O que caracteriza um líder eficiente? Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino afirmavam que era a virtude. O advogado francês Alexandre Havard concorda: como fundador do Havard Virtuous Leadership Institute (HVLI), ele desenvolveu um modelo de liderança baseado na aretologia — a filosofia da virtude — que está repercutindo entre os líderes de alto escalão do governo, do setor privado e das instituições religiosas.

Havard, atualmente radicado em Moscou, viaja pelo mundo dando seminários e promovendo o modelo de liderança sobre o qual escreveu em seu livro de 2007, “Virtudes & Liderança: A sabedoria das virtudes aplicada ao trabalho”, publicado no Brasil pela Quadrante. Agora em sua terceira edição em inglês, o livro já foi publicado em seis idiomas.

Zoe Romanowsky conversou com Havard sobre liderança eficaz e o papel da virtude nos negócios, na política e na sociedade atual.

O advogado e conferencista francês Alexandre Havard.

O debate sobre virtude e caráter remonta aos autores do Antigo Testamento e aos antigos gregos. O que o inspirou a desenvolver um modelo moderno de liderança baseado na virtude?

Foi após alguns encontros com estudantes universitários que abandonei minha carreira de advogado e me dediquei a estudar e ensinar sobre liderança.

Eu dava aulas sobre a história da integração europeia e passava horas ajudando os jovens a compreenderem os pensamentos e sentimentos dos fundadores da União Europeia: Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi e Jean Monnet. Meus alunos ficavam impressionados com a grandeza deles, e eu achava seu entusiasmo contagiante e inspirador. A magnanimidade dos jovens me levou ao estudo da liderança, e mesmo que um dia eu pare de dar aulas para executivos, nunca deixarei de lecionar para os jovens. É preciso inspirar antes de expirar. Da mesma forma, preciso dar testemunho da esperança antes de falar sobre ela.

Na minha investigação, concluí rapidamente que o autêntico exercício de liderança deve ter como base uma antropologia autêntica, que inclua a aretologia, a ciência das virtudes. A virtude é um hábito da mente, da vontade e do coração, que nos permite alcançar a excelência e a eficácia pessoais. A liderança está intrinsecamente ligada à virtude. Primeiro, porque a virtude inspira confiança — condição sine qua non da liderança. Segundo, porque a virtude, que vem do latim virtus e significa “força” ou “poder”, é uma força dinâmica que aumenta a capacidade de ação do líder. A virtude permite ao líder fazer o que as pessoas esperam dele.

Quando a maioria das pessoas pensa em líderes, imagina diretores executivos, filantropos famosos ou políticos e outros cidadãos de destaque — que podem ou não possuir esse tipo de virtude. Mas você afirma que todas as pessoas são chamadas a ser líderes.

O patriarca Moisés, grande líder do povo hebraico. Escultura de Michelangelo.

Sim, liderança não tem a ver com cargo, posição ou status. Liderança é um modo de ser que pode estar presente em todos, independentemente de sua posição na sociedade ou em qualquer organização. O líder não lidera por meio da potestas, ou do poder inerente ao seu cargo ou funções. Ele lidera por meio da auctoritas, que provém do caráter. Se você tem caráter, lidera. Se não o tem, você não lidera, mas manipula. A mídia usa a palavra “líderes” quando, na verdade, tem em mente “chefes”. Os chefes muitas vezes estão longe de ser líderes.

A liderança também não depende do temperamento, mas do caráter. Os líderes não nascem assim; formam-se. O temperamento não é um obstáculo à liderança, mas a falta de caráter — ou seja, a energia moral que nos impede de ser escravos da biologia — definitivamente o é.

Se a liderança depende do caráter — ou seja, da liberdade, da virtude, do crescimento e da criatividade —, então todos podem ser líderes.

Mas para ser líder não é necessário ter seguidores? Se todos podem ser líderes, então quem serão os seguidores? Ou podemos ser as duas coisas?

Nossos seguidores são as pessoas a quem servimos. Precisamos servir nossos filhos, amigos e colegas. Líder é aquele que alcança a grandeza e faz com que os outros também a alcancem. Todos nós somos chamados a liderar e a ser liderados, a servir e a nos deixarmos servir.

Praticar a liderança é viver para os outros, mas também saber com alegria que os outros existem para nos servir; aceitar que eles têm algo a nos oferecer, algo íntimo e pessoal. A poeta russa Olga Sedakova, que conhecia bem o Papa João Paulo II, observou certa vez: “Ele precisava de algo pessoal de cada pessoa que encontrava... Ele olhava para as pessoas com tanto interesse e esperança, como se dissesse: ‘Que coisas maravilhosas você vai me ajudar a descobrir hoje, que presente você vai me dar?’” Quando um líder pratica a humildade, ele ensina e inspira as pessoas que lidera. Mas ele aprende com elas e passa a vê-las como dons. Por meio delas, ele cresce e se aperfeiçoa como ser humano.

Em seu livro, o senhor afirma que os líderes são definidos por duas virtudes principais, sendo a primeira delas a magnanimidade. Hoje em dia, quase não ouvimos mais essa palavra. Qual é o significado dela?

Magnanimidade é o hábito de lutar por grandes conquistas. Os líderes são magnânimos em seus sonhos, visões e senso de missão, bem como em sua capacidade de desafiar a si mesmos e às pessoas ao seu redor. A magnanimidade é um ideal enraizado na confiança no homem e em sua grandeza inerente; é a forma suprema da esperança humana. A magnanimidade é uma virtude capaz de definir o tom de toda a vida de uma pessoa, transformando-a, dando-lhe um novo sentido e levando ao florescimento da personalidade. É a primeira virtude específica dos líderes.

Santa Joana d’Arc, em pintura de John Everett Millais.

Pensemos em Joana d’Arc. Ela era uma cristã autêntica; era verdadeiramente magnânima. Joana tornou-se comandante suprema das forças militares francesas aos 17 anos. Sua missão era garantir a coroação do príncipe herdeiro e, enquanto isso, expulsar os ingleses da França. Ela tinha uma visão nobre de si e de sua missão. Costumava dizer com profunda satisfação: “Foi para isso que nasci!”

Ela era a magnanimidade em pessoa. Confiava plenamente em Deus e em si. A sociedade moderna precisa de homens e mulheres que acreditem no homem. São Paulo, o apóstolo da esperança teológica, é também o apóstolo da humanidade de Cristo: ele viu em Jesus Cristo o homem perfeito, o homem que praticou todas as virtudes humanas com perfeição, incluindo a magnanimidade.

Certamente, um cristão deve ter consciência de suas falhas e buscar em Deus a força para vencer o mundo. Mas isso não basta. Ele também deve reconhecer os seus próprios talentos e aprender a confiar neles, recorrendo a todos os meios humanos. Essa é uma condição prévia essencial para ser líder.

A segunda grande virtude que o senhor destaca é a humildade, mas você acredita que essa virtude é mal interpretada por muitos cristãos. Como assim?

A magnanimidade e a humildade andam de mãos dadas. Quanto mais conscientes nos tornamos da nossa grandeza pessoal, mais precisamos entender que ela é um dom de Deus.

Magnanimidade sem humildade não é magnanimidade; é uma traição a si mesmo e pode facilmente resultar em algum tipo de infortúnio pessoal. O impulso magnânimo de se lançar em grandes empreendimentos deve estar sempre associado ao desapego que advém da humildade, que nos leva a enxergar Deus em todas as coisas. A exaltação do homem deve ser sempre acompanhada pela humildade diante de Deus.

Papa São João Paulo II, durante visita à Espanha, em 1982.

Um verdadeiro líder avalia seus talentos e habilidades com magnanimidade e se considera digno de grandes coisas, que empreende com confiança; ao mesmo tempo, percebe humildemente sua condição de criatura e compreende que suas capacidades e virtudes, mesmo as adquiridas por seus esforços pessoais, são, em última análise, dons de Deus.

Atribuir humildemente a grandeza e a força do homem à bondade de Deus não significa negá-las; a humildade oferece a Deus essa força e essa grandeza, e assim as consagra.

Muitos cristãos hoje em dia acreditam em Deus, mas poucos acreditam em si mesmos, em seus talentos e capacidades. Como seu conceito de humildade exclui a magnanimidade, essas pessoas não podem — e não querem — liderar. Não é de surpreender, portanto, que hoje o mundo ocidental raramente recrute seus líderes políticos entre cristãos praticantes. Os líderes mais influentes dos últimos trezentos anos não eram cristãos. Isso não se deve ao fato de os cristãos terem sido expulsos da vida social, mas porque muitos deles se retiraram voluntariamente dela. É o caso mais surpreendente de autocastração de todo um grupo na história da humanidade.

Além da magnanimidade e da humildade, que outras virtudes são necessárias para alguém ser um bom líder?

A prática das virtudes especificamente cristãs — fé, esperança e caridade — exerce um forte impacto na liderança. Elas elevam, reforçam e transfiguram as virtudes naturais da magnanimidade e da humildade, que são a essência da liderança, e as virtudes naturais da prudência, da coragem, do autocontrole e da justiça, que constituem os seus alicerces. Qualquer estudo sobre liderança que não levasse em consideração as virtudes sobrenaturais estaria completo.

Devemos recorrer frequentemente às virtudes sobrenaturais da fé, da esperança e da caridade, mas isso não significa menosprezar as virtudes naturais. Essas últimas constituem o próprio fundamento das virtudes sobrenaturais. Se eu não fizer nenhum esforço para cultivar a magnanimidade ou a prudência, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade não intervirão para me tornar magnânimo ou prudente apesar de mim mesmo. Se eu ceder à covardia, à intemperança ou ao egoísmo, não posso esperar que as virtudes teologais entrem na briga e me tornem corajoso, temperado e justo. Nenhuma prática religiosa pode compensar a falha em praticar uma virtude natural.

Detalhe de “Sete virtudes”: nesta pintura de Francesco Pesellino, vão representadas as virtudes cardeais, ou humanas, e as três virtudes teologais.

O senhor faz uma distinção entre dois tipos de ética: a que se baseia em regras e a que se baseia em virtudes. Qual é a diferença entre elas e qual é a sua importância nos negócios?

A ética baseada em regras, como o nome indica, fundamenta-se na lei: uma ação é correta se estiver em conformidade com a lei, e incorreta se não estiver. A ética baseada em virtudes fundamenta-se na natureza humana: aquilo que nos aproxima da perfeição moral é bom, e aquilo que nos afasta dela é mau.

A ética baseada na virtude não nega a validade das leis, mas insiste que elas não podem ser o fundamento último da ética. As leis devem estar a serviço da virtude. Essa é a ordem correta das coisas.

O comportamento dos líderes é determinado menos pela lei do que por suas virtudes. Se, por exemplo, os líderes não difamam seus concorrentes, isso não se deve tanto ao fato de a difamação ser proibida pela lei moral e pela lei penal, mas sim porque pessoas de caráter não se rebaixariam a tal ponto. Tal ideia simplesmente não lhes ocorreria.

O conceito de ética no trabalho — os códigos éticos que regem o mundo do trabalho — tem muito a ver com regras e pouco com virtude. A ética no trabalho limita-se às ações externas e visíveis que realizo no trabalho e às regras éticas da minha profissão e local de trabalho. A ética no trabalho busca a retidão profissional, não a perfeição humana. É claro que, como essa retidão contribui para a credibilidade da empresa e daqueles que trabalham para ela, trata-se de algo positivo.

Mas isso não é suficiente. Posso seguir essas normas à risca e ainda assim ficar estagnado como ser humano. Isso acontece quando confundo excelência humana com o simples cumprimento de um código. É possível cumprir normas éticas externas sem ter ideia de como elas se relacionam com a minha personalidade. A ética no trabalho é um ponto de partida, não um objetivo. Por si só, ela não leva ao aperfeiçoamento pessoal. Muitas organizações mantêm códigos de conduta que consagram a sua ética corporativa. Mas, se as pessoas que integram essas organizações não praticam as virtudes humanas com regularidade, os códigos de conduta, por mais nobres que sejam, podem tornar-se meramente cosméticos.

“Os fariseus questionam Jesus”, pintura de James Tissot.

Outra desvantagem da ética no trabalho está implícita em seu nome. Ela pode levar alguns a acreditar que existem dois tipos de ética: uma para o trabalho e outra para o tempo livre. Algumas pessoas são vigilantes quanto à manutenção de um código de conduta rigoroso no trabalho, mas consideram a vida privada como outra questão: “O que faço no meu tempo livre é da minha conta”.

Os líderes, por outro lado, comportam-se virtuosamente sempre e em todos os lugares: no trabalho, com a família, entre amigos, durante o tempo livre e mesmo quando estão sozinhos. Isso porque vivem de acordo com a ética da virtude, que unifica a personalidade e as atividades diárias, tanto públicas quanto privadas.

O senhor realiza oficinas e conferências em todo o mundo, para líderes dos setores público e privado, sobre ética baseada na virtude. Como eles respondem a esse modelo de liderança?

Eles gostam muito dele, pois entendem que magnanimidade e humildade, as virtudes específicas dos líderes, são duas palavras ricas em significado, dotadas de um poder emocional e existencial extraordinário, palavras que vão direto ao coração porque incorporam um ideal de vida — o ideal de grandeza e serviço. Consciente ou inconscientemente, o coração de todos os seres humanos experimenta essa sede de viver e amar. A liderança é um ideal de vida que reconhece, assimila e propaga a verdade sobre o homem.

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