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“Reze a Alá ou morra”: o retrato de uma Europa pós-cristã
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“Reze a Alá ou morra”:
o retrato de uma Europa pós-cristã

“Reze a Alá ou morra”: o retrato de uma Europa pós-cristã

Os mesmos europeus que clamavam por paredes sem crucifixos agora têm bandeiras islâmicas pintadas nos muros de seus prédios. O secularismo na Europa realmente está com os dias contados.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Fevereiro de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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"Reze a Alá ou morra": essas palavras foram pichadas, no começo deste mês, no muro de uma escola da cidade de Hovmantorp, comuna de Lessebo, ao sul da Suécia. Ao lado da frase, está o que parece ser uma bandeira do grupo terrorista Estado Islâmico. A polícia foi chamada quando a inscrição foi descoberta, mas, até o momento, não há suspeitos para o crime. A diretora da escola declarou que a pichação fê-la sentir-se "desconfortável".

Embora a Suécia seja majoritariamente secularista – o país tem "um dos maiores números de ateus" do mundo –, já se estima que haja uma população de 500 mil muçulmanos na Suécia, a maioria composta por imigrantes vindos do norte da África e do Oriente Médio. Esse número já é muito maior que a quantidade de católicos e ortodoxos no país, que, somados, não chegam a 200 mil. Dos membros da comunidade luterana da Suécia – a maior denominação cristã do país –, "apenas cerca de 2% participam regularmente dos cultos aos domingos".

Para ilustrar o crescente domínio islâmico em uma Europa com cada vez menos cristãos praticantes, tome-se o exemplo de alguns edifícios, que antes abrigavam cultos cristãos, e que estão sendo pouco a pouco transformados em salas de oração para muçulmanos. Na cidade de Clitheroe, no Reino Unido, o que há 40 anos era uma igreja metodista hoje é uma mesquita. Em junho do ano passado, o reitor da Grande Mesquita de Paris, Dalil Boubakeur, chegou a sugerir que o governo francês convertesse as suas igrejas católicas "abandonadas" em locais de culto islâmico. A população francesa reagiu e até fez um abaixo-assinado com o título "Não toque na minha igreja".

A verdade, porém, é que menos de 5% dos católicos franceses vão à Missa dominical, enquanto os muçulmanos, além de fazerem as suas orações, transmitem todas as suas tradições religiosas aos filhos, desde muito cedo – filhos, aliás, que eles têm em grande quantidade, enquanto as famílias europeias soçobram na esterilidade.

Todo esse quadro – igrejas vazias e mesquitas cheias, cristãos criando cachorros e muçulmanos doutrinando crianças – prenuncia uma mudança radical no continente europeu, que acontecerá em questão de poucas gerações. O que os "cavaleiros de Alá" não conseguiram no século VIII, graças à ação estratégica de Carlos Martel para defender as fronteiras da França, os seus descendentes farão por meios muito mais rápidos, sutis e eficazes.

Ninguém se escandalize com essa comparação, porque, mutatis mutandis, é este o quadro que se desenha e as notícias não nos deixam mentir: os muçulmanos estão realmente dominando a Europa. Se é verdade que há muitos imigrantes fugindo de regiões de conflito e procurando um ambiente de paz para abrigarem as suas famílias, também é verdade que essas pessoas têm uma religião e uma cultura próprias, e não vão simplesmente renunciar a elas só porque mudaram de território. As dezenas de cortes islâmicas operando ativamente à margem da lei britânica são emblemáticas. Onde entram os muçulmanos, entram também a lei e a tradição islâmicas, na sua crua integralidade, e não demora muito para que o Ocidente passe a conviver com aquilo que sempre deplorou em questão de direitos humanos – desde a inferiorização da mulher até a violência em matéria religiosa.

Embora alguém apressadamente sugira uma comparação de todo esse processo com as Cruzadas ou a Inquisição católicas, não existe paralelo. Nenhum desses episódios históricos se destinava a fazer o que o Islã faz desde que nasceu, na Península Arábica: propagar as suas crenças pela força da espada. As Cruzadas surgiram justamente para defender Jerusalém dos muçulmanos, que ameaçavam os peregrinos cristãos de visitarem os lugares sagrados pelos quais Jesus passou. A Inquisição, ainda que com os seus conhecidos abusos, era um instrumento para conter focos de perturbação social em reinos cristãos, e não uma máquina de proselitismo a qualquer custo. Basta estudar um pouco a história das duas religiões para descobrir um abismo evidente entre a religião dos mártires e o exército criado desde o começo por Maomé.

Certamente, também, não se trata de dizer que todos os muçulmanos são terroristas. Dentro do mundo islâmico, há quem deplore tudo isso, há pessoas verdadeiramente abertas ao diálogo. A carta assinada por 100 intelectuais e endereçada ao Papa Bento XVI, em 2006, como resposta ao seu discurso de Ratisbona, é um exemplo disso. Ao mesmo tempo, porém, que alguns o escutaram, dezenas de protestos foram convocados e uma freira italiana foi morta na Somália em retaliação às suas palavras. Ao mesmo tempo em que há eruditos muçulmanos contrários à violência, um acadêmico sírio foi preso recentemente em Frankfurt, na Alemanha, por defender o Estado Islâmico. Ele gravou um vídeo extenso dando argumentos retirados do Alcorão para mostrar por que ele, "como simples muçulmano", apoiava os terroristas do ISIS.

É perfeitamente compreensível, portanto, que um padre iraquiano venha a público declarar que "o ISIS representa cem por cento o Islã". De fato, a linha que divide o terrorismo e o chamado "verdadeiro islamismo" parece tênue demais para ser real. Pelo menos é esse o parecer dos especialistas que ainda não foram contagiados pela doença do "politicamente correto".

O jornalista palestino Abdel Bari Atwan, editor-chefe de um importante portal de notícias no mundo árabe, afirmou praticamente a mesma coisa durante uma conferência na Universidade Americana de Beirute:

"Por que o Estado Islâmico usa de selvageria? [...] Eu fico surpreso com as pessoas que dizem, 'essa ideologia embebida de sangue é estranha para nós, de onde eles tiraram isso, o Islã não é sangrento'. Como você pode dizer que o Islã não é sangrento? Não há nada de estranho nisso. Nos dias do Califado Abássida (750-1299), Abu Al-Abbas Al-Saffah estendeu um tapete em cima dos crânios das pessoas e, depois, teve jantar em cima dele […], e isso aconteceu em nossa região. […] Eu não sou nenhuma fonte de autoridade religiosa, mas quando o xeique de Al-Azhar, que lidera a instituição moderada da religião, se recusa a acusar o ISIS de heresia e diz que eles são muçulmanos, do que mais precisamos?"

"O terror que está abalando o mundo hoje não é um desastre natural, como um tornado, uma tempestade ou um terremoto, e não está sendo perpetrado por tribos selvagens, mas por pessoas que se alistam inspiradas por uma ideologia religiosa", escreve outro jornalista do mundo árabe, o iraquiano Fadel Boula. "Essas pessoas defendem o cumprimento e a propagação de seus princípios dogmáticos pela força da espada, e ordenam assassinatos, expulsões e destruição por onde quer que passem. (...) Todos esses crimes são perpetrados por aqueles que louvam a Alá dia e noite, que rezam fervorosamente e fazem tudo de acordo com a sua vontade."

Por isso, a mensagem pichada no muro daquela escola sueca não é totalmente estranha. Suas fontes estão no Alcorão (4, 89; 8, 12; 9, 5; 47, 4) e muitos a reivindicam como a verdadeira mensagem do Islã. Curioso, estranhamente curioso, é que os mesmos europeus que há uns dias clamavam por paredes sem crucifixos agora tenham bandeiras islâmicas pintadas nos muros de seus prédios. O secularismo na Europa realmente está com os dias contados.

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As Cruzadas foram um ato de amor
História da Igreja

As Cruzadas foram um ato de amor

As Cruzadas foram um ato de amor

Admiremos ou não os cruzados, o mundo que conhecemos hoje não existiria sem o empenho deles. Não fossem estas guerras de defesa chamadas Cruzadas, a fé cristã que moldou o Ocidente teria sucumbido ao islã e seguido o caminho da extinção.

Thomas F. MaddenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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São muito comuns os equívocos sobre as Cruzadas. Geralmente, elas são retratadas como uma série de guerras santas contra o islã, conduzidas por Papas ávidos de poder e travadas por fanáticos religiosos. Supõe-se que elas foram o epítome da presunção e da intolerância, uma mancha negra na história da Igreja Católica em particular e da civilização ocidental em geral. Uma espécie de protoimperialistas, os cruzados levaram a agressividade ocidental ao pacífico Oriente Médio e então deformaram a esclarecida cultura islâmica, deixando-a em ruínas. Não precisamos ir muito longe para encontrar variações desse tema. 

Qual é então a verdade sobre as Cruzadas? Especialistas ainda estão tentando chegar a um acordo sobre isso, ao menos em parte. Porém, já é possível ter certeza sobre muitas coisas. Para começar, as Cruzadas em direção ao Oriente foram, sob todos os aspectos, guerras de defesa. Foram uma resposta direta às agressões de muçulmanos — uma tentativa de reversão ou de defesa contra as conquistas islâmicas nos territórios cristãos.

Os cristãos do século XI não eram fanáticos paranoicos. Os muçulmanos realmente os perseguiam. Embora eles possam ser pacíficos, o islã nasceu e cresceu por meio da guerra. Desde a época de Maomé, a expansão islâmica sempre se deu por meio da espada. O pensamento islâmico divide o mundo em dois campos: o território do islã e o da guerra. Não há nenhum território para o cristianismo ou para qualquer outra religião. Num Estado muçulmano, cristãos e judeus podem ser tolerados sob a lei islâmica. Porém, no islã tradicional, Estados cristãos e judaicos devem ser destruídos e suas terras, conquistadas. 

Quando Maomé guerreou contra Meca no século VII, o cristianismo era a religião predominante em relação ao poder e à riqueza. Como era a fé do Império Romano, abarcava o Mediterrâneo inteiro, incluindo o Oriente Médio, onde havia nascido. Portanto, o mundo cristão foi o principal alvo dos primeiros califas e assim permaneceu, para os líderes muçulmanos, ao longo do milênio seguinte.

Os guerreiros islâmicos atacaram os cristãos com imenso vigor logo após a morte de Maomé. Foram muito bem-sucedidos. Palestina, Síria e Egito — outrora as regiões mais cristãs do planeta — sucumbiram rapidamente. No século VIII, exércitos muçulmanos conquistaram todo o norte da África e Espanha, regiões cristãs. No século XI, o Império Seljúcida conquistou a Ásia Menor (Turquia moderna), que era cristã desde a época de São Paulo. O antigo Império Romano, conhecido pelos historiadores modernos como Império Bizantino, ficou reduzido a pouco mais que a Grécia. Desesperado, o imperador em Constantinopla enviou uma mensagem aos cristãos da Europa Ocidental para pedir ajuda aos seus irmãos e irmãs do Oriente. 

Foi isso o que deu origem às Cruzadas. Elas não foram a criação de um Papa ambicioso nem de cavaleiros gananciosos, mas uma resposta a mais de quatro séculos de conquistas por meio das quais os muçulmanos já haviam tomado dois terços do antigo mundo cristão. A um dado momento, o cristianismo teve de se defender, como fé e cultura, para não ser absorvido pelo islã. As Cruzadas foram essa defesa. 

No Concílio de Clermont, em 1095, o Papa Urbano II pediu aos cavaleiros da cristandade para que repelissem as conquistas do islã. A resposta foi tremenda. Milhares de guerreiros fizeram o juramento da cruz e se prepararam para a guerra. Por que o fizeram? A resposta a essa pergunta foi muito incompreendida. Após o surgimento do Iluminismo, tornou-se usual afirmar que os cruzados eram simplesmente sem-terra e inúteis que se aproveitaram de uma oportunidade para roubar e pilhar num território distante. Obviamente, os sentimentos de piedade, abnegação e amor a Deus manifestados por eles não deveriam ser levados a sério, pois eram somente uma fachada para encobrir planos obscuros.

Durante as duas últimas décadas, estudos de documentos, assistidos por computador, demoliram tal narrativa. Especialistas descobriram que, em geral, os cavaleiros cruzados eram homens ricos que possuíam muitas terras na Europa. Não obstante, eles abriram mão de tudo voluntariamente para realizar a santa missão. Participar de uma Cruzada não era algo barato. Até senhores ricos podiam facilmente ficar pobres junto com suas famílias por participarem de uma Cruzada. Faziam-no não por almejarem riquezas materiais (algo que muitos deles já possuíam), mas porque tinham a esperança de ajuntar tesouros onde nem as traças nem a ferrugem os poderiam consumir

Eles tinham profunda consciência do quanto eram pecadores, e estavam dispostos a suportar as privações da Cruzada como um ato penitencial de amor e caridade. A Europa está repleta de documentos medievais que confirmam esses sentimentos, documentos por meio dos quais aqueles homens falam conosco até hoje. Basta que os escutemos. É claro que eles não se opunham a capturar espólios quando isso era possível. Porém, a verdade é que as Cruzadas eram notoriamente ruins para a pilhagem. Poucas pessoas enriqueciam, mas a grande maioria retornava sem nada.

Urbano II deu aos cruzados dois objetivos, e ambos continuaram sendo essenciais para as Cruzadas orientais nos séculos seguintes. O primeiro era resgatar os cristãos do Oriente. Como disse o sucessor dele, Inocêncio III:

Como pode um homem amar o próximo como a si mesmo, segundo o preceito divino, quando, sabendo que seus irmãos na fé são mantidos pelos pérfidos muçulmanos em estrito confinamento e oprimidos pela mais pesada servidão, não se dedica à tarefa de libertá-los? É por acaso que ignorais que milhares de cristãos são mantidos na escravidão e na prisão pelos muçulmanos, além de serem torturados com inúmeros suplícios?

O professor Jonathan Riley-Smith argumentou corretamente que “a participação numa Cruzada era entendida como um ato de amor” — neste caso, o amor ao próximo. A Cruzada era vista como um serviço de caridade para corrigir uma terrível injustiça. O Papa Inocêncio III escreveu o seguinte aos cavaleiros templários: “Realizais com atos as palavras do Evangelho: ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.’”

O segundo objetivo era libertar Jerusalém e outros locais santificados pela vida de Cristo. A palavra cruzada é moderna. Os cruzados medievais consideravam-se peregrinos que realizavam atos de justiça no trajeto em direção ao Santo Sepulcro. A indulgência que recebiam era ligada canonicamente à indulgência da peregrinação. Esse objetivo era descrito com frequência em termos feudais. Quando convocou a Quinta Cruzada em 1215, Inocêncio III escreveu:

Meus queridos filhos, considerai com cuidado o seguinte: se qualquer rei temporal fosse tirado de seu domínio e, talvez, capturado, não olharia para seus vassalos como infiéis e traidores quando sua liberdade ficasse novamente intocada e chegasse o momento de fazer justiça… a menos que eles tivessem comprometido não apenas suas propriedades, mas também a si próprios na missão de libertá-lo? E, de modo semelhante, Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores, a quem não podeis negar a servidão, que uniu vossas almas aos vossos corpos e que vos redimiu com o Sangue Precioso… não vos condenará pelo vício de ingratidão e crime de infidelidade se descuidardes de ajudá-lo?

A reconquista de Jerusalém, portanto, foi um ato de restauração, não de colonialismo, e uma declaração aberta de amor a Deus. Os medievais sabiam, é claro, que Deus tinha poder para reconquistar Jerusalém para si — na verdade, Ele tinha poder para pôr o mundo inteiro sob seu governo novamente. Porém, como pregou São Bernardo de Claraval, sua recusa em fazê-lo era uma bênção para seu povo:

Digo novamente: levai em conta a bondade do Todo-poderoso e prestai atenção em seus planos de misericórdia. Ele impõe a si uma obrigação para convosco (ou antes simula isso), de modo que possa ajudar-vos a satisfazer vossas obrigações para com Ele… Considero abençoada a geração que pode aproveitar a oportunidade de uma indulgência tão rica como essa.

Pressupõe-se com frequência que o objetivo central das Cruzadas era a conversão forçada do mundo islâmico. Nada poderia estar mais distante da verdade. Do ponto de vista dos cristãos medievais, os muçulmanos eram os inimigos de Cristo e de sua Igreja. O objetivo dos cruzados era derrotá-los e defenderem-se deles. Nada mais. Os muçulmanos que viviam em territórios conquistados por cruzados geralmente recebiam a permissão para conservar sua propriedade, seu meio de vida e — sempre — sua religião. Na verdade, ao longo da história do Reino Cruzado de Jerusalém, o número de habitantes muçulmanos superou bastante o de católicos. Foi só no século XIII que os franciscanos começaram a tentar converter os muçulmanos. Porém, tais tentativas foram em grande medida infrutíferas e ao fim e ao cabo foram abandonadas. Seja como for, não se recorria à ameaça de agressão, mas à persuasão pacífica.

Cinquenta anos depois, quando a Segunda Cruzada estava sendo preparada, São Bernardo pregou muitas vezes que os judeus não deviam ser perseguidos:

Perguntemos a qualquer um que conhece as Sagradas Escrituras o que o Salmo vaticina sobre os judeus. “Não rezo pela destruição deles”, ele diz. Os judeus são para nós as palavras vivas da Escritura, pois sempre nos recordam o que Nosso Senhor sofreu… Sob o governo dos príncipes cristãos, eles suportam uma difícil servidão, mas “apenas esperam o momento de sua libertação”.

Contudo, um monge cisterciense contemporâneo de São Bernardo chamado Rodolfo incitou as pessoas contra os judeus da Renânia, apesar de Bernardo ter escrito várias cartas para exigir que ele parasse com aquilo. No final das contas, ele se viu obrigado a ir pessoalmente até a Alemanha, onde alcançou Rodolfo, enviou-o de volta ao seu convento e interrompeu os massacres. 

Afirma-se com frequência que é possível ver nessas perseguições as raízes do Holocausto. Pode ser verdade, mas se for o caso, essas raízes são muito mais profundas e abrangentes do que as Cruzadas. Judeus morreram durante as Cruzadas, mas o objetivo delas não era matar judeus. Foi exatamente o contrário: Papas, bispos e pregadores deixaram claro que os judeus da Europa deviam ser deixados em paz. Numa guerra moderna, chamamos mortes trágicas como essas de “dano colateral”. Mesmo com tecnologias inteligentes, os Estados Unidos mataram um número muito maior de inocentes em guerras do que os cruzados jamais poderiam imaginar. Porém, ninguém argumentaria com seriedade que o propósito das guerras americanas é matar mulheres e crianças. 

Da confortável distância de tantos séculos, fica muito fácil olhar com desprezo para as Cruzadas. Afinal, a religião não deve ser motivo para guerrearmos. Porém, devemos ter em mente que nossos ancestrais medievais sentiriam a mesma repugnância de nossas guerras infinitamente mais destrutivas, porque travadas em nome de ideologias políticas. Mesmo assim, tanto o soldado medieval como o moderno lutam, em última instância, por seu próprio mundo e por tudo o que faz parte dele. Ambos estão dispostos a realizar um enorme sacrifício, desde que seja em prol de algo que amam, algo maior que eles. Admiremos ou não os cruzados, o fato é que o mundo que conhecemos hoje não existiria sem o empenho deles. A antiga fé do cristianismo, com seu respeito pelas mulheres e sua aversão à escravidão, não apenas sobreviveu, mas prosperou. Sem as Cruzadas, ela poderia muito bem ter seguido o caminho do zoroastrismo, outro rival do islã, rumo à extinção.

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Uma defesa bíblica do dogma da Imaculada Conceição
Doutrina

Uma defesa bíblica
do dogma da Imaculada Conceição

Uma defesa bíblica do dogma da Imaculada Conceição

Por que a concepção da bem-aventurada Virgem Maria foi diferente de todas as outras? O que a Igreja crê a esse respeito e como as Sagradas Escrituras podem nos ajudar a compreender esse grande mistério?

Lucas R. PolliceTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Se perguntarmos às pessoas, inclusive a muitos católicos, o que é a Imaculada Conceição, há uma grande chance de eles responderem, de forma equivocada, que é a concepção de Jesus no ventre de Maria. Mas, na verdade, a Imaculada Conceição é a concepção de Maria. É um dogma que nos revela que Maria foi preservada da mancha do pecado original no momento de sua concepção, e permaneceu livre do pecado por toda a sua vida.

Era intrínseco ao plano salvífico de Deus que Maria fosse concebida sem o pecado original. Porque Adão e Eva, quando se afastaram de Deus, representavam toda a humanidade, todos os seres humanos afastaram-se de seu Criador. O pecado original foi transmitido a todas as gerações, ao longo de toda a história da humanidade, de modo que, quando somos concebidos, já nascemos num estado natural de separação de Deus, que os teólogos chamam de pecado original originado, e com uma inclinação para pecar, que é a concupiscência.

O plano salvífico de Deus era que seu Filho unigênito, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, assumisse a natureza humana, a fim de que tanto Deus como o homem Jesus pudessem realizar a redenção da raça humana. Mas havia um problema: Deus é sumamente santo. Portanto, Ele está em completa e total oposição ao pecado, razão pela qual os pecadores não podem estar em sua presença, sem antes serem purificados. 

Como, então, Deus, o Filho, poderia se unir intimamente a uma natureza humana decaída? É aqui que entra o plano de Deus para Maria. Deus a escolheu para ser concebida sem pecado original, a fim de que pudesse dar a Jesus uma natureza humana pura e sem pecado. Maria é o vaso puro e inoxidável através do qual Jesus recebe uma natureza humana imaculada e sem pecado, a fim de que possa entrar no mundo para completar o plano salvífico do Pai.

No livro do Gênesis, Deus anunciou pela primeira vez o seu plano de salvação realizado por meio de Cristo, ao afirmar à serpente: “Colocarei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15). Deus dirige-se à serpente para dizer que os filhos da mulher atingirão sua cabeça. Quem é que atacará a cabeça da serpente? Jesus é quem veio para atacar a cabeça de Satanás e destruir seu poder. Portanto, se o filho da mulher é Jesus, a mulher obviamente é Maria.

Deus fala de inimizade entre a serpente e a mulher, e entre os descendentes da serpente e os descendentes da mulher. A descendência de Satanás é, na verdade, o pecado, com o qual ele deseja se multiplicar e encher a terra. Portanto, existe inimizade entre Maria/Jesus e Satanás/pecado. Essa inimizade significa uma oposição total e completa. Assim, quando duas coisas estão em inimizade, elas não têm nada a ver uma com a outra; não há absolutamente nenhuma cooperação ou comunhão entre ambas. Isso significa que Jesus e Maria se opõem completamente a Satanás e ao pecado, não possuindo nenhuma cooperação ou comunhão com eles.

Era necessário que Maria não tivesse uma natureza decaída, pois qualquer participação no pecado original, ou mesmo no pecado pessoal, destruiria sua inimizade com Satanás e o pecado. Por conseguinte, nesse primeiro anúncio do plano salvífico de Deus, vemos sua intenção de manter Maria totalmente livre do pecado, a fim de que Jesus pudesse assumir uma natureza humana incorruptível.

Uma referência ainda mais explícita à Imaculada Conceição de Maria está presente no Evangelho de Lucas, na Anunciação do anjo a Nossa Senhora (cf. Lc 1, 26-38). Ao saudar Maria, o anjo Gabriel revela que ela é imaculada. A tradução mais adequada da sua saudação é “Salve, tu que és plena de graça” (Lc 1, 28). A palavra grega kekaritomene (κεχαριτωμένη) é um particípio perfeito, que significa “foi preenchido”. Em razão disso, afirmamos que Maria é aquela que “foi preenchida” com a graça de Deus, aquela que a recebeu em toda sua plenitude, uma vez que a graça já lhe foi concedida de forma plena no momento da sua concepção.

A saudação do anjo revela ainda outra verdade sobre Maria. Sempre que alguém peca — mesmo que cometa o menor dos pecados —, acaba por perder ao menos um pouco da graça de Deus. Essa é a natureza do pecado: uma decisão livre de rejeitar a graça que Deus oferece a nós, que é a vida de seu Filho dada em sacrifício de amor. Para Maria estar “plena de graça”, ela deveria estar completamente livre do pecado, porque o mais ínfimo pecado a privaria de pelo menos parte da graça que recebera.

Cabe agora compreendermos como exatamente Deus preservou Maria do pecado original. Em sua bula Ineffabilis Deus, o Papa Pio IX declarou que ela foi preservada do pecado “por singular graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo”.

Maria precisava, tanto quanto todos nós, que Cristo a redimisse. E ela foi, como todos nós, redimida por sua morte na Cruz. Mas, como ela pode ter sido redimida pela morte de Jesus na Cruz antes mesmo de Jesus ter nascido?

Deus é eterno e transcendente e, portanto, não está submetido às limitações de espaço e tempo. Ele vê todo o tempo — passado, presente e futuro — de uma só vez. É como se olhasse para um trem muito longo do alto de um helicóptero. Os motores são o momento da Criação e o último vagão é o fim do mundo, e nós estamos em algum lugar entre os dois. Deus opera fora do tempo. Portanto, Ele tomou as graças e os méritos da morte de Jesus na Cruz e os aplicou de volta no tempo ao momento da concepção de Maria. Desse modo, Maria Santíssima, como todos nós, foi redimida por Cristo, embora, “por singular graça e privilégio do Deus onipotente”, ela também tenha sido completamente preservada do pecado original. Nesse sentido, Maria não foi apenas redimida, mas também preservada do pecado. Ela nunca teve pecado, nem por um segundo. Desde o primeiro momento de sua existência, Maria foi completamente preservada do pecado, sem nunca conhecer ou cooperar com ele em toda sua vida.

Embora Maria tenha sido preservada do pecado original no momento de sua concepção, ela ainda poderia ter escolhido pecar, pois tinha livre-arbítrio. Ela ainda poderia ter rejeitado a graça de Deus e o seu plano, e caído no pecado. Ela poderia ter dito “não” ao Pai na Anunciação do anjo Gabriel. Ela poderia ter dito “não” ao Pai, aos pés da Cruz, onde entregou seu Filho. Ela poderia ter se desesperado e amaldiçoado a Deus. No entanto, Maria cooperou perfeitamente e se rendeu ao grande dom da graça que Deus lhe dera e viveu a mais extraordinária vida cristã. É por isso que Maria é nosso grande modelo de fé a ser vivido pela Igreja. Somos chamados a cooperar com todas as graças que Deus escolhe nos dar, a fim de que, com humildade e amor, andemos pelo caminho que Ele quer para nós.

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Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto
Sociedade

Como os americanos estão
mudando o debate sobre o aborto

Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto

Um movimento que começou tímido agora é uma das principais forças políticas dos Estados Unidos. Entenda como a Marcha pela Vida mudou o rumo do debate sobre o aborto e o que temos a aprender com ela no Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Neste dia 24 de janeiro, milhares de pessoas estão nas ruas de Washington D.C., para participarem da Marcha pela Vida, um evento que acontece todos os anos na capital americana, desde 1973, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos lamentavelmente aprovou o aborto em todo o país, pelo julgamento “Roe vs. Wade”. A ocasião é propícia para refletirmos um pouco sobre o movimento pró-vida no Brasil e aprendermos de nossos irmãos americanos a como derrotar a “cultura da morte”.

A legalização do aborto nos Estados Unidos foi toda baseada numa peça teatral com a “protagonista perfeita”. Norma McCorvey, a famosa Jane Roe do processo que foi parar na Suprema Corte, queria interromper a gravidez, mas esbarrava na legislação do Texas, que só permitia o aborto em situação de risco para a mãe. Com 22 anos apenas, ela inventou que havia sido violentada. Daí para frente, as suas duas advogadas, Sarah Weddington e Linda Coffe, que já militavam pelos chamados “direitos reprodutivos”, fizeram o trabalho de levar o caso até as últimas instâncias, obtendo dos ministros da Suprema Corte um parecer positivo, sob um questionável argumento de “privacidade” da mulher.

A partir disso, as clínicas de aborto logo se espalharam por todo o território americano, tornando-se uma indústria altamente lucrativa. Estima-se que, de 1973 até os dias atuais, os Estados Unidos já tenham assistido a mais de 60 milhões de abortos. A poderosa Planned Parenthood, fundada pela infame Margaret Sanger, é a principal clínica no ramo, destacando-se desde então pela barbaridade de seus métodos. Em 2015, a empresa se envolveu numa grande polêmica após o vazamento de vários vídeos em que seus funcionários delatavam a existência de uma rede de tráfico de órgãos dentro da própria Planned Parenthood.

Ao fim e ao cabo, a militância pró-aborto teve uma vitória incrível nos Estados Unidos, que surtiu um efeito cascata em todo o mundo. No Brasil, a estratégia tem sido praticamente idêntica, com os mesmos slogans e técnicas para ganhar do Supremo Tribunal Federal a tão desejada legalização. Eles já conseguiram a aprovação do uso de células-tronco embrionárias e o aborto em caso de anencefalia. Atualmente, outros dois casos se encontram nas mãos dos nossos ministros (um sobre o aborto em casos de Zika e outro que pede a legalização da prática até a 12.ª semana da gestação), aguardando a oportunidade de serem julgados. 

Como em “Roe vs. Wade”, os militantes daqui também encontraram alguém para lhes servir como “protagonista perfeito”. O precedente foi aberto pelo ministro Luís Roberto Barroso, que absolveu uma quadrilha de médicos aborteiros, a fim de introduzir um falso direito na Constituição.

“Nós somos a geração pró-vida”. Foto da Marcha pela Vida, dos EUA.

Mas enganar-se-ia quem pensasse que a situação é irreversível. A partir de 1973, o movimento pró-vida americano iniciou a Marcha pela Vida, na garagem da senhora Nellie Gray. Aos poucos, aquela tímida reação foi ganhando corpo e hoje é um dos principais agentes políticos dos Estados Unidos, determinando até as eleições federais. 

Em 2013, início do segundo mandato de Barack Obama, um ardente militante do direito ao aborto, a Marcha pela Vida colocou mais de 600 mil pessoas para marcharem até o Capitólio (na maior edição da história do evento), com uma mensagem clara ao presidente. Com efeito, a última pesquisa a respeito da intenção de voto dos americanos mostra que a maior parte deles está decidida a escolher candidatos contrários ao aborto. Não bastasse isso, o número de estados com legislações mais pró-vida vem aumentando todos os anos.

A invertida da causa pró-vida desperta, obviamente, o medo dos seus adversários. Naquele mesmo ano de 2013, a revista Time publicou toda uma edição dedicada a analisar como “o movimento pró-aborto (pro-choice) vem perdendo” após a farsa de “Roe vs. Wade”. “Conseguir um aborto é mais difícil hoje do que em qualquer época desde a década de 1970”, admitiu a revista. De fato, o número de médicos que se dispõe a fazer a operação diminuiu de lá para cá, porque a série de restrições impostas pelos estados mais pró-vida tem dificultado a permanência de clínicas abertas. E a situação deve piorar ainda mais para eles agora que o presidente Donald Trump colocou na Suprema Corte mais dois juízes conservadores, diminuindo a resistência dos progressistas. 

É uma questão de tempo até que a absurda decisão do caso “Roe vs. Wade” seja finalmente sepultada. Até porque, a própria senhora McCorvey passou para o movimento pró-vida, em 1995, e desde então até a sua morte, em 2017, ela lutou para reverter o desfecho do seu julgamento. McCorvey explicava assim a razão da sua nova postura:

Pura e simplesmente, eu fui usada. Eu não era ninguém para elas (as advogadas). Elas apenas precisavam de uma mulher grávida para usá-la no caso, e era só isso. Elas estavam preocupadas, não comigo, mas apenas com a legalização do aborto. Mesmo depois do caso, eu nunca fui respeitada — provavelmente porque eu não era nenhuma feminista liberal, educada nas universidades mais prestigiadas, como elas eram.

Todo esse sucesso do movimento pró-vida se deve, segundo a revista Time, a duas coisas: por um lado, uma organizada e bem-executada estratégia, que conseguiu formar uma geração de militantes jovens e dispostos a lutar pela causa; e por outro, o avanço da ciência em técnicas de pré-natal, que permitiu a identificação do feto como alguém verdadeiramente humano. “Graças ao ultrassom pré-natal”, diz a revista, “os americanos agora sabem com o que o feto se parece, e que um bebê nascido por volta da 24.ª semana pode sobreviver”. 

Essas informações foram decisivas para que grande parte dos americanos (principalmente jovens) migrasse para o lado oposto da “cultura da morte”, apesar de toda a campanha midiática e da pressão das grandes fundações internacionais. Enquanto isso, a malfadada Marcha das Mulheres, um dos braços do movimento pró-aborto, sofre para não minguar e desaparecer de vez.

A defesa da vida é uma questão de lei natural. Está no sangue de qualquer ser vivo o desejo de preservar a própria espécie, sobretudo a prole. Por isso, quando ficamos sabendo de pais que abandonaram o filho, ou mesmo de algum animal que se desfez da cria, isso nos causa bastante estranheza. Parece que há algo de errado, algo bastante contrário à natureza das coisas.

O trabalho do movimento pró-vida, nesse sentido, consiste em manter vivo esse sadio “senso comum”, acolhendo as mães em situação de risco, como fazem as várias casas de apoio, e promovendo formações permanentes sobre o valor da vida humana, desde a concepção até a morte natural. Com a ajuda da ciência, esse trabalho tem sido ainda mais fecundo, porque qualquer um pode identificar o ser humano em pleno desenvolvimento no ventre da mulher. Como dizia o doutor Jérôme Lejeune: “Não há diferença [substancial] entre a pessoa que você era no momento da fecundação do óvulo de sua mãe e a pessoa que você é hoje”. Trata-se de um fato que salta aos olhos.

O movimento pró-aborto, por outro lado, precisa remar contra a maré e fazer de tudo para cancelar do espírito humano a sua própria natureza. Na audiência pública para discutir a descriminalização do aborto no Brasil, a antropóloga Débora Diniz fez um discurso muito revelador. Em linhas gerais, a argumentação dela baseou-se em duas premissas: i) a de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar o desejo delas de abortar; ii) a negação de qualquer aspecto de humanidade ao feto que, para ela, seria apenas uma “bola de sangue”, como já disse em outros momentos. É incrível que em 15 minutos de exposição ela não tenha mencionado o bebê uma única vez. Para o pensamento de Débora Diniz, “abortar ou não” é como a decisão sobre o fumo: usa quem quer.

Mas se concordássemos com esse argumento de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar a vontade delas de interromper a gestação de uma “bola de sangue”, deveríamos então nos perguntar que tipo de expectativas podemos ter por parte dos homens. Afinal de contas, toda essa celeuma não se baseia na “igualdade de direitos”? Imaginem, portanto, a seguinte situação: o Supremo Tribunal Federal convoca uma audiência pública para discutir o problema do estupro no Brasil. Um renomado antropólogo resolve então defender a ideia do “estupro legal”, com base na premissa de que todo homem é um estuprador em potencial e vai acabar cometendo essa barbaridade mais cedo ou mais tarde.

Para esse antropólogo, o estupro é um caso de “saúde pública”, e o Estado não deveria discutir sobre a moralidade dos “direitos reprodutivos” de ninguém. O antropólogo propõe, então, a descriminalização do estupro para assegurar o direito ao “sexo legal”, a fim de que os homens não precisem recorrer a relações clandestinas, que lhes possam causar sérias doenças, nem corram o risco de terminar atrás das grades, simplesmente por satisfazerem suas necessidades sexuais. Do lado de fora do STF, militantes do coletivo “Marcha dos Vadios” discursam palavras de ordem do tipo “meu corpo, minhas regras” e “estupro legal e seguro”.

Algo assim seria um completo disparate e só a mínima hipótese deve nos causar asco. Todavia, se trocarmos os substantivos “homem” e “estupro” por “mulher” e “aborto”, nós teremos exatamente o discurso de Débora Diniz e de praticamente todo o movimento pró-aborto. A simples ideia de que não devemos criar “expectativas morais” sobre uma pessoa, qualquer que seja, mas apenas aceitar as suas escolhas, mesmo que isso implique um assassinato, é abrir as portas para a insanidade. 

Se só o que vale é a vontade, e sou eu que decido arbitrariamente que vida tem ou não mais valor e dignidade, ninguém deve se espantar com a barbárie; ninguém deve se espantar se uma mãe arranca o filho da barriga para ganhar o Globo de Ouro, como sugeriu a atriz Michelle Willians recentemente, ou se um diretor de cinema assedia as atrizes de seus filmes. Ambos foram igualmente acostumados a não ter “expectativas morais” sobre nada e a simplesmente olhar os outros como objetos descartáveis.

Sabiamente, o movimento pró-vida dos Estados Unidos tem conseguido desmascarar toda a estupidez dos argumentos pró-aborto, mostrando justamente as consequências nefastas que essa ideologia causa à mulher. Baseados na natureza das coisas, eles têm convencido até grandes figurões do lado oposto, como também foi o caso do doutor Bernard Nathanson, um dos fundadores da National Association for Repel of Abortion Laws (NARAL), que se arrependeu após ter assistido ao ultrassom que mostrava a agonia de uma criança durante a sucção. Depois disso, Nathanson veio a público denunciar como os números divulgados pelos defensores do aborto eram falsos, num documentário que ficou famoso no mundo todo: “O Grito Silencioso”.

O movimento pró-vida dos Estados Unidos está organizado em associações de leigos, casas de apoio e grupos de oração que trabalham conjuntamente para esclarecer a opinião pública e dar a ajuda que as gestantes precisam. Uma parte desse trabalho já foi apresentada em filmes como Blood Money, Em busca de um lar e, mais recentemente, no sucesso Unplanned, que devido à grande repercussão, acabou banido de algumas salas de cinema por medo da militância pró-aborto. Porque é só isso que esse grupo consegue fazer: mentir e calar seus oponentes. Mas a tática não está dando certo, como vimos.

O movimento pró-vida brasileiro deve, pois, seguir a mesma agenda, com militância tanto na política, quanto no dia a dia, auxiliando as gestantes e esclarecendo a população, sobretudo os mais jovens, acerca das mentiras do movimento pró-aborto. 

Trata-se de algo que já Bento XVI pedia, lembrando que, nesse campo, “a Igreja lutará pelas respostas que melhor correspondam à justa medida do ser humano”, devendo “fazer todo o possível por criar uma convicção que possa depois traduzir-se em ação política”. Tudo isso porque a defesa da vida não é simplesmente uma questão religiosa, mas também um direito natural, inscrito no coração de cada ser humano; um direito que deve ser promovido, tutelado e preservado a todo custo, desde a concepção até a morte natural, para todas as pessoas, sejam homens, mulheres ou crianças.

E assim também surgirá no Brasil uma geração que porá fim à “cultura da morte”.

Notas

  • A imagem acima é da Marcha pela Vida ocorrida em 22 de janeiro de 1995, na mesma capital americana, Washington.

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Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo
Testemunhos

Guido Schäffer:
o médico surfista que decidiu ser santo

Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo

“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras de Chesterton se aplicam perfeitamente à vida de Guido Schäffer, cujo testemunho tem atraído muitíssimos jovens para a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Janeiro é o mês em que boa parte das universidades divulga a lista de aprovados no vestibular. Jovens de todo o país aguardam ansiosos a notícia de que finalmente poderão cursar o ensino superior. A rigor, a entrada na universidade representa, para muitos, uma espécie de redenção, que marca o início da maior idade, pois é nesse período que os filhos saem de casa, mudam-se para outras cidades e assumem algumas responsabilidades básicas que todo adulto deve ter.

Com todas essas mudanças, a universidade também é o lugar onde muitos abandonam a religião. E isso se deve à ideia absurda de que a fase universitária é o tempo das grandes experiências, não só no campo científico, mas especialmente no campo moral. Longe dos olhares dos pais — e consequentemente do que lhes freava os impulsos juvenis —,  quantos jovens se perdem por achar que agora, na universidade, têm toda chance de viver conforme lhes der na telha, sem qualquer “moralismo” ou “superstição”? É como se imaginassem que a vida acadêmica é um grande besteirol, como daqueles filmes hollywoodianos. Daí tantos “trotes”, “cervejadas” e outras recreações que costumam pautar os jornais todos os anos com as bizarrices dos nossos estudantes.

Mas o sistema universitário é, na verdade, uma grande ilusão. Trata-se, no mais das vezes, de um lugar onde o aluno não é incentivado a descobrir a substância das coisas, como na educação clássica, mas a mergulhar nas mais loucas abstrações, que o prendem num mundo absolutamente paralelo. Afinal de contas, a causa final de todo esse sistema é o título, a chancela, o diploma; ou seja, algo um tanto superficial. E a consequência disso não poderia ser outra senão a mesquinhez: a única preocupação dos estudantes é a de estarem na média no fim do semestre.

Há, porém, alguns jovens que não se iludem com o diploma e buscam manter-se acima da linha da mediocridade, preservando em seus corações aqueles valores inegociáveis da fé e da razão. É o caso de Guido Schäffer, cujo testemunho cristão no exercício da medicina atraiu muitas almas para a grei do Senhor. Atualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promove a causa de beatificação do jovem, que também foi seminarista e morreu em 2009, em odor de santidade.

Guido Schäffer nasceu em 22 de maio de 1974, no município de Volta Redonda (RJ). É da pena de G. K. Chesterton a afirmação muito sábia de que “todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras se aplicam perfeitamente à vida de Guido, que, como muitos santos da Igreja, teve também um passado miserável. De início, ele viveu boa parte de sua vida como aquele tipo de homem dado às paixões. Em suas memórias, ele confessa como precisou de muita oração e penitência para corrigir os erros de uma adolescência dissoluta: faltou à Missa, roubou, usou drogas [1], viu pornografia, teve relações sexuais... Era, afinal, apenas mais um rapaz “comum”, que gostava de surf e, vez ou outra, rendia-se aos impulsos do pecado.

Mas a graça de Deus tinha planos maiores. Aos seis anos, Guido havia sonhado com Nosso Senhor, que lhe dizia para ser obediente aos pais e participar da Missa todos os dias, porque, um dia, ele haveria de chamar muitos amigos para Jesus. E foi o que realmente aconteceu após a sua conversão. Guido começou a frequentar os encontros da Renovação Carismática e ali pôde fazer as primeiras experiências de oração, que despertaram nele a vontade de ser santo. Mais tarde, o jovem conheceu os exercícios espirituais de Santo Inácio, o desentortador de vidas, e entendeu que poderia ser amigo íntimo de Cristo, buscando a Deus em todas as circunstâncias e lugares, inclusive dentro da faculdade.

A vantagem de ser católico é que tudo pode ser convertido num caminho para Cristo. Foi a fé católica que fez Guido ver a medicina não como um fim, mas como um meio para a própria santificação. O estudo, em especial, era uma tarefa diária que ele teria de fazer com o coração aberto a Deus, em espírito de oração, para melhor servir o próximo. “A santidade”, explica o cardeal Saraiva, “não consiste certamente em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer de maneira extraordinária as coisas de todos os dias”. Na oração, abrimos nossos olhos para a presença extraordinária de Deus nas coisas mais comuns. Guido Schäffer entendeu isso perfeitamente, de modo que procurou unir a vida ativa à contemplativa, fazendo tudo com atenção e diligência.

Guido mesmo dava testemunho da importância da oração. Certa vez, escreve ele em seu diário, “senti uma desolação por conta dos inúmeros trabalhos e provas que terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar minha oração antes do tempo”. A constância, todavia, ajudou-o a passar por tudo isso com tranquilidade, unindo-se ao Coração de Jesus.

Depois de formado, Guido decidiu dar uma resposta mais generosa a Deus. Ele havia meditado sobre a história do jovem rico e notara que precisava entregar seu diploma —  a única riqueza que tinha — a serviço dos pobres, a exemplo de São Francisco de Assis. Assim, Guido iniciou um trabalho junto às Missionárias da Caridade, de Santa Teresa de Calcutá, assistindo os irmãos de rua, enquanto ainda atendia na Santa Casa de Misericórdia, onde ajudou na Pastoral da Saúde e acompanhou todo tipo de pacientes. Esse trabalho era tão extraordinário que, mesmo como seminarista, Guido pôde continuar nos hospitais, com a licença do arcebispo do Rio de Janeiro.

A esse respeito, a irmã Caritas, que o auxiliou em várias ocasiões, dá o seguinte testemunho: “Muitas vezes usava dos carismas com que o Senhor o agraciava. Presenciei várias vezes, sobretudo o carisma da Palavra de Ciência. A todos tratava com delicadeza, paciência e compreensão”. Para quem acompanhou nosso curso sobre a Engenharia da Santidade, sabe que um dos sinais mais notáveis da santidade é a virtude da paciência (hypomoné), que se conquista apenas nas quartas moradas, a custo de muita penitência e oração. Deus vê a generosidade da alma e faz a passagem dela para um estágio no qual a caridade cresce com todas as demais virtudes. Vemos isso em Guido Schäffer, e não deve demorar muito para que a Igreja também o chame venerável.

O título de venerável é dado a “todos aqueles que pelo singular exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis” (João Paulo II, Divinus Perfectionis Magister). Sem a pretensão de antecipar o juízo de nossos pastores, os inúmeros testemunhos a respeito de Guido Schäffer não deixam dúvidas de que ele foi mesmo um herói da fé, seja pelo trabalho como médico, seja pelo seu apostolado nos grupos de jovens. Só isso pode justificar as várias homenagens e memoriais que já lhe foram dedicados pela piedade popular. “Em todo o tempo, dava testemunho de sua fé, no seu proceder irrepreensível com os outros. Vivia conforme os valores cristãos da cordialidade, temperança, caridade e justiça”, disse o professor de Guido, Clementino Fraga, numa homenagem após a sua morte.

A entrada no seminário talvez tenha sido o ponto decisivo nesse progresso espiritual que talvez leve Guido à glória dos altares. Tudo aconteceu no ano 2000, quando ele, durante uma oração, ouviu a voz de Deus, que lhe dizia: “Levanta-te, e serás sacerdote da minha Igreja”. Sabiamente, Dom Karl Romer, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, matriculou-o no mosteiro dos beneditinos, para que Guido pudesse continuar o trabalho nos hospitais. Desse modo, ele teve a chance de dedicar-se tanto à formação sacerdotal como ao serviço caritativo. Estudava filosofia, atendia na Santa Casa, liderava grupos de oração e ainda levava os jovens para cuidar dos mendigos, juntos às Missionárias da Caridade. E o que o fortalecia era a certeza de que Deus estava sempre ao seu lado.

Alguns testemunhos sobre o trabalho de Guido nos hospitais são mesmo surpreendentes. Conta-se, por exemplo, o caso de um policial cadeirante que voltou a andar após ter recebido a oração de Guido, durante um grupo de oração na Santa Casa de Misericórdia. Outros relatam como apenas a sua presença trazia paz e esperança aos pacientes mais angustiados. Além disso, ele tinha a grande preocupação de levar os doentes para a recepção dos sacramentos como a Unção dos Enfermos, a Confissão e, especialmente, a Santíssima Eucaristia. Até porque, a principal responsabilidade de um verdadeiro médico de Deus é salvar a alma dos seus pacientes. Não foi por menos que Guido Schäffer recebeu a alcunha de apóstolo da palavra e da paz.

Guido Schäffer morreu em 2009 num acidente, quando surfava com uns amigos. Pouco antes, ele já havia recebido alguns “avisos” de Deus, que o chamava para avançar a águas mais profundas. Também já confessara que “se pudesse escolher, gostaria de morrer no mar, surfando”. A prancha que Guido usava naquele dia 1.º de maio era dividida por um versículo do Evangelho de São Mateus: “Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (7, 14). Não deixa de ser significativo porque, em sua vida, Guido preferiu esforçar-se para passar pelo mais difícil dos vestibulares, pela mais estreita das portas, que é a entrada do Céu. Após sua morte, não demorou muito para que as pessoas reconhecessem nele os sinais claros de uma grande santidade.

Certamente, Guido Schäffer deve ser proposto como modelo para todos os jovens que aguardam a entrada na universidade. Nesse ambiente onde a religião é tantas vezes ofendida e desprezada, ele soube seguir o caminho de Cristo, fugindo da tentação e dos convites à mediocridade, fugindo da ilusão do diploma, a fim de ser um médico de verdade, que servisse aos outros, mormente os mais pobres. E fez isso com tanta convicção e amor que muitos já não hesitam em chamá-lo santo. Porque, de verdade, o real diploma que devemos buscar é a “coroa da salvação”.

Notas

  1. A mãe de Guido explica, porém, que ao confessar, ele fez como fazem muitos santos, carregando nas tintas sobre os próprios pecados. Os roubos de que ele fala eram balas que furtava nas lojas quando criança. Depois, o relato das drogas se resume a dois cigarros de maconha que amigos surfistas lhe deram uma única vez. Em todo caso, ele precisou reparar tais ofensas a Nosso Senhor. Agradecemos à senhora Nazaré Schaffer pelos esclarecimentos.

Recomendações

  • As citações do diário de Guido estão contidas neste livro: D. Justino de Almeida Bueno. Guido Schaffer: apóstolo da palavra e da paz. 3.ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2016.

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