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O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?
Sociedade

O que o Canadá tem a nos ensinar
sobre o “casamento” homossexual?

O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?

O Canadá tem muito a ensinar sobre os impactos do “casamento” homossexual na sociedade. Nunca se viram tantas restrições aos direitos fundamentais dos pais e instituições religiosas, por exemplo, sem contar o enfraquecimento da cultura matrimonial.

Bradley MillerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2017Tempo de leitura: 13 minutos
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[Este texto é de 2012.]

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

Não se tem poupado esforços nas discussões a esse respeito. No entanto, a falta de experiência, até o momento, com o “casamento” homossexual no Brasil, não nos dá nenhuma resposta concreta. Por isso, é razoável levar em consideração a experiência canadense, já que o Canadá foi o primeiro país a reconhecer legalmente, em 2002, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Existem, é claro, sensíveis diferenças culturais e institucionais entre os dois países e, como sucede em todo e qualquer assunto público, tudo depende das ações dos protagonistas políticos e culturais de cada lugar. Isso significa, em outras palavras, que não é cem por cento seguro presumir que a experiência canadense se repetirá no Brasil. Em todo caso, ela deveria ser levada em conta. De fato, o que se tem passado no Canadá constitui a melhor evidência que temos à disposição sobre os impactos a curto prazo do “casamento” homossexual em uma sociedade democrática.

Qualquer pessoa interessada em avaliar o impacto do “casamento” homossexual na vida pública deveria investigar os seus efeitos a partir de três pontos de vista: 

  1. em primeiro lugar, no âmbito dos direitos humanos (incluídos aí os impactos sobre os direitos à liberdade de expressão, os direitos dos pais na educação pública e a autonomia das instituições religiosas); 
  2. em segundo lugar, da perspectiva aberta pelo “casamento” homossexual à possibilidade de se reconhecerem como matrimônios outros tipos de relacionamento como, por exemplo, a poligamia; 
  3. por fim, no âmbito da prática social do casamento.

Impacto sobre os direitos humanos

No Canadá, o resultado formal das decisões judiciais (e da legislação consequente) que institucionalizaram o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi o mero reconhecimento governamental do relacionamento de tais pessoas como um verdadeiro matrimônio; os seus efeitos culturais e legais, no entanto, foram muito mais amplos. O que ocorreu de fato foi a adoção de uma nova “ortodoxia”: as relações homossexuais equivalem agora, sem restrições, ao casamento tradicional e devem, portanto, ser tratadas em pé de igualdade com ele perante a lei e a sociedade.

Como consequência disso, quem quer que rejeite essa nova “ortodoxia” é considerado um intolerante, animosamente contrário a gays e lésbicas; qualquer expressão de desacordo com a ideia de “casamento” homossexual é qualificada automaticamente de “ódio” contra uma minoria sexual; despreza-se sem piscar como mero “pretexto” qualquer oposição razoável como, por exemplo, as que embasaram argumentos jurídicos segundo os quais o “casamento” homossexual é incompatível com uma concepção de matrimônio — chamada às vezes “concepção conjugal” — que responda à necessidade que têm as crianças de crescer dentro de uma união estável, fiel e permanente [1].

Quando se passa a ver na oposição ao “casamento” homossexual manifestações de intolerância e ódio, então se torna bastante difícil suportar por muito tempo as divergências. Foi assim que no Canadá se modificaram à pressa os termos de participação na vida pública. Foram os oficiais responsáveis pela celebração de uniões civis os primeiros a sentir a dureza da nova “ortodoxia”; muitas províncias recusaram-lhes o direito de objeção de consciência a presidir celebrações de casamentos homossexuais e obrigaram-nos a desligar-se de suas funções [2]. Ao mesmo tempo, entidades religiosas como os Cavaleiros de Colombo foram multadas por se recusarem a disponibilizar suas dependências para festas de casamento [3].

O direito à liberdade de expressão

Os efeitos da nova “ortodoxia”, porém, não se limitam ao número, relativamente pequeno, de pessoas em risco de ser obrigadas a auxiliar ou presidir a celebração de um casamento homossexual; a mudança, pelo contrário, tem atingido muitas pessoas, inclusive clérigos, que desejam tornar público o que pensam acerca da sexualidade humana.

Muito do que se podia opinar antes sobre o “casamento” homossexual, agora é arriscado dizê-lo; muitos dos que persistiram abertamente em discordar tornaram-se objeto de investigação de comissões de direitos humanos e, em alguns casos, foram até mesmos processados e levados a tribunais de direitos humanos. As pessoas carentes sem boa formação e afiliação institucional têm sido, de modo particular, alvos fáceis, já que as leis antidiscriminação nem sempre são aplicadas de maneira igualitária; algumas delas foram obrigadas a pagar multas, desculpar-se e nunca mais tocar no assunto em público outra vez [4]. Entre os alvos contam-se pessoas que apenas escreveram cartas aos editores de um jornal local [5], além de ministros de pequenas congregações cristãs [6]. Um bispo católico foi denunciado duas vezes — ambas as denúncias foram revogadas — devido a comentários feitos por ele numa circular sobre matrimônio [7].

Muitas cortes de revisão começaram a tomar as rédeas nas comissões e tribunais (sobretudo depois de alguns processos mal instruídos contra o jornalista Mark Steyn e a revista Maclean’s em 2009) [8], e vêm defendendo uma compreensão mais abrangente do direito à liberdade de expressão. Em resposta aos protestos públicos que se seguiram ao caso de Steyn e Maclean’s, o Parlamento do Canadá revogou recentemente uma disposição da Comissão Canadense de Direitos Humanos que previa instrumentos legais contra os “discursos de ódio”.

Como quer que seja, o custo despendido na luta contra a maquinaria dos direitos humanos continua gigantesco: só a revista Maclean’s gastou centenas de milhares de dólares com taxas judiciais, nenhuma das quais lhe será devolvida pelas comissões, tribunais e denunciantes a que foram entregues. E casos como este podem levar até dez anos para ser resolvidos. Um pessoa comum, com poucos recursos e que porventura tenha chamado a atenção de uma comissão de direitos humanos, não tem a quem recorrer, nem mesmo às cortes de apelação; a alguém nestas condições resta apenas aceitar as advertências da comissão, pagar uma (relativamente) pequena multa e obedecer à orientação de ficar em silêncio para sempre. Enquanto estes instrumentos estiverem à disposição das comissões, das quais a nova ortodoxia não permite discordar, discutir publicamente a respeito do “casamento” homossexual significa expor-se ao perigo de ser condenado judicialmente.

Uma pressão semelhante sobre quem discorda pode ser, e é efetivamente exercida, por profissionais à frente de organizações como associações de bares, corpos docentes etc., que têm o poder jurídico de punir seus membros por condutas incompatíveis com a profissão [9]. Manifestações de discordância com a razoabilidade de tornar institucional o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo são entendidas por esses organismos como atos de discriminação ilegal, o que abre a possibilidade de censura profissional.

Os professores constituem, em particular, um grupo de risco e muito suscetível a medidas disciplinares; com efeito, mesmo os que se manifestam contra o “casamento” homossexual apenas fora de sala de aula são acusados de criar um ambiente hostil a estudantes gays e lésbicas [10]. Por já terem assimilado a nova “ortodoxia”, a cujos olhos discordar do “casamento” homossexual é uma injusta discriminação que jamais se pode tolerar, outros grupos profissionais e associações de voluntariado vêm adotando políticas parecidas [11].

Os direitos dos pais na educação pública

A institucionalização do “casamento” homossexual mudou rápida e drasticamente os direitos parentais na educação pública. O debate sobre como abordar em classe o tema do “casamento” gay é muito parecido com a discussão sobre o papel da educação sexual nas escolas e as pretensões do governo de exercer sobre as crianças uma autoridade primária. A educação sexual, entretanto, foi sempre um assunto discreto, no sentido de que, por sua própria natureza, ele é incapaz de permear todo o currículo escolar; o “casamento” homossexual, por outro lado, é algo totalmente distinto.

Dado que um dos princípios da nova “ortodoxia” é a necessidade de tratar o “casamento” homossexual com o mesmo respeito com que tratamos o matrimônio tradicional, os seus proponentes têm se saído muito bem na hora de exigir que o “casamento” gay seja retratado positivamente em sala de aula. As reformas curriculares levadas a cabo em jurisdições como, por exemplo, a Colúmbia Britânica, agora impedem os pais de exercer o seu poder de veto em matérias referentes a práticas educacionais controversas [12].

Os novos currículos estão permeados de referências positivas ao “casamento” gay, não em uma ou outra disciplina, senão em todas. Diante dessa artimanha, a única defesa que sobra aos pais é retirar de uma vez por todas a criança do sistema público de ensino. As cortes têm se mostrado muito pouco favoráveis às reclamações dos pais: se estes estão se apegando a fanatismos fora de moda, então as crianças serão obrigadas a carregar o fardo de uma “dissonância cognitiva”, pois têm de aprender coisas conflitantes em casa e na escola, enquanto esta tenta sair vencedora.

As reformas, é claro, não foram vendidas ao público como uma maneira de implementar e reforçar a nova “ortodoxia”; ao contrário, a razão apresentada foi a urgência de combater o bullying, quer dizer, de promover a aceitação de jovens gays, lésbicas e crianças vindas de lares homossexuais [13].

É louvável querer acolher toda e qualquer pessoa; mas, independentemente do que se tenha dito, os meios escolhidos para alcançar esse objetivo constituem um grave atentado contra a família. Trata-se nada menos do que a doutrinação premeditada das crianças, sem embargo da oposição paterna, conduzidas a aceitar uma concepção de casamento que é fundamentalmente hostil ao que seus pais crêem ser bom para elas. Tudo isso subtrai aos pais o poder de transmitir aos filhos uma compreensão do matrimônio que lhes permita amadurecer e tornar-se adultos; já desde pequenas as crianças são ensinadas a desprezar a lógica do casamento e a entendê-lo como um simples meio de satisfazer o desejo que têm os adultos de encontrar um “parceiro” ou uma “companhia”.

O direito de autonomia das instituições religiosas

Num primeiro momento, os clérigos e os centros religiosos pareciam de todo imunes à obrigação de aceitar ou celebrar “casamentos” homossexuais. Com efeito, esta foi a grande promessa da legislação pró-“casamento” gay: os clérigos continuariam a ter o direito a não celebrar um casamento que lhes ferisse as convicções religiosas; as casas de culto, por sua vez, não poderiam ser contratadas sem o consentimento de suas respectivas autoridades [14].

Deveria ter ficado claro desde o começo o quão estreitas eram estas garantias. Elas apenas impediam que clérigos fossem obrigados a celebrar cerimônias matrimoniais; o que elas não protegiam da vigilância das comissões de direitos humanos, como vimos acima, eram os sermões e as circulares pastorais. As congregações tornaram-se, pois, vulneráveis a intervenções judiciais, caso se recusassem a ceder seus espaços a casais do mesmo sexo que ali quisessem celebrar seu “casamento”; o mesmo vale para toda organização que não deseje disponibilizar suas dependências para promover uma visão da sexualidade diametralmente oposta à defendida por ela.

As referidas garantias tampouco impedem que os governos municipal e provincial privem entidades religiosas de seus lucros por causa do que ensinam sobre o matrimônio. A Bill 13, por exemplo, o mesmo estatuto de Ontário que obriga colégios católicos a permitir a abertura e manutenção de clubes gays, também proíbe que escolas públicas aluguem suas instalações a quem não concorda com o “código de conduta” exigido pela nova “ortodoxia” [15]. Ora, dado que muitas congregações cristãs de pequena proporção alugam auditórios escolares para realizar seus ofícios e cultos, é bastante fácil dar-se conta de sua vulnerabilidade.

Mudanças na concepção pública de matrimônio

Tem-se argumentado que, se o “casamento” gay é institucionalizado, então se devem aceitar também novas “categorias maritais”, como a poligamia. A partir do momento em que abandonamos uma concepção conjugal do matrimônio e a substituímos por uma visão centrada na figura do “parceiro” adulto, então já não há nada mais em que nos possamos basear para resistir à expansão do estatuto de “matrimônio” a uniões poligâmicas e poliamorosas, por exemplo.

Noutras palavras, se o casamento se resume à satisfação de um desejo por “companhia”, qualquer que seja ela, e se o desejo de alguns se estende a novos tipos de configuração familiar, com que direito lhes podemos negar a satisfação desse desejo? Não é aqui minha intenção tomar partido a esse respeito; pretendo tão-somente descrever como esta situação se desenvolveu no Canadá.

Uma conhecida comunidade polígama na Colúmbia Britânica esteve fortemente envolvida na promoção do “casamento” homossexual, e saiu a público para defender que não havia razão alguma que fundamentasse a atual criminalização da poligamia no Canadá. Dentre todas as cortes do país, somente um tribunal de primeira instância na Colúmbia Britânica pôs em juízo se a proibição da poligamia tem base na Constituição nacional, e endereçou ao governo da província uma opinião prévia sobre o assunto [16].

A criminalização da poligamia foi mantida, mas sobre uma frágil base que a define em termos de contração múltipla e simultânea de vários casamentos civis. A corte, em todo caso, não abordou o fenômeno da celebração de múltiplas uniões estáveis. Por isso, as formas preponderantes de poligamia e poliamor até o momento não foram admitidas pelo direito canadense, mas nem uma nem outra encontram impedimentos na prática.

O que fica de lição é o seguinte: uma sociedade que institucionaliza o “casamento homossexual” não institucionaliza, necessariamente, a poligamia. O exemplo da Colúmbia Britânica, ainda assim, sugere que de uma à outra coisa basta um passo.  Os argumentos brandidos pelos defensores da poligamia não explicam de forma convincente por que é discriminação negar às uniões homossexuais e lésbicas o rótulo de “matrimônio”, mas não o seria negá-lo aos polígamos e adeptos do poliamor. De fato, o veredito parece indicar que o problema reside no “preconceito” contra a poligamia e o poliamor, que não são um instituto jurídico estável.

O impacto na prática matrimonial

No que diz respeito à prática matrimonial, é ainda muito cedo para tirar conclusões. As informações colhidas no censo de 2011 mostram, em primeiro lugar, que o matrimônio está em decadência no Canadá, assim como em todo o resto do Ocidente; em segundo, que o “casamento” gay é, do ponto de vista estatístico, um fenômeno raro; e, por fim, que há muito poucos casais homossexuais (estejam ou não casados) que tenham crianças em casa [17].

Dentre os 6,29 milhões de matrimônios existentes no Canadá, aproximadamente 21.000 são homossexuais. Os casais do mesmo sexo, casados legalmente ou não, constituem 0,8% de todos os casais no país; 9,4% dos 65.575 de casais homossexuais (incluídos os casados civilmente e as uniões estáveis) têm crianças em casa, e 80% deles são formados por lésbicas. O Canadá deixou de contabilizar os divórcios a partir de 2008, e desde então não tem disponibilizado nenhuma informação sobre a incidência de divórcios na comunidade homossexual.

O que podemos deduzir de tudo isso é que o “casamento” gay, ao contrário do que previam os argumentos a seu favor, não tem revitalizado a cultura matrimonial no Canadá; tampouco existe, de qualquer modo, um censo ou banco de dados que forneça argumentos empíricos que permitam vincular a institucionalização do “casamento” homossexual à estabilidade matrimonial.

À falta de dados concretos (indisponíveis no Canadá) acerca das taxas de divórcios, só nos restam argumentos conceituais, que têm de ser avaliados por sua coerência. Neste caso, a experiência canadense não nos é de muita ajuda. E aqui podemos fazer-nos a pergunta: a institucionalização do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo baseia-se numa concepção de matrimônio que prioriza a estabilidade, como o faz a concepção conjugal? Se a resposta for negativa, então podemos crer com tranquilidade que o “casamento” gay irá acelerar a aprovação cultural de uma concepção de matrimônio — o modelo do “parceiro” adulto — que vem fazendo muito mal à sociedade ao longo das últimas cinco décadas.

Referências

  1. Cf., v.g., os comentários do Min. LaForme em Halpern v. Canada (AG), 2002 CanLII 49633 (On SC), paras. 242-43.
  2. Cf., v.g., Saskatchewan: Marriage Commissioners Appointed Under the Marriage Act (Re), 2011 SKCA 3.
  3. Smith and Chymyshyn v. Knights of Columbus and others, 2005 BCHRT 544.
  4. Cf. o remédio imposto pela Comissão de Direitos Humanos de Alberta (derrubada depois em revisão judicial) em Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300.
  5. Whatcott v. Saskatchewan Human Rights Commission, 2010 SKCA 26; Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300; Kempling v. British Columbia College of Teachers, 2005 BCCA 327 (CanLII).
  6. Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300.
  7. Fred Henry, Bispo de Calgary, Alberta; destaque-se também a experiência do Pe. Alphonse de Valk, editor de Catholic Insight, que despendeu $20.000 em sua defesa numa queixa de direitos humanos, a qual, no fim, foi recusada.
  8. Maclean's Responses To Recent Decision From The Canadian Human Rights Commission.
  9. V.g., Kempling v. British Columbia College of Teachers, 2005 BCCA 327 (CanLII).
  10. Ibid.
  11. V.g., a demissão do locutor esportivo de Ontário, Damian Goddard, da Sportsnet, por ele ter defendido em seu Twitter o matrimônio tradicional: “Broadcaster fired after controversial tweet files human rights complaint”, National Post, June 23, 2011.
  12. Scolaire de Chenes; Glen Hansman, “Parents cannot ‘opt out’ of provincial curriculum: clarifying alternative delivery”, BC Teachers’ Federation Teacher Newsmagazine, v. 19, n. 2, October 2006.
  13. Cf. o preâmbulo ao Accepting Schools Act, de Ontário, S.O. 2012 C.5. Cf. também  Chamberlain v. Surrey School District No. 36, [2002] 4 S.C.R. 710; S.L. v. Commission scolaire des Chenes, [2012] 1 S.C.R. 235.
  14. Civil Marriage Act, S.C. 2005 c. 33, ss. 3 – 3.1.
  15. Accepting Schools Act, S.O. 2012 C.5.
  16. Reference re: Section 293 of the Criminal Code of Canada, 2011 BCSC 1588.
  17. As estatísticas em seguida são tiradas do site Statistics Canada.

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A história de Santo Apolinário
Santos & Mártires

A história de
Santo Apolinário

A história de Santo Apolinário

Neste breve relato biográfico, conheça a vida do bispo Santo Apolinário, que foi enviado a Ravena por ninguém menos que o príncipe dos Apóstolos, São Pedro, a fim de anunciar o nome de Jesus aos incrédulos, operando inúmeros milagres.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica” [1]. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia

Não nos esqueçamos que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12).

Além do mais, Santo Apolinário foi, segundo a Tradição, discípulo de ninguém menos que São Pedro, chefe dos Apóstolos. Estamos falando, portanto, de um contemporâneo dos primeiros seguidores de Nosso Senhor.

Sua memória não pertence mais ao Calendário Romano Geral, ficando reservada apenas aos calendários particulares. A razão é que, apesar da antiguidade de seu culto, Apolinário não é considerado hoje um santo de “importância universal” [2].


Apolinário deriva de pollens, “poderoso”, e de ares, “virtude”, significando “poderoso em virtude”; ou pode derivar de pollo, “admirável”, e de naris, que pode ser entendido como “discrição”, significando “homem de admirável discrição”; ou pode derivar de a, “sem”, de polluo, “manchar”, e de ares, “virtude”, e assim equivaleria a “virtuoso sem mancha de vícios”.

Apolinário, discípulo de Pedro, foi por ele enviado de Roma a Ravena, onde curou a esposa de um tribuno e batizou-a juntamente com o marido e a família. Quando isso fez, foi denunciado ao juiz, este ordenou que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter para ali sacrificar. Como ele dissesse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem diante dos demônios, foi agarrado, espancado a pauladas e deixado semivivo; mas alguns discípulos o levaram até a casa de uma viúva, onde ficou sete meses em recuperação. 

“Apoteose de Santo Apolinário”, por Guercino.

Dali partiu para a cidade de Classe a fim de curar um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa, uma jovem possessa por um espírito imundo exclamou, dizendo: “Sai daqui, servo de Deus, senão te farei ser expulso da cidade de pés e mãos amarrados”. Apolinário, reprendendo-a, forçou imediatamente o demônio a sair. Como, pois, tivesse invocado sobre o mudo o nome do Senhor e este fosse curado, mais de quinhentos homens acreditaram.

Os pagãos, por sua vez, o proibiram, espancado a pauladas, de pronunciar o nome de Jesus. Ele, porém, lançado ao chão, clamava: “Ele é o verdadeiro Deus!” Então os pagãos lhe tiraram os calçados e o fizeram ficar de pé sobre brasas; mas, como ele continuasse a pregar a Cristo sem cessar, o lançaram fora da cidade.

Naquela época, Rufo, um patrício de Ravena, estava com a filha enferma e mandou chamar Apolinário para curá-la. Tão-logo ele entrou na casa, a menina morreu. Então Rufo lhe disse: “Oxalá não tivesses entrado em minha casa. Os deuses ficaram muito irados e não quiseram curar minha filha. Que lhe poderá fazer tu?” Apolinário respondeu: “Não temas. Jura-me que, se a jovem ressuscitar, não lhe proibirás de modo algum seguir seu Criador”. Rufo jurou, Apolinário fez uma oração, e a jovem ressuscitou e, proclamando o nome de Cristo, recebeu com a mãe e uma multidão o batismo e permaneceu virgem.

Quando o César soube disso, escreveu ao prefeito do pretório que forçasse Apolinário a sacrificar ou que o mandasse para o exílio. O prefeito, não podendo forçá-lo a sacrificar, fê-lo espancar a pauladas e mandou que o torturassem estendido no potro. Como ele continuasse a pregar o Senhor, o prefeito mandou que jogassem água fervendo sobre as feridas e o mandassem para o exílio preso a pesadas correntes.

Vendo tanta impiedade, de ânimo exaltado, os cristãos lançaram-se sobre os pagãos e mataram mais de duzentos dentre eles. Vendo isso, o prefeito se escondeu e ordenou que prendessem Apolinário num cárcere estreitíssimo; depois mandou levá-lo, acorrentado a três clérigos, a um navio que os conduziria ao exílio. Houve uma tempestade, da qual escaparam apenas ele, dois clérigos e dois soldados, a quem batizou.

Depois voltou a Ravena, foi preso novamente pelos pagãos e conduzido ao templo de Apolo, cuja estátua amaldiçoou, e ela subitamente veio abaixo. Vendo isso, os pontífices o levaram diante do juiz Tauro, juiz este que, porque Apolinário lhe devolvera a vista a um filho cego, acreditou e por quatro anos o manteve em uma propriedade sua.

Depois disso, como os pontífices o acusassem diante de Vespasiano, mandou Vespasiano que todos os que ofendessem os deuses ou sacrificassem ou fossem expulsos da cidade, pois “não é justo”, dizia, “que vinguemos os deuses; eles mesmos poderão vingar-se de seus inimigos, se ficarem irados”.

Então, o patrício Demóstenes não conseguiu fazer Apolinário sacrificar e o entregou a um centurião que já era cristão, o qual lhe rogou que se refugiasse numa aldeia de leprosos, onde poderia viver longe do furor dos gentios. Mas a multidão que o perseguia alcançou-o e o espancou durante muito tempo, deixando-o quase morto. Ali sobreviveu por ainda sete dias e, tendo instruído os discípulos, entregou o espírito e foi honradamente sepultado na época de Vespasiano, que começou a reinar por volta do ano 70 do Senhor.

Sobre este mártir diz Santo Ambrósio:

Apolinário, digníssimo bispo, foi enviado pelo príncipe dos Apóstolos, Pedro, a Ravena para anunciar o nome de Jesus aos incrédulos. Enquanto ali fez admiráveis sinais de virtudes para os seus, que acreditavam em Cristo, foi muitas vezes açoitado e teve o corpo já senil submetido pelos ímpios a horrendas torturas. Mas para que os fiéis não vacilassem vendo-lhe os sofrimentos, pela virtude do Senhor Jesus Cristo aperfeiçoou os sinais apostólicos: após os tormentos, ressuscitou uma menina morta, devolveu a vista a um cego e restaurou a voz a um mudo, livrou uma mulher possessa pelo demônio, limpou o contágio de um leproso, curou membros dissolutos por uma doença pestífera, fez ruir junto com o templo a imagem de um ídolo. Oh, digníssimo pontífice, merecedor de admiração, que com dignidade de pontífice mereceu receber o poder apostólico! Ó fortíssimo atleta de Cristo, que, já resfriando o calor da idade, em meio às penas, pregou constantemente a Jesus Cristo, redentor do mundo!

Referências

  1. O texto acima é uma tradução (adaptada aqui e ali pela Equipe CNP) do capítulo 92 da Legenda Áurea (São Paulo: Cia. das Letras, 2003, pp. 555-557).
  2. Cf. Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 131.

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Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?
Santos & Mártires

Três Marias diferentes
ou Santa Maria Madalena?

Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?

Maria Madalena, a pecadora perdoada e a irmã de Lázaro são a mesma pessoa? Ou se trata, antes, de três mulheres diferentes? Eis uma questão que intriga há tempos os intérpretes da Sagrada Escritura e para a qual, pelo visto, só teremos uma resposta no céu.

Pe. Hadriano Simón, CSSRTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Tornou-se costume entre os intérpretes [1] perguntar se a mulher pecadora referida por Lc 7, 37 tem alguma relação com Maria Madalena (cf. Lc 8, 2; 24, 10; Mt 27, 56-51; 28, 1; Mc 15, 40-47; 16, 1-9; Jo 19, 25; 20, 11-15), com Maria irmã de Lázaro (cf. Lc 10, 39-42; Jo 11, 1-33; 12, 1-8), ou com ambas. O motivo da questão se toma, por um lado, do episódio da unção (cf. Lc 7, 36ss; Jo 12, 1), donde parece seguir-se que a pecadora é irmã de Lázaro; por outro, da semelhança de vida (cf. Lc 7, 37; 8, 2b; Mc 16, 9), donde parece seguir-se que a pecadora é Madalena; por último, da identidade de nome, donde parece seguir-se que Maria de Betânia é também Maria de Magdala.

História do problema. — Deixando de lado os que opinam que a questão é insolúvel [2], encontramos entre os autores três soluções principais: a) alguns defendem que se trata de três mulheres distintas [3]; b) outros, que se trata de duas; c) outros enfim, que se trata de uma única mulher, designada no Evangelho de várias formas [4]. Igual diversidade — antes, até maior — houve entre os antigos, de modo que, não obstante o dito por alguns exegetas [5], não se pode invocar a tradição patrística em apoio definitivo de qualquer das três soluções. Além disso, nenhum Padre apela à fé ou à tradição da Igreja em favor de sua própria opinião [6].

Na Igreja latina, de São Gregório Magno (✝ 604) até os nossos dias, defendeu-se com consenso verdadeiramente unânime a identidade entre as três [7]. Tal consenso se deve à autoridade deste Pontífice [8], uma vez que, antes dele, os Padres latinos defenderam opiniões contrárias, chegando alguns a mudar mais de uma vez de parecer (v.g., São Jerônimo e Santo Agostinho). Os escritores gregos distinguiram as três mulheres, e alguns parecem ter defendido a existência de quatro, porque distinguiam também a unção referida por Mt 26, 6 e Mc 14, 3 da referida por Jo 12, 3, atribuindo cada uma destas três unções a tantas outras mulheres distintas, das quais Madalena diferiria como a quarta.

Argumentos. — Vejamos os argumentos exegéticos em favor de cada uma das soluções:

“Maria Madalena”, por Carlo Dolci.

1.ª solução: três mulheres.a) A mulher pecadora não é nem irmã de Lázaro nem Maria Madalena: α) porque os evangelistas a apresentam como desconhecida e jamais lhe dizem o nome, ao passo que das outras duas, conhecidas e próximas de Cristo, se fala muitas vezes no Evangelho; além disso, β) não há indício algum que permita afirmar que Maria irmã de Lázaro foi pecadora pública (cf. Lc 7, 37); γ) Madalena, por sua vez, é explicitamente contraposta à pecadora porque, narrado o arrependimento desta, cujo nome não é revelado, logo em seguida (cf. Lc 8, 2) se fala de Madalena como de pessoa conhecida entre as mulheres que seguiam a Cristo; δ) embora se diga que Madalena foi possuída por sete demônios (cf. Lc 8, 2; Mc 16, 9), nunca se diz ou sugere nada sobre um suposto passado vergonhoso, enquanto que na narração da pecadora não se vê um só vestígio de possessão; ora, os evangelistas costumam distinguir nitidamente a possessão do estado de pecado; logo… 

b) Maria irmã de Lázaro não é Maria Madalena: α) em razão do nome, dado que tanto Lucas como João, sempre que falam da irmã de Lázaro, a chamam simplesmente de Maria (cf. Lc 10, 39; Jo 11, 1ss; 12, 3) e quando falam de Maria Madalena não dão sinal algum de que se trata da mesma mulher; β) em razão do lugar em que viviam ou do qual procediam, pois a irmã de Lázaro era de Betânia, vilarejo próximo de Jerusalém (cf. Jo 11, 1), ao passo que Madalena, assim chamada por vir (provavelmente) de Magdala, às margens do lago de Genesaré, é contada entre as mulheres que com o Senhor subiram da Galileia a Jerusalém (cf. Mt 27, 55; Mc 15, 41; Lc 23, 55) e com Ele percorriam as cidades da Galileia (cf. Lc 8, 2).

2.ª solução: duas mulheres. — Os defensores desta opinião afirmam que a irmã de Lázaro e Maria Madalena são a mesma pessoa, distinta da mulher pecadora (v.gr., Calmet, loc. cit.; Patrizi, In Mc [Friburgo, 1862] 222; Belser, Joh. 338; L. Murillo, S. Juan, 373 adn. etc.); para outros, no entanto, a pecadora e a irmã de Lázaro é que seriam a mesma pessoa (v.gr., Knabenbauer, In Matt. II, 405s).

3.ª solução: uma única mulher.a) O sentir tácito da Igreja inclina a essa parte (Maldonado); cf. o Ofício antigo de 22 de jul., de Santa Maria Penitente [9]. — b) Nas três se vê a mesma índole generosa, aparece o mesmo amor ardentíssimo a Cristo; em todas transparece aquela que muito amou, a que escolheu a melhor parte, a que, triste e chorosa, buscava o Senhor etc. [10]. — c) O fato de terem saído de Madalena sete demônios não demonstra, necessariamente, que ela fora pecadora, embora provavelmente o indique. — d) As palavras: a que ungiu (Jo 11, 2: ἡ ἀλείψασα) não pode referir-se à unção feita em Betânia (cf. Jo 12, 3ss), que ainda não fora mencionada, mas a uma unção anterior, qual seja: à referida por Lc 7, 37. — e) Que Lc 7, 36-50 fale da pecadora como de uma pessoa desconhecida e logo adiante, em 8, 2, de Maria chamada Madalena não prova que são duas mulheres distintas; nada impede, v.gr., que o evangelista, ao falar da pecadora, tenha julgado mais prudente omitir-lhe o nome. — f) As cenas descritas por Lc 7, 36ss e Jo 12, 3ss são tão parecidas (alabastro, enxugar os pés com os cabelos etc.), que não poderiam ser repetidas senão pela mesma mulher.

Conclusão. — O testemunho dos Padres, tomado isoladamente, não é muito favorável à identidade entre as três mulheres. As razões exegéticas pesam mais a favor da distinção entre elas [11], excetuando talvez Jo 11, 2 (ἡ ἀλείψασα), que parece sugerir a identidade de duas (não de três). Como não há razões conclusivas para nenhuma das soluções, e como a Igreja nunca definiu nada a esse respeito, há a liberdade de opinião. — Seja como for, a sentença segundo a qual Maria Madalena, Maria irmã de Lázaro e a pecadora são uma e a mesma mulher pode ser admitida como a mais provável, porquanto não contradiz o texto evangélico, tem seus defensores entre os antigos e não implica dificuldades tão sérias, a ponto de debilitar o valor desta antiga e venerável tradição (cf. Corluy, p. 206s), de algum modo acolhida pela própria Igreja em sua Liturgia.

Referências

  • Este texto é uma tradução adaptada, com acréscimos e omissões de nossa equipe, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 6.ª ed., Turim: Marietti, 1944, vol. 1, p. 569ss, n.398ss.

Notas

  1. Cf. Maldonado, In Matt. 26, 6s; 27, 56; Calmet, Dissertatio in tres Marias, Comm. VII 451-60; Corluy, In Ioh. 245-61; K. Sickenberger, Ist die Magdalenenfrage wirklich unlösbar?, in BZ 17 (1965) 63-74; A. Lemonnyer, L’onction de Béthanie, in: Rech. sc. relig. 18 (1928) 105-17; P. Ketter, Die Magdalenenfrage, Trier 1929 (= Pastor bonus 40 [1929] 101-18.203-14.264-85); Prat, Jésus Christ II, 501-6; U. Holzmeister, S. Maria Magdalena estne una eademque cum peccatrice et Maria sorore Lazari?, in: VD 16 (1939) 193-9.
  2. J. B. Nisius, art. “Maria Magdalena”, in: Kirchliche Handlexikon 2 (1917) 822; A. Durand, St. Jean 309.33; (ao que parece) Prat, loc. cit.
  3. Faber Stapulensis (Lefèvre d’Etaples), De Maria Magdalene, Parisiis 1516; Salmerón, t. 4, tr. 6; G. Estius, Calmet, que diz ser esta a opinião mais comum entre os doutores de seu tempo; Lagrange, loc. cit. 531; St. Luc., 235s; Holzmeister, ll. cc.; Sickenberger, loc. cit.; Leben §92.93; Innitzer, Ioh. 334-7; Ketter, loc. cit.;Buzy, Paraboles 239-42; Marchal, Lc 106; Renié, Manuel, IV, 318, adn. 3; Tillmann, Ioh. 231s; Schmid, Lk i. l.; Lauck, Joh. 291.
  4. Quase todos os ocidentais após São Gregório Magno; J. B. Solerius (du Sollier), Acta Sanctorum, ad 22 Iul. (jul. 5, 187-225); Corluy, loc. cit.; M.-J. Ollivier, Revue Thomiste 2 (1894) 585-613; Didon, Jésus-Christ I, 352-5; Le Camus, Les Origines…, II, 293ss; Fouard, Vie…, I, 339-41; Kaulen, Kirchenlexikon VIII, 735-8; K. Kastner, BZ 13 (1915) 345; Lesêtre ap. Vigouroux Dict. IV, 809-18; Cladder, Unsere Evangelien, 173s; Lemonnyer, loc. cit.; Simón; Schuster-Holzammer, Historia, II, 201s; G. Mezzacasa, “De tribus et unica Magdalena”, in: Perfice Munus 3 (1928) 434-8. Entre os acatólicos, Bernard, St. Joh. II, 410-14.
  5. Cf., v.gr., Maldonado, In Lc 7, 3: “opinião constante de todos os antigos autores”; Didon, Jésus-Christ, I, 352: “uma tradição quase unânime”.
  6. Investigou com grande acuidade este aspecto da questão La Grande, Jésus a-t-il été oint plusieurs fois et par plusieurs femmes?, in: RB NS 9 (1912) 504-32; com maior amplitude U. Holzmeister, “Die Magdalenenfrage in der christlichen Ueberlieferung”, in: Zeitschr. für kath. Theol. 46 (1922) 402-22.556-85; mais compendiosamente Ketter, loc. cit., c. 34-43.
  7. Houve “muitos autores” (v.gr., Bossuet, Calmet, Tillemont) que distinguiram duas ou três mulheres, mesmo depois que a Faculdade de Teologia de Paris, a “Sorbonne”, declarou no ano de 1521 que se deve sustentar a sentença que defende a unidade (cf. Holz., loc. cit., 199).
  8. Holzm. VD, loc. cit., 199, explica como São Gregório chegou a essa conclusão.
  9. A oração antiga para a sua festa diz: Beátæ Maríæ Magdalénæ, quǽsumus, Dómine, suffrágiis adjuvémur: cuius précibus exorátus, quatriduánum fratrem Lázarum vivum ab ínferis resuscitásti: Qui vivis et regnas…, “Sejamos assistidos, Senhor, vo-lo pedimos, pelos sufrágios de Santa Maria Madalena, por cujas preces fizestes ressurgir vivo dos infernos seu irmão Lázaro, morto havia quatro dias”.
  10. Cf. Le Camus, Vie de J.-Ch. III, 31ss.
  11. O argumento tomado da índole generosa das três mulheres é de todo artificial. É bastante semelhante a índole de Madalena e da pecadora, mas Maria irmã de Lázaro é uma mulher quieta e contemplativa (cf. Lc 10, 39ss), o que torna difícil imaginá-la a percorrer com o Senhor e os Apóstolos toda a Galileia, como se lê a respeito de Madalena (cf. Lc 8, 1s). O argumento tomado da Liturgia, segundo os próprios especialistas na matéria, tampouco prova nada de modo conclusivo.

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Quem são os “irmãos do Senhor”?
Doutrina

Quem são os “irmãos do Senhor”?

Quem são os “irmãos do Senhor”?

No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor. Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa...

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor (cf. Mt 12, 46s; 13, 55ss; Mc 3, 31s; 6, 3; Lc 8, 19s; Jo 2, 12; 7, 3.5.10; 20, 17; At 1, 14; 1Cor 9, 5; Gl 1, 19). Não sabemos quem eram as irmãs; dos irmãos, quatro são expressamente nomeados: Tiago, José, Judas e Simão. 

Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa. Vejamos primeiro cada uma delas; em seguida, oito razões em prol da doutrina católica; por último, algumas objeções frequentes entre protestantes e as respostas que lhes podemos dar.

I. Irmãos do Senhor?

1.ª solução, heterodoxa. — Alguns antigos hereges (por exemplo, Helvídio, Bonoso Sardenho, Celso, Joviniano etc.) e, mais tarde, os socinianos, muitos protestantes e racionalistas ousaram afirmar que São José e a bem-aventurada Virgem Maria tiveram outros filhos além de Jesus. Essa proposição é dogmaticamente inaceitável em virtude da solene declaração da Igreja e da tradição constante e unânime dos Padres, além de ser historicamente inadmissível pelas razões que daremos abaixo, quando expusermos a doutrina verdadeira.

2.ª solução, infundada. — Alguns Padres e autores antigos (por exemplo, Orígenes, Santo Hilário, São Gregório de Nissa, Santo Ambrósio, Santo Epifânio, São Cirilo de Alexandria, Eusébio, e também Crisóstomo e Santo Agostinho, que depois mudaram de opinião), influenciados talvez por invenções apócrifas [1], pensavam que os irmãos do Senhor eram filhos de São José nascidos de algum matrimônio anterior, antes de ele se casar com a bem-aventurada Virgem Maria. Essa proposição não pode ser sustentada pelos católicos, uma vez que, segundo o sentir comum da Igreja ao longo dos séculos, São José guardou sempre a virgindade nem teve outra esposa além da Virgem Santíssima.

Mas há ainda outra razão para rejeitá-la. A própria Escritura diz expressamente quem era a mãe de dois dos irmãos do Senhor, Tiago e José. Trata-se de Maria, irmã da Mãe do Senhor (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40; 16, 1; Jo 19, 25). Ora, como é possível que São José, chamado justo pelo Espírito Santo (cf. Mt 1, 19), tenha atentado outro matrimônio, enquanto ainda era viva a primeira (e legítima) esposa?

3.ª solução, comum e certa. — No Evangelho, a expressão “irmãos do Senhor” (o mesmo vale para “irmãs”, naturalmente) não significa irmãos germanos, ou uterinos, mas apenas consanguíneos em diferentes graus de parentesco. Assim pensa São Jerônimo e a maioria maciça dos católicos. E há várias razões para isso.

II. A doutrina católica

1) Antes de tudo, é consequência do dogma da virgindade perpétua de Maria [2], doutrina atestada por vários documentos, desde o início do cristianismo (por exemplo, o símbolo apostólico, o símbolo de Epifânio, a profissão de fé de Dâmaso, a carta de Santo Inácio aos efésios, a apologia de Aristides a Adriano, a apologia de São Justino a Antônio, a carta de Sirício Accepi litteras vestras etc.).

2) Está em conformidade com o uso bíblico da palavra “irmão” (hebr. ’ach, gr. ἀδελφός). De fato, vários exemplos tanto do Antigo como do Novo Testamento demonstram que a expressão significa não apenas irmãos germanos, mas quaisquer parentes. Ló, por exemplo, é chamado irmão de Abraão (cf. Gn 13, 8; 14, 12) e Jacó de Labão (cf. Gn 29, 15), embora nenhum dos dois fosse irmão, mas sobrinho. A mulher e a esposa são chamadas irmãs (cf. Ct 4, 9), e também aos amigos e membros da mesma cidade ou tribo se dá o nome de irmãos (cf. Ex 2, 11; 2Rs 2, 26; Mt 25, 40; At 11, 29 etc.) [3].

3) Em terceiro lugar, ainda que se fale muitas vezes dos irmãos do Senhor, ninguém além de Jesus é chamado filho de Maria, assim como Maria não é chamada mãe de ninguém a não ser de Jesus.

4) Além disso, se a bem-aventurada Virgem tivesse outros filhos, o Senhor, pouco antes de morrer na cruz, não poderia ter dito: “Mulher, eis aí o teu filho” (ὁ υἱός σου); João, com efeito, não era ὁ υἱός, o filho (com artigo definido), muito menos o primeiro entre os filhos. Além do que, os outros filhos dela, entre os quais estaria o Apóstolo Tiago Menor, irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), veriam o gesto quase como uma afronta, isto é, uma acusação de que tinham pouco cuidado pela mãe, confiada por isso a um dos caçulas… 

Tampouco faltam razões para pensar que os chamados irmãos do Senhor eram, na verdade, primos maternos ou paternos dele.

5) De fato, a Maria que é chamada mãe de dois deles, Tiago e José (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; Lc 24, 10), é chamada também irmã de Maria, Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25), como já foi dito antes.

Ora, a palavra “irmã” pode ser entendida aqui de dois modos: a) em sentido estrito, enquanto significa que a primeira Maria era filha dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana; b) ou em sentido amplo, na medida em que o marido dela, Cléofas (cf. Jo 19, 26), seria irmão de São José, o que já foi atestado por Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 22), palestino do séc. II. Nada impede, aliás, que admitamos ambas as hipóteses.

6) Ademais, como também afirma Hegesipo, Tiago e Simão eram primos paternos do Senhor, e ao menos Simão era filho de Cléofas. Eis as palavras dele referidas por Eusébio: “Depois que Tiago, chamado o Justo, padeceu o martírio assim como o Senhor, pela mesma razão um outro filho do tio dele [de Cristo ou de Tiago?], Simão de Cléofas, foi constituído bispo, a quem todos indicaram por ser o segundo primo do Senhor”.

7) Some-se a isto que Judas era irmão de Tiago (cf. Lc 6, 16; Jd 1), como atesta ainda Hegesipo (cf. Eusébio, HE iii 20): “Naqueles tempos [a saber: de Domiciano], ainda viviam alguns da família do Senhor, sobrinhos daquele Judas que era chamado irmão dele [de Tiago] segundo a carne. Estes eram acusados de ser da estirpe de Davi” [4].

Tudo isso, no entanto, parece ir de encontro ao fato de o Apóstolo Tiago, que é chamado irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), ser chamado também filho de Alfeu em Mt 10, 3. 

8) Mas isso se pode explicar também de dois modos: a) ou consideramos que Cléofas, ou Clopas, é a mesma pessoa que Alfeu, o qual, como era costume, teria dois nomes (por exemplo, João Marcos, Tomás Dídimo, Mateus Levi etc.); de fato, é possível que Alfeu e Cléofas (ou Clopas, Κλωπᾶς) equivalham ao mesmo nome, Chalpai (חֲלפי), pronunciado com maior ou menor suavidade. — b) Ou se trata de duas pessoas distintas, de forma que Alfeu seria casado com Maria, irmã de Cléofas e de São José, da qual nasceram Tiago e José, enquanto Cléofas seria pai de Simão e Judas, todos eles, portanto, primos de Cristo [5].

III. Objeções e respostas

1.ª objeção: No Evangelho (cf. Mt 1, 25; Lc 2, 7), Cristo é chamado primogênito (gr. πρωτότοκος) de Maria. Logo, Maria, depois do parto de Cristo, teve outros filhos.

Resposta: Segundo a Lei (cf. Ex 13, 2ss; 34, 19s; Nm 3, 47ss; 18, 15), considera-se primogênito todo o que primeiro sai da vulva (lt. quidquid primum erumpit e vulva, gr. πᾶν διανοῖγον μήτραν), quer se lhe sigam outros filhos ou não. A razão é que sobre o primeiro filho recaíam alguns preceitos da Lei que os pais estavam obrigados a cumprir, para o que não deviam esperar até o nascimento de outro filho, obviamente [6]. Logo, o vocábulo “primogênito” designa não só o filho depois do qual vieram outros, mas também aquele antes do qual não veio nenhum. Noutras palavras, todo unigênito é primogênito, embora nem todo primogênito seja unigênito [7].

Vale ainda recordar uma inscrição funerária judaica descoberta no início do século passado e publicada por C. C. Edgar nos Annales des Antiquités de l’Egypte (cf. vol. 22, 1922, pp. 7–16). Nessa inscrição, pertencente à época de Augusto (provavelmente ao séc. V a.C., ou seja, pouco antes do nascimento de Cristo), lê-se que certa jovem morreu em meio às dores do parto de seu primogênito. Logo, para ela o primogênito foi também o unigênito [8].

“A Adoração dos Reis Magos” por Carlo Dolci.

2.ª objeção: No Evangelho, diz-se explicitamente de José e Maria: “Estando Maria, sua mãe, desposada com José, achou-se ter concebido por obra do Espírito Santo, antes de coabitarem” (Mt 1, 18). Logo, depois de coabitar e consumar o casamento, tiveram outros filhos. E de José se diz igualmente: “E não a conhecia até que ela pariu o seu filho primogênito” (Mt 1, 25). Logo, depois do parto a conheceu carnalmente.

Resposta: a) O verbo “coabitar” (lt. convenire, gr. συνελθεῖν) não significa “consumar matrimônio”, mas apenas que Maria e José, no tempo da Encarnação, não viviam juntos na mesma casa, o que fizeram só mais tarde (cf. Mt 1, 20.25). Com efeito, as mulheres desposadas, entre os hebreus, não eram levadas de imediato para a casa do esposo e, por esse motivo, não costumavam viver com ele sob o mesmo teto antes de celebrar solenemente as núpcias.

b) Além disso, a locução “até que” (lt. donec, gr. ἔως), assim como “antes que” e outras similares, é utilizada na Escritura para exprimir muitas vezes o que não aconteceu até um determinado tempo, sem que se possa inferir daí que tenha acontecido depois [9]. Assim, por exemplo, lê-se em 2Sm 6, 23: “E Micol, filha de Saul, não teve mais filhos até o dia da sua morte”, o que não significa que os teve depois de morta, e em Sl 109, 2: “Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”, o que não significa que, feito isso, não se sentará mais à direita de Deus etc. (cf. Gn 8, 7; 49, 10.26; Sl 122, 2 e muitos outros lugares).

Ora, a finalidade do evangelista era mostrar que Cristo não foi concebido de José (= o que não aconteceu), mas virginalmente, conforme o vaticínio de Isaías a que explicitamente se refere, e não a de narrar o restante da vida de Maria, sobre a qual não pretende afirmar ou negar nada. Por isso, ainda que se interprete “coabitar” como “consumar matrimônio”, das palavras do evangelista não se segue de modo algum que Maria e José tenham-se unido depois, só porque não o tinham feito até então.

3.ª objeção: Embora nas línguas hebraica e aramaica, de fato, não haja um termo técnico e específico para designar os primos (tinham de dizer, com algum incômodo, filho do irmão do pai…), daí não se segue que os irmãos do Senhor fossem primos dele. A razão é que o grego do Novo Testamento, sim, possui um termo técnico e específico para designar os primos (ἀνεψιοί), que os hagiógrafos deveriam ter utilizado no lugar de ἀδελφοί, para não induzir o leitor em erro. Logo, se falam de ἀδελφοί, é porque se trata realmente de irmãos de sangue, não de primos ou parentes em outro grau.

Resposta: A tradução dos LXX sempre verte o vocábulo hebraico ’ach como ἀδελφοί, e não como ἀνεψιοί, mesmo quando é evidente que ele está sendo usado em sentido lato para significar “primos”. A expressão οἱ ἀδελφοὶ τοῦ Κυρίου surgiu no contexto da catequese grega à imitação da versão grega dos LXX e por isso tornou-se como um “termo técnico”, sem perigo algum de erro, já que todos sabiam por tradição o que ela queria dizer. Além do mais, até o final do séc. II não houve qualquer discussão acerca do sentido das palavras “irmãos do Senhor”; esse modo de dizer, por conseguinte, não era visto como contrário ao dogma da virgindade perpétua de Nossa Senhora [10]. 

Referências

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada, com acréscimos e omissões, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 248s, n. 162; p. 344, n. 236, e de Gabriel M.ª Roschini, Mariologia. 2.ª ed., Roma: A. Belardetti (ed.), 1948, vol. 3, p. 262s.

Notas

  1. Concretamente, o Protoevangelho de Tiago (séc. II), o Evangelho da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, a História de José, o Carpinteiro (séc. IV) e o Evangelho de Pedro (séc. II).
  2. É de fé divina e católica definida que a bem-aventurada Mãe de Deus Maria Santíssima foi e permaneceu sempre e perfeitamente virgem, antes, durante e depois do parto, com virginidade de corpo (integridade física inviolada) e de mente (disposição perpétua de abster-se de toda e qualquer prática venérea, inclusive por simples desejo). Cf., por exemplo, a definição solene do Concílio de Latrão, de 649, no cânon 3 (DH 503): “Se alguém não professa… que depois do parto permaneceu inviolada a sua [de Maria] virgindade, seja condenado”, e a declaração de Paulo IV, ao condenar na bula “Cum quorumdam hominum” (DH 1880), de 1555, a seita dos unitários, que afirmavam que “a beatíssima Virgem Maria não… permaneceu sempre na integridade virginal, a saber: antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto” (ante partum scilicet, in partu et perpetuo post partum). Uma explicação ao mesmo tempo sucinta e detalhada dessa doutrina encontra-se disponível nesta resposta católica.
  3. Cf. F. Lucas Brugensis, In Sacrosancta IV Iesu Christi Evangelia Commentarius. Antuerpiæ, 1606, p. 190: “Tornou-se uso nas línguas hebraica e síria que o nome de irmãos significasse os parentes e todos aqueles que são de uma mesma família”. — É evidente, de resto, que a palavra “irmão”, no plural, serve muitas vezes, não só nos evangelhos como em outros livros do Novo Testamento, para designar genericamente o conjunto dos fiéis cristãos. Assim, por exemplo, se lê em Jo 21, 23: “Correu esta voz entre os irmãos (τοὺς ἀδελφοὺς) que aquele discípulo não morreria”, e em At 1, 15: “Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (τῶν ἀδελφῶν)” etc., entre os quais se incluem as santas mulheres, Maria, Mãe de Jesus, e também os irmãos dele (cf. At, 1, 14: τοῖς ἀδελφοῖς αὐτοῦ), isto é, seus parentes e discípulos. Cf. F. X. Patrizi, De Evangeliis Libri Tres. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1853, p. 104, n. 42 (= l. I, c. 3, q. 5, §1).
  4. Cf. J. Knabenbauer, Commentarius in Evangelium secundum Matthæum. 3.ª ed., Paris: P. Lethielleux (ed.), 1922, p. 565s: “É coisa conhecidíssima que, entre os hebreus, o nome ‘irmão’ designa não somente o irmão germano e uterino, mas também qualquer parente ou consanguíneo (cf. Gn 14, 16; 13, 9; 24, 48; 29, 12; 2Sm 10, 13 etc.). Ora, os irmãos do Senhor, Tiago, José, Simão e Judas, eram filhos de Maria, irmã da Mãe do Senhor, isto é, de Maria esposa de Cléofas (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; 16, 1; Jo 19, 25). E São Jerônimo escreve: ‘Nós, como está no livro que escrevemos contra Helvídio [De virginitate perpetua B. Mariæ], entendemos que os irmãos do Senhor são primos do Salvador, filhos de Maria, tia de Cristo, a qual é chamada mãe de Tiago Menor, de José e de Judas, que em outro evangelho são chamados irmãos do Senhor. Ora, que os primos sejam chamados irmãos, toda a Escritura o demonstra’. — Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 30.4) diz que Cléofas era irmão de José. Segundo Orígenes (cf. PG 13, 876), no evangelho [apócrifo] de Pedro se dizia que eles eram filhos de José e sua primeira esposa, opinião que Jerônimo rejeita como delírio dos apócrifos, e Santo Tomás também observa contra ela: ‘Cremos que, assim como a Mãe de Jesus foi virgem, também José o foi, porque [Deus] confiou a Virgem a um virgem tanto no fim como no princípio’. Que eles não possam de modo algum, contra os racionalistas e muitos outros, ser considerados irmãos germanos e uterinos de Jesus, é evidente com base nas passagens citadas e também em Lc 1, 34: ‘Porque não conheço varão’”.
  5. Para outros, a Maria dita esposa de Alfeu seria filha de Cléofas, de sorte que o genitivo de Cléofas seria de origem, não de posse (cf. Van Hasteren, Studien, vol. 65, p. 187).
  6. Cf. C. Pesch, Compendium Theologiæ Dogmaticæ. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1913, vol. 3, p. 104: “A Lei se aplica a Maria tal como soa e foi dada a todos, não para este [e aquele] caso particular. Jesus, que viera cumprir a Lei, quis também que este preceito fosse cumprido em si e em sua Mãe porque não poderia ser omitido sem escândalo para outros, e porque Ele mesmo era aquele a quem a Lei tipicamente prefigurava”.
  7. Cf. Santo Tomás de Aquino, STh III 28, 3c., onde dá quatro razões teológicas de conveniência para a virgindade de Maria após o parto: “1) Por parte de Cristo, que, do mesmo modo que o Unigênito do Pai segundo a divindade é perfeito Filho dele em tudo, assim convinha que fosse o Unigênito da Mãe, como fruto perfeitíssimo dela. — 2) Por parte do Espírito Santo, cujo sacrário foi o útero virginal no qual formou a carne de Cristo; donde, não convinha que fosse depois violado pela comistão viril. — 3) Por parte de Maria, Mãe de Deus, que pareceria ingratíssima se não se contentara com tão grande Filho, e se voluntariamente quisesse perder pelo concúbito da carne a virgindade que nela fora milagrosamente conservada. — 4) Por parte de São José, a quem se haveria de imputar a máxima presunção, se atentasse poluir aquela que, por revelação do anjo, soubera ter concebido a Deus. E por isso se deve afirmar absolutamente que a Mãe de Deus, assim como concebeu virgem e pariu virgem, assim também permaneceu virgem após o parto para sempre [in sempiternum]”.
  8. Cf. J.-B. Frey, La signification du terme πρωτότοκος d’aprés un inscription juive, em: Biblica, vol. 11, n.º 4 (1930), p. 386, ll. 5–6: “… ὠδεῖνι δὲ Μοῖρα / πρωτοτόκου με τέκνου πρὸς τέλος ἦγε βίου”.
  9. Já Helvídio pretendera impugnar a virgindade post partum nessa linha, interpretando “antes de coabitarem” (lt. priusquam convenirent) como “antes de se conhecerem”. São Jerônimo respondeu-lhe com seu habitual e cáustico bom humor (cf. De virg. perp. 4: PL 23, 195): Helvídio, antes de fazer penitência, morreu. Quer dizer então que se arrependeu depois de morto, embora diga a Escritura que “na morte não há quem se lembre de ti” (Sl 6, 6)? V. também J. Corluy, Commentarius in Evangelium S. Joannis. Gandavi, C. Poelman (ed.), 1878, p. 168.
  10. Cf. Dom Estevão Bettencourt, Pergunte e Responderemos, n.º 472 (2001), p. 432: “Não se pode esquecer que a língua grega dos evangelhos supõe um fundo semita, pois o Evangelho é a redação escrita da pregação oral dos Apóstolos feita em aramaico. Ora, em aramaico o vocábulo ’ach significa parente ou familiar, e é com este sentido amplo que ele é traduzido para o grego pelo termo ἀδελφός. Deve-se, pois, entender ἀδελφός no sentido de ’ach aramaico”.

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Uma epidemia oculta
Sociedade

Uma epidemia oculta

Uma epidemia oculta

Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices deste problema dobraram nas últimas décadas — como uma “epidemia oculta”, que ameaça jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Saiba do que se trata.

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Julho de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Um amigo trabalha numa clínica médica em uma cidade de médio porte no meio-oeste [N.T.: dos Estados Unidos, de onde fala o autor do texto]. Ele me falou sobre um tipo peculiar de paciente que aparece em busca de tratamento. São jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Pode-se dizer com segurança que são um grupo representativo da América.

O curioso é que esses pacientes não estão doentes.

Eles estão solitários. Ele me informou que médicos da equipe lhe disseram que é cada vez maior o número de pacientes que vão à clínica sem ter doença alguma. Embora tentem disfarçar, querem apenas conversar com alguém. Querem a atenção de alguém que se importe com eles. E os médicos frequentemente percebem que, nesses casos, o melhor remédio é uma boa conversa. Depois da consulta, eles saem do consultório felizes com alguma recomendação geral e ansiosos pelo próximo encontro.

O mundo lá fora é solitário e depressivo. No entanto, tudo leva a crer que essa história é um indício de que algo mais profundo está acontecendo. Isso tem origem no fato de que as relações sociais e a prática da virtude estão em frangalhos, e está cada dia mais difícil resolver esse problema.

Solidão: uma epidemia oculta. — A solidão é um problema muito real. Tem-se chamado esse problema de “epidemia oculta”, que ameaça muitos americanos. Mais de 40% dos adultos nos EUA dizem sentir-se sozinhos. Embora vivamos na época mais tecnologicamente conectada da história, os índices de solidão dobraram desde os anos 1980

A solidão afeta a saúde física, a longevidade, os níveis de estresse e a saúde mental. Também leva as pessoas a buscar refúgio nas drogas, nos opiáceos, na comida em excesso, na bebida e… nas conversas.

A solidão tem muitas causas. Uma delas é o fato de que muito mais pessoas vivem sozinhas hoje. O órgão norte-americano responsável pelo censo (U.S. Census Bureau) relata que um terço dos americanos com mais de 65 e a metade daqueles acima de 85 vivem sozinhos. A queda nas taxas de casamento e de fertilidade também contribui para a solidão. Com estilos de vida mais inconstantes, ficou mais fácil manter amigos e familiares mais distantes do que nas gerações passadas.

Juntos a sós. — Estar sozinho não é a única causa de solidão. Talvez não seja nem mesmo a causa mais comum. A solidão também pode afetar alguém que está cercado de gente. Nesse caso, o problema não está na falta de relacionamentos, mas no fato de que esses relacionamentos carecem de profundidade e sentido

Sociólogos como Sherry Turkle usaram expressões fortes como “estar juntos a sós” para descrever essa nova solidão. Ela descobriu que há um número crescente de pessoas que vivem com outras, mas usam aparelhos eletrônicos como mediadores da realidade. Esses aparelhos definitivamente não aumentam a conectividade. O que fazem é criar uma distância entre as pessoas, com sua velocidade, brevidade e distanciamento. Ao contrário do contato cara a cara, no contato virtual as pessoas podem facilmente se esconder umas das outras.

O autor Robert Putnam declara em seu livro Bowling Alone, referência no assunto, que a perda de envolvimento civil está destruindo a comunidade, apesar de viver em seu seio. Desde os anos 1960, houve um afastamento voluntário da comunidade que deixou as pessoas desorientadas e sozinhas.

Para piorar as coisas, os lugares em que as pessoas se reúnem hoje são estéreis e pouco convidativos. Lugares como centros comerciais, shoppings e aeroportos tornaram-se meros lugares de reuniões sociais, onde as pessoas ficam juntas (muitas vezes atadas a seus aparelhos celulares), mas não falam umas com as outras. Consequentemente, as pessoas se sentem sozinhas.

Desfazendo os laços comunitários. — Há ainda um terceiro tipo de solidão, o mais prevalente e profundo de todos. Consiste na solidão causada pelo rompimento dos velhos laços comunitários. Esse isolamento sempre assombrou a modernidade, e agora está assumindo formas mais radicais.

Os fortes laços morais da família, do trabalho, da comunidade e da igreja são aqueles que ligam uma pessoa a uma identidade firmemente enraizada na realidade da vida cotidiana. Eles envolvem a pessoa em uma vida comum dentro da virtude. Esses laços são os melhores remédios contra a solidão.

A modernidade está focada em indivíduos que constroem identidades a partir de seus entornos. As pessoas só cuidam de si mesmas. Assim, são encorajadas a engajar-se naquilo que Thomas Hobbes chamou de “guerra de todo homem contra todo homem”, que cria tensão, uma vez que todos são vistos como supostos competidores.

Com o enfraquecimento dos laços comunitários, os indivíduos modernos construíram alguma identidade em associações vagas, em grupos abstratos e impessoais, sejam eles partidos políticos, times esportivos, grupos empresariais ou movimentos sociais. 

Mas esses vínculos rasos não substituem nossa apaixonada necessidade de uma comunidade. Pelo contrário, promovem o individualismo e deixam as pessoas solitárias.

Criando uma identidade. — Essa situação ajuda a explicar a solidão atual. Agora, até mesmo essas estruturas sociais mais rasas da sociedade liberal estão abaladas e destruídas. Nosso problema, tanto à esquerda quanto à direita, é a inabilidade de encontrar uma identidade fora da comunidade e da virtude. Quando não conseguimos encontrar uma identidade, nós a “criamos”.

Assim, o estilhaçamento de todo gênero de comunidade deu origem à ascensão de políticas identitárias, de modo que as pessoas se identificam com um mundo como elas imaginam que deveria ser. A frenética intemperança do nosso tempo levou à derrocada de todo freio moral, o que permitiu que as pessoas se identificassem com o que quisessem. Ideias e sistemas ideológicos podem ser facilmente distorcidos para se conformar a uma realidade imaginária quando não há âncoras sociais.

O resultado é que as pessoas não sabem quem são. Estão despedaçadas e solitárias.

A busca pela vida em comunidade não será negada. — Qual é a solução para essa terrível solidão que assombra nossa sociedade em ruínas? A maioria dos especialistas aponta para os governos. Eles irão encarregar assistentes sociais de visitar ou ligar para as pessoas solitárias. Eles tentarão mobilizar redes de voluntários para manter os solitários ocupados. Eles buscarão maneiras de forjar relacionamentos mecânicos entre as pessoas. Eles farão montanhas de estudos sobre a solidão. No Reino Unido, já nomearam até um Ministro para a Solidão.

Contudo, essas soluções só tratam os sintomas, não as causas. Como os pacientes que vão ao médico sem ter qualquer doença, as pessoas solitárias não estão em busca de qualquer relacionamento. Elas buscam relacionamentos profundos que expressem uma preocupação verdadeira e lhes confiram uma identidade. Estão procurando uma vida comunitária.

“A busca pela vida em comunidade não será negada”, escreve o sociólogo Robert Nisbet, “pois surge de algumas das poderosas necessidades da natureza humana — necessidades de um claro senso de propósito cultural, associação, posição e continuidade”.

Essa busca vigorosa por uma verdadeira vida comunitária é o que está faltando aos esforços para superar a epidemia de solidão. Os esforços atuais não fazem nada para minar a presente cultura hedonista e individualista, que produz uma multidão de pessoas solitárias.

Laços comunitários. — Alguém poderia objetar que não é fácil restabelecer laços comunitários. Isso é verdade, uma vez que todas as coisas de valor exigem esforço e sacrifício. Porém, esses laços, sendo naturais, são acessíveis.

O vínculo familiar é o primeiro e mais fundamental de todos. Quando as pessoas mantêm e fortalecem esse vínculo, ele é um meio excelente de evitar a solidão. 

O vínculo mais vigoroso e acessível é aquele que se dá entre o indivíduo e Deus por meio da Igreja. Qualquer um, por mais solitário que esteja, pode recorrer a Deus e ser atendido. Quando esse vínculo vai bem, todos os outros também podem ir. 

A única solução real para a solidão é um retorno à ordem moral. Até lá, seremos como pacientes que pedem um tratamento para doenças indeterminadas que contaminam nossa sociedade solitária e em ruínas.

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