O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?
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O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?
Sociedade

O que o Canadá tem a nos ensinar
sobre o “casamento” homossexual?

O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?

O Canadá tem muito a ensinar sobre os impactos do “casamento” homossexual na sociedade. Nunca se viram tantas restrições aos direitos fundamentais dos pais e instituições religiosas, por exemplo, sem contar o enfraquecimento da cultura matrimonial.

Bradley MillerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2017Tempo de leitura: 13 minutos
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[Este texto é de 2012.]

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

Não se tem poupado esforços nas discussões a esse respeito. No entanto, a falta de experiência, até o momento, com o “casamento” homossexual no Brasil, não nos dá nenhuma resposta concreta. Por isso, é razoável levar em consideração a experiência canadense, já que o Canadá foi o primeiro país a reconhecer legalmente, em 2002, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Existem, é claro, sensíveis diferenças culturais e institucionais entre os dois países e, como sucede em todo e qualquer assunto público, tudo depende das ações dos protagonistas políticos e culturais de cada lugar. Isso significa, em outras palavras, que não é cem por cento seguro presumir que a experiência canadense se repetirá no Brasil. Em todo caso, ela deveria ser levada em conta. De fato, o que se tem passado no Canadá constitui a melhor evidência que temos à disposição sobre os impactos a curto prazo do “casamento” homossexual em uma sociedade democrática.

Qualquer pessoa interessada em avaliar o impacto do “casamento” homossexual na vida pública deveria investigar os seus efeitos a partir de três pontos de vista: 

  1. em primeiro lugar, no âmbito dos direitos humanos (incluídos aí os impactos sobre os direitos à liberdade de expressão, os direitos dos pais na educação pública e a autonomia das instituições religiosas); 
  2. em segundo lugar, da perspectiva aberta pelo “casamento” homossexual à possibilidade de se reconhecerem como matrimônios outros tipos de relacionamento como, por exemplo, a poligamia; 
  3. por fim, no âmbito da prática social do casamento.

Impacto sobre os direitos humanos

No Canadá, o resultado formal das decisões judiciais (e da legislação consequente) que institucionalizaram o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi o mero reconhecimento governamental do relacionamento de tais pessoas como um verdadeiro matrimônio; os seus efeitos culturais e legais, no entanto, foram muito mais amplos. O que ocorreu de fato foi a adoção de uma nova “ortodoxia”: as relações homossexuais equivalem agora, sem restrições, ao casamento tradicional e devem, portanto, ser tratadas em pé de igualdade com ele perante a lei e a sociedade.

Como consequência disso, quem quer que rejeite essa nova “ortodoxia” é considerado um intolerante, animosamente contrário a gays e lésbicas; qualquer expressão de desacordo com a ideia de “casamento” homossexual é qualificada automaticamente de “ódio” contra uma minoria sexual; despreza-se sem piscar como mero “pretexto” qualquer oposição razoável como, por exemplo, as que embasaram argumentos jurídicos segundo os quais o “casamento” homossexual é incompatível com uma concepção de matrimônio — chamada às vezes “concepção conjugal” — que responda à necessidade que têm as crianças de crescer dentro de uma união estável, fiel e permanente [1].

Quando se passa a ver na oposição ao “casamento” homossexual manifestações de intolerância e ódio, então se torna bastante difícil suportar por muito tempo as divergências. Foi assim que no Canadá se modificaram à pressa os termos de participação na vida pública. Foram os oficiais responsáveis pela celebração de uniões civis os primeiros a sentir a dureza da nova “ortodoxia”; muitas províncias recusaram-lhes o direito de objeção de consciência a presidir celebrações de casamentos homossexuais e obrigaram-nos a desligar-se de suas funções [2]. Ao mesmo tempo, entidades religiosas como os Cavaleiros de Colombo foram multadas por se recusarem a disponibilizar suas dependências para festas de casamento [3].

O direito à liberdade de expressão

Os efeitos da nova “ortodoxia”, porém, não se limitam ao número, relativamente pequeno, de pessoas em risco de ser obrigadas a auxiliar ou presidir a celebração de um casamento homossexual; a mudança, pelo contrário, tem atingido muitas pessoas, inclusive clérigos, que desejam tornar público o que pensam acerca da sexualidade humana.

Muito do que se podia opinar antes sobre o “casamento” homossexual, agora é arriscado dizê-lo; muitos dos que persistiram abertamente em discordar tornaram-se objeto de investigação de comissões de direitos humanos e, em alguns casos, foram até mesmos processados e levados a tribunais de direitos humanos. As pessoas carentes sem boa formação e afiliação institucional têm sido, de modo particular, alvos fáceis, já que as leis antidiscriminação nem sempre são aplicadas de maneira igualitária; algumas delas foram obrigadas a pagar multas, desculpar-se e nunca mais tocar no assunto em público outra vez [4]. Entre os alvos contam-se pessoas que apenas escreveram cartas aos editores de um jornal local [5], além de ministros de pequenas congregações cristãs [6]. Um bispo católico foi denunciado duas vezes — ambas as denúncias foram revogadas — devido a comentários feitos por ele numa circular sobre matrimônio [7].

Muitas cortes de revisão começaram a tomar as rédeas nas comissões e tribunais (sobretudo depois de alguns processos mal instruídos contra o jornalista Mark Steyn e a revista Maclean’s em 2009) [8], e vêm defendendo uma compreensão mais abrangente do direito à liberdade de expressão. Em resposta aos protestos públicos que se seguiram ao caso de Steyn e Maclean’s, o Parlamento do Canadá revogou recentemente uma disposição da Comissão Canadense de Direitos Humanos que previa instrumentos legais contra os “discursos de ódio”.

Como quer que seja, o custo despendido na luta contra a maquinaria dos direitos humanos continua gigantesco: só a revista Maclean’s gastou centenas de milhares de dólares com taxas judiciais, nenhuma das quais lhe será devolvida pelas comissões, tribunais e denunciantes a que foram entregues. E casos como este podem levar até dez anos para ser resolvidos. Um pessoa comum, com poucos recursos e que porventura tenha chamado a atenção de uma comissão de direitos humanos, não tem a quem recorrer, nem mesmo às cortes de apelação; a alguém nestas condições resta apenas aceitar as advertências da comissão, pagar uma (relativamente) pequena multa e obedecer à orientação de ficar em silêncio para sempre. Enquanto estes instrumentos estiverem à disposição das comissões, das quais a nova ortodoxia não permite discordar, discutir publicamente a respeito do “casamento” homossexual significa expor-se ao perigo de ser condenado judicialmente.

Uma pressão semelhante sobre quem discorda pode ser, e é efetivamente exercida, por profissionais à frente de organizações como associações de bares, corpos docentes etc., que têm o poder jurídico de punir seus membros por condutas incompatíveis com a profissão [9]. Manifestações de discordância com a razoabilidade de tornar institucional o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo são entendidas por esses organismos como atos de discriminação ilegal, o que abre a possibilidade de censura profissional.

Os professores constituem, em particular, um grupo de risco e muito suscetível a medidas disciplinares; com efeito, mesmo os que se manifestam contra o “casamento” homossexual apenas fora de sala de aula são acusados de criar um ambiente hostil a estudantes gays e lésbicas [10]. Por já terem assimilado a nova “ortodoxia”, a cujos olhos discordar do “casamento” homossexual é uma injusta discriminação que jamais se pode tolerar, outros grupos profissionais e associações de voluntariado vêm adotando políticas parecidas [11].

Os direitos dos pais na educação pública

A institucionalização do “casamento” homossexual mudou rápida e drasticamente os direitos parentais na educação pública. O debate sobre como abordar em classe o tema do “casamento” gay é muito parecido com a discussão sobre o papel da educação sexual nas escolas e as pretensões do governo de exercer sobre as crianças uma autoridade primária. A educação sexual, entretanto, foi sempre um assunto discreto, no sentido de que, por sua própria natureza, ele é incapaz de permear todo o currículo escolar; o “casamento” homossexual, por outro lado, é algo totalmente distinto.

Dado que um dos princípios da nova “ortodoxia” é a necessidade de tratar o “casamento” homossexual com o mesmo respeito com que tratamos o matrimônio tradicional, os seus proponentes têm se saído muito bem na hora de exigir que o “casamento” gay seja retratado positivamente em sala de aula. As reformas curriculares levadas a cabo em jurisdições como, por exemplo, a Colúmbia Britânica, agora impedem os pais de exercer o seu poder de veto em matérias referentes a práticas educacionais controversas [12].

Os novos currículos estão permeados de referências positivas ao “casamento” gay, não em uma ou outra disciplina, senão em todas. Diante dessa artimanha, a única defesa que sobra aos pais é retirar de uma vez por todas a criança do sistema público de ensino. As cortes têm se mostrado muito pouco favoráveis às reclamações dos pais: se estes estão se apegando a fanatismos fora de moda, então as crianças serão obrigadas a carregar o fardo de uma “dissonância cognitiva”, pois têm de aprender coisas conflitantes em casa e na escola, enquanto esta tenta sair vencedora.

As reformas, é claro, não foram vendidas ao público como uma maneira de implementar e reforçar a nova “ortodoxia”; ao contrário, a razão apresentada foi a urgência de combater o bullying, quer dizer, de promover a aceitação de jovens gays, lésbicas e crianças vindas de lares homossexuais [13].

É louvável querer acolher toda e qualquer pessoa; mas, independentemente do que se tenha dito, os meios escolhidos para alcançar esse objetivo constituem um grave atentado contra a família. Trata-se nada menos do que a doutrinação premeditada das crianças, sem embargo da oposição paterna, conduzidas a aceitar uma concepção de casamento que é fundamentalmente hostil ao que seus pais crêem ser bom para elas. Tudo isso subtrai aos pais o poder de transmitir aos filhos uma compreensão do matrimônio que lhes permita amadurecer e tornar-se adultos; já desde pequenas as crianças são ensinadas a desprezar a lógica do casamento e a entendê-lo como um simples meio de satisfazer o desejo que têm os adultos de encontrar um “parceiro” ou uma “companhia”.

O direito de autonomia das instituições religiosas

Num primeiro momento, os clérigos e os centros religiosos pareciam de todo imunes à obrigação de aceitar ou celebrar “casamentos” homossexuais. Com efeito, esta foi a grande promessa da legislação pró-“casamento” gay: os clérigos continuariam a ter o direito a não celebrar um casamento que lhes ferisse as convicções religiosas; as casas de culto, por sua vez, não poderiam ser contratadas sem o consentimento de suas respectivas autoridades [14].

Deveria ter ficado claro desde o começo o quão estreitas eram estas garantias. Elas apenas impediam que clérigos fossem obrigados a celebrar cerimônias matrimoniais; o que elas não protegiam da vigilância das comissões de direitos humanos, como vimos acima, eram os sermões e as circulares pastorais. As congregações tornaram-se, pois, vulneráveis a intervenções judiciais, caso se recusassem a ceder seus espaços a casais do mesmo sexo que ali quisessem celebrar seu “casamento”; o mesmo vale para toda organização que não deseje disponibilizar suas dependências para promover uma visão da sexualidade diametralmente oposta à defendida por ela.

As referidas garantias tampouco impedem que os governos municipal e provincial privem entidades religiosas de seus lucros por causa do que ensinam sobre o matrimônio. A Bill 13, por exemplo, o mesmo estatuto de Ontário que obriga colégios católicos a permitir a abertura e manutenção de clubes gays, também proíbe que escolas públicas aluguem suas instalações a quem não concorda com o “código de conduta” exigido pela nova “ortodoxia” [15]. Ora, dado que muitas congregações cristãs de pequena proporção alugam auditórios escolares para realizar seus ofícios e cultos, é bastante fácil dar-se conta de sua vulnerabilidade.

Mudanças na concepção pública de matrimônio

Tem-se argumentado que, se o “casamento” gay é institucionalizado, então se devem aceitar também novas “categorias maritais”, como a poligamia. A partir do momento em que abandonamos uma concepção conjugal do matrimônio e a substituímos por uma visão centrada na figura do “parceiro” adulto, então já não há nada mais em que nos possamos basear para resistir à expansão do estatuto de “matrimônio” a uniões poligâmicas e poliamorosas, por exemplo.

Noutras palavras, se o casamento se resume à satisfação de um desejo por “companhia”, qualquer que seja ela, e se o desejo de alguns se estende a novos tipos de configuração familiar, com que direito lhes podemos negar a satisfação desse desejo? Não é aqui minha intenção tomar partido a esse respeito; pretendo tão-somente descrever como esta situação se desenvolveu no Canadá.

Uma conhecida comunidade polígama na Colúmbia Britânica esteve fortemente envolvida na promoção do “casamento” homossexual, e saiu a público para defender que não havia razão alguma que fundamentasse a atual criminalização da poligamia no Canadá. Dentre todas as cortes do país, somente um tribunal de primeira instância na Colúmbia Britânica pôs em juízo se a proibição da poligamia tem base na Constituição nacional, e endereçou ao governo da província uma opinião prévia sobre o assunto [16].

A criminalização da poligamia foi mantida, mas sobre uma frágil base que a define em termos de contração múltipla e simultânea de vários casamentos civis. A corte, em todo caso, não abordou o fenômeno da celebração de múltiplas uniões estáveis. Por isso, as formas preponderantes de poligamia e poliamor até o momento não foram admitidas pelo direito canadense, mas nem uma nem outra encontram impedimentos na prática.

O que fica de lição é o seguinte: uma sociedade que institucionaliza o “casamento homossexual” não institucionaliza, necessariamente, a poligamia. O exemplo da Colúmbia Britânica, ainda assim, sugere que de uma à outra coisa basta um passo.  Os argumentos brandidos pelos defensores da poligamia não explicam de forma convincente por que é discriminação negar às uniões homossexuais e lésbicas o rótulo de “matrimônio”, mas não o seria negá-lo aos polígamos e adeptos do poliamor. De fato, o veredito parece indicar que o problema reside no “preconceito” contra a poligamia e o poliamor, que não são um instituto jurídico estável.

O impacto na prática matrimonial

No que diz respeito à prática matrimonial, é ainda muito cedo para tirar conclusões. As informações colhidas no censo de 2011 mostram, em primeiro lugar, que o matrimônio está em decadência no Canadá, assim como em todo o resto do Ocidente; em segundo, que o “casamento” gay é, do ponto de vista estatístico, um fenômeno raro; e, por fim, que há muito poucos casais homossexuais (estejam ou não casados) que tenham crianças em casa [17].

Dentre os 6,29 milhões de matrimônios existentes no Canadá, aproximadamente 21.000 são homossexuais. Os casais do mesmo sexo, casados legalmente ou não, constituem 0,8% de todos os casais no país; 9,4% dos 65.575 de casais homossexuais (incluídos os casados civilmente e as uniões estáveis) têm crianças em casa, e 80% deles são formados por lésbicas. O Canadá deixou de contabilizar os divórcios a partir de 2008, e desde então não tem disponibilizado nenhuma informação sobre a incidência de divórcios na comunidade homossexual.

O que podemos deduzir de tudo isso é que o “casamento” gay, ao contrário do que previam os argumentos a seu favor, não tem revitalizado a cultura matrimonial no Canadá; tampouco existe, de qualquer modo, um censo ou banco de dados que forneça argumentos empíricos que permitam vincular a institucionalização do “casamento” homossexual à estabilidade matrimonial.

À falta de dados concretos (indisponíveis no Canadá) acerca das taxas de divórcios, só nos restam argumentos conceituais, que têm de ser avaliados por sua coerência. Neste caso, a experiência canadense não nos é de muita ajuda. E aqui podemos fazer-nos a pergunta: a institucionalização do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo baseia-se numa concepção de matrimônio que prioriza a estabilidade, como o faz a concepção conjugal? Se a resposta for negativa, então podemos crer com tranquilidade que o “casamento” gay irá acelerar a aprovação cultural de uma concepção de matrimônio — o modelo do “parceiro” adulto — que vem fazendo muito mal à sociedade ao longo das últimas cinco décadas.

Referências

  1. Cf., v.g., os comentários do Min. LaForme em Halpern v. Canada (AG), 2002 CanLII 49633 (On SC), paras. 242-43.
  2. Cf., v.g., Saskatchewan: Marriage Commissioners Appointed Under the Marriage Act (Re), 2011 SKCA 3.
  3. Smith and Chymyshyn v. Knights of Columbus and others, 2005 BCHRT 544.
  4. Cf. o remédio imposto pela Comissão de Direitos Humanos de Alberta (derrubada depois em revisão judicial) em Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300.
  5. Whatcott v. Saskatchewan Human Rights Commission, 2010 SKCA 26; Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300; Kempling v. British Columbia College of Teachers, 2005 BCCA 327 (CanLII).
  6. Lund v. Boissoin, 2012 ABCA 300.
  7. Fred Henry, Bispo de Calgary, Alberta; destaque-se também a experiência do Pe. Alphonse de Valk, editor de Catholic Insight, que despendeu $20.000 em sua defesa numa queixa de direitos humanos, a qual, no fim, foi recusada.
  8. Maclean's Responses To Recent Decision From The Canadian Human Rights Commission.
  9. V.g., Kempling v. British Columbia College of Teachers, 2005 BCCA 327 (CanLII).
  10. Ibid.
  11. V.g., a demissão do locutor esportivo de Ontário, Damian Goddard, da Sportsnet, por ele ter defendido em seu Twitter o matrimônio tradicional: “Broadcaster fired after controversial tweet files human rights complaint”, National Post, June 23, 2011.
  12. Scolaire de Chenes; Glen Hansman, “Parents cannot ‘opt out’ of provincial curriculum: clarifying alternative delivery”, BC Teachers’ Federation Teacher Newsmagazine, v. 19, n. 2, October 2006.
  13. Cf. o preâmbulo ao Accepting Schools Act, de Ontário, S.O. 2012 C.5. Cf. também  Chamberlain v. Surrey School District No. 36, [2002] 4 S.C.R. 710; S.L. v. Commission scolaire des Chenes, [2012] 1 S.C.R. 235.
  14. Civil Marriage Act, S.C. 2005 c. 33, ss. 3 – 3.1.
  15. Accepting Schools Act, S.O. 2012 C.5.
  16. Reference re: Section 293 of the Criminal Code of Canada, 2011 BCSC 1588.
  17. As estatísticas em seguida são tiradas do site Statistics Canada.

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O que eles tinham que está nos faltando?
Santos & Mártires

O que eles tinham
que está nos faltando?

O que eles tinham que está nos faltando?

“Os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”. Mas como foi possível que eles amassem com tanta generosidade? O que tinham eles, e os santos de modo geral, que está nos faltando?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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São Francisco de Sales diz em sua Filoteia que “os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”.

Tudo bem, mas… devotos? Fogueiras e ferros em brasa parecem combinar muito mais com coragem e fortaleza do que com devoção.

Calma, sua surpresa é perfeitamente compreensível. Em geral, usamos a palavra “devoção” num sentido genérico, para designar ou uma prática religiosa qualquer: “Eu faço a devoção dos cinco primeiros sábados…”, ou a nossa afeição a um santo determinado: “Eu tenho devoção a São José...”. 

São Francisco de Sales, porém, faz referência, aqui, a uma disposição interior bem específica: a de querer cumprir a vontade de Deus de modo imediato. Sem hesitar, reclamar ou procrastinar. Devoção, para ele, é sinônimo de “prontidão”.

Para ilustrar a ideia, talvez seja melhor recorrer a uma antítese, isto é, a um exemplo do contrário. Quando sua mãe, em casa, pede de você alguma tarefa, qual é sua reação? Se o seu normal é espreguiçar, demorar para levantar, caminhar como um “boi manso” e fazer tudo no seu tempo... devoção é uma coisa que, definitivamente, está faltando em sua vida.

Como sair disso, no entanto, para o grande testemunho que deram os mártires?

A resposta está no que vai dentro de nós, o nosso “homem interior”. Os mártires só deixavam seus corpos serem lançados às fogueiras por causa da “fogueira” ardente de caridade que já traziam em suas almas. Só aceitavam que os ferros em brasa marcassem suas peles porque seus próprios corações já estavam abrasados no amor a Deus.

No dia a dia, também temos as nossas “fogueiras” e “ferros”, “rodas” e “espadas”: são as nossas práticas de oração, os membros de nossa família, a quem devemos servir, e também os nossos instrumentos de trabalho. Porém, só seremos capazes de enxergar em tudo isso “flores e perfumes”, como fizeram os mártires, se os imitarmos no amor — se nos tornarmos, como eles, devotos, prontos, rápidos para servir.

Se você está inerte, dormente ou “morto” por dentro — é hora de acordar, “ressuscitar”, fazer queimar em seu interior uma chama que consome e faz agir. 

Comece pedindo a Deus esse fogo, e depois trabalhe incessantemente para não perdê-lo. Nisto consiste, em poucas palavras, a jornada da nossa vida

E é também este o objetivo de nosso próximo projeto, “Direção Espiritual: a Jornada”. Fique por dentro do que estamos preparando para você, cadastre-se em nossa lista para esse novo conteúdo e prepare-se desde já para a nossa transmissão de abertura de inscrições, na próxima segunda-feira, 20 de setembro, às 21h!

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Novena ao Padre Pio
Oração

Novena ao Padre Pio

Novena ao Padre Pio

Junto com esta novena de orações ao extraordinário São Pio de Pietrelcina, reze também a coroinha do Sagrado Coração de Jesus, que o frade dos estigmas rezava “diariamente, na intenção de todos que se recomendavam a suas orações”.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Esta novena ao Padre Pio pode ser rezada a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 14 a 22 de setembro, nos nove dias que antecedem a memória litúrgica do santo de Pietrelcina (em 23 de setembro).

Os textos dos dias da novena — que mencionam fatos, devoções e frases do Padre Pio — foram retirados de vários lugares da internet, em língua inglesa e italiana, e devidamente adaptados para esta publicação. A coroinha do Sagrado Coração de Jesus foi extraída da obra Palavras de luz: florilégio do epistolário (São Paulo: Loyola, 2001, pp. 253-254), segundo a qual “Padre Pio rezava esta coroinha diariamente, na intenção de todos os que se recomendavam a suas orações”. A oração final, enfim, foi traduzida por nossa equipe a partir da oração Coleta em latim para a Missa própria do santo.

Quem conhece este santo do século XX, ainda que em linhas gerais, nem sequer precisa ser convencido da importância de seu culto e intercessão. Padre Pio foi um sacerdote extraordinário. Os milagres portentosos que, ainda em vida, Deus se dignou realizar por suas mãos, são um verdadeiro “tapa na cara” do homem moderno, tão cético, descrente e “cego” para as coisas do alto. 

Para os que ainda não sabem de sua história, no entanto, intercalamos as orações da novena com alguns vídeos do Padre Paulo Ricardo a seu respeito.


1.º dia

São Pio de Pietrelcina, que trouxestes em vosso corpo os sinais da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e carregastes a cruz por todos nós, suportando os sofrimentos físicos e morais que vos flagelavam a alma e o corpo num martírio contínuo: intercedei junto a Deus, para que cada um de nós saiba aceitar as pequenas e as grandes cruzes da vida, transformando cada sofrimento num vínculo inabalável que nos una à vida eterna.

“Acostuma-te com os padecimentos que Jesus mandar. O Senhor, que sofre com tua aflição, virá para consolar-te, infundindo muitas graças em tua alma” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

2.º dia

São Pio de Pietrelcina, que junto a Nosso Senhor Jesus Cristo soubestes resistir às tentações do maligno e sofrestes os golpes e as vexações dos demônios que queriam levar-vos a abandonar vossa estrada de santidade: intercedei junto ao Altíssimo, para que também nós, com o vosso auxílio, encontremos a força necessária para renunciar ao pecado e conservar a fé até o dia de nossa morte.

“Na verdade, as tentações a que tenho sido sujeito são muitíssimas; porém, confio na divina Providência em que não cairei nos laços do enganador” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

3.º dia

São Pio de Pietrelcina, que amastes tanto a Mãe celeste, que dela recebestes diariamente graças e consolações: intercedei por nós junto à Virgem Santa, colocando em suas mãos os nossos pecados e as nossas tíbias orações, a fim de que, assim como em Caná da Galileia, o Filho diga sim à Mãe e o nosso nome seja escrito no livro da vida.

“Que Maria seja a estrela que vos aclare o caminho e mostre como ir com segurança ao Pai celeste; que ela seja como uma âncora à qual deveis sempre vos agarrar, sobretudo nos momentos de provação” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

4.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes vosso anjo da guarda, o qual foi vosso guia, defensor e mensageiro; a vós os seres angélicos levaram as preces de vossos filhos espirituais: intercedei junto ao Senhor, para que também nós aprendamos a invocar o nosso anjo da guarda, que durante toda a nossa vida está pronto para nos sugerir o caminho do bem e nos dissuadir de fazer o mal.

“Invoca o teu anjo da guarda, que te iluminará e conduzirá. O Senhor colocou-o perto de ti justamente para isso. Por isso, serve-te dele” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

(Recomendamos aos nossos alunos que assistam à aula 13 de nosso curso “Anjos e Demônios”, na qual Pe. Paulo Ricardo comenta uma carta escrita pelo Padre Pio a uma filha espiritual justamente sobre os anjos da guarda.)

5.º dia

São Pio de Pietrelcina, que nutristes uma grandíssima devoção às almas do purgatório, pelas quais vos oferecestes como vítima expiatória: rogai ao Senhor que infunda em nós o sentimento de compaixão e de amor que vós tínheis por essas almas, para que também nós consigamos reduzir-lhes o tempo de purgação, buscando, com sacrifícios e orações, ganhar para elas as santas indulgências de que necessitam.

“A vós, Senhor, suplico-vos que derrameis sobre mim os castigos reservados aos pecadores e às almas do purgatório; multiplicai-os em mim, contanto que convertam e salvem os pecadores e libertem em breve as almas do purgatório” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

6.º dia

São Pio de Pietrelcina, que amastes os enfermos mais do que a vós mesmo, vendo neles Jesus, e em nome do Senhor operastes milagres de curas no corpo, devolvendo a esperança de vida e a renovação no Espírito: rogai ao Senhor para que todos os enfermos, por intercessão de Maria Santíssima, possam experimentar vosso poderoso patrocínio e, por meio da cura física, possam colher vantagens espirituais que os levem a agradecer ao Senhor e a louvá-lo eternamente.

“Se, depois, eu sei que uma pessoa está aflita, seja na alma ou no corpo, o que eu não faria junto com o Senhor para vê-la livre de seus males? Com prazer carregaria sobre mim todas as suas aflições, para vê-la salva, oferecendo em seu favor os frutos de tais sofrimentos, se o Senhor assim me permitisse” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

7.º dia

São Pio de Pietrelcina, que aderistes ao projeto de salvação do Senhor, oferecendo vossos sofrimentos para libertar os pecadores dos armadilhas de Satanás: intercedei junto a Deus para que os que não creem tenham a fé e se convertam; os pecadores se arrependam do fundo do coração; os tíbios se afervorem na vida cristã; e os justos perseverem no caminho da salvação.

“Se o pobre mundo pudesse ver a beleza da alma na graça, todos os pecadores e todos os incrédulos se converteriam no mesmo instante” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

8.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes vossos filhos espirituais, muitos dos quais conquistastes para Cristo ao preço de vosso sangue: concedei também a nós, que não vos conhecemos pessoalmente, considerar-nos vossos filhos espirituais. Com a vossa paterna proteção, com a vossa santa guia e com a força que nos obtereis do Senhor, poderemos, no momento da morte, encontrar-vos às portas do Paraíso à espera de nossa chegada.

“Felizes aquelas almas inscritas no livro da vida eterna! Mil vezes felizes aquelas almas que em vida conseguem ser as filhas prediletas do divino Coração!” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

9.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes a Santa Mãe Igreja: intercedei junto ao Senhor para que mande operários para sua messe e dê a cada um deles a força e a inspiração dos filhos de Deus. Pedimos-vos também que intercedais junto à Virgem Maria para que ela faça retornar ao seio da verdadeira Igreja os que erram fora dela, abrigados por fim no único redil de Cristo, farol de salvação no mar tempestuoso desta vida.

“Permanece sempre agarrado à Santa Igreja Católica, porque só ela pode dar a verdadeira paz, pois só ela possui Jesus sacramentado, o verdadeiro Príncipe da Paz” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

Coroinha do Sagrado Coração de Jesus 

  1. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, pedi e recebereis, buscai e encontrareis, batei e vos será aberto”, aqui estou batendo, buscando, pedindo a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.
  2. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederá”, ao vosso Pai, em vosso nome, eu peço a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.
  3. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras nunca”, apoiando-me na infalibilidade de vossas santas palavras, eu peço a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.

Ó Sagrado Coração de Jesus, a quem é impossível não ter compaixão dos infelizes, tende piedade de nós, míseros pecadores, e concedei-nos as graças que vos pedimos por meio do Imaculado Coração de Maria, vossa e nossa terna Mãe.

São José, pai adotivo do Sagrado Coração de Jesus, rogai por nós! 

Salve Rainha, Mãe de misericórdia...

Oração final

Deus eterno e todo-poderoso, que destes a São Pio, presbítero, a graça singular de tomar parte na crucificação do vosso Filho, e que por seu ministério renovastes as maravilhas de vossa misericórdia, concedei-nos por sua intercessão que, associados continuamente aos sofrimentos de Cristo, sejamos com alegria conduzidos à glória da ressurreição. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

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História, lendas e relíquias da Vera Cruz
História da Igreja

História, lendas
e relíquias da Vera Cruz

História, lendas e relíquias da Vera Cruz

O lenho “do qual pendeu a salvação do mundo” tem uma história, lendas ricas em simbolismo foram escritas a seu respeito e, desde a sua descoberta, no século IV, seus fragmentos estão dispersos pelo mundo inteiro.

Sandra MieselTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Ecce lignum Crucis in quo salus mundi pependit — “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. 

Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet — “Doce lenho e doces cravos, que tão doce peso sustentastes” (Hino de Sexta-feira Santa).

Os seguidores de Nosso Senhor sempre prezaram pelas relíquias da Paixão. A Vera Cruz, o lenho real no qual Jesus foi crucificado, tem chamado a atenção de modo especial desde o reinado do Imperador Constantino. Depois de ter legalizado a religião cristã em 313, sua devota mãe, Helena, viajou até a Terra Santa para visitar lugares bíblicos e construir igrejas. 

Em 326, ela encontrou em Jerusalém o que julgavam ser a Cruz original, fonte de todas as relíquias de madeira do mundo. Estava enterrada profundamente sob um templo de Vênus/Afrodite, que o imperador pagão Adriano havia construído sobre o Gólgota dois séculos antes, depois da segunda rebelião dos judeus. Para homenagear o local, em 333 Constantino terminou a primeira Igreja do Santo Sepulcro, uma estrutura que abarcava a rocha do Calvário e o túmulo onde Jesus ressuscitou.

Não há nenhum registro de testemunhas oculares da escavação de Santa Helena. Eusébio, historiador da Igreja, diz apenas que Constantino ordenou que o bispo de Jerusalém procurasse a Cruz e que Santa Helena visitou o local em 326. As referências mais antigas a respeito do papel da imperatriz na escavação datam da última década do séc. IV. São elas a História Eclesiástica de Gelásio de Cesareia e a oração fúnebre para o Imperador Teodósio I, de 395.

Santa Helena, no entanto, levou para seu palácio em Roma algumas de suas descobertas. Parte desse complexo imperial tornou-se a Igreja da Santa Cruz em Jerusalém, uma das sete igrejas estacionais antigas da Igreja. Ainda há nela um letreiro de madeira que é considerado o titulus pregado acima da cabeça do Salvador crucificado. 

Alguns anos após o retorno de Santa Helena, surgiram relatos de que as relíquias da Vera Cruz estariam se espalhando pelo Império. As catequeses escritas antes de 350 por Cirilo, bispo de Jerusalém, declararam: “O mundo inteiro já está cheio de fragmentos da Cruz”. Uma mulher chamada Egéria, que fez uma peregrinação da Espanha até o Oriente Próximo (382–84), descreve os rituais solenes em Jerusalém em honra do Lenho Sagrado na Sexta-feira da Paixão e no aniversário de sua descoberta (3 de maio).

À medida que se espalhavam pela cristandade, as relíquias da Vera Cruz serviram de inspiração. Quando, em 569, o imperador bizantino enviou uma dessas relíquias ao convento de Santa Radegunda em Poitiers, o capelão do local, São Venâncio Fortunato, escreveu dois grandes hinos: Vexilla regis prodeunt e Pange, lingua, gloriosi lauream certaminis, cantados até hoje nas liturgias da Sexta-feira da Paixão. O primeiro deles foi também a canção de marcha dos cruzados medievais. Tais presentes encantavam os governantes piedosos. O rei Alfredo, o Grande, recebeu uma relíquia da Vera Cruz do Papa Martinho I, em 884. Isso pode ter levado um poeta anglo-saxão anônimo a escrever O sonho da Cruz, uma maravilhosa reconstrução da Paixão de Cristo na linguagem heroica do Norte.

O Tríptico de Stavelot.

As relíquias da Vera Cruz passaram então a precisar de relicários dignos de sua singularidade. Um glorioso exemplo é o Tríptico de Stavelot, feito no vale do rio Mosa por volta do ano de 1150, hoje propriedade valiosa da Biblioteca e Museu Morgan, na cidade de Nova Iorque. Ele mostra um pedaço do Madeiro Santo em forma de cruz, em um painel dourado decorado com gemas, prata e requintados medalhões esmaltados narrando a conversão de Constantino e a descoberta de Santa Helena. Constantino, considerado santo em Bizâncio, e Santa Helena também figuram abaixo da relíquia como as usuais imagens de Maria e São João nas cenas da crucifixão. A Cruz foi e continua a ser o emblema de Santa Helena na arte religiosa, tanto no Ocidente quanto no Oriente.

Surgiram lendas ricas em simbolismo em torno da descoberta de Santa Helena. Há uma versão recheadíssima e confusa na Legenda Áurea, de Tiago de Voragine (1260), o livro mais popular de vidas de santos e grande deleite na Idade Média. Sua principal fonte é um texto apócrifo do séc. V conhecido como Atos de Judas Ciríaco. (Algumas ilustrações dos episódios podem ser encontradas nas Horas de Catarina de Cleves, manuscrito de meados do séc. XV, atualmente na Biblioteca e Museu Morgan.)

Enquanto Adão jazia moribundo, seu virtuoso filho Set voltou ao portão do Paraíso para implorar a São Miguel Arcanjo um remédio para o pai. Miguel deu-lhe um galho da Árvore da Misericórdia (outras fontes dizem que era a Árvore do Conhecimento pela qual Adão e Eva vieram a pecar). O anjo prometeu que Adão seria curado no dia em que uma árvore nascida desse ramo frutificasse.

Mas Adão já estava morto quando Set voltou para casa, de modo que ele plantou o ramo maravilhoso na sepultura do pai. O ramo cresceu e deu origem a uma árvore esplêndida que ainda florescia milhares de anos depois, no reinado de Salomão. (Algo que está implícito aqui, mas explícito alhures, é que Adão foi sepultado sob o lugar em que posteriormente a Cruz de Cristo seria erguida, de forma que o sangue do Redentor lhe pudesse embeber os ossos. É por isso que a iconografia tradicional coloca o esqueleto de Adão aos pés da Cruz no Calvário/Gólgota, que significa “lugar da caveira”.)

Salomão queria usar a madeira da árvore na construção de seu Templo. Mas sua madeira nunca se mostrou apropriada: as tábuas ou se encolhiam ou encompridavam antes de as colocarem no lugar. Frustrado, o rei lançou a madeira sobre uma lagoa para servir de ponte. Quando a Rainha de Sabá visitou Jerusalém, teve uma visão do futuro salvífico daquele lenho e se recusou a pisá-lo. A rainha explicou a Salomão que um dia um homem penderia desse lenho e daria fim ao reino dos judeus, e o rei fez com que a madeira fosse enterrada bem fundo na terra.

Mas surgiu nesse lugar uma nascente, que alimentou a piscina de Betesda, onde curas milagrosas ocorriam uma vez ou outra, quando um anjo agitava as águas. Nesse mesmo lugar, Jesus curou um paralítico e perdoou-lhe os pecados (cf. Jo 5, 2-18). Pouco tempo depois, a madeira enterrada emergiu até a superfície da piscina. Depois de ser empregada na confecção da Cruz em que Jesus foi crucificado, ela se perdeu por três séculos.

Quando Constantino enviou Santa Helena a Jerusalém para procurar a Cruz, ninguém sabia onde ela estava, com exceção de um judeu chamado Judas. Esse homem dizia ser neto de Zaqueu e sobrinho de Santo Estevão, mas recusou-se a esclarecer a imperatriz, até ser aprisionado num poço seco e mantido ali sem comida por sete dias.

“O Sonho de Santa Helena”, por Paolo Veronese.

Quando Judas finalmente concordou em mostrar o lugar do Gólgota, uma doce fragrância encheu o ar. Depois que Santa Helena tirou o obscuro templo de Adriano do caminho, o próprio Judas cavou vinte pés abaixo e encontrou três cruzes enterradas. A Vera Cruz foi distinguida das outras duas porque, a seu toque, um jovem ressuscitou dos mortos ou ainda porque o bispo Macário de Jerusalém usou-a para curar uma nobre doente. Intimidado pelo que se passou, Judas aclamou Cristo como Salvador do mundo. Ao ser batizado, escolheu para si o nome Ciríaco e sucedeu Macário quando este morreu. 

A pedido de Santa Helena, Judas voltou ao Gólgota em busca dos cravos da crucifixão. A oração dele fez com que os cravos brotassem “como ouro da terra”. Ela colocou dois dos quatro Cravos Sagrados numa rédea para o cavalo de guerra de Constantino, pôs outro em uma estátua do imperador em Roma e jogou o último no mar Adriático para acalmar as águas. Segundo outras lendas, os Cravos teriam sido colocados no freio do cavalo de Constantino e em seu elmo. O quarto cravo supõe-se ter sido incorporado à Coroa de Ferro, outrora usada para fazer os imperadores do Sacro Império Romano reis da Itália, mas a suposta tira de ferro é, na verdade, de prata.

O bispo Ciríaco, o “anti-Judas”, foi mais tarde martirizado no reinado do sucessor de Constantino, Juliano, o Apóstata, que em vão tentou reverter o triunfo da cristandade.

Como as piedosas fantasias sobre a Vera Cruz se encaixam na história?

“Cristo na Cruz com S. João e Maria Madalena”, de um seguidor de Jacques Stella.

A crucifixão era o modo mais terrível de punir criminosos entre os romanos, até que Constantino baniu o costume. Ao contrário do que figura no imaginário tradicional, o condenado carregava apenas a trave mestra (patibulum), não a estrutura inteira, pois a estaca vertical já ficava no lugar da execução. Ele geralmente trazia uma placa (titulus) pendurada no pescoço informando seu crime, a qual era pregada no topo da cruz. A vítima desnuda era pregada pelos pulsos, não pelas mãos. Os pés eram pregados individualmente, não sobrepostos. Havia uma cavilha de apoio (sedile) sob as pernas. Se necessário, colocavam-se cordas ao redor do corpo por segurança.

A pintura mais antiga de Cristo a que tivemos acesso é um grafite feio de um homem crucificado com cabeça de asno, desenhado no muro de uma tenda militar em Roma. Data de quase um século antes da escavação de Santa Helena. Uma placa de marfim entalhada por volta de 420, que hoje está no Museu Britânico, é a mais antiga imagem cristã da crucifixão de que se tem notícia. Ela mostra Jesus vestindo uma tanga, pregado pelas mãos e apoiado em uma plataforma (suppedaneum). Mas esse objeto devocional não pode ser tomado como representação precisa do fato.

Embora houvesse um túmulo novo reservado para o corpo de Nosso Senhor, Ele não morreu em uma Cruz feita pouco antes de sua crucifixão. Antes dele, outros haviam padecido naquele lenho e ali outros padeceram depois dele. As execuções não podiam acontecer dentro da cidade, e pararam de ser feitas no Calvário depois que o rei judeu Herodes Agripa I expandiu os muros de Jerusalém para além dali, nos anos 41-42. Uma homilia escrita por São João Crisóstomo em 398 sugere que cristãos da região viram o que fora feito às cruzes descartadas e, mais tarde, as esconderam.

No livro The Quest for the True Cross [“A Busca pela Vera Cruz”], de 2000, Carsten Peter Thiede e Matthew d’Ancona sustentam que os cristãos preservaram na memória o lugar em que o Lenho Sagrado havia sido enterrado, apesar das perseguições e de duas revoltas dos judeus. Por isso, o que Santa Helena encontrou em 326 pode ter sido a verdadeira Madeira da Cruz de Cristo. Independentemente dos méritos dessa teoria, cristãos de ontem e de hoje acreditam que as relíquias são autênticas.

No entanto, a história recorda o destino de parte da trave mestra, que foi enterrada em Jerusalém. Em 614, ela foi levada, durante a invasão persa, à Terra Santa. O imperador bizantino Heráclito conseguiu recuperá-la depois de derrotar o rei persa Cosroes II em 627. Depois de mantê-la em Constantinopla por dois anos, ele devolveu o Lenho precioso a Jerusalém, levando-a ele mesmo vestido de trajes penitenciais. Esse fato ainda é comemorado na Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro.

Mas entre o roubo e a restituição da Cruz a Jerusalém, Maomé fez sua Hégira (fuga), dando início ao primeiro ano do calendário islâmico em 622. Uma fatigante guerra entre Bizâncio e a Pérsia deixou o Oriente Próximo vulnerável para a conquista islâmica na geração posterior. 

A relíquia da trave de Jerusalém foi escondida quando El Hakim, o louco califa do Egito, destruiu o Santo Sepulcro em 1009. Ela foi recuperada depois da reconquista da Cidade Santa na Primeira Cruzada, em 1099. Posteriormente, cruzados levaram essa parte da Cruz em batalha como um talismã de vitória, até que a perderam definitivamente quando Saladino aniquilou um exército cristão nos Cornos de Hatim, em 1187.

Apesar de todos os riscos do tempo, lascas honradas como fragmentos da Vera Cruz continuam a “encher o mundo todo”. Uma enorme estátua de Santa Helena segurando a Cruz jaz num nicho no pilar noroeste da Basílica de São Pedro, em Roma. Uma relíquia do Lenho Sagrado que ela encontrou há dezessete séculos se encontra bem acima dela.

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Santa Helena e as relíquias sagradas
Santos & Mártires

Santa Helena
e as relíquias sagradas

Santa Helena e as relíquias sagradas

As relíquias fazem parte de nossa fé católica desde o início da Igreja. E poucas pessoas fizeram tanto pela veneração delas quanto Santa Helena: a mulher que, por impulso de seu filho, Constantino, descobriu em Jerusalém o madeiro da Cruz de Cristo.

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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As sagradas relíquias são uma marca distintiva do catolicismo. Esperaríamos ver os ossos de algum antigo mártir expostos em uma igreja evangélica local? Para a maioria dos que não são católicos, as sagradas relíquias são simplesmente estranhas. Infelizmente, mesmo entre os católicos, a veneração das sagradas relíquias muitas vezes é considerada uma prática “antiquada” — uma reminiscência quase supersticiosa da “idade das trevas”.

Porém, as sagradas relíquias são parte de nossa fé desde o início. São vínculos físicos com o sagrado. Entre elas, estão o corpo e os ossos de santos, bem como itens que pertenceram a eles ou foram tocados por eles. As relíquias permitem que nos conectemos àquelas pessoas santas que nos precederam, e que mergulhemos de forma mais profunda no mistério de suas vidas, tão semelhantes à de Cristo.

Provavelmente, ninguém fez mais para promover a veneração das relíquias sagradas do que Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. Ele conquistou o Império Romano sob o signo da Cruz e queria que sua mãe encontrasse a Vera Cruz — a maior relíquia da fé cristã —, a fim de que ela pudesse ser cultuada e venerada por toda a Igreja. Em sua busca pela mais preciosa das relíquias, Helena viajou, então, para Jerusalém.

Ela começou perguntando aos moradores de Jerusalém se alguém sabia onde poderia estar a Cruz, mas ninguém tinha informação precisa sobre isso. Finalmente um judeu lhe disse que, segundo a crença local, a Cruz possivelmente estaria debaixo do templo de Vênus. Helena pediu que o templo fosse destruído (sem nenhum diálogo inter-religioso) e começou uma escavação. Três cruzes foram descobertas.  

Mas qual era de fato a Cruz de Nosso Senhor? O bispo de Jerusalém viu um cortejo fúnebre nas redondezas e ordenou que o cadáver fosse levado até ele. O corpo do defunto foi colocado sobre cada uma das cruzes e, quando depositado sobre a Vera Cruz, o homem ressuscitou. Fôra encontrado o instrumento da nossa salvação!

O judeu que falou com Helena pela primeira vez sobre o local da Cruz se converteu ao cristianismo e depois acabou se tornando bispo de Jerusalém.

“Santa Helena com a Vera Cruz”, de Marco Palmezzano.

Tomada de alegria, Helena deu início à missão de construir igrejas nos locais em que ocorreram os eventos da vida de Nosso Senhor e Nossa Senhora. Ela havia entendido o quanto aqueles lugares e as sagradas relíquias eram importantes para a fé, pois eles proclamam duas verdades importantes: primeiro, que o cristianismo não é um mito; segundo, que o cristianismo é fundamentalmente “encarnacional”.

O amor da Igreja Católica por essas relíquias e lugares santos nos recorda que nossa religião teve origem num tempo e local específicos. Não cremos em deuses que supostamente existiram em outra “dimensão”. Não, nós cremos num Deus que andou pelas ruas de Nazaré, no Império Romano, no início do século I. Hoje, podemos percorrer os mesmos locais e pisar a mesma terra. Uma religião que faz uma declaração tão audaciosa confia naquilo em que acredita, pois sabe que essa crença pode ser verificada, diferentemente das alegações da mitologia.

As relíquias e os lugares sagrados também nos recordam que o catolicismo é encarnacional. Deus se fez carne, algo que eleva a matéria a um novo patamar. Além disso, cada um de nós é composto de alma e corpo. Este não é um simples reservatório para a alma, mas uma parte verdadeira de nossa natureza humana, isto é, daquilo que somos. Portanto, as relíquias dos santos apontam para o verdadeiro santo, não apenas para alguma memória. Elas nos põem em contato de um modo muito real com aquele santo e sua santidade. Também nos ensinam que devemos tratar nossos corpos de modo santo, e que devemos usá-los para nos aproximar de Cristo e nos tornar santos nós mesmos. 

Santa Helena teve um profundo desejo de apresentar os aspectos físicos de nossa fé por meio da veneração das relíquias e dos lugares santos. Talvez não sejamos capazes de fazer uma peregrinação até a Terra Santa, mas sabemos que a existência desses lugares e dessas relíquias dão testemunho da realidade encarnacional de nossa fé.

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