Recentemente, alguns estudos muito bons foram publicados sobre a vida interior das crianças [i]. Gostaríamos de sublinhar aqui alguns aspectos relacionados às virtudes heroicas nelas, tomando como exemplo a vida de Anne de Guigné [ii].

De acordo com Bento XIV (De Servorum Dei beatificatione III 21ss), as virtudes heroicas, para serem comprovadas, exigem quatro condições: 

  1. a matéria, objeto da virtude, deve ser árdua ou difícil, acima das forças comuns dos homens;
  2. os atos devem ser realizados com prontidão e facilidade; 
  3. também devem ser realizados com certa alegria, que é a de oferecer um sacrifício ao Senhor;
  4. bem como com alguma frequência, quando surge a ocasião.

A primeira dessas condições mostra que o heroísmo nas crianças é relativo à sua idade, às suas forças, às condições que comumente possuem. Se alguns adultos são muito pequenos [espiritualmente], há crianças que, por suas virtudes, já são bem grandes. A Escritura diz: Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem: “Da boca das crianças e meninos de peito fizeste sair louvor” (Sl 8, 3). Foi isso que Jesus recordou aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas indignados ao ver crianças gritando no templo: “Hosana ao filho de Davi” (Mt 21, 16); e se, por vezes, a fé dos pequenos serve de exemplo para os grandes, o mesmo deve ser dito de sua confiança e amor.

“Crianças em Oração”, por Antoine Moulinet.

Pensemos aqui o que pode e deve ser, de acordo com o pensamento e a vontade de Deus, o heroísmo de cada um nas várias idades da vida e nas mais diferentes condições. Deve-se tomar cuidado não apenas com o que se ensina, mas com o que se deve ensinar para alcançar a perfeição cristã. Devemos também nos lembrar que o sacramento da Confirmação já faz da criança um soldado de Cristo. Também não devemos nos esquecer de como as crianças entendem o heroísmo: na maioria das vezes, quando são heroicas, não sabem que são. A criança, quando é heroica, é simples, sem exibição; sua simplicidade lembra a de Jesus na Sagrada Família de Nazaré.

Convém também assinalar que, na inocência da criança batizada, o Espírito Santo não tem muito o que purificar antes de comunicar a sua luz de vida e sua força atrativa. De fato, existem certas consequências marcantes do pecado original, que são como feridas que curam após o Batismo. Mas elas não foram agravadas pelos pecados pessoais reiterados. A criança em estado de graça, desde que não peque pessoalmente, está em contato direto com a Santíssima Trindade que nela habita; sua alma é como um diamante, que ainda precisa ser lapidado, mas que praticamente não tem escórias. Das dolorosas purificações, necessárias aos católicos pecadores na medida dos seus pecados, o Espírito Santo dispensa a criança que é fiel à graça no cumprimento dos deveres da sua idade. Então nós a vemos se elevar… ela se deixa levar, não mais por sua mãe, mas pela graça do Todo-Poderoso. Certamente, ainda é preciso deixar-se levar ou conduzir. A criança, menos cheia de coisas para sacrificar, mais livre, mais pura em suas intenções, com frequência sofre menos que o homem.

A comunhão precoce por vezes leva a frutos de heroísmo nas almas desses pequeninos. A Crisma traz uma nova floração de graças; por vezes se constata um belo desabrochar dos sete dons na alma infantil, na medida em que a criança ainda não raciocina de modo metódico e complicado, e segue diretamente para a verdade, como que por intuição.

“O Infante Samuel”, por Joshua Reynolds.

Nas melhores delas, nota-se uma relativa elevação das virtudes teologais. Como a criança, consciente de sua ignorância e de sua fraqueza, é naturalmente inclinada a acreditar no que o seu pai e a sua mãe lhe dizem, a confiar neles e a amá-los, não apenas pelos benefícios recebidos, mas em si mesmos; do mesmo modo, ela é movida pela graça do Batismo a crer na palavra de Deus, que lhe é transmitida pela sua mãe e, em seguida, pelo sacerdote que a instrui, ela é igualmente inclinada a confiar em Deus e a amá-lo por si mesmo. Ela vive à sua maneira das três virtudes teologais, antes de refletir sobre a necessidade das virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Nas orações da manhã e da noite, são atos de fé, esperança e caridade que pedimos delas. Se ela é fiel, a cada dia fará esses atos um pouco melhor.

Mais tarde, quando os sentidos despertarem, quando tiverem de entrar em contato com os homens, compreenderão a necessidade das virtudes morais que disciplinam as paixões e que regulam nossos relacionamentos com os outros de maneira justa e equitativa. Então, impressionadas com a importância dessas últimas virtudes de ordem humana, talvez dêem menos atenção às virtudes muito mais elevadas que unem nossas almas a Deus. Ao perderem sua ingenuidade infantil, poderão perder também algo de sua intimidade com o Senhor; não atentarão o suficiente, talvez, para o fato de que, quanto mais avançamos, se é preciso agir menos como criança diante dos homens, é preciso agir mais como criança diante de Deus, pelo progresso na vida de graça, pela consciência de nossa dependência do Pai celestial, pela intimidade cada vez maior a que Ele se digna nos chamar; finalmente, temos de entrar, por assim dizer, no seio de Deus: os eleitos no Céu estão em in sinu Dei, um pouco como o seu Unigênito que está in sinu Patris (Jo 1, 18).

A simplicidade das crianças as ajuda a entrar nas alturas de Deus pela fé, pela esperança e pela caridade.

A fé

As crianças acreditam de bom grado nas coisas do Céu, sem deixar de querer ver e entender o máximo que podem. Não demoram a compreender que esses grandes mistérios não podem ser vistos aqui embaixo, que é preciso crer; e, de todo o coração, elas querem fazê-lo. Se forem dóceis, irão crer de modo cada vez mais firme.

Essa perseverança na fé é uma maravilha em algumas crianças. Somente a graça divina pode levá-las a crer firmemente em mistérios tão elevados, invisíveis e incompreensíveis, e dedicar-lhes não uma atenção passageira, e sim uma atenção contínua e cada vez mais penetrante.

Vemos como isso foi o ponto de partida da vida interior de Anne de Guigné. Era essa a verdade fundamental que ela anotava cuidadosamente em seu caderno: “Precisamos salvar nossa alma, ela voltará a Deus, seu Criador. Nosso corpo vem da terra, mas nossa alma vem de Deus”. Eis uma verdade elementar para todo católico, mas à qual ela sempre retorna quando fala com Nosso Senhor. Ela escreveu no início de um retiro em abril de 1921: 

Quanto mais falar com Ele, mais Ele me responderá. Jesus falará comigo por meio do padre, por meio dos conselhos que o padre me dará. Onde Jesus mais falará comigo, sobretudo, é no fundo de minha alma por meio de sua graça. O bom Senhor me dirá: quero você mais obediente, não quero que seja vaidosa. Se você já é assim na sua idade, o que será depois?

Ela observa em outro lugar: “Devemos ter um grande respeito pela presença de Deus. Precisamos respeitar a Deus e a nossos pais... amá-los de todo coração, prestar o máximo de serviços possível, obedecê-los e fazer o que quiserem”. Ela acolhe com entusiasmo a ideia de ir ao catecismo para aprender as verdades da religião.

A bebê Anne nos braços de seu pai, em 1911.

A dificuldade da fé não vem apenas da sua obscuridade, mas também do seu caráter prático, quando, por exemplo, ela nos pede assentimento para algum sacrifício, como a aceitação da doença ou de sofrimentos que se prolongam. Bem rápido, a criança dirá: “Chega!” Crer que o bom Deus deseje o seu sofrimento como uma ocasião de luta e para promover um amor mais generoso lhe é difícil. É preciso uma vontade corajosa e, sobretudo, a luz e a força divina para dominar-se.

A primeira grande dor para Anne de Guigné foi a morte de seu pai. O modo sobrenatural com que aceitou essa morte, como demonstra seu biógrafo, representou para sua alma o ingresso numa vida nova: pela fé, ela começou a viver do pensamento do outro mundo e a enxergar a vida presente desde uma perspectiva superior. Desde então essa criança, armada de uma vontade enorme, cede, luta a cada dia e, em alguns meses, é como que invadida pelo Espírito de luz, “o doce hóspede da alma”. Anne se torna cada vez mais submissa; ela que era inclinada ao ciúme, busca a partir de então só pensar nos outros e não recusa mais nada ao bom Deus. Ao adoecer, declara: “Meu bom Jesus, tudo o que quiserdes!” Isso é mais do que uma simples resignação, pois inspira-se numa grande fé.

Anne, que ama muito a Santíssima Virgem sob o título de Nossa Senhora das Dores, escreve: “De pé diante da cruz, sobre a qual seu Filho estava pregado, Maria chorava… Dai-me a graça de chorar convosco…” — Por que chorar? — “Porque Jesus não é amado o bastante”.

Onde encontrar uma criança que deseje a graça de chorar? A luz divina da fé viva, esclarecida pelos dons do Espírito Santo, traçava o caminho por onde avançava sua alma.

A esperança

Jacques, Magdeleine, Anne e Marie-Antoinette sobre os joelhos da senhora de Guigné (3 de maio de 1915).

A esperança não é menos viva que a fé numa criança profundamente católica. Assim como confia naturalmente em seus pais, pelos quais se sente amada, a graça a leva a contar com o amor de Deus, a esperar o socorro da sua bondade e do seu poder. Sob a luz divina, percebe limpidamente, mas nem sempre sem pena, as manifestações da bondade infinita. Ela crê que a Providência dirige tudo, que nada acontece sem que “Deus o tenha desejado ou permitido”. Ela espera o socorro divino, conta com ele. Quando mais tarde lhe ensinarem que “o motivo formal da esperança é Deus, em quem sempre devemos contar”, compreenderá imediatamente, pois sua experiência há muito lhe terá instruído acerca do socorro divino.

Ao chegar a hora de fazer certos sacrifícios penosos, de renová-los com frequência, se a criança os fizer com perseverança, serenidade e alegria, como vemos na vida de Anne de Guigné, poderá alcançar o heroísmo, que se manifesta precisamente nisto de que a criança guarda não apenas intacta, mas muito viva, a sua confiança amorosa nesse Deus tão bom que lhe pede tantos sacrifícios.

No depoimento da Madre Saint Raymond sobre a vida e as virtudes de Anne de Guigné [iii], lemos:

Foi seu espírito de fé que lhe deu essa grande confiança em Deus que tanto admiramos nela: estava sinceramente persuadida de que Deus conduz tudo, que estamos todos em suas mãos, que nada nos acontece sem que seja desejado por Ele, que tudo é, por conseguinte, bom. Daí a sua paz, a sua serenidade, essa alegria inalterável em todas as contradições. Pois Anne não teve a vida fácil que se pode imaginar. Ela sentia dores de cabeça frequentemente, precisava interromper os estudos; ela vivia um tempo aqui, outro tempo acolá; tinha de deixar seus amigos, separar-se; tudo isso devia lhe custar muito, mas ela via a mão da Providência nas menores coisas e, assim, tudo estava bem.

É por isso que amava tanto as Escrituras: nelas, via à descoberto a Providência de Deus. A história de Abraão, sobretudo, a impressionava. O anjo vindo impedir a imolação de Isaac, a fé de Abraão triunfante, tudo isso fazia seu coração bater mais forte… Ela compreendeu muito bem que Deus é tudo! Ir até Ele continuamente, eis a sua vida: ela marchava para Ele em todas as suas ações.

As provações jamais alteraram a confiança de Anne de Guigné. Quando, em dezembro de 1921, foi acometida de graves dores de cabeça e nas costas, o seu rosto estava lívido, os músculos respiratórios paralisados. Ela não se queixava, mas gemia docemente: “Meu bom Jesus, não aguento mais”. Em seguida, um sorriso revelava o socorro divino: “Estou feliz”, dizia a pequena doente, feliz por oferecer tudo pelos pecadores. “Sim, ainda quero sofrer muito!” Ela já vivia alhures, os olhos fixados na pátria celeste, no termo da viagem. Ao invés de ficar abatida com a dor, ela não apenas demonstrava uma confiança vivíssima, mas comunicava aos demais a sua esperança — e a pedia pelos pecadores.

A caridade

O amor de Deus em alguns predestinados aparece não apenas sob a forma da caridade afetiva que repousa na bondade de Deus, amado por si mesmo, mas ainda sob a forma da caridade efetiva, que se prova pelo sacrifício e por um grande amor ao próximo.

Isso é muito marcante em Anne de Guigné; assim, falar de seu amor a Deus é falar, ao mesmo tempo, do seu desprendimento, da sua humildade, da sua mortificação e obediência.

A menina possuía a generosidade de uma noviça carmelita. Bastava-lhe compreender o que era mais perfeito para tentar fazer; foi preciso até mesmo moderar o seu desejo de mortificação quando se tornou muito pronunciado.

Anne com dois anos e meio, em 1913.

É o amor de Deus que a movia à prática das virtudes: “É preciso obedecer sempre”, era um dos pontos do seu programa. E ainda que por vezes fosse bem difícil, cumpria esse ponto admiravelmente. Fortificada pela graça da primeira comunhão, ela se dava inteiramente aos pequenos deveres familiares e escolares, pequenos em si mesmos, mas grandes para ela e para Deus, pela intenção que a movia a cumpri-los. Aplicava-se a servir aos seus pronta e alegremente. Chegando aos nove anos de idade, escreveu: “Para mim se faz necessária uma luta quotidiana”. Diante dos pequenos ou dos grandes esforços, dizia: “Bom Jesus, eu os ofereço a Vós”. É a sua maneira de caminhar para Deus, de adquirir coragem e perseverança. Não se sabe bem o quanto a mansidão custava à sua natureza irascível: “Oh, como é exasperante… quanta vontade de brigar!” Mas logo a graça triunfava, e a bondade dava a palavra final.

Ela compreendeu que oferecer tudo ao Senhor é um grande socorro para nós: “Nada é difícil quando nós o amamos”. Ela despertava rapidamente todos os dias, ainda que o sono a abatesse. Renunciava aos seus gostos, privava-se de sobremesa, comia os pratos de que gostava menos; uma vez, raspou o corpo em ortigas para agradecer ao Senhor por ter atendido um dos seus desejos. Outro dia, tendo deslocado um músculo do joelho, levantou-se sem dar um pio, os olhos cheios de lágrimas, inquieta por ter preocupado os seus: “Mamãe querida, não fique assim, não é nada; fico muito triste por ter te assustado”. Quem viveu perto dela pôde dizer: “Nunca a vimos recusar um sacrifício”.

A religiosa que dirigia o catecismo em Cannes nunca percebeu na pequenina — salvo uma pequena vez, quando tinha cerca de quatro anos — a menor inclinação à vaidade, e isso ao longo de cinco anos. Aí está um sinal de grande amor a Deus.

Ainda que fosse inclinada a censurar e mandar, Anne se apagava, fazia-se pequena, e se contentava em ser esquecida; folgava quando lhe davam o pior e buscava sempre reservar pequenas ajudas aos necessitados.

Se a graça que a atraía era bem poderosa, o ardor com que Anne lhe correspondia era dos mais generosos. Uma derrota a deixava humilde e confiante: “Foi porque não rezei bastante…”

Mal tinha quatro anos de idade, quando lhe aplicaram cataplasmas de mostarda bastante dolorosos: “Arde muito… mas, ah, meu Jesus, eu vo-lo ofereço”. Os familiares se compadeciam:  “Sofres muito, Aninha?” — “Ah, não! Ainda estou aprendendo a sofrer”. E acrescentava: “Sempre podemos sofrer alguma coisa por Nosso Senhor, porque Ele sofreu por nós”.

Com profunda convicção, aos nove anos, declarou: “Uma vida longa é uma grande graça, porque nos permite sofrer muito por Jesus”. Vê-se aí manifestadamente uma altíssima inspiração do Espírito Santo, inspiração concedida por sua perseverante docilidade.

Anne com cerca de seis anos em companhia de Magdeleine e Jacques.

A sua contínua alegria e perseverança — gestos apagados, ignorados, que ela chamava de “modos pequeninos” —, sua contínua caridade e a sua união a Jesus no meio das suas ocupações, dos seus jogos, não é menos bela do que a sua maneira tão natural de ser… tão sobrenatural aos dez anos.

Quanta renúncia uma fidelidade tão grande exige! “Nós a vemos subir do mesmo modo que observamos no céu o voo de uma aguiazinha”, disse-nos uma alma contemplativa que nos ajudou a conhecê-la melhor.

Sem dúvida, a sua educação, o meio em que nasceu, favoreceram o desenvolvimento dessa bela vida interior — o catecismo também ajuda a alma a se refinar, se adaptar, tornar-se delicada, reservada e afável —, mas mesmo num berço privilegiado, a prática contínua dessas virtudes requer uma grande generosidade, sinal certo do amor a Deus que não cessa de crescer.

Esta criança tinha o zelo muito evidente da glória de Deus, estava “pronta para suportar tudo por sua fé”. O pecado feria o seu coração: “Ó meu Deus, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem…” Percebia surgir nela a vocação do Carmelo “pela glória de Deus”.

Ela velava, sobretudo nos primeiros sábados de cada mês, para evitar as menores faltas, para ser agradável à Santíssima Virgem e lhe oferecer nesse dia “mil sacrificiozinhos em reparação dos pecados cometidos contra a sua honra”. Oração, Rosário, Ave maris stella, rejubilavam o seu coração e o uniam a Jesus por sua Mãe Imaculada.

Entre as crianças cuja vida já foi escrita, bem poucas, aparentemente, receberam tantas graças de recolhimento, de união com Jesus, como a pequena Anne. Ela também sabia fazer penitência pelos pecadores, desejando fortemente “conversões extraordinárias… para que todos reconheçam a glória de Deus”. Ela adorava “quando lhe confiavam uma alma a ser convertida”.

Nesta menina bem equilibrada, percebemos uma caridade radiante e universal, a paz, a doçura e também a gravidade, que não impedia as brincadeiras nas horas de recreação; não encontramos nela nada de irrefletido.

Impressiona profundamente esse grande sinal do amor de Deus e do próximo que é o esquecimento de si mesmo. Desde os primeiros dias da sua doença, inquietava-se mais com a fadiga dos seus do que com o seu próprio mal, e a Nosso Senhor rezava: “Curai outros doentes”. É o ensinamento de Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35).

Anne e a Comunhão

A vida eucarística de Anne de Guigné merece menção especial; é um outro sinal do seu grande amor a Deus [iv].

Ela ainda não sabia ler, e já seguia a Missa num pequeno missal com imagens, sem perder um só gesto do padre (Vie, p. 67).

Anne nos braços de sua mãe (outono de 1911).

Uns dois anos antes da sua primeira comunhão, já falava a toda hora desse dia e pedia à sua mãe que lhe falasse a respeito (Vie, p. 22). Ela queria a todo custo preparar “uma bela morada no seu coração ao seu querido Menino Jesus”, e para isso não recusava nenhum sacrifício.

No dia da sua primeira comunhão, a alegria era grandíssima; eufórica, corria de uma a outra das suas amigas. A Madre Saint Raymond escreveu no seu depoimento que, depois desse dia, se fosse privada da Comunhão por alguma falta, choraria com todas as forças do seu corpo (Vie, p. 195).

Também ficou felicíssima com a primeira comunhão das suas irmãs: ela lhes transmitia o seu entusiasmo, vivendo com elas numa perfeita harmonia (Vie, p. 196).

Antes de se aproximar da santa mesa da Comunhão, demonstrava grande delicadeza de consciência; um dia, perguntou à mãe: “Será que andei muito dispersa?” Por vezes, censurava a si mesma pela negligência na oração (Vie, p. 43).

Desde a véspera ela pensava na Eucaristia; por vezes tomava seu pequeno livro, lia-o antes da comunhão e se preparava com fervor para a grande ação do dia seguinte; ela comunicava sua alegria a sua preceptora (Vie, p. 68).

Dizia ao irmãozinho: “Ah, como você ficará feliz quando o Menino Jesus estiver no seu coração!” Mais tarde, enquanto brincava com ele, interrompeu de repente e propôs com gravidade e docilidade: “E se nós fizéssemos uma curta oração para nos prepararmos para a comunhão de amanhã?” Em outro dia, nós a vemos ajoelhada sobre o degrau de uma escada. Interrogada sobre o que fazia, respondeu: “Eu agradecia ao bom Jesus”, disse ela, “por querer vir ao meu coração” (Vie, p. 70). Seu biógrafo escreveu:

Nas suas visitas ao Santíssimo Sacramento, encontrava no tabernáculo o seu Deus vivo e, quando a hóstia pairava sobre o altar, seu olhar se fixava sobre o ostensório com profundidade e intensidade tão impressionantes, com uma chama tão luminosa, que sua fé parecia tocar na visão.

“Para que a vida de Jesus cresça em mim”, escreveu Anne, “é preciso que minha alma se alimente muito frequentemente”. “Eu quero comungar sempre que possível”, também escreveu. “A vida da graça é muito preciosa, e seu alimento, que é Jesus Cristo, é tão bonito que é preciso desejá-lo de todo coração” (Vie, p. 71).

Ela confiou a uma das suas tias, que era religiosa: “Essa manhã, chorei porque mamãe não me deixou comungar”; em seguida, acrescentou: “Mas agora já estou bem porque me ensinaram a fazer a comunhão espiritual”.

Uma manhã, passou pela sua casa, à caminho da Missa, uma amiga da sua mãe; a menina lhe perguntou: “A senhora poderia me levar?” e, depois de obter a permissão da mãe, voltou tão contente que logo lhe perguntaram: “Desejas muito ir à Missa?” — “Ah, sim!”, respondeu ela, “amo muito ir à Missa… e depois, veja, é uma comunhão a mais” (Vie, p. 67).

Durante o santo sacrifício, após ler o Evangelho do dia, cerrava os olhos e, com a cabeça levemente inclinada, com as mãos juntas, deixava-se absorver inteiramente por um movimento profundo da alma, unindo seu coração ao Coração Eucarístico de Jesus. O ardor de sua alma deixava-se trair pelos menores gestos, e quando retornava da santa mesa, estava “inteiramente perdida em Deus”, a ponto de ser preciso, por vezes, guiá-la até que reencontrasse o seu lugar (Vie, p. 68).

Um dia, perguntou à mãe:

— Mamãe, posso rezar sem o livro durante a Missa?

— Por que, minha filha?

— Eu já sei de cor todas orações do missal e muitas vezes me distraio ao ler. Mas, quando falo com o bom Jesus, nunca me distraio; é como quando a gente conversa com alguém, mamãe, a gente sempre sabe o que diz.

— E o que você fala ao bom Jesus?

— Que o amo. Em seguida, peço por você e pelos demais, para que Jesus os torne bons. Eu lhe falo sobretudo dos pecadores.

E, ruborizando-se um pouco, acrescenta:

Depois eu digo a Ele que gostaria de vê-lo (Vie, p. 73).

Anne no outono de 1921, poucos meses antes de sua morte.

Diz-se que, durante a fase final da sua vida, sua piedade tinha “algo de celeste”. Após a comunhão, na festa de Todos os Santos, poucos meses antes da sua morte, ela parecia transfigurada. Na igreja ela era notada, e um fiel chegou a se levantar para “ver melhor aquele perfil que não tinha nada de humano” (Vie, p. 104).

No dia 28 de dezembro de 1921, o seu confessor lhe disse: “Quer que eu te traga Nosso Senhor?” — “Ah, sim!”, respondeu com uma voz na qual transparecia um desejo imenso (Vie, p. 111). Ela morreu alguns dias depois, após ter visto o seu anjo da guarda e voltando um olhar derradeiro a sua querida mãe. Uma única palavra saía de todo os corações: “É uma santa” (Vie, p. 119). 

Por seu amor à Eucaristia, Anne de Guigné nos faz pensar na Beata Imelda Lambertini, morta aos onze anos durante a ação de graças de sua primeira comunhão.

Ao ler a sua biografia, lembramo-nos do princípio: a prova da caridade, do amor de Deus, são as obras das diferentes virtudes que a caridade inspira. “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 16). Sem querer antecipar os julgamentos da Igreja, é possível pensar que encontramos nessa criança, também morta aos onze anos de idade, as quatro condições requeridas por Bento XIV para julgar da heroicidade das virtudes:

  1. a matéria difícil, acima das forças comuns às crianças dessa idade; 
  2. a prontidão no cumprimento dos atos virtuosos; 
  3. a alegria de oferecer sacrifícios ao Senhor; 
  4. a frequência desses atos, desde que a ocasião se apresente.

Isso nos faz pensar no que ensinou Santo Tomás: “Além da virtude comum, [há] uma virtude heroica ou divina, que faz certos homens serem chamados divinos” (STh I-II 68 1 ad 1) — devemos ver aí uma inspiração especial do Espírito Santo.

O relato dessas virtudes deve nos mover a agradecer ao Senhor que se compraz em cumular os pequenos e a restabelecer, assim, o equilíbrio na balança do bem e do mal; a colocar um contrapeso em tantas vilanias que a iniquidade acumula. Nós encontramos também aí um grande exemplo e, tendo chegado ao limiar da velhice, percebemos que ainda temos muito a aprender com os melhores dentre esses pequeninos.

Outros exemplos de heroicidade manifesta

Anne de Guigné não foi uma exceção. Outras crianças nos oferecem exemplos semelhantes. Veja, em um ambiente completamente diferente, a filha de um operário comunista. Annette [v] perde a sua mãe; ela tem quatorze anos e educa seus quatros irmãos e irmãs. A caridade católica a conquistou um dia e ela converteu seus irmãos. Morreu em seguida tentando impedir que seu pai cometesse um furto sacrílego numa igreja.

“Menina Rezando”, por Roberto Ferruzzi.

O pai estava desempregado; os camaradas o convidaram a roubar os vasos sagrados da igreja… para transformá-los em lingotes de ouro e alimentar os filhos. O honesto operário hesita, mas os outros o desafiam e o pai de Annette entra com eles no santuário. Ela os acompanha… e se joga sobre um deles que repele este agressor desconhecido com tanta violência que a criança desmorona no chão. O pai de Annette corre, reconhece a sua filha e a leva consigo. Ela morre sob as bênçãos do padre, como uma vítima pura e radiante de alegria. O pai, tocado, retorna à religião.

Não podemos falar desse tema sem lembrar a heroicidade da pequena Nellie, de quatro anos de idade, cuja vida foi escrita há poucos anos [vi]. Atormentada pela osteíte que corroía a sua mandíbula, para suportar as dores ela apertava o crucifixo contra o seu coração; enquanto lágrimas corriam, ela aceitava tudo, repetindo sem parar: “Vejam como o santo Deus sofreu por mim!

Podemos mencionar a vida de Lucila de Senilhes, morta aos quinze anos de idade, oferecendo a sua vida pela Igreja e pela pátria.

Antes de vir a pedir o sofrimento, essa menina escrevia:

Renunciar a si mesma; não falar assim: “Eu preferiria que…” — Para conservar a paz, é preciso obedecer a quatro regras importantes: Procurar fazer antes a vontade de outro do que a própria. Escolher sempre ter menos do que mais. Buscar em tudo o último lugar. Desejar sempre e suplicar que a vontade de Deus se cumpra perfeitamente em nós!

Um dia, ela escreveu depois da comunhão:

“Procurai a minha felicidade e procurarei a tua”. — Eis, meu Deus, o pensamento que me enviastes essa manhã, durante a comunhão. Como eu procurarei a vossa felicidade, ó divino Coração do meu Jesus? Eu o farei cumprindo fielmente meu dever quotidiano, oferecendo-vos todas as minhas ações, fazendo muitos pequenos sacrifícios por amor a Vós, rogando pelos pecadores, fazendo com que o Senhor seja amado, não resistindo jamais aos movimentos da vossa graça.

Seguindo esta via e sob a inspiração do Espírito Santo, ela chegou a pedir o sofrimento:

Minha natureza é tão fraca que se queixará — é o que temo, meu Deus, se Vós a fizerdes sofrer; mas então, Senhor, não escutai o que eu vos disser, e quando tiverdes começado, ó Jesus, não parai mais; eu me entrego a Vós; a única coisa que eu vos demando, é de me ajudar a suportar o sofrimento… Ó meu Deus! Eu vos consagro os meus quinze anos com todo o fervor da minha alma… Enviai-me o sofrimento… aumentai o número dos justos que salvarão a França.

Pouco depois, ela morreu de pneumonia, suportando heroicamente, sem um suspiro sequer, uma punção na coluna vertebral feita com agulhas bem curtas.

Qual o peso de uma alma de criança tão heroica nas mãos de Deus?

Em 1909 morria também heroicamente, na Itália, a pequena Guilhermina Tacchi Marconi, conhecida em Pisa por seu extraordinário amor pelos pobres [vii]. Nas ruas, ela os procurava para poder vir socorrê-los. À mesa, não conseguia comer se algo lhes faltasse.

Ela morreu aos onze anos, torturada ao longo de sete meses por uma endocardite; durante esses meses, não se viu um capricho sequer. Desde o primeiro dia, ela, que não tinha mais do que uma hora de sono tranquilo, contentava-se em repetir com muita confiança: Tutto per amore di Gesù! Após a sua primeira comunhão, feita antes de morrer, permaneceu longo tempo em êxtase, e morreu dizendo: “Vinde, Jesus! Vinde, Jesus”.

Um livro recente relata os atos heroicos realizados por criancinhas anamitas, japonesas, das quais algumas, já conhecidas, morreram como mártires [viii]. Para terminar, citaremos algumas.

Uma pequena anamita, Dân, que morreu martirizada aos treze anos, havia sido aprisionada com sua família, sofreu de sede e, apesar dos maus tratos, manteve-se sempre inflexível, dizendo: “Eu jamais negarei o meu Deus”. Como poderia ela, sem se queixar, suportar inúmeros golpes de rotim com que lhe fustigavam o corpo [ix]? Ela não cessava de rezar, adorando o Senhor, o Verbo encarnado, e depois gritou: “Que me acorrentem, que me metam na canga, que me submetam às demais torturas ou ao cruel suplício até a morte pela fé… já me decidi: estou decidida a sofrer tudo”. Submeteram-na ao vergaste, à roda, ao cavalete; queimaram-lhe as extremidades dos membros, arrancaram-lhe as unhas, derramaram-lhe chumbo nas orelhas. Mas ela manteve-se inquebrantável. Sobre as suas chagas vivas, continuavam a golpeá-la! Dân logo viu os insetos roerem seus machucados.

A criança não pôde mais se reerguer; no entanto, nenhuma queixa! E Dân deixou assim a terra rumo ao Céu.

“Crianças Cantando”, por Ferdinand Waldmüller.

No mesmo livro se lê o relato do martírio de três meninos japoneses canonizados por Pio IX em 1862. Eles queriam morrer como mártires, como os católicos. Maximiniano, com onze anos de idade, pediu com lágrimas no rosto que o mandassem para a morte. Um soldado lhe deu um golpe de espada na cabeça.

Antônio, de treze anos, antes de ser martirizado, soube responder ao governador que lhe exigia a apostasia: “Quão insensato eu seria de abandonar hoje os bens certos e eternos por bens incertos e passageiros!

Luís Ibragi, com doze anos, era tão pequeno que julgaram que seria fácil fazer dele um apóstata. Mas, ao contrário, durante a longa e dolorosa viagem que teve de fazer antes de morrer, era ele que apoiava o missionário, recebendo os golpes em seu lugar. Ele obteve do padre permissão para cantar sobre a cruz o Laudate, pueri, Dominum. Mas o missionário, sobre a cruz, entrou em êxtase, e o menino teve de cantar o salmo com os outros [x].

Nas mesmas páginas, lê-se sobre o pequeno Carlos, indiano, que, doente e sofrendo muito, dizia ao missionário que se compadecia dos seus sofrimentos: “Ah, padre, eu fico muito feliz quando me sinto mal, pois penso no Senhor que tanto sofreu por mim!” O mesmo livro, no prefácio escrito por E. Baumann, cita dois meninos que viveram frequentemente de modo heroico. O menor tinha sede de sofrer mais, para que a sua coroa fosse mais bela. Sua irmã conheceu, antes de morrer, a tortura de crer que não havia feito nada pelo bom Deus.

Lendo esse relato dos feitos realizados por essas crianças de dez a doze anos, e mesmo menores, ao se lembrar das palavras sublimes pronunciadas por muitas delas antes de morrer, percebemos que possuem uma sabedoria incomparavelmente superior, na sua simplicidade e na sua humildade, à complexidade normalmente pretensiosa da ciência humana. Encontramos aqui o dom de sabedoria em grau eminente, proporcional à caridade desses pequenos servidores de Deus, grandes pelo testemunho heroico que deram até a morte.

Notas

  1. Cf. em particular Pe. Bruno de Jésus-Marie, O.C.D., “L’enfant et la ‘voie d’Enfance’”, em: Etudes Carmélitaines, abril de 1934.
  2. Etienne-Marie Lajeunie, O.P., Anne de Guigné. Éditions du Cerf, Juvisy; “Un témoignage sur la vie et les vertus d’Anne de Guigné”, em: La Vie Spirituelle, maio de 1931, p. 177ss.
  3. Cf. La Vie Spirituelle, maio de 1931, p. 184. Todos os outros aspectos que citamos aqui foram mencionados na biografia escrita pelo Padre Lajeunie (N.A.). Para esta publicação, deslocamos para o corpo do texto todas as citações seguintes do artigo publicado em La Vie Spirituelle (Nota da Equipe CNP).
  4. Para dividir melhor o texto e facilitar a leitura, acrescentamos a este trecho o título “Anne e a Comunhão”, o qual não se encontra no artigo original (Nota da Equipe CNP).
  5. Jeanne Froehlich, Petite Annette. Apostolat de la Prière, Toulouse.
  6. Ir. Bernard des Ronces, Nellie. Maison du Bon Pasteur, Paris.
  7. Myriam de G., Guglielmina, 1898–1909. Lethielleux, Paris.
  8. Myriam de G., Mes Benjamins. Éditions du Foyer, Paris (N.A). Anamitas são os habitantes do antigo protetorado francês de Aname, hoje território do Vietnã (Nota da Equipe CNP).
  9. Rotim, ou ratã (rattan) vem do malaio rotan e designa uma fibra extraída da palmeira Calamus rotang para a fabricação de móveis, cestas e outros objetos (Nota da Equipe CNP).
  10. Trata-se do Salmo 112 (113), que começa em latim com as palavras Laudate, pueri, Dominum, “Louvai o Senhor, ó meninos”. No Ofício Divino antigo, este salmo constava sempre nas Vésperas dos domingos e festas; por isso, era muito comum e conhecido, e foi transformado em música por inúmeros compositores clássicos (Nota da Equipe CNP).