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C. S. Lewis: um protestante que cria no Purgatório

“É claro que eu rezo pelos mortos”, dizia C. S. Lewis. “Que tipo de relacionamento eu poderia ter com Deus, se aqueles a quem eu mais amo não pudessem ser mencionados diante dEle?”

C. S. Lewis é considerado um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Muitas de suas obras foram traduzidas para o português, dentre as quais merecem destaque "Cristianismo Puro e Simples" e "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz". Seu maior sucesso, no entanto, é sem dúvida "As Crônicas de Nárnia", obra sua de ficção que ganhou as telas do cinema e fez inúmeros fãs, de todas as idades.

Embora sua conversão a Cristo esteja profundamente associada à Igreja Católica — pois foi o escritor católico J. R. R. Tolkien quem o convenceu da verdade da fé cristã —, C. S. Lewis escolheu professar, para desgosto do amigo, a confissão anglicana, na qual permaneceu até o fim de sua vida.

Curiosamente, porém, C. S. Lewis acreditava no Purgatório. Os reformadores protestantes negaram esse dogma católico, no século XVI, e Martinho Lutero chegou a arrancar do Cânon das Escrituras os dois livros veterotestamentários dos Macabeus, que continham exemplos de orações dos judeus pelos mortos. Em 1801, uma convenção episcopalista definiu, entre os artigos de fé da comunhão anglicana, que "a doutrina católica a respeito do Purgatório" seria "uma coisa fantasiosa, inventada inutilmente e sem nenhuma base na Escritura, sendo repugnante, na verdade, à Palavra de Deus".

Como essas definições protestantes nunca passaram, entretanto, de convenções humanas — e os próprios evangélicos o admitem —, Lewis aparentemente não via problema algum em dar crédito à doutrina católica sobre o Purgatório. Sua confissão é manifesta na obra Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer, publicada postumamente em 1964:

É claro que eu rezo pelos mortos. A ação é tão espontânea, tão inevitável, que só o tipo teológico mais compulsivo poderia dissuadir-me de fazê-lo. E eu não sei como o resto das minhas orações sobreviveria se aquelas pelos mortos fossem proibidas. Em nossa idade, a maioria daqueles que mais amamos estão mortos. Que tipo de relacionamento com Deus eu poderia ter, se o que eu mais amo não pudesse ser mencionado diante dEle?

Na visão protestante tradicional, todos os mortos estão ou condenados ou salvos. Se estão perdidos, a oração por eles é inútil. Se estão salvos, igualmente; Deus já fez tudo por eles. O que mais, então, deveríamos pedir?

Mas não cremos nós que Deus já fez e está fazendo tudo o que pode pelos vivos? O que mais deveríamos pedir? E, no entanto, somos comandados a fazê-lo.

"Sim", alguém me responderá, "mas os vivos estão ainda no caminho. Novas tentações, crescimentos e possibilidades de erro os esperam. Os salvos, ao contrário, foram elevados à perfeição. Eles completaram o percurso. Rezar por eles pressupõe que o progresso e a dificuldade ainda são possíveis. Na verdade, você está trazendo algo como o Purgatório."

Bem, eu suponho que sim. [...] Eu acredito no Purgatório.

A visão do autor anglicano tinha seus aspectos pessoais, é verdade. C. S. Lewis se incomodava, por exemplo, com as descrições fortes que São Thomas More e São João Fisher faziam do Purgatório, pois tinha a impressão de que as penas pareciam mais de um "Inferno temporário" que de um lugar propriamente de purificação. Agradava-lhe, ao contrário, o que ia retratado na obra poética The Dream of Gerontius, do Beato John Henry Newman, onde "a alma salva, bem aos pés do trono de Deus, implora para ser levada embora e purificada, sem poder suportar mais um momento sequer que a sua escuridão seja confrontada por aquela luz".

Precisamente nisso consiste o Purgatório. Como explicou certa vez o Papa Bento XVI, apresentando a conhecida doutrina de Santa Catarina de Gênova, "Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina". Por isso, "os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu" (Catecismo da Igreja Católica, § 1030) — santidade "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12, 14).

Em essência, portanto, C. S. Lewis tinha compreendido muito bem a doutrina sobre o Purgatório, mesmo estando fora da Igreja Católica:

Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que teu hálito fede e que de tuas roupas gotejam lama e lodo, mas nós somos caridosos aqui e ninguém vai censurar-te por causa dessas coisas, nem se afastar de ti. Entra na alegria"? Não deveríamos nós replicar: "Com todo o respeito, senhor, e se não há nenhuma objeção, eu gostaria de ser purificado antes." "Isso pode doer, sabe" — "Mesmo assim, senhor."

Suponho eu que o processo de purificação irá naturalmente envolver sofrimento. Em parte por causa da tradição, em parte porque a maioria dos bens que recebi nesta vida envolveram sofrimento. Mas não acho que seja este o propósito da purgação. Posso acreditar muito bem que pessoas nem tão piores nem tão melhores do que eu sofrerão menos do que eu ou mais. [...] O tratamento dado será aquele requerido, doa o que doer, pouco ou muito que seja.

Evidentemente, pedir que todos os protestantes aceitem esse dogma católico, independentemente do lugar em que se encontrem, talvez seja querer demais. Guiados pelos excelentes argumentos do anglicano C. S. Lewis, no entanto, qualquer um deles pode admitir: é muito mais razoável purificar-se antes de entrar no Céu do que aparecer, com a alma suja e "fedendo", na presença do Altíssimo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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