No período da República Velha, as autoridades civis empreenderam uma série de reformas cujo escopo era a geração de um país que nada mais tivesse a ver com a fé católica. Cortada a raiz da religião, com a separação entre Igreja e Estado, os republicanos secularizaram escolas e cemitérios, inventaram o casamento civil e promulgaram uma Constituição sem sequer citar o nome de Deus. Para eles, era tempo de erigir um Estado liberal, maçônico e positivista, a tão sonhada sociedade da ordem, do progresso e do amor, onde reinaria a “liberdade de consciência” contra o “obscurantismo medieval” que a Igreja encarnava.

Não demorou muito para que esse projeto desmoronasse. Da pena de Ruy Barbosa vieram os mais severos vitupérios contra o que havia se tornado a República na mão das oligarquias. Segundo o então senador, o contrapeso aos desmandos do Executivo estaria no Supremo Tribunal Federal, “essa instituição criada sobretudo para servir de dique, de barreira e de freio às maiorias parlamentares, para conter as expansões do espírito do partido”.

O episcopado brasileiro, por sua vez, tendeu a uma solução mais auspiciosa: a restauração católica. Liderados pela figura imponente do Cardeal Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, o clero e o laicato saíram a campo para impregnar de novo a sociedade brasileira com o espírito religioso sob o qual ela havia nascido. Com isso, a Igreja punha em prática a lição do Papa Pio XI na encíclica Quas Primas, mostrando que o “acúmulo de males” que invadira o país não tinha outra causa senão o afastamento do Estado e da maioria dos homens em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Certa esperança de verdadeira paz entre os povos”, com efeito, “nunca brilhará enquanto os indivíduos e as nações negarem e rejeitarem o império de nosso Salvador” (cf. Quas Primas, 1).

Em 1931, o Cardeal Sebastião Leme inaugurou a imagem do Cristo Redentor no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, como símbolo máximo dessa restauração católica de que o Brasil tinha necessidade. Das palavras notáveis proferidas pelo eminente prelado naquele 11 de outubro, ao término do Congresso para o Cristo Redentor, vale a pena recolhermos aqui algumas e meditarmos sobre elas.

Primeiro,

quando um país há no mundo em que chegam a arregimentar um verdadeiro exército para uma guerra de extermínio ao nome de Deus, deve à pessoa do Papa chegar consoladora a notícia de que, nas outras bandas do mar, existe um povo que faz questão de ser fiel a Cristo Rei, fiel à Santa Igreja, fiel ao Soberano Pontífice.

Dom Sebastião Leme fazia referência à União Soviética, cujos tentáculos comunistas já desgraçavam o leste do mundo tanto por suas ideias subversivas como pelos gulags. Também neste nosso lado do globo, o México padecia sob governos de cunho marxista e anticristão. Por essa razão, devia ser mesmo motivo de grande júbilo para a Igreja universal saber que um país das proporções do Brasil — em meio à ameaça socialista, e depois de toda a campanha secularista da República — preferia colocar-se do lado de Cristo Rei, para que Ele reinasse sobre suas instituições e todo o seu povo. De fato, em 1955, o senador Nereu Ramos faria a grande consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus, em nome de todo o Parlamento, e diante do Cristo Redentor.

Segundo, o Cardeal Leme advertiu em todo caso que, “se os homens persistirem na contumácia das competições políticas regionais e pessoais, tudo isto irá estraçalhando a unidade da pátria”. Providencialmente, o Brasil foi visitado nesta mesma década por Nossa Senhora, que trouxe a seguinte mensagem às duas videntes de Cimbres, Pernambuco: “Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração”. Dentre esses castigos estaria uma guerra civil, aos moldes da espanhola, que levaria o Brasil a um mar de sangue. Na Espanha, o país ficara dividido entre os sectários do general Franco e os revolucionários de Moscou. De modo semelhante, as guerras políticas colocariam os brasileiros nos braços do comunismo, a não ser que eles se devotassem ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.

Terceiro, jurando fidelidade ao Brasil e à integridade da Pátria, o Cardeal Leme exortou o povo lá reunido ao gesto piedoso e confiante:

Ó Pátria, ajoelha-te junto à cruz do Redentor, junto à cruz de onde nasceste grande e cresceste imensa. Brasil! Ó pátria, conserva-te de joelhos diante de Cristo Redentor porque assim poderás apresentar-te de pé diante das outras nações, adorando um só Cristo Redentor.

Inspirado no obelisco da Praça de São Pedro, no Vaticano, o cardeal mandou cravar aos pés do Cristo Redentor a seguinte frase: “Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat, et Brasiliam suam ab omni malo defendat!Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera, e contra todos os males defenda o seu Brasil!”. Com esta confiança, ele entendia que a nação brasileira jamais seria vencida “pelo estrangeiro invasor, nem retalhada pela guerra civil”.

Finalmente, Dom Leme encerrou o seu discurso com este augúrio: “Seremos o doce império em que não há lugar para tiranias. Nem a tirania de capitalismos vorazes. Nem a tirania da demagogia sangrenta. Nem a tirania dos potentados. Nem a tirania do povo”. Porque, afinal de contas, 

Cristo impera, e o seu império é o império da paz, do amor, da misericórdia e do perdão. Aqui na terra enluarada pela visão branca do Cristo não há vencedores nem vencidos. Somos todos irmãos, filhos da mesma pátria, membros da mesma família.

O Cristo Redentor foi inaugurado com uma Missa e bênção solenes no dia 12 de outubro de 1931. Aos 90 anos, a imagem encontra-se agora sob a ameaça de um projeto de lei, que pede a desapropriação do seu terreno com o intuito de que o Estado resguarde “a área para que os atos litúrgicos de todas as religiões sejam mantidos”. Tal notícia apenas compõe o mosaico de desvios e rixas no qual o Brasil é retratado, especialmente pela infidelidade ao Reinado Social de Jesus Cristo. Mitigado o dogma da fé, não há verdadeira sorte para o destino de uma nação que aposta as suas fichas mais em instituições irresponsáveis que na promessa de salvação de Nosso Senhor.

Na encíclica Quas Primas, Pio XI afirma sobre a harmonia e a paz dos povos que “é evidente que quanto maior o reino [de Cristo] e mais amplamente ele abraça o gênero humano, mais o vínculo de fraternidade que os une se enraíza na consciência dos homens”. O Cristo Redentor de braços abertos faz alusão a essa fraternidade, que só pode ser radicada nele e em nenhum outro princípio. Em 26 de outubro de 1922, quando ainda se iniciava a construção desse monumento, o sempre memorável Dom Aquino Corrêa fazia o seguinte voto: “que o século nascente, irradiando novas glórias por sobre a Pátria querida, possa ver, acima de todas elas, o Cristo Redentor a viver e reinar, mais do que nas alturas do Corcovado, na elevação moral da consciência católica de cada brasileiro” (Discursos, v. 2, t. 1. Brasília: Imprensa Nacional, 1985, p. 114). 

Preservar esse sinal tanto no alto do Corcovado como, principalmente, no coração dos brasileiros é a batalha mais urgente por ora... et haec omnia adicientur vobis, “e tudo o mais vos será dado em acréscimo”.