CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
A mídia, os gayzistas e a "cura gay"
Sociedade

A mídia, os gayzistas e a "cura gay"

A mídia, os gayzistas e a "cura gay"

Ativismo ideológico da imprensa e do Conselho Federal de Psicologia tolhe a liberdade dos homossexuais e os impede de viverem a genuína sexualidade humana

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Junho de 2013
imprimir

O ativismo ideológico da imprensa brasileira se tornou algo vergonhoso. A empulhação e a desonestidade passou a ser regra nas redações da chamada "grande mídia". Após quase cem anos, as palavras de G.K. Chesterton ainda permanecem atuais: "o jornalismo é popular, mas é popular principalmente como ficção. A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro". E a mais nova ficção orquestrada por esses jornalistas é a chamada "cura gay", proposta aprovada nesta terça-feira, 18/06, pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Apesar do infame apelido, o Projeto de Decreto Legislativo 234/11, de autoria do deputado João Campos (PSDB), não pretende criar nenhuma rede de tratamento psiquiátrico ou psicológico para "cura" dos homossexuais. Isso está fora de cogitação. O objetivo do Projeto é tornar sem efeito o Parágrafo Único do Artigo 3º e todo o Artigo 4º da Resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia. Leia o que diz o projeto:

Art. 1º Este Decreto Legislativo susta o parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999.
Art. 2º Fica sustada a aplicação do Parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.
Art. 3º Este decreto legislativo entra em vigor na data de sua publicação.

Ora, e quais são esses artigos da Resolução que podem ser sustados pelo PL 234/11? Veja:

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Como se percebe, os parágrafos acima são claramente abusivos, pois não somente impedem o profissional de exercer sua pesquisa conforme linha acadêmica adotada, mas condenam a pessoa com tendência homossexual a ter de enfrentar seu drama sozinha, caso queira viver a sexualidade de maneira casta e sadia. A Resolução do Conselho Federal de Psicologia cai naquela presunção infundada e humilhante - conforme recorda a Congregação para Doutrina da Fé - de achar "que o comportamento homossexual das pessoas homossexuais esteja sempre e totalmente submetido à coação e, portanto, seja sem culpa". É um ataque frontal aos direitos humanos, uma vez que "também às pessoas com tendência homossexual deve ser reconhecida aquela liberdade fundamental, que caracteriza a pessoa humana e lhe confere a sua particular dignidade" (n. 11).

O Catecismo da Igreja Católica, assim como a própria pesquisa científica acerca das razões da homossexualidade, indica que a "sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada". Ademais, apoiando-se na Sagrada Tradição, reconhece que "um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas" (Cf. CIC 2357). A doutrina não trata o homossexualismo como uma patologia, mas como atos profundamente desordenados, pois contrários à lei natural da sexualidade humana e fechados ao dom da vida, do mesmo modo que a masturbação. A Igreja apenas convida essas pessoas - e as demais - à união com Deus e a viver a castidade.

Quando o Conselho Federal de Psicologia impede os psicólogos de ajudarem os homossexuais que, de livre vontade, desejam escapar do mundo escorregadio da cultura gay, ele simplesmente os sepulta à condição sexual promíscua e de risco à saúde própria deste universo. Vale a pena lembrar que o mesmo órgão que eles evocam para dizer que a homossexualidade não é uma doença, ou seja, a Organização Mundial da Saúde, é o órgão a afirmar que o risco de homossexuais contraírem AIDS é 20 vezes maior que o do restante da população. Além disso, segundo um estudo publicado pela revista médica The Lancet - uma das mais importantes publicações científicas na área - o sexo entre homens é um sério fator de risco para o câncer anal e doenças sexualmente transmissíveis.

Não, a Igreja não considera a pessoa com tendência homossexual um doente, muito menos pretende curá-la. Mas faz um convite sincero à castidade e à vivência da genuína sexualidade humana, pois, como Mãe e Mestra da Verdade, não pode assistir passivamente à miséria do filho, apesar dos murmúrios do mundo. Ao contrário do Conselho Federal de Psicologia, a fé católica reconhece o livre arbítrio de cada indivíduo e a sua capacidade de escolha. E é por isso que ela sempre estará com as mãos estendidas e as portas abertas para todos aqueles que, como o filho pródigo, quiserem encontrar refúgio na casa do Pai, pois só nesta fonte eles serão capazes de encontrar a felicidade.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“Eu posso falar com papai?”
Sociedade

“Eu posso falar com papai?”

“Eu posso falar com papai?”

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”.

Doug MainwaringTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019
imprimir

Quando eu comecei a dar meus primeiros passos “fora do armário” [1] em meados dos anos 1990, um cara chamado Tex ofereceu-me um pequeno apanhado sobre sua vida entre um e outro drinque, num bar da cidade. A conversa teve um giro inesperado: ele explicou que o seu atual “parceiro” tinha-se mudado do outro lado do país, deixando para trás esposa e filhos. Tex atendia de vez em quando ao telefone de casa (isto foi antes dos celulares) e ouvia do outro lado uma pequenina voz a perguntar-lhe timidamente: “Eu posso falar com papai?” Era a filha de oito anos do seu “parceiro”, ligando de algum lugar do outro lado dos Estados Unidos. Tex disse ter ficado profundamente chocado ao se dar conta de que a filha de seu “parceiro” tinha de pedir permissão a um estranho para poder falar com o próprio pai.

Quando esta pequena menina me vem à cabeça, meus pensamentos acabam se dirigindo às várias pessoas nascidas de doadores de esperma, muitas das quais se fazem dia após dia a mesma pergunta em seus corações: “Eu posso falar com papai?”

Quando comecei a falar publicamente sobre os perigos do “casamento” homossexual para as crianças, achei difícil encontrar defensores do casamento “neutro” intelectualmente honestos o bastante para um debate ponderado. Foi então que me caiu a ficha: ao menos metade das pessoas que queriam rotular-me disto ou daquilo eram fruto de matrimônios fracassados.

Lá pelos idos de 2013, durante minha participação num painel de debates, um rapaz acusou-me de ser injusto com gays, lésbicas e seus filhos. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe na lata:

— Os seus pais se divorciaram quando você ainda era criança?

Ele ficou um pouco surpreso com uma pergunta tão pessoal:

— Sim — respondeu, já sem ares de arrogante.

— E você vive com sua mãe? — perguntei.

— Sim — disse ele.

— Você vê o seu pai com frequência?

— Não — disse —, eu quase nunca o vejo.

— Você sente falta dele? Gostaria de estar mais vezes com ele? 

— Claro, com certeza — respondeu, um pouco melancólico.

— O divórcio dos seus pais aumentou a sua felicidade ou a sua infelicidade? — perguntei.

— Minha infelicidade.

— Então, os seus pais acabaram com o seu lar e criaram novas estruturas que punham em primeiro lugar as necessidades deles, não as suas. Além disso, eram estruturas que promoviam a sua contínua infelicidade. Você aprendeu a conviver com isto porque, como uma simples criança, não tinha controle algum sobre as ações de seus pais; no entanto, essas novas estruturas não foram construídas tendo em vista as suas necessidades.

— Não, na verdade. Eu não tinha direito de voto nem nada; eu era apenas uma criança.

— Justamente — concluí. — Logo, que diferença há para os filhos de “casais” homossexuais, aos quais se negam um pai ou uma mãe? Você pensa realmente que ter “duas mães” ou “dois pais” é o mesmo que ter por perto uma mãe e um pai que o amam e cuidam de você? Sério mesmo? Ter uma mãe a mais em casa o deixaria verdadeiramente satisfeito, ou você ainda teria, lá dentro do coração, aquela pergunta por seu pai à procura de resposta? 

— Entendo. 

Então, por que você quer condenar outras crianças a não terem pai? Ou a não terem mãe?

Ele entendeu o meu ponto: não gostou nada, é verdade; mas o entendeu — e voltou para o seu lugar. Não faço ideia se ele mudou opinião; mas ele ao menos teve a chance de ouvir um ponto de vista diferente, e um que fosse razoável. 

Enquanto ia embora, pensava comigo mesmo: “Para ser intelectualmente honesto, não posso falar em público contra os perigos do casamento ‘neutro’ sem falar, ao mesmo tempo, contra o mal objetivo para as crianças que é o divórcio”. O divórcio é um perigo muitíssimo maior e muito mais generalizado para as crianças do que a possibilidade de ser criado sem mãe ou sem pai por um “casal” de gays ou lésbicas. Eu então suspirei: havia ainda muito o que consertar e pôr em ordem.

O pai pródigo

Alguns anos após o nosso divórcio, tornou-se comum que a minha ex-mulher me chamasse à sua casa devido a alguma birra do nosso filho. Ao chegar lá, encontrava um verdadeiro tumulto. Geralmente, ele se irritava por alguma coisa, e aquilo despertava um acesso de raiva totalmente desproporcional ao problema. Ele gritava e chorava e esperneava, então se trancava no quarto, sem deixar ninguém mais entrar. Era horrível assistir à cena. Felizmente, ele acabava se acalmando depois de um tempo e voltava ao normal.

A raiva do meu filho, por sua vez, gerava novas discussões com a minha ex-mulher. O que devíamos fazer a respeito do comportamento dele? Seria preciso medicá-lo? Ou o melhor seria dar-lhe uma surra? Ou quem sabe procurar um psicólogo?

Depois de o episódio se repetir algumas vezes, pareceu-me claro como água de que o meu filho estava precisando. Ele não tinha apenas um problema comportamental; ele precisava, isso sim, de uma única coisa: de que os seus pais estivessem juntos de novo e se amassem um ao outro. O “fatiamento” da nossa família havia gerado uma carga insuportável de estresse para aquela frágil alma de apenas quatro anos. E os seus pais eram os grandes responsáveis por isso, ainda que, para nós, o problema parecesse ser todo dele.

O nosso menino não tinha culpa alguma; era eu, com certeza, que a tinha.

Foram precisos alguns anos mais para que a minha ex-mulher e eu tomássemos jeito. Nesse meio tempo, os nossos filhos vieram morar comigo. Não era bem uma solução; era somente um paliativo para resolver aos poucos uma situação desconfortável. Embora isso tenha resolvido alguns problemas, também é verdade que gerou outros e permaneceu, no fim das contas, uma resposta insatisfatória.

Para justificar o divórcio e a existência de “duas famílias”, os adultos estávamos impondo uma charada, exigindo que todos à nossa volta (sobretudo os nossos filhos) fingissem que os nossos objetivos egoístas e a nossa incapacidade de “ajeitar as coisas” não eram nada de mais. No fundo, não tínhamos feito senão descarregar nossos problemas e disfunções sobre os nossos filhos. Estávamos aliviando o nosso próprio estresse pondo-o sobre os ombros das nossas crianças.

Felizmente, uma dúzia de anos mais tarde, nós finalmente deixamos de pretextos e voltamos a ser marido e mulher, casados e pais de seus filhos. Muitas feridas se têm cicatrizado desde então, algumas das quais foram uma surpresa até mesmo para nós. E jamais saberemos de que outros problemas em potencial os nossos filhos foram preservados.

Uma lição de Hollywood

Nunca antes na história as crianças tinham sido geradas com a intenção explícita de serem privadas ou de uma mãe ou de um pai. E no entanto as crianças que vêm a este mundo para satisfazer os desejos de “casais” de gays ou lésbicas nascem exatamente com essa finalidade. Elas vivem conscientes de que um de seus pais biológicos será para sempre um enigma, um fantasma.

Até pouco tempo atrás, viam-se as crianças como um puro dom de Deus; agora, porém, as novas leis que “redefinem” o matrimônio estão produzindo o triste resultado de crianças igualmente “indefinidas”, reduzidas a objetos do capricho de adultos. Por outro lado, as famílias destas crianças consistem, não já em seus antepassados, mas em um pequeno grupo de barrigas de aluguel, doadores e advogados que fazem as vezes do sexo ausente em “casamentos sem gênero”.

Dennis Quaid e Linsay Lohan em “Operação Cupido”.

Talvez soe estranho, mas um filme da Disney de 1998, Operação Cupido (refilmagem do clássico de 1961 estrelado por Hayley Mills), pode nos ensinar muito sobre o que acontece com crianças criadas por “dois pais” gays ou “duas mães” lésbicas.

No filme, duas meninas praticamente idênticas, Hallie Parke e Annie James, se cruzam por acaso num acampamento de verão. Elas logo descobrem ser irmãs gêmeas separadas na maternidade, e elaboram um plano para trocar de papéis e assumir uma o lugar da outra. Elas têm tanta vontade de conhecer seus pais que estão dispostas a mudar de aparência, o corte de cabelo, seu maneirismo, tom de voz e sotaque, e até mesmo a ir para outro país, simplesmente para passar alguns dias “clandestinos” com a mãe ou o pai que nunca conheceram.

Hallie vive com o pai na Califórnia, em uma linda mansão de encosta, com piscina e cavalariça. Ela tem um belo pai, que é também um excelente vitivinicultor. Hallie, em resumo, tem tudo; mas ela ainda anseia pela mãe que lhe foi negada. Enquanto isso, Annie vive em uma mansão num chique subúrbio londrino. A sua bela mãe é uma conhecida designer de moda. Elas têm vários mordomos e um chofer exclusivo para o seu carro de luxo; mas, ainda assim, Annie anseia pelo pai que lhe foi negado.

Ambas as meninas vivem um invejável conto de fadas. Mas, para quem assiste ao filme (e a maioria dos espectadores desfruta de muito menos bem-estar e segurança do que elas), o sentimento pelas duas é de tristeza, porque a cada uma falta ou o pai ou a mãe. Esta ironia é o argumento do filme.

É interessante também que a tia de Hallie vive na casa da sobrinha, servindo-lhe como uma espécie de “mãe substituta”, ao passo que o avô materno de Annie vive com a filha e a neta, fazendo as vezes da figura paterna para a menina. Muito embora esses maravilhosos e otimistas pais solteiros tenham por perto algum parente carinhoso do outro sexo, existe uma profunda lacuna nos corações de Annie e Hallie

No filme, os adultos são responsáveis por dividir as crianças. No caso dos filhos de casais “sem gênero”, os adultos são responsáveis por torná-las carentes, com uma carência que estará para sempre dentro dos seus corações. Crianças “fabricadas sob medida” para casais gays têm de enfrentar uma vida empobrecida desde o momento em que nascem, na medida em que dois homens as arrancam da sua “barriga de aluguel”, negando-lhes a única oportunidade que terão na vida de sentir o que é um abraço de mãe. Essa oportunidade perdida é a experiência mais próxima que terão estas crianças de tocar alguém que, de certa maneira, poderiam chamar de mãe.

À medida que forem crescendo, o desejo delas pela mamãe será ignorado, silenciado, desprezado. Porque, no fim das contas, o papai pensa não ter necessidade alguma de uma mulher em casa. E, se isso é assim, porque a teriam o seu filho ou a sua filha? O clamor de um filho pela mamãe, dessa forma, acaba se tornando um insulto para um pai que não quer se casar ou para um “casal” gay. Para a criança, o melhor parecerá sofrer em silêncio, a fim de não chatear o pai ou “os pais” com esses assunto “tabu”.

Todos nós temos de refletir com muito cuidado sobre as consequências, nem sempre intencionais ou deliberadas, que implica (ou que são propositalmente escondidas) a aceitação dos “matrimônios” homossexuais e o desinteresse persistente da nossa sociedade pelo divórcio e as famílias monoparentais. Nós, adultos, damos um grande bocejo quando estes temas entram em pauta. Mas as crianças, essas, sim, têm uma reação diferente: elas choram de noite até pegarem no sono.

Quando o que está em jogo é a paternidade, precisamos ser homens

Os homens divorciados, ou os homens que se “uniram” a outros homens para criar os próprios filhos, ou os que são doadores anônimos de esperma, todos estes seguem as pegadas de Esaú, com a diferença de que não é nosso o direito de primogenitura que estamos vendendo por um prato de lentilha: é às nossas crianças que ele pertence. E nós, insensíveis, vendemos a preço de nada este que é o maior tesouro delas, o poder ser criado por seus pais biológicos, em uma família natural intacta.

Este mundo não precisa que os homens tomem mesquinhamente o que querem, sobretudo se o preço disso é o bem-estar dos nossos filhos. Espera-se que os homens façam justamente o contrário: os homens têm o dever de proteger os filhos da infelicidade, da solidão e de outros perigos. Homens de verdade não fazem de seus filhos as vítimas de seus próprios interesses. Homens de verdade protegem, cuidam, suportando o estresse e as dificuldades, em vez de as transferirem para os próprios filhos. Homens de verdade enfrentam os problemas cara a cara.

Quando o que está em jogo é a paternidade, a nossa cultura precisa que os homens sejam homens. Para alguns, isso pode exigir o abandono de alguns sonhos e dos nossos próprios desejos. No entanto, a nossa cultura está cada vez mais dominada por homens autocentrados e covardes. C. S. Lewis diria que a nossa é uma cultura de homens despeitados.

O Papa S. João Paulo II disse certa feita: “O pecado original, assim, intenta abolir a paternidade, destruindo-lhe os raios que permeiam o mundo criado, pondo em dúvida a verdade sobre Deus, que é amor”. Nestes tempos, o casamento, a família e inclusive o sexo biológico são subvertidos de todos os modos possíveis, e a paternidade, de modo particular, é objeto de ataques incansáveis e violentos. Cabe aos homens lutarmos corajosamente contra eles.

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”— não pronunciado do outro lado do telefone, mas sussurrado ao nosso ouvido por quem estreitamos carinhosamente ao peito.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II
Doutrina

A urgente atualidade de
uma carta do futuro Papa João Paulo II

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II

“É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”: eis o que escrevia ao Papa Paulo VI, em 1969, o Cardeal Karol Wojtyła.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2019
imprimir

No cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, ano passado, veio à luz pela primeira vez uma carta particular do então Cardeal Karol Wojtyła ao Papa Paulo VI, na qual o arcebispo polonês agradece ao pontífice pela encíclica. Na carta, Wojtyła faz sugestões concretas para uma instrução pastoral “absolutamente necessária” do Vaticano com o fim de superar as “dúvidas existentes” quanto à proibição do controle de natalidade, à natureza da vida conjugal e à autoridade dos ensinamentos papais.

Além de sua fascinante e franca explicação das principais controvérsias em torno da encíclica, esta carta — na verdade, um ensaio em tamanho e estilo — nos permite vislumbrar o que, mais tarde, seriam os ensinamentos do magistério do Papa São João Paulo II.

Ao escrever em 1969, poucos meses após a publicação da Humanae Vitae, o Cardeal Wojtyła viu claramente que as críticas ao conteúdo e ao estilo da encíclica feriam profundamente a missão da Igreja: “Desafiar a doutrina moral da Igreja em um campo tão importante como o tratado na encíclica pode ser o pontapé inicial de um processo, muito mais amplo, de pôr em xeque outros elementos da fé e da vida cristã”. 

Hoje, décadas mais tarde, podemos constatar a verdade inegável de tal afirmação.

Primeiro, com relação à fé e à vida cristã em geral, Wojtyła ressaltou o poder da Igreja de ensinar com autoridade sobre questões de moral. Isso porque, logo após a publicação de Humanae Vitae, teólogos dissidentes foram a programas de rádio e às páginas dos jornais a fim de minar a autoridade da Igreja para ensinar de forma vinculante em questões morais.

Vinte e cinco anos depois, já eleito Papa, João Paulo II aprovou a publicação da instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo, que buscava reorientar a teologia como vocação a serviço da Igreja, e não de ideologias mundanas.

De forma mais específica, Wojtyła mostrou-se resoluto, em sua carta de 1969, ao apresentar a Humanae Vitae como expressão da autoridade da Igreja em sua missão de ensinar: “A encíclica Humanae Vitae não é um documento solene que expressa uma doutrina ex cathedra; portanto, não contém nenhuma definição dogmática. No entanto, por ser um documento do ensino comum do Papa, tem caráter infalível e irrevogável. É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”.

Essa ênfase na infalibilidade do Magistério ordinário — os ensinamentos constantes e universais do Papa e dos bispos unidos a ele — tornar-se-ia a abordagem preferida do Papa João Paulo II para tratar as questões doutrinárias mais sensíveis do seu pontificado.

Em vez de emitir definições solenes, João Paulo II apelou ao Magistério ordinário da Igreja para ensinar de forma infalível, por exemplo, sobre a imoralidade do aborto, na Evangelium Vitae (1995), e acerca da restrição do sacerdócio somente aos homens, na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Usando este meio para ensinar com autoridade, João Paulo II mostrou que esses não eram apenas ensinamentos seus, mas da Igreja universal — mantidos sempre, em todos os lugares e por todos os fiéis.

Uma segunda grande preocupação enfatizada na carta de Wojtyła é “a consciência e sua relação com a lei moral”, uma vez que, após a publicação da Humanae Vitae, teólogos e pastores passaram a ensinar a muitos casais que era lícito usar o controle artificial da natalidade se suas consciências o considerassem aceitável.

Wojtyła condenou fortemente esse abuso da consciência, que não é “uma norma superior à lei moral”. E acrescentou: “Atribuir à consciência uma autonomia que lhe daria não apenas um papel normativo, mas também legislativo, seria contrário aos fundamentos tanto da lei natural quanto da lei divina. Essa autonomia seria equivalente a aceitar o subjetivismo e o relativismo nas questões morais”.

Cardeal Karol Wojtyla.

Essa compreensão distorcida da consciência tornou-se, desde então, moeda corrente e comum. Como Papa, o próprio João Paulo II assumiu a responsabilidade de levar a cabo o que havia sugerido a Paulo VI, e publicou, em 1993, sua encíclica sobre teologia moral, a Veritatis Splendor, que, sem dúvida, é um dos escritos mais importantes do seu pontificado. 

Nela João Paulo II mantém sua crítica aos que atribuem à consciência “a prerrogativa de determinar, de forma independente, os critérios do bem e do mal, para agir em função deles”. No cerne da encíclica, expôs a reta compreensão da consciência, que deve estar fundamentada na liberdade, na verdade e na lei natural (assuntos que ele já mencionara, mesmo que brevemente, na carta de 1969).

Em terceiro lugar, pode-se dizer que a carta de Wojtyła exortou Paulo VI a “expor a doutrina do matrimônio [...] com o fim de apresentar uma perspectiva correta e clara do tema do amor conjugal”. De modo particular, ele aludia à necessidade de “insistir no fato de que o casamento é uma vocação”.

Nesse contexto, o então cardeal descreveu o papel da fecundidade, da continência e do sofrimento no casamento. Ele bem sabia que assuntos tão essenciais não poderiam ser omitidos ou vistos como inadequados: “Portanto, cabe à mestra da moral e do ensino, que é a Igreja, compreender e destacar os limites que, na esfera dos valores sexuais, fazem a pessoa passar do ato dignamente vivido, para a atitude de usar e abusar do outro”.

Como Papa, João Paulo II não perdeu tempo em assumir essa postura: um ano após ser eleito, ele deu início a uma série de catequeses, hoje conhecidas como “Teologia do Corpo”, nas quais articulava o significado da sexualidade humana à luz da nossa dignidade como pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. Além disso, em 1981, apresentou, na Familiaris Consortio, sua visão de como deve ser vivida a vocação ao matrimônio.

A carta de Wojtyła, por si só, é excelente e permanece muito relevante para nós, mesmo já passados cinquenta anos. Nela, enfatiza-se a necessidade urgente de agirmos em relação a essas questões — necessidade que, nos dias de hoje, permanece urgente. Como Papa, Wojtyła não chegou a abordar de uma só vez todas essas questões; mas, no decorrer do seu pontificado, contemplou-as, com profundidade e clareza, em vários ensinamentos.

A carta, enfim, deixa claro um fato crucial: os principais ensinamentos do pontificado de São João Paulo II foram forjados em resposta à crise da verdade, que encontrou sua expressão mais aguda na Revolução Sexual.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos
Liturgia

A liturgia não é
um grupo de estudos bíblicos

A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos

“A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.”

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
imprimir

Em algumas paróquias que celebram a Missa no rito de Paulo VI (às vezes chamado de rito ordinário ou Novus Ordo), a parte chamada de “Liturgia da Palavra”, composta de duas leituras, um salmo, um canto de aleluia, um evangelho, uma homilia que expõe as leituras, o Credo e a Oração dos Fiéis, se estende por um período consideravelmente mais longo do que a parte chamada “Liturgia Eucarística”, principalmente quando se escolhe a menor oração eucarística, a segunda.

Em geral, podemos dizer que esse estado de coisas é muito lamentável. Do ponto de vista prático, pode parecer que se esteja dizendo — de forma subliminar ou, talvez, até explicitamente — que a Missa é, fundamentalmente, para ouvir as Escrituras e sua explicação, e que a Santa Eucaristia consiste em um atrativo a mais, como um enfeite ou um “ponto de exclamação” para realçar a ação principal.

Quando isso acontece, presenciamos nada menos do que uma inversão total da ordem e proporção próprias das duas partes básicas da Missa. Não seria exagero chamar essa inversão de “protestantização”. Para os protestantes, a “Palavra de Deus” é um texto escrito em um livro sobre o qual eles se debruçam em suas “devoções”, trazem para a igreja, ouvem a leitura, ouvem pregações e levam para casa novamente, como se esse livro fosse o lugar exclusivo da Aliança de Deus. Mas isso não é o que Jesus realmente nos disse: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20). Portanto, a Nova Aliança é algo que existe na forma de um banquete de sacrifício. É quando participamos do seu Corpo e Sangue que nos encontramos mais perfeitamente com o próprio Cristo, da maneira que Ele se nos deixou.

A Palavra de Deus não é, primária e principalmente, um livro — nem mesmo os Evangelhos. Ela é o próprio Jesus Cristo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus [...]. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 1.14). A Liturgia da Palavra (escrita) existe em função da Liturgia Eucarística, na qual a Palavra Encarnada, “para nós homens e para nossa salvação”, entrega-se a nós, fazendo-nos participantes da sua divindade. A proclamação das Escrituras na Missa tem o propósito de preparar os adoradores para a comunhão com a Palavra encarnada, que é a fonte da palavra escrita, aquele de quem as Escrituras dão testemunho.

A liturgia — na Santa Missa, no Ofício Divino ou em qualquer outro rito sacramental — não consiste em um grupo de estudos bíblicos, não é uma oportunidade para folhear o Livro Sagrado e dar-lhe alguma atenção mais digna. A Escritura é proclamada para pregar “Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). É por isso que, em todos os santuários católicos adequadamente construídos, os olhos são atraídos para um crucifixo proeminente; e se a liturgia estiver bem ordenada, todos estaremos na mesma direção, voltados para o altar, o crucifixo, a abside e o Oriente, pois todos esses elementos simbolizam Cristo, que é o altar, a vítima, o Rei celestial, o norte de nossas vidas, aquele que foi, é e há de vir.

O objetivo de ler e pregar as Escrituras é acolher a Palavra, não a palavra escrita no papel, nem mesmo a palavra interior escrita no coração, mas, sim, Nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, que é “o poder e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 24). Essa realidade, expressou-a muito bem Louis Evely, ao afirmar:

A palavra de Deus não só revela, mas também age, ilumina e transforma. Ela é sacramentalmente eficaz. Toda semana nos reunimos solenemente para participar da eficácia de uma palavra singular de Deus. A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.

“Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”: quando o sacrifício, único e superabundante, do Calvário se faz presente em nosso meio pela consagração do pão e do vinho sobre o altar, nesse momento a Palavra de Deus — concebida pela Virgem Maria, pelo poder do Espírito Santo — é “proclamada” em sua realidade mais completa: o Verbo feito carne, o pão dos anjos, crucificado pelos nossos pecados, e ressuscitado para a nossa salvação.

Na Missa, se a “Liturgia da Palavra” não estiver em plena continuidade com a “Liturgia Eucarística”; se as leituras e a homilia não estiverem implícita ou explicitamente ordenadas ao mistério transcendente da fé, renovado sobre o altar e compartilhado pelos fiéis em sua comunhão mística com o Senhor, é certo que, em algum nível, a natureza da liturgia e suas partes não foi compreendida ou, pior ainda, foi propositalmente distorcida por causa de uma teologia errônea.

Da perspectiva correta, a Liturgia da Palavra — ou como era chamada, e ainda deveria ser, a “Missa dos Catecúmenos”, daqueles que devem ser instruídos no caminho da vida cristã — é uma antessala, uma promessa, uma preparação, um cultivo do terreno, um chamado para estar desperto e atento à voz de Jesus Cristo, a fim de nos prepararmos para recebê-lo em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. “Eis o Cordeiro de Deus”: eis aquele que a Escritura proclama nos profetas e nos salmos, nas epístolas e nos evangelhos. É por isso que a segunda parte da Liturgia era tradicionalmente chamada de “Missa dos Fiéis”, ou seja, daqueles que já creem nas palavras da Verdade, que são batizados em Cristo e estão prontos, agora, para receber o mysterium fidei, o mistério da fé: o próprio Cristo, em Pessoa, em seu Corpo glorioso.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por que “padre e freira não casa” mesmo?
Doutrina

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

É tempo de recordar uma verdade de fé “inconveniente”, mal compreendida, mas nunca tão necessária como hoje: a vida consagrada é a “melhor parte”. E inclusive os que se casaram têm muito a aprender com isso.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
imprimir

Alguém poderia objetar, a respeito de um artigo recente sobre as “almas gêmeas”, que nem todos têm uma. “Sim, porque, se isso fosse para todo o mundo, o que seria dos celibatários e das pessoas de vida consagrada?”

Bom, não é que essas pessoas não tenham alma gêmea. Na verdade, elas já encontraram “outra alma”: a de Cristo, unidas com a qual elas de mais nada necessitam. É por isso que “os Santos Padres consideram esse vínculo de perfeita castidade como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo”, com alguns chegando a “comparar com o adultério a violação dessa promessa de fidelidade” [1].

Mais correto, portanto, seria caminhar não na negação, como normalmente se faz (“padre não casa”, “freira não casa”), mas dizer, com o Evangelho, que é Jesus o esposo desses homens e mulheres (cf. Mt 9, 15), os quais “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). E, como já dissemos em nossa matéria anterior, por mais que nesta vida tantos se casem e se dêem em casamento, a verdade é que todos, sem exceção, fomos feitos para esse outro “casamento”, que é nossa união com Deus na vida eterna. Por isso, São Cipriano louvava assim esse estado de vida: 

O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuís já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus [2].

Uma verdade de fé…

Com base em tudo isso, avancemos um pouco mais e lembremos uma verdade de fé divina expressamente definida no Concílio de Trento: 

Se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor e mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema [3]. 

Dito pela boca do Apóstolo: 

Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. Digo isto para vosso proveito, não para vos estender um laço, mas para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha. Se alguém julga que é inconveniente para a sua filha ultrapassar a idade de casar-se e que é seu dever casá-la, faça-o como quiser: não há falta alguma em fazê-la casar-se. Mas aquele que, sem nenhum constrangimento e com perfeita liberdade de escolha, tiver tomado no seu coração a decisão de guardar a sua filha virgem, procede bem. Em suma, aquele que casa a sua filha faz bem; e aquele que não a casa, faz ainda melhor (1Cor 7, 32-38). 

Explicado por Santo Tomás de Aquino: 

Como diz Jerônimo, errou Joviniano ao defender que a virgindade não deve ser preferida ao matrimônio. Seu erro, antes de mais nada, é refutado pelo exemplo de Cristo, que escolheu mãe virgem e que conservou, ele próprio, a virgindade. É rechaçado também pelo ensinamento do Apóstolo que aconselhou a virgindade como um bem superior. Mas a razão também rechaça esse erro. Em primeiro lugar, porque o bem divino é superior ao bem humano. Em segundo lugar, porque o bem da alma é mais excelente que o do corpo. Em terceiro lugar, porque o bem da vida contemplativa é preferível ao bem da vida ativa. Ora, a virgindade se ordena ao bem da alma na sua vida contemplativa, que é “pensar nas coisas de Deus”. O casamento, ao contrário, está voltado ao bem do corpo, que é a multiplicação corporal do gênero humano e pertence à vida ativa, dado que os casados devem “pensar nas coisas que são do mundo”, segundo o Apóstolo. Portanto, sem dúvida alguma, a virgindade é melhor que a continência conjugal [4].

Mesmo assim, apesar de estar no Concílio de Trento, nas Escrituras, na Suma Teológica e numa plêiade de escritos dos Santos Padres, já podemos prever contra-argumentos, reações negativas e “rasgação de vestes” ao que aqui vai dito. Foi assim, pelo menos, da última vez que tocamos nesse assunto. Procuremos então identificar o problema, e remediá-lo.

…“inconveniente”…

A começar pela “coceira” que nos dá, à nossa época, tão dada a luxúrias, ouvir falar da virgindade que ela tão tranquila e despreocupadamente perdeu e entregou ao mundo, como se nada valesse. É o primeiro dos nossos incômodos: ouvir falar da pureza que não temos

Mas, ao invés de nos irritarmos e esbravejarmos com a simples realidade das coisas, por que não colocar a mão na consciência, fazer penitência por nossos pecados e procurar resgatar, de hoje em diante, a pureza que perdemos? Foi o que fizeram Santa Maria Madalena e Santa Maria Egipcíaca, Santo Agostinho e São Jerônimo. Este último, por exemplo, que tantos louvores cantou à virgindade cristã, escreveu certa vez: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho” [5]. Ou seja, uma coisa é ser miserável, outra é condescender com a própria miséria; uma é não ser perfeito, outra é desprezar a perfeição. 

Além desse problema moral, pode haver também um intelectual, de falta de fé. Aqui vale sempre lembrar: estamos nos dirigindo a católicos, dos quais se espera que tenham um mínimo de submissão filial à Igreja, ainda mais em se tratando de uma verdade de fides divina, “de fé divina”, que consta claramente nas próprias Sagradas Escrituras. 

Que tenhamos “dificuldades” com esse ensinamento, e que procuremos contorná-las com um bom exercício racional de teologia, é muito sadio e proveitoso; mas “dez mil dificuldades não fazem uma dúvida” [6]: a Revelação, ou nós a aceitamos por completo, ou estaremos rejeitando a sua própria fonte divina. (Nesse caso, uma igreja protestante qualquer pode muito bem servir para nós, até porque uma das primeiras coisas que Lutero jogou fora foi justamente o celibato e a virgindade consagrados.)

…mal compreendida…

Cuidemos de explicar, também, o que não estamos dizendo, para que não haja nenhum mal entendido.

Primeiro, ninguém está dizendo que o casamento seja algo ruim. O Apóstolo mesmo diz: “aquele que casa a sua filha faz bem”, “não há falta alguma em fazê-la casar-se”. E não só porque Deus criou o homem e a mulher, ainda no Gênesis, mas o casamento foi elevado por Nosso Senhor à dignidade de sacramento, tornando-se um verdadeiro caminho de santidade para aqueles que o recebem na fé. Ilustra-o uma história interessante, contada por João Paulo I em uma de suas (poucas) audiências gerais, sobre o (hoje beato) Frederico Ozanam: 

No século passado, viveu na França Frederico Ozanam, grande professor. Ele ensinava na Universidade de Sorbonne, era eloquente, ótima pessoa! Era seu amigo Lacordaire, que dizia: “É tão excelente, é tão bom, far-se-á sacerdote e este chegará a ser grande bispo!” Não foi assim. Encontrou uma jovem cheia de qualidades e casaram-se. Lacordaire não ficou satisfeito e disse: “Pobre Ozanam! Também ele caiu na armadilha!” Dois anos mais tarde, Lacordaire veio a Roma e foi recebido por Pio IX. “Venha cá, padre — disse-lhe — venha. Sempre ouvi dizer que Jesus instituiu sete sacramentos; agora vem o padre e muda as cartas na mesa: diz-me que instituiu seis sacramentos... e uma armadilha! Não, Padre, o matrimônio não é armadilha, é um grande sacramento!” [7].

Segundo, ninguém está dizendo que todos deveriam entrar na vida religiosa. Até porque, como haveria pessoas se consagrando inteiramente a Deus, sem antes serem geradas fisicamente e educadas religiosamente no seio de boas famílias católicas?

Aqui é importante voltar ao Apóstolo: “Quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7, 7). Ou seja, por excelente que seja o estado de vida religioso, nem todos são chamados a ele; para cada um Deus reservou uma vocação específica. E esse “problema”, como já fizemos questão de explicar noutro lugar, não se resolve com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para cada um, é preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Pode ser, é verdade, que nem todos tenham trilhado o caminho melhor e mais santo para chegar ao lugar em que se encontram. Muitas vezes são as circunstâncias da vida, mais do que a busca de Deus e o impulso da graça, que levam as pessoas a definirem seu estado de vida. Mas mesmo nesses casos não se pode ignorar a misteriosa ação da Providência divina, que atua, senão querendo, ao menos permitindo tudo o que nos acontece. É por isso que, aos que já “se resolveram” na vida, o Apóstolo manda que “cada um tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido” (1Cor 7, 2). Para os que ainda não o fizeram, no entanto, é o tempo de discernir com prudência e maturidade a vontade de Deus para suas vidas.

Terceiro, ninguém está dizendo que todos que estão na vida religiosa são santos nem que, por outro lado, todos os casados estão fadados a ter um “coração dividido” ou a levar uma vida medíocre. Contra isso estão o testemunho de numerosos santos e santas da Igreja que se santificaram no Matrimônio — Santa Isabel de Portugal, Santa Francisca Romana, São Luís e Santa Zélia Martin — e, ao mesmo tempo, o triste fato de que também as almas dos religiosos estão em risco de se perder eternamente, se eles não corresponderem às exigências de sua vocação. “Quando se compara o matrimônio com a virgindade — explica o Pe. Royo Marín — e se assinala a superioridade desta sobre aquele, não se estabelece a comparação entre as pessoas, mas só entre os estados” [8].

…mas nunca antes tão necessária

A objeção que muitas outras pessoas fazem, porém, é quanto à oportunidade de se falar essas coisas. Elas podem até aceitar que a vida consagrada seja superior à matrimonial, mas não concordam com que isso seja proclamado aos quatro cantos, “de cima dos telhados”, talvez porque imaginem que isso “desencoraja” de algum modo os casais, ou semea tentações em suas mentes, fazendo-os sonhar com um estado de vida que não é o seu e a deplorar a situação em que Deus os colocou… 

Bom, na verdade, para um homem e uma mulher mal resolvidos, qualquer coisa pode servir de pretexto para idealizar uma outra vida, com condições ideais de “temperatura e pressão”, e outras circunstâncias dentro das quais elas “com certeza” serviriam melhor a Deus e buscariam com mais afinco a santidade de vida... Mas tudo isso não passa de ilusão. Lembremo-nos nesse sentido de uma advertência de São Francisco de Sales: 

Não há vocação alguma que não tenha as suas contrariedades, as suas amarguras e os seus desgostos. Exceto aqueles que se resignam plenamente com a vontade de Deus, todos gostariam de trocar a própria condição com a dos outros. Aqueles que são bispos não desejariam sê-lo; os que são casados desejariam não o ser; e os que não o são, gostariam de o ser. Donde vem esta inquietação geral dos espíritos senão de certa alergia que nós sentimos perante a obrigação e de um espírito não bom, que nos faz supor que os outros estão melhor do que nós [9]?

“Alergias” à parte, falar da excelência da vida consagrada é lembrar o fim para o qual fomos criados. “A continência ‘por amor do reino dos Céus’ tem particular importância e particular eloquência para aqueles que vivem a vida conjugal” [10], ensina S. João Paulo II. Nenhum casal deveria se sentir desencorajado ou desanimado ao lembrar a dimensão sobrenatural do próprio sacramento que receberam (ou receberão). Se Deus deu à Igreja esse tesouro tão precioso que é a virgindade e o celibato por causa do Reino dos céus, é para lembrar inclusive às pessoas casadas que o casamento definitivo para o qual fomos feitos não é deste mundo, não acontecerá aqui; os esposos estão unidos em santo Matrimônio “até que a morte os separe”, mas a união para a qual todos fomos criados é outra.

É por isso que Nosso Senhor, em casa de Marta e Maria, depois de repreender o “ativismo” da primeira, disse: “Maria escolheu a melhor parte (optimam partem), e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42). Nossa época pode até ser “igualitarista”, mas Jesus não está minimamente preocupado com nossos queixumes politicamente corretos. A vida contemplativa é superior, ponto final

Mas vejam todos como a agitada Marta aprendeu bem a lição e veio a tornar-se Santa Marta. Ela olhou para o exemplo da irmã e, mesmo em meio às panelas da cozinha e demais afazeres da casa, aprendeu a viver para buscar o unum necessarium. Por isso, mesmo na correria do dia a dia — pois eles têm uma casa a prover e filhos a educar —, aprendam os homens e as mulheres casados a separar um tempo para se sentar aos pés do Senhor e ouvi-lo; não se deixem seduzir pelo frenesi do dinheiro a qualquer custo, pondo de lado o amor conjugal, o aconchego do lar ou até mesmo a existência e a salvação dos próprios filhos; aprendam a viver em espírito, enfim, aquilo a que os religiosos estão obrigados por voto. Porque, no fim das contas, estejamos casados ou vivendo só para Deus e sem nenhuma preocupação terrena, o que importa é amarmos e não tirarmos os olhos do Céu

Só não caiamos na tentação de menosprezar o que Deus mesmo fez questão de deixar como herança preciosa à sua Igreja. Os padres e as religiosas, ao renunciarem ao casamento terreno, são um testemunho vivo de que esta vida não é a última palavra. O hábito religioso e eclesiástico é uma voz que clama no deserto do nosso materialismo e diz: “Há outro mundo!”, “Existe vida sobrenatural!”, “Não fomos feitos para esta vida!”

Por isso, todo católico deveria sentir crescer o seu coração ao avistar, pelas ruas de sua cidade, uma irmã com sua veste gasta ou um sacerdote com sua “mortalha” preta. Se não nos entusiasmamos mais com a vocação sagrada, separada, desses homens e mulheres, é porque primeiro deixamos de nos entusiasmar pela vida eterna, e pelo matrimônio celeste que, um dia, todos celebraremos com Deus. Os errados e descompassados somos nós. E o que tem de mudar não são eles, tampouco a disciplina da Igreja... somos nós.

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas, 25 mar. 1954, n. 16.
  2. São Cipriano, De habitu virginum, 22 (PL 4, 462), citado em Sacra Virginitas, n. 28.
  3. Concílio de Trento, 24.ª Sessão, Doutrina e cânones sobre o sacramento do Matrimônio, 11 nov. 1563, cân. 10 (DH 1810).
  4. Santo Tomás de Aquino, STh II-II, 152, 4 c.
  5. São Jerônimo, Epístola 48, 20 (PL 22, 509).
  6. John Henry Newman, Apologia pro vita sua ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 312.
  7. Papa João Paulo I, Audiência Geral, 13 set. 1978.
  8. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. II: Los sacramentos. Madri: BAC, 1965, p. 533.
  9. São Francisco de Sales, Oeuvres, ed. Annecy, t. XII, 348-9, apud Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano, 7 set. 1978.
  10. Papa S. João Paulo II, Audiência Geral, 14 abr. 1982, n. 2.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.