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“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista
Igreja CatólicaDoutrina

“Annabelle 2” e o poder do mal:
a avaliação de um exorcista

“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista

Filmes de terror normalmente são feitos para assustar, e nada mais. Se há alguma lição, entretanto, que podemos tirar de “Annabelle 2", é o fato de que Satanás só entra onde ele for convidado.

Kathy Schiffer,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Setembro de 2017
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Essa matéria revela detalhes importantes do enredo de "Annabelle 2: a Criação do Mal". Não se trata de um texto escrito propriamente pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo, mas da avaliação de um terceiro — como consta no próprio título que escolhemos para o artigo.

De maneira geral, a matéria está correta, o exorcista em questão analisa com muita cautela os elementos do filme, apontando com acerto os seus aspectos positivos e negativos e, justamente por essa razão, escolhemos traduzir e divulgar o texto para os nossos leitores. Em alguns pontos do texto, porém, o autor da matéria passa a impressão — exagerada, em nosso ponto de vista — de que "Annabelle" é um filme católico. É o que se depreende, principalmente, desta frase: "'Annabelle 2' foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo". No artigo original, o autor chega a se referir ao filme como "decidedly 'catholic'", isto é, "definitivamente católico". (Na primeira versão que publicamos da tradução, havíamos mantido a expressão, mas, depois, preferimos retirá-la.)

A afirmação é exagerada porque quem quer que tenha o costume de assistir a filmes de terror sabe bem que, normalmente, as produções desse gênero não têm como intenção retratar o mistério da fé — salvo raríssimas exceções. A "causa final" desses filmes é simplesmente passar medo, ponto final. "Annabelle" não foge à regra; as próprias inconsistências apresentadas abaixo pelo exorcista só se explicam a partir desse objetivo principal. É sem dúvida um ponto positivo que muitos elementos da trama tenham levado em conta os ensinamentos da Igreja em relação à possessão e ao exorcismo, mas é importante não aumentar muito o que é simplesmente... um ponto positivo, e nada mais.

Esse esclarecimento é importante para que muitas pessoas não confundam essa crítica com uma "aprovação irrestrita" ou uma "recomendação incondicional" de "Annabelle". Para falar a verdade, com exceção de filmes da vida dos santos, não é de praxe indicarmos filmes em nosso blog. Com relação especificamente a filmes de terror, já publicamos uma outra matéria aqui, a qual apresenta com muito mais fidelidade — e riqueza de detalhes — aquilo que pensamos a respeito desse gênero de produções. Acreditamos que complementa muito bem a matéria que vai a seguir.

Feitas todas essas importantes ressalvas, vamos ao texto.


O que as crianças lêem nos livros e vêem na televisão pode inspirá-las a crescer na fé. Por outro lado, adverte o Padre Robert, tudo isso também pode levá-las ao mundo perigoso do ocultismo, tornando-as vulneráveis até mesmo à possessão diabólica.

E Padre Robert não está exagerando. Como sacerdote trabalhando por mais de dez anos na área de exorcismos, ele conhece em primeira mão as consequências de quando crianças ou adultos abrem as portas para a atividade demoníaca. "Com muita frequência", ele diz, "uma possessão começa porque uma criança ficou curiosa depois de ler Harry Potter". Ele explica que as crianças aspiram pelos poderes incomuns que elas vêem sendo retratados nas telas.

Um ex-satanista que Padre Robert conheceu pessoalmente — um homem que abandonou sua vida passada e abraçou a fé católica — havia começado seu declínio rumo ao satanismo com a idade de nove ou dez anos, quando começou a brincar de um jogo chamado " Bloody Mary". Desde aquele início aparentemente inofensivo, ele começou a se envolver gradualmente com outras pessoas que eram satanistas.

Uma importante parte do ministério do Padre Robert consiste no treinamento de outros padres, ofício que ele desempenha no Instituto de Exorcismo oficial do Vaticano nos Estados Unidos. Padres católicos de todos os lugares do país e do mundo vêm a esse instituto para aprender os segredos desse ritual antigo, a fim de que também eles possam expulsar demônios e espíritos maus. A natureza do trabalho em que o Padre Robert e esse instituto estão envolvidos é tão arriscada que ele pede ao nosso site para não publicar o seu nome completo, nem tampouco revelar a sua localização.

Satanás só entra onde ele é convidado

Eu tive a oportunidade de me encontrar e conversar com o Padre Robert durante uma recente prévia do recém-lançado filme de terror "Annabelle 2: a Criação do Mal". (O filme foi lançado nos Estados Unidos no dia 11 de agosto e, no Brasil, no dia 17). Dirigido por David F. Sandberg, "Annabelle 2" é, na verdade, uma pré-sequência do sucesso de 2014, "Annabelle" — o qual, por sua vez, é também uma pré-sequência de "Invocação do Mal". O Padre Robert assistiu a todos eles e concordou que "Annabelle 2" foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo.

Padre Robert explicou que o demônio só vai entrar onde ele for convidado. Ele falou de dois casos com os quais lidou pessoalmente, em que duas jovens mulheres, não se atentando para a gravidade do que faziam, tinham convidado "um espírito" para ajudá-las. A consequência foi que elas começaram a demonstrar sintomas de possessão demoníaca e precisaram de um exorcismo.

Os escritores do filme, notou o Padre Robert, fizeram a sua lição de casa. Eles entenderam que o demônio só podia entrar na casa do fabricante de bonecas Samuel Mullins e de sua esposa Esther se fosse convidado. Em "Annabelle 2", Esther e Samuel Mullins estão de luto pela perda de sua querida filha Bee. Miranda Otto, que interpreta a mãe Esther no filme, explica:

Eles ficaram devastados, como qualquer pai ficaria. Mas, diferentemente da maioria, eles decidiram fazer qualquer coisa para ter a sua filha de volta… absolutamente qualquer coisa. Basicamente, então, eles rezaram, apelando para qualquer tipo de poder que lhes permitisse ver ou sentir, de qualquer forma, a presença dela. Mas, ao fazer isso, eles evocaram certos espíritos que não eram exatamente o tipo que você convidaria para entrar em sua casa.

Doze anos depois do trágico acidente, esse casal aflito procura conforto cedendo sua casa à Irmã Charlotte e a algumas meninas de um orfanato que havia sido fechado. Quando uma das garotas espreita o guarda-roupas e vê a boneca possuída, Annabelle, esta começa a perseguir as meninas, dando início a todo o terror da trama.

Algumas inconsistências

O Padre Robert e eu concordamos em que "Annabelle 2" é, em sua maior parte, fiel ao entendimento católico sobre exorcismo. Houve, no entanto, algumas cenas que fizeram com que ambos de nós franzíssemos as sobrancelhas:

Uma freira ouvindo confissão? — Houve uma cena específica na qual a Irmã Charlotte, interpretada pela talentosa Stephania Sigman, ouve a confissão de uma das jovens sob sua guarda. Concedamos, havia diferenças para uma confissão regular: a irmã e a menina se sentaram uma de costas para a outra, não em um confessionário. Mas o conceito de confissão foi renovado quando a Irmã Charlotte disse: "Bem, como penitência…" Particularmente no tempo em que a história se passava, o Padre Robert considera altamente improvável que uma irmã se colocasse na posição de aparecer desempenhando uma função sacramental exclusiva dos sacerdotes.

A Irmã Charlotte usa um hábito religioso moderno. — Com base nos estilos de roupa, nos automóveis clássicos e na casa de fazenda vitoriana, o filme "Annabelle 2" parece se passar no início do século XX. No entanto, a Irmã Charlotte usa o que parece ser um hábito religioso contemporâneo — com uma saia chegando só até os joelhos e um véu simples que deixa à mostra o seu cabelo. Quando perguntei ao diretor David Sandberg e à atriz Stephanie Sigman sobre isso durante nossa entrevista, ambos ficaram surpresos. Eles explicaram que haviam procurado por várias fotos de religiosas em diferentes hábitos, e tinham escolhido um traje simples que tornasse mais fácil à atriz fazer o seu papel. 

O modo como eles se livraram do objeto amaldiçoado. — Em "Annabelle 2", dois padres vêm à casa para fazer uma oração e aspergir água benta sobre a boneca antes de que ela seja trancada em um armário cheio de páginas recortadas das Escrituras. Não que essa fosse uma alternativa de todo inadequada, disse o Padre Robert, mas ele tinha certeza de que um exorcista jamais deixaria o objeto possuído ali intacto, com a possibilidade de ser encontrado por alguma pessoa no futuro. "Era necessário tirar a maldição do objeto", ele explicou. "Era possível queimá-lo ou destruí-lo, mas a maldição deveria ser 'quebrada' de alguma forma". Como exemplo de um objeto amaldiçoado, o Padre Robert descreveu um crucifixo que ele tem pendurado em seu escritório, e que foi queimado desde baixo durante um exorcismo, com o fogo consumindo o corpo e deixando somente os braços de Cristo crucificado. "Havia um corpo de plástico sobre a cruz", ele explicou. "A cruz em si mesma estava abençoada. Ela foi posta em um quarto com uma mulher que tinha praticado bruxaria no México. No meio da noite, a cruz pegou fogo e eu 'quebrei' a maldição que havia sobre ela. Eu jamais permitiria que alguém chegasse perto do crucifixo, porque ele poderia ser usado no futuro para algo ruim."

A cena do espantalho e do "diabo-da-tasmânia". — Uma cena na qual um espantalho é possuído pelo espírito mau e deslocado de sua posição original parece improvável, de acordo com o Padre Robert. Ele ficou igualmente cético quando o demônio começou a crescer e assumiu uma aparência física parecida com o que ele chamou de um "diabo-da-tasmânia".

Só quando convidado! — Em uma cena do filme, uma criança é possuída quando se vê na presença de um demônio que se manifesta como uma garotinha. O Padre Robert rejeitou a ideia de que um espírito mau pudesse habitar o corpo de uma criança que por acaso estivesse diante dele — já que, como ele explicou depois, um espírito mau só entra no corpo de uma pessoa se ele é convidado para tanto.

Cinco sinais de possessão

O Padre Robert listou ainda cinco sinais que podem indicar que uma pessoa está sofrendo um ataque espiritual:

  1. Conhecimento oculto. Se uma pessoa sabe de alguma coisa que não deveria saber, por exemplo, de uma informação privada que é conhecida apenas por algumas pessoas, isso pode sinalizar uma possessão demoníaca.
  2. Idiomas. Uma pessoa emdemoninhada pode ser capaz de falar em um idioma que não lhe é familiar, e que ela normalmente não saberia.
  3. Força sobre-humana. O Padre Robert contou um caso no qual uma jovem garota de 1,6 metros de altura e cerca de 50 quilos foi capaz de arremessar alguns homens grandes, impedindo-os de segurá-la durante um ritual de exorcismo.
  4. Aversão extrema às coisas sagradas. Uma pessoa que está possuída pode não ser capaz de olhar para um crucifixo, ou de tocar um rosário que foi abençoado. O Padre Robert mencionou uma mulher que não podia ficar na presença da cruz de São Bento, ou na presença do Santíssimo Sacramento.
  5. Levitação. O Padre Robert teve conhecimento pessoal de um caso, no estado norte-americano de Louisiana, no qual uma pessoa estava sentada em uma cadeira e, pelo poder do espírito mau, foi capaz de levitar com a cadeira e sair pelo corredor.

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"Annabelle 2: a Criação do Mal" foi lançado nos cinemas do Brasil no último dia 17 de agosto. Apesar das pequenas inconsistências apontadas pelo Padre Robert, o filme é respeitoso à fé. Ele consegue provocar com sucesso uma tensão nos espectadores, e há vários momentos em que realmente nos assustamos, mas a produção conta mais com efeitos espirituais e psicológicos que com sangue e violência propriamente ditos, tendendo a ganhar ampla divulgação entre os fãs do gênero terror. Classificado no Brasil para jovens acima de 14 anos, o filme é inadequado para crianças, evidentemente, mas outras pessoas podem assistir tranquilamente à trama, certas de que sua fé não será atingida.

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Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade
Oração

Conheça e aprenda
a rezar a Ladainha da Humildade

Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade

Uma oração simples, mas cativante, composta por um Cardeal da Igreja e amigo íntimo do Papa São Pio X.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2017
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Nesta oração composta pelo Cardeal Merry del Val, secretário do Estado do Vaticano durante o pontificado de São Pio X, peçamos juntos ao Senhor a graça da humildade de coração, alicerce da vida interior e remédio eficaz contra o pecado da soberba.

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser difamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu,
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído,
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado,
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado,
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas,
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

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Antes de Lutero, onde estava a Igreja de Cristo?
Igreja Católica

Antes de Lutero,
onde estava a Igreja de Cristo?

Antes de Lutero, onde estava a Igreja de Cristo?

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Pe. Leonel Franca16 de Novembro de 2017
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Da infalibilidade da Igreja deriva um corolário fatal a todas as heresias. Qualquer grupo de almas batizadas que se separa da comunhão dos fiéis e rompe com os ensinamentos e tradições antigas já está condenado pela sua própria novidade.

A Igreja de Cristo é una como a verdade. O Espírito Santo nela habita com a sua assistência continuada todos os dias, até a consumação dos tempos. Impossível assinalar uma época na história em que a Esposa do Verbo se tenha desviado da senda real da ortodoxia. As promessas divinas falhariam, Cristo deixaria de ser Deus e a religião por ele instituída afundaria para sempre no pego imenso das superstições humanas.

Após 15 séculos de cristianismo levante-se um monge no coração da Alemanha e lança ao mundo o pregão de uma reforma. Simples regeneração dos costumes?

Não, reforma doutrinal.

O que então se chamava doutrina cristã admitida pela Igreja universal era uma adulteração profunda do Evangelho, um acervo de superstições e idolatrias, patrocinadas pelo anticristo de Roma. A Igreja se havia apartado da verdadeira fé: era mister reconduzi-la às fontes genuínas do Evangelho.

Cristo errara a mão. Fundara uma sociedade fadada a destinos imortais. Plantara-a no mundo como cidade visível para acolher os eleitos. Mas apenas saída das suas mãos divinas, apenas o mundo pagão, com a paz de Constantino, viera buscar à sombra da cruz a verdade e a vida, a Igreja desfalece, corrompe-se, paganiza-se. Onze séculos de ignorância, de trevas e de superstições ensombraram a obra do Salvador.

"A entrega das chaves a S. Pedro", de Pietro Perugino.

Foi mister que um frade apóstata, sensual e orgulhoso apontasse no horizonte religioso da humanidade para reconduzi-la aos mananciais cristalinos do Evangelho, e, mais feliz, mais próvido, mais sábio, mais poderoso que o Cristo, fundasse uma nova Igreja de vitalidade menos efêmera, Igreja imorredoura e incorruptível, destinada a acolher sob as suas tendas as gerações do porvir. Eis a significação real do protestantismo. Eis outrossim a sua condenação, a seta fatal que se lhe embebeu no peito e há de arrastá-lo à morte inevitável.

Se Cristo é Deus, se Cristo fundou uma Igreja, essa é indefectível e imortal como as obras divinas. Mas se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa. Cristo enganou-nos, Cristo não é Deus, e o cristianismo é uma grande impostura. É tão forte a consequência que muitos protestantes por este motivo abjuraram o cristianismo. É o exemplo de Staudlin, que dizia:

Se na religião partimos de um princípio sobrenatural (como uma revelação, a Bíblia, por exemplo ou o Corão), cumpre necessariamente admitir que a Divindade, comunicando uma revelação ao homem, deve prover outrossim o modo de impedir que o sentido desta revelação não seja abandonado às arbitrariedades do juízo subjetivo. Esta inconsequência de Jesus Cristo não me permite considerá-lo senão como um sábio benfeitor. [1]

Ochin, outro protestante, que no dizer de Calvino, era mais sábio ele só que a Itália inteira, chegava pelo mesmo caminho à mesma conclusão. “Considerando, de um lado, como poderia a Igreja haver sido fundada por Jesus Cristo e regada com o seu sangue, e, do outro, como poderia ela ser fundamentalmente adulterada pelo catolicismo, como estamos vendo, conclui que aquele que a estabeleceu não podia ser o Filho de Deus; faltou-lhe evidentemente a Providência” [2]. E Ochin, renunciando ao protestantismo, fez-se judeu.

Nada, com efeito, mais diametralmente oposto aos ensinamentos e promessas do Evangelho do que a ideia de uma Igreja que pode desgarrar da sua primeira instituição, pregar o erro e a corrupção. O Espírito de Verdade habitará nela para todo o sempre: prometeu-o formalmente Cristo. Formalmente mandou-nos o Senhor que obedecêssemos à Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1.000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva, sem nenhuma restrição. “Quem não ouve a Igreja, seja considerado como pagão ou pecador” (Mt 18, 17).

Ora, evidentemente, antes de Lutero existia uma Igreja, a Igreja católica, que por uma sucessão ininterrupta de pastores ascendia aos apóstolos, e, por meio dos apóstolos, ao próprio Cristo. Esta era a Igreja instituída pelo Salvador, esta a Igreja de que falam as promessas evangélicas. Fora dela, a história não conhece outra.

Quando nasceram as igrejas luteranas, calvinistas e anglicanas, já a Igreja católica tinha uma existência quinze vezes secular. Desde Jesus Cristo só há uma Igreja, a grande Igreja, como a chamavam os pagãos, a Igreja, simplesmente, sem epítetos derivados de nomes humanos, como a chamamos nós. Diante deste fato, afirmai agora que essa Igreja entrou a corromper-se no 4.º século e de todo adulterou a doutrina evangélica nas “trevas caliginosas da Idade Média” e tereis anulado as promessas de sua Providência, atributo distintivo da Divindade. Staudlin e Ochin são lógicos. Entre o catolicismo e o naturalismo deísta não há racionalmente meio termo. Se a Igreja católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos [3]. Se não, Jesus Cristo enganou-nos. Seitas cristãs acatólicas são superfetação parasitária destinada a uma existência efêmera.

Por uma feliz incoerência, porém, muitos protestantes não resvalaram até ao fundo do abismo. Parando à meia encosta, esforçam-se por conservar alguns restos de cristianismo. Mas nem estes deixaram de sentir o fio cortante do argumento: onde estava a Igreja antes de Lutero?

Pergunta capciosa? Não, pergunta molesta, pergunta irrespondível, pergunta que vale por si uma apologia inteira, pergunta inexoravelmente fatal ao protestantismo.

Referências

  1. Magazin de l’histoire de la religion, 3e. partie, p. 83.
  2. Citado na obra Dialogues sur le protestantisme, p. 55.
  3. Bem dizia aquele filósofo: Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes.

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Preguiçoso não entra no Céu
Espiritualidade

Preguiçoso não entra no Céu

Preguiçoso não entra no Céu

A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Mons. Ascânio Brandão14 de Novembro de 2017
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A Sagrada Escritura diz que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, porque ensina muita maldade (cf. Eclo 33, 29).

Comentando esta passagem, escreve S. Bernardo:

O ferro se enferruja quando não se usa. O ar se corrompe e gera doenças quando não é agitado por muito tempo. A água sem correnteza torna-se fétida e nela se desenvolvem os insetos. Assim também o corpo que se corrompe pela preguiça torna-se uma sede de todas as más inclinações.

A ociosidade é má conselheira. Por isto um Padre da Igreja dizia: “Um homem ocupado só tem um demônio para o tentar. O preguiçoso tem cem”.

A preguiça é um grande mal. É mãe de todos os males. Preguiçoso não entra no céu. O Reino dos Céus padece violência. Só quem luta o alcança.

Nosso Senhor no Evangelho nos fala tanto da luta, da penitência, da cruz, do sacrifício, da guerra às paixões. Como seguir o Mestre de braços cruzados, na ociosidade?

O preguiçoso não pode se salvar. A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Cuidado! Há uma preguiça espiritual verdadeiramente desastrada na piedade. É o mal dos nossos dias.

"Uma leitura interessante", de Miguel Jadraque y Sánchez Ocaña.

Muitos cristãos não perseveram na virtude por uma preguiça que os domina quando se trata das coisas eternas, do sacrifício, da luta pelo bem.

E queres saber quando nos domina esta preguiça espiritual? Eis os sinais:

  • Infidelidades contínuas à voz da consciência.
  • Um desprezo secreto das pessoas piedosas.
  • Distrações voluntárias e contínuas na oração.
  • Sacramentos recebidos com frieza e sem fruto.
  • Aborrecimento das coisas santas.
  • Inúmeras faltas repetidas e ausência de qualquer esforço para se corrigir.

Como sair deste triste estado?

Só há dois recursos: — Trabalho e Mortificação.

Referências

  • Transcrito e levemente adaptado de Meu ponto de meditação, do Padre Ascânio Brandão, Taubaté: Editora SCJ, 1941, p. 49s.

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Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima
Virgem MariaTeologia

Os fundamentos da
escravidão à Virgem Santíssima

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima

O culto de escravidão sintetiza todos os cultos que devemos a Nossa Senhora, como Rainha que ela é de todo o universo.

Pe. Gabriel M. RoschiniTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2017
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Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, à Virgem SS. é devido, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. É este último ato de culto mariano que sintetiza todos os demais.

  • O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, venera-a antes de tudo, reconhecendo sua singular excelência.
  • Em segundo lugar, ama-a e faz tudo o que a agrada, evitando tudo o que possa aborrecê-la.
  • Enche-se de gratidão por Ela, devido aos grandes favores que dela recebeu.
  • Está cheio de confiança em sua Rainha, se sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em todas as suas necessidades.
  • O servo fiel à sua Rainha, enfim, se o é realmente, trata de imitá-la, uma vez que reconhece nEla o seu modelo ideal.

Eis aqui, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos do culto singular que devemos a Maria SS., Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

No conhecido Salmo 44, em que se celebram as núpcias do Rei messiânico, o autor inspirado não se esquece de ressaltar o culto de servidão tributado ao Rei incomparável e à Rainha, sua esposa, representada à sua direita. Diz-se do Rei que a ele se submeterão os povos (v. 6); põe-se de relevo a homenagem que lhe tributam suas filhas (v. 9). Depois, referindo-se à Rainha, o hagiógrafo nota como os habitantes de Tiro, uma das cidades ricas de então, vêm a Ela com seus presentes, e como os próceres do povo tratam de conquistar o seu favor (v. 13). Em outra parte, a Rainha é representada com um cortejo de virgens à sua volta, companheiras e servas suas, símbolo evidente daquela inumerável corte de almas — todas as almas verdadeiramente cristãs — que haveriam de servi-la.

Em outro lugar, prediz-se que todos os povos hão de servir o Rei messiânico: “Omnes gentes servient ei” (Sl 72, 11). Ora, não deveria dizer-se o mesmo da Rainha, Mãe e Esposa sua? Assim como Ela compartilha com Ele o domínio real sobre todas coisas, assim também deve compartilhar com Ele o culto de escravidão que lhe temos de tributar todos nós, já que o Rei e a Rainha constituem uma única pessoa moral.

O primeiro dos Padres da Igreja que se declarou expressamente “servo de Maria” foi, ao que parece, o diácono S. Efrém, o Sírio (306-373), chamado de “sol dos Sírios”, “harpa do Espírito Santo”, “o cantor de Maria”. Depois de proclamá-la “Senhora de todos os mortais”, S. Efrém se declara humildemente um “indigno servo seu”. Em seu primeiro canto de louvor a Maria, o santo lhe dirige esta ardente oração:

Ó Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo, esperança dos mais desesperados, gloriosíssima, ótima e honorabilíssima Senhora Nossa! Ó grande Princesa e Rainha, incomparável Virgem, puríssima e castíssima Senhora de todos os senhores, Mãe de Deus, nós nos entregamos e consagramos ao vosso serviço desde nossa infância. Levamos o nome de servos vossos.

Não permitais, pois, que Satanás, o espírito maligno, nos arraste para o inferno. Enchei de agora em diante a minha boca, ó Santa Senhora, com a doçura da vossa graça. Aceitai, ó Virgem Santa, que o teu humílimo servo vos louve e vos diga: Saúdo-vos, ó vaso magnifico e precioso de Deus! Saúdo-vos, Maria, Soberana minha cheia de graça! Saúdo-vos, Soberana de todas as criaturas! Saúdo-vos, cântico dos querubins, doce harmonia dos anjos! Saúdo-vos, hino dos solitários! Saúdo-vos, Soberana, que tendes em mãos o cetro sobre os vossos fiéis servos!

Fundamentos racionais. O fundamento último do culto mariano de singular servidão apóia-se no domínio completamente singular que a bem-aventurada Virgem exerce sobre todas as criaturas, como Rainha do universo. “O servo”, observa o Angélico, “diz relação a seu Senhor”. Onde há, pois, uma especial razão de senhorio e de domínio, haverá também uma razão especial de servidão.

Ora, que na Virgem SS. exista uma especial razão de domínio e de senhorio sobre todas as coisas, é algo que se segue de sua universal realeza. Podemos, portanto, concluir com Dionísio, o Cartuxo: “Ela domina e pode mandar em todas as criaturas, no céu e na terra”; ou com S. Bernardino de Sena: “Tantas são as criaturas que servem a Maria quantas são as que servem a SS. Trindade”.

O servo fiel de qualquer rainha da terra está contínua e habitualmente perto dela, sem nunca abandoná-la. É isto que tem de fazer, de modo análogo, o servo fiel da Rainha dos céus. Deve estar sempre junto dEla, não perdê-la nunca de vista, ou seja, deve ter o seu pensamento constantemente nEla. Pensar habitualmente em Maria SS. lhe tornará mais fácil pensar habitualmente em Deus. Viver, pois, na presença de Maria é viver, com maior facilidade, na presença de Deus.

Ora, o meio mais eficaz para vivermos assim, continuamente — tanto quanto for possível —, na presença de Maria, é estar profundamente persuadido de que a Virgem SS., de uma maneira misteriosa, está sempre presente em cada um de nós, com o pensamento, com o afeto, com as ações. Ela está conosco

  • pelo pensamento, já que continuamente nos vê em Deus;
  • pelo afeto, pois está presente ali onde está o seu amor, e a Virgem SS. nos ama a todos com um amor inefável de Mãe; e
  • pelas ações, uma vez que todas as graças que preservam e fazem desabrochar a nossa vida sobrenatural passam, como por um canal, pelas mãos de Maria.

Referências

  • Transcrito e adaptado da obra La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 363-389.

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