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C. S. Lewis: um protestante que acreditava no Purgatório
DoutrinaFé e Razão

C. S. Lewis: um protestante
que acreditava no Purgatório

C. S. Lewis: um protestante que acreditava no Purgatório

“É claro que eu rezo pelos mortos", dizia C. S. Lewis. “Que tipo de relacionamento eu poderia ter com Deus, se aqueles a quem eu mais amo não pudessem ser mencionados diante dEle?"

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Maio de 2017Tempo de leitura: 4 minutos
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C. S. Lewis é considerado um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Muitas de suas obras foram traduzidas para o português, dentre as quais merecem destaque "Cristianismo Puro e Simples" e "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz". Seu maior sucesso, no entanto, é sem dúvida "As Crônicas de Nárnia", obra sua de ficção que ganhou as telas do cinema e fez inúmeros fãs, de todas as idades.

Embora sua conversão a Cristo esteja profundamente associada à Igreja Católica — pois foi o escritor católico J. R. R. Tolkien quem o convenceu da verdade da fé cristã —, C. S. Lewis escolheu professar, para desgosto do amigo, a confissão anglicana, na qual permaneceu até o fim de sua vida.

Curiosamente, porém, C. S. Lewis acreditava no Purgatório. Os reformadores protestantes negaram esse dogma católico, no século XVI, e Martinho Lutero chegou a arrancar do Cânon das Escrituras os dois livros veterotestamentários dos Macabeus, que continham exemplos de orações dos judeus pelos mortos. Em 1801, uma convenção episcopalista definiu, entre os artigos de fé da comunhão anglicana, que "a doutrina católica a respeito do Purgatório" seria "uma coisa fantasiosa, inventada inutilmente e sem nenhuma base na Escritura, sendo repugnante, na verdade, à Palavra de Deus".

Como essas definições protestantes nunca passaram, entretanto, de convenções humanas — e os próprios evangélicos o admitem —, Lewis aparentemente não via problema algum em dar crédito à doutrina católica sobre o Purgatório. Sua confissão é manifesta na obra Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer, publicada postumamente em 1964:

É claro que eu rezo pelos mortos. A ação é tão espontânea, tão inevitável, que só o tipo teológico mais compulsivo poderia dissuadir-me de fazê-lo. E eu não sei como o resto das minhas orações sobreviveria se aquelas pelos mortos fossem proibidas. Em nossa idade, a maioria daqueles que mais amamos estão mortos. Que tipo de relacionamento com Deus eu poderia ter, se o que eu mais amo não pudesse ser mencionado diante dEle?

Na visão protestante tradicional, todos os mortos estão ou condenados ou salvos. Se estão perdidos, a oração por eles é inútil. Se estão salvos, igualmente; Deus já fez tudo por eles. O que mais, então, deveríamos pedir?

Mas não cremos nós que Deus já fez e está fazendo tudo o que pode pelos vivos? O que mais deveríamos pedir? E, no entanto, somos comandados a fazê-lo.

"Sim", alguém me responderá, "mas os vivos estão ainda no caminho. Novas tentações, crescimentos e possibilidades de erro os esperam. Os salvos, ao contrário, foram elevados à perfeição. Eles completaram o percurso. Rezar por eles pressupõe que o progresso e a dificuldade ainda são possíveis. Na verdade, você está trazendo algo como o Purgatório."

Bem, eu suponho que sim. [...] Eu acredito no Purgatório.

A visão do autor anglicano tinha seus aspectos pessoais, é verdade. C. S. Lewis se incomodava, por exemplo, com as descrições fortes que São Thomas More e São João Fisher faziam do Purgatório, pois tinha a impressão de que as penas pareciam mais de um "Inferno temporário" que de um lugar propriamente de purificação. Agradava-lhe, ao contrário, o que ia retratado na obra poética The Dream of Gerontius, do Beato John Henry Newman, onde "a alma salva, bem aos pés do trono de Deus, implora para ser levada embora e purificada, sem poder suportar mais um momento sequer que a sua escuridão seja confrontada por aquela luz".

Precisamente nisso consiste o Purgatório. Como explicou certa vez o Papa Bento XVI, apresentando a conhecida doutrina de Santa Catarina de Gênova, "Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina". Por isso, "os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu" (Catecismo da Igreja Católica, § 1030) — santidade "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12, 14).

Em essência, portanto, C. S. Lewis tinha compreendido muito bem a doutrina sobre o Purgatório, mesmo estando fora da Igreja Católica:

Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que teu hálito fede e que de tuas roupas gotejam lama e lodo, mas nós somos caridosos aqui e ninguém vai censurar-te por causa dessas coisas, nem se afastar de ti. Entra na alegria"? Não deveríamos nós replicar: "Com todo o respeito, senhor, e se não há nenhuma objeção, eu gostaria de ser purificado antes." "Isso pode doer, sabe" — "Mesmo assim, senhor."

Suponho eu que o processo de purificação irá naturalmente envolver sofrimento. Em parte por causa da tradição, em parte porque a maioria dos bens que recebi nesta vida envolveram sofrimento. Mas não acho que seja este o propósito da purgação. Posso acreditar muito bem que pessoas nem tão piores nem tão melhores do que eu sofrerão menos do que eu ou mais. [...] O tratamento dado será aquele requerido, doa o que doer, pouco ou muito que seja.

Evidentemente, pedir que todos os protestantes aceitem esse dogma católico, independentemente do lugar em que se encontrem, talvez seja querer demais. Guiados pelos excelentes argumentos do anglicano C. S. Lewis, no entanto, qualquer um deles pode admitir: é muito mais razoável purificar-se antes de entrar no Céu do que aparecer, com a alma suja e "fedendo", na presença do Altíssimo.

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O que são as “virtudes teologais”?
Doutrina

O que são as “virtudes teologais”?

O que são as “virtudes teologais”?

Ao ser justificado por Deus, o homem recebe de uma só vez, com a remissão de seus pecados, três dons infusos que a tradição católica, amparada na Sagrada Escritura, identifica como “virtudes teologais”. O que são elas?

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Antes de estudarmos as chamadas virtudes teologais, é necessário considerar primeiro duas coisas: (I) os diversos modos de significá-las, ou seja, os distintos nomes por que são conhecidas, (II) e a realidade significada por tais nomes.

I. Nome. — Quanto aos modos de significação, deve-se saber que as virtudes teologais costumam ser designadas de duas maneiras: 1) em geral (lato sensu), por referência quer ao sujeito, quer à causa, quer ao meio por que são conhecidas, e 2) em particular (stricto sensu), em função do objeto ou da forma própria de cada uma delas. Assim:

1) Em geral ou em sentido amplo, as virtudes teologais podem ser designadas como:

  • Virtudes católicas, em razão de seu sujeito, por serem próprias do fiel cristão;
  • Virtudes infusas, em razão de sua causa, que é Deus pela graça;
  • Virtudes teológicas, em razão do meio por que são conhecidas, que é a divina revelação.

2) Em sentido estrito, as virtudes teologais costumam ser designadas em função de sua forma ou objeto próprio, e por isso se distinguem em:

  • , cujo objeto é a Verdade primeira dita ou comunicada;
  • Esperança, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem para nós [1];
  • Caridade, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem em si mesmo.

II. Realidade. — Quanto às realidades significadas por tais nomes, cumpre saber o seguinte: 1) se existem (an sint); 2) o que são (quid sint); 3) por que e como se dividem; 4) e que tipo de ordem se pode estabelecer entre elas. Assim:

1) É de fé que existem virtudes teologais, ao modo de hábitos operativos infusos, responsáveis por nos unirem a Deus, nosso fim último sobrenatural. A Igreja, com efeito, o ensinou em uma multidão de documentos ao longo dos séculos [2].

2) É doutrina certa que estes hábitos versam sobre o fim, que é Deus em si mesmo, e por isso se distinguem das virtudes morais infusas, que têm por objeto os meios, isto é, as criaturas. No entanto, é possível que essa doutrina seja ao menos próxima da fé, em virtude do teor das palavras de Bento XII na Constituição “Benedictus Deus” [3].

3) Há três virtudes teologais por cujos atos nos unimos a Deus [4], já que são três os principais atos de nossas duas potências espirituais, o intelecto e a vontade:

  • A fé, que é um hábito do intelecto, nos une a Deus pelo ato de entendimento (intelligere), por anuência às verdades reveladas.
  • Na vontade radicam outros dois hábitos: α) a esperança, cujo ato é querer (velle) ou aspirar a Deus como bem sumamente árduo, mas possível; β) e a caridade, cujo ato é propriamente o amor a este bem. A esperança, portanto, se distingue da caridade como o movimento em direção ao fim (motus in finem) se distingue da conformidade do apetite com o fim (coaptatio ad finem) [5].

4) Por último, entre as três virtudes teologais se pode distinguir uma dupla ordem: a) uma ordem de prioridade ou geração, fundada nos atos próprios de cada uma delas por analogia com os atos correspondentes das potências em que radicam; b) e uma ordem de perfeição ou dignidade, fundada no aspecto formal sob o qual atingem o seu objeto, isto é, Deus em si mesmo [6]. Nesse sentido:

  • Na ordem da geração, primeiro vem a fé, depois a esperança e por último a caridade, assim como primeiro é o conhecimento, depois a volição imperfeita (ou tendencial) e por último a volição perfeita (conformativa ou fruitiva). Com efeito, assim como a vontade só pode apetecer e chegar à posse do bem, se lho apresentar antes o intelecto (nihil volitum nisi præcognitum), do mesmo modo a esperança só pode querer e a caridade só pode amar a Deus se ele for conhecido pela fé.
  • Na ordem da perfeição, primeiro vem a caridade, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser amado em si mesmo com amor de benevolência; depois vem a fé, que tem a Deus por objeto enquanto verdade divina a ser conhecida sob a luz da graça; e por último vem a esperança, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser apetecido com amor de concupiscência.

Ora, dado que um ato é tanto mais meritório quanto mais perfeita é a virtude de que é ato [7], pode-se estabelecer um terceiro critério de ordenação entre as virtudes teologais, também do ângulo da perfeição. Assim, a virtude mais perfeita de todas é a caridade, cujo ato é o amor a Deus em si mesmo, ao passo que a esperança é agora mais perfeita do que a , já que a esperança de certa forma direciona ou move os nossos afetos a Deus, enquanto pela fé é Deus quem passa a estar presente em nós ao modo de objeto conhecido (cf. STh I-II 68, 8 c.).

Daí dizer S. Paulo, em 1Cor 13, 13, que a caridade, das três virtudes teologais, é a maior, pois ela não só se especifica por um objeto formal, de certo ângulo, mais excelente como também aperfeiçoa os atos das outras duas, tornando-os meritórios, por certo influxo informativo, da vida eterna [8].

Notas

  1. Na verdade, embora a esperança se refira, sim, a Deus sob a razão de bem divino nosso (amável, portanto, com amor de concupiscência), o seu objeto formal próprio é a onipotência divina auxiliante, na medida em que conota a misericórdia e a fidelidade de Deus para conosco. Em outras palavras, o que desejamos ou aquilo a que tendemos pelo ato de esperança teologal é Deus enquanto bem ausente, futuro e sumamente árduo, mas alcançável com o auxílio de sua onipotência, auxílio que ele mesmo nos prometeu: “Na esperan­ça da vida eterna prometida em tempos longínquos por Deus veraz e fiel” (Tt 1, 2); “Ante a promessa de Deus”, Abraão “não vacilou, não desconfiou […]. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4, 20s).
  2. Cf., entre outros, Inocêncio III, Carta “Maiores Ecclesiæ causas”, de 1201 (DH 780s); Concílio de Vienne, Constituição “Fidei catholicæ”, de 6 mai. 1312 (DH 904); Concílio de Trento, Sessão 6.ª, de 13 jan. 1547, “Decreto sobre a justificação”, cap. 7 (DH 1530s); Concílio Vaticano I, Constituição “Dei Filius”, de 24 abr. 1870, cap. 3 (DH 3008); Catecismo Romano, II, cap. 2, n. 50: “A graça […] é acompanhada pelo sublime cortejo de todas as virtudes, que Deus infunde na alma juntamente com a graça”.
  3. Diz pois o sumo Pontífice que a “visão da essência divina e a sua fruição fazem cessar nelas”, isto é, nas almas dos bem-aventurados, “os atos de fé e de esperança, enquanto a fé e a esperança são propriamente virtudes teologais” (DH 1001), quer dizer, na medida em que são virtudes que têm a Deus em si mesmo como objeto próprio, mas enquanto Verdade não vista (fé) e Bem ainda não possuído (esperança).
  4. A divisão tripartite das virtudes teologais é ponto pacífico e absolutamente certo, embora, ao que tudo indica, não tenha sido nunca objeto de uma definição expressa e solene do Magistério eclesiástico. Mas o fato de a Igreja nunca ter definido que existem três, e somente três, virtudes teologais não nos autoriza a supor que existam outras além delas. Com efeito, assim como não admitimos em Deus mais do que três pessoas, por não nos ter sido revelada nenhuma outra, nem reconhecemos, pela mesma razão, mais do que sete sacramentos da nova Lei, tampouco devemos admitir mais do que as três virtudes teologais de que nos falam as fontes da revelação: “Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade: as três” (1Cor 13, 13).
  5. Eis o que ensina o Doutor Angélico a esse respeito: “A vontade se ordena a um fim quanto ao movimento de intenção, a ele tendendo como a algo possível de conseguir, o que compete à esperança, e quanto a certa união espiritual, pela qual é, de certo modo, transformada em tal fim, o que se dá pela caridade. Com efeito, o apetite de cada coisa naturalmente se move e tende a um fim que lhe é conatural, e este movimento provém de certa conformidade da coisa com o seu fim” (STh I-II 62, 3 c.). — É evidente, porém, que essa conformidade ou união espiritual que a caridade importa com seu fim, isto é, com Deus, difere segundo o estado, porquanto uma é a conformidade que se pode ter in via (onde amamos e possuímos a Deus, mas apenas de certo modo e  imperfeitamente) e outra é a conformidade que se pode ter in patria (onde os bem-aventurados amam a Deus e o possuem perfeitamente, cada um segundo a própria capacidade ou potência dilectiva). Com efeito, “diz-se que algo é amado na medida em que o apetite do amante está para ele como para o seu bem. Logo, a relação ou conformidade mesma do apetite a algo como ao seu bem chama-se amor. Ora, tudo o que se ordena a algo como ao seu bem de certo modo o tem presente e unido a si segundo certa semelhança, ao menos de proporção, assim como a forma está de certo modo na matéria, enquanto tem aptidão e ordem a ela” (In De divinis nom. c. 4, l. 9).
  6. Não se pode, evidentemente, estabelecer um critério de ordenação entre elas a partir da pura e simples razão de “hábito” (quoad ipsos habitus), uma vez que Deus infunde juntas as três virtudes teologais ao justificar o ímpio: “Hæc omnia simul infusa accipit homo […]: fidem, spem et caritatem” (Concílio de Trento, loc. cit.).
  7. Cf. S. Tomás de Aquino, Quodlib. 6, 6 c.: “[…] um ato pode dizer-se mais meritório duplamente. De um modo, pelo gênero da obra; e assim é mais meritório o ato que é de uma virtude mais excelente (v.gr., é mais meritório, em si, um ato de religião que um de beneficência) […]. De outro modo, pode um ato dizer-se mais meritório por proceder de maior caridade, embora ela seja menor (isto é, menos meritório em si) por seu gênero (v.gr., pode ser mais meritório um ato de beneficência imperado por caridade mais intensa que um realizado apenas por religião)”; STh II-II 88, 6 c.: “É melhor e mais meritória a obra de uma virtude mais nobre. Por isso, o ato de uma virtude inferior é melhor e mais meritório quando é imperado por uma virtude superior, cujo ato se realiza por império, assim como o ato de fé ou de esperança é melhor se for imperado pela caridade”.
  8. Este artigo é uma adaptação resumida e, em alguns pontos, ampliada de Pe. Santiago Ramírez, De fide divina. Salamanca: San Esteban, 1994, pp. 4-11, nn. 6-18.

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“Um filme perigoso”, mas para quem?
Pró-Vida

“Um filme perigoso”, mas para quem?

“Um filme perigoso”, mas para quem?

Apesar de alguns crerem que Unplanned “não é um filme ideal para se ver na reabertura dos cinemas”, não há nada mais apropriado para os brasileiros assistirem agora do que à verdade nua e crua sobre o que realmente é um aborto.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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“Um filme perigoso...”. Assim um grupo pró-aborto do Canadá rotulou o longa Unplanned, que estreou esta semana nos cinemas brasileiros. Considerado “polêmico” por parte da “crítica especializada”, a produção chegou a ser censurada ou restringida para maiores de 16 anos, como foi o caso no Brasil. Mas qual seria a razão para tanto alarde? Por que esse filme de baixo orçamento preocupou tanto os defensores do aborto, fazendo-os endossar notas de repúdio, ameaças e até campanhas de boicote?

A resposta é simplesmente esta: escândalo dos escândalos para quem deseja matar bebês no ventre materno, Unplanned, lançado aqui como 40 Dias: O Milagre da Vida, conta a história de Abby Johnson, uma ex-diretora da clínica Planned Parenthood, nos Estados Unidos, que, após ter visto por ultrassom um procedimento de aborto, decidiu abandonar as fileiras da empresa para engrossar o apelo dos pró-vida. O filme se baseia no livro autobiográfico de Abby, cujo primeiro capítulo já publicamos aqui anos atrás. Trata-se de um relato comovente e, ao mesmo tempo, chocante que, verdade seja dita, é realmente “muito perigoso” para os advogados do aborto; mas não porque incentive alguma violência — não, o filme nem de longe sugere isso —, e sim porque expõe um dado bastante inconveniente: a legalização do aborto jamais serviu para a proteção das mulheres, pois, ao fim e ao cabo, a questão sempre foi o poder, a formação de uma indústria extremamente lucrativa que se tornou um império multinacional às custas de milhões de vidas inocentes.

A reviravolta na história de Abby começou precisamente quando ela se deu conta disso. Depois de oito anos iludida, julgando que a Planned Parenthood era apenas mais uma ONG para garantir os “direitos reprodutivos” da mulher e o acesso a métodos contraceptivos, ela descobriu que, no fim das contas, a instituição para a qual trabalhava tinha uma meta bem mais prática: ter lucros provendo abortos. Não interessava a saúde das pacientes. Não interessava a vida das mulheres. Não interessava sequer a ideologia. A verdade veio à tona quando Abby, após ter questionado a orientação para aumentar os procedimentos abortivos, foi formalmente repreendida pela empresa. “Aborto é o que paga o seu salário”, ouviu de sua supervisora. 

De fato, a Planned Parenthood, fundada em 1916 pela ativista Margaret Sanger, tornou-se uma instituição poderosíssima mundo afora, graças a verbas governamentais e doações de grupos como Rockfeller e Ford. Paralelamente, o fornecimento do chamado “aborto seguro” é uma de suas principais fontes de renda, dado que outros serviços têm sido menos procurados, segundo o relatório anual da empresa. Em 2019, o rendimento total da Planned Parenthood ficou em torno de US$ 1,6 bilhão. Entre os anos de 2017 e 2018, foram realizados mais de 330 mil abortos pela instituição, com preços de US$ 350 a US$ 900 cada, dependendo do tempo de gestação. Quanto mais adiantada for a gravidez, mais caro o aborto.

Unplanned não é, decerto, uma produção para vencer 11 estatuetas do Oscar, mas só por apresentar esse lado obscuro do movimento pró-aborto — que, de outro modo, dificilmente chegaria à opinião pública — já vale o ingresso. Trata-se de um filme panfletário? Pode ser, em alguns momentos. Mas que filme, hoje em dia, poderia gabar-se de não sê-lo? Desde que Hollywood abandonou o bom senso da moral para mergulhar de vez na baixeza e no politicamente correto, a maior parte das grandes produções é agora marcada por panfletagem ideológica, e predominantemente de esquerda (o que só deve piorar com a nova orientação da Academia de Cinema para a defesa da “diversidade”). Unplanned, portanto, não é só oportuno, mas necessário para romper uma narrativa única, sobretudo quando uma atriz do porte de Michelle Willians, por exemplo, sobe ao palco para receber o Globo de Ouro e atribui a conquista do prêmio ao aborto que cometeu anos atrás, e isso sob aplausos da imprensa.

As ONGs pró-aborto sempre tiveram a seu favor os grandes meios de comunicação, que trabalham diuturnamente para forjar a ideia de que se trata de uma “questão de saúde pública”, coisa por si só abjeta, porque supõe que uma mulher precisa matar o próprio filho “com segurança” para manter-se saudável. Para isso, não se envergonham de publicar matérias alarmistas, as tais “fake news”, sobre supostos números de mortes em casos de abortamento clandestino. E pintando uma imagem cinicamente “humanista”, tentam ganhar a opinião pública por meio de um discurso sobre “direitos humanos” e “igualdade de gênero”. É o suprassumo da hipocrisia que, diante de um filme como Unplanned — uma produção modesta, sim, mas perfeitamente capaz de atrair a audiência —, não pode se sustentar de pé, a não ser pelo uso da força e da difamação. Daí toda a campanha de boicote e censura contra o filme, a pretexto de um perigo de violência e ataques contra clínicas e médicos que fazem aborto.

Mas se há uma coisa que o espectador não verá durante 1h49min de cenas é alguma incitação à violência. Ao contrário, os roteiristas tiveram a sensibilidade de deixar bem evidente a diferença entre os grupos de pró-vida, como o 40 dias pela Vida, e os de pessoas isoladas que agem mais pelas paixões do que pela razão. No fundo, o que há é uma crítica severa a quem pretende salvar vidas por métodos desumanos. Unplanned mostra que a verdadeira defesa da vida não é feita por discursos de ódio ou ataques pessoais, o que nos igualaria ao outro lado, mas pela doação de si mesmo, pelo sacrifício dos próprios interesses em benefício dos outros. Nesse sentido, a única violência explícita que o espectador que for ao cinema deve esperar é aquela mesma do aborto, cuja consequência é sempre mortal.

De resto, apesar de alguns crerem que Unplanned “não é um filme ideal para se ver na reabertura dos cinemas”, não há nada mais apropriado para os brasileiros assistirem agora do que à verdade nua e crua a respeito do que é mesmo um abortamento, sobretudo após o caso da menina de 10 anos, de São Mateus (ES), que foi tão explorado e deturpado pela militância pró-aborto. Porque o verdadeiro “perigo” não é um filme no cinema, mas o que essas ONGs ditas “humanistas” vêm tramando há anos por debaixo dos panos para instituir a matança de bebês no nosso país.

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O ateísmo é o “novo normal”
Sociedade

O ateísmo é o “novo normal”

O ateísmo é o “novo normal”

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu. Hoje, é a pessoa religiosa que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe. É a pessoa de fé que precisa ter coragem para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

David CarlinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do professor David Carlin. A análise dele é feita a partir da observação do que tem acontecido recentemente nos Estados Unidos, lugar onde ele reside. Mas as manifestações criminosas do último fim de semana no Chile, que incluíram incêndios de igrejas católicas históricas, têm muito a ver com a situação que ele descreve abaixo. 

O texto original foi publicado em 4 de setembro no site The Catholic Thing, ou seja, bem antes dos fatos dos últimos dias. Mas ele fala de um colapso civilizacional que não é de hoje, nem do fim de semana passado. Daí a atualidade e importância do tema.


Não posso prová-lo, mas tenho a forte impressão de que, hoje, o ateísmo é a posição “padrão” dos americanos bem educados, relativamente ricos e com menos de 40 anos. 

Quando falo de ateus, penso em três categorias: (1) os ateus sinceros, pessoas bastante francas em relação à sua descrença; (2) os ateus tímidos, também conhecidos como agnósticos, que não creem em Deus, mas gostam de dizer a si e aos outros que são tolerantes em relação ao assunto (embora não o sejam); (3) os ateus indiferentes, cuja convicção da inexistência de Deus é tão grande, que não se importam em atribuir ao seu estado de espírito o rótulo de ateu ou agnóstico.

Também deveríamos observar que o ateísmo tem muitos “companheiros de viagem” semiateus entre protestantes, católicos e judeus progressistas. 

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu nos Estados Unidos. Era preciso realizar certo esforço mental e moral. A pessoa tinha de se rebelar contra a existência de Deus, uma coisa dada por certa. Além disso, era preciso encontrar razões para rejeitá-la. Finalmente, faltava coragem ou obstinação para aderir a essa perspectiva, apesar de ela contar com poucos apoiadores.

Em contrapartida, é fácil ser ateu nas primeiras décadas do glorioso século XXI. Quase tão fácil quanto respirar.

A situação mudou. Hoje, é a pessoa religiosa bem instruída que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe, o que é, agora, dado por certo. É a pessoa de fé que precisa encontrar razões para rejeitar a descrença. É o teísta que precisa ter coragem ou obstinação para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

A menos que alguma grande revolução religiosa ocorra, é provável que o ateísmo se dissemine nos níveis menos instruídos e privilegiados da sociedade. Existe uma espécie de princípio segundo o qual as crenças e valores das elites culturais da sociedade cedo ou tarde se disseminam entre as massas, ainda que de forma diluída. Na Idade Média, por exemplo, as crenças e valores cristãos dos sacerdotes, monges e freiras se espalharam entre as massas semicristianizadas, ainda que o cristianismo das massas fosse diluído com muitas doses de heresia e superstição.

Nos grandes dias da atividade missionária dos jesuítas, estes compreendiam que, se quisessem converter uma sociedade para o catolicismo, teriam de começar não pelos camponeses, mas pelo rei e a corte. Converta-se o rei, e o campo logo se converterá também.

Em resumo, em poucas décadas os Estados Unidos poderão ser uma sociedade em que elites ateias liderarão massas semiateias. Já é possível antever a formação dessa estrutura social. Elites ateias tendem a predominar em nossas grandes instituições dedicadas à “educação cultural” do público: instituições como o jornalismo, a indústria do entretenimento e as nossas melhores faculdades e universidades.

Tudo isso é bastante estranho, já que, ao longo da história da espécie humana, algum tipo de teísmo (ou politeísmo) foi praticamente universal. Quase todas as pessoas acreditavam em Deus (ou em deuses). Quase todos acreditavam que algum poder (ou poderes) divino sobrenatural governava o mundo. 

Isso funcionou assim por tantos milênios, que alguns criteriosos pesquisadores concluíram que os seres humanos são religiosos por natureza. Há algo em nossa natureza que nos impele a crer em Deus (ou deuses). O ateísmo, portanto, era algo raro e artificial. Mais ou menos como a homossexualidade. 

Naturalmente, por vivermos numa época extraordinária de esclarecimento científico e psicológico, a maior parte de nossas elites culturais aderiu ao novo entendimento de que a homossexualidade não é nem um pouco antinatural. Depois de fazerem essa grande descoberta, deveríamos nos surpreender com o fato de terem descoberto algo ainda mais importante, ou seja, que o ateísmo também não é antinatural?

Imaginemos que o ateísmo passe a predominar na sociedade. Isso causará algum dano significativo nas gerações que virão? Aqueles que, ao longo da vida, acreditaram na existência de Deus responderão que sim. Mas talvez este seja apenas um “preconceito” da nossa parte. Temos, pois, bons motivos para temer o triunfo do ateísmo?

Sugiro dois: por um lado, se Deus não existe, então a moralidade humana não tem fundamento divino; mas, se não possui fundamento divino, deve ter um fundamento exclusivamente humano. A moralidade terá de ser reconhecida como algo criado exclusivamente pelo homem. Ora, se é algo feito apenas pelo homem, então pode ser modificado por ele de forma súbita e radical. O que ontem se considerava mau (o assassinato, por exemplo) poderá, hoje, ser considerado bom. É claro que facilitaremos essa transição usando nomes suaves. Não chamaremos assassinato de “assassinato”. Chamaremos de aborto, eutanásia ou de qualquer outro nome suave que possamos encontrar.

Por outro lado, se Deus existe (ao menos o Deus racional no qual sempre creram a teologia e a filosofia ocidentais, em oposição ao Deus um tanto arbitrário do islamismo), então faz sentido crer que a natureza, criatura de Deus, é inteligível; que a natureza pode ser compreendida pela razão humana. Se nos livrarmos desse Deus racional, também nos livraremos da Criação racional. Abriremos as portas para crenças arbitrárias (por exemplo, a de que um homem se torna mulher apenas por sentir-se assim). Abriremos as portas para as mais selvagens superstições. As pessoas serão incentivadas a crer em qualquer coisa de que gostarem. 

Não me agrada a ideia, por ser já um homem velho, de que, em breve, terei de deixar o espetáculo terrivelmente interessante da história humana. Outras vezes, no entanto, agradeço a Deus por saber que não serei espectador do colapso total de nossa outrora magnífica civilização.

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Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha
Espiritualidade

Escolhendo tudo:
uma lição de Santa Teresinha

Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha

Quando nos aproximamos de Deus com a cesta da nossa vida, tendemos a esconder nossas fraquezas, pecados e feridas, oferecendo-lhe só o que nos parece mais agradável. Ele age conosco, porém, como na história da pequena Teresa, e nos diz: “Eu escolho tudo!”

Jim AndersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Em sua autobiografia, História de uma alma, S. Teresinha conta uma bela história sobre um incidente de infância. Sua irmã mais velha, Leônia, que já estava muito grande para brincar de boneca, trouxera uma cesta com materiais para fazer vestidos de boneca para as irmãs mais novas, Celina e Teresa. A boneca de Leônia estava na cesta, em cima dos materiais. Ela ofereceu a cesta às irmãs, dizendo: “Queridas, escolham o que quiserem”. Celina, a mais velha das duas, pegou uma bola de lã que havia chamado sua atenção, mas Teresa, que tinha apenas dois anos, simplesmente afirmou: “Eu escolho tudo!” e, sem fazer cerimônia, pegou a cesta, a boneca e tudo o mais!  

Esse episódio reflete a postura de Teresa durante toda a vida, como ela conta em História de uma alma (Manuscrito A, 10r-10v): 

Este pequeno episódio de minha infância é o resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando dei com a perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e esquecer-se a si mesma, compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder às solicitações de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por ele, numa palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância exclamei: “Meu Deus, escolho tudo. Não quero ser santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós; a única coisa que temo é guardar minha vontade, tomai-a vós, pois ‘escolho tudo’ o que quiserdes!...”

Embora a pequena Teresa ilustre, com sua precoce e vibrante audácia, a profundidade do desejo humano — um desejo que, no final das contas, só é saciado por Deus —, creio que seja possível extrair outra reflexão desse relato.

Deus fala a cada um de nós com o mesmo desejo entusiasta manifestado por Teresa quando nos apresentamos diante dEle com a cesta da nossa vida — muitas vezes, com temor e tremor — e a oferecemos a Ele pedindo-lhe que pegue algo dela. É claro que oferecemos, imediatamente, as partes preferidas: as que julgamos mais agradáveis a Ele, as que podemos oferecer com mais segurança ou as que supostamente não nos custarão muito.

Porém, há outros aspectos da vida que estamos menos dispostos a oferecer a Deus: nossas fraquezas, pecados e feridas; os rancores e queixas que guardamos secretamente; as partes da nossa humanidade ferida que nos atormentam e constrangem; todas as partes da nossa personalidade que estão cheias de imperfeições.

Isso também pode nos deixar irritados. O mandamento de Jesus: “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” parece impossível de cumprir, algo flagrantemente absurdo de pedir a um ser humano! Conscientes da fraqueza e da escuridão que se escondem em nosso coração, nós, como Marta diante do sepulcro de Lázaro, clamamos: “Senhor, já cheira mal!”, e muitas vezes nos afastamos dEle e nos escondemos em nossas feridas.

Mas o amor não se satisfaz facilmente. Deus age como a pequena Teresa. Olhando para a cesta que somos nós, Ele diz sem meios termos: “Eu escolho tudo!” Em momentos como esse, brotam em nosso coração as palavras que Ele dirigiu a Marta: “Não te disse eu: se creres, verás a glória de Deus?”   

E o que é a glória de Deus? Irineu nos diz: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo!” Aos olhos de Deus, isso é a perfeição — ser perfeito como pessoa humana é ser humano de modo autêntico e pleno, assim como Deus é perfeito sendo plenamente divino.  

S. João Paulo II disse a mesma coisa com outras palavras, exortando as famílias a “tornarem-se o que são”. Mas precisamos da graça de Jesus Cristo, que é “a ressurreição e a vida”, para renovar, restaurar, curar, aperfeiçoar e elevar todos os aspectos da nossa humanidade — os bons, os maus e os feios — à plenitude da imagem e semelhança de Deus. Isso significa ser plenamente humano, entregando a Deus tudo o que somos e temos para que, em contrapartida, possamos aceitar tudo dEle, como o fez Teresa.

É uma troca admirável: o nosso tudo (que, na verdade, não é nada) pelo tudo de Deus (que, na verdade, é Tudo). Nessa troca de tudo por tudo, ficamos com a parte boa do negócio.

Esse é o núcleo do gênio de S. Teresinha e de sua pequena via. Deus nos encontra quando aceitamos voluntariamente nossa imperfeição, fraqueza, pobreza e carência. Com a confiança de uma criança, Teresinha nos encoraja a confiarmos que até o menor passo em direção a Deus é suficiente para receber seu amor e misericórdia. Podemos ter certeza de que, se estivermos dispostos a nos aproximar de Deus tanto quanto possível — ainda que seja um caminho curto —, Ele fará a diferença em sua ternura e bondade.

Esse também é o núcleo do espírito missionário de S. Teresinha, padroeira das missões, pois, como sugere outra santa mulher, Catarina Doherty, o primeiro campo de qualquer missão é o coração humano — onde são tomadas todas as decisões favoráveis ou contrárias a Deus e ao próximo. Só precisamos aceitar humildemente nossas fraquezas como oportunidades para encontrar a Deus em profundidades cada vez maiores, e assim abrir nosso coração a Ele de forma mais plena, permitindo que Ele escolha tudo e transforme tudo em seu amor.

João Paulo II descreve a autêntica formação humana como um movimento que parte do autoconhecimento, passa pela aceitação de si e chega à doação de si. Isso requer uma visão integral da pessoa humana em todos os aspectos de seu ser — físico, espiritual, emocional, social e intelectual — e implica a Redenção e o aperfeiçoamento de todos esses aspectos em Cristo.

E Teresinha nos ensina isso. “Teresa é Mestra para o nosso tempo”, escreveu João Paulo em Divini Amoris Scientia, a Carta apostólica em que ele a proclamou Doutora da Igreja, “Mestra de vida evangélica, particularmente eficaz ao iluminar os caminhos dos jovens, aos quais compete ser protagonistas e testemunhas do Evangelho junto das novas gerações”. 

Sem dúvida, já vi esse testemunho ao longo de meus anos de trabalho como formador de jovens — uma miríade de esperanças, alegrias e vidas restauradas pela entrega inocente ao amor de Deus. Talvez nestes dias, como nunca antes, em meio ao medo disseminado pela pandemia, ao crescimento do isolamento e da divisão, da agitação social e da animosidade crescente mesmo no seio da Igreja, necessitemos de uma mestra como Teresinha, que pode nos ajudar a entregarmos tudo para escolhermos Tudo.

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