celibato não o desmotivava; ao contrário, era a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato em relação ao Matrimônio

Como meu amigo, muitos católicos refletem sobre essa doutrina quando estão discernindo a vontade de Deus. E muitos concluem que, por ser o celibato um chamado mais alto, então com certeza devem se tornar sacerdotes ou religiosos, pois qualquer outra opção seria inferior. 

Infelizmente, muitos protestantes e até mesmo católicos ridicularizam o celibato. Eles se concentram exclusivamente no reino terrestre, e não no Reino do Céu, quando fazem a seguinte pergunta: por que renunciar a algo tão bom quanto o ato conjugal, uma esposa e filhos? Mas Nosso Senhor, São Paulo e Santo Tomás foram claros quanto à superioridade objetiva do celibato em relação ao Matrimônio. O Doutor Angélico declarou: 

A virgindade é mais excelente do que o casamento, e isso pode ser percebido pela fé e pela razão. A fé enxerga a virgindade como imitação do exemplo de Cristo e do conselho de São Paulo. A razão enxerga a virgindade como ordenação correta dos bens, preferindo um bem divino aos bens humanos, o bem da alma ao do corpo, e o bem da vida contemplativa ao da vida ativa (STh II-II, 152, 4 c.).

Além disso, o Concílio de Trento (DH 1810) definiu: “Se alguém disser que o matrimônio deve ser preferido à virgindade, seja anátema”.

Por que a Igreja dá mais valor ao celibato do que ao Matrimônio? Antes de tudo, o celibato permite que as pessoas sigam Nosso Senhor mais de perto e comecem a viver o Céu agora, pois, “na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Além disso, o sacerdote celibatário, o religioso e o leigo consagrado podem se dedicar inteiramente às coisas de Deus — isto é, à oração e ao serviço do próximo —, diferentemente da pessoa casada, que se preocupa em agradar o cônjuge e está mais presa às “coisas do mundo” (1Cor 7, 33–34).

Desejando uma união mais plena com Deus e muito provavelmente com a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato, muitos santos casados, como Thomas More e Luís e Zélia Martin, tentaram entrar para a vida religiosa em algum momento da vida. De fato, Santa Zélia chorou na noite de seu casamento porque ainda sonhava em ser religiosa e dar a Deus um coração indiviso. Anos depois de ter seus filhos, Santa Zélia foi tentada a duvidar de sua verdadeira vocação. Mas, ao observar seus filhos, ela entendeu que se entregar à vontade de Deus é a melhor receita para a paz e a santidade. Um olhar para o seu santo marido deve ter suscitado no coração de Zélia as atemporais palavras da Madre Superiora a Maria, em A Noviça Rebelde: “Minha filha, o fato de você amar a esse homem não significa que ame menos a Deus”.

Se Santa Zélia tivesse se tornado religiosa, a Igreja teria sido privada de pelo menos uma santa, sua filha Santa Teresinha. Talvez Luís e Zélia jamais tivessem se tornado santos se tivessem optado pela vida religiosa. Se São Thomas More tivesse se tornado monge cartuxo, talvez nunca teria recebido a coroa do martírio.  

Embora as cinco filhas de São Luís e Santa Zélia tenham se tornado religiosas, o casal não as conduziu naquela direção. Em outras palavras, não tentaram “realizar-se” nas filhas, fazendo-as entrar para a vida religiosa porque eles mesmos não conseguiram fazê-lo. Curiosamente, aliás, o único motivo pelo qual Santa Zélia trabalhou foi para garantir o dote das filhas: embora rezassem para que as filhas se tornassem religiosas, São Luís e Santa Zélia pensavam que a maioria delas se casaria.

Sem dúvida, o casal era prudente e sábio quando o assunto era a vocação das filhas. Poderíamos dizer o mesmo dos pais do Venerável Fulton Sheen. Seus pais rezavam diariamente para que ele se tornasse sacerdote, mas jamais o pressionaram ou falaram sobre isso até o jovem Fulton revelar sua vocação

Ao contrário dos pais de Santa Teresinha e do Venerável Fulton Sheen, quando o assunto é a vocação dos filhos ou até a própria vocação, alguns casais interpretam mal a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato em relação ao Matrimônio. Consequentemente, alguns pais pressionam os filhos a entrarem no seminário e na vida religiosa, ou se mostram decepcionados quando eles abandonam esse caminho, como se os filhos tivessem “falhado” com os pais. A mãe de São Maximiliano Kolbe, por exemplo, sempre quis que o irmão mais velho dele, Francisco, fosse sacerdote. Quando ele deixou o seminário e finalmente se casou, a mãe jamais lhe aceitou a vocação — uma tragédia!

Em alguns casamentos difíceis, especialmente quando um dos cônjuges questiona a “santidade” do outro, aquele poderia se equivocar e dizer aos filhos: “Torne-se sacerdote ou religioso para que não tenha de carregar essa cruz”. Ou, como Santa Zélia, alguns pais devotos podem ter devaneios ocasionais sobre o sacerdócio ou a vida religiosa, particularmente quando sua vida de oração “sofre” por causa dos filhos e do trabalho. Infelizmente, eles podem terminar acreditando na mentira: “Se eu fosse sacerdote ou religioso, poderia ser santo”. 

A inferioridade do Matrimônio em relação ao celibato leva alguns pais a preferir a vocação religiosa ou sacerdotal de alguns filhos à matrimonial de outros. Quando alguém lhes pergunta pelos filhos, o pai e a mãe podem dizer, entusiasmados: “Tenho um filho sacerdote” ou “tenho uma filha religiosa”, deixando na penumbra os outros filhos que vivem matrimônios santos. Conheci uma família com dois filhos —  um era sacerdote e o outro, casado. O filho casado tinha ciúmes porque a mãe preferia o filho sacerdote. Por isso, o filho casado considerava seu matrimônio como algo de segunda classe comparado com o sacerdócio do irmão. Talvez alguns pais achem — ou, pior ainda, digam aos filhos: “Gostaria que você fosse tão santo quanto seu irmão padre” ou “sua irmã religiosa”.   

Com certeza, ter uma vocação religiosa na família é uma das maiores bênçãos que Deus pode conceder a qualquer casal, algo que deveria apenas provocar sentimentos de humildade por um dom tão imerecido. Mas a verdade é que tanto o celibato quanto o Matrimônio são caminho para a santidade, mesmo que o celibato seja um bem maior. Como disse Santo Ambrósio sobre a virgindade: “Comparo boas coisas com boas coisas, para que fique claro qual delas é mais excelente”. O Catecismo também afirma: “Denegrir o Matrimônio é, ao mesmo tempo, diminuir a glória da virgindade: enaltecê-lo é realçar a admiração devida à virgindade” (n. 1620).

O amigo a quem me referi anteriormente acabou se casando. Deus confiou a pais como ele a incrível responsabilidade de serem os primeiros educadores e os primeiros diretores vocacionais dos filhos. Portanto, uma vida de oração fecunda, o testemunho de sacrifício, a alegria e um grande respeito pelo celibato e pelo Matrimônio da parte dos pais são a “terra boa” que permitirá aos filhos darem muitos frutos em sua futura vocação (cf. Mt 13, 23). Desta forma, eles, como meu amigo, podem ser modelos de abertura à vontade de Deus.

O fato de a Igreja ensinar que o celibato é superior ao Matrimônio jamais deve diminuir a grande missão deste sacramento aos olhos de Deus e da Igreja. Pois nosso caminho para a santidade é a vocação para a qual Deus nos chama, e não necessariamente a que é superior. Quando os pais menosprezam o chamado de seus filhos ao casamento, por não ser algo “bom o suficiente”, deixam de estar em sintonia com Deus, que vê o casamento como um grande mistério que nos remete a Cristo e à sua Igreja, como diz São Paulo (cf. Ef 5, 32). Tragicamente, esses pais perderam de vista o esplendor de sua própria vocação.

É preciso ter muita coragem para entrar no seminário ou no convento. Também é preciso ter muita coragem para sair dele enquanto é tempo, caso Deus realmente esteja chamando a pessoa ao Matrimônio — lembrando que não podemos evitar a cruz, caso queiramos chegar ao Céu. Em qualquer caso, a Igreja precisa mais do que nunca de pais que sigam o exemplo heroico dos pais dos santos, que foram “astutos como as serpentes e inocentes como as pombas” ao guiarem com amor seus filhos em direção ao plano de Deus, e não aos seus próprios planos (cf. Mt 10, 16). Aí está a sabedoria vocacional que formou inúmeros santos.

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Como os escândalos serão punidos na outra vida?
Espiritualidade

Como os escândalos
serão punidos na outra vida?

Como os escândalos serão punidos na outra vida?

“Ai do mundo por causa dos escândalos!”: aqueles que tiveram a desventura de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas por meio do escândalo devem procurar reparar tudo neste mundo, caso não queiram ficar sujeitos à mais terrível expiação no outro.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Esta não é a primeira publicação que fazemos contando fatos relativos às almas do Purgatório. Só deste livro do Pe. François Xavier Schouppe, O Purgatório: explicado pelas vidas e legendas dos santos, já traduzimos vários excertos: v.g., um sobre a duração das penas do Purgatório, um sobre o porquê dessas penas e outro sobre se as devemos temer, e também uma revelação privada a S. Francisca Romana, segundo a qual, a cada pecado mortal cometido nesta vida, corresponderiam sete anos de Purgatório.

Enquanto católicos, estamos obrigados a aceitar as verdades de fé em torno das quais giram essas histórias. Mas no conteúdo delas propriamente dito somos livres para crer ou não, sabendo discernir o que nelas “constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo, n. 67).

No relato abaixo, em específico, o Pe. François Xavier Schouppe trata de um tema muitíssimo atual: o pecado de escândalo. Com o desenvolvimento das técnicas de difusão de imagens e vídeos, nunca foi tão fácil propagar a indecência e, com isso, fazer perder uma porção cada vez maior de pessoas. Por outro lado, a exposição assídua, generalizada e cada vez mais precoce a material desonesto funciona também como uma espécie de “anestésico”: estamos acostumados a ver e ouvir de tudo e, por isso, praticamente não há mais quem se escandalize com coisas que seriam, séculos atrás, impensáveis.

Fica o alerta, no entanto, para que cuidemos das almas alheias, especialmente as que estão sob o nosso cuidado. Parafraseando o próprio Pe. Schouppe, ao final de seu primeiro relato: se são estas as consequências de uma pintura imodesta, que pensar então dos maus filmes, dos maus seriados, dos maus vídeos, enfim, que com o advento da internet atingem milhões de pessoas em questão de pouquíssimo tempo?


Aqueles que tiveram a desventura de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas por meio do escândalo devem procurar reparar tudo neste mundo, caso não queiram ficar sujeitos à mais terrível expiação no outro. Não foi em vão que Jesus Cristo clamou: “Ai do mundo por causa dos escândalos!... Ai do homem que os causa!” (Mt 18, 7).

Eis o relato do Pe. Rossignoli em sua obra Maravilhas do Purgatório. Certa vez, um pintor muito hábil e de vida exemplar em todos os aspectos pintou uma tela que não estava plenamente conforme às exigentes regras da modéstia cristã. Era uma daquelas pinturas que, sob o pretexto de serem obras de arte, são encontradas nas melhores famílias, e que levam à perda das muitas almas que as veem. A verdadeira arte é uma inspiração do Céu e eleva a alma a Deus; a arte profana, que apela somente aos sentidos, que não apresenta aos olhos nada além das belezas da carne e do sangue, não passa de uma inspiração do espírito maligno; por brilhantes que possam ser, suas obras não são artísticas, e o nome “arte” é falsamente atribuído a elas. São produções infames de uma imaginação corrompida [1].

O artista de que falamos deixou-se iludir neste aspecto por meio do mau exemplo. Porém, renunciando rapidamente ao seu estilo pernicioso, limitou-se à produção de pinturas religiosas, ou ao menos aquelas que eram perfeitamente irrepreensíveis. Finalmente, estava pintando uma grande tela no convento das carmelitas descalças quando foi acometido por uma doença mortal. Percebendo que estava prestes a morrer, pediu ao prior permissão para ser sepultado na igreja do mosteiro e deixou o seu salário para a comunidade, o qual correspondia a uma considerável quantia de dinheiro, encarregando os religiosos de oferecer Missas pelo descanso de sua alma. Ele morreu de forma piedosa, e alguns dias após o seu falecimento um religioso que permanecera no coro depois das Matinas o viu aparecer em meio a chamas e suspirar de modo comovente.

Disse o religioso: “O quê?! Você tem de suportar tamanha dor depois de ter levado uma vida tão boa e de ter morrido de forma tão piedosa?” Ele respondeu: 

Infelizmente, é por causa do quadro imodesto que pintei há alguns anos. Quando apareci perante o tribunal do Juiz Supremo, uma multidão de acusadores veio testemunhar contra mim. Afirmaram que tiveram pensamentos impróprios e desejos malignos por causa de uma pintura feita por mim. Como consequência daqueles maus pensamentos, alguns estavam no Purgatório e outros no Inferno. Estes clamavam por vingança, dizendo que, por ter sido a causa de sua condenação eterna, eu merecia pelo menos a mesma punição. Então, fui defendido pela Santíssima Virgem e pelos santos que eu exaltara em minhas pinturas. Afirmaram perante o Juiz que aquela pintura infeliz fora obra de juventude e da qual eu havia me arrependido; que eu havia reparado o erro mais tarde por pinturas religiosas que foram uma fonte de edificação para as almas.

Tendo em conta esses e outros motivos, o Juiz Supremo declarou que, por causa do meu arrependimento e das minhas boas obras, ficaria livre da condenação; mas me condenou a estas chamas até que a pintura fosse queimada, a fim de não escandalizar mais ninguém.

Então, o pobre sofredor implorou ao religioso que tomasse as medidas para destruir a pintura. E acrescentou: “Eu imploro que vá em meu nome até o dono da pintura e conte a ele em que situação me encontro por ter cedido ao seu desejo de pintá-la, e exorte-o a sacrificá-la. Ai dele se recusar! Para provar que isto não é uma ilusão, e para puni-lo por sua própria culpa, diga-lhe que em breve perderá os seus dois filhos. Se ele se recusar a obedecer Àquele que nos criou, pagará por isso com uma morte prematura”.

O religioso não demorou a fazer o que a pobre alma lhe pedira, e foi até o dono da pintura. Este, ao escutar a história, tomou a tela e a atirou ao fogo. Não obstante, de acordo com as palavras do defunto, ele perdeu os seus dois filhos em menos de um mês. Depois, passou o resto de seus dias em penitência por ter encomendado aquela pintura imodesta e tê-la mantido em casa. 

Se essas são as consequências de uma pintura imodesta, qual não será a punição para os escândalos ainda mais devastadores que resultam dos maus livros, dos maus jornais, das más escolas e das más conversas? “Ai do mundo por causa dos escândalos!... Ai do homem que os causa!” (Mt 18, 7). 

O escândalo faz grandes estragos nas almas por meio da sedução da inocência. Ah! malditos sedutores! Terão de prestar contas de forma terrível a Deus por causa do sangue de suas vítimas. Eis o que lemos na na Vida do Padre Zucchi, escrita pelo Pe. Daniel Bartoli. 

O santo e zeloso Pe. Zucchi, que morreu em Roma no dia 21 de maio de 1670, conduzira três moças para uma vida de perfeição, as quais se consagraram a Deus no claustro. Antes de deixar o mundo, uma delas havia recebido a proposta de se casar com um jovem nobre. Depois de entrar para o noviciado, esse cavalheiro, em vez de respeitar-lhe a santa vocação, continuou a lhe enviar cartas por meio das quais desejava chamá-la de esposa e pedia-lhe desistisse do enfadonho serviço a Deus, como dizia, para abraçar novamente as alegrias da vida. O padre, encontrando-o um dia na rua, suplicou que ele parasse com aquela conduta. Disse ele: “Garanto-lhe que em breve você aparecerá perante o tribunal de Deus e que já é hora de você se preparar com uma sincera penitência”.

De fato, duas semanas depois, aquele jovem teve uma morte tão rápida, que deixou pouco tempo para que ordenasse as matérias de sua consciência. Havia, portanto, todos os motivos para temer pela salvação dele. Certa noite, enquanto as três noviças mantinham uma santa conversa, a mais jovem foi chamada a comparecer no salão. Lá encontrou um homem envolto num grosso manto, dando passos de forma cuidadosa no local. “Senhor”, disse ela, “quem é você? E por que mandou me chamar?” Sem responder, o estranho se aproximou e pôs de lado o manto misterioso que o cobria. Então, a religiosa reconheceu o infeliz falecido, e viu horrorizada que ele estava inteiramente envolto por correntes de fogo que lhe apertavam o pescoço, pulsos, joelhos e tornozelos. “Reze por mim!”, gritou ele, e desapareceu. 

Essa manifestação miraculosa mostrou que Deus tivera misericórdia dele no último momento e que, embora não tenha sido condenado, teve de pagar a sua tentativa de sedução com um terrível Purgatório.

Notas

  1. “Consideram-se gravemente obscenas as pinturas ou estátuas que representam pessoas adultas totalmente nuas ou cobertas tão-somente com um véu transparente, que excita talvez até mais a sensualidade, ou que representam cenas, posturas etc., gravemente provocativas para a maior parte das pessoas. São réus de grave escândalo os que as pintam ou esculpem, os que as exibem em público em escritórios, mostruários, jardins, cinemas etc., ou as vendem indistintamente a qualquer um, ainda que seja sob o pretexto de que são obras de arte. Nos museus devem colocar-se em salas à parte, com acesso restrito só aos profissionais ou técnicos artistas. Sem chegar a esse extremo de periculosidade, são também mais ou menos escandalosas as pinturas e estátuas que, por sua nudez parcial ou atitude provocativa, são aptas para excitar as paixões humanas” (Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, 7.ª ed., Madri: BAC, 1996, p. 501).

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A Missa, a pandemia e o “novo normal”
Liturgia

A Missa, a pandemia e o “novo normal”

A Missa, a pandemia e o “novo normal”

Não podemos permitir que a pandemia se torne o último golpe do inimigo contra a Eucaristia. Do contrário, não precisaremos de uma “nova teologia” para um “novo normal”, porque não haverá mais espaço para o Reino de Deus. Apenas para o Anticristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Diante das mudanças provocadas pela pandemia do coronavírus, muitos já falam de um “novo normal”. E a dificuldade que boa parte dos lugares está enfrentando para a reabertura da economia e de outras atividades traduz perfeitamente essa ideia, uma vez que somos obrigados a adaptar nossas vidas a um estilo bastante tecnocrático.

Tudo isso, certamente, não deixa de ter sua influência sobre a Igreja. Se para uma pandemia há uma “nova normalidade”, então, no sentir de alguns, para uma “nova normalidade” deveria haver também uma “nova teologia”. Um importante biblista comentou recentemente, por exemplo, que, ao contrário do trabalho, “sem a celebração da missa, sobrevivemos igualmente bem”, pois “há muitas pessoas que nunca participam da eucaristia e vivem assim mesmo”. Segundo ele, “a saúde das pessoas é mais importante do que uma missa”. 

Sinais dos tempos. Os detalhes da polêmica sobre as decisões sanitárias para o combate ao vírus deixamos às mentes mais capazes. Já falamos em outro texto dos problemas que vemos nesse imbróglio todo. A questão agora mais importante é outra: trata-se de saber o que restará da fé católica depois disso tudo e se nós, discípulos de Jesus, teremos a coragem de confessá-la, ainda que as autoridades queiram nos convencer do contrário. 

Sim, defendemos a vida — quem ousaria duvidar disso? —, mas, além desta, há outra vida mais importante, cuja existência nunca esteve tão ameaçada. O trabalho nos garante a sobrevivência nesta terra, obviamente. No entanto, apenas a Eucaristia nos dá o Pão da eternidade. E é por isso que jamais poderemos aceitar um “novo normal” ou uma “nova teologia” que nos diga que a Santa Missa, o sacrifício eucarístico de Nosso Senhor Jesus Cristo, é algo simplesmente irrelevante para o bem dos cristãos. Sine Dominico non possumus.

Por essa verdade muitos católicos morreram martirizados na história do cristianismo. Portanto, é esse exemplo que devemos imitar. A piedade eucarística precisa manter-se acesa em nossos corações, assim como se manteve para os católicos japoneses, por exemplo, quando a autoridade política do seu país, por ódio a Cristo e à moral, varreu do mapa todos os sacerdotes do arquipélago. Para eles, não restou sequer Missa televisionada — o que os torna ainda mais admiráveis. Era só a própria memória que eles podiam acessar, se quisessem assistir de algum modo ao banquete do Cordeiro.

Mas se a pandemia serviu de alguma coisa, até agora, foi para escancarar de vez a nossa impiedade. O véu de uma catequese malsucedida rompeu-se de cima abaixo, revelando o que olhos mais atentos já observavam: os católicos deixaram de ser católicos. Eles já não creem mais nos mesmos artigos de fé do Credo dos Apóstolos, nem se importam com a preservação do “estado de graça”. Para 80% dos católicos americanos, Jesus não está verdadeira, real e substancialmente presente na Eucaristia, o que concorda com a situação de muitas dioceses no Brasil, onde a frequência à Missa dominical não chega a 5% dos batizados. Dados alarmantes, sem dúvida, e pelos quais, diz Dom Robert Barron, bispo auxiliar de Los Angeles (EUA), “somos todos culpados”: bispos, padres e qualquer um que tenha o dever de evangelização.

Poderíamos aludir a vários fatores para explicar essa crise de fé, mas um deles, de impacto amplamente subestimado, é a banalização dos sagrados mistérios e a deformação, lenta e gradual, da liturgia católica. O vínculo pode até parecer “forçado” à primeira vista, mas a verdade é que lex orandi, lex credendi, ou seja, a lei da oração é a lei da fé. A Missa, que é a oração mais excelente do cristão, é o principal lugar da catequese da Igreja. O modo como rezamos e tomamos parte no culto eucarístico repercute diretamente em nossa profissão de fé, bem como em nosso estilo de vida. Por isso, se a nossa participação na Missa é como a de uma plateia num programa de auditório, não é muito difícil imaginar o tratamento que dispensaremos aos mistérios da nossa religião.

A afirmação, hoje, de que a Missa é algo “irrelevante” para o bem dos cristãos, e que sem ela podemos viver tranquilamente, não veio do nada; insere-se num crescendo de décadas em que o culto eucarístico foi vilipendiado, modificando a fé e a vida dos católicos. De fato, a forma como se levou a cabo a reforma litúrgica de 1969 permitiu que, em muitos lugares, a pretexto do clima reformista, a celebração eucarística passasse a ser vivida como um workshop, onde a comunidade tinha autoridade para experimentar todo tipo de inovações, sem qualquer sentido para a natureza da liturgia.

A própria Santa Sé reconheceu isso em anos recentes: “Podemos dizer que se está geralmente de acordo em observar um forte aumento dos abusos no campo celebrativo depois do Concílio”. E como a norma da oração (lex orandi) rege a norma da fé (lex credendi), a Missa deixou de ser crida como um dom recebido de Nosso Senhor, o sacrifício do Cordeiro, para converter-se num culto banal, onde as pessoas se reúnem habitualmente para celebrar alguma coisa, mas do qual podem apartar-se sem maiores problemas. Por isso, o que vemos acontecer agora, em tempos de pandemia, é apenas o clímax de uma atitude que foi gestada lá atrás.

Que essa tenha sido a intenção manifesta de monsenhor Annibale Bugnini, arquiteto da reforma litúrgica, é coisa discutível. O fato, porém, é que ele mesmo dizia que seu trabalho tinha “prazo de validade” para talvez 20 ou 30 anos, indicando, com isso, uma estranha contradição com o princípio de continuidade dentro de um orgânico e desejável desenvolvimento litúrgico [1]. Se se entende a liturgia como uma “massa de modelar” que pode ser modificada arbitrária e provisoriamente segundo o sabor do tempo, a consequência lógica é que a ars celebrandi dos sacerdotes se torne bastante avessa a qualquer rubrica, a fim de satisfazer a “interesses pastorais”. E isso explica a existência de tantos abusos, que fazem da Missa uma pantomima, sempre uma “novidade” — coisa que a Santa Sé já tentou coibir várias vezes, infelizmente sem sucesso.

Ora, a dinâmica das leis eclesiásticas, mutatis mutandis, não é muito diferente da das leis civis: ambas têm consequências sobre os costumes. Daí a cautela que Santo Tomás de Aquino recomenda aos legisladores antes de uma mudança nas leis, para que isso não redunde numa perda à comunidade. “No constituir uma nova ordem de coisas”, explica o Doutor Angélico, “deve ser evidente a utilidade para nos afastarmos da lei tida diuturnamente como justa” (STh I-II 97, 2). De outro jeito, a comunidade terá grande prejuízo no discernimento acerca das coisas que contribuem para o bem comum, pois o que antes se fazia com toda a certeza de bondade é ab-rogado por uma nova ordem que, de algum modo, é sugerida como contrária à anterior. Daí se vê a perplexidade com que muitos católicos receberam o novo Missal e como isso, ainda hoje, é um tema deveras espinhoso.

Na história da liturgia católica, jamais se aceitou um movimento de ruptura radical em que o passado fosse rejeitado com desprezo e desdém em favor de um novo rito que se apresentasse como provisório e, aparentemente, aberto a várias interpretações. Como mostra Dom Alcuin Reid em seu livro The organic development of the liturgy (ainda sem tradução para o português), os princípios de todo desenvolvimento da liturgia ao longo do tempo foram:

  1. o senso claro de que é algo recebido, e não simplesmente construído de acordo com os gostos particulares;
  2. o reconhecimento de que a celebração é uma realidade viva, um organismo capaz de desenvolvimento; e
  3. a preocupação em manter a continuidade e a harmonia com a Tradição. 

Por isso, diz o liturgista Cyrille Vogel, “as liturgias nunca foram simplesmente substituídas umas pelas outras; elas se influenciaram e modificaram mutuamente, e até a liturgia romana dominante resultou de um processo de mudança e enriquecimento” [2].

A própria liturgia romana “resultou de um processo de mudança e enriquecimento”.

Pois bem. A decisão de Bento XVI, de estabelecer o “uso extraordinário” do Missal de S. Pio V, seguiu exatamente esses princípios, julgando que “as duas formas do uso do rito romano podem enriquecer-se mutuamente”, de um lado, com a inserção de novos santos e prefácios para o rito pré-conciliar e, do outro, na celebração do Missal de Paulo VI, manifestando, “de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo”. O Santo Padre explicou que “a garantia mais segura que há de o Missal de Paulo VI poder unir as comunidades paroquiais e ser amado por elas é celebrar com grande reverência em conformidade com as rubricas”, porque “isto torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste Missal”. 

O Papa tem a prerrogativa de confirmar os irmãos e cuidar para que a Sagrada Liturgia sempre manifeste mais claramente “o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja”, conforme afirma a Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 2). Ele “não é um monarca absoluto cuja vontade é lei”, como esclarece Ratzinger, “mas, sim, o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência” [3].

Dentro dessa perspectiva, por exemplo, o caso da reforma do breviário realizada pelo cardeal Francisco de Quiñones, em 1529, é bastante instrutivo para os nossos tempos. Para o cardeal Quiñones, a tarefa recebida do Papa Clemente VII era a de organizar as horas canônicas de tal modo que se aproximassem mais da forma antiga, segundo o modelo dos Santos Padres, e se retirasse todo excesso e detalhes confusos, a fim de que os sacerdotes não pudessem mais fugir do dever da oração. Mas o que se seguiu, ao fim e ao cabo, foi uma reforma baseada no antiquarianismo — isto é, o desejo de voltar ao antigo, sem uma consideração devida da Tradição e dos desenvolvimentos litúrgicos — e no humanismo renascentista, com apelo a uma questão pastoral bastante controvertida. Assim mesmo, o Breviário de Quiñones foi publicado com a pretensão de ser o “breviário das pessoas ocupadas”.

O historiador Pe. Pierre Batiffol destaca que o novo breviário de Quiñones aboliu os responsórios, bem como a distribuição tradicional dos salmos, rearranjando-os “num novo plano, numa ordem que era inegavelmente prática, fácil e atrativa, mas desconhecida para a Igreja antiga” [4]. A sua recepção, consequentemente, não se deu de forma tranquila, com contestação desde os teólogos da Sorbonne, na França, que o acusaram de romper com a Tradição, aos fiéis de Saragoça, na Espanha, que, suspeitando da ortodoxia dos novos cânones, acudiram alvoroçados à Catedral quase exigindo um auto da fé. “Este povo defendeu à sua maneira os justos direitos da Tradição litúrgica”, justifica padre Batiffol [5]. Todo esse furor, no fim das contas, impressionou a Santa Sé. 

O Breviário de Quiñones acabou proscrito por São Pio V, que levou a termo a reforma do Concílio de Trento. Para Dom Alcuin Reid, esse fato é “a principal demonstração, na história litúrgica, da prioridade de que goza o desenvolvimento orgânico sobre a aprovação da autoridade competente” [6]. Das lições que deveríamos tirar desse episódio, segundo Dom Prosper Guéranger, destaquemos estas três:

  1. a reforma da liturgia, para que dure, deve ser realizada não pelos eruditos, mas com a devida reverência e pelos investidos pela autoridade competente;
  2. é preciso resguardar-se do espírito da novidade; e 
  3. abreviar não é reformar: a duração da liturgia não deveria ser um problema aos olhos de quem deveria dedicar a vida à oração [7].

Todo esse zelo é necessário porque a Missa não é só uma recordação da Paixão de Cristo, “mas é um verdadeiro e próprio sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o sumo Sacerdote faz aquilo que fez uma vez sobre a cruz, oferecendo-se todo ao Pai, vítima agradabilíssima” (Pio XII, Mediator Dei, n. 61). Os ritos litúrgicos, consequentemente, precisam expressar esse mistério mais profundo da fé católica, a fim de que possamos oferecer Deus nossa adoração, ação de graças, súplica e arrependimento (lex orandi, lex credendi, lex vivendi). Os fiéis são chamados a participar “do santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato íntimo com o sumo Sacerdote [...], oferecendo com ele e por ele, santificando-se com ele”  (id., n. 73). 

Essas verdades devem estar bem visíveis diante de nossos olhos, sobretudo no contexto atual, em que já se sugere uma relativização da Eucaristia como nunca antes. Sem dúvida, a saúde das pessoas precisa ser preservada e os cristãos devem colaborar para que se forme um ambiente justo e saudável ao convívio social, em meio a uma situação tão adversa. Mas toda atividade caritativa da Igreja tem sua fonte justamente no banquete eucarístico, do qual ela se alimenta e vive (Ecclesia de Eucharistia). Todos os santos conhecidos por sua atenção aos humildes (São Francisco, São João Maria Vianney, Santa Teresa de Calcutá etc.) foram grandes amantes da Eucaristia. Tratá-la como coisa secundária e até descartável é ir contra as palavras de Nosso Senhor no Evangelho: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu [...] e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo” (Jo 6, 51). 

Não podemos permitir que a pandemia se converta no último golpe do inimigo contra o Santíssimo Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, depois de uma série de ataques e abusos que ele já sofreu ao longo das últimas décadas, causando a debandada de inúmeros batizados. Do contrário, não precisaremos de uma “nova teologia” para um “novo normal”, porque não haverá mais espaço para o Reino de Deus. Apenas para o Anticristo.

Referências

  1. Cardeal Joseph Ratzinger, “Réponse du Cardinal Ratzinger au Père Gy”. In: La Maison-Dieu 230.2 (2002) 113–20.
  2. Cyrille Vogel, Medieval Liturgy, 6004.ª ed., Pastoral Pr, 1983, p. 3.
  3. Prefácio do Cardeal Ratzinger ao livro de Dom Alcuin Reid, The organic development of the liturgy, San Francisco: Ignatius Press, 2005, versão eletrônica.
  4. Pe. Pierre Batiffol, History of the Roman Breviary, 1912, p. 241.
  5. Idem.
  6. Dom Alcuin Reid, op. cit., versão eletrônica.
  7. Dom Prosper Guéranger, Institutions liturgiques, 1878 (trad. e adapt. de Dom Alcuin Reid, The organic development of the liturgy, versão eletrônica).

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Medo certo, medo errado
Espiritualidade

Medo certo, medo errado

Medo certo, medo errado

O pânico quase mundial sobre o coronavírus, reconhecidamente sério, parece estar fora de proporção com a ameaça real que ele representa. Parece que perdemos a coragem. Muitos querem esperar por um mundo que não existe: um no qual todas as ameaças se foram.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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As leituras da Terça-feira da 13.ª Semana do Tempo Comum, ano par, falam sobre os tipos certo e errado de medo. O errado é ilustrado no texto do Evangelho:

Subiu ele a uma barca com seus discípulos. De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a ele e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, nós perecemos!” E Jesus perguntou: “Por que este medo, gente de pouca fé?” Então, levantando-se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: “Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?” (Mt 8, 23-27).

O mundo em que vivemos está cheio de perigos. Alguns vêm da natureza: inundações, fomes, terremotos, pragas e assim por diante. Também existem perigos em termos de finanças, reputação e segurança física. Muitas vezes temos medo dessas coisas, mas Jesus disse: “Por que este medo, gente de pouca fé?

Sim, o mundo é perigoso, mas em algum momento, de qualquer maneira, temos de vestir nossas “calças de gente grande”, sair por aí e viver nossas vidas. A pior coisa que este mundo pode fazer é matá-lo. Se você morrer fiel, será elevado deste mundo louco para um lugar de alegrias indizíveis e glórias incontáveis.

Ainda assim, nós nos acomodamos e preocupamos com tantas coisas. A COVID-19 não apenas testou nossos corpos; também pôs em teste nossas almas. O número de mortos tem sido alto, mas não tão alto quanto o de outras pragas ou mesmo em causas comuns de morte, como doenças cardíacas e câncer. E, por certo, não foi tão alto quanto o número de abortos. Dos que pegam o vírus, menos de 1% morrerá, e um pouco mais ficará gravemente doente; a maioria, no entanto, ficará apenas moderadamente doente e não precisará de hospitalização. O pânico quase mundial sobre esse vírus, reconhecidamente sério, parece estar fora de proporção com a ameaça real que ele representa. Parece que perdemos a coragem; muitos querem esperar por um mundo que não existe: um mundo no qual todas as ameaças se foram. Mesmo que um tratamento satisfatório para a COVID-19 venha a ser desenvolvido, ainda existem muitos outros vírus e bactérias ao nosso redor. “Não temas, pequeno rebanho; foi do agrado do Pai nos dar um sistema imunológico que funciona muito bem na maioria das vezes, mas não o tempo todo”. Um mundo livre de ameaças não existe.

Voltemos à pergunta do Senhor: “Por que este medo?” Na pior (e menos provável) das hipóteses, você morre; mas, para um cristão, a morte tem um sentido e “morrer é lucro” (Fl 1, 21). Será que nos preocupamos tanto por nossas almas quanto por nossos corpos?

Agora, vejamos o tipo “certo” de medo, discutido na primeira leitura de terça-feira. Amós adverte as pessoas quanto à chegada do dia do julgamento, que devem temer e se preparar com reverência. Infelizmente, havia muitos pecadores impenitentes em sua época que não se preocupavam com o estado de suas almas. Eles não seriam capazes de suportar o julgamento vindouro e o encontro com Deus:

Ouvi, israelitas, o oráculo que o Senhor pronunciou contra vós, […] vos castigarei por todas as vossas iniquidades. […] Rugirá por acaso o leão na floresta, sem que tenha achado alguma presa? […] Tocará o alarme na cidade sem que o povo se assuste? […] O leão ruge, quem não temerá! O Senhor Javé fala: quem não profetizará! […] Causei no meio de vós uma confusão semelhante ao cataclismo divino de Sodoma e de Gomorra; ficastes como um tição que se tira do fogo, mas não vos voltastes para mim — oráculo do Senhor. Por isso, Israel, eis o que te infligirei; e porque te farei isso, prepara-te, Israel, para sair ao encontro de teu Deus (Am 3, 1–8; 4, 11–12).

Israel estava perdido em sua riqueza e injustiça, apegando-se teimosamente ao pecado. Profeta após profeta alertaram para a ruína, mas foram ignorados, perseguidos e até mortos. Em 721 a.C., o tempo finalmente acabou e a balança da justiça pendeu para o desastre. O reino de Israel caiu sob os assírios, e dez das doze tribos de Israel foram praticamente perdidas nas brumas das história.

Eis uma coisa apropriada a se temer: o pecado e o que ele faz conosco, individual e coletivamente. Por enquanto, Deus nos envia profetas, graças, sacramentos, a sua Palavra e outros avisos, quando a sua voz ecoa em nossas consciências. Chegará o dia em que a pergunta será feita: “Você quer meu reino e seus valores, ou não?” Sim, este é um medo adequado: a proximidade do dia de nosso julgamento. Prepare-se para encontrar seu Deus, ó pecador.

Muitos não prestam atenção nisso. Correm para os negócios e vivem despreocupados sobre onde passarão a eternidade. Temem perder a saúde, a ruína financeira e o envelhecimento, coisas sobre as quais o Senhor diz: “Não temas”. Preocupam-se com seus corpos, mas não com suas almas. E deixam de temer a única coisa que deveriam: a proximidade do dia do juízo.

Depois, no Evangelho segundo S. Mateus, Jesus disse: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28). “Aquele”, é claro, é o próprio Jesus, pois o Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho para que o mundo o reverencie (cf. Jo 5, 22). Reverenciar Jesus significa tributar-lhe honra e santo temor.

À medida que amadurecemos na fé, esse temor por Jesus deve passar a ser um medo amoroso, pelo qual O temos em grande estima, em vez de nos encolhermos com pavor da punição. Mas se o temor servil é tudo o que você tem, vá em frente, pois este é muito melhor do que a presunção tola que muitas pessoas têm hoje.

Essas leituras da liturgia fornecem ótimas instruções sobre os tipos certo e errado de medo. O que você mais teme? A quem você mais teme? Seja honesto consigo mesmo ao responder a essas perguntas. Peça ao Senhor que o ajude a colocar o seu medo no lugar certo e no Único certo, a saber, Aquele a quem até os ventos e o mar obedecem!

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