Mozart e Verdi o transformaram em música nos seus réquiens. Berlioz e Liszt usaram os tons sóbrios dele em suas próprias composições. Até mesmo compositores modernos de trilhas sonoras para cinema e televisão se inspiraram generosamente nesse tesouro — por exemplo, em “A Rainha Virgem” (1953), “A Missão” e “O Iluminado”. O Dies Irae distingue-se por ser a peça musical antiga citada com mais frequência.

Alguns lhe chamam “o mais sublime de todos os hinos não inspirados”. Outros o elogiam como uma obra-prima da poesia latina, única em sua excelência. Entre as joias da música, ele é o diamante. Sem dúvida, sua melodia cativante atrai a atenção. A monotonia do seu ritmo constante acalma o espírito e conduz a mente do ouvinte ao seu tema. Mas é o assunto desse grande hino que explica a sua popularidade.

Datado do século XIII, o Dies Irae apresenta à imaginação o Juízo Final no fim do mundo. Pessoas de todas as idades sempre tiveram uma curiosidade contínua sobre esse acontecimento. O fundador do movimento adventista americano previu que o fim do mundo ocorreria entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. Ele se enganou e previu uma nova data: 22 de outubro de 1844. Errou de novo. Mais recentemente, Harold Camping disse que o fim do mundo aconteceria em 1994. Após isso não se concretizar, ele foi ainda mais preciso e deu a data (21 de maio de 2011) e a hora (pôr do sol em Jerusalém, 18h). Errou novamente.

Desde as previsões dos romanos pagãos no século VII até as dos cristãos modernos, ninguém conseguiu determinar com precisão o momento do fim da terra. Como o próprio Jesus disse: “Não sabeis nem o dia nem a hora” (Mt 25, 13). No entanto, todas as falsas profecias do passado não foram capazes de extinguir a curiosidade sobre o fim dos tempos. Até mesmo as Sagradas Escrituras aguçam o nosso interesse por esse evento.

Detalhe do tríptico “O Juízo Final”, de Hans Memling.
Detalhe do tríptico “O Juízo Final”, de Hans Memling.

​​O profeta Sofonias, do Antigo Testamento (século VII a. C.), retrata o último dia como o momento em que Deus varrerá “tudo da face da terra” (Sf 1, 2). Ele o descreve assim: “Esse dia será um dia de ira, dia de angústia e de aflição, dia de ruína e de devastação; dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de névoas espessas, dia de trombeta e de alarme, contra as cidades fortes e as torres elevadas” (vv. 15-16).

É desses versículos do Antigo Testamento que o Dies Irae (“dia da ira”) toma seu título e tema. Quando Deus vier como Juiz para separar os bons dos maus, haverá medo e pavor. Até a própria natureza tremerá e se abalará. O Dies Irae, de forma melancólica, triste e assustadora, traz essa mensagem logo no início:

Dia de ira, aquele dia
dissolverá em cinzas o mundo,
como atesta Davi e a Sibila.

Quanto não será o tremor
quando o Juiz vier
examinar tudo estritamente!

Depois das revisões feitas na liturgia no período pós-Concílio Vaticano II, o Dies Irae praticamente desapareceu do culto católico. Alguns achavam que o hino “cheirava a uma espiritualidade negativa herdada da Idade Média… que enfatizava demais o julgamento, o medo e o desespero… Substituíram-no por textos que exortavam à esperança cristã…” [i]. Hoje, a beleza vigorosa do Dies Irae está discretamente guardada no apêndice da Liturgia das Horas para uso opcional durante a última semana do Tempo Comum. Ele pode ser enterrado, mas não silenciado. Os temas do Dies Irae continuam tocando o coração humano.

O hino descreve o último dia como o tempo determinado em que:

Morte e natureza se espantarão
quando ressurgir a criatura
para responder ao que julga.

Será trazido um livro escrito
no qual tudo está contido,
a partir do qual o mundo será julgado.

Todos os nossos pecados, grandes e pequenos, virão à tona nesse dia. Não é de admirar que as imagens e a melodia assombrosa do hino evoquem medo e temor. Sabemos que somos pecadores e que merecemos ser castigados pelos nossos pecados. Daí o medo e o temor. A piedade moderna já não dá muita importância para essas emoções, embora elas ainda façam parte da condição humana.

Quando os nossos corpos são acometidos pela dor, sabemos que algo não está bem. Submetemo-nos ao exame e ao julgamento dos nossos médicos para descobrir alguma doença, a fim de que possam tratá-la. Mesmo enquanto aguardamos os resultados dos exames médicos ou lidamos com doenças potencialmente fatais, a nossa fé não elimina o medo e o tremor. Queremos ficar bem. Queremos viver. Tememos ser menos do que somos.

O medo é informação. Quando reconhecido e compreendido pelo que é, ele nos ajuda a enfrentar situações difíceis. O presidente Franklin Roosevelt observou com perspicácia: “A única coisa que devemos temer é o próprio medo”. Ele estava certo. Quando eliminamos o medo do repertório das nossas emoções, abrimos mão de uma arma útil na batalha da vida. O Dies Irae usa a realidade do temor de modo saudável. Com a sua tonalidade sombria e letra aterradora, ele nos leva a enfrentar o nosso próprio medo da morte e do julgamento e, portanto, a reagir de forma apropriada no presente.

Detalhe do “Juízo Final” de Michelangelo.
Detalhe do “Juízo Final” de Michelangelo.

No último dia, quando Deus vier para destruir todos os seus inimigos e estabelecer o seu reinado sobre todas as coisas, nós, pecadores, não escaparemos ao seu julgamento. Longe de nos paralisar, essa ideia perturbadora nos ajuda a entender que, embora este mundo temporal seja passageiro, o que fazemos nele tem consequências eternas. Todas as nossas escolhas livres fazem parte da batalha para estabelecer o reinado de Deus neste mundo. O fim será uma revelação do que já acontece. Mas, antes do fim, temos tempo para fazer o bem e evitar o mal.

Além disso, o Dies Irae nos faz encarar a verdade a respeito de nós mesmos e de Deus. Nem sempre nos colocamos do lado de Deus. Orgulho. Raiva. Autossuficiência. Ganância. Luxúria. Egoísmo. Esses e outros vícios lançam a sua sombra sobre as escolhas que tantas vezes fazemos. Somos pecadores. Porém, não fomos abandonados. Jesus, que virá no fim dos tempos como Juiz dos vivos e dos mortos, já esteve entre nós. Por sua Cruz e Ressurreição, Ele é exaltado como nosso Salvador e Redentor. O hino nos lembra dessa verdade consoladora:

Rei de tremenda majestade,
que salvais de graça os que hão de salvar-se:
salvai-me, fonte de piedade!

Recordai-vos, Jesus piedoso,
que fui a causa de vossa via:
não me destruais naquele dia.

A mim procurando, cansado vos sentastes;
a mim redimindo, a cruz suportastes;
não seja em vão tanto trabalho.

Portanto, mesmo quando ouvimos o Dies Irae e reconhecemos os nossos pecados como dignos de castigo, lembramo-nos de que não ficaremos sem uma prece quando estivermos diante do Juiz. Jesus, que estendeu os seus braços misericordiosos na Cruz, já está conquistando para nós, aqui e agora, a vitória sobre o pecado e a morte.

No início do ano litúrgico da Igreja, voltamos os nossos olhos para o ponto culminante de todos os tempos, o momento em que “chegará o fim, quando [Cristo]... tiver colocado todos os seus inimigos debaixo dos seus pés... para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15, 24-28). Por isso a Igreja fez bem em colocar o Dies Irae na Liturgia das Horas, logo no início do Advento. Não é só no Advento, porém, mas todos os dias, que nos preparamos para esse dia final. Procurando a nossa “salvação com temor e tremor” (Fl 2, 12), podemos, confiantemente, fazer do apelo reconfortante do Dies Irae a nossa oração:

Ó justo juiz do castigo,
dai-me o dom da remissão
antes do dia da retribuição.

O Dies Irae é, verdadeiramente, uma oração de esperança e misericórdia, mesmo em nossos dias!

Referências

  1. Annibale Bugnini, The Reform of the Liturgy: 1948-1975. Trans. Matthew J. O’Connell. Minnesota: The Liturgical Press, 1990, p. 773.