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Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto
Pró-Vida

Cem anos atrás,
a Rússia comunista legalizava o aborto

Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto

18 de novembro de 1920: há um século, o aborto era legalizado na Rússia soviética — episódio marcante e com consequências terríveis, para todo o mundo. Os socialistas bolcheviques liberaram a prática assim que tomaram o poder.

Paul KengorTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Há cem anos, no dia 18 de novembro de 1920, o regime bolchevique na Rússia soviética legalizava o aborto — episódio marcante de um dia de infâmia, com consequências terríveis, para a Rússia e para o mundo [1].

A prática foi legalizada pelos bolcheviques logo depois de eles tomarem o poder. Sua revolução começou em São Petersburgo, em outubro de 1917, seguida imediatamente de uma brutal guerra civil entre 1918 e 1921, que, segundo o historiador W. Bruce Lincoln, ceifou a vida de 7 milhões de homens, mulheres e crianças russas. Mas isso não foi nada comparado com as mortes de nascituros que começaram a ocorrer quando os bolcheviques legalizaram o aborto em novembro de 1920.

Curiosamente, no regime bolchevique os russos não eram livres para ter uma fazenda, uma fábrica, uma empresa, uma conta bancária, nem para ir à igreja. Os comunistas tomaram os casacos de pele e as contas bancárias das mulheres russas. Os bebês já não podiam ser batizados. E mesmo assim o céu era o limite quando se tratava de realizar um aborto (ou de divorciar-se). Havia plena liberdade nessa área tão particular.  

Em novembro de 1920, após subverter a nação e matar (literalmente esquartejar) toda a família Romanov em julho de 1918, os bolcheviques honraram a promessa feita por Vladimir Lênin em junho de 1913 (publicada no Pravda) de “anular incondicionalmente todas as leis contrárias ao aborto”. Como suas crias progressistas viriam a fazer mais tarde no Ocidente, os soviéticos publicaram seu decreto usando como pretexto a “saúde das mulheres”. O decreto de Lênin foi intitulado: “Sobre a Proteção da Saúde das Mulheres”. O aborto tornou-se plenamente disponível e gratuito para as russas. 

Como geralmente acontece quando um certo vício é legalizado, a sociedade passou a ver mais dele — e, então, ainda mais. O número de abortos disparou. Surpreendentemente, por volta de 1934 as mulheres de Moscou realizavam três abortos para cada bebê nascido vivo — números chocantes que as mulheres norte-americanas nunca alcançaram, mesmo depois de Roe vs. Wade [n.d.t.: a decisão judicial de 1973 que legalizou o aborto nos Estados Unidos]. 

A situação fugiu tanto do controle, que até a eugenista Margaret Sanger ficou surpresa. Como muitos peregrinos políticos e progressistas simpáticos ao regime soviético daquela época, a matrona da Planned Parenthood peregrinou até a URSS na década de 1930 para aprender com o “grande experimento” soviético — como disse John Dewey, o “pai moderno da educação experimental”. Alguns dos admiradores eram George Bernard Shaw, colega de Sanger, e H. G. Wells, namorado dela (um dos muitos que ela teve, mesmo sendo casada). Sanger foi até a URSS no verão de 1934. Ela fora seduzida pelos avanços de Lênin e Stálin no campo do controle de natalidade e falou sobre eles com entusiasmo na edição de junho de 1955 de seu jornal, Birth Control Review, num artigo chamado Birth Control in Russia [“Controle de Natalidade na Rússia”]. 

Vladimir Lênin.

“Teoricamente, não há na Rússia obstáculos para o controle de natalidade”, escreveu Sanger maravilhada. “Ele é aceito […] por razões de saúde e por ser considerado um direito humano”. Mostrando estar muito à frente de seu tempo, ela disse o seguinte sobre os Estados Unidos: “Poderíamos muito bem seguir o exemplo da Rússia, onde não há restrições legais e nenhuma condenação religiosa, e onde a instrução sobre o controle de natalidade é parte das políticas de bem-estar regulares do governo”. 

Levou algum tempo até que os progressistas americanos alcançassem as políticas de Stálin sobre controle de natalidade, mas eles já chegaram lá.

Curiosamente, no entanto, embora Sanger tivesse uma visão muito positiva do controle populacional na Rússia, ela ficou horrorizada com a repentina proliferação do aborto, que pareceu ter piorado tão rápido a ponto de os planejadores centrais bolcheviques não saberem quantos abortos estavam sendo realizados. “O número total é desconhecido”, relatou ela, “mas só em Moscou o número é estimado em cerca de 100.000 por ano”.

Joseph Stálin tinha uma estimativa. Na verdade, a proliferação de casos o preocupava. Em 1936, a taxa de abortos era tão espantosa, que um horrorizado Stálin (que não era exatamente um grande humanista) tentou controlar a situação. Ele proibiu o aborto naquele ano, havendo ponderado seriamente que, se aquela loucura continuasse, a Rússia não teria futuro. 

Para ficar claro: nem todos os companheiros de Stálin concordavam com ele. Seu antigo aliado, León Trótski, então em exílio forçado, protestou com veemência. Em seu livro A Revolução Traída, Trótski insistiu na ideia de que “o poder revolucionário havia dado às mulheres o direito ao aborto” como “um de seus mais importantes direitos civis, políticos e culturais”. Isso estava implícito na visão de Trótski a respeito da “nova família”. Para realizá-la, disse ele, “a antiga família continua a se dissolver de forma muito mais rápida”. Não há nada melhor do que o aborto para ajudar nessa dissolução

“Não é possível abolir a família”, ensinava Trótski. “É necessário substituí-la.”

Trótski estava aperfeiçoando Marx e Engels, que declararam no Manifesto Comunista: “Abolição da família! Mesmo os mais radicais se exaltam com essa infame proposta dos comunistas”.

Como o processo dessa abolição não estivesse avançando na velocidade devida — ao contrário do que aconteceu à propriedade privada, ao capital e a “toda a moralidade” (nas palavras de Marx e Engels —, os bolcheviques estavam dispostos a dar um empurrão

Por fim, prevaleceu entre os comunistas o ponto de vista de Trótski, o qual literalmente durou mais que Stálin, que se encontrou com o Ceifador em 5 de março de 1953. Após a morte de Stálin, o aborto foi rapidamente legalizado outra vez. Nikita Khrushchev, mais progressista, pôs as coisas em ordem de novo em 1955, revertendo a proibição do aborto determinada por Stálin, permitindo assim que as taxas de aborto chegassem a um patamar jamais visto na história humana. O professor H. Kent Geiger, uma fonte confiável do fim da década de 1960, relatou o seguinte numa obra publicada pela Harvard University Press: “É possível encontrar mulheres soviéticas que fizeram vinte abortos”.

Na década de 1970, segundo estatísticas oficiais do Ministério da Saúde Soviético, era feita na URSS uma média de 7 a 8 milhões de abortos por ano, aniquilando futuras gerações inteiras de crianças russas. Foi só há pouco tempo, no governo de Vladimir Putin, que enfrentou a projeção de decréscimo populacional de 140 milhões de russos no ano 2000 para 104 milhões em 2050 (segundo projeções da Organização Mundial da Saúde), que a Rússia pôs restrições ao aborto e criou políticas para incentivar a fertilidade.

Pensemos nestes números: 7 ou 8 milhões de aborto por ano! Muitas vezes enfatizamos, perplexos, o número de russos mortos na I Guerra Mundial (mais do que qualquer outra nação), na II Guerra (ao menos 20 milhões; outra vez, mais do que qualquer outra nação), ou que foram mortos por seus próprio governo por meio dos expurgos, da fome e dos gulags. O número total de cidadãos soviéticos mortos por causa do comunismo varia entre 20 milhões (segundo o Livro Negro do Comunismo) e 60 ou 70 milhões “aniquilados somente por Stálin” (segundo Alexander Yakovlev).

Mesmo assim, o número total de vítimas do aborto soviético é campeão. Estamos falando de aproximadamente 70 ou 80 milhões de abortos na URSS apenas na década de 1970

Agora entendemos por que Nossa Senhora de Fátima voltou seus olhos para a Rússia bolchevique com preocupação e dor maternais. Trata-se de uma tragédia difícil até mesmo de ser compreendida.  

Naturalmente, essa compulsão pelo aborto legal não era de modo algum uma simples aberração no regime bolchevique. Os comunistas geralmente defendiam o aborto com agressividade. Muito antes de os esquerdistas americanos pró-aborto promoverem slogans como: “Isso é meu corpo” (algo assustador, pois é uma inversão exata das palavras sacrificiais de Jesus Cristo), “Meu corpo, minha escolha”, ou “Mantenha suas mãos longe do meu corpo”, na década de 1920, as mulheres comunistas na Alemanha encorajavam o aborto por meio do slogan: “Seu corpo pertence a você”. Os comunistas estavam décadas à frente dos progressistas americanos em muitas áreas (inclusive na promoção de mudanças radicais na sexualidade), mas estes finalmente terminaram alcançando aqueles.

Até hoje os países com as mais elevadas taxas de aborto ainda são comunistas ou deixaram de sê-lo só recentemente: Rússia, Cuba, Romênia, Vietnã, China. É claro que nenhum país superou a perversidade da China contra os nascituros. Muitos dos abortos feitos na China (senão a maioria) foram forçados pela política do filho único, implantada pelo governo há mais de 40 anos. Tratou-se de um dos maiores ataques à vida familiar já realizados por um governo. É difícil calcular a taxa de mortalidade dessa política, e mais ainda assimilá-la mental e politicamente.  

Em consonância com a filosofia comunista, tais políticas pró-aborto foram apresentadas como uma “emancipação” das mulheres. Um dos acontecimentos mais horríveis que acompanho e sobre o qual escrevo é a falsa alegação de que o comunismo fez bem às mulheres, promovida pela esquerda nas universidades. É algo tão perverso, que incluí em meu livro O guia politicamente incorreto do comunismo um capítulo sobre o tema. Recebo com regularidade mensagens de jovens angustiados dizendo que algum professor (ou o New York Times) lhes disse que o comunismo é uma libertação fantástica para as mulheres. 

Percebi isso pela primeira vez cerca de vinte anos atrás, quando analisava uma pesquisa sobre textos cívicos de alunos do Ensino Médio. Revisei dezenas de textos usados por distritos escolares em todo o país. Aqueles textos não apresentavam nenhuma condenação ao que o comunismo fazia com as mulheres; ao contrário, elogiavam-no como algo positivo para elas. Eu poderia dar muitos exemplos, mas o primeiro — e muito característico — que me chamou a atenção foi um texto popular intitulado simplesmente The World’s History. Em determinado trecho, na página 618, os autores (acadêmicos de nossas universidades) afirmaram o seguinte ao falar da vida no regime comunista: “Em termos legais, a situação das mulheres russas era melhor que a das mulheres do restante do mundo.”     

Quê? Isso foi na década de 1920, durante os regimes de Lênin e Stálin. Quais foram os “fabulosos direitos” adquiridos pelas mulheres russas?

Chocado com essa afirmação absurda, deparei com a explicação na frase seguinte: as mulheres russas, diziam os autores, tinham acesso ao aborto. Entre os grandes avanços feitos em prol das mulheres soviéticas, estavam os “métodos eficazes de controle de natalidade”, que, anunciava o livro didático para estudantes do Ensino Médio, “se tornaram tão comuns que foram banidos por um tempo em 1936 [isto é, o aborto]”. As mulheres russas tinham acesso ao aborto e, portanto, “em termos legais […] estavam numa situação muito melhor que a das mulheres no restante do mundo”.

Afinal, de que outro direito as mulheres precisariam, não é mesmo?… 

Ironias à parte, a realidade é que não há nada que celebrar. O centenário da legalização do aborto pela Rússia bolchevique é algo para ser lembrado com seriedade. Deveríamos rezar não somente por essa terrível perda para a humanidade, mas para que as nações de hoje parem de seguir esse mesmo caminho mortal de destruição humana.

Notas

  1. Tomamos a liberdade de adaptar, em favor da fluidez, os três primeiros parágrafos do texto original. Destaque-se, porém, a menção honrosa feita pelo autor às instituições que recordaram esse triste centenário do aborto na Rússia: a organização Rachel’s Vineyard, a comunidade religiosa Sisters in Jesus the Lord e o Ruth Institute (Nota da Equipe CNP).

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?
Santos & Mártires

José ou João Batista:
quem foi o maior, afinal?

José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?

Se Nosso Senhor mesmo afirma que São João Batista é o maior entre os nascidos de mulher, por que tantos católicos insistem em afirmar que, depois da Santíssima Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Há alguns meses, recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Recentemente, li um artigo do site sobre o ano de S. José, e algo me capturou a atenção, a saber: ‘[…] crescer em devoção a este [S. José] que é, depois de Maria, o maior de todos os santos de Deus’. No entanto, não teria nosso próprio Senhor dito em Mt 11, 11: ‘Entre os nascidos de mulher não se levantou ninguém maior do que João, o Batista’? Como resolver esse dilema?”

Resposta: Nosso Senhor não se refere em Mt 11, 11 à grandeza de João Batista em sentido absoluto, como se ele fora, de todos os homens já nascidos ou por nascer, o maior em santidade e graça, mas em sentido relativo, por comparação com os santos do Antigo Testamento. João Batista, com efeito, foi o maior dos profetas, o que se vê pelos privilégios e ofícios que Deus lhe atribuiu, dentre os quais se podem destacar os seguintes:

  1. Foi santificado, isto é, purificado do pecado original ainda no útero materno e ali mesmo começou a anunciar, por seu frêmito de alegria, a presença do Messias (cf. Lc 1, 44);
  2. Instituiu, por inspiração especial, o batismo de penitência e, por disposição divina, teve a honra de batizar a Cristo no rio Jordão (cf. Mc 1, 7-11);
  3. Foi o primeiro a pregar a proximidade do Reino dos Céus, ao qual levou e converteu muitíssimos pecadores (cf. Mc 1, 5);
  4. Foi comparado pelo profeta Malaquias a um anjo (cf. Mt 11, 10; Ml 3, 1) e representado, como em seus tipos, pelos profetas que o precederam, especialmente por Elias (cf. Mt 11, 14);
  5. Teve, além do dom de profecia, a coroa da virgindade e a palma do martírio (cf. Mc 6,14-39), o que lhe merece gloriosas auréolas no céu.

Não há dúvida de que, por todos esses títulos e pela função especialíssima que lhe confiou a divina Providência (cf. Lc 1, 15ss), João Batista pode ser considerado o ponto alto de todo o Antigo Testamento e, por conseguinte, digno da mais profunda veneração.

Mas o mesmo Jesus, que louva tão sublimes predicamentos, na mesma passagem de Mt 11, 11 afirma: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”, o que se pode entender, como nota S. Tomás de Aquino, em referência a três coisas:

  1. Quer aos beatos que estão no céu, porque é melhor ter chegado à pátria do que ainda estar em caminho. Por isso, o menor no céu é maior, isto é, está em melhor condição do que o maior santo na terra;
  2. Quer a Cristo mesmo, que, sendo mais jovem que João, é contudo maior do que ele em dignidade (cf. Jo 1, 15), por ser o próprio Verbo feito carne;
  3. Quer, enfim, a diferentes estados dentro da Igreja, porquanto é maior o mérito das virgens que o dos casados, e o dos profetas que o dos simples fiéis; mas é maior ser pai nutrício do Verbo encarnado e esposo castíssimo da Virgem Maria do que ser profeta e precursor de Cristo.

Além disso, vale lembrar que o grau de santidade se mede em função da proximidade ou união a Deus, já que dizemos ser santo justamente quem tem com Deus como que uma só vontade ou coração. Ora, é evidente que, depois de Nossa Senhora, nenhum outro santo esteve tão próximo de Cristo e se aproximou tão estreitamente quanto possível da ordem hipostática do que S. José: só a ele, e a ninguém mais, foi confiado o cuidado especial “de alimentar, educar e proteger a Deus feito homem”. A conclusão impõe-se por si mesma.

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Mulheres, não se casem com qualquer um!
Sociedade

Mulheres,
não se casem com qualquer um!

Mulheres, não se casem com qualquer um!

O medo da solidão parece estar levando muitas mulheres cristãs a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Mas será que vale mesmo a pena abrir mão da própria fé, só para ficar com um homem?

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Este é o testemunho de uma mulher católica, contendo impressões bastante pessoais a respeito da situação em que o mundo se encontra no que tange aos relacionamentos entre os católicos. É um relato que descreve alguns aspectos da realidade, sim, mas que não pretende esgotá-la.

Concedemos que algumas afirmações da autora podem parecer mais duras, especialmente quando ela se refere à falta de homens bons. Convidamos os homens de boa vontade, no entanto, a fazerem um sincero exame de consciência sobre tudo o que é dito abaixo, acolhendo o que há de verdadeiro neste testemunho — e rejeitando o que porventura acharem que não corresponde à verdade dos fatos.

Oportunamente, no futuro, podemos publicar o testemunho de algum homem com o título inverso, apresentando também os problemas das mulheres modernas, especialmente a sua adesão ao feminismo. De qualquer modo, já temos material abundante a esse respeito aqui. Por ora, esperamos que todos tenham a maturidade para entender que o fruto proibido não foi comido nem só por Eva, nem só por Adão.


Vivemos um período único na história. A política nunca foi tão polarizada, a sociedade de massas nunca esteve tão próxima da amoralidade (embora a Roma de Nero tenha chegado perto disso) e para as mulheres nunca foi tão difícil encontrar um homem bom

Reconheço que a última afirmação é ousada, mas permita-me desenvolvê-la. 

Nós vivemos a lamentar o estado em que se encontra a sociedade (a juventude, as universidades, a mídia etc.), que parece se envolver em situações cada vez mais difíceis, oriundas de ideias, comportamentos e políticas regressivas.

A adesão a alguma religião e a presença nas igrejas nunca foi tão baixa, especialmente entre os jovens e, de modo particular, entre os homens. O vício em pornografia é um flagelo de proporções epidêmicas entre os homens e até entre meninos de onze anos. Numa palavra, o mundo está uma bagunça.

Você ouviu falar disso antes.

Há, porém, um efeito colateral importante de tudo isso que não recebe a devida atenção: tem sido cada vez mais difícil para as mulheres (particularmente as cristãs) encontrar bons maridos nesse novo ambiente. A situação é tão terrível que, hoje, as mulheres tendem cada vez mais a abandonar suas convicções religiosas por causa de relacionamentos amorosos.

Talvez esse assunto não seja considerado tão sério quanto o aborto sob demanda ou a perda da liberdade de expressão, mas eu afirmo que ele é tão importante quanto esses temas, se não mais. O futuro de nossa sociedade depende de matrimônios, famílias e cidadãos bons e sólidos. Precisamos de famílias para gerar jovens educados e instruídos que continuarão combatendo o bom combate em todos os temas que afligem nossa sociedade.     

Mas, para alguém como eu — uma católica solteira com 32 anos —, a situação é, de fato, desoladora.

Se eu conversar com as mulheres do meu círculo social, todas elas dirão a mesma coisa: simplesmente não há homens disponíveis. Com isso queremos dizer que há uma assustadora escassez de homens entre 25 e 35 anos que frequentem a igreja, estejam solteiros e sejam maduros.  

A maioria dos homens que conheço têm duas dessas qualidades, mas muitas vezes não têm a última. Os solteiros que vão à igreja geralmente são desajeitados e carecem de habilidade social básica (um verdadeiro banho de água fria para as mulheres). Os mais mundanos não estão solteiros nem são religiosos. E ainda que não sejam religiosos, a maioria dos rapazes têm pontos de vista e valores de centro-esquerda diametralmente opostos aos nossos.

Por essa razão, é um esforço vão aventurar-nos fora do ambiente eclesial. (Sem falar na escassez de homens que estão mesmo abertos à ideia de castidade, mas esse é um assunto completamente diferente.) Não nego que haja bons rapazes solteiros por aí; é claro que há. Muitas das minhas amigas mais próximas foram afortunadas o bastante para conhecer e se casar com homens maravilhosos, inteligentes e com princípios, mas um número ainda maior de mulheres não teve a mesma sorte.  

Eu as encontro constantemente em festas e outros eventos sociais — católicas belas, inteligentes e solteiras que só querem encontrar um homem a quem amar e honrar. No entanto, esse grupo de mulheres parece crescer cada vez mais, ao passo que o número de homens devotos e casáveis está caindo rapidamente.

No início da década de 1960, 87% dos homens australianos se identificavam como cristãos. Essa porcentagem caiu para 49%. Não é necessário dizer que o número de homens que vão à igreja é ainda menor. Essa tendência tampouco existe apenas na Austrália; parece ser, antes, a norma em todo o Ocidente.

Fui a um casamento em Seattle no ano passado e conheci uma mulher que tinha mais ou menos a minha idade. Ela me perguntou se deveria se mudar para a Austrália para encontrar um marido, devido à falta de homens católicos em seu círculo social. 

O fato de ser uma experiência quase universal fala por si. Infelizmente, o crescente desespero alimentado por essa tendência começa a mostrar resultados preocupantes. Conheço pessoalmente três católicas nos seus 20 ou 30 anos que renunciaram às suas crenças para se relacionar com um homem (todos os casos ocorreram ao longo dos últimos anos). Uma delas conheceu um homem pela internet; mais tarde, descobriu que ele era casado (embora separado) e tinha filhos, mas mesmo assim ela foi em frente. 

Contrariando o conselho de seu pároco, outra delas se casou fora da Igreja com um agnóstico a quem namorou por pouco tempo. A terceira começou a sair com um ateu que havia conhecido na universidade. Um ou dois anos depois, ela abandonou a Igreja e as pessoas de quem era mais próxima para poder se casar com ele.

Não se tratava de católicas “de IBGE”. Todas eram católicas de berço, bem educadas na fé e muito ativas em suas respectivas paróquias e comunidades. Mas essas são apenas as que eu conheço pessoalmente. Com certeza há outras.

Muitas pessoas não compreendem isso. Na verdade, eu mesma me esforço para compreender a situação. Independentemente do grau de desespero para se casar, como qualquer outra coisa poderia ser mais importante do que a própria fé? 

Na história da Igreja, as mulheres foram tradicionalmente o bastião da integridade moral. Alguém já disse que, se quisermos julgar a bússola moral de uma sociedade, temos de prestar atenção em suas mulheres. Se entrarmos em qualquer igreja, com certeza veremos mais mulheres do que homens.

De acordo com quase todas as estatísticas, é mais comum que as mulheres permaneçam fiéis à religião, o que torna ainda mais surpreendente cada um dos incidentes relatados acima.

Na verdade, essas histórias são tão chocantes que uma delas bastaria para ser, há poucas décadas, a causa de um enorme escândalo para suas respectivas amigas e comunidades. Mas o novo clima social parece alimentar esse tipo especial de urgência para estar com um homem. A qualquer custo.

Sempre houve um estigma social em torno das mulheres que chegam solteiras aos 30 anos. Talvez isso seja percebido de forma mais intensa em ambientes cristãos, nos quais o casamento entre pessoas mais jovens é visto positivamente. Eu mesma comecei a entrar em pânico quando comecei a me aproximar do meu aniversário de 30 anos, por temer o julgamento daqueles que estavam ao meu redor e por sentir pavor dos rumores de que eu era muito fria ou simplesmente não era capaz de conseguir um marido. Além disso, as mulheres que chegaram aos 30 também sofrem uma pressão biológica, caso queiram ter filhos.

Entendo o pânico, o conflito e o medo, pois passei por tudo isso. Como tantas outras jovens, acreditava piamente que me casaria quando fizesse 25 anos. Minha ansiedade e minha dúvida cresceram constantemente durante todos os aniversários, enquanto meu dedo permanecia sem aliança.

Como, durante a vida inteira, estive convencida de que o matrimônio era minha vocação, foi um choque doloroso e claramente humilhante chegar aos 32 anos solteira. Por isso entendo perfeitamente o desespero que agora está levando as mulheres a iniciarem ou a se apegarem a relacionamentos, mesmo que sejam nocivos, prejudiciais ou ilícitos. 

A vida é muito mais interessante quando temos no horizonte a perspectiva de conseguir um marido. Não surpreende que às vezes as mulheres permaneçam muito tempo (ou até se casem) com homens que são claramente inapropriados para elas. É bastante real o temor de que essa pode ser a única oportunidade de se casarem, e a alternativa pode ser o retorno a uma vida entediante, imprevisível e inútil. 

Elas pensam: “Com certeza não era o que eu esperava, mas pelo menos não estou sozinha, certo?” A solidão é o verdadeiro inimigo na mente de muitas mulheres. É melhor ficar com o diabo que conhecemos do que com aquele que desconhecemos. Embora essa mentalidade sempre tenha existido, a escassez de bons rapazes em nosso mundo parece tê-la sobrecarregado. 

O medo da solidão parece estar levando as mulheres de fé a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Assim como qualquer outra mulher, não quero ficar solteira pelo resto da minha vida, mas isso com certeza não quer dizer que eu ache que vale a pena abrir mão de tudo o que prezo, que me dá esperança, sentido e propósito na vida, apenas para ficar com um homem.

Nenhum homem jamais poderia substituir tais coisas, e eu nem esperaria que ele o fizesse. Por isso, preocupa-me bastante o fato de um número cada vez maior de mulheres perder de vista essa verdade axiomática. Precisamos de mais rapazes no caminho da verdade e da bondade? É claro que sim! Sou profundamente grata pela influência que pessoas como o Dr. Jordan Peterson e Ben Shapiro têm exercido sobre tantos homens, jovens e adultos.

Deveríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para ajudar os homens a tomar a direção correta e encontrar a verdade e o sentido em sua vida. Homens guiados por bons princípios, que têm propósito e direção na vida não são apenas atraentes para as mulheres, são bens inestimáveis para a sociedade. Entretanto, muitas mulheres com quem converso acham que sua chance jamais aparecerá.

Começo agora a encarar a possibilidade de que, talvez, eu fique solteira para sempre. Eu me contorço pelo desconforto e a ansiedade gerados apenas por admiti-lo, mas preciso ser realista. No plano pessoal, a fé me ensina que, se não me casar, essa provavelmente é a vontade de Deus para mim. Posso não gostar disso, pode ser algo que talvez me encha de pavor e desespero, mas provavelmente teria me sentido assim se há dez anos alguém tivesse me dito que eu estaria solteira hoje.

Embora eu tenha realmente sofrido ao fazer 32 anos, sei que minha vida é valiosa, relevante e digna de ser vivida, apesar de não ter seguido o curso que eu imaginava. Além disso, creio que, se Deus quiser que eu permaneça solteira, então será isso que me trará mais satisfação e felicidade na vida.

Serei honesta: neste momento, isso me parece mais verdadeiro em minha mente do que em meu coração. Ainda claudico para aceitar essa circunstância porque, no fundo, não quero aceitar que um sonho alimentado por tanto tempo talvez jamais se realize.

Tenho a sensação de que aceitar essa possibilidade me prenderá a algo inevitável. 

Mas também sei, por bom senso e por experiência, que isso não é verdade; isto é, que se eu aceitar a vontade de Deus — qualquer que seja ela —, me tornarei livre. Pode ser difícil e doloroso, mas só o será a curto prazo. Também reconheço que existe uma diferença importante entre estar sozinha e ser solitária.

Suplico a outras mulheres que estão em minha situação: pensem nisso! Sei como é fácil entrar em desespero se achamos que ficaremos para sempre “na fila de espera”. Mas também sei que nenhum homem nem o matrimônio podem nos tornar realizadas na vida — eles são apenas um bônus (se você tiver sorte). Se aceitar isso, e se passar a se dedicar ao aperfeiçoamento da vida que tem hoje, em vez de buscar a vida que você idealiza, não se perderá no caminho.  

Porque onde está o seu tesouro, lá também está seu coração.

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