CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista
Igreja CatólicaDoutrina

“Annabelle 2” e o poder do mal:
a avaliação de um exorcista

“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista

Filmes de terror normalmente são feitos para assustar, e nada mais. Se há alguma lição, entretanto, que podemos tirar de “Annabelle 2", é o fato de que Satanás só entra onde ele for convidado.

Kathy Schiffer,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Setembro de 2017
imprimir

Essa matéria revela detalhes importantes do enredo de "Annabelle 2: a Criação do Mal". Não se trata de um texto escrito propriamente pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo, mas da avaliação de um terceiro — como consta no próprio título que escolhemos para o artigo.

De maneira geral, a matéria está correta, o exorcista em questão analisa com muita cautela os elementos do filme, apontando com acerto os seus aspectos positivos e negativos e, justamente por essa razão, escolhemos traduzir e divulgar o texto para os nossos leitores. Em alguns pontos do texto, porém, o autor da matéria passa a impressão — exagerada, em nosso ponto de vista — de que "Annabelle" é um filme católico. É o que se depreende, principalmente, desta frase: "'Annabelle 2' foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo". No artigo original, o autor chega a se referir ao filme como "decidedly 'catholic'", isto é, "definitivamente católico". (Na primeira versão que publicamos da tradução, havíamos mantido a expressão, mas, depois, preferimos retirá-la.)

A afirmação é exagerada porque quem quer que tenha o costume de assistir a filmes de terror sabe bem que, normalmente, as produções desse gênero não têm como intenção retratar o mistério da fé — salvo raríssimas exceções. A "causa final" desses filmes é simplesmente passar medo, ponto final. "Annabelle" não foge à regra; as próprias inconsistências apresentadas abaixo pelo exorcista só se explicam a partir desse objetivo principal. É sem dúvida um ponto positivo que muitos elementos da trama tenham levado em conta os ensinamentos da Igreja em relação à possessão e ao exorcismo, mas é importante não aumentar muito o que é simplesmente... um ponto positivo, e nada mais.

Esse esclarecimento é importante para que muitas pessoas não confundam essa crítica com uma "aprovação irrestrita" ou uma "recomendação incondicional" de "Annabelle". Para falar a verdade, com exceção de filmes da vida dos santos, não é de praxe indicarmos filmes em nosso blog. Com relação especificamente a filmes de terror, já publicamos uma outra matéria aqui, a qual apresenta com muito mais fidelidade — e riqueza de detalhes — aquilo que pensamos a respeito desse gênero de produções. Acreditamos que complementa muito bem a matéria que vai a seguir.

Feitas todas essas importantes ressalvas, vamos ao texto.


O que as crianças lêem nos livros e vêem na televisão pode inspirá-las a crescer na fé. Por outro lado, adverte o Padre Robert, tudo isso também pode levá-las ao mundo perigoso do ocultismo, tornando-as vulneráveis até mesmo à possessão diabólica.

E Padre Robert não está exagerando. Como sacerdote trabalhando por mais de dez anos na área de exorcismos, ele conhece em primeira mão as consequências de quando crianças ou adultos abrem as portas para a atividade demoníaca. "Com muita frequência", ele diz, "uma possessão começa porque uma criança ficou curiosa depois de ler Harry Potter". Ele explica que as crianças aspiram pelos poderes incomuns que elas vêem sendo retratados nas telas.

Um ex-satanista que Padre Robert conheceu pessoalmente — um homem que abandonou sua vida passada e abraçou a fé católica — havia começado seu declínio rumo ao satanismo com a idade de nove ou dez anos, quando começou a brincar de um jogo chamado " Bloody Mary". Desde aquele início aparentemente inofensivo, ele começou a se envolver gradualmente com outras pessoas que eram satanistas.

Uma importante parte do ministério do Padre Robert consiste no treinamento de outros padres, ofício que ele desempenha no Instituto de Exorcismo oficial do Vaticano nos Estados Unidos. Padres católicos de todos os lugares do país e do mundo vêm a esse instituto para aprender os segredos desse ritual antigo, a fim de que também eles possam expulsar demônios e espíritos maus. A natureza do trabalho em que o Padre Robert e esse instituto estão envolvidos é tão arriscada que ele pede ao nosso site para não publicar o seu nome completo, nem tampouco revelar a sua localização.

Satanás só entra onde ele é convidado

Eu tive a oportunidade de me encontrar e conversar com o Padre Robert durante uma recente prévia do recém-lançado filme de terror "Annabelle 2: a Criação do Mal". (O filme foi lançado nos Estados Unidos no dia 11 de agosto e, no Brasil, no dia 17). Dirigido por David F. Sandberg, "Annabelle 2" é, na verdade, uma pré-sequência do sucesso de 2014, "Annabelle" — o qual, por sua vez, é também uma pré-sequência de "Invocação do Mal". O Padre Robert assistiu a todos eles e concordou que "Annabelle 2" foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo.

Padre Robert explicou que o demônio só vai entrar onde ele for convidado. Ele falou de dois casos com os quais lidou pessoalmente, em que duas jovens mulheres, não se atentando para a gravidade do que faziam, tinham convidado "um espírito" para ajudá-las. A consequência foi que elas começaram a demonstrar sintomas de possessão demoníaca e precisaram de um exorcismo.

Os escritores do filme, notou o Padre Robert, fizeram a sua lição de casa. Eles entenderam que o demônio só podia entrar na casa do fabricante de bonecas Samuel Mullins e de sua esposa Esther se fosse convidado. Em "Annabelle 2", Esther e Samuel Mullins estão de luto pela perda de sua querida filha Bee. Miranda Otto, que interpreta a mãe Esther no filme, explica:

Eles ficaram devastados, como qualquer pai ficaria. Mas, diferentemente da maioria, eles decidiram fazer qualquer coisa para ter a sua filha de volta… absolutamente qualquer coisa. Basicamente, então, eles rezaram, apelando para qualquer tipo de poder que lhes permitisse ver ou sentir, de qualquer forma, a presença dela. Mas, ao fazer isso, eles evocaram certos espíritos que não eram exatamente o tipo que você convidaria para entrar em sua casa.

Doze anos depois do trágico acidente, esse casal aflito procura conforto cedendo sua casa à Irmã Charlotte e a algumas meninas de um orfanato que havia sido fechado. Quando uma das garotas espreita o guarda-roupas e vê a boneca possuída, Annabelle, esta começa a perseguir as meninas, dando início a todo o terror da trama.

Algumas inconsistências

O Padre Robert e eu concordamos em que "Annabelle 2" é, em sua maior parte, fiel ao entendimento católico sobre exorcismo. Houve, no entanto, algumas cenas que fizeram com que ambos de nós franzíssemos as sobrancelhas:

Uma freira ouvindo confissão? — Houve uma cena específica na qual a Irmã Charlotte, interpretada pela talentosa Stephania Sigman, ouve a confissão de uma das jovens sob sua guarda. Concedamos, havia diferenças para uma confissão regular: a irmã e a menina se sentaram uma de costas para a outra, não em um confessionário. Mas o conceito de confissão foi renovado quando a Irmã Charlotte disse: "Bem, como penitência…" Particularmente no tempo em que a história se passava, o Padre Robert considera altamente improvável que uma irmã se colocasse na posição de aparecer desempenhando uma função sacramental exclusiva dos sacerdotes.

A Irmã Charlotte usa um hábito religioso moderno. — Com base nos estilos de roupa, nos automóveis clássicos e na casa de fazenda vitoriana, o filme "Annabelle 2" parece se passar no início do século XX. No entanto, a Irmã Charlotte usa o que parece ser um hábito religioso contemporâneo — com uma saia chegando só até os joelhos e um véu simples que deixa à mostra o seu cabelo. Quando perguntei ao diretor David Sandberg e à atriz Stephanie Sigman sobre isso durante nossa entrevista, ambos ficaram surpresos. Eles explicaram que haviam procurado por várias fotos de religiosas em diferentes hábitos, e tinham escolhido um traje simples que tornasse mais fácil à atriz fazer o seu papel. 

O modo como eles se livraram do objeto amaldiçoado. — Em "Annabelle 2", dois padres vêm à casa para fazer uma oração e aspergir água benta sobre a boneca antes de que ela seja trancada em um armário cheio de páginas recortadas das Escrituras. Não que essa fosse uma alternativa de todo inadequada, disse o Padre Robert, mas ele tinha certeza de que um exorcista jamais deixaria o objeto possuído ali intacto, com a possibilidade de ser encontrado por alguma pessoa no futuro. "Era necessário tirar a maldição do objeto", ele explicou. "Era possível queimá-lo ou destruí-lo, mas a maldição deveria ser 'quebrada' de alguma forma". Como exemplo de um objeto amaldiçoado, o Padre Robert descreveu um crucifixo que ele tem pendurado em seu escritório, e que foi queimado desde baixo durante um exorcismo, com o fogo consumindo o corpo e deixando somente os braços de Cristo crucificado. "Havia um corpo de plástico sobre a cruz", ele explicou. "A cruz em si mesma estava abençoada. Ela foi posta em um quarto com uma mulher que tinha praticado bruxaria no México. No meio da noite, a cruz pegou fogo e eu 'quebrei' a maldição que havia sobre ela. Eu jamais permitiria que alguém chegasse perto do crucifixo, porque ele poderia ser usado no futuro para algo ruim."

A cena do espantalho e do "diabo-da-tasmânia". — Uma cena na qual um espantalho é possuído pelo espírito mau e deslocado de sua posição original parece improvável, de acordo com o Padre Robert. Ele ficou igualmente cético quando o demônio começou a crescer e assumiu uma aparência física parecida com o que ele chamou de um "diabo-da-tasmânia".

Só quando convidado! — Em uma cena do filme, uma criança é possuída quando se vê na presença de um demônio que se manifesta como uma garotinha. O Padre Robert rejeitou a ideia de que um espírito mau pudesse habitar o corpo de uma criança que por acaso estivesse diante dele — já que, como ele explicou depois, um espírito mau só entra no corpo de uma pessoa se ele é convidado para tanto.

Cinco sinais de possessão

O Padre Robert listou ainda cinco sinais que podem indicar que uma pessoa está sofrendo um ataque espiritual:

  1. Conhecimento oculto. Se uma pessoa sabe de alguma coisa que não deveria saber, por exemplo, de uma informação privada que é conhecida apenas por algumas pessoas, isso pode sinalizar uma possessão demoníaca.
  2. Idiomas. Uma pessoa emdemoninhada pode ser capaz de falar em um idioma que não lhe é familiar, e que ela normalmente não saberia.
  3. Força sobre-humana. O Padre Robert contou um caso no qual uma jovem garota de 1,6 metros de altura e cerca de 50 quilos foi capaz de arremessar alguns homens grandes, impedindo-os de segurá-la durante um ritual de exorcismo.
  4. Aversão extrema às coisas sagradas. Uma pessoa que está possuída pode não ser capaz de olhar para um crucifixo, ou de tocar um rosário que foi abençoado. O Padre Robert mencionou uma mulher que não podia ficar na presença da cruz de São Bento, ou na presença do Santíssimo Sacramento.
  5. Levitação. O Padre Robert teve conhecimento pessoal de um caso, no estado norte-americano de Louisiana, no qual uma pessoa estava sentada em uma cadeira e, pelo poder do espírito mau, foi capaz de levitar com a cadeira e sair pelo corredor.

Quer estudar a fundo esse assunto? Conheça o nosso curso de Demonologia!


"Annabelle 2: a Criação do Mal" foi lançado nos cinemas do Brasil no último dia 17 de agosto. Apesar das pequenas inconsistências apontadas pelo Padre Robert, o filme é respeitoso à fé. Ele consegue provocar com sucesso uma tensão nos espectadores, e há vários momentos em que realmente nos assustamos, mas a produção conta mais com efeitos espirituais e psicológicos que com sangue e violência propriamente ditos, tendendo a ganhar ampla divulgação entre os fãs do gênero terror. Classificado no Brasil para jovens acima de 14 anos, o filme é inadequado para crianças, evidentemente, mas outras pessoas podem assistir tranquilamente à trama, certas de que sua fé não será atingida.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Cristãos encurralados na Bolívia
Comunismo

Cristãos encurralados na Bolívia

Cristãos encurralados na Bolívia

Denúncia: com o novo Código Penal boliviano, pregadores cristãos serão proibidos de evangelizar nos país de Evo Morales. Mas na mídia, dentro e fora do Brasil, nada se fala.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2018
imprimir

Os cristãos estão encurralados na Bolívia. O novo Código Penal do país criminaliza com penas de 7 a 12 anos de prisão o recrutamento de pessoas para organizações religiosas ou de culto. Um verdadeiro atentado à liberdade religiosa. O que deveria constar das manchetes jornalísticas e chamadas televisivas, no entanto, só foi abordado até o momento pelo jornal Gazeta do Povo.

A íntegra da nova lei, promulgada no último mês de dezembro, encontra-se disponível na internet. O artigo em questão é o 88, inc. I, que criminaliza a trata de pessoas (em português, “tráfico”):

Será sancionada, com prisão de sete (7) a doze (12) anos e reparação econômica, a pessoa que, por si mesma ou através de terceiros, sequestrar, transportar, trasladar, privar de liberdade, acolher ou receber pessoas com alguns dos seguintes fins:

[...]

11. Recrutamento de pessoas para sua participação em conflitos armados ou em organizações religiosas ou de culto.

A advogada e professora Janaína Paschoal foi entrevistada pelo jornal Gazeta do Povo e qualificou esse dispositivo do novo Código Penal boliviano como “assustador” e “inaceitável”:

Ainda que não se utilize expressamente a terminologia da criminalização da religião, é óbvio que é isso o que o dispositivo está fazendo, porque inclusive equipara o exercício da religião à luta armada [...].

Uma vez entrando em vigor este Código, os líderes religiosos de quaisquer confissões — é importante que isso seja dito — passarão a ser presos. E as pessoas que professem as fés (sic), sejam elas quais forem, também passarão a ser presas, porque o dispositivo é extremamente aberto e fica evidente que está havendo uma criminalização. Isso é inaceitável, não só à luz das Constituições nacionais, mas à luz de todos os tratados internacionais. É o caso de denunciar, sim, aos tribunais internacionais. Ainda não tem uma lesão efetiva aos direitos fundamentais desses indivíduos, mas a própria edição dessa lei já constitui uma lesão.

É importante destacar que, embora o artigo em questão não especifique credo nenhum, em um país com maioria esmagadora de cristãos — um censo recente feito na Bolívia fala de 78% de católicos e 19% de protestantes —, não há dúvida de que o alvo pretendido por esta lei iníqua não é outro senão o cristianismo.

Os cristãos, por sua vez, captaram bem a mensagem do texto legal, como se pode ver nos vídeos abaixo:

Será talvez necessário explicitar qual a ideologia por trás desse atentado à liberdade religiosa? Por que Evo Morales pretende mandar à cadeia bispos, sacerdotes e pastores simplesmente por pregarem o Evangelho?

Uma comparação feita pelo sítio católico espanhol Actuall talvez nos ajude a entender melhor a natureza do problema. O que está acontecendo hoje na Bolívia se parece muito com atitudes tomadas por ditadores como Mao Tsé-Tung e Stálin, ambos comunistas. Não sem razão Evo Morales pertence a um partido denominado Movimiento al Socialismo e, à semelhança de outra ditadura da América Latina, pretende prolongar-se indefinidamente no poder. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Regimes comunistas nunca conseguiram conviver bem com a liberdade religiosa, muito menos com a religião cristã.

Esse mesmo Código Penal contém muitos outros absurdos — que estão levando inúmeros jovens bolivianos às ruas —, mas isso talvez fosse oportunidade para uma outra matéria. O que interessa saber, por ora, é que a perseguição ao cristianismo, já fortíssima em determinadas partes do mundo, agora começa a se expandir também para a América Latina, em países que fazem fronteiras com o nosso.

É evidente que ninguém está falando de decapitações e crucificações, como acontece em países islâmicos, mas o que se passa aqui, ao nosso lado, já é aterrorizante o suficiente e, como sabemos, é assim que as perseguições escancaradas e as grandes matanças começam.

Os cristãos estão sendo encurralados na Bolívia. Mas, curiosamente — alguns diriam —, tragicamente — dizemos nós —, nos meios de comunicação ninguém fala absolutamente nada.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O caminho para a verdadeira felicidade começa em Nossa Senhora
Virgem Maria

O caminho para a verdadeira
felicidade começa em Nossa Senhora

O caminho para a verdadeira felicidade começa em Nossa Senhora

A devoção à Virgem Maria está no coração do cristianismo. Isso se deve ao fato de que o próprio Deus quis ter uma mãe para si, tornando a maternidade um conceito profundamente relacionado à cristandade.

Francis Phillips,  Catholic HeraldTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2018
imprimir

Diz um antigo provérbio francês que “Deus amou tanto as mães que desejou ter uma também”. Há nisto um sentido tão sublime quanto humano. Quando penso em Nossa Senhora, não penso em seus títulos gloriosos ou nos impecáveis argumentos teológicos que os baseiam; vejo simplesmente uma Mãe. Enquanto Mãe de Deus e, portanto, Mãe da Igreja, Maria confere à fé cristã uma dimensão materna muito atraente, já que ela mesma foi total e belamente humana.

Nenhuma outra religião possui um ícone mais carinhoso do que ela. Anos atrás, em visita a uma exposição de arte asteca, fui surpreendido por sua violência latente e pelo fato de que o conceito “mãe e filho” não pertencia ao universo de referência dos astecas. Isso me fez lembrar o quanto esse conceito está profundamente relacionado à nossa civilização cristã. Prova disso são as grandes catedrais góticas a Maria, além das várias pinturas que a retratam.

Vislumbres da misteriosa força exercida pela personalidade de Nossa Senhora podem ser encontrados em “Regina Coeli: Artes e Artigos sobre a Virgem Maria”, do Pe. Michael Morris, um livro que reúne alguns de seus comentários mensais para a revista Magnificat. De acordo com ele, durante os séculos em que a arte religiosa dominou e floresceu no Ocidente, Nossa Senhora parece ter sido pintada tanto ou até mais mais do que seu divino Filho. Sua beleza espiritual, sua ternura maternal, sua nobreza de estado e conduta têm inspirado artistas a dar o máximo de si.

A Imaculada Conceição de Velázquez.

Não só isso. Nossa Senhora inspirou também devoções populares. De fato, a Arte com maiúscula não teria sentido sem o amor dos fiéis comuns à Virgem Santíssima. Em um de seus artigos, Pe. Morris descreve a Imaculada Conceição do pintor espanhol Velázquez. Morris afirma que, durante a Contra-Reforma na Espanha, havia um grande entusiasmo popular por esse privilégio mariano. Quando o Papa Pio V alinhou-se à defesa scotista da Imaculada Conceição, declarando como “menos piedosa” a opinião tomista segundo a qual Maria não teria sido concebida sem pecado, mas santificada no ventre, dispararam-se fogos de artifícios, dançaram-se carnavais, jogaram-se torneios e touradas por todo o país.

Na última noite do ano (ou nas vésperas da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, como dizemos os católicos), o som dos fogos reverberou por todo o meu bairro. É incrível que na sociedade de hoje os fogos ainda sejam usados para celebrar uma obscura, ao menos em aparência, crença católica; o espírito de fé que animou os espanhóis do século XVII, afinal, já acabou.

Em seu livro, Pe. Morris menciona ainda a presença de S. Bárbara na Madona Sistina, de Rafael. Acredita-se que S. Bárbara, aprisionada em uma torre pelo pai, um pagão, tenha dado origem à fábula de Rapunzel. J. R. R. Tolkien, citado no livro do Pe. Morris, disse certa vez: “Toda minha percepção de beleza, tanto em majestade quanto em simplicidade, é fundada em Nossa Senhora”. A boa notícia é que, graças ao consentimento dela para se tornar Mãe de Deus, todos podemos, como na história de Rapunzel, “viver felizes para sempre”.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Os livros de fantasia podem nos fazer mal?
Doutrina

Os livros de fantasia
podem nos fazer mal?

Os livros de fantasia podem nos fazer mal?

“A fantasia pode, é claro, ser levada ao excesso”, e é o próprio Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, quem o reconhece. “Mas de que coisa humana neste mundo caído isso não é verdade?”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2018
imprimir

O curso ao qual Padre Paulo Ricardo está dando andamento sobre “O Senhor dos Anéis dá ocasião de respondermos a alguns questionamentos importantes. Em nossa primeira transmissão ao vivo, uma dúvida anônima, que é certamente a de muitas pessoas, versava o seguinte:

Para aquelas pessoas que não perceberam e não sabem desta chave de leitura cristã de “O Senhor dos Anéis”, até que ponto mergulhar nesse mundo fictício contribuiria para seu desenvolvimento espiritual cristão? E como um mundo mágico desta natureza e que encanta, poderia não abrir os corações dos jovens para uma nova filosofia de vida mágica, de mistérios e poderes ocultos, nesta sociedade do “tudo, menos Deus”?

A preocupação deste aluno podia muito bem ser a de um pai ou de um educador. Existe por parte de muitos formadores o receio de que essa imersão na literatura fantástica acabe conduzindo crianças e adolescentes ao mundo do ocultismo.

A preocupação, reconheçamos, tem sua razão de ser. Tolkien iniciou, de fato, todo um gênero literário, que ficou bastante famoso e que se tornou uma verdadeira indústria de livros, mas isso não significa que tudo quanto saia da pena de escritores de fantasia seja belo, bom e justo.

A esta indagação, no entanto, o próprio J. R. R. Tolkien respondeu, certa vez, do seguinte modo:

A Fantasia pode, é claro, ser levada ao excesso. Pode ser malfeita. Pode ser posta a serviço de fins maus. Pode mesmo iludir as mentes das quais veio. Mas de que coisa humana neste mundo caído isso não é verdade? Os homens conceberam não apenas elfos, mas imaginaram deuses, e os adoraram, adoraram mesmo aqueles mais deformados pelo próprio mal de seus autores. Mas eles fizeram falsos deuses com outros materiais: suas idéias, suas bandeiras, seus dinheiros; até suas ciências e suas teorias sociais e econômicas exigiram sacrifício humano. Abusus non tollit usum. A Fantasia permanece um direito humano; criamos na nossa medida e ao nosso modo derivativo, porque fomos criados: e não apenas criados, mas criados à imagem e semelhança de um Criador. [1]

Esperamos que essa resposta esclarecedora, vinda do próprio “senhor da fantasia”, ajude nossos alunos e visitantes a entenderem que histórias de ficção não são más em si mesmas, assim como não é mau o facão que um açougueiro pode usar tanto para cortar carne quanto para matar alguém, assim como não é mau o álcool do vinho que Cristo deu aos convidados das bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-11).

Não, o abuso que muitos fazem de determinadas coisas não as torna ruins. Continuamos devendo usar de modo sensato os bens que Deus colocou à nossa disposição. Sem os endeusarmos. Sem os demonizarmos indevidamente. “Idolatria se comete”, afinal, “não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia” [2].

Referências

  1. J. R. R. Tolkien. Sobre histórias de fadas (trad. de Ronald Kyrmse). São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2006, p. 63.
  2. G. K. Chesterton. In: Illustrated London News, 11 set. 1909.

Recomendações

  • Nosso curso sobre “O Senhor dos Anéis” não acabou! Além da transmissão de hoje à noite, dia 17, ainda teremos aulas ao vivo nos dias 29, 30 e 31 deste mês. Corra para fazer sua inscrição e participar desta aventura conosco!

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Tolkien e os católicos inteligentes
Igreja Católica

Tolkien e os católicos inteligentes

Tolkien e os católicos inteligentes

O catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2018
imprimir

Quando C. S. Lewis conheceu J. R. R. Tolkien durante uma reunião na Universidade de Oxford, a 11 de maio de 1926, o autor de As Crônicas de Nárnia ainda era agnóstico e não considerava o cristianismo puro e simples. Ao contrário, Lewis desprezava a religião e, para ele, parecia absurdo que Tolkien fosse um homem tão inteligente e, ao mesmo tempo, um católico devoto.

O preconceito de Lewis contra o cristianismo — e particularmente contra a Igreja Católica — era algo bastante comum naquela época, sobretudo entre intelectuais ingleses. Famosos foram os debates entre H. G. Wells e G. K. Chesterton acerca da razoabilidade do credo cristão e de como a ortodoxia católica está na vanguarda das ciências e da filosofia. Embora o Iluminismo tenha espalhado uma visão obscurantista da cristandade, o fato é que a Igreja Católica fundou a civilização ocidental e lançou as bases do progresso científico atual.

C. S. Lewis, o autor de “As Crônicas de Nárnia”.

A versão iluminista da história prevaleceu, entretanto, fazendo com que o cristianismo fosse visto como uma tolice. Para Lewis, esse preconceito só desapareceu pela proximidade com Tolkien, que jamais se envergonhou da própria fé nem tentou se adequar a discursos laicistas para manter-se na universidade. Tolkien falava abertamente da Igreja em suas conferências, demonstrando, com argumentos e eloquência, por que a doutrina de Jesus Cristo é a verdadeira religião.

A vida intelectual de J. R. R. Tolkien é uma pedra de tropeço para quem não acredita em fé e razão. Desde muito cedo, o autor de O Senhor dos Anéis demonstrou habilidades para a carreira acadêmica, e sua mãe, Mabel, fez o possível para assegurar-lhe uma educação decente, que o capacitasse para a entrada na universidade. Quando, mais tarde, Tolkien teve de escolher entre a paixão e os estudos, aceitou o sacrifício de ficar três anos longe da namorada, Edith Bratt, para conseguir dedicar-se à faculdade.

Na academia, Tolkien logo se destacou pela qualidade de suas aulas e pela simplicidade com que tratava os demais professores e estudantes. “Havia um senso de civilização, uma lucidez cativante e uma sofisticação”, disse um de seus alunos, o escritor Desmond Albrow, sobre as lições do professor. Na verdade, Tolkien encarnava as suas leituras de maneira exuberante, como se estivesse em um teatro, levando a plateia a viver os dramas dos personagens. Era algo memorável.

É claro que toda essa vivacidade não passaria despercebida aos olhos de Lewis, que, diante daquele “estranho paradoxo” — um católico inteligente?! —, acabou obrigado a questionar-se sobre os fundamentos do cristianismo. Tolkien, aliás, sentiu-se particularmente responsável pela conversão do amigo, motivo pelo qual se reuniram várias vezes em pubs, para longas tertúlias sobre a autenticidade da vida de Cristo. Lewis, enfim, descobriu que Jesus não era apenas uma lenda do passado, mas uma Pessoa viva que transformou as verdades dos mitos em carne e História.

O caso de J. R. R. Tolkien não é um ponto fora da curva na história da Igreja, mas apenas um entre tantos na longa tradição cristã, que vai de Agostinho e Tomás de Aquino a nomes mais recentes como G. K. Chesterton, Edith Stein, Léon Bloy e Dietrich von Hildebrand. No Brasil do século XX, por exemplo, merecem destaque padre Leonel Franca e Gustavo Corção, que produziram obras de grande proveito intelectual e religioso.

Todos levaram a sério o que São Josemaria Escrivá ensinava acerca do estudo: “Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave” (Caminho, n. 336). Ademais, os católicos estão obrigados ao estudo porque por ele, diz Santo Tomás, “o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente” (Suma Contra os Gentios, II, 1).

Não é surpresa alguma, portanto, que entre os intelectuais mais importantes da sociedade estejam católicos piedosos. C. S. Lewis teve a chance de descobrir isso de uma maneira excepcional. De fato, o catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

Recomendações

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.