CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Aborteiro é visitado por santo católico e se converte em apóstolo da vida
Testemunhos

Aborteiro é visitado por santo católico
e se converte em apóstolo da vida

Aborteiro é visitado por santo católico e se converte em apóstolo da vida

Conheça a história de Stojan Adasevic, o médico da antiga Iugoslávia que, depois de realizar mais de 50 mil abortos, descobriu a verdade sobre o que fazia e se converteu em apóstolo da vida.

Grzegorz Gorn,  Os Peregrinos de São MiguelTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2016
imprimir

O sérvio Stojan Adasevic jamais esquecerá o dia em que, ainda como jovem estudante de medicina, estava organizando alguns arquivos na sala dos médicos, e alguns ginecologistas entraram na sala. Sem prestarem atenção ao estudante agachado atrás de uma pilha de papéis no canto do cômodo, eles começaram a contar histórias de sua prática médica.

O doutor Rado Ignatovic lembrou de uma paciente que o tinha procurado para um aborto, e o procedimento falhou porque o médico não tinha sido capaz de alinhar o colo do útero. Enquanto os médicos continuaram discutindo a história da mulher, Stojan, que estava escutando, subitamente enrijeceu. Ele reparou que a mulher sobre a qual discutiam, uma antiga dentista que trabalhava em uma clínica próxima, era ninguém menos que sua mãe.

"Ela já morreu — observou um dos médicos —, mas eu me pergunto o que aconteceu ao seu filho indesejado."

Stojan não pôde resistir. "Eu sou a criança!", ele disse, levantando-se. O silêncio pairou sobre a sala. Segundos depois, os médicos começaram a se retirar.

Por muitos anos, o doutor Adasevic se lembraria várias vezes desse evento. Era-lhe perfeitamente claro o fato de que ele devia sua vida a um aborto malsucedido. Ele, por sua vez, jamais cometeria a mesma mancada. Muitas mulheres se dirigiam a ele por dificuldade em alinhar o colo do útero. Esse nunca tinha sido um problema para Stojan. Ele se tornou o maior abortista de Belgrado e, em pouco tempo, superou o seu mestre na profissão — o dr. Ignatovic, a cuja incompetência ele devia a sua vida.

"O segredo está em acostumar a mão através de procedimentos frequentes", ele dizia, citando o provérbio alemão, Übung macht Meister, isto é, a prática faz o mestre. Fiel a essa máxima, ele realizaria de 20 a 30 abortos por dia. Seu recorde foi 35 abortos em um só dia. Hoje, ele perdeu a conta dos abortos que realizou nos seus 26 anos de prática. Ele estima algo entre 48 e 62 mil abortos.

Por anos ele permaneceu convencido de que o aborto — como se ensinava nas faculdades e livros de medicina — era um procedimento cirúrgico não muito diferente da retirada de um apêndice. A única diferença estava no órgão a ser removido: um pedaço de intestino num caso, e um tecido embrionário no outro. Dúvidas começaram a surgir só nos anos 80, quando a tecnologia do ultrassom chegou aos hospitais da antiga Iugoslávia. Foi então que Adasevic viu pela primeira vez no monitor de ultrassom o que até aquele momento era invisível para ele — o interior do ventre de uma mulher, uma criança viva, chupando o próprio dedo, movendo os seus bracinhos e perninhas. Com relativa frequência, fragmentos daquelas crianças logo estariam sendo deitados na mesa que ficava ao seu lado.

"Eu via sem ver — ele lembra hoje —, mas tudo mudou quando começaram os sonhos."

Os sonhos de Adasevic

Os sonhos, na verdade, eram versões diferentes de uma só cena, que o assombrava toda noite, dia após dia, semana após semana, mês após mês. Ele sonhava que estava passeando em um campo ensolarado, com belas flores crescendo ao redor, e com o ar repleto de borboletas coloridas. Embora estivesse tudo agradável, uma sensação de ansiedade o oprimia. Subitamente, o campo se enchia com crianças rindo, correndo e jogando bola. A idade delas variava de três ou quatro até cerca de vinte anos. Todas eram incrivelmente belas. Um menino em particular, e duas das meninas, pareciam-lhe estranhamente familiares, mas ele não conseguia lembrar onde as havia visto. Quando tentava falar com elas, elas saíam correndo de terror, gritando. O quadro inteiro era presidido por um homem vestido de hábito preto que assistia atentamente a tudo, em silêncio.

Toda noite Adasevic acordava aterrorizado e ficava acordado até a manhã. Pílulas e remédios de ervas medicinais eram inúteis. Uma noite, ele ficou perturbado durante o sonho e começou a perseguir as crianças, que fugiam. Ele pegou uma delas, mas a criança chorava de medo: "Socorro! Assassino! Salve-me do assassino!" Naquele momento, o homem vestido de preto se transformou em uma águia, aproximou-se e tirou a criança de suas mãos. O médico acordou com o coração batendo como martelo em suas costelas. O quarto estava frio, mas ele estava quente e coberto de suor. Na manhã seguinte, ele decidiu procurar um psiquiatra. Como não houvesse nenhum horário imediato disponível, ele fez um agendamento.

Na noite daquele mesmo dia, porém, ele decidiu que pediria ao homem dos seus sonhos que se identificasse. Foi o que ele fez. O estranho disse-lhe: "Mesmo se eu lhe dissesse, meu nome não significaria nada para você." Como o médico persistisse, o homem finalmente respondeu: "Chamo-me Tomás de Aquino."

De fato, o nome não significava nada para Adasevic. Era a primeira vez que ele o ouvia. O homem de preto continuou:

— Por que você não pergunta quem são as crianças? Você não as reconhece?

Quando o médico disse que não, ele respondeu:

— Mentira. Você as conhece muito bem. Estas são as crianças que você matou enquanto realizava abortos.

— Como isso é possível? — ele replicou — Essas são crianças crescidas. Eu nunca matei crianças já nascidas. Eu nunca matei um homem de vinte anos.

Tomás replicou:

— Você o matou vinte anos atrás — respondeu o monge —, quando ele tinha três meses de vida.

Foi então que Adasevic reconheceu os traços do garoto de vinte anos e das duas garotas. Elas lembravam pessoas de seu círculo próximo, pessoas para quem ele havia realizado abortos ao longo dos anos. O menino se parecia com um amigo próximo de Adasevic. Stojan tinha realizado um aborto em sua mulher vinte anos atrás. Nas duas meninas o médico reconheceu as suas mães, uma das quais aconteceu de ser a sua sobrinha. Depois de acordar, ele decidiu nunca mais realizar nenhum aborto em sua vida.

"Segurei um coração batendo em minha mão"

Esperando por sua chegada ao hospital naquela manhã estava um sobrinho seu, acompanhado de sua namorada. Eles tinham agendado um aborto com ele. Grávida de quatro meses, a mulher estava prestes a se desfazer do seu nono filho consecutivo. Adasevic se recusou, mas seu sobrinho o importunou tanto que ele cedeu — mas aquela seria, de fato, a última vez.

No monitor do ultrassom ele via claramente a criança chupando o próprio dedo. Abrindo o útero, ele inseriu o fórceps, segurou algo e puxou. Nas garras do instrumento estava um bracinho. Ele colocou-o sobre a mesa, mas uma das terminações nervosas do membro tocou em um pingo de iodo que estava derramado ali. De repente, o braço começou a se contrair. A enfermeira de pé a seu lado quase soltou um grito.

Adasevic estremeceu, mas prosseguiu com o aborto. De novo ele inseriu o fórceps, agarrou e puxou. Desta vez, era uma perna. Ele pensou consigo, "Melhor não deixá-la encostar naquela gota de álcool", uma enfermeira atrás dele deixou cair uma bandeja de instrumentos cirúrgicos. Assustado pelo barulho, o médico soltou o fórceps e o pé caiu bem ao lado do braço, e também começou a se mexer.

A equipe jamais tinha visto algo assim: membros humanos se contorcendo na mesa. Adasevic decidiu moer o que ainda havia no útero e tirar tudo em uma massa informe. Ele começou a moer, esmagar e triturar. Depois de retirar o fórceps, agora certo de que havia reduzido tudo a uma pasta, ele puxou um coração humano! O órgão ainda estava batendo — cada vez mais fraco, até que parasse completamente. Foi então que ele percebeu que tinha matado um ser humano.

Tudo, então, ficou escuro à sua volta. Ele não consegue lembrar quanto tempo isso durou. De repente, ele sentiu um puxão em seu braço. A voz amedrontada de uma enfermeira gritava: "Dr. Adasevic! Dr. Adasevic!" A paciente sangrava. Pela primeira vez em anos, o médico começou a rezar de verdade: "Senhor! Salvai não a mim, mas esta mulher."

Normalmente, o médico levava mais de dez minutos para limpar todos os restos do embrião que ficavam no interior do útero. Dessa vez, duas inserções do instrumento pela vagina foram suficientes para completar o serviço. Quando Adasevic tirou as suas luvas, ele sabia que aquele tinha sido o último aborto de sua vida.

Um balde, instrumento de aborto

Quanto Stojan inteirou o chefe do hospital de sua decisão, houve um tumulto considerável. Nunca antes em um hospital de Belgrado um ginecologista tinha se recusado a realizar abortos. Começou, então, a pressão. O seu salário foi cortado pela metade. Sua filha foi demitida do seu emprego. Seu filho foi reprovado no vestibular. Adasevic foi atacado pela imprensa e pela televisão. O Estado Socialista — diziam — havia educado Adasevic para que ele realizasse abortos, e agora ele sabotava o Estado.

Dois anos de perseguição levaram-no à beira de um colapso nervoso. Ele estava quase pedindo ao administrador do hospital que lhe passasse de novo o encargo de fazer abortos, quando Tomás de Aquino lhe reapareceu em sonho, batendo em seu ombro e dizendo: "Você é meu bom amigo. Continue a lutar."

Adasevic, então, começou a participar do movimento pró-vida, viajando por toda a Iugoslávia para palestras e conferências sobre o aborto. Ele conseguiu exibir duas vezes na emissora estatal do país o vídeo "O Grito Silencioso", do dr. Bernard Nathanson:

No começo dos anos 90, em grande parte graças ao ativismo de Adasevic, o parlamento iugoslavo aprovou um decreto protegendo os direitos do nascituro. O decreto foi encaminhado ao então presidente Slobodan Milosevic, que se recusou a assiná-lo. Com os conflitos na região dos Bálcãs, o decreto caiu no esquecimento. Quanto à guerra, Adasevic estava convicto de que o genocídio que aconteceu na região não se devia a outra coisa senão à alienação de Deus e à falta de respeito pela vida humana.

Para provar o seu ponto de vista, Adasevic descreve uma prática comum na Iugoslávia socialista. Como suas leis protegiam a vida do bebê só a partir do momento de sua primeira respiração, isto é, quando chorava pela primeira vez, os abortos eram legais no sétimo, oitavo e até no nono mês de gestação. Ao lado da cadeira de parto ficava sempre um balde de água. Antes que a criança tivesse a chance de chorar, o médico tapava a sua boca e a mergulhava debaixo d'água. Oficialmente isso era um aborto, e era tudo perfeitamente legal, já que a criança nunca dava a sua primeira respiração. A esse ponto, Adasevic gosta de citar Madre Teresa de Calcutá: "Se uma mãe pode matar o seu próprio filho, como diremos às pessoas para não se matarem umas às outras?"

Hoje, maior parte dos abortos é realizada em clínicas privadas, as quais não divulgam estatísticas do procedimento. Mesmo assim, Adasevic estima que um número muito alto de abortamentos acontece na região:

"O que complica uma análise estatística nessa área é o uso de abortivos como o DIU e a pílula RU-486, oficialmente classificadas como contraceptivos. Os anciãos do Monte Athos, com os quais conversei, dividem os contraceptivos entre pecaminosos e satânicos. Os primeiros são os que previnem a união do espermatozoide e do óvulo. Os segundos são os que matam a criança já concebida — precisamente o que o DIU e a pílula do dia seguinte fazem. O dispositivo intrauterino age como uma espada, que separa o pequeno ser humano de sua fonte de alimento no útero. É uma morte terrível. Um ser humano morre de fome em um lugar repleto de nutrientes."

Agora que, graças à intervenção de Santo Tomás de Aquino, Adasevic é capaz de enxergar a humanidade do nascituro, ele está convicto de existe uma "guerra real" acontecendo, "travada pelos que já nasceram contra os que não nasceram". "Nessa guerra, eu já cruzei o fronte várias vezes: primeiro, como nascituro condenado à morte, depois quando me tornei eu mesmo abortista, e agora como apóstolo pró-vida."

Recomendações

  • Há um breve documentário, do canal Ajuda à Igreja que Sofre, que conta, entre outros testemunhos, o do dr. Stojan Adasevic. O nome do vídeo é "A Primeira Hora" e vale a pena conferir.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade
Oração

Conheça e aprenda
a rezar a Ladainha da Humildade

Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade

Uma oração simples, mas cativante, composta por um Cardeal da Igreja e amigo íntimo do Papa São Pio X.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2017
imprimir

Nesta oração composta pelo Cardeal Merry del Val, secretário do Estado do Vaticano durante o pontificado de São Pio X, peçamos juntos ao Senhor a graça da humildade de coração, alicerce da vida interior e remédio eficaz contra o pecado da soberba.

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser difamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu,
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído,
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado,
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado,
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas,
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?
Igreja Católica

Onde estava a Igreja de Cristo
antes de Lutero?

Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Pe. Leonel Franca16 de Novembro de 2017
imprimir

Da infalibilidade da Igreja deriva um corolário fatal a todas as heresias. Qualquer grupo de almas batizadas que se separa da comunhão dos fiéis e rompe com os ensinamentos e tradições antigas já está condenado pela sua própria novidade.

A Igreja de Cristo é una como a verdade. O Espírito Santo nela habita com a sua assistência continuada todos os dias, até a consumação dos tempos. Impossível assinalar uma época na história em que a Esposa do Verbo se tenha desviado da senda real da ortodoxia. As promessas divinas falhariam, Cristo deixaria de ser Deus e a religião por ele instituída afundaria para sempre no pego imenso das superstições humanas.

Após 15 séculos de cristianismo levante-se um monge no coração da Alemanha e lança ao mundo o pregão de uma reforma. Simples regeneração dos costumes?

Não, reforma doutrinal.

O que então se chamava doutrina cristã admitida pela Igreja universal era uma adulteração profunda do Evangelho, um acervo de superstições e idolatrias, patrocinadas pelo anticristo de Roma. A Igreja se havia apartado da verdadeira fé: era mister reconduzi-la às fontes genuínas do Evangelho.

Cristo errara a mão. Fundara uma sociedade fadada a destinos imortais. Plantara-a no mundo como cidade visível para acolher os eleitos. Mas apenas saída das suas mãos divinas, apenas o mundo pagão, com a paz de Constantino, viera buscar à sombra da cruz a verdade e a vida, a Igreja desfalece, corrompe-se, paganiza-se. Onze séculos de ignorância, de trevas e de superstições ensombraram a obra do Salvador.

"A entrega das chaves a S. Pedro", de Pietro Perugino.

Foi mister que um frade apóstata, sensual e orgulhoso apontasse no horizonte religioso da humanidade para reconduzi-la aos mananciais cristalinos do Evangelho, e, mais feliz, mais próvido, mais sábio, mais poderoso que o Cristo, fundasse uma nova Igreja de vitalidade menos efêmera, Igreja imorredoura e incorruptível, destinada a acolher sob as suas tendas as gerações do porvir. Eis a significação real do protestantismo. Eis outrossim a sua condenação, a seta fatal que se lhe embebeu no peito e há de arrastá-lo à morte inevitável.

Se Cristo é Deus, se Cristo fundou uma Igreja, essa é indefectível e imortal como as obras divinas. Mas se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa. Cristo enganou-nos, Cristo não é Deus, e o cristianismo é uma grande impostura. É tão forte a consequência que muitos protestantes por este motivo abjuraram o cristianismo. É o exemplo de Staudlin, que dizia:

Se na religião partimos de um princípio sobrenatural (como uma revelação, a Bíblia, por exemplo ou o Corão), cumpre necessariamente admitir que a Divindade, comunicando uma revelação ao homem, deve prover outrossim o modo de impedir que o sentido desta revelação não seja abandonado às arbitrariedades do juízo subjetivo. Esta inconsequência de Jesus Cristo não me permite considerá-lo senão como um sábio benfeitor. [1]

Ochin, outro protestante, que no dizer de Calvino, era mais sábio ele só que a Itália inteira, chegava pelo mesmo caminho à mesma conclusão. “Considerando, de um lado, como poderia a Igreja haver sido fundada por Jesus Cristo e regada com o seu sangue, e, do outro, como poderia ela ser fundamentalmente adulterada pelo catolicismo, como estamos vendo, conclui que aquele que a estabeleceu não podia ser o Filho de Deus; faltou-lhe evidentemente a Providência” [2]. E Ochin, renunciando ao protestantismo, fez-se judeu.

Nada, com efeito, mais diametralmente oposto aos ensinamentos e promessas do Evangelho do que a ideia de uma Igreja que pode desgarrar da sua primeira instituição, pregar o erro e a corrupção. O Espírito de Verdade habitará nela para todo o sempre: prometeu-o formalmente Cristo. Formalmente mandou-nos o Senhor que obedecêssemos à Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1.000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva, sem nenhuma restrição. “Quem não ouve a Igreja, seja considerado como pagão ou pecador” (Mt 18, 17).

Ora, evidentemente, antes de Lutero existia uma Igreja, a Igreja católica, que por uma sucessão ininterrupta de pastores ascendia aos apóstolos, e, por meio dos apóstolos, ao próprio Cristo. Esta era a Igreja instituída pelo Salvador, esta a Igreja de que falam as promessas evangélicas. Fora dela, a história não conhece outra.

Quando nasceram as igrejas luteranas, calvinistas e anglicanas, já a Igreja católica tinha uma existência quinze vezes secular. Desde Jesus Cristo só há uma Igreja, a grande Igreja, como a chamavam os pagãos, a Igreja, simplesmente, sem epítetos derivados de nomes humanos, como a chamamos nós. Diante deste fato, afirmai agora que essa Igreja entrou a corromper-se no 4.º século e de todo adulterou a doutrina evangélica nas “trevas caliginosas da Idade Média” e tereis anulado as promessas de sua Providência, atributo distintivo da Divindade. Staudlin e Ochin são lógicos. Entre o catolicismo e o naturalismo deísta não há racionalmente meio termo. Se a Igreja católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos [3]. Se não, Jesus Cristo enganou-nos. Seitas cristãs acatólicas são superfetação parasitária destinada a uma existência efêmera.

Por uma feliz incoerência, porém, muitos protestantes não resvalaram até ao fundo do abismo. Parando à meia encosta, esforçam-se por conservar alguns restos de cristianismo. Mas nem estes deixaram de sentir o fio cortante do argumento: onde estava a Igreja antes de Lutero?

Pergunta capciosa? Não, pergunta molesta, pergunta irrespondível, pergunta que vale por si uma apologia inteira, pergunta inexoravelmente fatal ao protestantismo.

Referências

  1. Magazin de l’histoire de la religion, 3e. partie, p. 83.
  2. Citado na obra Dialogues sur le protestantisme, p. 55.
  3. Bem dizia aquele filósofo: Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Preguiçoso não entra no Céu
Espiritualidade

Preguiçoso não entra no Céu

Preguiçoso não entra no Céu

A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Mons. Ascânio Brandão14 de Novembro de 2017
imprimir

A Sagrada Escritura diz que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, porque ensina muita maldade (cf. Eclo 33, 29).

Comentando esta passagem, escreve S. Bernardo:

O ferro se enferruja quando não se usa. O ar se corrompe e gera doenças quando não é agitado por muito tempo. A água sem correnteza torna-se fétida e nela se desenvolvem os insetos. Assim também o corpo que se corrompe pela preguiça torna-se uma sede de todas as más inclinações.

A ociosidade é má conselheira. Por isto um Padre da Igreja dizia: “Um homem ocupado só tem um demônio para o tentar. O preguiçoso tem cem”.

A preguiça é um grande mal. É mãe de todos os males. Preguiçoso não entra no céu. O Reino dos Céus padece violência. Só quem luta o alcança.

Nosso Senhor no Evangelho nos fala tanto da luta, da penitência, da cruz, do sacrifício, da guerra às paixões. Como seguir o Mestre de braços cruzados, na ociosidade?

O preguiçoso não pode se salvar. A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Cuidado! Há uma preguiça espiritual verdadeiramente desastrada na piedade. É o mal dos nossos dias.

"Uma leitura interessante", de Miguel Jadraque y Sánchez Ocaña.

Muitos cristãos não perseveram na virtude por uma preguiça que os domina quando se trata das coisas eternas, do sacrifício, da luta pelo bem.

E queres saber quando nos domina esta preguiça espiritual? Eis os sinais:

  • Infidelidades contínuas à voz da consciência.
  • Um desprezo secreto das pessoas piedosas.
  • Distrações voluntárias e contínuas na oração.
  • Sacramentos recebidos com frieza e sem fruto.
  • Aborrecimento das coisas santas.
  • Inúmeras faltas repetidas e ausência de qualquer esforço para se corrigir.

Como sair deste triste estado?

Só há dois recursos: — Trabalho e Mortificação.

Referências

  • Transcrito e levemente adaptado de Meu ponto de meditação, do Padre Ascânio Brandão, Taubaté: Editora SCJ, 1941, p. 49s.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima
Virgem MariaTeologia

Os fundamentos da
escravidão à Virgem Santíssima

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima

O culto de escravidão sintetiza todos os cultos que devemos a Nossa Senhora, como Rainha que ela é de todo o universo.

Pe. Gabriel M. RoschiniTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2017
imprimir

Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, à Virgem SS. é devido, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. É este último ato de culto mariano que sintetiza todos os demais.

  • O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, venera-a antes de tudo, reconhecendo sua singular excelência.
  • Em segundo lugar, ama-a e faz tudo o que a agrada, evitando tudo o que possa aborrecê-la.
  • Enche-se de gratidão por Ela, devido aos grandes favores que dela recebeu.
  • Está cheio de confiança em sua Rainha, se sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em todas as suas necessidades.
  • O servo fiel à sua Rainha, enfim, se o é realmente, trata de imitá-la, uma vez que reconhece nEla o seu modelo ideal.

Eis aqui, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos do culto singular que devemos a Maria SS., Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

No conhecido Salmo 44, em que se celebram as núpcias do Rei messiânico, o autor inspirado não se esquece de ressaltar o culto de servidão tributado ao Rei incomparável e à Rainha, sua esposa, representada à sua direita. Diz-se do Rei que a ele se submeterão os povos (v. 6); põe-se de relevo a homenagem que lhe tributam suas filhas (v. 9). Depois, referindo-se à Rainha, o hagiógrafo nota como os habitantes de Tiro, uma das cidades ricas de então, vêm a Ela com seus presentes, e como os próceres do povo tratam de conquistar o seu favor (v. 13). Em outra parte, a Rainha é representada com um cortejo de virgens à sua volta, companheiras e servas suas, símbolo evidente daquela inumerável corte de almas — todas as almas verdadeiramente cristãs — que haveriam de servi-la.

Em outro lugar, prediz-se que todos os povos hão de servir o Rei messiânico: “Omnes gentes servient ei” (Sl 72, 11). Ora, não deveria dizer-se o mesmo da Rainha, Mãe e Esposa sua? Assim como Ela compartilha com Ele o domínio real sobre todas coisas, assim também deve compartilhar com Ele o culto de escravidão que lhe temos de tributar todos nós, já que o Rei e a Rainha constituem uma única pessoa moral.

O primeiro dos Padres da Igreja que se declarou expressamente “servo de Maria” foi, ao que parece, o diácono S. Efrém, o Sírio (306-373), chamado de “sol dos Sírios”, “harpa do Espírito Santo”, “o cantor de Maria”. Depois de proclamá-la “Senhora de todos os mortais”, S. Efrém se declara humildemente um “indigno servo seu”. Em seu primeiro canto de louvor a Maria, o santo lhe dirige esta ardente oração:

Ó Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo, esperança dos mais desesperados, gloriosíssima, ótima e honorabilíssima Senhora Nossa! Ó grande Princesa e Rainha, incomparável Virgem, puríssima e castíssima Senhora de todos os senhores, Mãe de Deus, nós nos entregamos e consagramos ao vosso serviço desde nossa infância. Levamos o nome de servos vossos.

Não permitais, pois, que Satanás, o espírito maligno, nos arraste para o inferno. Enchei de agora em diante a minha boca, ó Santa Senhora, com a doçura da vossa graça. Aceitai, ó Virgem Santa, que o teu humílimo servo vos louve e vos diga: Saúdo-vos, ó vaso magnifico e precioso de Deus! Saúdo-vos, Maria, Soberana minha cheia de graça! Saúdo-vos, Soberana de todas as criaturas! Saúdo-vos, cântico dos querubins, doce harmonia dos anjos! Saúdo-vos, hino dos solitários! Saúdo-vos, Soberana, que tendes em mãos o cetro sobre os vossos fiéis servos!

Fundamentos racionais. O fundamento último do culto mariano de singular servidão apóia-se no domínio completamente singular que a bem-aventurada Virgem exerce sobre todas as criaturas, como Rainha do universo. “O servo”, observa o Angélico, “diz relação a seu Senhor”. Onde há, pois, uma especial razão de senhorio e de domínio, haverá também uma razão especial de servidão.

Ora, que na Virgem SS. exista uma especial razão de domínio e de senhorio sobre todas as coisas, é algo que se segue de sua universal realeza. Podemos, portanto, concluir com Dionísio, o Cartuxo: “Ela domina e pode mandar em todas as criaturas, no céu e na terra”; ou com S. Bernardino de Sena: “Tantas são as criaturas que servem a Maria quantas são as que servem a SS. Trindade”.

O servo fiel de qualquer rainha da terra está contínua e habitualmente perto dela, sem nunca abandoná-la. É isto que tem de fazer, de modo análogo, o servo fiel da Rainha dos céus. Deve estar sempre junto dEla, não perdê-la nunca de vista, ou seja, deve ter o seu pensamento constantemente nEla. Pensar habitualmente em Maria SS. lhe tornará mais fácil pensar habitualmente em Deus. Viver, pois, na presença de Maria é viver, com maior facilidade, na presença de Deus.

Ora, o meio mais eficaz para vivermos assim, continuamente — tanto quanto for possível —, na presença de Maria, é estar profundamente persuadido de que a Virgem SS., de uma maneira misteriosa, está sempre presente em cada um de nós, com o pensamento, com o afeto, com as ações. Ela está conosco

  • pelo pensamento, já que continuamente nos vê em Deus;
  • pelo afeto, pois está presente ali onde está o seu amor, e a Virgem SS. nos ama a todos com um amor inefável de Mãe; e
  • pelas ações, uma vez que todas as graças que preservam e fazem desabrochar a nossa vida sobrenatural passam, como por um canal, pelas mãos de Maria.

Referências

  • Transcrito e adaptado da obra La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 363-389.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.