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Existem almas pelas quais nem adianta rezar?
Doutrina

Existem almas
pelas quais nem adianta rezar?

Existem almas pelas quais nem adianta rezar?

A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna. Mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Já repassamos os recursos e os numerosos meios que a divina misericórdia colocou em nossas mãos a fim de darmos alívio às almas do Purgatório. Mas que almas se encontram nessas chamas expiatórias e a quais delas devemos prestar nossa assistência? Por que almas devemos rezar e oferecer sufrágios a Deus? 

A tais questões é preciso responder o seguinte: o nosso dever é rezar pelas almas de todos os fiéis falecidos, omnium fidelium defunctorum, de acordo com a expressão da Igreja. Ainda que a piedade filial nos imponha deveres especiais com relação a nossos pais e familiares, a caridade cristã manda-nos rezar pelos fiéis falecidos em geral, porque todos eles são nossos irmãos em Cristo Jesus, todos eles são nosso próximo, que devemos amar como a nós mesmos. Por estas palavras, “fiéis falecidos”, a Igreja se refere a todos que se encontram no Purgatório, ou seja, os que não estão no Inferno, mas também não se tornaram dignos ainda de ser admitidos à glória do Paraíso. 

Mas quem são essas almas? Acaso podemos conhecê-las? Deus reservou esse conhecimento a si mesmo e, a menos que Ele no-lo deseje revelar, é preciso que permaneçamos em ignorância completa a respeito do estado das almas na outra vida. É raro, de fato, que Ele nos dê a conhecer se uma alma está no Purgatório ou na glória do Céu, e mais raro ainda que Ele revele o destino de um réprobo. Por conta dessa incerteza, nós devemos rezar em geral, como faz a Igreja, por todos os falecidos, sem prejuízo das almas a que queremos prestar auxílio de modo particular.

Evidentemente, seria preciso restringir a intenção de nossas orações aos mortos que ainda se encontram em necessidade de nossa assistência, se Deus nos concedesse o privilégio dado a Santo André Avelino, de conhecer a condição das almas na outra vida. Quando com angélico fervor esse santo religioso da Ordem dos Teatinos rezava pelos falecidos, de acordo com seu piedoso costume, algumas vezes acontecia de ele experimentar em seu interior uma espécie de resistência, um sentimento de repulsa invencível, enquanto noutras vezes, pelo contrário, ele achava grande consolação e sentia uma particular inclinação à oração. 

Logo ele compreendeu o significado dessas diferentes impressões: a primeira queria dizer que sua oração seria inútil, porquanto a alma que ele desejava assistir era indigna da misericórdia de Deus e tinha se condenado ao fogo eterno; a segunda indicava que sua oração era eficaz para o alívio da alma no Purgatório. O mesmo se passava quando ele queria oferecer o Santo Sacrifício por alguém que morrera. Ele sentia, ao deixar a sacristia, como se fosse retido por uma mão irresistível, com o que entendia que aquela alma estava no Inferno; mas quando era inundado de alegria, iluminação e devoção, ele podia ficar certo de que contribuiria para a libertação de uma alma.

Esse generoso santo rezava, portanto, com o maior dos fervores pelos mortos que ele sabia estarem sofrendo, e não cessava de oferecer seus sufrágios até que as almas lhe viessem agradecer, dando-lhe a certeza de sua libertação.

O que nos cabe, a nós que não possuímos essas luzes sobrenaturais, é rezar por todos os falecidos, até mesmo pelo maior dos pecadores e pelo mais virtuoso dos cristãos. Santo Agostinho conhecia a grande virtude de sua mãe, Santa Mônica e, no entanto, não satisfeito por oferecer seus próprios sufrágios por ela a Deus, pedia a seus leitores que não deixassem de recomendar a alma dela à divina misericórdia.

No que diz respeito a grandes pecadores, que morrem sem se reconciliarem externamente com Deus, nós não devemos excluí-los de nossos sufrágios, porque não temos segurança de sua impenitência interior. A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna; mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos. Quanto a nós, só o que podemos fazer é tirar uma conclusão hipotética a partir de circunstâncias exteriores, mas mesmo disso nós devemos nos abster. 

É preciso admitir, contudo, que há muito o que temer por aqueles que morreram despreparados para a morte; e, para os que se recusam a receber os sacramentos, então, parece que se esvai toda esperança, dado terem deixado essa vida com sinais externos de réprobos. Apesar de tudo, devemos deixar o julgamento a Deus, pois é a Ele que pertence o juízo: Dei iudicium est (Dt 1, 17). 

Mais esperança existe para os que não foram positivamente hostis à religião, que foram benevolentes para com os pobres, que conservaram algumas práticas da piedade cristã ou que pelos menos aprovavam e favoreciam a piedade; há mais esperança para tais pessoas, eu digo, quando acontece de morrerem de repente, sem terem tido tempo de receber os últimos sacramentos da Igreja.

São Francisco de Sales não nos permite desesperar da conversão dos pecadores até o seu último suspiro, e mesmo depois da morte nos proíbe de julgar mal aqueles que levaram uma má vida. Com exceção daqueles pecadores cuja condenação é tornada manifesta pela Sagrada Escritura, nós não devemos concluir, ele diz, que uma pessoa se condenou; ao contrário, é preciso que respeitemos o segredo de Deus

A principal razão disso é que, assim como a primeira graça não se pode merecer, é gratuita, assim também é a graça da perseverança final, ou da boa morte. É por isso que devemos ter esperança por todos os falecidos, por mais lamentável que tenha sido sua morte, porque nossas conjecturas podem basear-se tão-somente no exterior, com base em que até mesmo os mais espertos podem se enganar.

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Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte
Liturgia

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

A celebração com a qual se dá início à Quaresma pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois assim como Cristo passou pela Cruz, “também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna”.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos chama à verdadeira conversão: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2, 13). 

A conversão do coração é a dimensão fundamental deste tempo singular de graça que nos preparamos para viver na Quaresma. Além disso, as palavras do profeta Joel sugerem-nos a motivação profunda que nos torna capazes de voltar a percorrer o caminho rumo a Deus, que é “a consciência de que o Senhor é misericordioso e que cada homem é seu filho muito amado, chamado à conversão” [1]. Pela Palavra, somos motivados a uma verdadeira transformação de vida, a morrer para o pecado e a viver para Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 11).

Na antiga praxe da Igreja Católica, o sacramento da Penitência era público e o rito de imposição das cinzas dava início ao caminho penitencial dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na celebração da manhã da Quinta-feira Santa. Por volta do século IX, o gesto da imposição das cinzas — obtidas com a queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior — associado ao sacramento da Penitência caiu em desuso. Porém, a imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e foi inserida na celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, depois da homilia. A fórmula que acompanhava a imposição foi alterada com o tempo. No início, usava-se somente a fórmula: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Mais tarde, acrescentou-se a fórmula opcional: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

Perceba-se portanto como, desde o Antigo Testamento, as cinzas já simbolizavam a brevidade da vida (cf. Gn 18, 27; 30, 19; Sb 2, 2s), a penitência e a conversão (cf. Est 4,1.3; Jr 6, 26; Jn 3, 6). No centro da celebração litúrgica da Quarta-feira de Cinzas, há justamente esse gesto simbólico, oportunamente explicado pelas palavras das Escrituras que o acompanham. A imposição das cinzas — cujo significado, fortemente evocativo da condição humana, é salientado pela primeira fórmula contemplada pelo rito penitencial: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) — lembra a caducidade da nossa existência e convida-nos a considerar a vaidade de nossos projetos, quando não fundamentamos a nossa esperança no Senhor. 

A segunda fórmula prevista pelo rito: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15), ressalta, por sua vez, quais são as condições indispensáveis para percorrermos o caminho da vida em Cristo: “São necessárias uma concreta transformação interior e adesão à palavra de Cristo” [2].

Segundo o Papa S. João Paulo II, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois remete para as funções da Sexta-Feira da Paixão. Nesta celebração, o rito litúrgico da Quarta-feira de Cinzas encontra o seu pleno cumprimento. “Com efeito, é naquele que ‘se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz’ (Fl 2, 8), que também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna” [3].

Desde os seus primórdios, a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho de morte, de renúncia de nós mesmos. Em primeiro lugar, neste caminho, é necessária a adesão humilde e dócil à vontade de Deus, acompanhada pela oração incessante (cf. 2Ts 5, 17). Também são muito apropriadas as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que nos são legítimos. De modo particular, são importantíssimos os gestos concretos de solidariedade e de ajuda ao próximo, que o Evangelho segundo Mateus nos recorda com a palavra “esmola” (6, 2ss). 

Tudo isto, que deveria fazer parte da vida de todo cristão, “é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um ‘tempo forte’ de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos” [4].

Seguindo, pois, o caminho tradicional da Igreja, comecemos o tempo da Quaresma com verdadeiros propósitos de penitência e de ascese, para que, mortos para este mundo, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Rm 6, 4s). Que Nossa Senhora das Dores, imagem da compaixão divina pela humanidade, nos ajude a viver bem esse tempo de morte para nós mesmos.

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Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie
Sociedade

Professora ocultista:
para salvar o planeta, extinguir a espécie

Professora ocultista: para salvar o planeta, extinguir a espécie

Para Patricia MacCormack, professora de filosofia na Inglaterra e “feiticeira ocultista”, não há outra solução para o problema ambiental a não ser “suprimir gradualmente a reprodução” humana.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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No dia 23 de janeiro deste ano, a editora Bloomsbury Academic publicou uma chamada para ação a todos que se preocupam com as “mudanças climáticas”. The Ahuman Manifesto: Activism for the End of the Anthropocene (em português, literalmente, “O Manifesto Anti-humano: Ativismo para o Fim do Antropoceno”), de Patricia MacCormack, professora de filosofia continental [1] na Anglia Ruskin University, vai direto ao ponto e defende a solução definitiva para o aquecimento global: a extinção da espécie humana.

Ela confessa ser uma “feiticeira ocultista”. De fato, já deu palestras — muitas vezes com roupas que imitam trajes de bruxa e guardam semelhança assustadora com o que vemos no programa Drag Queen Storytime [2] — sobre a “invocação” ou “convocação” de demônios, segundo ela, uma prática importante para os movimentos feminista e queer. Ela diz que a invocação de demônios não está completamente isenta de riscos, porque a “loucura é tão provável quanto o êxtase”. Tudo isso ela diz sem um pingo de ironia.

MacCormack não é aquele tipo de ativista ambiental hesitante segundo o qual deveríamos salvar o planeta por causa dos nossos filhos. O que ela acha, na verdade, é que, absolutamente, crianças não deveriam sequer existir.

MacCormack — pesquisadora que tem “publicações nas áreas de filosofia continental, feminismo, teoria queer, teoria pós-humana, filmes de horror, modificação corporal, direitos dos animais/abolicionismo, cinessexualidade e ética” — já defendeu que os animais são iguais aos seres humanos. Agora ela diz que os seres humanos deveriam sair de cena por completo. 

O resumo do livro descreve sua tese da seguinte maneira: 

Abrindo espaço para o ativismo, a prática artística e a ética afirmativa, ao mesmo tempo que apresenta alguns fenômenos especificamente modernos como cultos da morte, política identitária intersecional e escravização capitalista de organismos humanos e não humanos a ponto de provocar uma “zumbidade”, O Manifesto Anti-humano explora caminhos que nos levam a construir o ser humano de modo diferente; especificamente, temos de ir além do niilismo, do pós e do transhumanismo, e abandonar o privilégio humano. Isso deve acontecer para que possamos pensar ativamente e viver visceralmente com conectividade (atual ou virtual), paixão e graça rumo a um mundo novo.

Numa tradução mais ou menos precisa, essa bobagem quer dizer que o ápice do progresso humano deve ser a extinção da espécie humana. MacCormack tenta apresentar o “apocalipse como um começo otimista”, mas para outras espécies, que ficarão numa situação muito melhor depois que nós todos morrermos (uma ótima hipótese para se considerar, de acordo com ela). De acordo com o Cambridge News, o livro dela “argumenta que, devido ao dano causado a outros seres vivos na terra, deveríamos começar a suprimir gradualmente a reprodução”. 

Os ambientalistas fanáticos são uma ameaça muito maior à civilização humana do que a própria mudança climática precisamente por esta razão: eles querem tomar o poder por meio da declaração de um suposto estado de emergência, e tão logo sejam bem-sucedidos com base em tais premissas, vão usá-lo para implementar um estado de emergência real. Sabemos o que acontece quando o Estado usa seu poder para controlar a reprodução de milhões de pessoas: esterilizações forçadas, sequestro de mulheres para arrancar os bebês de seus ventres, trauma provocado por famílias desestruturadas e crise cultural. O nome dado a isso foi “política do filho único”, e só começou a ser suprimida na China há pouco tempo. Seu resultado: 336 milhões de abortos e um sofrimento incomensurável.

Pelo menos MacCormack não tenta apresentar suas propostas de forma adocicada. “Cheguei a essa ideia a partir de dois caminhos”, disse ela ao Cambridge News. “Meu encanto pelo feminismo e pela teoria queer me levou à filosofia; portanto, interesso-me há um bom tempo pelos direitos reprodutivos [eufemismo para aborto], e esse interesse me levou a procurar mais informações sobre os direitos dos animais. Foi então que me tornei vegana. A premissa fundamental do livro é a seguinte: estamos na era do Antropoceno, a humanidade causou um monte de problemas e um deles foi a criação deste mundo hierárquico no qual homens brancos, heterossexuais e fisicamente aptos têm êxito, e pessoas de diferentes raças, gêneros, sexualidades e aquelas que portam alguma deficiência lutam para ter sucesso.” 

Ela prossegue: “O livro também argumenta que precisamos suprimir a religião e outros poderes dominantes como a igreja do capitalismo ou o culto da individualidade, já que isso faz as pessoas agirem a partir de regras impostas, em vez de responderem refletidamente às situações com as quais se deparam.” Provavelmente, MacCormack acredita que a extinção da espécie humana seja um exemplo de resposta refletida aos fatos com os quais nos deparamos, embora ela não explique como fará com que as pessoas se preocupem com as “mudanças climáticas” ao eliminar a principal motivação apresentada para legitimar a preocupação com tais mudanças: a preservação do planeta para as pessoas e sua descendência. Ela reconhece isso e observa que “todos aceitam as ideias do livro até saberem que terão de colocá-las em prática”.

Há não muito tempo, a expressão “culto da morte” era considerada sinistra, e não uma descrição ambiciosa da espécie humana. No momento, MacCormack pode ser considerada radical, mas ela representa o futuro do ativismo ambientalista: energicamente hostil à espécie humana e defensor da “eliminação da reprodução”. Os programas de rádio tradicionais frequentemente organizam debates com pessoas que decidiram não ter filhos para preservar o planeta para outras crianças. MacCormack vai um pouco além dessa tendência. Os ativistas ambientais estão plenamente convencidos da própria retidão, e estão completamente dispostos a usar o poder do Estado para impor suas soluções a todos nós.

Deveríamos ouvir com muito cuidado as soluções propostas por eles.

Notas

  1. Expressão criada por filósofos analíticos para descrever algumas tradições filosóficas oriundas da Europa continental.
  2. Evento infantil iniciado em 2015 por Michelle Tea, ativista que trabalha para promover, dentre outras causas, a ideologia LGBT para crianças.

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Por favor, não me canonizem em meu funeral!
Espiritualidade

Por favor,
não me canonizem em meu funeral!

Por favor, não me canonizem em meu funeral!

Quando eu morrer, pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

Ken FoyeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Não planejo morrer em breve. Tenho quase 53 anos, e as estatísticas para a expectativa de vida me dizem que me restam pelo menos mais 20 ou 25 anos de vida aqui na terra. Além disso, pesquisas mostram que pessoas de fé tendem a ser mais saudáveis e a viver mais do que as que não têm fé — na verdade, cerca de sete anos mais, de acordo com um estudo. Esta não é a razão pela qual tenho fé, mas é um elemento a meu favor.

Mas se as coisas não saírem como esperado, gostaria de colocar em ordem agora um assunto temporal. Está ligado aos ritos do meu sepultamento.

Em poucas palavras, não quero ser canonizado em meu velório ou Missa de exéquias.

Registro isso por escrito: não quero lugares-comuns do tipo “ele está no Céu agora” ou “ele está num lugar melhor”. Estamos falando da alma de uma pessoa — a saber, a minha — e essa não é a ocasião para sentimentalismos amenos. O “destino espiritual eterno” é um assunto muito sério para que tenhamos esse tipo de atitude.

Nada semelhante a “ele está no Céu agora” deverá ser dito em meu velório; nem durante a homilia, nem em qualquer outra parte do funeral; em qualquer reunião social antes do meu funeral ou depois dele; ou em qualquer momento nos dias, semanas, meses, anos ou mesmo décadas depois da minha morte. A menos que ocorram milagres de forma clara e inegável por causa da minha intercessão, ou a menos que, sem dúvida alguma, eu morra como mártir da fé, ninguém poderá saber que estarei no Céu.

Pensamentos bem-intencionados, mas precipitados, sobre minha presença no Céu não ajudarão em nada a minha alma. Em vez disso, peço agora — e repetirei esse pedido quantas vezes forem necessárias, até o dia da minha morte — que todos os que se lembrarem de mim presumam que estarei no Purgatório.

E isso significa que precisarei de muitas orações — não de sentenças de canonização, muito menos para que minha esposa se sinta melhor, supondo que eu “vá embora” antes dela.

É um erro grave supor que alguém, uma vez morto, está automaticamente no Céu. Dizer isso pode soar indelicado ou insensível, mas a verdade é que é uma falta de caridade pressupor que uma pessoa já está “garantida” para toda a eternidade e não precisa mais das nossas orações. É isso o que significa “canonizar” alguém ao dizer “ele está no Céu” ou “ele está num lugar melhor”. É o mesmo que concluir que não precisamos mais rezar por ele.

O que é o Purgatório? O Catecismo (n. 1030) explica da seguinte forma: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu.” Em seguida, diz que a finalidade do Purgatório é a “purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados” (n. 1031). 

No fim das contas, toda alma que se encontra no Purgatório irá para o Céu — com a ajuda de nós, católicos, aqui na terra. Por isso, a Igreja sempre enfatizou a “prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura” e recomenda “a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos” (n. 1032).

No catolicismo moderno, rezar pelos mortos ainda é uma prioridade? Como comunidade, nós, católicos, ainda acreditamos com firmeza no Purgatório? A resposta às duas perguntas parece ser “não exatamente”, dado o hábito tão estendido de se “canonizar” o falecido na Missa de exéquias por meio de declarações como “ele está no Céu agora” e de referências constantes a um “lugar melhor”.

Será que muitos de nós pensamos ser demasiado incômodo imaginar que nossos parentes, amigos e entes queridos estão sofrendo no Purgatório? Não deveríamos pensar dessa maneira. Em vez disso, deveríamos olhar para o lado positivo disso. O Purgatório não é um lugar agradável, mas ele com certeza é melhor do que o Inferno — que não apenas é muito mais desagradável, mas, diferentemente do Purgatório, é eterno. E o sofrimento do Purgatório tem um elemento purificador, do qual Deus extrai bondade e beleza, para não falar da nossa salvação.

Em certa homilia de uma Missa de exéquias, um sacerdote comparou o Purgatório à mineração de metais preciosos. Só uma fornalha pode separar ouro e diamantes dos minérios inúteis nos quais são encontrados. Sem a fornalha, os metais não poderiam tornar-se preciosos; da mesma forma, sem o Purgatório, é razoável pensar que poucas almas seriam admitidas no Céu, onde a Escritura diz que nada impuro pode entrar (cf. Ap 21, 27). 

Pense nisso. Se morrermos sem pecado mortal, ou se fizermos a melhor confissão possível minutos antes da morte, quantos de nós estaremos tão livres das sequelas e vínculos do pecado, a ponto de nossa alma preencher os requisitos mencionados no Apocalipse? É razoável crer que poucos de nós conseguiríamos. Até Samuel Johnson, erudito escritor não católico do século XVIII, “provavelmente o mais distinto homem de letras da história inglesa”, percebeu isso: quando lhe perguntaram sobre a crença católica no Purgatório, ele disse: “Trata-se de uma doutrina muito inofensiva. Eles [católicos] pensam que, de modo geral, a humanidade não é tão obstinadamente perversa para merecer a punição eterna, nem tão boa a ponto de merecer a admissão na sociedade das almas bem-aventuradas; portanto, pensam que Deus fica graciosamente satisfeito em permitir que haja um estágio intermediário, onde elas podem ser purificadas por certos graus de sofrimento”.

É isso — temos de pensar primeiro no Purgatório, não no Céu, quando alguém que conhecemos falece, mesmo um familiar ou amigo próximo, porque é muito provável que a alma dessa pessoa tenha de passar por uma purificação. Assim como não podemos implodir um edifício antigo antes de termos plena certeza de que não há ninguém dentro, devemos ser cautelosos para não afirmar com plena certeza que algum falecido está no Céu. As almas que estão no Céu não precisam das nossas orações, mas as que estão no Purgatório sim, e devemos presumir que a alma deste falecido está lá — a menos, repita-se, que se trate de um caso inquestionável de martírio pela fé ou de milagres decorrentes da intercessão de tal pessoa.

Portanto, quando eu morrer, por favor rezem por mimnão me canonizem. Espero ir direto para o Céu quando se esgotar meu tempo na terra? Claro que sim, mas, a menos que tenham certeza disso, espero que as pessoas não apostem nisso. Eis por que ofereço cada uma das orações individuais do Rosário por uma alma do Purgatório. Peço que outras pessoas façam o mesmo depois que eu morrer, assumindo a probabilidade bastante real de que eu esteja no Purgatório e rezando para que a minha alma alcance o descanso eterno na glória de Deus.

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Saiba o que os “médicos da morte” estão fazendo na Bélgica
Sociedade

Saiba o que os
“médicos da morte”
estão fazendo na Bélgica

Saiba o que os “médicos da morte” estão fazendo na Bélgica

Quando a eutanásia é legalizada, a mentalidade coletiva de uma cultura a respeito do significado e da importância da vida humana se distorce. Acabar logo com o sofrimento torna-se mais importante do que proteger a vida dos vulneráveis.

Wesley J. SmithTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Maravilha das maravilhas: a Bélgica está processando três médicos pela prática ilegal da eutanásia. Depois que Tine Nys, 38, recebeu uma injeção letal, os familiares denunciaram os médicos — um deles, psiquiatra — às autoridades. Eles alegam que a injeção letal aplicada em Nys violou as diretrizes que os médicos deveriam seguir de acordo com as leis de eutanásia na Bélgica. 

As alegações dos familiares são perturbadoras. Nys fora diagnosticada com autismo alguns meses antes de sua morte. Quando jovem, sofria de um transtorno depressivo e tentou suicídio. Mas os membros da família relatam que ela ficou muitos anos sem precisar de tratamento e que, na verdade, queria morrer por causa de um relacionamento desfeito. Segundo a lei, Nys não estava sofrendo de uma desordem “séria e incurável” — requisito necessário para que uma pessoa recorra legalmente à eutanásia.

De acordo com a mídia, esse caso demonstra que a Bélgica trata com seriedade a observância de limites rigorosos para a eutanásia. Mas “rigorosos” e “limites” são conceitos contraditórios quando estamos falando de médicos belgas que matam seus pacientes. Deveríamos ficar angustiados com o fato de essa ser uma das poucas tentativas de responsabilizar médicos, levando-se em conta que as autoridades têm feito vista grossa para outros casos igualmente graves, evitando tomar quaisquer medidas criminais ou administrativas.

A eutanásia foi legalizada na Bélgica em 2002, em meio às usuais garantias displicentes de que firmes limitações impediriam seu abuso. Mas as promessas eram falsas. Desde que a lei entrou em vigor, médicos têm aplicado a eutanásia não apenas em pacientes doentes, mas em pessoas com deficiência, idosos em situação de desespero e pessoas com doenças mentais. Até crianças de nove anos já sofreram eutanásia! Os corpos de pessoas com doenças mentais e com deficiências físicas progressivas são usados para captação de órgãos. Não fosse pela eutanásia, muitos dos que foram mortos teriam vivido por anos. De fato, diversos casos abusivos já foram relatados de forma fidedigna na mídia e por autoridades belgas especialistas em eutanásia — mas nenhum deles resultou em processo. Os casos seguintes são apenas um exemplo.

Há relatos de vários casos de casais de idosos que foram mortos juntos. O primeiro foi em 2011 — nenhum dos membros do casal estava seriamente debilitado, e a eutanásia foi lhes aplicada com o pleno conhecimento e a aprovação inequívoca de sua comunidade. Eles inclusive fizeram os ajustes finais no necrotério local antes de receberem a injeção letal.

Um caso se destaca por sua crueldade. Um casal saudável “temia o futuro”. Os dois receberam a eutanásia juntos, apoiados pelos filhos. O médico da morte foi inclusive contratado pelo filho deles, que disse ao Daily Mail que a morte dos pais era “a melhor solução”, já que seria “impossível” cuidar deles adequadamente. Sociedades decentes julgam que é trágico o suicídio conjunto de casais de idosos. Mas na Bélgica, aparentemente, ele é considerado uma solução legítima para problemas associados ao cuidado de idosos. 

Outra história perturbadora é a de “Ann. G.”, que sofria de anorexia suicida. Ela fez uma acusação pública contra seu antigo psiquiatra por tê-la persuadido a manter relações sexuais com ele. Como o psiquiatra — que admitiu a acusação — não foi punido com severidade, Ann ficou tão desesperada que procurou outro especialista para pedir a eutanásia. Ela morreu com quarenta e quatro anos. Com amarga ironia, o primeiro psiquiatra só foi disciplinado pelo abuso depois da morte de Ann.

Agora imagine que você está no trabalho cumprindo suas tarefas. O telefone toca. Você atende, e a voz do outro lado lhe informa que ele trabalha para o necrotério do hospital onde está o corpo de sua mãe. “Como assim? O corpo da minha mãe está aí!?”, você exclama. “Ela recebeu a eutanásia hoje”, responde a voz. “O que deveríamos fazer com o corpo?” 

Sim, isso aconteceu em 2012 com o químico belga Tom Mortier. Numa conferência antieutanásia, da qual participei em 2014, ele descreveu o trauma emocional pelo qual passou. Sua mãe, Godelieva de Troyer, lutou contra a depressão durante boa parte da vida — algo que na Bélgica pode servir de fundamento jurídico para a eutanásia. Mas aqui está o truque: ela não foi morta por seu psiquiatra, que poderia ter determinado — de acordo com a lei — que ela era incurável. Em vez disso, ela foi morta pelo Dr. William Distelmans, um oncologista conhecido por sua predisposição para aplicar a eutanásia em pessoas que não foram seus pacientes anteriormente.

Infelizmente, o mesmo Distelmans também aplicou a eutanásia num homem transgênero que ficou perturbado por causa de uma cirurgia malfeita de mudança de sexo. Diz a história publicada no Daily Mail

Um transexual belga decidiu morrer por meio da eutanásia depois que uma cirurgia malfeita de mudança de sexo, que deveria completar sua transformação em homem, o deixou parecido com um “monstro”. Nathan Verhelst, 44, morreu na tarde de ontem depois de ter recebido autorização para tirar a própria vida por causa de “sofrimento psicológico insuportável”. Horas antes de morrer, ele disse ao Het Laatste Nieuws: “Estava pronto para celebrar meu novo nascimento, mas quando me olhei no espelho fiquei indignado comigo”.

Agora temos de nos perguntar: Verhelst teve sua situação de desespero tratada por um profissional de saúde mental adequado? Recebeu ajuda em seu momento de angústia? Não. Ele foi morto por um especialista em câncer.

Os casos que destaquei aqui — há muitos outros — ilustram a frágil natureza das “diretrizes rigorosas” na Bélgica. Os casos dessas pessoas — que não estavam de modo algum próximas da morte — foram relatados; portanto, não se pode dizer que as autoridades não sabiam deles. Mesmo assim, nenhum dos seus assassinos foi responsabilizado criminalmente, como aconteceu no caso de Nys. 

Uma condenação no caso de Nys poderia conter o impulso da contínua expansão da eutanásia na Bélgica. Parece não haver dúvidas sobre o caso. Porém, isso não significa muita coisa na cultura da morte. Para ser sincero, ficarei agradavelmente surpreso se houver uma condenação.

O recente processo contra uma médica que pratica a eutanásia na Holanda, onde a morte administrada por médicos também é legalizada, demonstra por que sou tão cético. Uma paciente que sofria de demência, ainda na posse de suas faculdades, pediu à médica que lhe aplicasse a eutanásia quando estivesse incapacitada. Mas ela também informou que gostaria de poder dizer quando isso ocorreria. Finalmente, a família dela e a médica decidiram, sem o consentimento dela, que a hora havia chegado. A médica pôs um entorpecente no café da paciente e, tão logo ela adormeceu, iniciou o procedimento para aplicar a injeção letal. Porém, a mulher acordou inesperadamente e lutou para impedir que fosse morta. Em vez de parar, a médica instruiu a família a segurá-la enquanto ela se debatia, para assim finalizar o homicídio.

Esse poderia parecer um caso inequívoco de eutanásia involuntária, que é tipificado como assassinato segundo a lei holandesa. Porém, um tribunal não apenas absolveu a médica, mas também a elogiou por ter agido no “interesse” da paciente. Em outras palavras, o juiz decidiu que a paciente que lutava para sobreviver não tinha mais capacidade mental para desejar viver. 

Quando a eutanásia é legalizada, a mentalidade coletiva de uma cultura a respeito do significado e da importância da vida humana se distorce. Acabar logo com o sofrimento torna-se mais importante do que proteger a vida dos vulneráveis, dificultando cada vez mais a restrição da eutanásia e do suicídio assistido a casos extremos — aqueles aos quais essas práticas deveriam estar reservadas, segundo a falsa promessa de seus defensores. Os raros casos de processo decorrentes de abusos inequívocos, muitos dos quais malsucedidos, aceleram esse processo. Não há nada tão eufemístico quanto dizer que as pessoas com tendência suicida têm permissão moral para acabar com suas vidas, ao mesmo tempo que se garante que os médicos da morte acreditem ter a aprovação da lei para satisfazer os desejos mais obscuros dos membros mais desesperados da sociedade.

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