Numa fria manhã de domingo, em outubro de 2018, assisti à Missa com minha esposa na igreja de Santa Edwiges, em Holdingford. Jamais esquecerei o final da celebração, quando o padre Gregory Mastey, sem alarde nem aviso prévio, de repente começou a recitar a oração a São Miguel Arcanjo. O padre Gregory tem terminado dessa forma a Missa desde então, como era costume fazer em todas as Missas do mundo de 1884 a 1965. A sutil interrupção da prece ao final da Missa foi um dos muitos frutos questionáveis do Concílio Vaticano II. Sempre que o acompanhamos nesta oração ao Arcanjo que nos protege de um mundo pós-cristão quase em ruínas, sinto de verdade o olhar de São Miguel voltado para as nossas paróquias.

Não é difícil imaginar a reação de Lúcifer ao contemplar o olhar de São Miguel naquela triste manhã, quando proclamou o seu Non serviam, sendo expulso do céu junto com outros incontáveis anjos rebeldes. Mais de um demônio já admitiu em sessões de exorcismo que parte de sua surpresa ao ser castigado tinha um motivo bastante simples: antes da queda, Miguel era, de todos os anjos, o menor e mais discreto. Mas como é fina a ironia do nosso Pai!

É bem provável que Abraão tenha visto esse olhar manso no Antigo Testamento, quando São Miguel o levou em viagem pelo mundo antes de sua morte; mas Satanás, provavelmente, viu um semblante muito mais sério quando discutiu com ele sobre o que fariam com o corpo de Moisés. Essa é a única passagem da Bíblia em que ouvimos a voz de São Miguel: “Que o próprio Senhor te repreenda!” (Jd 9).

Voltemo-nos agora entristecidos para o horto do Getsêmani, segundo a narração do Evangelho de Lucas. Começa a Paixão de Nosso Senhor; enquanto Jesus pensa em seus amigos adormecidos, nas estrelas e no cheiro de sua oficina de carpinteiro, aparece um anjo num raio de luz para consolá-lo. Não sabemos o nome dele, mas creio que naquele instante viu Jesus a face de seu querido amigo São Miguel, que — imagino — o terá encorajado, enquanto ouviam aproximar-se Judas, à frente da turba naquela escaramuça noturna.

Podemos imaginar que, alguns anos mais tarde, o olhar de São Miguel foi uma das muitas coisas que viu São João quando esteve na ilha de Patmos escrevendo o livro do Apocalipse, nos terríveis dias do imperador Nero. O livro nos conta que uma grande guerra foi travada no céu: Satanás e seus sequazes contra-atacaram, mas foram completamente derrotados. Em seguida, Satanás “foi fazer guerra […] aos que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17). Essa é a última referência bíblica ao protetor da Igreja Católica; seu trabalho, porém, estava apenas começando.

São muitos os santuários dedicados a São Miguel. Em 493, ele apareceu a um bispo italiano, que lhe consagrou uma caverna, conhecida até hoje como Santuário do Monte Sant’Angelo. Mil anos depois, ele apareceu no mesmo local e disse a outro bispo: “Sou o Arcanjo São Miguel. Qualquer um que use as pedras desta caverna será libertado”. Essas pedras estão disponíveis a todos, e é reconfortante olhar para as minhas, que estão bem guardadas na minha estante de livros. 

Nossa Senhora de Fátima acenou para São Miguel em 1917, dando-lhe sinal verde para participar do evento sobrenatural mais extraordinário já visto desde a Ressurreição. No dia 13 de outubro, enquanto cem mil pessoas contemplavam fascinadas o milagre do Sol, São Miguel se encontrava entre as dramáticas imagens finais representadas aos pequenos Francisco, Jacinta e Lúcia. Embora não o mencionem, é possível que os pastorinhos tenham encontrado São Miguel no ano anterior, quando, numa pequena pradeira, receberam de um anjo com um cálice flutuante sua primeira comunhão e o Sangue de Cristo [1].

Exatamente trinta e três anos antes daquele dia fabuloso, o Papa Leão XIII experimentou uma locução em que ouviu a Satanás gabar-se perante Deus de que poderia destruir a Igreja, se tivesse tempo e poder suficientes. Essa é, obviamente, a história de Jó em grandes traços. Sabendo que sua misericórdia superaria o pior que pudesse fazer Satanás, Deus aceitou o desafio, dando-lhe um prazo de cem anos. Como muitos já sabem, antes de fazer qualquer coisa, o Papa Leão XIII foi às pressas ao escritório e, inspirado, pôs no papel a conhecida oração a São Miguel Arcanjo.

Acredito do fundo do coração que São Miguel olhava para aquele grande Papa, enquanto redigia a oração, e que este mesmo olhar está ao alcance de qualquer paróquia ou fiel que, a exemplo do meu pastor, trouxer de volta à vida essa devoção.