Embora 850 anos tenham se passado desde seu martírio, São Tomás Becket continua a ser figura controversa, e sua disputa com Henrique II da Inglaterra continua a dividir os historiadores. Enquanto alguns admiradores de Henrique veem em Tomás a causa de todas as misérias e da morte do rei, os devotos do santo tendem a demonizar Henrique. Como tudo na vida, a realidade é complicada. Mas é essa complicação — e a humanidade decaída no centro dela — o que torna Tomás Becket relevante para todos os tempos, particularmente para o nosso.

Os detalhes da vida de Tomás são bem conhecidos. Nascido em Londres por volta de 1120, de jovem tempestuoso passou à tranquila carreira de escriturário durante o arcebispado de Teobaldo de Cantuária. Ambicionando a enfermagem, cresceu e tornou-se arquidiácono; mais tarde, descoberto por Henrique II, foi feito chanceler real da Inglaterra. Amigo pessoal do rei, Tomás tinha um estilo de vida luxuoso, além de ser considerado corrupto e libertino. Na verdade, ele era virtuoso o bastante; só gostava um pouco demais da boa vida. Em 1162, forçado pelo rei a fazer-se arcebispo de Cantuária, passou por nova conversão ao se dar conta de que havia um Mestre superior a quem estava obrigado a servir.

Henrique esperava que o amigo fosse outra marionete, mas Tomás era pastor forte do povo, com uma vida espiritual cada vez mais profunda. As relações entre os dois se deterioraram, e a disputa eclodiu. As várias discussões com Henrique culminaram no exílio de Tomás em 1164, seguido por seis anos de tribulações. Uma série de complicados acordos finalmente lhe garantiram o retorno à Inglaterra em dezembro de 1170. Algumas semanas depois, em 29 de dezembro, após contínuas recusas do arcebispo em ceder às exigências do rei, quatro cavaleiros de Henrique o assassinaram na própria catedral.

Em 29 de dezembro de 1170, quatro cavaleiros de Henrique II assassinaram Tomás Becket em sua própria catedral. A pintura é do Mestre Francke.

A disputa entre Tomás e Henrique tinha por centro a liberdade da Igreja Católica na Inglaterra. Defensor das reformas de São Gregório VII, Tomás buscou reduzir o controle do braço secular sobre a Igreja, além de defender, entre outras coisas, a autoridade dos tribunais eclesiásticos. Os cristãos enfrentaram mais de uma vez o problema: poderes seculares a intrometer-se na vida da Igreja, com o fim de conformar a doutrina católica aos costumes da época, limitando assim o direito à adoração e o de seguir os valores de Cristo. Nos últimos tempos, organizações católicas foram vítimas de políticas anticristãs e tiveram de lutar nos tribunais por seus direitos. À medida que aumenta a pressão contra a liberdade religiosa, os cristãos são instados a submeter-se, se querem ser bons cidadãos, e, pelo bem da paz, a ser progressistas num mundo que os está deixando para trás. A resposta de Tomás a semelhantes transgressões foi resistir, permanecer firme, lembrar aos poderes seculares que também eles estão sujeitos a um Mestre superior.

A relevância de Tomás para nós vai além da resistência pública à tirania. Ele abre um horizonte profundamente pessoal para quem procura viver a fé cristã, ou seja, a luta interior para transformar-se em fiel discípulo de Cristo. Tradicionalmente, sua conversão é considerada dramática. Na verdade, foi um processo gradual. A conversão, por via de regra, não é espetacular ou instantânea; no mais das vezes, trata-se de um processo pessoalmente difícil, que exige comprometimento, humildade e determinação. Conformar-se a Cristo envolve sofrimento e até mesmo uma sensação de alienação, à medida que se passa do que é familiar para o que é novo e desafiador. Tomás experimentou isso e, às vezes, sentia-se sozinho, isolado, imerso numa noite escura. Ainda criança, a mãe incutiu-lhe uma piedade simples e generosidade para com os pobres. Isso proporcionou uma base sólida para sua renovada vida espiritual, guiando-o à medida que ele se aprofundava na vida de fé. 

A luta interior de Tomás ajuda-nos a entender nossa própria vida espiritual. Devemos tomar consciência de que Deus nos chama a todos a um relacionamento íntimo com Ele, independentemente do nosso passado. Os inimigos de Tomás nunca lhe deram chance; ele sempre foi o “chanceler amante do luxo”. Mas Deus viu-lhe potencial e aproveitou-o para o bem da Igreja.

Apesar de todos os defeitos, Tomás foi homem de dever. Isso o levou a perceber que, como arcebispo, seu verdadeiro mestre era Cristo, e seu dever era servir o Senhor e o seu povo. Com a intenção de bem governar sua diocese, viu ser necessário ensinar a fé e santificar o povo. Para isso, teve de estudar, o que lhe demandou grande esforço e humildade ainda maior; daí sua santidade. Nisto ele serve de modelo para os bispos, a quem exorta à fidelidade e ao cumprimento do dever, advertindo-os das consequências de sacrificar a fé e o rebanho a fim de apaziguar ambições, normas e ideologias de determinado tempo. Em seu ministério, enfrentou muitas dificuldades e decepções. Cometeu erros. Entretanto, sua determinação em ser fiel era constante, pois entendera que a Igreja não está sujeita a governantes seculares ou ao Estado.

Defender a Igreja trouxe-lhe grande solidão. Às vezes, nem mesmo os amigos entendiam o que ele estava fazendo. Para muitos, parecia imprudente, e às vezes o era de fato; mas sabia que a fidelidade a Cristo e à Igreja não era uma opção. Sabia que tinha de morrer para si mesmo a fim de encontrar coragem para cumprir o dever. Com o tempo, percebeu que seria condenado à morte por essa mesma fidelidade, e submeteu-se a este sacrifício pelo bem da Igreja.

Tomás Becket desafia os cristãos de todas as idades a abraçar a fé em plenitude, independentemente do custo, e a reconhecer que há um preço que vale a pena pagar. Ele nos encoraja a amar a Igreja e a defendê-la, se necessário, não com estranheza obstinada ou orgulho eclesiástico e superficial, mas por amor ao próprio Cristo. Para isso, Tomás é sempre relevante, embora possa continuar a ser uma figura controversa nos próximos anos.