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“Reze a Alá ou morra”: o retrato de uma Europa pós-cristã
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“Reze a Alá ou morra”:
o retrato de uma Europa pós-cristã

“Reze a Alá ou morra”: o retrato de uma Europa pós-cristã

Os mesmos europeus que clamavam por paredes sem crucifixos agora têm bandeiras islâmicas pintadas nos muros de seus prédios. O secularismo na Europa realmente está com os dias contados.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Fevereiro de 2016
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"Reze a Alá ou morra": essas palavras foram pichadas, no começo deste mês, no muro de uma escola da cidade de Hovmantorp, comuna de Lessebo, ao sul da Suécia. Ao lado da frase, está o que parece ser uma bandeira do grupo terrorista Estado Islâmico. A polícia foi chamada quando a inscrição foi descoberta, mas, até o momento, não há suspeitos para o crime. A diretora da escola declarou que a pichação fê-la sentir-se "desconfortável".

Embora a Suécia seja majoritariamente secularista – o país tem "um dos maiores números de ateus" do mundo –, já se estima que haja uma população de 500 mil muçulmanos na Suécia, a maioria composta por imigrantes vindos do norte da África e do Oriente Médio. Esse número já é muito maior que a quantidade de católicos e ortodoxos no país, que, somados, não chegam a 200 mil. Dos membros da comunidade luterana da Suécia – a maior denominação cristã do país –, "apenas cerca de 2% participam regularmente dos cultos aos domingos".

Para ilustrar o crescente domínio islâmico em uma Europa com cada vez menos cristãos praticantes, tome-se o exemplo de alguns edifícios, que antes abrigavam cultos cristãos, e que estão sendo pouco a pouco transformados em salas de oração para muçulmanos. Na cidade de Clitheroe, no Reino Unido, o que há 40 anos era uma igreja metodista hoje é uma mesquita. Em junho do ano passado, o reitor da Grande Mesquita de Paris, Dalil Boubakeur, chegou a sugerir que o governo francês convertesse as suas igrejas católicas "abandonadas" em locais de culto islâmico. A população francesa reagiu e até fez um abaixo-assinado com o título "Não toque na minha igreja".

A verdade, porém, é que menos de 5% dos católicos franceses vão à Missa dominical, enquanto os muçulmanos, além de fazerem as suas orações, transmitem todas as suas tradições religiosas aos filhos, desde muito cedo – filhos, aliás, que eles têm em grande quantidade, enquanto as famílias europeias soçobram na esterilidade.

Todo esse quadro – igrejas vazias e mesquitas cheias, cristãos criando cachorros e muçulmanos doutrinando crianças – prenuncia uma mudança radical no continente europeu, que acontecerá em questão de poucas gerações. O que os "cavaleiros de Alá" não conseguiram no século VIII, graças à ação estratégica de Carlos Martel para defender as fronteiras da França, os seus descendentes farão por meios muito mais rápidos, sutis e eficazes.

Ninguém se escandalize com essa comparação, porque, mutatis mutandis, é este o quadro que se desenha e as notícias não nos deixam mentir: os muçulmanos estão realmente dominando a Europa. Se é verdade que há muitos imigrantes fugindo de regiões de conflito e procurando um ambiente de paz para abrigarem as suas famílias, também é verdade que essas pessoas têm uma religião e uma cultura próprias, e não vão simplesmente renunciar a elas só porque mudaram de território. As dezenas de cortes islâmicas operando ativamente à margem da lei britânica são emblemáticas. Onde entram os muçulmanos, entram também a lei e a tradição islâmicas, na sua crua integralidade, e não demora muito para que o Ocidente passe a conviver com aquilo que sempre deplorou em questão de direitos humanos – desde a inferiorização da mulher até a violência em matéria religiosa.

Embora alguém apressadamente sugira uma comparação de todo esse processo com as Cruzadas ou a Inquisição católicas, não existe paralelo. Nenhum desses episódios históricos se destinava a fazer o que o Islã faz desde que nasceu, na Península Arábica: propagar as suas crenças pela força da espada. As Cruzadas surgiram justamente para defender Jerusalém dos muçulmanos, que ameaçavam os peregrinos cristãos de visitarem os lugares sagrados pelos quais Jesus passou. A Inquisição, ainda que com os seus conhecidos abusos, era um instrumento para conter focos de perturbação social em reinos cristãos, e não uma máquina de proselitismo a qualquer custo. Basta estudar um pouco a história das duas religiões para descobrir um abismo evidente entre a religião dos mártires e o exército criado desde o começo por Maomé.

Certamente, também, não se trata de dizer que todos os muçulmanos são terroristas. Dentro do mundo islâmico, há quem deplore tudo isso, há pessoas verdadeiramente abertas ao diálogo. A carta assinada por 100 intelectuais e endereçada ao Papa Bento XVI, em 2006, como resposta ao seu discurso de Ratisbona, é um exemplo disso. Ao mesmo tempo, porém, que alguns o escutaram, dezenas de protestos foram convocados e uma freira italiana foi morta na Somália em retaliação às suas palavras. Ao mesmo tempo em que há eruditos muçulmanos contrários à violência, um acadêmico sírio foi preso recentemente em Frankfurt, na Alemanha, por defender o Estado Islâmico. Ele gravou um vídeo extenso dando argumentos retirados do Alcorão para mostrar por que ele, "como simples muçulmano", apoiava os terroristas do ISIS.

É perfeitamente compreensível, portanto, que um padre iraquiano venha a público declarar que "o ISIS representa cem por cento o Islã". De fato, a linha que divide o terrorismo e o chamado "verdadeiro islamismo" parece tênue demais para ser real. Pelo menos é esse o parecer dos especialistas que ainda não foram contagiados pela doença do "politicamente correto".

O jornalista palestino Abdel Bari Atwan, editor-chefe de um importante portal de notícias no mundo árabe, afirmou praticamente a mesma coisa durante uma conferência na Universidade Americana de Beirute:

"Por que o Estado Islâmico usa de selvageria? [...] Eu fico surpreso com as pessoas que dizem, 'essa ideologia embebida de sangue é estranha para nós, de onde eles tiraram isso, o Islã não é sangrento'. Como você pode dizer que o Islã não é sangrento? Não há nada de estranho nisso. Nos dias do Califado Abássida (750-1299), Abu Al-Abbas Al-Saffah estendeu um tapete em cima dos crânios das pessoas e, depois, teve jantar em cima dele […], e isso aconteceu em nossa região. […] Eu não sou nenhuma fonte de autoridade religiosa, mas quando o xeique de Al-Azhar, que lidera a instituição moderada da religião, se recusa a acusar o ISIS de heresia e diz que eles são muçulmanos, do que mais precisamos?"

"O terror que está abalando o mundo hoje não é um desastre natural, como um tornado, uma tempestade ou um terremoto, e não está sendo perpetrado por tribos selvagens, mas por pessoas que se alistam inspiradas por uma ideologia religiosa", escreve outro jornalista do mundo árabe, o iraquiano Fadel Boula. "Essas pessoas defendem o cumprimento e a propagação de seus princípios dogmáticos pela força da espada, e ordenam assassinatos, expulsões e destruição por onde quer que passem. (...) Todos esses crimes são perpetrados por aqueles que louvam a Alá dia e noite, que rezam fervorosamente e fazem tudo de acordo com a sua vontade."

Por isso, a mensagem pichada no muro daquela escola sueca não é totalmente estranha. Suas fontes estão no Alcorão (4, 89; 8, 12; 9, 5; 47, 4) e muitos a reivindicam como a verdadeira mensagem do Islã. Curioso, estranhamente curioso, é que os mesmos europeus que há uns dias clamavam por paredes sem crucifixos agora tenham bandeiras islâmicas pintadas nos muros de seus prédios. O secularismo na Europa realmente está com os dias contados.

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O martírio das carmelitas de Compiègne
Santos & Mártires

O martírio das carmelitas de Compiègne

O martírio das carmelitas de Compiègne

A multidão comprime-se em volta da guilhotina. Entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne...

Henrique Elfes17 de Julho de 2019
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Praça do Trono, 17 de julho de 1794. — São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barriére de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue. 

Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se vêem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne. Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas quase esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.

Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas “fúrias da guilhotina”, que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.

As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, o carrasco, alma delicada, concorda de bom grado.

Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: “Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!…”

A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a bênção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia. Com um sorriso, a Madre diz-lhe: “Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-lo no Céu”…, e dá-lhe a beijar a imagem. 

Constança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, “Louvai o Senhor, todos os povos”. “Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa”. O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.

Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a bênção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: “Meus amigos, eu vos perdôo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe”.

Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuinha e confia-a à primeira pessoa que tem ao lado. (Essa imagem foi devolvida mais tarde à Ordem e encontra-se hoje no Carmelo de Compiègne, novamente fundado em 1867.) Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos, mas irradiando bondade, procuram os do Pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus.

Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão — registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais — os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento… Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. “O amor vence sempre”, costumava dizer a Madre priora; “o amor vence tudo”.

Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.

Na capelinha anexa a esse cemitério, há uma lápide que traz o nome das dezesseis mártires beatificadas em 27 de maio de 1906 por São Pio X.

Referências

  • In: Gertrud von le Fort. A última ao cadafalso: medo e esperança, trad. port. de Roberto Furquim. São Paulo: Quadrante, 1998, pp. 120-123.

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Como entender que a Igreja é santa?
Doutrina

Como entender que a Igreja é santa?

Como entender que a Igreja é santa?

A Igreja é santa? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)16 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Igreja é santa? São Paulo escreveu aos fiéis de Éfeso as seguintes palavras: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25ss). Ora, esta afirmação do Apóstolo se cumprirá apenas na etapa escatológica da história da Igreja ou é uma realidade já existente aqui na terra? Eis o problema que muitos se propõem hoje em dia. 

Pois bem, dado que a Igreja de Cristo não é um ser abstrato, senão que se compõem de cristãos concretos, podemos dizer em verdade que estes são santos? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pusillus grex, este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja? Árduo problema, que devemos estudar no presente artigo. Antes de tudo, porém, é necessário investigar nas fontes primárias da Revelação o conceito de santidade.

1. O adjetivo “santo” na Sagrada Escritura.a) Aplicado a Deus. — O adjetivo “santo”, que por sua etimologia indica a ideia de pureza, isenção de toda falta e pecado, se aplica no Antigo Testamento principalmente a Deus. Isaías é, quiçá, o autor inspirado que mais vezes chama assim a Deus, sobretudo com o nome “o Santo de Israel” (cf. Is 1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 12, 6; 17, 7; 29, 13.23; 30, 11.12.15; 41, 14.16.22; 43, 3.14; 45, 11), ou chamando-o também três vezes santo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo” (Is 6, 3). Mas também em muitos outros livros do Antigo Testamento se dá com muita frequência este título a Deus.

No Novo Testamento, ao manifestar-se Deus no mistério da SS. Trindade, se dá o nome de santo em primeiro lugar ao Pai: “Pai santo, guarda-os em teu nome” (Jo 17, 11). E, como derivação de sua santidade, os cristãos, filhos seus, se santificam ou purificam à semelhança dele, como nos diz São João em sua primeira epístola: “Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus […]. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem essa esperança torna-se puro, como ele é puro” (1Jo 3, 2s).

Também ao Filho encarnado, Jesus Cristo, se dá o epíteto de “santo”. O anjo Gabriel anuncia a Maria que o fruto de suas entranhas se chamará “o Santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35). Os próprios demônios o reconhecem como o “Santo de Deus” (Lc 4, 34). Pedro o chama assim em seu segundo discurso aos judeus depois da vinda do Espírito Santo: “Vós renegastes o Santo e o Justo” (At 3, 14). Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7, 26).

À terceira pessoa da SS. Trindade se dá também este nome de santo, e isso de tal maneira que ele chega a ser um dos componentes do seu nome próprio: Espírito Santo. Assim aparece tanto nos evangelhos (cf. Mt 1, 18ss; Lc 1, 35; 4, 1; Jo 14, 26; 20, 22 etc.) como nos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 2.5.16; 2, 38; 5, 3; 10, 38.44 etc.) e em várias passagens de São Paulo (cf., por exemplo, Rm 5, 5; 2Cor 13, 13; Ef 1, 13 etc.).

b) Aplicado às criaturas. — Não somente a Deus se aplica na Sagrada Escritura o epíteto “santo”, mas também às pessoas e inclusive às coisas, enquanto pertencem ou estão consagradas a Deus. Tudo o que está mais estreitamente vinculado ao culto divino se chama santo. Assim, chama-se “o santo” à parte do tabernáculo ou do Templo que continha o altar dos perfumes e o candelabro de sete braços (cf. Ex 26, 33; 28, 29; 43, 20; e Hb 9, 2 etc.). E à parte onde estava a Arca da Aliança se chamava “o santo dos santos” (cf. Ex 26, 34; 3Rs 6, 16; Hb 9, 3). Santos eram chamados os ornamentos do Sumo sacerdote (cf. Ex 28, 36), os vasos sagrados (1Rs 21, 5) etc. Jerusalém é a “cidade santa” (cf. Mt 24, 25; Mc 13, 14; Lc 21, 20), e São Pedro chama “santo” ao monte da transfiguração, onde se manifestou a divindade de Jesus Cristo (cf. 2Pd 1, 18). 

Mas com muito maior razão que as coisas, chamam-se santas as pessoas consagradas a Deus. No Levítico se repete muitas vezes esta frase: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11, 44s; 19, 2; 20, 26; 21, 8). E São Pedro recorda este texto do Antigo Testamento aos cristãos, exortando-os à santidade (cf. 1Pd 1, 15s). Também São Paulo chama com este nome a todos os cristãos, por estarem consagrados a Deus por meio do Batismo, como se pode ver o início de quase todas as suas epístolas (cf. Rm 1, 17; 1Cor 1, 2; 2Cor 1, 1; Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 2), e a tudo aquilo que Deus pôs na Igreja para santificar os cristãos, como os livros da Sagrada Escritura (cf. Rm 1, 2; v. também 2Pd 1, 21) e os Mandamentos de sua Lei (cf. 2Pd 2, 21).

2. Em que consiste essencialmente esta santidade. — O Novo Testamento, muito mais que o Antigo, nos ensina que a santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior. Assim, São Paulo diz aos seus fiéis que eles hão-de ser “santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos [de Deus]” (Ef 1, 4), e em suas epístolas identifica praticamente santidade com renovação interior, que essencialmente consiste em afastar-se das criaturas, na medida em que o amor desordenado a elas nos leva ao pecado, e unir-se com o Criador, fim último de todas as coisas, pela graça e o exercício das virtudes. Assim expressa o Apóstolo estas ideias: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22ss).

De toda esta doutrina essencialmente bíblica sobre a santidade, que aqui não podemos mais do que esboçar, se deduz que a santidade do homem pode ser considerada sob dois aspectos: a) como santidade ontológica, ou consagração a Deus pela graça santificante; e b) como santidade moral, ou reta ordenação a Deus, fim último de todas as coisas, mediante a prática de atos moralmente bons. Em concreto, como a Igreja está constituída pelos cristãos, ao falarmos da santidade da Igreja devemos levar em consideração: 1.º) uma santidade ontológica, que há-de consistir nos elementos sobrenaturais (graça, sacramentos etc.) que unam os membros da Igreja com Deus; 2.º) uma santidade moral, que há-de consistir  nos atos de virtude praticados pelos fiéis sob o impulso do Espírito Santo. Nesse sentido, a santidade vem a identificar-se, ao menos em parte, com a virtude da religião, como explica Santo Tomás de Aquino: 

Chama-se santidade a aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, portanto, com a religião não é essencial, mas apenas de razão. A religião, com efeito, proporciona o serviço devido a Deus, no que de modo especial se refere ao culto divino, como o sacrifício, a oblação e coisas semelhantes. A santidade, além disso, ordena a Deus os atos das outras virtudes ou faz com que o homem se disponha, por meio de certos atos, ao culto divino (STh II-II 81, 8 c.).

3. Três graus de santidade. — Logicamente, conforme a realização mais ou menos perfeita deste separar-se do pecado e unir-se a Deus, podemos distinguir, em escala ascendente, três graus de santidade:

  1. Uma santidade ordinária, que se confunde com o estado habitual de graça possuído pelos membros da Igreja que não estão em pecado mortal. Exige, por um lado, uma tendência habitual a fugir do pecado (eis o seu elemento negativo) e, por outro, a observância habitual dos preceitos que obrigam sob pecado grave (eis o seu elemento positivo).
  2. Uma santidade perfeita, que, além da ausência de pecado mortal, exige a inclinação habitual a evitar também o pecado venial (elemento negativo) e a guardar as regras de perfeição mais altas propostas por Cristo no Evangelho, e em particular as que recebem o nome de “conselhos evangélicos” (elemento positivo).
  3. Uma santidade heroica, que implica fugir do pecado venial e seguir os caminhos de perfeição nos casos mais difíceis e árduos, até chegar ao ponto de dar a vida por Cristo e pelo próximo.

Os limites entre estes três graus não são nem podem ser linhas perfeitamente definidas. No entanto, existem casos claríssimos que podemos enquadrar em cada um deste graus, e isto basta para poder distingui-los. Seguir a Cristo em pobreza, castidade e obediência com toda fidelidade será, pois, um ato de santidade perfeita. E o ato mais claro de santidade heroica é entregar-se a Cristo até chegar a dar por Ele a própria vida, segundo aquelas palavras do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seu amigo” (Jo 14, 13).

Por fim, não seguindo precisamente em progressão ascendente, mas como graça inteiramente extraordinária, concedida por Deus a quem e quando Ele quer, há a santidade chamada “carismática”, que é uma como que confirmação da santidade acompanhada de dons extraordinários, entre os quais se contam principalmente os milagres. 

4. Precisão exata do problema. — Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores; mais ainda: nem sequer que o número de santos supere o dos que não o são, desde que esses defeitos se davam à fragilidade humana, a que muitos não sigam os Mandamentos, os exemplos e os meios de santificação existentes na Igreja. Mas implica, sim, como teremos ocasião de ver mais adiante, quando explicarmos em que sentido há-de entender-se esta propriedade essencial da Igreja, que esta santidade deve aparecer de modo manifesto, conforme as palavras do Senhor: “Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

II. Orientação histórica. — 1. Doutrinas errôneas. — Diante do espetáculo que é a multidão de pecadores que há na Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo surgiu a tentação de selecionar e discriminar os bons dos maus, os justos dos pecadores; somente os justos, os puros, seriam membros verdadeiros da Igreja. Assim pensavam os montanistas e os donatistas dos sécs. IV e V da nossa era, assim pensavam os cátaros ou puritanos da Idade Média, bem como os primeirosreformadores” do séc. XVI, sobretudo Lutero, para quem a Igreja era apenas a congregação dos justos. E como somente Deus pode conhecer com toda certeza quem são os justos, só Deus poderá conhecer a sua própria Igreja: daqui nasce a sua teoria da invisibilidade da Igreja. 

Mas advirtamos que os luteranos, que, por um lado, caem em excesso de puritanismo ao excluir da Igreja todos os aqueles que não são justos, se encontram, por outro lado, muito aquém do verdadeiro conceito de santidade ao pôr a justificação somente na imputação dos méritos de Cristo, sem verdadeira transformação interior, o que está em clara oposição à doutrina de uma verdadeira reforma interior, que São Paulo pressupõe e explica continuamente em suas epístolas. Além disso, Lutero desprezava a observância dos conselhos evangélicos como uma clara manifestação de santidade. Escolhamos somente um trecho entre milhares: “Esta classe de vida [a religiosa] é contra o Evangelho […], e é coisa evidentíssima que os seus votos são nulos, ilícitos, ímpios e contrários ao Evangelho” (Obras, ed. Weimar, VIII 688).

Os dissidentes orientais se aproximam muito mais, no conceito que têm da santidade, do modo católico de a conceber; no entanto, não poucas vezes em seus escritos parece que somente dão importância à santidade ontológica e ativa, deixando de lado a santidade passiva ou dos membros da Igreja.

Nos sécs. XVII e XVIII, alguns católicos de diversos matizes jansenistas, como os que se congregaram no Sínodo de Pistóia, também caíram no erro de querer formar uma Igreja santa expulsando os pecadores. Foram condenados pelo Papa Pio VI (cf. DH 2615).

2. Doutrina da Igreja. — A santidade da Igreja é a primeira das propriedades que aparecem nos símbolos, ao fazermos nossa profissão de fé na Igreja. A fórmula mais primitiva que nos foi conservada de tais símbolos, fórmula brevíssima, provavelmente da metade do séc. II, diz assim: “Creio no Pai dominador do universo, e em Jesus Cristo, nosso Salvador, e no Santo Espírito Paráclito, e na Santa Igreja, e na remissão dos pecados” (DH 1). Nos documentos do Magistério eclesiástico, tanto dos Sumos Pontífices como dos Concílios ecumênicos, dá-se continuamente à Igreja o título de “santa”. Em especial, fala o Concílio Vaticano I da “exímia santidade da Igreja” ou da “Santa Igreja que Cristo resolveu fundar”.

III. Valoração teológica. — É de fé divina e católica que a Igreja de Cristo é verdadeiramente santa. Por outro lado, consta que os pecadores, desde que não abandonem a fé ou obediência à hierarquia da Igreja, continuam sendo membros da Igreja, já que foi condenada como herética a proposição contrária, defendida pelo Sínodo de Pistóia (cf. DH 2615). Daqui podemos deduzir que é teologicamente certo que a existência de pecadores na Igreja não está em conflito com a santidade mesma da Igreja. 

IV. Ensinamento bíblico.1. A Igreja é santa com santidade ontológica. — Em primeiro lugar, porque Jesus Cristo, que é Cabeça da Igreja, é santo; todas as páginas do Evangelho dão testemunho desta santidade de Jesus Cristo tanto no sentido de ausência total de pecado como no sentido de exercício de todas as virtudes. Lembremo-nos ainda dos escritos dos Apóstolos, testemunhas imediatas de sua vida na terra, que o chamam continuamente de “o justo”, “o santo” (cf., por exemplo, São Pedro em At 3, 14; 1Pd 1, 18s; 2, 22ss; São Tiago em sua carta, 5, 6; São João em sua primeira epístola, 2, 1; 3, 5; São Paulo muitas vezes: 2Cor 5, 21; Hb 4, 15; 7, 26), e também de seus próprios inimigos, pois aquela pergunta de Jesus: “Quem de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 56) não recebeu contestação.

A doutrina que Cristo nos legou é santa com uns quilates tão sublimes de perfeição, que tem maravilhado até mesmo os pagãos que leem sem preconceitos o Evangelho; bastaria, para se convencer disso, ler os capítulos 5 a 7 de São Mateus, que se chamam comumente “o Sermão da Montanha”. Acrescente-se a isto os sacramentos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelos quais recebemos o Espírito Santo; o sacrifício de Jesus Cristo, que se renova continuamente de forma incruenta, mas realíssima, em todo o mundo; e, por fim, o influxo misterioso do Espírito Santo, alma da Igreja, que atua em todos aqueles que são templos dele pela graça santificante. 

2. A Igreja é santa com santidade moral. — A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral nos membros da Igreja. 

a) Em primeiro lugar, a santidade ordinária

  1. porque, se Cristo estabeleceu em sua Igreja os meios de santificação que acabamos de indicar, é necessário que eles produzam frutos de santidade nos membros da mesma Igreja, segundo as palavras do Senhor: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7, 17ss). 
  2. porque se o fim da Igreja é, como vimos noutro artigo, a santificação dos homens, é impossível que tal fim, atribuído por Cristo à sua obra, não consiga, em um número bastante grande, o seu efeito, e para isto necessita ele chegar pelo menos ao primeiro grau de santidade ordinária; 
  3. porque a Palavra de Deus é como a semente que cai em terra boa e produz fruto, em uns de trinta, em outros de sessenta, em outros ainda de cem (cf. Mt 12, 13). Por fim, também São Paulo supõe esta santidade em seus cristãos, quando diz que eles devem estar “mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rm 8, 9s) e crucificar o homem velho, a fim de destruir o corpo de pecado (cf. Rm 6, 6), sem levar em conta aqui as exortações a fugir dos vícios e praticar as virtudes, as partes parenéticas de suas epístolas aos Romanos, Gálatas, Efésios etc.

b) Santidade moral perfeita. — Na Igreja de Jesus Cristo se dá também, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita. A razão é que o fim de toda a Lei nova, enquanto se contrapõe o Novo Testamento à Lei antiga, é precisamente a santidade perfeita, coisa que aparece sobretudo no capítulo 5 de São Mateus, já que ali Cristo exige de seus seguidores: o cumprimento de seus Mandamentos, inclusive dos menores (v. 19); dominar a ira até conseguir perdoar aos inimigos (v. 22ss); a pureza em grau sumo (v. 28); não só não resistir ao que nos faz mal, mas ainda oferecer a outra face ao que nos agride (v. 29ss); amar os inimigos (v. 43s); dar esmola em segredo e fugir dos louvores dos homens (6, 1ss); servir a Deus, desprezando o dinheiro e confiando unicamente em sua Providência (v. 24ss). E quem não é capaz de ver que tudo isso requer uma santidade não ordinária, mas em grau exímio?

Jesus Cristo convida a abraçarem a pobreza e a castidade perfeita os que aspiram a um grau maior de santidade. A tradição dos primeiros séculos da Igreja interpretou assim duas passagens de São Mateus (19, 12.16-25). Sempre haverá, pois, quem não olhe para trás, como aconteceu com o jovem rico, mas que siga os caminhos da perfeição em pobreza e castidade.

c) Santidade heroica. — Muito do que acabamos de dizer supõe, em circunstâncias especialmente difíceis, não só uma santidade exímia, mas heroica. Ademais, Jesus Cristo nos deixou o exemplo desta santidade heroica, sobretudo no amor aos homens até o sacrifício da própria vida e no sofrimento das perseguições do mundo contra Ele, e anuncia, como se vê claramente nos capítulos 13, 15 e 16 do evangelho de São João, que não faltarão pessoas que sigam esses exemplos. Era isto mesmo que supunham os Apóstolos como coisa evidente quando exortavam os fiéis cristãos à perfeita imitação de Cristo. Assim diz o Apóstolo São João: “Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16); e São Pedro: “É para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2, 21).

São Paulo, sobretudo, supõe uma santidade extraordinária nos cristãos. Recordem-se umas poucas passagens de suas cartas, que poderiam multiplicar-se sem problema. Aos romanos escrevia: 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43, 23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).

E aos coríntios:

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entre­gues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida (2Cor 4, 10ss) […] De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).

Estas últimas palavras, ainda que São Paulo as tenha dito referindo-se a si mesmo, são sem dúvida um ideal que ele propõe a seus fiéis discípulos.

d) Santidade carismática”. — Jesus a anuncia como algo característico de sua Igreja: diz a seus discípulos que eles hão-de fazer as obras que Ele mesmo fez, e inclusive maiores do que as dele (cf. Jo 14, 12). E, em sua última aparição, ao enviá-los para pregar por todo o mundo, lhes dá o poder de fazer milagres (cf. Mc 16, 17).

A existência destes carismas na Igreja aparece já no epílogo do evangelho de São Marcos (cf. Mc 16, 17-20); nos Atos dos Apóstolos, com muita frequência (recordem-se, por exemplo At 3, 1-11; 5, 15ss; 10, 44-47; 16, 16ss), e em São Paulo, que dá normas acerca da maneira com que se devem portar na Igreja os fiéis com dons carismáticos (cf. 1Cor 12, 1-31).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 879-886, nn. 771-787.

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Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande
Espiritualidade

Não pode ser pequeno
o que ofende a um Deus tão grande

Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande

“Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!”, exclamava Santa Teresa d’Ávila. “Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade!”

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Julho de 2019
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Em um episódio ao vivo recente sobre pecados veniais (abaixo), Padre Paulo Ricardo explicou a importância do combate a essas faltas que, por “leves” que sejam — e, portanto, não chegarem a ferir de morte a vida da graça em nós —, são verdadeiras ofensas a Deus, com as quais não podemos “brincar”, pois, como se nada fossem. 

Para entender melhor a gravidade de um só pecado venial, talvez nos fosse necessário sair de nossos raciocínios carnais e consultar um pouco a sabedoria dos santos, os quais, justamente pelo muito que amaram a Deus, tinham horror à menor das coisas que pudessem desagradá-lo.

Esses homens e mulheres viviam da fé (cf. Rm 1, 17); suas existências estavam ancoradas nas realidades sobrenaturais, invisíveis a olhos humanos. Nós, porém, movidos como somos pelos sentidos, damos mais valor às tragédias deste mundo do que às que se passam no interior de nossas almas. Assim é porque pequena, fraca, quase insignificante, é a nossa fé.

Mas um Cardeal Newman, por exemplo — cuja canonização a Igreja já confirmou para o próximo dia 13 de outubro —, assegurava que, para a Igreja Católica, “é preferível o sol e a lua caírem do céu, a terra desaparecer, os milhões de seres humanos que a povoam morrerem de fome na pior das agonias, até onde possa chegar a aflição temporal, a admitir que uma só alma, não digo, se perca, mas cometa um único pecado venial” [1]. Nisso crê a Igreja, de fato, ciente de que “nada acontece no mundo exterior que não tenha acontecido dentro de uma alma” [2]. É aí que se passa o verdadeiro drama da humanidade; é aí que acontece a mais importante de todas as batalhas; é aí que se decide deveras o futuro do homem. 

E se muitos de nós, dizendo-nos católicos, não mais cremos nisso; se muitos de nós achamos a preservação das florestas ou do mico-leão dourado mais importante do que a salvação das almas; o respeito às culturas humanas, mais do que o cumprimento do mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos; o combate das catástrofes e misérias naturais, mais do que o combate à desgraça espiritual do pecado… somos nós que nos distanciamos do que é a Igreja. Não foi ela que mudou — porque a Igreja, em sua essência, sendo continuação da Encarnação do Verbo de Deus na história, é a mesma ontem, hoje e pelos séculos (cf. Hb 13, 8) —, mas nós que miseravelmente mudamos, abandonando a fé que nos legaram os Apóstolos, os mártires e os santos de todos os outros séculos.

Vejamos, por exemplo, com que zelo a grande Santa Teresa de Jesus pedia a suas irmãs que se preservassem das mínimas faltas, por amor a Deus. Cuidando antes de distinguir “entre (i) os pecados veniais de pura fragilidade, cometidos por surpresa ou com pouca advertência e deliberação, e (ii) os que se cometem friamente, dando-se perfeita conta de que com isso se desagrada a Deus” [3], ela não deixava de deplorar profundamente essa última espécie de faltas:

Quanto aos [pecados] veniais, cuidai muito para não fazê-los. Refiro-me aos que se cometem com advertência, pois, de outra maneira, quem estará livre de cometer muitos? Mas há uma advertência irrefletida. E há outra tão rápida que, na prática, cometer o pecado venial e refletir sobre ele são uma única coisa. Sequer chegamos a entender o que fazemos. 

Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja! Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade e uma vez que sabemos que Ele está nos observando! Isso me parece pecado premeditado, como se alguém dissesse: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.” Não creio que haja pouco em coisas deste teor, por mais leve que seja a culpa, mas muito, e muitíssimo [4].

I. Concentremo-nos, primeiro, nos pecados veniais inadvertidos, a respeito dos quais se perguntava Santa Teresa: “Quem estará livre de cometer muitos?” A distinção é importante contra a ilusão de que o ser humano, na sua ascensão até Deus, pudesse desenvolver uma espécie de impecabilidade, como se deixasse de ser “livre” à medida que crescesse na união com Ele, ou como se pudesse ter, já nesta vida, a plena segurança de não mais o ofender. 

Contra essa ideia, o Concílio de Trento alerta que “nesta vida mortal, também se santos e justos, alguma vez os cristãos caem ao menos em pecados leves e quotidianos, que se chamam também veniais, sem por isso deixar de ser justos” [5], ajuntando que dessas faltas inadvertidas, cometidas por fragilidade, só “por especial privilégio de Deus” os homens podem ser poupados, como o foi a Virgem Maria, e como o pode ter sido, também, São José, seu Esposo castíssimo [6]. 

Esses pecados, explica ainda o Pe. Royo Marín, nós “nunca o poderemos evitar de todo, e Deus, que conhece muito bem o barro de que somos feitos, apieda-se facilmente de nós”. Só o que nos cabe fazer com relação a eles é “tratar de diminuir seu número até onde seja possível e evitar o desalento, que seria fatal para o avanço na perfeição e que supõe sempre um fundo de amor próprio mais ou menos dissimulado” [7].

Essa verdade lança uma luz extraordinária sobre nossa própria vida, porque nos recorda que a graça de Deus é um tesouro precioso que trazemos em vasos de barro (cf. 2Cor 4, 7). Embora seja, de fato, muito mais difícil para um santo “de sétima morada”, por exemplo, cometer um pecado mortal, ou mesmo um pecado venial plenamente advertido e deliberado — dado o progresso espiritual em que se encontra —, nesta vida ninguém pode se sentir absolutamente seguro nesse ponto. 

É por isso que, respondendo se a caridade nesta vida pode ser perfeita, no sentido de o coração do homem estar elevado sempre e atualmente para Deus, Santo Tomás de Aquino explica tratar-se de uma perfeição possível apenas na pátria celeste (cf. STh II-II 24, 8 c.). Noutro lugar ele explica ainda que, no estado de viator em que nos achamos (isto é, de viandantes, a caminho do Céu), a caridade pode, sim, ser perdida (cf. STh II-II 24, 11 c.). “Essa segurança não a teremos em vida”, advertia Santa Teresa, “porque constituiria grande perigo” [8]. Em outras palavras, o ser humano, por mais luzes e graças que tenha recebido de Deus, nesta vida ainda pode enganar-se, fazer mal a si mesmo e perder a glória do Céu.

Isso é importante para andarmos sempre desconfiados de nós mesmos e não nos esquecermos que, se viermos a nos salvar, será por pura misericórdia de Nosso Senhor, ao mesmo tempo que, se nos perdermos, será por nostra culpa, nostra maxima culpa, e de mais ninguém.

II. Voltando, porém, aos pecados veniais cometidos com pleno juízo do que se está fazendo, prestemos atenção ao realismo com que Santa Teresa os descreve. Esta santa Doutora diz que é como se nos aproximássemos de Deus e lhe disséssemos: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.”

Explicado assim o pecado venial, não há como não nos saltar aos olhos a sua malícia. Se à pessoa que ama contrista o mínimo ato ofensivo à pessoa amada, as faltas “leves” que de propósito fazemos questão de cometer contra Nosso Senhor nada mais são do que sinais de pouco amor… Dentro de um casamento, atitudes assim, repetidas e não reparadas, vão pouco a pouco minando o relacionamento e tornando impossível a união própria do sacramento, e na vida espiritual não é diferente. O Pe. Royo Marín explica que “quando os pecados veniais se cometem friamente, dando-se perfeita conta, com plena advertência e deliberação”, eles “representam um obstáculo insuperável para o aperfeiçoamento da alma” e torna-se como que “impossível dar um passo firme no caminho da santidade” [9].

Por isso, só o que nos resta é exclamar com Santa Teresa: “Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!” Talvez, agora, sintamo-nos meio que forçados a dizer essas palavras, sem conseguir penetrar muito a profundidade delas. A nossos sentimentos talvez parecerá um “exagero”, uma “extravagância”, lidar assim com as faltas que tantos de nós já transformamos até em “pecados de estimação”, por assim dizer. Mas isso só acontece — convençamo-nos de uma vez para sempre — porque estamos muito distantes do que somos chamados por Deus a ser, e é para essa direção (a mesma que seguiram os santos), que devemos olhar, não para nós mesmos, não para nosso egoísmo.

Peçamos, pois, a Deus que nos envie sem cessar as suas graças, para irmos compreendendo cada vez mais a malícia do pecado — não só do pecado mortal, mas também a malícia das “pequenas” ofensas, dos “pequenos” descuidos, das “pequenas” negligências. Pois é só na aparência que essas coisas são insignificantes: não pode ser realmente pequeno um pensamento, uma palavra ou uma ação que ofenda a um Deus tão grande.

Referências

  1. Card. John Henry Newman, Apologia pro vita sua (c. 7). London: Oxford University Press, 1913, p. 339.
  2. Fulton Sheen, A paz da alma. Trad. port. de Oscar Mendes. São Paulo: Molokai, 2015, p. 7.
  3. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana. Madri: BAC, 2015, pp. 288-289.
  4. Caminho de Perfeição, XLI, 3.
  5. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, s. VI, 13 jan. 1547 (DH 1537).
  6. Ibid. (DH 1573).
  7. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.
  8. Caminho de Perfeição, XLI, 9.
  9. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.

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O que vestimos importa sim, senhor!
Doutrina

O que vestimos importa sim, senhor!

O que vestimos importa sim, senhor!

O modo como nos apresentamos não é uma “particularidade” espiritualmente irrelevante. Também com isso nós manifestamos ao mundo ou a vida de Jesus ou um espírito contrário ao dEle.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Julho de 2019
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Todos os anos, ao entrarmos nos meses mais quentes do ano [1], volta à tona o problema da modéstia no vestir — agora ainda mais, dado que no Ocidente as pessoas parecem ter perdido até mesmo as mais elementares posturas morais e costumes sociais que antes garantiam um mínimo de autorrespeito e consideração pelos outros. Nós precisamos de nada menos que uma revolução moral, uma reconstrução de nossos mais básicos conceitos de virtude. Nem é necessário dizer que será um trabalho custoso, e que nós não seremos capazes de “virar a maré” da cultura geral (a qual seria mais acertadamente descrita, a esse ponto, como uma “anticultura”). Todavia, de modo algum é impossível reconstruir esses conceitos dentro das comunidades cristãs, contanto que haja uma vontade corajosa de tratar, com clareza e serenidade, dos assuntos que estão em jogo. É o que procurarei fazer em linhas gerais. 

De acordo com S. Tomás de Aquino, a noção de modéstia no vestir, no falar e no modo de se comportar deriva da noção de moderação, de fazer algo de uma maneira adequada, bem sopesada, e que observe um meio entre os extremos (cf. STh II-II 168; 169). No caso em exame, os extremos são, por um lado, a indecência (de longe muito mais comum nos dias de hoje) e, por outro, uma afetação de virtude e uma inibição malsã.

Como todas as virtudes morais, o hábito da modéstia não só capacita a pessoa para querer e escolher o que é certo a esse respeito, mas também a impele a fazê-lo; a modéstia torna-se uma segunda natureza, uma disposição a agir. Tomás nos recordaria, também, que essa virtude nos ajuda a apreciar os bens corporais em seu devido lugar. Quando o exigem as pessoas, o lugar e a ocasião, as paixões do apetite concupiscível são boas, instrumentos de ação virtuosa queridos por Deus.

A pessoa modesta é aquela cujas ações e aspecto externo consistentemente refletem autodomínio, bom juízo do que seja apropriado, um controle firme dos próprios sentimentos, bem como uma habilidade serena de expressar a si mesmo e de “ser” quem se é sem necessidade de alarde. Por isso, a verdadeira modéstia começa na alma para só depois chamar a atenção dos olhos ou dos ouvidos alheios. Essa modéstia interior consiste em regular toda a própria vida de uma maneira que seja calma, gentil, reverente e pura. Vestir roupas modestas ou evitar danças imodestas é algo que simplesmente “transborda” dessa condição interior.

As sociedades modernas, no Ocidente, descartaram a modéstia mais importante para a saúde básica do convívio social: a de vestir-se e comportar-se de modo a não despertar o tipo errado de atenção do sexo oposto — uma atenção animalesca, possessiva e reducionista. Na verdade, o que se ostenta, obviamente, é o vício oposto.

Infelizmente, muitos cristãos sinceros que querem levar uma vida casta parecem estar inconscientes da ligação que existe entre a pureza de coração e a modéstia exterior, entre o compromisso com a virtude e a forma de apresentar o próprio corpo às outras pessoas — uma ignorância ainda mais surpreendente quando se considera a obviedade dessa associação, que foi compreendida com muita clareza por todas as épocas, com exceção da nossa.

Por exemplo, existem jovens católicos que procuram viver a pureza, mas que continuam a se vestir como seus pares do mundo, com estilos de roupa provocativos ou inapropriados. É possível ver isso vividamente nas Jornadas Mundiais da Juventude, onde, além da imodéstia, também é bastante comum uma impressionante falta de consciência a respeito do que seja apropriado para um evento sagrado e solene. 

Nesse quesito, as pessoas de hoje parecem ter adotado um critério único: o conforto físico. Qualquer coisa que possa causar o mais remoto dos desconfortos ou dos incômodos é imediatamente rejeitada. Como resultado, ao se vestirem em dias de alta temperatura, os cristãos de maneira geral com muita frequência caem nos mesmos maus hábitos de seus pares mundanos, que não pensam nem no que é agradável a Deus, nem no que ajudará a si próprio e aos outros a viver a castidade, mas tão-somente no que é “mais fresco” ou “mais prático” de se usar. Como parte pequena de um ascetismo sadio, os cristãos devem rejeitar esse tipo de complacência e bajulação do corpo. São Paulo descreve aqueles que cremos como pessoas que “trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor 4, 10).

Quem nunca se impressionou com fotografias antigas e em preto e branco de nossos antepassados, os quais, debaixo de um calor sufocante de verão, usavam roupas longas e amplamente cobertas? Embora eu não sugira que voltemos ao mesmo guarda-roupas que eles tinham, digo que sim, nós faríamos bem em imitar-lhes o vigor e a propriedade. É óbvio que se deve levar em consideração circunstâncias de temperatura e de atividades, como longos passeios ao ar livre, mas há soluções modestas e imodestas para qualquer que seja a situação. Com os materiais modernos de que dispomos, vestir-se modestamente não significa vestir-se “de modo opressivo”; há à disposição, por exemplo, roupas que cobrem os ombros e chegam até os tornozelos, sendo ao mesmo tempo de um material leve, opaco e agradável.

Nós não podemos fazer de conta que o modo como tratamos nosso corpo, o modo como comemos e nos vestimos, o modo como nos apresentamos, o modo como nos comportamos, não importando se o fazemos com disciplina ou desleixo, educação ou irreflexão, responsabilidade ou ingenuidade, sejam “particularidades” espiritualmente irrelevantes. Trata-se, ao contrário, de coisas essenciais: elas também irão manifestar a vida de Jesus ao mundo, ou promover um espírito contrário ao dEle. O modo como alguém trata, exibe e faz uso de seu corpo revela muito dos trabalhos de sua própria alma: quem ela (ou ele) pensa ser, o que pensa a respeito de si mesma ou dos outros, o que espera de si e dos outros. De mais maneiras do que normalmente as pessoas imaginam, as aparências não enganam: o meio é a mensagem.

Como acontece com qualquer tópico de importância, também para este a Revelação divina tem as suas orientações: 

Quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade (1Tm 2, 9-10). 

Há uma maneira de se comportar e de se apresentar que é inseparável do modo de vida cristão; é um dos sinais que, neste mundo, distingue aqueles que crêem. A modéstia, assim como a paz, ainda que seja um bem da alma em primeiro lugar, não pára na alma, mas tem um efeito sobre todos os aspectos da vida em sociedade. O mundo moderno carece de modelos de autocontrole e de autoapresentação digna; os cristãos podem e devem ser este exemplo. A própria falta de excesso faz com que valha a pena fazer conhecida a sua presença.

A virtude da religião, por meio da qual damos de volta ao Deus infinito aquilo que somos capazes de dar, inclui a oferta a Ele daquilo que somos, nossos corpos e almas, como expressão de um amor fiel. É por isso que a modéstia é, ao mesmo tempo, consequência e salvaguarda da religião

S. Tomás diz que a santidade denota duas coisas: permanecer puro e permanecer firme. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8): felizes aqueles que, por amor a Deus e com todo o seu ser, preservam firmemente a pureza de alma e de corpo. A visão face a face de Deus, a grande meta e alegria da vida cristã, é a razão última pela qual devemos manter não só nossos corações, mas também nosso falar, nosso agir e nosso apresentar-se, puros, sem mácula, simples e sóbrios. Ao fazer isso, nosso modo de vida é conformado ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, tornando presente, em um mundo decaído e sujo, alguma coisa da límpida inocência, da paz serena e do frescor incorruptível do Espírito Santo.

Notas

  1. O autor do texto fala, evidentemente, a partir do hemisfério norte (onde o nosso inverno é verão). O Brasil, no entanto, particularidades regionais à parte, é ele todo “um país tropical”, de modo que as considerações aqui a respeito da modéstia no vestir servem-nos como uma luva o ano todo, e não somente nos meses mais quentes do ano. Também por isso, tomamos a liberdade de dar a esta tradução um título diferente do original: em inglês, este era A Christian’s guide to modesty in the hot summer months (lit.: “Um guia cristão para a modéstia nos meses quentes de verão”).

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