É comum que as pessoas pensem em exorcismo simplesmente como a expulsão dos demônios de um possesso por meio de orações antigas. Mas a verdade é que todos temos aflições, opressões, tentações e outros pensamentos e ímpetos negativos que são influenciados por demônios. Tais influências podem ser diretas e pessoais, mas há também fontes de erro e negatividade que vêm do mundo; e o próprio mundo está com frequência sob o domínio do “príncipe deste mundo” (Satanás), a disseminar seu ódio e suas mentiras.  

Entre as principais armas do Senhor para expulsar demônios, está a sua Palavra, que nos é dada nas Escrituras e nos ensinamentos sagrados da Igreja. No deserto, Jesus censurou cada uma das tentações recorrendo à Sagrada Escritura. Muitas vezes as imagens de São Miguel o apresentam segurando uma espada contra Satanás. Porém, não se trata de uma espada física de metal brilhante, mas da espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus (cf. Ef 6, 17). 

Um dos grandes propósitos da Palavra do Senhor é expulsar de nossas vidas os demônios associados à ignorância, ao desespero, à presunção, à pecaminosidade, ao mundanismo e todos os outros pensamentos ou impulsos tolos e prejudiciais. Na sagrada liturgia, a proclamação e pregação da Palavra de Deus não é mera transmissão de informação ou narrativa de histórias antigas. A Palavra de Deus não só informa, mas também realiza [performs] e, portanto, transforma. Assim os demônios e sua influência são repelidos e um baluarte da verdade é construído para nós. Quando assistimos à Santa Missa com fé e escutamos com atenção a Palavra de Deus proclamada, isso tem em nós um efeito exorcístico. Quanto mais isso não acontece, então, quando recebemos o Verbo feito carne na Sagrada Comunhão!        

Como prova disso, analisemos uma passagem da Missa de hoje (Terça-feira da 22.ª Semana do Tempo Comum). Ela descreve Jesus na sinagoga em Cafarnaum:

Jesus desceu para Cafarnaum, cidade da Galileia, e lá os ensinava, aos sábados. Eles ficaram maravilhados com seu ensinamento, pois sua palavra tinha autoridade. Na sinagoga, estava um homem que tinha o espírito de um demônio impuro, e ele gritou em alta voz: “Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para nos arruinar? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!” Jesus o repreendeu: “Cala-te, sai dele!” O demônio lançou o homem por terra, no meio do povo, e saiu dele, sem fazer-lhe mal algum. Todos ficaram espantados e comentavam: “Que palavra é essa? Ele dá ordens aos espíritos impuros, com autoridade e poder, e eles saem”. E sua fama se espalhava por todos os lugares da redondeza (Lc 4, 31-37).

Repare que a proclamação assertiva da palavra por Jesus, enquanto ensinava na sinagoga, provocou e intimou um demônio, que logo se apresentou. A autoridade das palavras de Jesus deixou-o tão perturbado, que ele foi forçado a se manifestar e admitir a verdade sobre Ele. Agora o demônio fica diante de Jesus e é expulso tão somente por sua palavra.

“Jesus cura um menino possuído pelo demônio”. Manuscrito egípcio.

Veja o cenário! Como foi dito acima, a pregação adequada e ortodoxa faz isso, pois possui a graça do Senhor e o poder de sua palavra. Ela faz com que se manifestem os demônios oportunistas, que exploram fraquezas humanas como a ignorância, o erro, o medo, traumas do passado, o desespero, a dúvida, a teimosia, o ódio e assim por diante. Embora estas sejam dificuldades humanas, os demônios muitas vezes se aproveitam delas para fazer “pilhagens”, tal como as bactérias, que se valem de cortes ou feridas em nossa pele para entrar em nosso organismo. A Palavra de Deus ajuda a nos curar e a enfraquecer esses “redutos” demoníacos.   

É claro que Jesus faz tudo isso em menos de um minuto! Mas os Evangelhos muitas vezes apresentam a cura e a libertação acontecendo num curto período de tempo. Para a maioria de nós, essa libertação, essa expulsão da negatividade e dos demônios associados a ela ocorre ao longo de muito tempo, podendo chegar a décadas.

O contato contínuo com a Palavra de Deus — por meio da participação na Missa, da leitura espiritual, do Ofício Divino e de outras práticas, como os [bons] grupos de estudo bíblico nas paróquias — faz efeito com o passar do tempo e expulsa muitos espíritos malignos que nos atacam e nos tentam com pensamentos pecaminosos e mundanos.

Portanto, a santa Palavra de Deus tem um caráter exorcístico. Sou testemunha disso. Já há quase quarenta anos, desde a minha entrada no seminário, tenho lido, estudado e usado a Palavra de Deus diariamente em minhas orações. Junto com a recepção dos sacramentos, isso me transformou profundamente. Pensamentos obscuros, desesperados e pecaminosos foram trazidos à luz e expulsos, juntamente com quaisquer demônios associados a eles. É um trabalho contínuo, mas o Senhor tem me acompanhado neste longo e grandioso caminho.