A maçã envenenada da ideologia feminista
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A maçã envenenada da ideologia feminista
Sociedade

A maçã envenenada
da ideologia feminista

A maçã envenenada da ideologia feminista

A primeira e talvez a segunda onda do feminismo até podem ter sido construídas sobre ideias nobres, mas a corrente atual é movida por nada menos do que a inveja.

Carrie GressTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2018Tempo de leitura: 6 minutos
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“Branca de Neve”, “Cinderela”, “A Pequena Sereia”, “Rapunzel”, “A Bela Adormecida” são histórias que povoam há séculos a imaginação das meninas. Popularizadas pelas produções da Disney, versões diferentes desses contos de fadas, particularmente da Cinderela, têm cruzado as divisas das culturas e do tempo.

Todas essas histórias fantásticas seguem um roteiro parecido. Geralmente há uma mulher mais velha — que pode ser uma mãe, uma bruxa ou uma rainha —, em uma posição confortavelmente superior, até alguém ameaçar o seu lugar por ser, por exemplo, “a mais bela de todas as mulheres” [1]. A jovem donzela precisa ser detida a qualquer custo. A partir disso, os contos de fadas se desenrolam rumo a um desfecho comum: as coisas não se dão bem para a bruxa má, e a jovem donzela e seu príncipe vivem felizes para sempre.

Há muitas lições que podem ser extraídas desses contos de fadas, mas a primeira delas diz respeito ao vício atemporal da inveja. Embora pareçam equivaler-se, ter inveja e sentir ciúmes são, na verdade, duas coisas bem diferentes uma da outra [2]. A inveja eleva o ciúme de uma pessoa a um novo patamar, como se quem possuísse o objeto de seus desejos, ou fosse um obstáculo para alcançá-lo, estivesse roubando algo dela. Não sem razão a palavra inveja vem do latim invidere, que significa, literalmente, olhar para o outro com um “olho mau”, cheio de ódio e de malícia. Ela alimenta o impulso de destruir o próximo.

Embora seja um pecado capital tanto para homens quanto para mulheres, a inveja parece estar profundamente enraizada no coração feminino, desde o tempo de Eva. Até mesmo no Jardim do Éden é possível ver a inveja em ação. A serpente, ao tentar a primeira mulher com o fruto da árvore do bem e do mal, procura ao mesmo tempo colocá-la contra Deus, como se Ele estivesse retendo algo bom e que certamente era de seu direito. “Oh, não! — tornou a serpente — vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 4-5).

O que acontece, então, se tomarmos este vício atemporal da inveja e o aplicarmos a nossa própria cultura? Existe por acaso uma conexão?

Sim, ela existe, mas o lugar em que se sobressai pode parecer inesperado para muitos: trata-se do feminismo radical. A primeira e talvez a segunda onda do feminismo até podem ter sido construídas sobre ideias nobres, mas a corrente atual é movida por nada menos do que a inveja.

Nós vemos a inveja atuando, primeiro e sobretudo, na relação que as mulheres chegam a manter com os próprios filhos. A ideologia por trás da liberação do aborto é de que “as mulheres precisam tocar suas vidas”. A vida de uma criança seria uma ameaça ao sucesso e à felicidade de sua mãe. Assim como em Branca de Neve, aqui também um ser humano a desabrochar é detido (literalmente envenenado, muitas vezes) e destinado a dormir um sono profundo (só que, desta vez, sem jamais poder acordar). Como as pessoas são capazes de exultar com um ato de tamanha destruição, ou chamar de “empoderamento” ao ato de contar a história dos próprios abortos na internet (como pretende um movimento recente nos Estados Unidos, chamado Shout Your Abortion)?

E quanto aos homens? Eles geralmente não são retratados como vilões nos contos de fadas, mas a versão contemporânea da trama tem os colocado no centro das atenções. As mulheres decretaram que só serão felizes se levarem a mesma vida que os homens levam. A atitude delas em relação a seus pares revelam as marcas destrutivas e depreciativas da inveja. As mulheres não abraçam mais o bem que os homens têm a oferecer à sociedade; antes, vêem-no como um mal que tem de ser eliminado. Os importantes instintos de proteção e responsabilidade que desde sempre impulsionaram os homens à grandeza foram reduzidos à categoria de “machismo”. O mantra feminista, nas entrelinhas, é: “Homens, ainda que nós queiramos ser como vocês, vocês devem mudar.” Todos os dias nós vemos o veneno da inveja sendo destilado em direção aos homens, particularmente nos comerciais ubíquos de TV, onde todos eles agem de modo atrapalhado, até que uma sábia mulher venha em socorro deles.

E como as feministas tratam aquelas mulheres que não abraçam seus ideais? Mulheres que escolheram ter muitos filhos e/ou preferiram a família à própria carreira são frequentemente tidas como idiotas, “parideiras”, pessoas que preferiram ficar “presas” em casa, ao invés de gozarem da liberdade que vem com a independência e autonomia financeiras. Assim o movimento feminista alimenta a “estranha ideia de que as mulheres são livres quando servem os seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos” [3].

Infelizmente, as mulheres cristãs não estão imunes à destruição ideológica do feminismo radical, que está praticamente onipresente em nossa cultura. Ao longo dos anos, estas pelo menos têm mostrado possuir uma capacidade profunda de ajudar e encorajar outras mulheres — virtudes que são difíceis de viver e até mesmo de ter em alta conta, quando a cultura, de uma maneira geral, apresenta o ciúme e a inveja como “virtudes” indispensáveis para sobreviver econômica e socialmente.

Mas como podemos combater este velho pecado de Eva?

Primeiro, é importante termos consciência da inveja e das múltiplas formas sob as quais ela se apresenta no mundo à nossa volta. O mais importante de tudo, porém, é olharmos para nossos próprios corações, onde este pecado muitas vezes se esconde, permeando nossas palavras, atos… e omissões.

Em segundo lugar, podemos consultar esses velhos contos de fadas à procura de ajuda. A mulher invejosa preza pelo próprio status, esteja ele em sua juventude, em sua riqueza, em seu poder ou em sua influência (ou mesmo em tudo isso junto). Todos esses aspectos materiais, no entanto, não cobrem por completo o que significa ser uma mulher de Deus. Há uma camada mais profunda de vida para as mulheres, camada a qual nós perdemos de vista em nossa própria cultura. Trata-se de maturidade e de sabedoria. Esses atributos não aparecem simplesmente com o passar dos anos, mas devem ser adquiridos por meio de atos deliberados de esforço para conquistar as virtudes da humildade, da paciência, da confiança, da pureza etc.

A chave para isso está na consciência profunda de que Deus é nosso Pai, cuida com carinho de cada um de nós e tudo o que nos acontece faz parte de sua vontade providente. Quando descobrimos que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28) e rejeitamos a mentira de que estaríamos órfãos neste mundo, então a inveja passa a não ter mais lugar em nossas vidas. Um espírito de gratidão por esse relacionamento com nosso Criador e por todos os dons que recebemos, por mais pequenos e insignificantes que pareçam, é o que precisamos para dissipar o veneno da inveja.

Como todo bom conto de fadas, nós sabemos que, no fim, a beleza, o bem, a verdade e a honestidade verdadeiras não podem ser vencidos, mas tão somente escondidos ou desprezados. Um dia, a fantasia da ideologia feminista finalmente virá abaixo e será revelado, então, aquilo que ela realmente é: uma grande e espalhafatosa mentira.

Notas

  1. A expressão “fairest of them all”, aqui traduzida ao pé da letra, faz referência à frase com que a personagem da madrasta má se dirigia ao espelho mágico na história da Branca de Neve: “Mirror, mirror on the wall, who’s the fairest of them all?” (“Espelho, espelho na parede, quem é a mais bela de todas?”, literalmente). Na versão portuguesa desse conto de fadas, a frase que ficou famosa e mais sonora em nosso idioma foi: “Espelho, espelho meu, existe alguém neste mundo mais bonita do que eu?”.
  2. Essa diferença é cuidadosamente explicada na Suma Teológica: enquanto os ciúmes (zelus, em latim) são considerados pelo Aquinate simples efeitos do amor (cf. I-II, q. 28, a. 4), pelo que vão abordados no tratado sobre as paixões, a inveja é sempre má e pecaminosa (cf. II-II, q. 36, a. 2), constando da seção da Suma que trata sobre a moral.
  3. Trata-se de uma frase, famosa, de G. K. Chesterton, já usada inúmeras vezes em outros textos nossos. Tomamos a liberdade de acrescentá-la aqui, a fim de enriquecer a matéria e completar a linha de raciocínio de sua autora.

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Eles combateram o bom combate!
Santos & Mártires

Eles combateram o bom combate!

Eles combateram o bom combate!

O homem materialista de hoje não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não seja por capital e latifúndio. Mas a história da Igreja e da cristandade mostra que o “bom combate” de verdade tem motivações muito mais nobres e elevadas...

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Em vários exemplos das Escrituras e também da vida dos santos, vemos homens de Deus travando uma batalha, muitas vezes terrível, contra homens perversos

Não à toa, o principal livro do Antigo Testamento, os Salmos, está cheio de invocações dos justos pedindo proteção a Deus contra seus perseguidores. A ideia de que militia est vita hominis super terram, ou seja, “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), perpassa toda a literatura judaica e cristã. 

Assim, para prestar culto ao único Deus verdadeiro, o povo de Israel precisou enfrentar com coragem a idolatria, as imoralidades e as práticas supersticiosas de seus vizinhos. Falhou inúmeras vezes, é verdade, chegando mesmo a se entregar aos erros que devera combater. Mas a todo momento o Autor Sagrado faz questão de reconduzir as mentes dos israelitas à vocação divina com que nasceram. Afinal, não foi para uma mera estabilidade mundana e prosperidade material que os filhos de Abraão se fixaram na Terra Prometida. Deus “deu-lhes as terras dos gentios, e desfrutaram o trabalho doutros povos, para que guardassem os seus mandamentos, e buscassem a sua lei” (Sl 104, 44s).

O capitão do exército do Senhor aparece a Josué perto de Jericó (cf. Js 5, 13-16). Obra de Ferdinand Bol.

Cenário semelhante, com desafios muito parecidos, se repete na história da Igreja ao longo dos séculos. Os reinos cristãos medievais da Europa nasceram ou com o batismo dos antigos governantes bárbaros — vide Clóvis, o primeiro rei da França —, ou com verdadeiras guerras de resistência aos inimigos da fé — vide a Batalha de Ourique, com Dom Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. A catolicidade de nossa nação mesma se deve ao trabalho incansável, contínuo e perseverante dos povos ibéricos cristãos, que muito antes de descobrirem estas terras tiveram de defender as suas dos hereges muçulmanos [1]. Tivessem os cruzados medievais cruzado os braços ante a ameaça islâmica, o Brasil talvez acabaria com uma estrela e a Lua crescente na bandeira — e jamais se chamaria “Terra de Santa Cruz”.

A natureza religiosa e transcendente desses embates antigos é muitas vezes ridicularizada nas aulas de História. O homem materialista dos tempos modernos não consegue vislumbrar uma “boa briga” que não tenha acontecido, no fim das contas, por capital e latifúndio. É a narrativa marxista dos acontecimentos, hegemônica em nossas faculdades e redações — visão tacanha de mundo, que explica o espírito “pacifista” de nossa época e a verdadeira “capitulação cultural” que padecemos. 

Muito antes de nos prostrarmos aos inimigos visíveis da civilização cristã, porém, nossa primeira rendição enquanto sociedade foi ao diabo. Eis a primeira grande tragédia que precisa ser deplorada.

Comece-se pela negação ou minimização das verdades de nossa fé. Hoje, muitas vezes dentro da própria Igreja, a existência dos demônios, por exemplo, é totalmente relativizada. (Isso lhes dá, convenhamos, muito mais liberdade para agir.) E se eles não passam de uma fantasia da cabeça de senhorinhas piedosas, não existe combate espiritual neste mundo. Aliás, a ideia mesma de “combate”, “batalha”, “guerra” é muito violenta e não caberia mais numa apresentação contemporânea da fé cristã. A oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII, estaria completamente ultrapassada.

Infelizmente, quiseram introduzir noções como essa na liturgia. 

A eliminação na Liturgia das Horas de versículos e capítulos inteiros dos Salmos ditos imprecatórios ilustra bem o problema. Na tradução brasileira dos livros litúrgicos, a transformação de “Deus dos exércitos” (Deus sabaoth) num vago “Deus do universo”, tanto no Sanctus da Missa quanto no hino litúrgico Te Deum, vai na mesma linha. Nosso Senhor fala no Evangelho que certa espécie de demônios “só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Mas, curiosamente, mesmo com a ideia de que o atual Lecionário contivesse a maior quantidade possível de perícopes evangélicas, essa passagem, presente também em Mc 9, 29, simplesmente não consta em lugar algum das leituras do Missal de Paulo VI — como tantas outras cujo conteúdo poderia desagradar aos homens de hoje. 

Como consequência não só do espírito por trás dessas omissões, mas também do lamentável relaxamento disciplinar da nossa época, o jejum e a oração praticamente desapareceram do discurso e da prática de muitos católicos. Antigamente, os católicos jejuavam rigorosamente em todos os dias da Quaresma. Na Idade Média, os exércitos de cavaleiros cristãos, antes de ir à guerra (para proteger sua pátria e religião), se reuniam nas igrejas, ouviam Missa e faziam vigílias e jejuns, cientes de que a vitória nos seus combates vinha de Deus, e não de forças humanas. 

Hoje, todavia, as pessoas se horrorizam quando descobrem que têm de se abster de carne um dia na semana. (E só o fazem quando deparam com algum dos poucos pregadores que tocam no assunto; do contrário, nada saberiam.) Do hábito da oração nem se fale… 

Sem isto e sem jejum, porém, estamos com o flanco aberto aos inimigos de nossa alma, dos quais o pior de todos não é nem mesmo o demônio, mas nossa própria carne. Como ensinava Santo Tomás de Aquino

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Aqui descobrimos, então, o grande segredo dos mártires e dos heróis da fé de outros tempos. Como explicar que eles tenham sido capazes de resistir às mais cruéis torturas, às mais terríveis ameaças, senão pelo fato de que eles mesmos, em suas vidas, foram preparados espiritualmente para o combate a ser travado? O rei Davi começa assim o Salmo 142: Benedictus Dominus, Deus meus, qui docet manus meas ad proelium, et digitos meos ad bellum, “Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestrou minhas mãos para a luta, e os meus dedos treinou para a guerra” — palavras perfeitamente aplicáveis à multidão de santos e santas da Igreja.

Antes dos perseguidores, os primeiros algozes dos mártires e confessores eram os demônios e a sua própria carne. Antes de ser odiados pelo mundo, eles viveram uma batalha ferrenha para se manter na graça de Deus, macerando seus corpos com jejuns e sofrimentos, e lutando — às vezes até fisicamente, como demonstra a vida de um Santo Antão e de um Padre Pio — contra os próprios espíritos das trevas. Ora, quem era um Nero, um Henrique VIII ou um Stálin, em comparação com a maldade do diabo? 

Os santos e mártires da Igreja não eram, pois, homens e mulheres quaisquer. No escondimento de suas vidas, recolhidas e mortificadas, esses guerreiros foram realmente forjados por Deus, até se tornarem aquele “gigante exultante em seu caminho” de que fala a Sagrada Escritura (cf. Sl 18, 6). Muito mais que as personagens “heroicas” que vemos nos filmes — muito mais que um Rocky, um Rambo ou algum dos “Vingadores” —, é para esses heróis da fé e da caridade que devemos dirigir o olhar; é em suas biografias que devemos buscar inspiração para nossa existência.

Assim, lendo seus feitos e procurando imitar suas virtudes, quem sabe um dia não poderemos dizer com o Apóstolo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4, 7)? Nada pode haver mais glorioso que batalhar para cumprir, neste mundo, a vontade do Rei que não é deste mundo.

Notas

  1. Hillaire Belloc é um desses autores que coloca o islamismo no rol das heresias cristãs, ao invés do das simples religiões pagãs. Pois os muçulmanos crêem na virgindade de Maria, por exemplo, e reconhecem Jesus como um profeta, mas se recusam a abraçar a integridade do depósito da fé confiado à Santa Igreja.

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Santo André e São Silvestre: princípio e fim de uma “catedral”
LiturgiaSantos & Mártires

Santo André e São Silvestre:
princípio e fim de uma “catedral”

Santo André e São Silvestre: princípio e fim de uma “catedral”

Na bela catedral que é o calendário litúrgico católico, encontram-se São Silvestre Abade, num extremo, e Santo André Apóstolo, no outro. Como todas as obras de Deus têm um sentido, também este arranjo dos santos não é em vão...

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Como sabe qualquer pessoa que já tenha usado alguma vez um missal, seja o de altar seja o manual, o Missale Romanum tradicional [1] é dividido em diferentes seções: 

  • o “Próprio do Tempo” (ou ciclo temporal), começando com o 1.º Domingo do Advento e culminando com o Último Domingo depois de Pentecostes; 
  • o “Próprio dos Santos” (ou ciclo santoral), começando com a vigília de Santo André (para quem usa a edição anterior à reforma de 1955) ou a comemoração de São Saturnino seguida da festa de Santo André (quando se segue a edição de 1962) e terminando com o abade São Silvestre Gozzolini em 26 de novembro; 
  • os “Comuns”, começando com as vigílias dos Apóstolos (pré-1955) ou os Papas (pós-1955) e terminando com a Bem-aventurada Virgem Maria; 
  • as Missas votivas; 
  • e por último orações diversas, a Missa de Defuntos e Missas locais.

Ainda que os missais nem sempre tenham sido organizados desta forma [2], é óbvio que o ciclo temporal — tal como existe há bastante tempo — faz todo o sentido: dizemos que o ano litúrgico da Igreja começa com o tempo do Advento e termina com o último Domingo depois de Pentecostes. Mas, tomando S. André como o início oficial do ciclo santoral [3] e S. Silvestre Abade como seu fechamento oficial, podemos perceber uma conveniência similar na forma como esse ciclo é disposto no Missale Romanum?

Antes de proceder, duas observações. Primeiro, o abade São Silvestre Gozzolini, OSB (1177–1267), fundador dos “silvestrinos”, é um acréscimo relativamente recente no calendário geral, tendo sido introduzido pelo Papa Leão XIII em 1890. Como consequência, ele não é encontrado nos calendários de algumas dioceses e de várias Ordens religiosas [4]. Entretanto, para a vasta maioria dos católicos que rezam segundo o usus antiquior, o último santo no ciclo santoral é, de fato, S. Silvestre Abade.

Segundo, ainda que os comentadores medievais da Escritura (como Guilherme Durando) digam muito pouco sobre a relação entre os ciclos temporal e santoral, e muitos detalhes sejam inicialmente obra do acaso ou da praticidade, sabemos que a liturgia, da forma orgânica como se desenvolve sob o cuidado da divina Providência, muitas vezes deixa entrever uma impressionante conveniência no arranjo ou disposição de suas partes, a qual vai muito além do escopo limitado das intenções humanas [5]. É por isso que em qualquer aspecto da liturgia podemos abordar a questão da conveniência e esperar encontrar respostas plausíveis, assim como os alegoristas medievais podiam olhar para os atos cerimoniais [da Missa] — o ósculo sobre o altar, o ato do sacerdote de se voltar para a assembleia, os sinais da cruz feitos por ele — e ver neles representações das fases da vida de Cristo, ou de sua dolorosa Paixão [6]. É razoável, pois, explicar simbolicamente o porquê de o ciclo tradicional dos santos começar ou terminar deste e daquele modo. 

Comecemos pelo fim. Como explica o St. Andrew’s Daily Missal, S. Silvestre “deveu sua vocação religiosa à vista do cadáver de um parente. Primeiro ele viveu uma vida solitária, mas depois fundou um mosteiro sob a Regra de S. Bento”. A história levemente macabra de sua conversão é tematizada na Coleta de sua festa: 

Clementíssime Deus, qui sanctum Silvéstrum Abbátem, saéculi huius vanitátem in apérto túmulo pie meditántem, ad erémum vocáre et praecláris vitae méritis decoráre dignátus es: te súpplices exorámus; ut, eius exémplo terréna despiciéntes, tui consórtio perfruámur aetérno. Per Dóminum nostrum. — Ó Deus clementíssimo, que vos dignastes chamar à solidão o bem-aventurado abade Silvestre pela meditação piedosa das vaidades do mundo em presença de um túmulo aberto, e o adornastes de notáveis merecimentos de vida, fazei que, desprezando como ele as coisas do mundo, gozemos da vossa eterna companhia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não nos surpreende encontrar o tema do “desprezo pelas coisas do mundo” em nossa busca pelo unum necessarium; trata-se de uma marca característica da espiritualidade litúrgica tradicional. Nós o encontramos presente, por exemplo, na poderosa Secreta do Último Domingo depois de Pentecostes, que diz, em parte: ómnium nostrum ad te corda convérte, ut a terrénis cupiditátibus liberáti, ad coeléstia desidéria transeámus, “convertei para vós o nosso coração, para que, libertos da cupidez terrena, cresçamos nos desejos do céu”. 

A Coleta de S. Silvestre assume, porém, uma conveniência peculiar, por cair na estação do outono. Ao menos nos climas do hemisfério norte, o fim do ano litúrgico coincide com o período em que o mundo natural escurece e dorme. A vegetação perde muito de sua verdejância, como se a cor verde do tempo de Pentecostes fosse desaparecendo devido à distância que tomou de sua origem (“Quando o Filho do Homem voltar, ainda encontrará fé sobre a terra?”); as folhas mudam de cor e caem no chão, como tantos corpos de seres mortais prestes a se decompor em seus túmulos. Notável por suas associações melancólicas, o outono é a estação em que a natureza se transforma a fim de preparar-se para o longo inverno — o qual precede, por sua vez, o tempo pascal da primavera e sua analogia sobrenatural com a Ressurreição. De fato, o mês de novembro é vivido como o mês dos mortos, e devemos ver nisso uma associação não meramente acidental com a festa de Todos os Santos [7]. 

O Próprio dos Santos no Missal tradicional, de fato, parece concentrar nossa atenção no que podemos chamar de “escatologia pessoal”: cada um de nós deve vigiar, com sobriedade, em preparação para a vinda de Cristo, nosso Juiz. A nota escatológica do final do ano é acentuada pelos Evangelhos das festas de S. Cecília, em 22 de novembro (a parábola das dez virgens, de Mt 25,1-13), e do Papa S. Clemente em 23 de novembro (Mt 24,42-47: “Vigiai, pois não sabeis a hora...”). A perícope das virgens é repetida, então, em 25 de novembro, com a festa de S. Catarina de Alexandria. Acrescente-se a isso a intensidade das orações escolhidas para São João da Cruz, em 24 de novembro (ao invés do dia 14 de dezembro, como é no Missal de Paulo VI), e é possível vislumbrar um tema crescente de mortificação, com um olhar sobre nossa mortalidade pecaminosa e a imortalidade por que ansiamos.

“Vanitas”, por Domenico Fetti.

Ao invés de envolver o fim do ano litúrgico com o triunfalismo transcendental e teilhardiano de “Cristo, Rei do Universo”, a festa de S. Silvestre em 26 de novembro empresta a essa conjuntura uma nota mais sóbria, introspectiva e retrospectiva, como a de um memento mori: Vê o cadáver no caixão aberto e contempla teu próprio fim; medita sobre isto como preparação para o início do Advento, quando celebramos a vinda daquele que salva o homem do pecado e da morte; olha para além das pompas e vaidades do que o mundo considera valioso, e fixa teus olhares na santidade, na imitação dos muitos santos que, começando com o precursor São João Batista, procuraram o deserto, ou melhor, procuraram Deus, que os chamou e enobreceu. 

Há algo de irônico ou paradoxal na forma como a liturgia tradicional põe termo ao ano e o começa de novo — como que ilustrando estas linhas de T. S. Eliot: “É assim que acaba o mundo / Com um gemido e não com um estrondo” (This is the way the world ends / Not with a bang but a whimper, in: The Hollow Men). Ao menos é assim que o mundo termina na morte de cada um de nós, no momento em que expiramos pela última vez. A quietude do túmulo conduz à quietude de uma estação fria, que traz aos nossos olhos uma família pobre, um estábulo, uma manjedoura, uma criança envolta em panos e nenhum prospecto de vitória divina — a não ser pela quase que imperceptivelmente crescente luz do dia.

Voltando-nos para o início do ciclo santoral, encontramos tradicionalmente a festa de Santo André Apóstolo em 30 de novembro. Como o Próprio dos Santos cuida de recordar, venerar e invocar os discípulos do Senhor, é sumamente apropriado que o primeiro dos santos seja André, o primeiro dos discípulos do Senhor em seu ministério público. A Igreja bizantina dá a ele o epíteto litúrgico oficial de Πρωτόκλητος (“Protocletos”), isto é, “o primeiro a ser chamado”, e nós vemos na disposição do calendário romano uma prioridade e proeminência análogas.

Santo André, retratado por Pompeo Batoni.

Desta forma, o ciclo dos santos, tal como impresso no missais, reflete a prioridade da vocação do discípulo de Cristo — “Vem e segue-me” — e a autorrenúncia e via crucis que ela necessariamente exige, enquanto seguimos Jesus rumo à eterna glória. Devemos seguir a Ele, “em quem habita toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9), e não ao vazio das coisas deste mundo. A vida cristã como um todo não é senão uma passagem através do deserto para alcançar a fraternidade da terra prometida — e desta passagem o ciclo santoral, tanto no geral quanto em seus detalhes, é uma representação vívida. 

A festa do Apóstolo André tem sido celebrada por mais de um milênio; a do Abade S. Silvestre, por apenas um século e um quarto. Mas se olhamos para o calendário litúrgico como sendo a construção de uma grande catedral — como a de Milão, por exemplo, que começou em 1386 e foi oficialmente terminada em 1965, levando quase 600 anos para ser completada —, vemos como seu desenvolvimento adiciona pedra depois de pedra, escultura depois de escultura, até que toda a estrutura seja finalizada. Ao adicionar S. Silvestre Gozzolini ao ciclo santoral, o Papa Leão XIII adicionou uma pedra final apropriada à sua estrutura, tornando-o ainda mais frutuoso espiritualmente para todos que se beneficiam do usus antiquior.

Como um post-scriptum, pode-se apontar com tristeza que a forma como o novo Missal Romano arranja o ciclo santoral se afasta do padrão, estável por mais de 500 anos, a começar pela cúspide de dezembro e terminar na última semana de novembro. Em uma jogada ilustrativa da fusão entre aggiornamento e secularização, o novo ciclo santoral se conforma ao calendário secular hegemônico, começando no dia 1.º de janeiro (com o dia 2, na verdade) e encerrando-se com o dia 31 de dezembro, ainda que estas datas não tenham nenhum significado especial no ano litúrgico, que se desdobra do Advento até o tempo depois de Pentecostes. O usus antiquior, tanto em seu ciclo temporal quanto santoral, dá testemunho consistente de uma estrutura do tempo mais antiga e com mais autoridade.

Notas

  1. Como fica evidente com a leitura do texto, o autor está falando do Missale Romanum até a reforma litúrgica realizada depois do Concílio Vaticano II. Daí a menção ao tempo “depois de Pentecostes” (equivalente ao nosso “Tempo Comum”; per annum, em latim), às “vigílias” litúrgicas (a maior parte das quais foi desaparecendo ao longo do século XX) e a santos não mais presentes no calendário litúrgico atual (N.T.).
  2. Na Idade Média, não havia uniformidade na disposição dos missais. Os mais antigos dos livros litúrgicos começavam o ciclo temporal com a vigília de Natal e terminavam com o Advento (se o tivessem; alguns não o tinham), e as festas dos santos se inseriam entre as Missas do Próprio do Tempo. Obviamente, não se tratava de um arranjo satisfatório, já que as coisas mudam de acordo com o ciclo temporal todos os anos. Mais tarde, quando se separaram as Missas temporais e dos santos, era possível encontrar livros onde S. André era o primeiro santo e outros em que era S. Hilário, em 14 de janeiro — já que todos os santos de 26 de dezembro a 13 de janeiro se encontravam dentro do ciclo temporal (N.A.).
  3. Falo primeiro de André porque a vigília dessa festa, que era observada até as drásticas mudanças do Papa Pio XII em 1954, vinha em primeiro lugar e obviamente tinha precedência sobre a comemoração de S. Saturnino. Portanto, o mais correto é dizer que o Santoral Romano começa com S. André. O dano colateral da remoção dessa vigília inclui a perda do evangelho que lhe era exclusivo: Jo 1,35-51. Como que para fazer uma reparação por isso, o Missale Romanum de 1962 incluiu uma nova Missa votiva pelas vocações prevendo este Evangelho (N.A.).
  4. Os franciscanos, por exemplo, juntamente com um grande número de dioceses italianas, observam neste dia S. Leonardo de Porto-Maurício; os dominicanos nunca receberam essa festa, mas têm um de seus beatos neste dia e, antes de 1911, vigorava a oitava de S. Catarina de Alexandria; os carmelitas tinham as oitavas da Apresentação da Bem-aventurada Virgem Maria e de S. João da Cruz; os cistercienses também nunca receberam essa festa etc. Ela acabou removida sem escrúpulos pelo Consilium [ad exsequanda Constitutione de Sacra Liturgia], em sua revisão do calendário geral no final da década de 1960 (N.A.).
  5. Se aqueles que dispuseram as partes tinham em mente uma intenção determinada não faz diferença, pois eles estão trabalhando com peças que, no fim das contas, é Deus quem lhes proporciona, e estas são orquestradas por Ele dentro de um todo maior não só do que as suas partes, mas até mesmo do que a soma total de suas partes (N.A.).
  6. É indefinido, ademais, o número de tais interpretações, pela mesma razão que a Escritura pode legitimamente ser interpretada de várias formas diferentes (até infinitas, pode-se dizer), como S. Agostinho explica em De doctrina christiana (N.A.).
  7. No mesmo sentido é necessário, por razões simbólicas, que Cristo Rei aconteça no final de outubro, antes desta estação de declínio (N.A.).
  8. Cf., a esse respeito: P. Kwasniewski, “Between Christ the King and ‘We Have No King But Caesar’”, in: OnePeterFive.com, 25 out. 2020; “Não temos outro rei senão... Cristo!”, em nosso Blog (16 nov. 2020).

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Novena tradicional a Nossa Senhora da Conceição
Virgem MariaOração

Novena tradicional a
Nossa Senhora da Conceição

Novena tradicional a Nossa Senhora da Conceição

Com esta antiga novena à Virgem Maria, somos chamados a meditar sobre o mistério de sua Imaculada Conceição, pedindo-lhe sobretudo que nos conserve na graça de Deus e nos faça crescer na vida de virtudes.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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O texto da novena a seguir, extraído de um manual antigo de orações em latim e italiano [1], foi vertido para a língua portuguesa por nossa equipe. Tem a vantagem de ser uma oração tradicional, com pedidos espirituais e formas bastante piedosas de se dirigir à Virgem Santíssima. (O que deveria ser uma regra para qualquer novena que a ela se faça, mas não é isto, infelizmente, o que se encontra em muitos lugares.) 

A devoção à Imaculada Conceição é particularmente forte nos países lusófonos e acompanha a história de Portugal desde as suas origens. Três fatos são suficientes para atestá-lo: 

  • No Cerco de Lisboa, em 1147, quando a cidade foi tomada dos muçulmanos por D. Afonso Henriques, o primeiro rei português, uma Missa pontifical de ação de graças foi celebrada em honra à Virgem da Conceição. 
  • Na crise dinástica do século XIV, que se resolveu com a Batalha de Aljubarrota, em 1385, D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria) mandou construir em Vila Viçosa um tempo a Nossa Senhora da Conceição. 
  • Após a Restauração da Independência de Portugal, em 1640, D. João IV jurou e proclamou solenemente Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos (o que incluía, na época, o Brasil). Na provisão régia — confirmada depois pelo próprio Papa —, o rei prometeu “confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”. Depois, num ato profundamente simbólico, coroou a imagem da Virgem da Conceição, na mesma igreja de Vila Viçosa, e desde então os reis de Portugal nunca mais colocariam a coroa real em sua cabeça, como forma de reconhecer na Virgem Maria a única verdadeira soberana de todo o reino lusitano.

Essa devoção também se tornou particularmente cara ao povo brasileiro, principalmente com a pesca milagrosa de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição no rio Paraíba, em 1717 — daí o culto à Virgem Aparecida. No século seguinte, o Brasil se tornaria independente de Portugal, mas a devoção à Imaculada continua a unir espiritualmente as duas nações

Em 1854, o Beato Papa Pio IX finalmente proclamou como dogma a Imaculada Conceição, tornando obrigatória a todos os católicos essa doutrina que os portugueses e brasileiros já confessavam espontaneamente.

Por isso, sugerimos aos nossos leitores que façam esta novena não só dos dias 29 de novembro a 7 de dezembro (que precedem a solenidade da Imaculada Conceição), mas também de 3 a 11 de outubro (quando nos preparemos para a festa de Nossa Senhora Aparecida) — embora essas orações possam ser rezadas a qualquer tempo.


Orações preparatórias

Vinde, Espírito Santo, enchei o coração dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.

℣. Enviai o vosso Espírito, e tudo será criado.
℟. E renovareis a face da terra.

Oremos. Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.

Ó Virgem puríssima concebida sem pecado, desde o primeiro instante toda bela e sem mancha. Ó gloriosa Maria, cheia de graça e Mãe de meu Deus, Rainha dos anjos e dos homens. Humildemente vos venero como Mãe do meu Salvador, que, sendo Deus, me ensinou com sua estima, respeito e submissão a vós a honra e a homenagem que vos devo prestar. Dignai-vos acolher-me a mim, que nesta novena a vós me consagro. Sendo vós refúgio seguro dos pecadores arrependidos, tenho razão para recorrer a vós; sendo Mãe de misericórdia, não podeis não vos compadecer de minha miséria; sendo, depois de Jesus Cristo, toda a minha esperança, não podeis não vos agradar da tenra confiança que em vós tenho. Fazei-me digno de chamar-me vosso filho, a fim de que possa dizer com confiança: Mostrais que sois Mãe

— Em seguida, reza-se uma Ave-Maria, um Glória e a oração do dia:

Primeiro dia

Eis-me aqui aos vossos pés santíssimos, ó Virgem Imaculada. Alegro-me grandemente convosco, eleita desde a eternidade para ser Mãe do Verbo eterno e preservada da culpa original. Dou graças e bendigo à Santíssima Trindade, que vos enriqueceu com este privilégio em vossa Conceição, e suplico-vos humildemente que me alcanceis a graça de vencer as tristes sequelas que em mim deixou o pecado original. Fazei que eu as supere e não deixe mais de amar ao meu Deus. — Em seguida, reza-se o hino abaixo (ou a ladainha de Nossa Senhora):

℣. Toda bela sois, Maria.
℟. Toda bela sois, Maria.
℣. E sem a mancha original.
℟. E sem a mancha original.
℣. Sois a glória de Jerusalém.
℟. Sois a alegria de Israel.
℣. Sois a honra do nosso povo.
℟. Sois a Advogada dos pecadores.
℣. Ó Maria.
℟. Ó Maria.
℣. Virgem prudentíssima.
℟. Mãe clementíssima.
℣. Rogai por nós.
℟. Intercedei por nós ao Senhor Jesus Cristo.

Em seguida, reza-se:

℣. Em vossa Conceição, ó Virgem, fostes imaculada.
℟. Rogai por nós ao Pai cujo Filho destes à luz.

Oremos. Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem Maria preparastes uma digna morada para o vosso Filho e em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo a preservastes de toda mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Ó Deus, pastor e guia de todos os fiéis, olhai propício para o vosso servo N., que constituístes pastor de vossa Igreja; dai-lhe, nós vos pedimos, servir por palavra e exemplo aqueles a quem governa, a fim de alcançar a vida eterna com o rebanho que lhe foi confiado. Ó Deus, nosso refúgio e fortaleza, ouvi as piedosas súplicas de vossa Igreja, Vós que sois o autor da piedade, e concedei-nos alcançar eficazmente o que com confiança vos pedimos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.

Segundo dia

Ó Maria, lírio imaculado de pureza, alegro-me convosco, que desde o primeiro instante de vossa Conceição fostes cumulada de graça e recebestes o uso perfeito da razão [2]. Dou graças e adoro à Santíssima Trindade, que vos concedeu dons tão sublimes. Confundo-me todo diante de vós, vendo-me tão pobre de graça. Vós, que fostes plenamente cumulada de graça celeste, fazei-me participar e compartilhar dos tesouros de vossa Imaculada Conceição.

Terceiro dia

Ó Maria, rosa mística de pureza, alegro-me convosco, que em vossa Imaculada Conceição triunfastes gloriosamente da serpente infernal e fostes concebida sem a mancha do pecado original. Dou graças e louvo com todo o coração à Santíssima Trindade, que vos concedeu tal privilégio, e vos suplico que me alcanceis a força para superar todas as insídias do inimigo infernal e não manchar com o pecado a minha alma. Ajudai-me sempre e fazei-me, com vossa proteção, triunfar sempre do inimigo comum de nossa eterna salvação.

Quarto dia

Ó Imaculada Virgem Maria, espelho de pureza, encho-me de sumo gozo ao ver que vos foram infusos desde a vossa Conceição os dons mais sublimes e perfeitos de virtude e também todos os dons do Espírito Santo. Dou graças e louvo à Santíssima Trindade, que vos favoreceu com estes privilégios, e vos suplico, ó Mãe benigna, que me alcanceis a prática da virtude e a graça de tornar-me digno de receber os dons e a graça do Espírito Santo.

Quinto dia

Ó Maria, lua reluzente de pureza, alegro-me convosco, pois o mistério de vossa Imaculada Conceição foi o início da salvação de todo o gênero humano e a alegria do mundo inteiro. Dou graças e bendigo à Santíssima Trindade, que assim vos engrandeceu e glorificou, e vos suplico que me alcanceis a graça de saber aproveitar-me da paixão e morte do vosso Jesus. Que não seja para mim inútil o Sangue derramado na cruz, mas que eu viva santamente e me salve.

Sexto dia

Ó Maria Imaculada, estrela esplendorosa de pureza, alegro-me convosco, porque a vossa Imaculada Conceição foi motivo de grandíssima alegria para todos os anjos do paraíso. Dou graças e bendigo à Santíssima Trindade, que vos enriqueceu de tão belo privilégio. Fazei-me entrar um dia nesta alegria e poder, na companhia dos anjos, louvar-vos e bendizer-vos eternamente.

Sétimo dia

Ó Maria Imaculada, aurora nascente de pureza, alegro-me convosco, admirado de que no momento mesmo de vossa Conceição fostes confirmada em graça e tornada impecável. Dou graças e exalto à Santíssima Trindade, que vos distinguiu somente a vós com este particular privilégio. Impetrai-me, ó Virgem santa, um total e contínuo horror ao pecado, mais do que a qualquer outro mal, e que eu prefira antes morrer que voltar a pecar.

Oitavo dia

Ó Virgem Maria, sol sem mancha, alegro-me convosco, cheio de gozo por terdes recebido de Deus em vossa Conceição uma graça maior e mais copiosa que a alcançada por todos os anjos e santos no auge de seus méritos. Dou graças à Santíssima Trindade, admirado da suma beneficência com que vos dispensou este privilégio. Fazei-me corresponder à graça divina e a dela não mais abusar. Transformai-me o coração e fazei que eu me arrependa desde agora de minhas culpas.

Nono dia

Ó Maria, Virgem Imaculada, luz viva de santidade, exemplo de pureza e Mãe minha. Vós, apenas concebida, adorastes profundamente a Deus e lhe rendestes graças, já que por meio de vós, desfeita a antiga maldição, derramou-se a maior bênção sobre os filhos de Adão. Fazei que esta bênção acenda em meu coração um amor ardente a Deus. Inflamai-o vós, para que eu o ame constantemente e dele goze depois para sempre no paraíso, onde poderei dar-lhe graças mais ardentemente pelos singulares privilégios que vos concedeu e gozar de vós coroada de tanta glória.

Notas

  1. Raccolta di orazioni e pie opere alle quali sono annesse le s. indulgenze. 11.ª ed. Roma: Dalla Tipografia Marini e Compagno, 1844, p. 203ss.
  2. É sentença piedosa, sustentada por vários teólogos importantes como, por exemplo, Santo Afonso M.ª de Ligório (cf. Glórias de Maria, p. II, d. 2, “Do nascimento de Maria”, p. 2), a de que Nossa Senhora, desde o primeiro instante de sua concepção no ventre de Sant’Ana, teria gozado do uso da razão e do livre-arbítrio, precondição necessária aos atos meritórios possibilitantes do crescimento em graça, o qual, para estes autores, se deu ao longo de toda a vida terrena de Maria. Uma segunda razão para reconhecer nela tal privilégio funda-se no que em mariologia se conhece como princípio de eminência, segundo o qual há que atribuir à Mãe de Deus, em sentido formal ou equivalente, todos os privilégios concedidos aos outros santos, desde que não sejam incompatíveis com a dignidade (por exemplo, o dom de lágrimas, que supõe o arrependimento dos pecados) nem com a missão dela neste mundo (por exemplo, o dom de línguas, ordenado à pregação pública do Evangelho entre os gentios). Ora, como a interpretação comum e tradicional dos Padres vê na pré-santificação de João Batista o uso extraordinário das faculdades intelectuais, dever-se-ia atribuí-lo também à Virgem Menina, tão-logo começou a existir. — Obviamente, nenhum católico está obrigado a aceitar essa opinião teológica.

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Quando os marxistas tentaram conquistar o México
Igreja Católica

Quando os marxistas
tentaram conquistar o México

Quando os marxistas tentaram conquistar o México

Na mesma época da Revolução Russa e das aparições de Nossa Senhora de Fátima, os comunistas atacaram os católicos do México. Mas a reação dos “cristeros” foi mais forte e a Igreja saiu vitoriosa do conflito. Graças a Cristo Rei e à Virgem de Guadalupe.

Luis MedinaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Em fevereiro de 1917, antes [das aparições] de Nossa Senhora de Fátima e antes que os soviéticos conquistassem a Rússia, os comunistas atacaram primeiramente o México. Nele, encontramos a primeira Constituição socialista da história do mundo [1]. O governo mexicano sabia que um confronto direto com a Igreja seria inútil, então concentrou seus esforços em uma área específica: o ensino público.

Aqui é onde o verdadeiro conflito começou. Até então, era a Igreja que educava seus paroquianos de acordo com os seus dogmas, mas em harmonia com o Estado. A esfera de influência da Igreja sempre esteve presente para o mexicano comum. Todos os eventos principais da vida de qualquer pessoa (batismo, educação, primeira comunhão, casamento, funeral etc.) eram conduzidos pela Igreja.

Visto que tal influência era um obstáculo aos socialistas, o novo governo mexicano tentou privar a Igreja de seu direito de educar e, em seguida, preencher o vazio com a educação comunista. Embora a nova Constituição de 1917 modificasse a lei e a colocasse contra a Igreja, Venustiano Carranza (o líder das reformas constitucionais) astutamente decidiu não fazer cumprir as leis contra a educação da Igreja, já que o México acabava de sair de anos de uma sangrenta guerra civil, e era muito cedo para arriscar uma reação. Mesmo assim, a semente anticlerical fôra plantada e bastou algum tempo para ela germinar.

Os marxistas agem. — O “fertilizante” ideal chegou em 1924, quando um ex-comandante da revolução mexicana, Plutarco Elias Calles (1877–1945), subiu ao poder. No mesmo ano, as relações diplomáticas entre o México e a União Soviética foram oficialmente formalizadas. Depois que Calles assumiu o poder, ele ainda esperou dois anos para iniciar uma perseguição aberta à Igreja. Até que finalmente começou a fazer cumprir a Constituição socialista: Ordens religiosas foram expulsas, vestes clericais foram proibidas e propriedades da Igreja foram confiscadas pelo governo, junto com escolas, hospitais, mosteiros e orfanatos. Logo os marxistas começaram a perseguir os padres e a forçar os professores mexicanos a ensinar suas doutrinas; se não o fizessem, perderiam seus empregos.

Os mexicanos e o mundo ficaram pasmos e chocados com os abusos que o governo Calles perpetrou contra seus próprios cidadãos. Como poderia uma administração abertamente anticatólica estar no México, por todas as partes? A terra da Virgem de Guadalupe? Inacreditável. Os inimigos da fé pensavam que perseguir a Igreja extinguiria o catolicismo, mas, como sabemos pela história, o poder da morte e da violência não pode sobrepujar a Igreja. Uma revolta popular surgiu a partir de homens de Deus, que combinaram o amor gentil do índio por Nossa Senhora de Guadalupe com o espírito de luta de São Tiago Maior.

Anacleto González Flores, um dos dirigentes cristeros, convocou-os no início da guerra: “Sei muito bem que o que se inicia para nós agora é um Calvário. Devemos estar prontos para tomar e carregar nossas cruzes” [2]. Em 1929, 40 mil homens serviram como cristeros, vivendo e morrendo, confiando na cruz de Cristo [3]. Depois de anos de conflito, a paz aconteceu (a um preço muito alto) e a Igreja foi autorizada a existir (com direitos restritos, mas não mais fugitiva) e os fiéis foram novamente livres para ter acesso aos sacramentos.

Os “cristeros”.

O legado dos cruzados mexicanos. — O México lutou e sobreviveu ao ataque do socialismo (já se infiltrando nos governos e na Igreja), enquanto o resto do mundo estava se dobrando à pressão marxista. Depois da Guerra dos Cristeros, o Seminário de Guadalajara tornou-se um dos maiores e mais importantes do mundo para a Igreja.

O México é um dos países onde o protestantismo mais teve dificuldades para criar raízes, apesar das inúmeras tentativas feitas por diferentes denominações protestantes. Entre os imigrantes que estão nos Estados Unidos, os de origem mexicana são os mais propensos a manter a fé católica. Este é um dos tesouros escondidos que muitas vezes deixamos de ver, só para citar alguns [4]. Atualmente, o legado dos cristeros está sendo redescoberto, não apenas pelos mexicanos, mas por todo o mundo.

Eu me beneficiei pessoalmente da coragem demonstrada pelos católicos durante esse período. Foi na era pós-cristeros que nasceu meu avô materno. Isso teve um impacto direto em minha alma, já que meu avô materno foi a influência masculina mais importante em minha vida. Mesmo depois de sua morte, continuo aprendendo com as inúmeras lições e sabedoria que ele transmitiu por palavras e ações. Meus bisavós poderiam ter respondido ao assalto à fé com violência e raiva, ou desprezo pelos inimigos, ou mesmo desistindo da fé; afinal, os tempos não eram muito favoráveis para o catolicismo. Eles poderiam ter dito: “É inútil, tudo está perdido”, mas (como milhões de mexicanos) eles fizeram o oposto: abraçaram a cruz.

Meus bisavós enfrentaram essa adversidade vivendo a fé (criando os filhos, incutindo-lhes virtudes e sempre mantendo a esperança) e foi por causa dessa atitude piedosa que meu avô pôde conhecer e amar a Cristo. Ele, por sua vez, foi capaz de viver uma fé que não era apenas relíquia da antiguidade, mas uma fé viva.

Contra o marxismo hoje. — Em nossa época, começamos a perceber atitudes hostis em relação à Igreja e seus ensinamentos, assim como nos anos anteriores a 1917, no México. Existe algo que podemos fazer? Se sim, como devemos proceder? Obviamente, o primeiro passo é a oração e uma vida em estado de graça. Depois disso, devemos desenvolver uma atitude de piedade e fraternidade cristã. Os católicos, durante a Guerra dos Cristeros, compreenderam que, independentemente das diferenças, todos deviam cuidar uns dos outros com verdadeira caridade.

Ao contrário da crença popular, embora os cristeros fossem extremamente corajosos, eles geralmente evitavam (se possível) conflitos com as tropas do governo. Eles não procuravam sangue, mas paz. Eles rezavam por seus inimigos e mostravam misericórdia para com eles. Quando ganhavam uma batalha, sabiam que Cristo havia lutado por eles, porque eles mesmos não tinham, em absoluto, um arsenal à sua disposição, tampouco uma terra onde pudessem ser autossuficientes. Eles sabiam que o primeiro passo para ser católico era tratar uns aos outros como o que somos: irmãos católicos. A mesma lição permanece para nós.

Se vamos ter de carregar esta cruz, devemos olhar para trás, para os que fizeram isso com sucesso antes de nós, e aprender com eles. Se formos fiéis, poderemos ser a geração que estabelecerá as colunas do catolicismo neste país, de uma maneira permanente e com um impacto eterno [5]. 

Por ora, concentremo-nos no que tem um impacto imediato em nossa sociedade: viver em estado de graça. Vislumbremos os tempos potencialmente difíceis que temos pela frente como uma oportunidade para viver um catolicismo forte e consciente. Se chegar a hora de plantarmos a mesma semente que os cristeros plantaram, pelas mãos de Nossa Senhora, podemos responder com segurança ao chamado: Viva Cristo Rey y Nuestra Señora de Guadalupe!

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