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A mensagem de Fátima, tão politicamente incorreta quanto o Evangelho
Virgem Maria

A mensagem de Fátima, tão politicamente incorreta
quanto o Evangelho

A mensagem de Fátima, tão politicamente incorreta quanto o Evangelho

Fátima possui uma mensagem “dura” que, na linguagem de hoje, dizemos ser “politicamente incorreta”. Exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho.

Vittorio Messori,  La Nuova Bussola QuotidianaTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Março de 2017
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Todas as aparições marianas parecem assemelhar-se umas às outras, havendo sempre no centro das mensagens um apelo à oração e à penitência e, ao mesmo tempo, cada uma é diferente da outra pela "acentuação" de um aspecto particular da fé.

A aura que circunda Lourdes é pacata, tanto é que se nota que em nenhuma outra ocasião Maria sorriu tanto, chegando ao ponto de fazê-lo em três ocasiões. "Ria como uma menina", disse Bernadete. E não sabia, aquela santinha, que justamente isso iria induzir os austeros inquisidores da comissão que investigava a autenticidade da aparição a ficarem ainda mais desconfiados. "Nossa Senhora que ri! Por favor, um pouco mais de respeito com a Rainha do Céu". Por fim tiveram que superar essa suspeita: pois foi assim mesmo que tudo aconteceu. Não se deve esquecer, é claro, que esta mesma Senhora que apareceu na gruta, dizendo ser a Imaculada Conceição, assumirá ainda um aspecto um tanto sério, repetindo os apelos de penitência e oração por si mesmos e pelos pecadores. Mas há um ar de serenidade, a falta da ameaça de um castigo, que é talvez um dos aspectos que mais atraem aos Pirineus as multidões que conhecemos.

Misericórdia e justiça

A atmosfera de Fátima, ao contrário, parece sobretudo escatológica, apocalíptica. Ainda que seja com um final que conforta e asserena. É evidente que a razão principal da aparição portuguesa é conclamar os homens a uma vida terrena de tremenda seriedade, e que não seja outra coisa senão uma breve preparação à vida verdadeira, a uma eternidade que pode ser de felicidade ou ainda de tragédia. É um chamado à misericórdia e, ao mesmo tempo, à justiça de Deus.

A insistência unilateral de hoje somente sobre a misericórdia esquece a máxima do "et-et" (a harmonia entre a graça e a natureza, entre o tempo e o eterno, entre passado e futuro, entre liberdade e justiça) que preside o espírito do catolicismo e que, aqui, vê em Deus o Pai amoroso que nos recebe de braços abertos e, ao mesmo tempo, o juiz que pesará sobre a sua infalível balança o bem e o mal. Recebe-nos no paraíso, sim, mas um paraíso que é necessário ganhar, gastando da melhor forma os pequenos ou grandes talentos que nos foram confiados. O Deus católico certamente não é aquele sádico do calvinismo que, a seu bel-prazer, divide em duas a humanidade: aqueles que nascem predestinados ao paraíso e aqueles que ab aeterno são esperados no inferno. É assim, afirma Calvino, que Ele manifesta a glória do seu poder. Não, o Deus católico não tem nada a ver com semelhante deformação. Mas muito menos é o permissivista bonachão, o tio tolerante que tudo aceita e tudo igualmente acolhe, o Deus de que fala sobretudo o laxismo dos teólogos jesuítas (que foram condenados pela Igreja) e contra os quais Blaise Pascal lançou as suas indignadas Cartas provinciais.

Ainda que soe desagradável aos ouvidos de um certo "bonismo" atual, tão traiçoeiro à vida espiritual, Cristo propõe à nossa liberdade uma escolha definitiva para a eternidade inteira: ou a salvação ou a condenação. Assim, poderia esperar-nos inclusive aquele inferno que omitimos, mas ao preço de omitirmos também as claras e repetidas advertências do Evangelho. Nele está contido o comovente apelo de Jesus: "Vinde a mim vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei descanso". E tantas outras são as palavras e gestos de sua ternura. Ainda assim, gostem ou não, nos Evangelhos há também outra coisa. Há um Deus que é infinitamente bom e infinitamente justo, e a cujos olhos um homem mau e impenitente não equivale a um fiel crente que se esforçou, mesmo com as limitações e as quedas de todo ser humano, em levar a sério o Evangelho.

O inferno não é uma invenção

No texto fundamental do ensinamento da Igreja que é o Catecismo, aquele que foi inteiramente renovado, redigido por vontade de São João Paulo II e sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger (um texto que fez todo seu o espírito do Vaticano II), os seus autores advertem: "As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um chamado à responsabilidade com a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno. Constituem também um apelo insistente à conversão" (§1036). São estes mesmos apelos (à responsabilidade e à conversão) que constituem o centro da mensagem de Fátima e que a tornam tão mais urgente e atual: agora certamente mais do que no momento em que Maria apareceu na Cova da Iria.

Já há décadas que desapareceram da pregação católica os Novíssimos, como são chamados pela teologia a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Uma reticência clerical que omitiu — mais do que isso, renegou, no fundo — o velho e salutar adágio que salvou tantas gerações de fiéis: o início da sabedoria é o temor de Deus. Na história dos santos, esta consciência de uma possível condenação eterna constituiu um estímulo constante à prática mais profunda das virtudes. Eles sabiam que a existência do inferno não é um sinal de crueldade divina, mas sim de respeito radical: o respeito do Criador para com a liberdade concedida às suas criaturas, até o ponto de permitir-lhes escolher a separação definitiva.

Tanto na teologia como na pastoral atual, ao imperioso anúncio da misericórdia não se uniu o também imperioso anúncio da justiça. Mas, se em Deus convivem todas as virtudes em dimensão infinita, estaria faltando nele a virtude da justiça que a Igreja — inspirada pelo Espírito Santo, mas seguindo também o senso comum — incluiu entre as chamadas "virtudes cardeais"? Não faltam teólogos, respeitados e renomados até, que gostariam de amputar uma parte essencial das Sagradas Escrituras, omitindo aquilo que enfastia os que se crêem melhores e mais generosos que Deus. Dizem, então: "O inferno não existe. Mas, se existe, está vazio."

Pena que a Virgem Maria não seja da mesma opinião… É verdade que a Igreja sempre confirmou a salvação certa de alguns de seus filhos, proclamando-os beatos e santos. E a mesma Igreja não quis jamais proclamar a condenação de quem quer que seja, deixando justamente a Deus o último juízo. Quem afirmasse, todavia, que um inferno poderia até existir, mas estaria vazio, mereceria a réplica: "Vazio? Mas isso não exclui a possibilidade terrível de que eu e você possamos inaugurá-lo". Há quem tenha levantado a hipótese de a condenação ser somente temporária, não eterna. Mas também isso vai de encontro com as palavras de Cristo, o qual fala claramente, e mais de uma vez, de uma pena sem fim. Foi sem nenhuma dificuldade, portanto, que vários concílios rejeitaram semelhante possibilidade, a qual não encontra qualquer apoio nas Escrituras.

"Rezai, rezai muito"

A Irmã Lúcia e o Bispo de Leiria-Fátima, Dom José Alves Correia da Silva.

Na aparição mais importante de Fátima, do dia 13 de julho de 1917, acontece o que a Irmã Lúcia narraria desta forma, em 1941, em famosa carta ao seu bispo:

"O segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.

A primeira foi a visão do inferno!

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor."

Jacinta, passados três anos, ainda menina com 10 anos de idade e chocada com o que havia visto naqueles poucos instantes, dirá no seu leito de morte: "Se eu apenas pudesse mostrar o inferno aos pecadores, fariam de tudo para evitá-lo mudando de vida."

Semelhantes visões do inferno não são fatos isolados na história da Igreja. Defrontar-se com esta terrível realidade é uma experiência por que passaram muitos santos e santas. E a credibilidade psicológica e mental deles foi avaliada rigorosamente nos processos canônicos. Para limitar-nos aos mais famosos e venerados santos que tiveram esta experiência, eis, entre tantos outros, Santa Teresa d'Ávila, Santa Verônica Giuliani e Santa Faustina Kowalska. E, entre os homens, não podia faltar aquele tal São Pio de Pietrelcina, o estigmatizado que via o sobrenatural como se fosse a condição mais natural, a ponto de se surpreender que os outros não vissem o que ele via.

Em Fátima, confirmando a centralidade na mensagem do perigo de perder-se, encontra-se ainda o fato de que Nossa Senhora ensina aos videntes uma oração a se repetir no rosário após cada dezena de Ave Marias. Oração que teve um acolhimento extraordinário no mundo católico, tanto que é recitada onde quer que se reze o terço mariano, e que diz: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem da vossa misericórdia". Todas as palavras, como se vê, centradas nos Novíssimos, e ditadas às crianças pela própria Virgem Maria. O que acima de tudo o cristão deve implorar é a salvação do "fogo do inferno", bem como pedir à misericórdia divina uma espécie de desconto de penas para aqueles que sofrem no purgatório. Dirá Nossa Senhora, "com grande dor e pesar", como observa a Irmã Lúcia: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifício pelos pecadores. Muitas almas vão de fato para o inferno porque não há quem reze e faça sacrifícios por elas."

Debaixo de seu manto

Mas voltemos às últimas linhas do documento da testemunha Lúcia, após a visão da sorte terrível dos pecadores impenitentes: "Levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: 'Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas". Eis, portanto, o toque de consolo a todos os cristãos, antes de tudo, católicos. A verdade nos obriga a recordar que correm um grave risco os homens esquecidos da seriedade do Evangelho. A misericórdia do Céu, entretanto, está sempre pronta a propor um remédio: refugiar-se sob o manto dela, de Maria, confiar no seu Imaculado Coração, aberto a quem quer que venha pedir a sua materna intercessão.

O peso crescente do pecado é grave, mas estão indicados os remédios e, sobretudo, Nossa Senhora tem sempre reservado um happy end ("final feliz"), com as famosas palavras que, com razão, constituem fonte de esperança aos fiéis. De fato, depois de haver profetizado as muitas tribulações do futuro, Maria anuncia, em nome de seu Filho: "Por fim o meu Coração Imaculado triunfará". Por isso, a salvação pessoal é possível — e sustentada pelo próprio Céu —, mesmo em meio à propagação da iniquidade. Ainda podemos esperar a conversão do mundo, em um futuro impreciso e que só Deus conhece, confiando no coração da Mãe de Cristo, poderosa advogada da causa da humanidade.

Para que "servem" as aparições? Fátima está entre as maiores respostas, para um mundo que estava sempre se esquecendo, e hoje continua a esquecer ainda mais mais, o verdadeiro significado da vida sobre a terra e a sua continuação na eternidade. Fátima é uma mensagem "dura" que, na linguagem hodierna, dizemos ser "politicamente incorreta": exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho, na sua revelação sobre a verdade e na sua refutação das hipocrisias, eufemismos e omissões. Mas, como sempre naquilo que é verdadeiramente católico, onde todos os opostos convivem em uma síntese vital, a "dureza" convive com a ternura, a justiça com a misericórdia, a ameaça com a esperança. Assim, o aviso que provém de Portugal é, ao mesmo tempo, inquietante e consolador.

Notas

  • Foi lançado no dia 24 de janeiro de 2017, pela editora Mondadori, o livro Inchiesta su Fatima. Un mistero che dura da cento anni ("Investigação sobre Fátima, um mistério que perdura há cem anos", sem tradução portuguesa), de Vincenzo Sansonetti. Foi o site La Nuova Bussola Quotidiana que publicou o excerto acima, do prefácio escrito por Vittorio Messori.

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A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás
Santos & Mártires

A assombrosa luta épica
entre o Padre Pio e Satanás

A assombrosa luta épica entre o Padre Pio e Satanás

O demônio tenta a todos os cristãos, mas “o caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos”.

Pablo J. Ginés,  Religión en LibertadTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Julho de 2018
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A história do Padre Pio contra o demônio “é uma saga épica, um corpo a corpo entre um monge e seu adversário” — palavras do veterano vaticanista Marco Tosatti, autor de Padre Pio contro Satana: la battaglia finale (ainda sem tradução para o português).

A fonte principal do jornalista foram as cartas das pessoas que conheceram o santo de Pietrelcina e as que este escrevia, bem como todos os textos da Positio para a sua canonização.

Por ocasião do lançamento de uma versão espanhola do livro, o site Religión en Libertad pôde conversar um pouco com Tosatti a respeito da importância do santo e de sua luta peculiar, única, com o Maligno.

Marco Tosatti explica a importância “épica” da luta do Padre Pio para a nossa época.

— Por que é tão popular e relevante a figura do Padre Pio de Pietrelcina?

— Sem dúvida, na Itália ele é um dos santos mais amado pelo povo. É difícil entrar em uma loja, em um restaurante, em um lugar público e não encontrar imagens dele. Creio que isso se deve a que o Padre Pio é um dos santos da história que mais graças e intercessões realizou.

Li os oito volumes da Positio, a compilação de documentos sobre ele que serviram para o processo de canonização, e existem centenas de testemunhos de pessoas, da Itália e de outros países, que receberam favores extraordinários. Foi protagonista de fenômenos assombrosos: bilocação, curas, leitura de almas com um simples olhar e coisas do tipo… Isto o torna extraordinário, diferente dos outros santos, e muito popular. Ao redor de todo o mundo se criam hoje grupos de oração inspirados no Padre Pio.

— E o que tem de especial a relação do Padre Pio com o demônio? Afinal de contas, o demônio não tenta a todos os cristãos?

— O caso do Padre Pio é especial porque sua luta não era apenas espiritual, mas tinha também momentos extremamente físicos. Tanto é que os frades que com ele viviam escutavam os barulhos da luta vindos de sua cela e, na manhã seguinte, encontravam os ferros da cama retorcidos, como se uma força sobrenatural os tivesse dobrado. Viam ainda o Padre Pio com contusões e golpes, como se o tivessem espancado.

O superior chegou a pedir-lhe, quando ele ainda era um jovem frade, antes de ser enviado a San Giovanni Rotondo, que rezasse ao Senhor pedindo que não permitisse ao demônio fazer tantos ruídos, já que os outros irmãos ficavam apavorados. Era algo muito visível. Isso acontecia com o Padre Pio quando ele lutava para arrancar almas das mãos do demônio. De fato, houve muitos santos que lutaram com o demônio, mas o Padre Pio é especial porque sua luta foi contínua, física, evidente, a ponto de a verem inclusive outras pessoas…

Além disso, do meu ponto de vista enquanto jornalista e escritor, vejo como épica a batalha entre o Padre Pio e o demônio, a qual, encarada até mesmo sem a perspectiva da fé, se reveste de um valor literário muito grande. E isso desde que ele era criança, quando teve a visão de um homem muito grande, um homem perverso, que era o demônio e queria combatê-lo.

— O que significa para nós, para os nossos tempos, esta experiência do Padre Pio?

— Não sou um milenarista, mas acredito, sim, que é possível estarmos em uma época especial. A Virgem de Fátima dizia que nos encontramos em uma batalha decisiva entre as forças do bem e o demônio, forças que atacam a família e os valores naturais básicos. Parece que Deus quer, por meio do Padre Pio, dar um sinal de que esta batalha já começou e é também sobrenatural.

— Mas os pecados sexuais, pessoas com uma vida familiar ruim, maus pais, adultérios… Tudo isso sempre existiu. Qual é, então, a novidade?

— Sim, pecados sexuais e contra a família sempre existiram; mas, por exemplo, quando havia algum Papa ruim, pérfido, criminoso, como Alexandre Borgia, ele cometia essas coisas, mas não alterava a doutrina, não dizia que esses pecados eram normais. A novidade dos últimos séculos é o individualismo desenfreado, que busca não só pôr a fé em dúvida, mas ainda convencer o homem de que ele é seu próprio “legislador”, seu próprio “deus”, que não precisa descobrir o bem para cumpri-lo, pois pode criar para si mesmo sua própria “lei”.

— Seu livro contém uma segunda parte com exemplos de outros santos que tiveram também um contato muito próximo com o demônio, como Eustáquia de Pádua, Cristina de Stommeln e Mariam Baouardy. Por quê?

— São santos que selecionei porque creio ilustrarem que, embora tenha um amplo campo de ação, o demônio está limitado por Deus. Por exemplo, o que sabemos de Mariam Baouardy está atestado em documentação científica da época. Assim como muito do que sabemos sobre o Padre Pio. É como se o mundo quisesse fechar os olhos para o sobrenatural, mas o sobrenatural não se deixa esconder. Vemos que Deus se serve do demônio, de forma misteriosa, como um instrumento, um instrumento estranho, vá lá, mas que serve à santificação das pessoas.

Vemos gente de grande santidade pessoal, mas que sofre sob o poder do demônio, às vezes até mesmo possessos, durante um tempo, embora mantendo-se livres na alma e na vontade. Sempre me chamou a atenção a familiaridade com que o demônio, no Livro de Jó, se aproxima do trono de Deus, e Ele o recebe tranquilamente, e conversam… O demônio não passa de outro instrumento de Deus!

— Do mal Deus tira coisas boas. É um mistério…

— Sim, é um mistério. É como ver um bordado pela parte de trás: parece-nos um caos, um emaranhado de fios e cores. Mas o bordador, que o vê de cima, costurando o desenho, sabe bem o que faz.

— Nas últimas décadas, multiplicou-se o número de exorcistas na Igreja Católica, com cursos, formações, e eles se mantêm em contato pela internet.

— Sim, dado que o povo tem pedido exorcistas com insistência… Escrevi um livro de entrevistas com o padre Amorth (Memórias de um exorcista, 2010). Ele me explicou que há trinta anos, na França, Bélgica, Áustria e Alemanha, não havia um único exorcista. Os bispos não acreditavam no demônio. Mas viram tantos casos, tantos pedidos, que agora há quatro exorcistas em Turim, vários em Paris… Sem contar esses cursos para centenas de sacerdotes, que chegam até os Estados Unidos.

— E há algo que estejamos aprendendo, algo de novo sobre o diabo no século XXI?

O demônio está sempre à procura de almas, disse-me o padre Amorth. E essa é a sua grande batalha. Mas ele faz o seu principal trabalho sem chamar atenção, de forma ordinária. O diabo não quer se manifestar. Inclusive para os exorcistas é difícil discernir muitos casos, porque demônio tenta se ocultar. Isso é interessante. Já dizia Baudelaire: a melhor estratégia do demônio é fazer-nos crer que ele não existe.

— Mas tampouco é saudável enxergar o demônio em todo e qualquer lugar…

— De fato, é preciso manter um equilíbrio. O padre Amorth dizia: “De todos os que me procuram com problemas, apenas um por cento precisa mesmo de um exorcista”. Creio que essa é a medida. Sim, o demônio trabalha de forma ordinária e eficaz, sem fenômenos extraordinários, mediante as guerras, o ódio, destruindo as famílias, com o aborto… Também aí precisamos estar presentes.

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Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior
Espiritualidade

Nossa Senhora do Carmo,
padroeira e mestra da vida interior

Nossa Senhora do Carmo, padroeira e mestra da vida interior

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior.

Pe. Gabriel de S. M.ª Madalena16 de Julho de 2018
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Ó Maria, formosura do Carmelo, tornai-me digno da vossa proteção, revesti-me com a vossa veste, sede a mestra da minha vida interior.

A Santíssima Virgem é a Mãe que nos reveste de graça, que toma sob a sua proteção a nossa vida sobrenatural até garantir o seu pleno desabrochar na vida eterna. Ela, a toda pura, cheia de graça desde o primeiro instante da sua conceição, toma as nossas almas manchadas pelo pecado, e com um gesto maternal, lava-as no Sangue de Cristo, reveste-as da graça que, juntamente com Ele, nos mereceu. Bem podemos dizer que a veste da graça foi tecida pelas mãos benditas de Maria que, dia a dia, momento a momento, se deu inteiramente a si mesma, em união com o seu Filho, pela nossa redenção.

A lenda fala da túnica inconsútil que a Virgem teceu para Jesus; mas para nós fez realmente muito mais: cooperou para nos conseguir a veste da nossa salvação eterna, veste nupcial com que seremos introduzidos na sala do banquete celeste. Oh! como Ela quereria que esta veste fosse imperecível! Desde o momento em que a recebemos, Maria nunca deixou de nos seguir com o seu olhar maternal para proteger em nós a vida da graça. Cada vez que nos convertemos a Deus, nos levantamos de uma culpa — grande ou pequena — ou progredimos na graça, sempre o fazemos por intermédio de Maria.

O escapulário que a Senhora do Carmo nos oferece não é mais do que o símbolo exterior desta sua incessante solicitude maternal; símbolo, mas também sinal e penhor de salvação eterna. “Recebe, amado filho — disse a Virgem a S. Simão Stock — este escapulário… quem morrer com ele não padecerá o fogo eterno”. A Virgem assegura a graça suprema da perseverança final a todos os que usarem dignamente o seu escapulário.

“Quem usa o escapulário — disse Pio XII — faz profissão de pertencer a Nossa Senhora”; precisamente por lhe pertencermos, a Virgem tem um cuidado especialíssimo com as nossas almas: o que é seu não se pode perder, não pode ser tocado pelo fogo eterno. A sua poderosa intercessão maternal dá-lhe direito a repetir em nosso favor as palavras de Jesus: “Pai Santo... conservei os que me deste e nenhum deles se perdeu” (Jo 17, 12).

A devoção à Virgem do Carmo é também um premente apelo à vida interior, a essa vida que foi de modo especialíssimo a vida de Maria. A Virgem quer que sejamos muito mais semelhantes a Ela no coração e no espírito do que no hábito exterior. Se penetrássemos na alma de Maria, veríamos que a graça produziu nEla uma imensa riqueza de vida interior: vida de recolhimento, de oração, de ininterrupta doação a Deus, de contato contínuo, de união íntima com Ele. A alma de Maria é um santuário reservado só para Deus, onde nenhuma criatura humana jamais imprimiu a sua forma, onde reina o amor e o zelo pela glória de Deus e pela salvação dos homens.

“Nossa Senhora do Monte Carmelo”, por Pietro Novelli.

Os que desejam viver plenamente a devoção a Nossa Senhora do Carmo devem seguir Maria nas profundezas da sua vida interior. O Carmelo é o símbolo da vida contemplativa, vida toda dedicada à busca de Deus, toda dirigida para a intimidade divina; e quem melhor realizou este ideal altíssimo foi a Virgem, Regina decor Carmeli. “No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo. A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre. O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança”.

Estes versículos de Isaías (cf. 32, 16-18) reproduzidos no Ofício próprio de Nossa Senhora do Monte Carmelo esboçam muito bem o espírito contemplativo e são, ao mesmo tempo, um belo retrato da alma de Maria, verdadeiro “jardim” (Carmelo em hebreu significa jardim) de virtudes, oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a equidade, oásis de segurança, todo envolto na sombra de Deus, todo cheio de Deus.

Toda a alma de vida interior, embora vivendo no meio do ruído do mundo, há-de esforçar-se por alcançar esta paz, este silêncio interior que tornam possível o contato contínuo com Deus. São as paixões e os apegos que fazem barulho dentro de nós, perturbando a paz do nosso espírito e interrompendo o trato íntimo com o Senhor. Só a alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderá, como Maria, ser um “jardim” solitário e silencioso, onde o Senhor encontre as Suas delícias. É esta a graça que hoje devemos pedir à Senhora, escolhendo-a para padroeira e mestra da nossa vida interior.

Colóquio — “Ó Maria, flor do Carmelo, vinha florida, esplendor do céu, Virgem fecunda e singular, Mãe bondosa e intacta, aos vossos filhos dai privilégios, Estrela do mar!” (S. Simão Stock).

“Ó Virgem bendita, quem vos invocou nas suas necessidades, sem que tenha recebido o vosso socorro? Nós, vossos pobres servos, regozijamo-nos convosco por todas as vossas virtudes, mas pela vossa misericórdia regozijamo-nos conosco. Louvamos a virgindade, admiramos a humildade, mas para quem é miserável, a misericórdia tem um sabor muito mais doce. Abraçamos a misericórdia com maior ternura, lembramo-la muitas vezes, invocamo-la com mais frequência.

Com efeito, foi a vossa misericórdia que obteve a redenção do mundo e que, juntamente com as vossas orações, conseguiu a salvação de todos os homens. Portanto, ó bendita, quem poderá medir o comprimento e a largura, a altura e a profundidade da vossa misericórdia? A sua extensão chega até ao fim dos tempos para socorrer todos os que vos invocam; a sua largura envolve o mundo inteiro, de modo que toda a terra fica cheia da vossa bondade. A altura da vossa misericórdia abriu as portas da cidade celeste e a sua profundidade obteve a redenção dos que habitam nas trevas e nas sombras da morte.

Por vós, ó Maria, enche-se o céu, o inferno esvazia-se, os que se extraviavam regressam ao bom caminho. Assim a vossa poderosíssima e piissima caridade derrama-se sobre nós com um amor compassivo e auxiliador” (S. Bernardo).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1464-1467.

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Você é torre forte ou cata-vento?
Espiritualidade

Você é torre forte ou cata-vento?

Você é torre forte ou cata-vento?

O que você prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Dom Tihamer Toth12 de Julho de 2018
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Nas pequenas cidades da Idade Média, encontram-se, não raro, vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo.

Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma ideia do caráter firme! Ao lado delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolui: vende-se e compra-se; delas, porém, nada nem ninguém pode alterar o granito.

Antigas torres são o símbolo do caráter inabalável do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. “Nunca abandone o lugar em que a vocação o colocou, e cumpra-lhe todos os deveres”, parecem nos dizer aquelas pedras mudas. “Considere o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram necessárias, quanto trabalho, quanta boa vontade e quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobrevivo a centenas e centenas de anos!”.

Por acaso, meu jovem, não se deixa desalentar facilmente na sua boa vontade? Quantas vezes não se arrojou pelo bom caminho, cheio de ardor juvenil? Quantas vezes não prometeu trabalhar seriamente no desenvolvimento do seu caráter? Mas, depois de algumas horas, de alguns dias, quando muito, a chama do entusiasmo apagava, o ardor desaparecia, e você tornava a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos talvez, para levantar a torre; e você, quereria se tornar homem de caráter num só dia!

Bem sabe, todavia, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, logo desilusão terrível nele aguarda o pecador; e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu final, se acha a paz de uma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cume daquela velha torre? Aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda? Um cata-vento! Não tem direção fixa nem base estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter, porque, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria.

Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, em volta de si, o vento sopra de outro lado, é próprio de cata-vento. Mas me diga, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos de “companheiros”?

E, no entanto, quantos desses jovens não há! Você conhece dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que espiritualmente são menores ainda, que olham sempre à direita e à esquerda para ver o que o vizinho faz.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: “Não leia esse livro, ouvi dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que deixaria a veste branca da sua alma se arrastar na água podre desse pantanal infecto?”. “Está bem, não o lerei”. Chega, porém, um colega: “Oh! Santinho do pau oco, criança!”, escarnece. “Eu, criança?”, e pega o livro, e o lê até a última linha e emporcalha a alma na lama que ele traz.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: “Não vá à exibição de tal peça, de tal filme! Deixe tal companhia perigosa!”. “Como fazer? Os outros vão lá; eles assim se divertem bastante. Serei o único contrário?”.

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e de agir dos cata-ventos.

Pois bem, escolha. O que prefere ser: uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do medo do “que dirão?”, ou escravo da sua consciência?

Escravo da própria consciência! Este título se lê como se fosse um romance de detetives”, você pensa. Mas se engana. Quando se pode dizer de um jovem que ele é senhor da sua vontade e escravo da própria consciência é a maior honra que se lhe pode fazer. Se é capaz de ser contínua e invencivelmente fiel a tudo o que a consciência manda, você é um jovem de nobre caráter.

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Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?
Educação

Os pais são culpados
dos pecados de seus filhos?

Os pais são culpados dos pecados de seus filhos?

Os maus pais, diz São João Crisóstomo, são “piores que os assassinos de seus próprios filhos”, pois, enquanto estes “separam a alma do corpo, aqueles lançam-lhes corpo e alma no fogo do Inferno”.

São João Crisóstomo12 de Julho de 2018
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Saibamos que Deus não suportará de boa mente a negligência com que são tratados aqueles por quem tanto se preocupa. Pois Ele mesmo não pode ter feito tanto para salvá-los e, ao mesmo tempo, pouco se importar que os negligenciem. Não, Deus não dará de ombros, mas se ofenderá e irritará veementemente.

Por isso, o bem-aventurado Paulo continuamente nos exorta, dizendo: “Pais, criai vossos filhos na disciplina e correção do Senhor” (Ef 6, 4). Porque, se estamos obrigados a zelar pelas almas deles como quem há de prestar contas por elas (cf. Hb 13, 17), com maior razão o está o pai que os gerou, que os criou, que convive com eles sob o mesmo teto.

Ora, assim como o pai não tem escapatória nem desculpa dos próprios delitos, tampouco o tem em relação aos dos filhos. E isto, é mais uma vez o bem-aventurado Paulo quem no-lo esclarece. Com efeito, ao determinar como devem ser os que hão de mandar nos outros, entre todas as qualidades que diz lhes serem necessárias, exige também o do cuidado dos filhos (cf. 1Tm 3, 4), insinuando que um pai já não pode ter esperança alguma de perdão se seus filhos se perderem.

E justamente. De fato, se os homens fossem viciosos por natureza, poderiam com razão desculpar-se de seus atos; mas como nos tornamos bons ou maus por livre escolha, que justificativa, afinal, poderá alegar o pai que permite que se extravie e corrompa aquele a quem ama mais do que tudo?

Dirá acaso que não quis fazê-lo bom? Mas quem, sendo pai, diria semelhante coisa, já que a própria natureza o desperta e move para cumprir esse dever?

Dirá talvez que não o pôde? Tampouco, porque, tendo-o no colo desde pequeno, posto sob seus cuidados e sua primeira e única autoridade, vivendo ainda na mesma casa, poderia facilmente e sem dificuldade tê-lo educado.

De sorte que não se pode achar outra origem para o extravio dos filhos que o louco afã dos pais pelos bens mundanos. O não olhar senão para eles, o não julgar nada preferível a eles, obriga-os a descuidarem tanto da própria alma como da dos filhos.

A estes pais — e ninguém pense que é a ira que me leva a dizê-lo —, eu não recearia qualificá-los como piores que os assassinos de seus próprios filhos. Estes, com efeito, separam a alma do corpo; aqueles, porém, lançam-lhes corpo e alma no fogo da Geena. Àquela morte todos, por lei natural, se devem submeter; mas esta última seria possível evitar, se não a acarretasse a negligência dos pais.

Acrescente-se a isso que a morte do corpo será rapidamente destruída com a chegada da ressurreição; mas a morte da alma, ao contrário, não terá consolo, porque não só não a espera mais salvação alguma, senão que terá ainda de sofrer forçosamente tormentos eternos. Daí que tenhamos dito, não sem razão, que tais pais são piores que os assassinos de seus filhos.

Não, não é crime tão horrível amolar a espada, pô-la em riste e umedecê-la na garganta do próprio filho quanto perder e corromper uma alma, pois nada, de fato, se compara a tamanho atentado.

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