[Este texto, do escritor e crítico literário Juan Manuel de Prada, foi traduzido de sua obra Una biblioteca en el oásis.]
Entre janeiro e maio de 1938, o escritor inglês Graham Greene (1904-1991) viajou para o estado de Tabasco, no México, tendo como objetivo escrever uma reportagem (publicada em 1939, sob o título de The Lawless Roads) sobre a perseguição brutal sofrida pelos católicos, sob o domínio do governador Tomás Garrido Canabal, um dos mais cruéis repressores da revolta dos Cristeros. O que Greene testemunhou na época (a “mais feroz perseguição religiosa já perpetrada desde os tempos elisabetanos”, nas palavras do próprio autor) inspirou-lhe, como confessaria mais tarde, uma aversão insuperável ao regime político mexicano, bem como um estado de angústia e depressão que viriam a ser a semente da sua conversão definitiva ao catolicismo. Com frequência se tem afirmado que Greene nunca foi um católico sincero, mas sim uma espécie de “católico agnóstico”; e, evidentemente, nunca foi um apologista, ao estilo de alguns dos seus compatriotas de gerações anteriores. Mas não há dúvida de que o homem que publicou “O poder e a glória” em 1940 ficara profundamente impressionado com a coragem dos camponeses mexicanos que insistiam em manter viva a chama da fé, apesar das ameaças e represálias do poder civil; e que essa impressão tão viva fora o catalisador de uma conversão sincera.
O protagonista de “O poder e a glória” — inspirado, ao que parece, na figura de um religioso fugitivo que, durante mais de dez anos, viveu escondido nas montanhas, descendo às aldeias apenas à noite — não é, evidentemente, um sacerdote exemplar. Violou o celibato, caiu nos vícios mais repugnantes e, muitas vezes, celebrou a Missa em estado de pecado; e, no entanto, ao ter início a perseguição contra os católicos, em vez de renegar a sua fé e o seu ministério, perseverou (sem saber exatamente o porquê), embora, em contrapartida, tenha se resignado a levar uma existência miserável, árdua e solitária, sempre marcada pelo medo da morte. Em várias passagens do romance, Greene compara a existência heroica dos santos mártires com a existência penosa e insignificante do seu protagonista; e, ao concluir a leitura, compreendemos — tal como o próprio protagonista — que as fraquezas humanas são as condições para a redenção.
Greene escreve:
Tão limitado é o homem que nem ao menos tem habilidade para inventar um novo vício: a mesma coisa sabem os animais. E era por um mundo assim que Cristo havia morrido; quanto mais maldade se vê tanto maior é a glória que circunda essa morte. É muito fácil morrer pelo que é bom ou belo, pela pátria, pelos filhos ou pela civilização… só mesmo um Deus poderia morrer pelos covardes e os corruptos [i].
De fato, a nossa falta de dignidade foi escolhida e amada por Cristo; não, evidentemente, para que nos deleitássemos nela, mas para que, ao aceitá-la, lutássemos todos os dias para emendá-la, à imagem daquele que deu a vida por ela. Eis aqui o grande ensinamento do romance de Greene. Neste sentido, são muito esclarecedoras as últimas reflexões do protagonista, alguns minutos antes de ser fuzilado:
“Ó Deus, arrependo-me e peço perdão de todos os meus pecados… crucificado… merecedor dos vossos terríveis castigos.” Sentia-se confuso, com o espírito distraído: não era aquela a boa morte que a gente costumava implorar. Viu a sua própria sombra na parede da cela; tinha um ar de surpresa e grotesca insignificância. “Que tolo tinha sido em pensar que era bastante forte para ficar, quando os outros fugiram. Que sujeito impossível sou eu, pensou, e que inútil! Não fiz coisa alguma por ninguém. Era o mesmo que se não tivesse nascido.” Os pais estavam mortos… ele próprio, em breve, nem uma recordação seria… afinal de contas, talvez até nem do Inferno fosse digno… As lágrimas corriam-lhe pela face; naquele momento não tinha medo da condenação eterna — até o medo do sofrimento físico passara para segundo plano. Sentia apenas um imenso desapontamento, por ter de comparecer perante Deus de mãos vazias, sem ter feito absolutamente coisa alguma. Parecia-lhe, naquele momento, que teria sido muito fácil ser um santo. Teria bastado um pouco de domínio próprio e um pouco de coragem. Sentia-se como alguém que tivesse perdido a felicidade, por questão de segundos, num lugar combinado. Sabia agora que, no fim, apenas uma coisa contava: ser santo [ii].
Mas será que ele não foi santo? Será que as suas mãos não estão cheias? É deste assunto delicado e comovente que trata “O poder e a glória”: às vezes somos santos sem o sabermos, porque a força da graça atua sobre a nossa natureza fraca, mesmo quando nos empenhamos em rejeitá-la. Talvez, sem o saber, aquele homem medroso e beberrão que atravessa o romance como uma sombra fugaz tenha se tornado, para os camponeses que o acolhem nas suas casas, um sinal de salvação, e cada vez que consagra o pão e o vinho com as suas mãos de pecador, em Missas clandestinas que tem de celebrar das formas mais improváveis, está renovando o sacrifício de Cristo, que quer continuar a morrer pelos homens mesquinhos e corruptos para que possam ser santos.
Greene nos apresenta esse paradoxo teológico do modo mais inquietante e assustador: o protagonista de “O poder e a glória” parece, à primeira vista, um renegado, mas, misteriosamente, nunca renega o seu ministério; parece um covarde, mas, surpreendentemente, termina os seus dias demonstrando uma coragem fora do comum; parece um egoísta miserável, mas, incrivelmente, arrisca a sua vida já deteriorada para que os camponeses possam receber os sacramentos. É, talvez, o sacerdote mais indigno que se possa imaginar, mas é o único sacerdote da região, o único que ainda não foi martirizado nem obrigado a secularizar-se. E, por isso mesmo, é objeto da profunda obsessão do tenente fanático que o persegue, ansioso por executá-lo ou, melhor ainda, por obrigá-lo a casar-se (como já fez anteriormente com outros padres), para assim demonstrar aos olhos do mundo que a sua fé é fraca e que o seu sacerdócio é uma fraude, pois — conclui o tenente — “se ele realmente acreditasse no Céu e no Inferno, não se importaria com um pouco de dor em troca da eternidade”.
Como não consegue alcançar o padre fugitivo, o tenente trama uma retaliação monstruosa. Em cada aldeia por onde passa, escolhe ao acaso alguns reféns, que depois executa arbitrariamente; mas os camponeses, longe de delatarem o padre, entregam-se sem protestar, na certeza de que assim alcançarão a vida eterna. E quando finalmente consegue capturar o padre fugitivo (graças a um mestiço que o trai, uma espécie de Judas redivivo) o tenente descobrirá, estupefato, que o indigno, o bêbado, o infrator do celibato, mesmo com o corpo trêmulo, está disposto a morrer, porque uma força sobrenatural o anima. Dir-se-ia que, com a morte do protagonista, o romance de Greene terminou, mas no último capítulo, quando já parecia que todos os padres tinham sido assassinados, ocorre o milagre e surge outro novo padre fugitivo, disposto a levar os sacramentos às aldeias mais remotas. Com efeito, tal como o protagonista tinha afirmado ao tenente numa passagem anterior, os milagres acontecem “talvez porque Deus anda pela terra”.
“O poder e a glória” é um romance comovente que não hesita em mergulhar no labirinto das paixões mais ignóbeis, revelando-as na sua triste nudez. Mas não o faz para se regozijar nelas, e sim para nos mostrar que, acima dessa matéria tão vil, atua a graça divina, transmutando-a. Não se trata de uma obra triste e sem esperança, como afirmaram alguns católicos desnorteados (a quem Evelyn Waugh repreendeu com grande aspereza, em defesa de Greene), mas, pelo contrário, de uma obra que mergulha nos meandros paradoxais da graça divina, também presente em nossa fraqueza, apesar da nossa fraqueza e lutando contra ela; e que, saindo vitoriosa desse combate, revela de forma ainda mais admirável a glória de Deus, que morreu para que também nós, os fracos, tivéssemos a oportunidade de ser santos.