À medida que nos aproximamos do Natal, nossos irmãos bizantinos celebram dois domingos em honra aos antepassados de Cristo. Vamos considerar hoje um deles, o quase esquecido Zacarias. 

O Advento é um tempo preocupado mais em desenvolver atitudes particulares que em prescrever determinadas ações. Hoje, um dos problemas do homem não está tanto em fazer coisas erradas (embora faça) quanto em ter ideias erradas. Pensar retamente leva a agir corretamente. Em linguagem teológica, ortodoxia implica ortopraxia. Atitudes, porém, não são realidades desencarnadas; elas se encarnam em pessoas históricas e concretas. É útil, por conseguinte, refletir sobre esse herói relativamente desconhecido, que desempenhou um papel fundamental no primeiro Advento e que nos pode ajudar a experimentar um santo Advento e Natal nestes nossos dias. 

Zacarias era sacerdote e, como os sacerdotes da Antiga Aliança, era casado. São Lucas nos informa que ele e a esposa, Isabel, “eram justos diante de Deus e observavam irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor” (Lc 1,6). Uma só fonte de dor e tristeza havia entre eles: não tinham filhos. Para o povo de Deus, isso era como uma maldição e desgraça para a família. (Como é diferente a nossa sociedade, que evita filhos recorrendo até mesmo à contracepção artificial e ao aborto!) No entanto, em todas as épocas o povo fiel do Senhor anseia por uma nova vida, sinal do amor de Deus.

“A Visita do Anjo a Zacarias”, de Luis Paret y Alcázar.

Encontramos Zacarias pela primeira vez no Templo, a cumprir suas funções sacerdotais. Entre os antigos judeus, quando um sacerdote estava de turno [no Templo], devia viver separado da mulher. Até mesmo o povo da Antiga Lei percebia a conexão entre sacerdócio e celibato. Na Nova Aliança, é claro, Jesus vai além, fazendo do celibato uma opção preferencial pelo reino. É uma forma de vida permanente, na medida em que o próprio caráter sacerdotal é permanente, isto é, não se limita a “turnos de trabalho”. Afinal, o sumo sacerdócio de Cristo é eterno, não transitório.

Seja como for, Zacarias aproximou-se do altar de Deus para oferecer o incenso e, para sua grande surpresa, encontrou-se ali com um anjo. Um sacerdote que passa a vida inteira tentando pôr os outros em contato com Deus todo-poderoso há de surpreender-se quando Deus mesmo entra em contato com ele! A reação de Zacarias, porém, é dupla: por um lado, de medo e, por outro, de desconfiança.

O medo dele se parece com o da maioria dos que rezam por anos a fio, sem nunca esperar receber de verdade o que pedem, e então se apavoram quando Deus finalmente lhes responde. A falta de confiança, por sua vez, se funda no apego a formas demasiado terrenas de ver a realidade: “Como terei certeza disso? Pois sou velho e minha mulher é de idade avançada” (Lc 1,18). Noutras palavras, seu conhecimento está limitado ao modo como as coisas normalmente acontecem. Ele se incapacita para ver além do que há de natural e empírico no mundo.

Ao contrário do que se costuma pensar, não significa “não ter razões para aquilo que se crê”. Na verdade, a fé é um tipo particular de visão, na medida em que permite contemplar o mundo de uma perspectiva divina. Um atleta pode sobreviver a pão e água? Possivelmente sim; mas, com tal dieta, são grandes as chances de ele se tornar um medalhista olímpico? Provavelmente não. Da mesma forma, é possível viver sem a visão da fé, mas será uma vida empobrecida. A fé não é mero “acréscimo” à visão natural, como um telescópio de alta potência. Mais do que isso, ela abre novos horizontes, inimagináveis para quem não crê.

“A Visão de Zacarias”, por James Tissot.

A fé não se baseia em ilusões, mas nas ações providenciais de Deus ao longo da história da salvação. O sacerdote Zacarias deveria, pois, confiar mais do que duvidar. Deus se mostra intolerante à desconfiança ao deixar mudo o velho sacerdote (cf. Lc 1,22). E, a falar verdade, o poder de falar já não tem utilidade alguma a Zacarias, se ele não estiver disposto a crer e proclamar as maravilhas realizadas pelo Senhor.

Mas Zacarias aprende a lição. Quando nasce o filho de suas esperanças e sonhos, e todos querem dar-lhe o nome do pai ou de algum outro parente, o mudo Zacarias relembra as palavras do anjo e intervém escrevendo na tabuinha com toda a deliberação: “João é o seu nome” (Lc 1,63). Naquele instante, soltou-se-lhe a língua de tal modo, que ele não só falou como entoou uma poesia (cf. Lc 1,68-79), lembrando-nos que o Senhor supera nossas expectativas — se nele confiarmos. 

O velho sacerdote irrompe num magnífico hino de louvor, o Benedictus, que a Igreja recita há séculos nas Laudes do Ofício Divino. O hino começa com um louvor a Deus por sua obra redentora em favor do gênero humano, e descreve como nesta obra teria um papel único o filho mesmo de Zacarias. O pai dirige-se ao menino com grande encanto: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados” (Lc 1,76s). Por que e como? “Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,78s).

A fé permite-lhe ver não só o passado e o presente, mas também o futuro. Por sabermos o que Deus fez no passado e o que faz por nós agora, podemos chegar a conclusões inteligentes sobre o que Ele fará nos dias e anos que virão. No entanto, sem fé, não há o que esperar na vida porque não há contato com Deus, fidelidade personificada.

Esperança e futuro são a essência do Advento.