Em Jeeves & Wooster, de P. G. Wodehouse, a senhora Glossip, mãe de uma filha solteira, pergunta a Bertie Wooster de que forma ele sustentaria uma esposa. Sua resposta foi: “Bem, acho que depende de quem seria a esposa. Uma leve e gentil pressão sob o cotovelo ao atravessar uma rua movimentada costuma ser suficiente”.
A juventude desorientada não é novidade, como Wodehouse bem sabia em 1923. A repreensão de sua tia Agatha soa verdadeira para muitos homens ainda hoje: “Amaldiçoados pelo excesso de dinheiro, vocês desperdiçam em egoísmo ocioso uma vida que poderia ter sido útil, proveitosa e lucrativa. Vocês não fazem nada além de perder tempo com prazeres frívolos”.
Bertie Wooster e pessoas afins surgiram no mundo pós-Revolução Francesa, que deixou os homens à deriva, privados de propósito e autoridade. O igualitarismo ateu que transformou a França em 1789, longe de desacelerar ao longo dos séculos, decapitou todas as estruturas de autoridade que viu pelo caminho, particularmente aquelas com aroma de patriarcado — a começar pela Revolução e pelo Terror.
Não é mera coincidência que os inconsequentes jacobinos, que já estavam cortando a cabeça da Igreja em favor de suas cabeças (supostamente) mais racionais, também estivessem decapitando dezenas de milhares de cidadãos franceses.

Um século depois, o Cardeal James Gibbons (1834–1921), arcebispo de Baltimore, observou atentamente a Revolução dando lugar à sua prole tóxica: o socialismo, o comunismo e o feminismo. Todos eles rejeitaram a autoridade moral e a hierarquia em favor do igualitarismo.
“Há uma tendência em nossa natureza”, escreveu o segundo cardeal dos Estados Unidos, “de nos irritarmos com a autoridade. Thomas Paine publicou uma obra bem conhecida sobre Os Direitos do Homem. Ele nada tinha a dizer sobre os direitos de Deus e os deveres do homem.”
O Cardeal Gibbons citou um título similar, Os Direitos do Clero, escrito havia alguns anos por um clérigo: “Do início ao fim da obra, ele nada disse sobre os deveres e obrigações do clero. A maioria da humanidade está tão concentrada em seus direitos que não leva em consideração as suas responsabilidades.” O antídoto para a crescente lista de direitos, explicava o prelado, é “uma profunda percepção dos nossos deveres sagrados”. Isso nos fará “chegar aos nossos direitos”.
Obviamente, o problema é que, como temos visto recentemente com o movimento woke, é impossível igualar a tudo e a todos. Este impulso, explica o cardeal, é alimentado pela inveja, não por Deus:
Da ordem da natureza à ordem da graça, nós sabemos que existe não só variedade, mas também graus de distinção entre os anjos no Céu. A hierarquia angélica é composta por nove coros distintos… Uma ordem de anjos se destaca pela sublimidade da inteligência, outra pela intensidade do amor, outra pela dignidade da missão que lhes foi confiada.
Essa ordem, estabelecida por Deus, pode nem sempre nos parecer a mais justa; mas, como observa o cardeal: “Se nos queixarmos da discriminação de Deus, Cristo nos responderá: ‘Meu amigo, não fui injusto contigo (cf. Mt 20, 13)… Que direito tens tu sobre a minha justiça? Acaso não é um dom gratuito da minha generosidade tudo o que possuis, na ordem da natureza ou da graça?’”
Em meu livro recém-lançado, Something Wicked [“Algo maligno”, sem tradução portuguesa], explico como o Cardeal Gibbons também via a influência dramática, nas mulheres, da crise de autoridade da Igreja. Em 1902, na revista Ladies Home Journal, ele escreveu um artigo intitulado “A mulher inquieta”, no qual dizia:
Considero... as líderes da nova escola do progresso feminino como as piores inimigas do sexo feminino. Elas ensinam aquilo que rouba das mulheres tudo o que é amável e gentil, terno e atraente, não lhes dando nada em troca, a não ser a ousadia masculina e a insolência descarada. Elas pregam com frequência sobre os direitos e prerrogativas das mulheres, mas não dizem uma palavra sobre os seus deveres e responsabilidades. Elas as afastam das obrigações sagradas que pertencem propriamente ao seu sexo.
O lema do feminismo, concluía o prelado, era que “a masculinidade é maior do que a maternidade”.
Muitos estão chegando às mesmas conclusões, depois de décadas acreditando que as mulheres ficariam melhor imitando os traços moralmente corruptos dos homens, na expectativa de que estes se comportassem mais como as mulheres ou permanecessem em silêncio. A maternidade e a paternidade bem ordenadas foram expostas ao ridículo e denegridas de modo tão profundo que as consequências estão, enfim, vindo à tona: o lobo já não está à porta, mas bem dentro de casa. A porta foi deixada aberta pelos próprios homens e mulheres encarregados de proteger e assistir os vulneráveis.
O que está faltando é a “cabeça” da ordem civilizacional — não a cabeça do racionalista moderno ou dos dogmas do Iluminismo, mas a “cabeça” de Cristo e da autoridade masculina bem ordenada. Ela está agora tão corroída que mal podemos dizer a palavra “patriarcado” sem ouvir os gritos de quem acredita que a autoridade masculina implica a escravidão feminina, em vez de uma complementaridade saudável.

Hoje, muitos jovens estão se rebelando contra o que veem como passividade em seus pais e avós. Raramente a cultura lhes diz que estes homens são bons e necessários. O desenvolvimento recente da “machosfera” revela homens sedentos de masculinidade, mas de modo desordenado, porque lhes falta uma formação saudável e mentores saudáveis.
A machosfera reflete o desprezo que o feminismo tem pelos homens há décadas. Ambos os grupos são movidos pela raiva, orgulho e difamação, ao mesmo tempo que se vitimizam para justificar os seus maus comportamentos. Como no Jardim do Éden antes de serem expulsos, Adão e Eva estão nus, envergonhados e acusando-se mutuamente.
O que nenhum dos grupos percebe é a impotência de seus esforços. A restauração que buscam, como reconheceu o Cardeal Gibbon há mais de um século, só acontecerá com o resgate de nossas responsabilidades e deveres sagrados: coisas como proteger, prover, criar os filhos e sacrificar-se por eles. É daí que provêm a identidade, o propósito, o desenvolvimento do caráter, e a lealdade e o amor profundos e duradouros.
Embora os jovens nem sempre procurem nos lugares certos, eles estão à procura. O que eles querem é ordem, tradição e autoridade autêntica — tenham consciência disto ou não. O que eles querem é a cabeça de volta no corpo. Vamos rezar (quem sabe até ajudá-los) a encontrá-la.

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