“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista
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“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista
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“Annabelle 2” e o poder do mal:
a avaliação de um exorcista

“Annabelle 2” e o poder do mal: a avaliação de um exorcista

Filmes de terror normalmente são feitos para assustar, e nada mais. Se há alguma lição, entretanto, que podemos tirar de “Annabelle 2", é o fato de que Satanás só entra onde ele for convidado.

Kathy SchifferTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Setembro de 2017Tempo de leitura: 9 minutos
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Essa matéria revela detalhes importantes do enredo de "Annabelle 2: a Criação do Mal". Não se trata de um texto escrito propriamente pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo, mas da avaliação de um terceiro — como consta no próprio título que escolhemos para o artigo.

De maneira geral, a matéria está correta, o exorcista em questão analisa com muita cautela os elementos do filme, apontando com acerto os seus aspectos positivos e negativos e, justamente por essa razão, escolhemos traduzir e divulgar o texto para os nossos leitores. Em alguns pontos do texto, porém, o autor da matéria passa a impressão — exagerada, em nosso ponto de vista — de que "Annabelle" é um filme católico. É o que se depreende, principalmente, desta frase: "'Annabelle 2' foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo". No artigo original, o autor chega a se referir ao filme como "decidedly 'catholic'", isto é, "definitivamente católico". (Na primeira versão que publicamos da tradução, havíamos mantido a expressão, mas, depois, preferimos retirá-la.)

A afirmação é exagerada porque quem quer que tenha o costume de assistir a filmes de terror sabe bem que, normalmente, as produções desse gênero não têm como intenção retratar o mistério da fé — salvo raríssimas exceções. A "causa final" desses filmes é simplesmente passar medo, ponto final. "Annabelle" não foge à regra; as próprias inconsistências apresentadas abaixo pelo exorcista só se explicam a partir desse objetivo principal. É sem dúvida um ponto positivo que muitos elementos da trama tenham levado em conta os ensinamentos da Igreja em relação à possessão e ao exorcismo, mas é importante não aumentar muito o que é simplesmente... um ponto positivo, e nada mais.

Esse esclarecimento é importante para que muitas pessoas não confundam essa crítica com uma "aprovação irrestrita" ou uma "recomendação incondicional" de "Annabelle". Para falar a verdade, com exceção de filmes da vida dos santos, não é de praxe indicarmos filmes em nosso blog. Com relação especificamente a filmes de terror, já publicamos uma outra matéria aqui, a qual apresenta com muito mais fidelidade — e riqueza de detalhes — aquilo que pensamos a respeito desse gênero de produções. Acreditamos que complementa muito bem a matéria que vai a seguir.

Feitas todas essas importantes ressalvas, vamos ao texto.


O que as crianças lêem nos livros e vêem na televisão pode inspirá-las a crescer na fé. Por outro lado, adverte o Padre Robert, tudo isso também pode levá-las ao mundo perigoso do ocultismo, tornando-as vulneráveis até mesmo à possessão diabólica.

E Padre Robert não está exagerando. Como sacerdote trabalhando por mais de dez anos na área de exorcismos, ele conhece em primeira mão as consequências de quando crianças ou adultos abrem as portas para a atividade demoníaca. "Com muita frequência", ele diz, "uma possessão começa porque uma criança ficou curiosa depois de ler Harry Potter". Ele explica que as crianças aspiram pelos poderes incomuns que elas vêem sendo retratados nas telas.

Um ex-satanista que Padre Robert conheceu pessoalmente — um homem que abandonou sua vida passada e abraçou a fé católica — havia começado seu declínio rumo ao satanismo com a idade de nove ou dez anos, quando começou a brincar de um jogo chamado " Bloody Mary". Desde aquele início aparentemente inofensivo, ele começou a se envolver gradualmente com outras pessoas que eram satanistas.

Uma importante parte do ministério do Padre Robert consiste no treinamento de outros padres, ofício que ele desempenha no Instituto de Exorcismo oficial do Vaticano nos Estados Unidos. Padres católicos de todos os lugares do país e do mundo vêm a esse instituto para aprender os segredos desse ritual antigo, a fim de que também eles possam expulsar demônios e espíritos maus. A natureza do trabalho em que o Padre Robert e esse instituto estão envolvidos é tão arriscada que ele pede ao nosso site para não publicar o seu nome completo, nem tampouco revelar a sua localização.

Satanás só entra onde ele é convidado

Eu tive a oportunidade de me encontrar e conversar com o Padre Robert durante uma recente prévia do recém-lançado filme de terror "Annabelle 2: a Criação do Mal". (O filme foi lançado nos Estados Unidos no dia 11 de agosto e, no Brasil, no dia 17). Dirigido por David F. Sandberg, "Annabelle 2" é, na verdade, uma pré-sequência do sucesso de 2014, "Annabelle" — o qual, por sua vez, é também uma pré-sequência de "Invocação do Mal". O Padre Robert assistiu a todos eles e concordou que "Annabelle 2" foi fiel, em grande medida, aos ensinamentos da Igreja Católica relativos à possessão e ao exorcismo.

Padre Robert explicou que o demônio só vai entrar onde ele for convidado. Ele falou de dois casos com os quais lidou pessoalmente, em que duas jovens mulheres, não se atentando para a gravidade do que faziam, tinham convidado "um espírito" para ajudá-las. A consequência foi que elas começaram a demonstrar sintomas de possessão demoníaca e precisaram de um exorcismo.

Os escritores do filme, notou o Padre Robert, fizeram a sua lição de casa. Eles entenderam que o demônio só podia entrar na casa do fabricante de bonecas Samuel Mullins e de sua esposa Esther se fosse convidado. Em "Annabelle 2", Esther e Samuel Mullins estão de luto pela perda de sua querida filha Bee. Miranda Otto, que interpreta a mãe Esther no filme, explica:

Eles ficaram devastados, como qualquer pai ficaria. Mas, diferentemente da maioria, eles decidiram fazer qualquer coisa para ter a sua filha de volta… absolutamente qualquer coisa. Basicamente, então, eles rezaram, apelando para qualquer tipo de poder que lhes permitisse ver ou sentir, de qualquer forma, a presença dela. Mas, ao fazer isso, eles evocaram certos espíritos que não eram exatamente o tipo que você convidaria para entrar em sua casa.

Doze anos depois do trágico acidente, esse casal aflito procura conforto cedendo sua casa à Irmã Charlotte e a algumas meninas de um orfanato que havia sido fechado. Quando uma das garotas espreita o guarda-roupas e vê a boneca possuída, Annabelle, esta começa a perseguir as meninas, dando início a todo o terror da trama.

Algumas inconsistências

O Padre Robert e eu concordamos em que "Annabelle 2" é, em sua maior parte, fiel ao entendimento católico sobre exorcismo. Houve, no entanto, algumas cenas que fizeram com que ambos de nós franzíssemos as sobrancelhas:

Uma freira ouvindo confissão? — Houve uma cena específica na qual a Irmã Charlotte, interpretada pela talentosa Stephania Sigman, ouve a confissão de uma das jovens sob sua guarda. Concedamos, havia diferenças para uma confissão regular: a irmã e a menina se sentaram uma de costas para a outra, não em um confessionário. Mas o conceito de confissão foi renovado quando a Irmã Charlotte disse: "Bem, como penitência…" Particularmente no tempo em que a história se passava, o Padre Robert considera altamente improvável que uma irmã se colocasse na posição de aparecer desempenhando uma função sacramental exclusiva dos sacerdotes.

A Irmã Charlotte usa um hábito religioso moderno. — Com base nos estilos de roupa, nos automóveis clássicos e na casa de fazenda vitoriana, o filme "Annabelle 2" parece se passar no início do século XX. No entanto, a Irmã Charlotte usa o que parece ser um hábito religioso contemporâneo — com uma saia chegando só até os joelhos e um véu simples que deixa à mostra o seu cabelo. Quando perguntei ao diretor David Sandberg e à atriz Stephanie Sigman sobre isso durante nossa entrevista, ambos ficaram surpresos. Eles explicaram que haviam procurado por várias fotos de religiosas em diferentes hábitos, e tinham escolhido um traje simples que tornasse mais fácil à atriz fazer o seu papel. 

O modo como eles se livraram do objeto amaldiçoado. — Em "Annabelle 2", dois padres vêm à casa para fazer uma oração e aspergir água benta sobre a boneca antes de que ela seja trancada em um armário cheio de páginas recortadas das Escrituras. Não que essa fosse uma alternativa de todo inadequada, disse o Padre Robert, mas ele tinha certeza de que um exorcista jamais deixaria o objeto possuído ali intacto, com a possibilidade de ser encontrado por alguma pessoa no futuro. "Era necessário tirar a maldição do objeto", ele explicou. "Era possível queimá-lo ou destruí-lo, mas a maldição deveria ser 'quebrada' de alguma forma". Como exemplo de um objeto amaldiçoado, o Padre Robert descreveu um crucifixo que ele tem pendurado em seu escritório, e que foi queimado desde baixo durante um exorcismo, com o fogo consumindo o corpo e deixando somente os braços de Cristo crucificado. "Havia um corpo de plástico sobre a cruz", ele explicou. "A cruz em si mesma estava abençoada. Ela foi posta em um quarto com uma mulher que tinha praticado bruxaria no México. No meio da noite, a cruz pegou fogo e eu 'quebrei' a maldição que havia sobre ela. Eu jamais permitiria que alguém chegasse perto do crucifixo, porque ele poderia ser usado no futuro para algo ruim."

A cena do espantalho e do "diabo-da-tasmânia". — Uma cena na qual um espantalho é possuído pelo espírito mau e deslocado de sua posição original parece improvável, de acordo com o Padre Robert. Ele ficou igualmente cético quando o demônio começou a crescer e assumiu uma aparência física parecida com o que ele chamou de um "diabo-da-tasmânia".

Só quando convidado! — Em uma cena do filme, uma criança é possuída quando se vê na presença de um demônio que se manifesta como uma garotinha. O Padre Robert rejeitou a ideia de que um espírito mau pudesse habitar o corpo de uma criança que por acaso estivesse diante dele — já que, como ele explicou depois, um espírito mau só entra no corpo de uma pessoa se ele é convidado para tanto.

Cinco sinais de possessão

O Padre Robert listou ainda cinco sinais que podem indicar que uma pessoa está sofrendo um ataque espiritual:

  1. Conhecimento oculto. Se uma pessoa sabe de alguma coisa que não deveria saber, por exemplo, de uma informação privada que é conhecida apenas por algumas pessoas, isso pode sinalizar uma possessão demoníaca.
  2. Idiomas. Uma pessoa emdemoninhada pode ser capaz de falar em um idioma que não lhe é familiar, e que ela normalmente não saberia.
  3. Força sobre-humana. O Padre Robert contou um caso no qual uma jovem garota de 1,6 metros de altura e cerca de 50 quilos foi capaz de arremessar alguns homens grandes, impedindo-os de segurá-la durante um ritual de exorcismo.
  4. Aversão extrema às coisas sagradas. Uma pessoa que está possuída pode não ser capaz de olhar para um crucifixo, ou de tocar um rosário que foi abençoado. O Padre Robert mencionou uma mulher que não podia ficar na presença da cruz de São Bento, ou na presença do Santíssimo Sacramento.
  5. Levitação. O Padre Robert teve conhecimento pessoal de um caso, no estado norte-americano de Louisiana, no qual uma pessoa estava sentada em uma cadeira e, pelo poder do espírito mau, foi capaz de levitar com a cadeira e sair pelo corredor.

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"Annabelle 2: a Criação do Mal" foi lançado nos cinemas do Brasil no último dia 17 de agosto. Apesar das pequenas inconsistências apontadas pelo Padre Robert, o filme é respeitoso à fé. Ele consegue provocar com sucesso uma tensão nos espectadores, e há vários momentos em que realmente nos assustamos, mas a produção conta mais com efeitos espirituais e psicológicos que com sangue e violência propriamente ditos, tendendo a ganhar ampla divulgação entre os fãs do gênero terror. Classificado no Brasil para jovens acima de 14 anos, o filme é inadequado para crianças, evidentemente, mas outras pessoas podem assistir tranquilamente à trama, certas de que sua fé não será atingida.

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A primeira e a segunda vinda de Cristo
Espiritualidade

A primeira e a
segunda vinda de Cristo

A primeira e a segunda vinda de Cristo

Naquele tempo, em sua primeira vinda, Jesus veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura. No fim dos tempos, porém, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

São Cirilo de Jerusalém3 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras do 1.º Domingo do Advento.

Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo
(Cat. 15, 1-3: PG 33, 870-874)

As duas vindas de Cristo

Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda, muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a segunda manifestará a coroa da realeza divina.

Aliás, tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem quase sempre uma dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: primeiro, ele nasceu de Deus, antes dos séculos; depois, nasceu da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla descida: uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro.

Na primeira vinda, ele foi envolto em faixas e reclinado num presépio; na segunda, será revestido num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar a sua ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos.

Não nos detemos, portanto, somente na primeira vinda, mas esperamos ainda, ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21, 9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda, quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.

“Jesus recebendo de Deus Pai o mundo”, por Antonio Arias Fernández (1614).

Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que se constituíram seus juízes. Ele, que ao ser julgado guardara silêncio, lembrará as atrocidades dos malfeitores que o levaram ao suplício da cruz, e lhes dirá: “Eis o que fizestes e calei-me” (Sl 49, 21).

Naquele tempo ele veio para realizar um desígnio de amor, ensinando aos homens com persuasão e doçura; mas, no fim dos tempos, queiram ou não, todos se verão obrigados a submeter-se à sua realeza.

O profeta Malaquias fala dessas duas vindas: “Logo chegará ao seu templo o Senhor que tentais encontrar” (Ml 3, 1). Eis uma vinda.

E prossegue, a respeito da outra: “E o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; e estará a postos, como para fazer derreter e purificar” (Ml 3, 1-3).

Paulo também se refere a essas duas vindas quando escreve a Tito: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2, 11-13). Vês como ele fala da primeira vinda, pela qual dá graças, e da segunda que esperamos?

Por isso, o símbolo da fé que professamos nos é agora transmitido, convidando-nos a crer naquele que subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Nosso Senhor Jesus Cristo virá portanto dos céus, virá glorioso no fim do mundo, no último dia. Dar-se-á a consumação do mundo, e este mundo que foi criado será inteiramente renovado.

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Uma oração tempestuosa para o início do Advento
LiturgiaEspiritualidade

Uma oração
tempestuosa para o início do Advento

Uma oração tempestuosa para o início do Advento

“Despertai vosso poder e vinde, ó Senhor”, reza a liturgia nestes primeiros dias do Advento. Quando permite que “sejamos afligidos por nossos injustos perseguidores”, de fato, Deus parece dormir. Como naquela noite, em meio ao mar tempestuoso…

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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O 1.º Domingo do Advento (e do ano litúrgico) começa [no rito antigo] com a segunda Coleta “despertadora” consecutiva [1]:

Excita, quǽsumus, Dómine, poténtiam tuam, et veni: ut ab imminéntibus peccatórum nostrórum perículis, te mereámur protegénte éripi, te liberánte salvári: Qui vivis et regnas cum Deo Patre, in unitáte Spiritus Sancti, Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. — Despertai vosso poder e vinde, ó Senhor, nós vos pedimos, a fim de que, dos iminentes perigos a que nos expõem nossos pecados, mereçamos ser resgatados e salvos por vós, nosso protetor e libertador. Que viveis e reinais com Deus Pai, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos.

Embora as orações romanas reflitam uma tradição retórica romana muitas vezes distinta das traduções latinas da Bíblia em termos de dicção e sintaxe, essa Coleta é extraída diretamente do Salmo 79 (80), versículo 3: Excita, Dómine, poténtiam tuam et veni, ut salvos fácias nos, “Desperta, ó Senhor, o teu poder e vem para nos salvar”.

O subtítulo tradicional do Salmo 79 é “uma oração pela Igreja em tribulação”. Como explica São Roberto Belarmino, nesse versículo o salmista pede a Deus que desperte seu poder, porque este parece estar sepultado quando Ele permite que sejamos “afligidos por nossos injustos perseguidores” [2]. Na semana passada, a Igreja rezou para que Deus despertasse nossa vontade a fim de que chegássemos a um bom termo; nesta semana, ela reza para que Deus desperte seu poder a fim de proporcionar um bom início em meio a uma situação ruim.

E [a oração] não [se dirige] apenas a Deus de forma genérica, mas a Deus Filho. Enquanto a Coleta da semana passada era dirigida ao Pai, a desta semana é dirigida à segunda Pessoa da Santíssima Trindade (ver o final “Vós que viveis”). Durante o Advento, faz sentido implorar ao Filho que Ele venha, já que do ponto de vista litúrgico nós recordamos a época anterior à sua natividade e imploramos por sua chegada em Belém; essa “reencenação”, por sua vez, ajuda-nos a nos preparar para sua vinda em nossos corações e no fim dos tempos. As Coletas do Advento reforçam o aspecto “a.C.” (anterior a Cristo) do tempo litúrgico de um modo maravilhosamente sutil. Independentemente de se dirigirem ao Pai ou ao Filho, todas as Coletas dos domingos do Advento evitam a menção ao Santo Nome de Jesus, mesmo na sua conclusão. O povo judeu soube durante séculos que o Messias viria, mas ninguém sabia o seu nome até que o Arcanjo Gabriel o revelasse à Santíssima Virgem Maria. Podemos experimentar como era viver antes de Cristo, sem conhecer o seu Santo Nome.      

Há outra dimensão na invocação do Filho com o verbo excita que nos remete à súplica do salmista durante um período de tribulação. Excitare é o verbo usado por São Marcos para descrever os Apóstolos acordando Jesus enquanto Ele dormia em meio à tempestade: “Jesus estava dormindo na popa, sobre um travesseiro. Acordaram-no (et excitant eum) e disseram-lhe: ‘Mestre, não te importa que pereçamos?’” (4, 38). 

A cena é quase cômica, pois o questionamento dos Apóstolos tem um tom passivo-agressivo. A Coleta deste domingo é um pouco mais antecipada. Ela pede: “Despertai, Filho de Deus, e vinde! Estais adormecido, e a barca, que é a vossa Igreja, está perecendo”. A barca de São Pedro que, como disse o Papa emérito Bento XVI há alguns anos, “às vezes está tão cheia de água que chega ao ponto de quase soçobrar”. Naturalmente, temos de admitir que merecemos essa situação: a Coleta identifica como principal perigo não uma ameaça externa, mas os nossos próprios pecados. Mesmo assim, isso não torna nossa situação menos turbulenta e, por isso, nós rezamos para ser resgatados e salvos.

O fim do mundo, que permanece em nossas mentes durante o Advento, também será um período tempestuoso. No Evangelho deste domingo [3], Nosso Senhor profetiza que na terra “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definha­rão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas” (Lc 21, 25-26).

Então, naqueles momentos em que estivermos propensos ao medo e suscetíveis a duvidar do “Senhor adormecido”, não nos esqueçamos do final da história de São Marcos, quando Jesus, “despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: ‘Silêncio! Cala-te!’. E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. Ele disse-lhes: ‘Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?’” (Mc 4, 39-40).

Notas

  1. Segunda consecutiva porque a oração Coleta do Último Domingo depois de Pentecostes, no usus antiquior, começa com as mesmas palavras: Excita, quǽsumus, Dómine, tuórum fidélium voluntátes; ut, divíni óperis fructum propénsius exsequéntes, pietátis tuæ remédia maióra percípiant, “Despertai as vontades de vossos fiéis, ó Senhor, nós vos pedimos, a fim de que, procurando com mais prontidão o fruto da obra de Deus, alcancem remédios maiores de vossa piedade”. Vale destacar que a oração Coleta do 1.º Domingo do Advento no rito antigo é rezada na Sexta-feira da 1.ª Semana do Advento no rito novo, na íntegra (N.T.).
  2. Cf. S. Roberto Belarmino, Explanatio in Psalmos, t. 2, Paris, 1866, p. 35: Potentia tua quasi sopita videtur, cum nos affligi sinis ab iniustis persecutoribus nostris — “O vosso poder parece como que adormecido, quando permitis que sejamos afligidos por nossos injustos perseguidores” (N.T.).
  3. A perícope lida no 1.º Domingo do Advento no rito antigo é sempre a mesma: Lc 21, 25-33. Neste Ano C, porém, 2021–2022, em que se proclamam as leituras do Evangelho de São Lucas, a primeira parte do Evangelho é comum às duas formas do rito romano (no Lecionário de Paulo VI, lê-se Lc 21, 25-28.34-36) (N.T.).

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A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara
Santos & Mártires

A procissão eucarística de
Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

A procissão eucarística de Charles de Foucauld pelo deserto do Saara

“Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra, e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos”: o momento de sua morte.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Logo após eclodir a Grande Guerra, Charles de Foucauld quis retornar do deserto do Saara para a França. Ele desejava unir-se ao exército francês como capelão militar. Entretanto, o bispo a que estava subordinado instruiu-o a permanecer em Tamanrasset, uma pequena vila na atual Argélia.

Foucauld obedeceu ao que mais tarde revelaria ser sua sentença de morte.

Em 1914, o império da França se estendeu a grandes partes do norte da África — e estava agora sob ataque. O Império Otomano, lutando ao lado da Prússia, exigiu a expulsão de todos os infiéis das terras do Islã e a restauração do califado. Algumas tribos do Saara responderam ao apelo para a jihad, encorajadas a fazê-lo por um ordem religiosa muçulmana conhecida como Senussi. Foucauld vivia longe de qualquer ajuda militar francesa, em um eremitério improvisado. Nas primeiras horas do dia 1.º de dezembro de 1916, uma gangue armada de fanáticos Senussi saiu à procura do eremita cristão.

Foucauld estava realmente muito longe de casa. Nascido em Estrasburgo, em 15 de setembro de 1858, numa rica família aristocrática francesa, teve uma infância infeliz. Aos 6 anos, tornou-se órfão. Posteriormente, na escola, aprendeu pouco. Entrementes, tornou-se agnóstico. Por fim, a família o alistou nas forças armadas, na esperança de disciplinar a rebeldia do jovem. A esperança, porém, mostrou-se inútil. As intermináveis horas de vida no quartel só pareciam piorar as coisas: sua atenção centrava-se agora exclusivamente no prazer. Para a família, ele estava se tornando a passos largos um constrangimento; para os militares, um risco.

Por fim, Foucauld foi despedido em desgraça do exército. Quando finalmente veio o chamado para seu regimento deixar a França e ir para a Argélia, ele insistiu em levar sua última amante. Mas havia um limite de tolerância para os militares franceses.

Lançado de volta à vida civil, ele surpreendentemente descobriu que os antigos prazeres agora o entediavam. E apesar de toda sua indiferença, a vergonha de ser expulso do exército queimava dentro dele. Logo se viu na Argélia, oferecendo-se como voluntário para uma perigosa missão como espião dos franceses. Trajado como um judeu norte-africano e desejoso de fazer as pazes com a família e o país, Foucauld aventurou-se em territórios então não mapeados do Marrocos, para fazer registros detalhados da terra e de seus povos.

Dois anos depois, em 1884, Foucauld voltou para a França como herói. Por fim, graças à publicação de um livro de memórias de suas aventuras, tornou-se celebridade em Paris, sendo homenageado por seus serviços ao país com uma medalha de ouro conferida pela Sociedade Geográfica de Paris. Mas ele também retornara da África estranhamente mudado. Os dias passados, vividos em uma cultura estranha, e as noites passadas sob a vastidão do céu do deserto haviam deixado nele sua marca. Ele vira os muçulmanos prostrados no chão, cinco vezes por dia, em oração, e, impressionado, se perguntou se sua religião era a verdadeira. Voltou para a França em busca de respostas.

Inicialmente, a inquietação interior parecia apenas aumentar. Ele estudou o Islã, mas decidiu que a verdade não estava lá. Andava pelas ruas de Paris pensando e meditando o tempo todo. No final de outubro de 1886, viu-se nas ruas outra vez quando, ao raiar do dia, avistou uma igreja aberta. Entrou e viu um confessionário com um padre dentro. Aproximou-se e perguntou se poderia falar com ele. Uma voz, tão firme como sábia, o contrariou e, em vez disso, ordenou-lhe que se ajoelhasse e confessasse. Ele se ajoelhou e confessou tudo. Naquela manhã, depois de ouvir a Missa e receber a Sagrada Comunhão, Foucauld renasceu.

Daquele dia em diante, havia para ele um único ideal, o qual queimaria tão ferozmente quanto seus desejos passados, mas agora este era o fogo do Amor divino. Nos magníficos céus noturnos do deserto e na devoção religiosa dos estrangeiros, Foucauld vislumbrou indícios de transcendência; agora, ele finalmente encontrara a própria Verdade na fé católica de seus ancestrais, de sua família, de seu país. Em mais de um sentido, ele havia voltado para casa.

Depois de passar um tempo num mosteiro cisterciense nos Alpes e noutro mosteiro na Síria, ainda inseguro de sua vocação, caminhou para a Terra Santa. Por fim, foi ao mosteiro das clarissas, em Jerusalém. Trabalhou como porteiro por um tempo, morando em um barraco encostado à parede do convento e fazendo trabalhos manuais, absorvido sempre em orações. Foi na Terra Santa que lhe foi revelada sua vocação. Ele percebeu que, a partir de então, deveria buscar a vida oculta de Nazaré com todas as suas muitas vicissitudes.

Ordenado em 1901, voltou para o norte da África, estabelecendo-se no sul da Argélia, eventualmente em Tamanrasset, para viver entre a tribo mais pobre da região: os tuaregues. Ele sonhava em começar uma comunidade religiosa baseada em seu ideal de busca pelo lugar mais baixo. No entanto, ninguém o entendeu nem houve quem quisesse juntar-se a ele. Até a morte, ele trabalharia pelas almas entre os tuaregues muçulmanos, mas nenhum deles se converteu à fé cristã.

Em seu pequeno oratório, a quilômetros de qualquer outro, Foucauld fazia longas vigílias diante do Santíssimo, rezando pela conversão das terras por onde havia viajado e pelos povos entre os quais agora vivia. Ele escreveu:

Sagrado Coração de Jesus, obrigado por este tabernáculo, o primeiro em terras dos tuaregues! Que este seja o primeiro de muitos e anuncie a salvação a muitas almas! Irradiai, deste tabernáculo, sobre todos que estão ao seu redor, pessoas que vos cercam, mas não vos conhecem.

Ele permanecia estático diante do Santíssimo Sacramento; sua inquietação foi acalmada por um fogo interior que continuou a arder tão intensamente como quando ele o sentiu a primeira vez, naquela manhã decisiva de outubro, no confessionário de uma igreja parisiense. Agora, no calor ardente do deserto, sua fé deveria aperfeiçoar-se ainda mais. Tendo procurado permanecer escondido e desconhecido, em Tamanrasset seu desejo foi atendido — por um tempo, ao menos. Aos olhos do mundo, ele agora não tinha importância.

Mas o olhar do mundo mudaria com a guerra, e olhos cheios de ódio caíram sobre o eremita. A partir de então, houve quem decretasse que tanto o homem quanto sua missão deveriam ser destruídos.

Na manhã de 1.º de dezembro de 1916, havia uma testemunha ocular entre cavaleiros distantes, que saíram do deserto e chegaram ao eremitério de Tamanrasset.

A mesma testemunha viu o sacerdote ser arrastado de seu refúgio, silencioso e sem resistência, com o que parecia ser uma profunda expressão de paz. Ele o viu ser forçado a ajoelhar-se, enquanto lhe ofereciam a chance de renunciar ao seu Salvador, isto é, de confessar a Shahada. O padre recusou-se a fazê-lo e, posteriormente, foi baleado na cabeça. Seu corpo, ainda ajoelhado e com as mãos amarradas nas costas, foi deixado na areia, enquanto seus assassinos saqueavam a casa e o oratório; depois, embriagaram-se com o vinho do altar. No dia seguinte, quando estes partiram, os tuaregues que viviam nas proximidades vieram enterrar o homem que passaram a considerar como amigo.

Três semanas depois, uma patrulha militar francesa passou por Tamanrasset. A população local mostrou ao comandante a cova improvisada. Os soldados ergueram solenemente uma cruz de madeira simples sobre o lugar.

O relatório militar subsequente afirmou o seguinte:

Padre Foucauld, desde a sua conversão, nunca deixou de pensar, nem mesmo por um dia, naquela hora depois da qual não há outra e que é a suprema oportunidade que se oferece a nós para o arrependimento e a aquisição de méritos. Morreu na primeira sexta-feira de dezembro, dia consagrado ao Sagrado Coração, e da maneira que desejou, pois sempre aspirou a ser tratado com ódio por ser cristão e sofrer uma morte violenta, aceita com amor pela salvação dos infiéis de sua terra de eleição, a África.

Antes de o exército partir naquele dia, o oficial fez uma inspeção final do que restava do eremitério. Deparou-se com uma custódia, jogada na areia pelos assassinos do padre. O que eles não entenderam, e o que este católico francês percebeu imediatamente, foi que ela ainda continha as espécies sagradas.

Quando a patrulha militar se reuniu para partir, o comandante avançou solenemente com a custódia envolvida respeitosamente em um pano de linho. Então, ao som de uma única batida de tambor, os soldados começaram a marchar de volta para as vastidões do deserto de onde tinham vindo. Mas desta vez, à frente deles, em sua sela, cavalgava o oficial, segurando a custódia com o Santíssimo Sacramento exposto.

À medida que esta singular procissão eucarística prosseguia sob o Sol escaldante e sobre as areias do deserto, sopradas pelos ventos quentes do Saara, começou-se lentamente a cobrir o túmulo de Charles de Foucauld. — “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer…” (Jo 12, 24).

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Aprendendo com a castidade de São José
Doutrina

Aprendendo com a
castidade de São José

Aprendendo com a castidade de São José

Nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Com São José, no entanto, podemos aprender o que ela realmente significa.

Pe. Roger J. LandryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Dezembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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São muitas as virtudes atribuídas pela piedade cristã a São José que, sobretudo durante este Ano Josefino, os católicos são chamados a meditar com mais profundidade e a imitar com mais atenção. José é justo, fiel, obediente, humilde, homem de oração, silencioso, caridoso, trabalhador, providente, protetor, corajoso, zeloso, prudente, paciente, leal e simples. 

No entanto, uma de suas virtudes mais importantes para estes nossos tempos é a castidade. A Igreja a apresenta na Ladainha dos “Benditos”, proclamada durante a adoração a Jesus no Santíssimo Sacramento, chamando a São José “castíssimo” — título dado somente a Ele e a Nossa Senhora. Trata-se de uma tradução do latim castissimus, superlativo que pode traduzir-se como “o mais”, “muito” ou “supremamente” casto. Contra qualquer tentação de minimizar essa virtude, São José nos inspira a ser castos ao máximo

Vivemos numa época em que, provavelmente, nenhum outro ponto da fé e da vida católicas tem sido objeto de tantas caricaturas, contradições, críticas, condenações, calúnias e oposições como a doutrina sobre a castidade. Muitos fora da Igreja, e alguns até mesmo dentro dela, veem este ensinamento como algo tão antiquado quanto a moda vitoriana; um caminho de repressão, e não de amor; um campo de treinamento para puritanos, e não para santos. 

Os revolucionários sexuais — que alardearam o direito ao sexo com quem, quando, onde e como quisermos (cultura que tem contribuído para a epidemia de famílias, casamentos e corações partidos, doenças sexualmente transmissíveis, crimes e abusos sexuais, tráfico humano, prostituição e pornografia, vícios sexuais, gravidez na adolescência e abortos…) — afirmam que a castidade é contra nossa biologia, porque acorrenta um desejo natural, e é contra nossa natureza racional, porque nos restringe a liberdade. Faz parte das “más notícias”, não das boas. 

Ao contrário do que muitos acreditam de maneira equivocada, a doutrina da Igreja sobre a castidade não “asfixia” a mais veemente das experiências humanas. Trata-se antes de uma sabedoria que procura controlar estas “chamas”, impedindo-as de destruir o amor verdadeiro (que é para onde Deus quer que seja dirigido nosso desejo sexual), de modo que possamos amar genuinamente os outros como Cristo nos amou. Longe de ser negativamente apudorada, a Igreja não poderia ter maior estima pelo amor humano e pela castidade que o possibilita.

Em meio a este mal-entendido generalizado e às zombarias que se fazem ao ensinamento católico sobre a sexualidade humana (para não falar da crescente miséria devida à sua rejeição), é ainda mais urgente que Igreja ajude católicos e não católicos a recuperar, valorizar e proteger a verdade e a beleza do amor humano casto. O Ano de São José é um momento especial para os fiéis aprenderem a viver melhor o chamado de Deus à castidade

A necessidade é premente. São Paulo, logo após dar aos cristãos em Tessalônica um resumo da vocação cristã — “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4, 3) —, diz-lhes, ato contínuo, esclarecendo este chamado, que se abstenham da porneia, termo grego referente a todo pecado sexual, geralmente traduzido como “impureza”. 

Visto que a santidade é o pleno florescimento do amor na pessoa humana, não se pode amar verdadeiramente a menos que se seja casto. A castidade é indispensável para nos tornarmos plenamente humanos, santos e eternamente felizes. O evangelho da castidade, portanto, é parte essencial da missão da Igreja para a santificação e a salvação do gênero humano. 

Para atender a esse chamado, é essencial saber o que é castidade. Mesmo entre clérigos, religiosos, consagrados e catequistas, a castidade costuma ser confundida com a continência (abstinência da atividade sexual) ou o celibato (renúncia voluntária ao uso da sexualidade). Quando o Catecismo enfatiza que “todos os fiéis de Cristo são chamados a levar uma vida casta, segundo o seu estado de vida particular” (§ 2348) e que “as pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal” (§ 2349), muitos casais ficam a coçar a cabeça, perguntando-se como podem ser “castos” e, ao mesmo tempo, constituir família. O motivo da confusão, provavelmente, decorre do fato de o termo “castidade” ser frequentemente utilizado no contexto da educação sexual de adolescentes (chamados à castidade na continência), ou na descrição das promessas ou votos feitos por padres e religiosos (chamados à castidade na continência celibatária).

A confusão aponta para a urgência e a importância de todos, na Igreja, compreenderem o que é a castidade e como todos os batizados (casais, solteiros, padres, consagrados, pessoas com atração pelo mesmo sexo e pelo sexo oposto) são chamados a ela.

O primeiro passo no ensino da Igreja sobre a castidade encontra-se no Catecismo, o qual descreve a castidade como vocação, dom de Deus e graça, mas, ao mesmo tempo, fala dela como “fruto do trabalho espiritual” (§ 2345) que inclui a “aprendizagem do domínio de si”, para que a pessoa domine suas paixões e encontre paz, em vez de deixar-se dominar por elas (§ 2339). Está fundamentalmente ligada à virtude da temperança, ou autocontrole. Esse autodomínio é uma “obra de grande fôlego” que, prossegue, “nunca poderá considerar-se total e definitivamente adquirida. Implica um esforço constantemente renovado, em todas as idades da vida” (§ 2342). Mas, ao final, é uma “integração conseguida da sexualidade na pessoa, e daí a unidade interior do homem no seu ser corporal e espiritual” (§ 2337). 

A castidade, portanto, é uma “escola de doação da pessoa” (§ 2346) que “conduz à comunhão espiritual” (§ 2347), fundada na castidade de Cristo, que está na base de toda amizade, para não falar de outras relações.

Mas esse olhar para a castidade como integração e harmonização do desejo sexual nunca pareceu adequado ao Papa São João Paulo II. O impulso sexual tem como objetivo, escreveu ele em vários ensaios pré-papais, levar-nos em êxtase para fora de nós mesmos, para a comunhão com os outros e com Deus, para reconhecer que não somos autossuficientes. 

Moderar o desejo sexual não é o ponto principal; precisamos orientá-lo da forma adequada, para que realmente estabeleça comunhão ao invés de destruí-la. A castidade não está ligada fundamentalmente à temperança, escreveu ele em sua obra de 1960, Amor e responsabilidade, mas sim ao amor. Em contraste com a luxúria, que “reduz” a outra pessoa aos valores do corpo ou às suas zonas erógenas e que “usa” os outros para a própria gratificação emocional ou física, a castidade é o hábito moral que eleva a atração e as interações com a outra pessoa para a sua dignidade total, em corpo e alma

Em suas catequeses papais sobre o amor humano no plano divino, popularmente chamadas Teologia do Corpo, São João Paulo II ensinou que a virtude da castidade está igualmente ligada às virtudes da pureza e da piedade. A pureza impacta nossa visão: “Bem-aventurados os puros de coração”, ensinou Jesus, “porque verão a Deus” (Mt 5, 8). 

A pureza nos permite ver Deus nos outros, reconhecer um reflexo da imagem de Deus. A piedade é o hábito que nos ajuda — uma vez que nos lembramos ou reconhecemos que nenhuma outra pessoa é um “mero mortal” — a tratá-la de acordo com a imagem de Deus que nela está inscrita. Ligada à piedade, a castidade nos ajuda a ver e a tratar o outro como sujeito sagrado, e não como objeto sexual.

A castidade, portanto, está conectada a todas essas quatro virtudes (autodomínio, amor, pureza e piedade). É o que nos ajuda a manter nosso amor romântico (eros) capaz do amor de amizade (philia) e do verdadeiro amor cristão auto-sacrificial (agape). Viver castamente não relega as pessoas a uma “vida sem amor”, mas torna possível o amor verdadeiro, por meio da integração coerente de eros com philia e agape

São José nos mostra este tipo de amor casto em grau máximo. Ao contrário de algumas artes cristãs que o retratam com a idade do bisavô de Maria, José era certamente jovem o suficiente para viajar pelo deserto duas vezes e ser um tekton (“construtor”, muito mais do que um carpinteiro), um dos trabalhos fisicamente mais exigentes das profissões antigas. No entanto, embora fosse jovem e viril e vivesse com a mulher mais atrativamente virtuosa de todos os tempos, ele manteve seu amor “castíssimo” por ela, vendo a Deus dentro dela durante a gravidez e, depois, reverenciando-a com amor puro

São José é modelo de cavalheiro cristão, que regula e canaliza seu amor à esposa de acordo com a vocação e o bem integral dela, e não com seus próprios desejos e necessidades. 

É por isso que os cristãos de todos os tempos o bendizem diante do Filho eucarístico de Deus, reconhecendo que a forma mais adequada de louvor é a imitação.

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