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Ève Lavallière: uma Madalena moderna
Testemunhos

Ève Lavallière:
uma Madalena moderna

Ève Lavallière: uma Madalena moderna

Por que uma das atrizes mais célebres de sua época rejeitou tudo o que o mundo tinha a oferecer? Conheça a bela história de conversão e penitência trilhada pela artista francesa Ève Lavallière, no início do século XX.

K. V. TurleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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No dia 12 de julho de 1929, uma sexta-feira, foi publicada a seguinte reportagem no The Times de Londres: 

Nosso correspondente em Paris informa via telégrafo que faleceu em Thuilieres, no departamento de Vosgos, a srt.ª Ève Lavallière, outrora uma eminente atriz. Ela havia se aposentado há doze anos, após ter subitamente decidido, em 1917, levar uma vida de isolamento consagrada à religião. 

E por que uma das atrizes mais célebres do mundo rejeitou tudo o que ele tinha a oferecer? O mundo não sabia que essa atriz cômica, sagaz e contadora de histórias, sensação dos palcos de Paris e de outros lugares, amante e mãe, uma das mulheres mais ricas e belas de sua época, não vivia em paz. A mulher por trás da máscara de atriz fora atormentada por uma impenetrável tristeza, sendo vítima de depressões, do desespero e de pensamentos suicidas

Em 1916, no auge da fama, e para auxiliar o trabalho de guerra, Ève Lavallière realizou uma série de apresentações em Londres. Depois de uma dessas apresentações, ela deixou o palco enquanto o público, de pé, a aplaudia. Aonde ela teria ido? 

Nada menos que à margem do Rio Tâmisa, para afogar-se.  

Porém, enquanto observava o reflexo das luzes da cidade brincando no curso do rio escuro, que sempre segue adiante, ela desistiu (por pouco). Infelizmente, não foi a primeira vez que tais pensamentos a levaram à beira da aniquilação; no entanto, curiosamente, seria a última. Menos de um ano depois, ocorreu um episódio que viria a mudar a vida dela para sempre.

Ève Lavallière.

Eugénie Marie Pascaline Fenoglio nasceu em Toulon num Domingo de Páscoa, em 1.º de abril de 1866. Seu pai era mau humorado e depressivo. Ève, seu irmão mais velho e sua mãe viviam sob medo e tensão constantes. A situação atingiu seu ponto crítico no dia 6 de março de 1884, um domingo.

Após dias de ofensas ininterruptas contra a mãe de Ève, ouviu-se um disparo de pistola. Então, as crianças viram a mãe deitada no chão: ela estava ferida mortalmente. Ève olhava, incrédula; mas, em seguida, viu que a mesma pistola estava apontada para ela. Um tiro foi disparado, mas ricocheteou na parede, porque o alvo abaixara para se proteger. Em seguida, disparou-se outro tiro. Dessa vez, ele atingiu o alvo, e o pai de Ève caiu morto. Então, as duas crianças fugiram de casa. Separaram-se e nunca mais se encontraram

Ève passou a sobreviver com uma série de trabalhos insignificantes em meio a uma obscuridade provincial. Essa situação alimentou uma ardente ambição: escapar. A partir daquele momento, ela passou a combinar um rosto atraente e uma vivacidade cada vez maior com uma vontade de ferro; assim, conseguiu escapar para os palcos de Paris, tomando no caminho o nome artístico de “Ève Lavallière”. Daí em diante, como num conto de fadas, todos os seus desejos tornaram-se realidade. Mas desejos não são orações, e a realização de seus sonhos gradualmente se transformaria num pesadelo vivo.

Ève atuava diante de grandes plateias que a adoravam e contavam inclusive com monarcas; o mundo parecia estar a seus pés. Ninguém sabia, no entanto, como as sombras que cercavam a atriz ficavam cada vez mais densas. Quando as luzes dos palcos se apagavam, a escuridão ficava povoada apenas por demônios que a atormentavam sem cessar.

Tudo isso acabaria em maio de 1917. Ève Lavallière, então com 51 anos de idade, assinou um contrato para fazer uma turnê pelos Estados Unidos, a qual era acompanhada por uma promessa de uma fama ainda maior. Antes de partir, ela sentiu a necessidade de descansar no campo. Retirou-se ao rústico remanso de Touraine.

Coincidentemente, o proprietário da casa que ela alugara era o pároco local. Pe. Chesteigner, um bom sacerdote, perguntou por que Ève não comparecera à Missa dominical. Daí em diante, ela passou a assistir à Missa todos os domingos, mais por respeito humano que por reverência. Não obstante, o sacerdote e sua nova paroquiana começaram a conversar. Ela lhe revelou, entre outras coisas, como se aventurara pelo oculto. O sacerdote, chocado, fez um alerta sobre o grave erro de tais flertes. Ela ficou perturbada com a reação do padre. Tanto, que naquela mesma noite, mais tarde, ela caiu em si como numa espécie de insight, que apareceu sob a forma de uma pergunta: se o demônio existe, por que não Deus? 

Naquela noite, essa pergunta a deixou perplexa e a levou a fazer outras sobre a vida que havia levado e o estilo de vida que ainda mantinha.

No dia seguinte, apresentou-se humilhada ao sacerdote e, para o espanto dele, sentou-se e disse que só tinha uma intenção: ser instruída na fé católica.

Ao longo das semanas seguintes, ela leu sobre a vida da santa com a qual mais se identificaria posteriormente: Maria Madalena. O sacerdote lhe emprestou um volume que narrava a vida da santa e sugeriu que o lesse. Ève estava desesperada. Ela o fez e, logo em seguida, vieram o arrependimento e a confissão.

A Madalena, de Murillo.

Até hoje podemos ver na matriz da paróquia de Chanceaux as seguintes palavras gravadas na pedra: “Nesta igreja, Ève Lavallière se converteu e recebeu a comunhão no dia 19 de junho de 1917, após ter se reaproximado de Deus por meio do Pe. Chesteigner”.

Depois de sua conversão, Ève se transformou numa alma penitente, recorrendo à oração e à mortificação para reparar os erros da vida passada. Ela tentou encontrar um lar espiritual (um convento ou um mosteiro), mas não foi bem-sucedida. Vagou de um lugar para outro antes de se recolher em Lourdes. Lá era possível avistá-la fazendo a Via Sacra, descalça mesmo em meio à chuva torrencial.  

Ela se sentia cada vez mais sozinha depois de ter-se retirado definitivamente a uma vida discreta. No final da vida, como no caso da santa que tomava por modelo, a única coisa que lhe restava era a cruz: seu único refúgio das tempestades que então começavam a assaltá-la.   

Durante aquele período, sua filha ilegítima se vangloriava do estilo de vida imoral que levava, algo que fazia Ève chorar bastante, talvez mais do que qualquer outra coisa. Sem demonstrar remorso algum, sua filha tinha um cruel prazer de tomar da mãe tudo o que podia, ao mesmo tempo que não lhe dava nada em troca, a não ser uma fria indiferença.

Em seus últimos dias de vida, a saúde de Ève (que já era frágil) entrou em colapso, pois ela trilhou seu caminho penitencial com a mesma intensidade com que trilhara o do mal. A doença e a enfermidade fizeram do corpo dela sua própria cruz. Finalmente, por razões médicas, suas pálpebras tiveram de ser costuradas. Nessa operação, realizada sem anestesia nem queixas, ela ofereceu uma dor quase insuportável em expiação, dizendo simplesmente que havia pecado com a visão.

Na madrugada de 10 de julho de 1929, chegou ao fim a longa vigília de Ève ao pé da cruz. Ela foi enterrada num túmulo simples em Thuillières, onde foram escritas as seguintes palavras:

DEIXEI TUDO POR DEUS. SÓ ELE ME BASTA.

A breve reportagem jornalística sobre sua morte diferia totalmente das colunas publicadas décadas antes, na época em que ela não tinha concorrente nos palcos europeus. Porém, poucos anos depois de sua morte, foram publicados livros sobre sua vida e conversão, e surgiu em torno de sua memória — com certa cautela — um culto diferente daquele que ela conhecera no ápice da fama. 

Despontando enfim num palco muito diferente, Ève Lavallière começou a desempenhar seu derradeiro e mais importante papel.

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Rogações: o que são e por que resgatá-las?
Liturgia

Rogações: o que são
e por que resgatá-las?

Rogações: o que são e por que resgatá-las?

O que fazer diante de doenças, guerras ou desastres naturais? Os santos e a liturgia tradicional da Igreja têm a resposta! Saiba em que consistem as “Rogações” e como podemos pôr em prática, ainda hoje, esse costume da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Não é novidade para ninguém que vivemos um tempo de descrença generalizada. Mas o que os cristãos faziam antigamente, ao confrontar fome, guerras, terremotos e desastres naturais em geral? Que resposta eles dariam, por exemplo, à atual pandemia do coronavírus?

Muito simples: eles se voltariam a Deus

Foi num ambiente de fé católica assim que nasceram as Rogações, “dias de oração, e antigamente também de jejum, instituídos pela Igreja para aplacar a ira de Deus sobre as transgressões dos homens, para pedir proteção em meio às calamidades e para obter uma boa e abundante colheita”.

Até a reforma litúrgica ocorrida após o Concílio Vaticano II, havia no calendário romano geral duas celebrações específicas nesse sentido. 

A primeira, chamada de “Ladainhas maiores” e regulada por S. Gregório Magno († 604), acontecia em 25 de abril, dia em que seria instituída, posteriormente, a festa de S. Marcos:

As Ladainhas maiores foram instituídas para cristianizar uma procissão pagã que todos os anos, a 25 de abril, saindo para lá dos muros de Roma, ia para o campo imolar um cordeiro em honra de Robigus, deus do gelo. Tornada cristã, a procissão acabava pela missa em S. Pedro. Tais como as Ladainhas menores ou Rogações, de data mais recente, estas orações públicas pedem a Deus que afaste os flagelos e espalhe a sua bênção sobre as colheitas [1].

A segunda, denominada “Ladainhas menores” e prescrita para toda a Igreja por Leão III († 816), acontecia ao longo de três dias — a segunda, terça e quarta-feiras precedentes à festa da Ascensão do Senhor [2]:

Por motivo de calamidades públicas, que, no século V, flagelaram a diocese de Viena, no Delfinado, S. Mamerto estabeleceu uma procissão solene de penitência, nos dias que precedem a festa da Ascensão. Uma prescrição do concílio de Orleans, de 511, espalhou este uso em toda a França. Não tardou a estender-se à Igreja universal. Sem deixar de implorar as bênçãos de Deus para toda a Igreja, as Rogações tornaram-se, atualmente, uma prece para obter a bênção de Deus para as colheitas.

O canto das ladainhas dos santos levou a dar a estes dias de preces públicas a designação de dias de rogações; mas, porque em Roma existia já uma procissão semelhante, no dia 25 de abril, as Rogações começaram a denominar-se Ladainhas menores, e a procissão de 25 de abril, Ladainhas maiores [3].

Em ambas as celebrações, o sacerdote vestia o violáceo penitencial, cantava-se a Ladainha de Todos os Santos e realizava-se uma procissão logo após a primeira invocação de Nossa Senhora. Se necessário, repetia-se a ladainha e se cantavam alguns dos salmos penitenciais ou graduais. Depois, rezava-se a Missa votiva das Rogações, com textos próprios que ressaltavam principalmente a eficácia de nossas orações, quando feitas com humildade, confiança e perseverança. A Epístola, por exemplo, tomada de S. Tiago, ensinava que 

a oração fervorosa do justo pode muito. Elias era um homem sujeito ao sofrimento como nós: orou com instância, para que não chovesse sobre a terra, e durante três anos e seis meses não choveu. Depois, orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra os seus frutos (Tg 5, 16s). 

O Evangelho, por sua vez, narrava a parábola do amigo inoportuno e concluía com a célebre ordem de Nosso Senhor: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

Mas o que aconteceu com esses dias especiais de súplica na Igreja? 

“Bênção dos campos de trigo em Artois”, por Jules Breton.

Infelizmente, no Novus Ordo, eles sumiram do mapa. A exemplo das Quatro Têmporas, porém — sobre a qual já falamos aqui —, tampouco as Rogações foram abolidas. O Cerimonial dos Bispos prevê a sua celebração: “Nas rogações e nas quatro têmporas a Igreja costuma orar ao Senhor pelas várias necessidades dos homens, sobretudo pelos frutos da terra e pelos trabalhos dos homens e render-lhe publicamente ação de graças” (n. 381). E o Missal Romano, em suas “Normas universais para o ano litúrgico”, prescreve: “Para que as Rogações e as Quatro Têmporas do ano possam adaptar-se às diversas necessidades dos lugares e dos fiéis, convém que as Conferências Episcopais determinem o tempo e o modo como devem ser celebradas”. 

No Brasil, a CNBB decidiu, durante Assembleia Geral, em 1971, “que a regulamentação da celebração das Têmporas e Rogações fique a critério das Comissões Episcopais Regionais”. Como não se tem notícia de nenhuma previsão nesse sentido, só restou aos católicos uma forma de celebrar esses dias: privadamente

Fica pois a sugestão para o dia 25 de abril e os outros três que antecedem a Ascensão do Senhor (neste ano de 2021, trata-se dos dias 10, 11 e 12 de maio). Em casa, nestas datas, além da récita do santo Terço e das devoções habituais em família, é possível acrescentar a Ladainha de Todos os Santos e a oração de um ou mais salmos penitenciais — e as intenções das orações podem ser tantas quantas são as necessidades dos homens: desde os problemas particulares de cada pessoa e família até a crise sanitária e política que estamos vivendo a nível mundial. O importante é usar esse tempo para intensificar as nossas orações, sabendo que Deus quer derramar graças abundantes sobre nós.

Os paramentos violáceos que se usavam nestes dias, em pleno Tempo de Páscoa, também podem ser para nós um sadio lembrete de que, neste mundo, não podemos dispensar por completo a prática da mortificação. Pois “o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se o inimigo de nossa alma não descansa nem nos festivos dias de Páscoa, tampouco nós podemos descuidar da grande obra de nossa salvação eterna. Por isso, se possível, não deixemos de oferecer nesses dias, também, alguma penitência a Deus.

É claro que, para os fiéis que assistem à Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano — agora amplamente disseminada, graças ao Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI —, as Rogações continuam a ser uma realidade litúrgica viva, um elemento importante do culto público da Igreja. Para a maioria de nós, porém, fica a esperança de que, num futuro não muito distante, tradições como essa sejam resgatadas e ganhem de novo lugar de honra na liturgia católica.

Lembremo-nos da história: essas preces públicas e procissões penitenciais começaram humildes e despretensiosas, numa e outra diocese, e a Providência cuidou do resto. Quem sabe se não é a partir de iniciativas pequenas, em nossas famílias e paróquias, que as Rogações voltarão a ser praticadas em toda a Igreja — alcançando também agora, como antes, os favores do céu?

Notas

  1. Missal Romano Quotidiano, por D. Gaspar Lefebvre e os Monges Beneditinos de S. André. Trad. dos Monges Beneditinos de Singeverga. Bruges: Biblica, 1963, p. 1040.
  2. Lembrando que, assim como Jesus subiu aos céus quarenta dias após ressuscitar, na liturgia, a Ascensão do Senhor também é celebrada quarenta dias após a Páscoa da Ressurreição, ou seja, na quinta-feira da 6.ª Semana da Páscoa. No Brasil, essa festa é transferida para o domingo seguinte, sobrepondo-se ao 7.º Domingo da Páscoa. 
  3. Missal Romano Quotidiano, p. 521s.

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Por que é importante a virgindade perpétua de Maria?
Virgem Maria

Por que é importante
a virgindade perpétua de Maria?

Por que é importante a virgindade perpétua de Maria?

Atualmente, a virgindade perpétua de Nossa Senhora é negada pela maioria dos protestantes, embora a maior parte dos reformadores defendesse essa doutrina. Mas a mãe de Jesus foi realmente virgem ao longo de toda a sua vida? E por que isso importa?

Paul SenzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos principais pontos de discórdia entre católicos e protestantes é a fé na Bem-aventurada Virgem Maria. A tradição católica de venerar a Mãe de Jesus e dogmas como a Imaculada Conceição e a Assunção são frequentemente contestados pelos protestantes. Atualmente, a virgindade perpétua de Maria é negada pela maioria dos protestantes, embora a maioria dos reformadores, alinhados à fé cristã universal de um milênio e meio antes, defendesse essa doutrina.

Mas Maria foi virgem por toda a vida? E por que isso importa?

Este não é um fórum para resumir as evidências que demonstram a virgindade perpétua de Maria. Esses argumentos já foram defendidos muitas vezes em respostas de apologistas católicos. Aqui, preocupamo-nos principalmente em saber por que é importante a resposta a essa questão.

A primeira razão pela qual a virgindade perpétua de Maria é importante é que se trata de uma verdade, não de opinião, e o fato é que a Igreja tem defendido infalivelmente essa doutrina desde os seus primeiros dias. Certamente, os Padres da Igreja, por exemplo, não defenderiam uma inverdade; afinal, veritas vos liberabit, “a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). A virgindade perpétua de Maria raramente foi desafiada na história cristã. Até mesmo os principais reformadores protestantes reconheceram que a virgindade perpétua de Maria é ensinada nas Escrituras, e todos os Padres da Igreja a sustentaram como verdadeira.

Nomes de peso como Tertuliano, S. Atanásio, S. João Crisóstomo, S. Ambrósio e S. Agostinho argumentaram, com base nas Escrituras, que Maria permaneceu virgem por toda a vida. Isso era verdade para os cristãos em todo o mundo conhecido, latino e grego, do Oriente e do Ocidente. Orígenes de Alexandria, por exemplo, escreveu: “Não há filho de Maria, exceto Jesus, segundo a opinião dos que pensam corretamente sobre ela” (Comentário a João I 4). S. Jerônimo, o magnífico tradutor e erudito bíblico, afirmou claramente: acreditamos que Maria permaneceu virgem por toda a vida, porque lemos isso nas Escrituras (cf. Contra Helvídio 21).

O proto-evangelho de Tiago, embora não seja escritura canônica, é um importante documento histórico que nos diz muito sobre o que a Igreja primitiva acreditava. Escrito no século II d.C., não muito depois do fim da vida terrena de Maria, este documento faz um grande esforço para defender a virgindade perpétua de Maria. Na verdade, alguns estudiosos — incluindo Johannes Quasten, o grande estudioso da patrística do século XX — pensaram que esse era o objetivo principal do texto. Entre outras coisas, é do protoevangelium que colhemos a tradição segundo a qual Maria foi consagrada para o serviço no Templo quando jovem, o que significaria uma vida de virgindade perpétua. De fato, o texto indica que Maria foi confiada a José para que ele lhe protegesse a virgindade.

No II Concílio de Constantinopla, de 553 d.C., Maria recebeu oficialmente o título de “sempre Virgem”. Um século depois, o Papa Martinho I esclareceu que, com isso, a Igreja quer dizer que Maria foi virgem antes, durante e depois do nascimento de Cristo (ante partum, in partu, et post partum). Este é um ponto crucial — o parto virginal é essencialmente incontestável entre os cristãos. É na questão de saber se Maria permaneceu virgem que muitos protestantes discordam da Igreja Católica.

Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino (pelo menos no início da carreira) e outras primeiras figuras protestantes reconheceram que a virgindade perpétua de Maria é ensinada na Bíblia. Infelizmente, ao longo dos séculos desde a Reforma, seus descendentes teológicos se perderam nesse aspecto. Hoje, poucos protestantes reconhecem a verdade, muito menos a base bíblica, da virgindade perpétua de Maria.

Novamente, não estou tentando provar o caso aqui com um apelo a uma ampla variedade de autoridades. Ofereço esta breve pesquisa de história da Igreja sobre a questão para mostrar que a Igreja frequente e inequivocamente defendeu a doutrina como verdadeira, porque sua verdade é importante, ao passo que sua negação é um desenvolvimento relativamente recente na história da Igreja.

Em segundo lugar, a virgindade perpétua de Maria é importante porque sua verdade tem implicações importantes para todos nós, a saber: aponta para além de sua vida, para o mundo que está por vir, um mundo em que não haverá mais casamento e todos seremos como Maria foi. “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30), disse Jesus aos saduceus. A virgindade de Maria é uma prefiguração do céu, a recompensa para aqueles que dizem a Deus, com Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).

Em terceiro, a virgindade perpétua de Maria é um dos muitos atributos que a tornam um belo símbolo da Igreja, como a Noiva virgem de Cristo e a Mãe fecunda dos cristãos. S. Ambrósio escreveu: “Apropriadamente, [Maria] é desposada mas Virgem, porque ela prefigura a Igreja imaculada mas casada. Uma Virgem concebeu do Espírito, uma Virgem dá à luz sem dores” (Sobre Lucas 2, 6-7).

Em quarto lugar, a virgindade perpétua de Maria diz muito sobre seu relacionamento com todos nós. Quando Cristo estava morrendo na cruz, disse a João: “Eis aí tua mãe”, e a Maria: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 26-27). A Igreja sempre reconheceu nessa passagem não somente um filho preocupado com o cuidado da mãe depois de sua morte, mas também Cristo a entregar sua Mãe a cada um de nós. Ela também é nossa Mãe. Isso não faria sentido se Maria tivesse outros filhos, já que eles teriam sido encarregados de cuidar dela após a morte de Jesus. E isso deve importar para todos os cristãos.

Citando a Lumen Gentium, o Catecismo da Igreja Católica afirma que “o nascimento de Cristo ‘não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal’ da sua Mãe” (§ 499). E este ponto merece destaque especial: o nascimento virginal não foi apenas um “truque”, um milagre usado para “empolgar” as pessoas, sinalizando que algo especial aconteceu. Foi um claro indício de que Maria foi consagrada (reservada, por seu fiat) para o serviço a Deus, conformando sua vontade com a de Deus. Ela foi separada por sua virgindade, e sua virgindade foi santificada por Nosso Senhor em seu nascimento.

O parto virginal e a virgindade perpétua de Maria são sinais da sua consagração total a Deus, de serviço sincero a Ele e de um abandono total à sua vontade. Ao longo dos séculos, cristãos de todos os matizes têm defendido essa doutrina, às vezes com veemência em face de oposições. O fato da sua virgindade perpétua é importante, porque Maria foi dada a todos nós como Mãe espiritual, símbolo da Igreja. Todos os cristãos fariam bem em se voltar para Nossa Senhora e ver, em sua virgindade perpétua, um sinal da Providência de Deus.

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Por que entrarei para um mosteiro em 2021?
Testemunhos

Por que entrarei
para um mosteiro em 2021?

Por que entrarei para um mosteiro em 2021?

Vivemos numa “época sem precedentes”. É por isso que, seguindo o precedente de São Bento, Santa Catarina e Santa Teresinha, entrarei para um mosteiro em 2021. Porque às vezes precisamos abandonar o mundo para amá-lo.

Gretchen ErlichmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Vivemos numa “época sem precedentes”. Esta frase, repetida com tanta frequência, não apenas tomou as manchetes dos jornais e adornou os lábios de muitos apresentadores, mas também se tornou um mantra sempre presente em nossos encontros cotidianos. “Época sem precedentes” descreve o desconcertante conglomerado de caos político, tensões religiosas e uma sociedade conduzida por uma pandemia.

Porém, são precisamente épocas como esta que estabelecem um precedente para vocações à vida contemplativa: o Império Romano desmoronava, enquanto S. Bento compunha sua regra monástica. O Grande Cisma do Ocidente atormentava o papado, enquanto S. Catarina de Siena fazia penitência pela regeneração da Igreja. As religiosas do Carmelo de Lisieux morriam de gripe asiática, enquanto S. Teresinha rezava pela saúde e regeneração da Europa.

Em poucos meses, seguirei esse precedente, deixando para trás a vida que conheço a fim de entrar como postulante entre as irmãs dominicanas contemplativas do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, em North Guilford, Connecticut. Para mim, essa parece ser a melhor resposta que posso dar ao nosso atual contexto social e à vida, em sentido mais amplo.

Mas talvez essa ideia não seja tão bem compreendida quanto eu esperava. Ao compartilhar essa intenção com outras pessoas, tenho recebido de amigos, familiares, conhecidos e estranhos um número cada vez maior de perguntas em tom de perplexidade, todas elas questionando minha decisão de entrar para um mosteiro. — Por que eu faria isso justamente agora? Por que eu gostaria que minha última experiência do “mundo” fosse a de uma sociedade conduzida por uma pandemia? Por que, em meio ao caos do ambiente político e religioso desta época, eu me trancaria num claustro? — Alguns sugerem que uma pessoa só faria tal escolha com o objetivo de fugir dos problemas do mundo. Outros veem nisso uma negação heróica das coisas “mundanas”. Essas respostas erram o alvo.

É justamente o desejo de me dedicar a esta “época sem precedentes” que fortalece minha determinação de buscar uma vida como religiosa dominicana contemplativa. Não entrarei num mosteiro para fugir do mundo nem para mostrar uma falsa piedade. Entrarei na vida religiosa a fim de seguir a minha vocação particular, através da qual poderei realizar mais perfeitamente minha missão como membro cristã da sociedade humana. Ao renunciar às coisas do mundo, uma religiosa afirma de modo radical a realidade do bem e do mal no mundo. Ao entrar para o claustro, ela se torna livre para penetrar com mais profundidade o sofrimento de um mundo que sofre. E, ao fechar os olhos na oração, ela é capaz de abrir seu coração para um mundo desesperadamente carente.

Um dos lemas da Ordem dos Pregadores é contemplare et contemplata aliis tradere (“contemplar e transmitir aos outros as coisas contempladas”). Depois de discernir pela primeira vez a respeito da vida contemplativa, não sabia ao certo como esse lema se manifestaria na vida de uma irmã de clausura. Hoje, compreendo que é por meio de uma vida contemplativa que me comprometerei de modo pleno e frutífero com um mundo sofredor. Por meio de uma vida de oração e penitência e afastada do mundo, uma irmã contemplativa está intimamente unida em solidariedade àqueles que sofrem no mundo. Esta solidariedade é definida pela oferta plena de si em prol de um bem muito maior do que ela mesma; é um derramamento de sua vida de oração e penitência pelo bem comum do mundo ao redor dela. É por meio desta solidariedade que ela cumpre sua vocação: contemplare et contemplata aliis tradere.    

O Papa S. João Paulo II afirma exatamente isso em sua carta apostólica Salvifici doloris:

É necessário, portanto, cultivar em si próprio esta sensibilidade do coração, que se demonstra na compaixão por quem sofre. Por vezes esta compaixão acaba por ser a única ou a principal expressão do nosso amor e da nossa solidariedade com o homem que sofre (...) Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio “eu”, ao outro. Tocamos aqui um dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem “não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo”. Bom Samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo (n. 28).

Toda pessoa é chamada a viver uma manifestação específica desse “sincero dom de si” por meio de sua vocação pessoal: os pais sacrificam o próprio conforto em prol dos filhos; os profissionais da saúde põem as próprias vidas na linha de frente em prol da saúde e do bem-estar dos outros; os membros do clero são obrigados a viver à altura do desafio de viver e pregar a verdade, não importa a que custo. Eu, junto com minhas futuras irmãs, sou chamada a participar de todos esses sofrimentos de modo sobrenatural, por meio do dom da vida contemplativa.

Religiosas contemplativas são chamadas a oferecer orações pela mãe exausta que não consegue rezar após uma noite em claro com seu filho; a fazer penitência pelo homem que está morrendo sozinho e precisa da graça da conversão; a ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento e implorar pela paz em nossa nação e pela fertilidade da Igreja. Como religiosa, usarei minha vida para unir todos esses sofrimentos ao sofrimento de Cristo na cruz. Cristo fez-se homem e sacrificou sua vida humana pela salvação da humanidade. Dentro das muralhas do mosteiro, religiosas sacrificam suas próprias vidas humanas e as unem à de Cristo, levando assim toda a humanidade para Ele, e Ele para toda a humanidade.  

Assim que eu entrar no mosteiro, minha “janela” para o mundo consistirá numa pequena abertura na grade da capela onde está o ostensório com o Santíssimo Sacramento. Literalmente, verei o mundo exterior através de Cristo. Que expressão perfeita da vida religiosa que eu desejo buscar! G. K. Chesterton escreveu o seguinte: “O voto é para o homem o que o canto é para o pássaro ou o latido para o cão; é a voz pela qual ele é conhecido” (The Barbarism of Berlin). É na busca por uma vida com os votos de pobreza, castidade e obediência no interior das silenciosas muralhas do claustro que desejo ser escutada.

Por isso, estou seguindo o precedente de S. Bento, S. Catarina e S. Teresinha nesta “época sem precedentes” e entrarei para um mosteiro em 2021. Porque às vezes precisamos abandonar o mundo para amá-lo.

Notas

  • A fotografia acima, é da profissão da Irmã Maria Teresa do Sagrado Coração, religiosa dominicana no Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário, em Summit, Nova Jersey. Créditos: Toni Greaves.

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PL contra ativismo judicial pode ser aprovado amanhã!
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PL contra ativismo judicial
pode ser aprovado amanhã!

PL contra ativismo judicial pode ser aprovado amanhã!

O Projeto de Lei 4754/2016, que tipifica como crime de responsabilidade, passível de impeachment, a usurpação de competência do Poder Legislativo ou Executivo pelos ministros do STF, está pautado para votação nesta terça-feira, 4 de maio.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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O Projeto de Lei 4754/2016, que tipifica como crime de responsabilidade passível de impeachment a usurpação de competência do Poder Legislativo ou do Poder Executivo por parte dos ministros do Supremo Tribunal Federal, está pautado para ser votado nesta terça-feira na Comissão de Constitucionalidade e Justiça da Câmara dos Deputados.

A previsão é que, contrariamente a situações anteriores e diante do novo ambiente político, o projeto tenha grande probabilidade de ser aprovado. A manifestação dos cidadãos pode ser o fator decisivo

Os ministros do Supremo Tribunal Federal têm abusado de suas competências para legislar e modificar a Constituição. Os abusos são tão constantes e notórios que não é necessário enumerá-los. A menos que não se crie a legislação adequada para que os poderes Executivo e Legislativo possam defender-se destes abusos, o STF poderá proximamente impor o ensino obrigatório da ideologia de gênero para todo o sistema escolar e aprovar o aborto totalmente livre no país. 

O PL 4754/2016 não irá remediar o problema, mas é o pressuposto jurídico para que os verdadeiros remédios possam ser elaborados. O ativismo judicial é crime gravíssimo, mas antes que se possam elaborar medidas legislativas contra qualquer crime, o próprio crime tem de ser tipificado e reconhecido como tal pela lei. É isto o que faz o PL 4754/2016. 

A justificativa deste Projeto de Lei é simples e curta, consistindo apenas de um único parágrafo: 

A Constituição atribui competências específicas a cada um dos três poderes, exigindo que estes zelem pela preservação das mesmas. A Lei 1079/1950, que define os crimes de responsabilidade, é pródiga ao listar os crimes de responsabilidade do Presidente da República e dos Ministros de Estado, mas lacônica ao fazer o mesmo com os membros do judiciário. Sem dúvida este fato se deve ao modo exemplar como os juízes têm desempenhado suas funções em nosso país. Sabe-se, entretanto, que a doutrina jurídica recente tem realizado diversas tentativas para justificar o ativismo judiciário, algo praticamente inexistente em nosso país nos anos 50, época em que foi promulgada a lei que define os crimes de responsabilidade. Este ativismo, se aceito como doutrina pela comunidade jurídica, fará com que o Poder Judiciário possa usurpar a competência legislativa do Congresso. Não existem atualmente, por outro lado, normas jurídicas que estabeleçam como, diante desta eventualidade, esta casa poderia zelar pela preservação de suas competências. De onde decorre a importância da aprovação deste projeto.

O PL 4754 é, portanto, bastante simples. Ele só explicita o que é pressuposto da própria Constituição: que os três poderes são independentes e um não pode se imiscuir nas competências do outro.

Pedimos, pois, a todos os que receberem esta mensagem, que telefonem, enviem e-mails e se comuniquem com os deputados da Comissão de Justiça e Constitucionalidade da Câmara através de suas redes sociais, para que votem favoravelmente à matéria pautada. Abaixo se encontram: 

No momento de se comunicar com os deputados, sejam eles quais forem, seja educado ao extremo, mas firme e claro na expressão de suas posições. Mais importante do que o e-mail é telefonar de viva voz e manifestar-se nas redes sociais.

Ligue primeiro para os deputados de seu estado e identifique-se como cidadão desta unidade da federação. Você é eleitor deles, eles representam você, e lhe darão mais atenção se for do mesmo estado. Em seguida, ligue também para os deputados dos demais estados. É muito importante explicar claramente aos assessores dos deputados a importância do PL 4754/2016. 

Estamos em uma democracia, e não numa monarquia ou aristocracia. Insistam em comunicar-se e fazer com que mais pessoas entrem em contato. Não deixem a tarefa apenas para autoridades e especialistas. Isso vai fazer toda a diferença. 

Ao deixar sua mensagem, não copie e cole. Não faça nada padronizado. Use suas próprias palavras. Seja você mesmo. Mostre que o que você diz é a expressão de sua própria cidadania, e não da dos outros. Não delegue suas obrigações políticas aos outros.

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