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O ultrassom que mudou a minha vida
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O ultrassom que mudou a minha vida

O ultrassom que mudou a minha vida

Ex-diretora de clínica de abortos conta como abandonou a cultura da morte para se tornar ativista pró-vida

Abby JohnsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Março de 2015Tempo de leitura: 11 minutos
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O texto que segue é o primeiro capítulo do livro Unplanned (sem tradução para o português), da ativista pró-vida Abby Johnson. Conta como um simples ultrassom mudou totalmente a sua história e revelou a ela a terrível verdade sobre o aborto. A sua experiência é muito parecida com a do dr. Bernard Nathanson, produtor do filme "O Grito Silencioso". Se ainda não assistiu ao vídeo, clique aqui. Nessa produção, é possível acompanhar, com detalhes de um ultrassom, como é feito um aborto.

Sem mais delongas, eis o testemunho de Abby:

A cabeça de Cheryl apareceu em meu escritório. "Abby, precisam de mais uma pessoa na sala de exames. Você está disponível?"

Eu levantei os olhos de minha papelada, surpresa. "Claro."

Embora estivesse com a Planned Parenthood por oito anos, nunca tinha sido chamada para a sala de exames para ajudar a equipe médica durante um aborto, e não fazia ideia por que precisavam de mim agora. Eram as enfermeiras instrumentistas quem ajudavam nos abortos, não as outras equipes da clínica. Como diretora dessa clínica em Bryan, Texas, eu podia ocupar qualquer posição, se fosse necessário, exceto, é claro, a dos médicos e enfermeiras realizando procedimentos médicos. Em algumas ocasiões, atendi ao pedido de uma paciente de ficar com ela e até segurar a sua mão durante o processo, mas apenas quando era eu a assistente a acompanhá-la durante a entrada e o aconselhamento. Não era o caso de hoje. Então, por que precisavam de mim?

O aborteiro visitante de hoje só esteve aqui, na clínica de Bryan, duas ou três vezes antes. Ele praticava abortos privadamente a cerca de 160 quilômetros de distância. Assim que conversei com ele sobre o trabalho, algumas semanas antes, ele me explicou que, para ficar mais fácil, só fazia abortos por ultrassom – o procedimento abortivo com o menor risco de complicações para a mulher. Porque esse método permite ao médico ver exatamente o que está acontecendo dentro do útero, há menos chances de perfurar a parede do útero, um dos riscos do aborto. Eu respeitava isso da parte dele. Quanto mais pudesse ser feito para manter as mulheres seguras e saudáveis, melhor, eu pensava. No entanto, expliquei a ele que essa prática não era o protocolo comum em nossa clínica. Ele entendeu e disse que seguiria nossos procedimentos usuais, embora concordássemos que ele estaria livre para usar o ultrassom, se a situação assim o exigisse.

Pelo que sabia, nunca tínhamos feito abortos por ultrassom em nossas instalações. Fazíamos abortos apenas em sábados alternados, e a meta estipulada por nossa filial era realizar de 25 a 35 procedimentos naqueles dias. Gostávamos de terminar tudo por volta das 14h. Nosso procedimento costumava durar em torno de 10 minutos, mas um ultrassom atrasava mais 5 minutos – e quando você está agendando 35 abortos para um dia, esses minutos a mais fazem a diferença.

Relutei por um momento do lado de fora da sala de exames. Nunca gostei de entrar nessa sala durante um procedimento de aborto – nunca aceitei bem o que acontecia por trás daquela porta. Mas, como todos nós devíamos estar prontos para colaborar e fazer o serviço, eu abri a porta e entrei.

A paciente já estava sedada – ainda consciente, mas grogue –, com o médico lançando a luz sobre ela. Ela estava em posição, os instrumentos arrumados na bandeja próxima à porta e a enfermeira posicionava a máquina de ultrassom perto da mesa de operações.

"Eu vou realizar um aborto por ultrassom nessa paciente. Preciso que você segure a sonda", explicou o médico.

Assim que coloquei a sonda de ultrassom nas mãos e ajustei as configurações na máquina, argumentei comigo mesma: Eu não quero estar aqui. Eu não quero participar de um aborto. Não, atitude errada – eu precisava me concentrar para essa tarefa. Respirei fundo e tentei prestar atenção à música de rádio que tocava suavemente ao fundo. É uma boa experiência de aprendizado – nunca vi um aborto por ultrassom antes, disse a mim mesma. Talvez isso me ajude na hora de aconselhar as mulheres. Vou aprender em primeira mão sobre esse processo mais seguro. Além disso, vai acabar em apenas alguns minutos.

Eu não podia imaginar como os próximos 10 minutos iriam abalar as fundações dos meus valores e mudar o curso da minha vida.

Eu havia ocasionalmente diagnosticado clientes por ultrassom antes. Era um dos serviços que oferecíamos para confirmar uma gravidez e estimar a sua duração. A familiaridade de preparar um ultrassom aliviou a minha inquietação por estar nessa sala. Apliquei o lubrificante na barriga da paciente e, então, arrumei a sonda até que o seu útero aparecesse na tela e ajustei a posição da sonda para capturar a imagem do feto.

Esperava ver o que já tinha visto em ultrassons passados. Normalmente, dependendo de quanto tempo era a gestação e de como o feto estava virado, eu via primeiro a perna, ou a cabeça, ou alguma imagem parcial do tronco, e precisava mexer um pouco para conseguir a melhor imagem possível. Mas, dessa vez, a imagem estava completa. Eu podia ver a silhueta inteira e perfeita de um bebê.

Parece-se com Grace quando tinha 12 semanas, eu pensei, surpresa, lembrando da primeira vez em que espreitei minha própria filha, três anos antes, protegida no aconchego de meu ventre. A imagem agora diante de mim parecia a mesma, apenas mais clara e mais nítida. Esse detalhe me assustou. Eu podia ver claramente o contorno da sua cabeça, dos seus braços e pernas, até mesmo dos seus pequenos dedinhos. Perfeitamente.

E, então, rapidamente, o sentimento da ardente memória de Grace foi substituído por um surto de aflição. O que eu estou prestes a ver? Meu estômago se remexeu. Eu não quero assistir o que está prestes a acontecer.

Suponho que isso soa estranho vindo de uma profissional que gerenciava uma clínica da Planned Parenthood por dois anos, aconselhando mulheres em crise, agendando abortos, revisando os orçamentos mensais da clínica, contratando e treinando equipes. Mas, estranho ou não, o simples fato é que eu nunca estive interessada em promover abortos. Eu viria para a Planned Parenthood oito anos antes, acreditando que o seu propósito principal era prevenir gestações indesejadas, reduzindo, desse modo, o número de abortos. Essa era certamente a minha meta. E eu acreditava que a Planned Parenthood salvava vidas – a vida de mulheres que, sem os serviços providos por essa organização, poderiam acabar nas mãos de algum açougueiro de fundo de beco. Tudo isso correu pela minha mente enquanto eu mantinha cuidadosamente a sonda em seu lugar.

"Treze semanas", ouvi dizer a enfermeira, depois de tirar as medidas para determinar a idade do feto.

"Ok", disse o médico, olhando para mim, "apenas mantenha a sonda no lugar durante o procedimento, para que eu veja o que estou fazendo."

O ar frio da sala de exames me fazia congelar. Com meus olhos ainda colados na imagem desse bebê perfeitamente formado, eu assistia ao vídeo, quando uma nova imagem surgiu na tela. A cânula – um instrumento em forma de canudo atado ao final do tubo de sucção – foi introduzida no útero e se aproximava do lado do bebê. Parecia como um invasor na tela, um intruso. Errado. Aquilo parecia errado.

Meu coração acelerou. O tempo parou. Não queria olhar, mas também não queria parar de olhar. Eu não podia não assistir. Estava aterrorizada, mas fascinada ao mesmo tempo, como um desses curiosos que desacelera o carro quando passa diante de algum acidente horrível – não querendo ver um corpo destroçado, mas olhando tudo, mesmo assim.

Meu olhar voou para o rosto da paciente. Corriam lágrimas dos cantos dos seus olhos. Eu podia ver que ela estava sofrendo. A enfermeira limpou o seu rosto com um lenço.

"Apenas respire", a enfermeira gentilmente a instruía. "Respire".

"Está quase acabando", eu sussurrei. Queria ficar focada nela, mas meus olhos voltaram rápido para a imagem na tela.

A princípio, o bebê não parecia se importar com a cânula. Ela tocou suavemente o seu lado e, por um segundo, eu me senti aliviada. É claro, eu pensei. O feto não sente dor. Tinha assegurado isso a inúmeras mulheres, como fora ensinada pela Planned Parenthood. O tecido fetal não sente nada ao ser retirado. Controle-se, Abby. Este é um procedimento médico simples e corriqueiro. Minha cabeça estava trabalhando pesado para controlar minhas reações – não podia esboçar nenhuma inquietação que se parecesse minimamente com terror, enquanto observava a tela.

O movimento seguinte foi o arranco súbito de um pezinho. O bebê começou a chutar, como se tentasse fugir daquele intruso ameaçador. Assim que a cânula apertou o seu lado, o bebê começou a lutar para virar e se mexer. Parecia claro para mim que ele podia sentir a cânula – e não gostava nada do que estava sentindo. Então, a voz do médico interrompeu, me assustando.

" Beam me up, Scotty" [*], ele disse tranquilamente à enfermeira. Estava pedindo a ela que iniciasse a sucção – em um aborto, a sucção só começa quando o médico sente que tem a cânula exatamente no lugar certo.

Eu tive um impulso súbito de gritar: "Pare!", de sacudir aquela mulher e dizer: "Olhe o que está acontecendo com o seu bebê! Acorde! Depressa! Impeça-os!"

Mas assim que concebia essas palavras, eu olhava para minha própria mão segurando a sonda. Eu era uma deles fazendo aquilo. Meus olhos voltaram para a tela de novo. A cânula já estava sendo girada pelo médico e, agora, eu podia ver o seu pequenino corpo ser violentamente retorcido. Por um brevíssimo momento, parecia que o bebê era espremido como um pano de prato, torcido e apertado. Então, ele ficou enrugado e começou a desaparecer para dentro da cânula, diante dos meus olhos. A última coisa que vi foi a sua coluna minúscula e perfeitamente formada ser sugada pelo tubo, e então já era. O útero estava vazio. Completamente vazio.

Eu estava imóvel e incrédula. Sem perceber, soltei a sonda. Ela escorregou da barriga da paciente e deslizou para a sua perna. Eu podia sentir meu coração batendo forte – tão forte que meu pescoço latejava. Tentei puxar fundo a respiração, mas não conseguia inspirar nem expirar. Ainda olhei espantada para a tela, mas ela estava preta agora, porque eu tinha perdido a imagem. Não conseguia assimilar nada. Estava muito chocada e abalada para me mexer. Estava consciente de que o médico e a enfermeira casualmente conversavam enquanto trabalhavam, mas aquilo soava distante, como um vago barulho de fundo, difícil de escutar, tendo o pulsar do meu próprio sangue nos ouvidos.

A imagem do corpo pequenino, destroçado e sugado fora, ainda se repetia em minha mente, e, com ela, a imagem do primeiro ultrassom de Grace – como ela tinha quase o mesmo tamanho. E podia ouvir em minha memória uma das muitas discussões que tive com meu marido, Doug, sobre aborto.

"Quando você estava grávida da Grace, não era um feto; era um bebê", ele dizia. Agora, aquilo me atingia como um raio: Ele estava certo! O que estava no ventre dessa mulher há alguns momentos estava vivo. Não era apenas tecido, células. Era um bebê humano. E estava lutando por sua vida! Uma batalha que ele perdeu num piscar de olhos. O que tenho dito às pessoas por anos, aquilo em que tenho acreditado, o que tenho ensinado e defendido, não passa de uma mentira.

De repente, senti os olhos do médico e da enfermeira em minha direção.

"Abby, você está bem?", perguntou o doutor. Os olhos da enfermeira procuravam o meu rosto com preocupação.

"Sim, estou bem." A sonda ainda não estava corretamente posicionada e, agora, estava preocupada, porque o doutor não conseguia mais ver o interior do útero. Minha mão direita segurou a sonda e a minha esquerda repousou cuidadosamente na barriga quente da mulher. Olhei de relance para o seu rosto. Mais lágrimas e uma expressão de dor. Mexi a sonda até recuperar a imagem do seu útero agora vazio. Meus olhos viajaram de volta para minhas mãos. Olhei-as como se sequer fossem as minhas próprias mãos.

Quantos estragos fizeram estas mãos durante os últimos oito anos? Quantas vidas foram ceifadas por causa delas? Não apenas pelas minhas mãos, mas pelas minhas palavras. E se eu soubesse a verdade, e se a contasse para todas aquelas mulheres?

E se...

Eu tivesse acreditado em uma mentira? Eu tinha promovido cegamente a "linha da empresa" por todo esse tempo. Por quê? Por que não havia procurado pela verdade por conta própria? Por que havia fechado meus ouvidos aos argumentos que escutava? Meu Deus, o que eu tinha feito?

Minha mão estava ainda na barriga da paciente e eu sentia que havia simplesmente tirado algo dela com aquela mão. Eu a tinha roubado. E minha mão começou a doer – sentia uma dor física, de verdade. E bem ali, de pé, ao lado da mesa, com minha mão na barriga daquela mulher em lágrimas, este pensamento emergiu do mais profundo do meu ser:

Nunca mais! Nunca mais.

Entrei no piloto automático. Enquanto a enfermeira limpava a mulher, coloquei de lado a máquina de ultrassom, levantei gentilmente a paciente, que estava mole e grogue. Ajudei-a a sentar-se, coloquei-a em uma cadeira de rodas e a levei à sala de recuperação. Arrumei um cobertor em volta dela. Como muitas pacientes que tinha visto antes, ela continuava a chorar, visivelmente condoída, emocional e fisicamente. Fiz o meu melhor para fazê-la sentir-se mais confortável.

Dez minutos – talvez quinze, no máximo – se passaram, desde que Cheryl me pediu para ajudá-la na sala de exames. E naqueles poucos minutos, tudo mudou. Drasticamente. A imagem daquele bebê sendo torcido e se debatendo ainda se repetia em minha mente… E a paciente? Eu me senti muito culpada. Tinha tirado algo precioso daquela mulher e ela sequer sabia disso.

Como as coisas chegaram a isso? Como deixei que acontecesse? Tinha investido meu ser, meu coração e minha carreira na Planned Parenthood porque me preocupava com as mulheres em crise. E agora era eu mesma quem enfrentava uma crise.

Olhando para trás, para aquele 30 de setembro de 2009, percebo como Deus é sábio não nos revelando o nosso futuro. Se soubesse a tempestade que estava para suportar, não teria tido a coragem de mover adiante. Como eu não sabia, não estava procurando ainda por coragem. Estava, todavia, tentando entender como eu fui terminar naquele lugar – vivendo uma mentira, espalhando uma mentira e machucando toda mulher que eu então queria ajudar.

Eu desesperadamente precisava saber o que fazer depois.

Essa é a minha história.

Abby Johnson.

Notas

* A expressão " Beam me up, Scotty!" é um bordão nos Estados Unidos, retirado da série de ficção científica Star Trek ["Jornada nas Estrelas"]. Trata-se de um comando dado pelo Capitão Kirk ao engenheiro-chefe da nave estelar, Scotty, quando ele precisa ser transportado de volta à nave estelar Enterprise. No contexto do procedimento do aborto, significa, como Abby mesmo explica, um comando para "transportar" a criança do útero materno pelo tubo de sucção. Uma tentativa patética por parte do aborteiro de "brincar" com a situação.

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A “primeira quaresma” da história
Espiritualidade

A “primeira quaresma” da história

A “primeira quaresma” da história

A Quaresma recorda tanto os quarenta anos do povo de Israel no deserto quanto os quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas há uma outra “quaresma”, do Antigo Testamento, da qual muitas vezes não nos lembramos...

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A Quaresma faz referência aos quarenta anos do povo de Israel no deserto e aos quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas uma referência da qual muitas vezes não nos lembramos é que, pela mesma quantidade de dias, graças à pregação do profeta Jonas, o povo de Nínive jejuou e conseguiu poupar a cidade da destruição. Foi a “primeira quaresma” da história.

É tão forte a relação entre esse tempo litúrgico e a história de Nínive que, nas orações tradicionais que os sacerdotes faziam sobre as cinzas, no primeiro dia da Quaresma, a Igreja toda chegava a pedir a Deus a graça de imitar os ninivitas em sua penitência: 

Orémus: Omnípotens sempitérne Deus, qui Ninivítis in cínere et cilício paeniténtibus, indulgéntiae tuae remédia praestitísti: concéde propítius; ut sic eos imitémur hábitu, quátenus véniae prosequámur obténtu. Per Christum Dóminum nostrum. — Oremos: Deus eterno e todo-poderoso, que destes aos ninivitas, por fazerem penitência na cinza e no cilício, os remédios de vossa indulgência: concedei-nos, propício, imitá-los de tal modo na mortificação, que alcancemos como eles o vosso perdão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje, apesar de as orações sobre as cinzas terem sido bastante simplificadas no novo Missal, a referência a Jonas e Nínive continua presente no Lecionário, mais especificamente na quarta-feira da 1.ª Semana da Quaresma (o primeiro dia das Têmporas de Outono). A leitura é tirada de Jn 3, 1-10 e o Evangelho, de Lc 11, 29-32.

“Jonas pregando aos ninivitas”, de Gustave Doré.

Tomando porém o relato veterotestamentário na íntegra, desde a fuga de Jonas da presença de Deus, passando por seu cativeiro no ventre de uma baleia, até a sua revolta em ver poupada a cidade de Nínive, o que mais chama atenção é a vontade firme que Deus tem de salvar os ninivitas. Toda a história do livro de Jonas é, na verdade, a da salvação de Nínive. De nenhuma outra missão foi encarregado o profeta, senão desta: “Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e profere contra ela os teus oráculos, porque sua iniquidade chegou até a minha presença” (Jn 1, 2). 

Aqui fica patente, desde o princípio, uma realidade da qual hoje muito pouco se fala: Deus é justo e castiga os homens por seus pecados. “Verdade ultrapassada”, alguns podem dizer. Ao que respondemos, simplesmente: se Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, e se Ele declarou ser a própria Verdade, é simples arrogância nossa querer impor um “prazo de validade” às suas palavras. Se Deus de fato castigava no Antigo Testamento, por que deixaria de fazê-lo agora — especialmente agora em que, mais agraciados por Ele, aumenta em nós o dever de corresponder ao seu amor?

Não sem razão o Papa S. João Paulo II recordava, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris (n. 10), que:

Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: “Vós, Senhor, sois justo em tudo o que fizestes; todas as vossas obras são verdadeiras, retos os vossos caminhos, todos os vossos juízos se baseiam na verdade, e tomastes decisões conforme a verdade em tudo o que fizestes que nos sobreviesse e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. Sim, em verdade e justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados” (Dn 3, 27ss).

Deus, porém, não é um ser vingativo que quer simplesmente “fulminar” suas criaturas. É à luz do desejo de Deus por nossa salvação que devemos ler todos os relatos bíblicos sobre a “ira” e os “castigos” divinos. Como diz uma antífona que rezamos continuamente na Quaresma: Vivo ego, dicit Dóminus: nolo mortem peccatóris, sed ut magis convertátur, et vivat, “Vivo, diz o Senhor: não quero a morte do pecador, mas antes que se converta e viva”. É, pois, para que nos emendemos, para que mudemos de vida, que Deus nos busca. Muitas vezes com o chicote.

E Ele nos busca como buscou os ninivitas, persistindo com Jonas, apesar de sua teimosia e resistência, para que profetizasse em Nínive. Busca-nos também como buscou os judeus do tempo de Jesus. Estes, porém, diferentemente daqueles, fizeram ouvidos moucos à voz de Deus e não trilharam o caminho da penitência. Por isso diz Nosso Senhor no Evangelho: 

Esta geração é uma geração má. Ela busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. Com efeito, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. [...] No dia do julgamento, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão. Porque eles se converteram quando ouviram a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas (Lc 11, 29-30.32).

O relato da conversão dos ninivitas é, de fato, prodigioso. Apesar de toda a má vontade de Jonas, que não queria a salvação de Nínive e percorreu a cidade dizendo simplesmente: “Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída” (Jn 3, 4), o próprio rei da cidade “levantou-se de seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (v. 6); depois, publicou pela cidade um decreto proibindo “aos homens e aos animais, tanto do gado maior como do menor, comer o que quer que seja, assim como pastar ou beber” (v. 7). Ou seja, diante do aviso do castigo de Deus, a reação dos ninivitas foi de prontidão. Imediatamente se puseram a fazer penitência, implorando a Deus misericórdia pela cidade. 

O que aconteceu, então, em consequência? “Diante de uma tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes, e não o executou” (v. 10). O arrependimento dos homens gera o “arrependimento” de Deus. Lembrando sempre, porém, que essa é uma linguagem metafórica; ou seja, a verdade é que Deus, desde toda a eternidade, já havia decidido salvar a cidade de Nínive, mas Ele queria fazer isso através da pregação de Jonas e da penitência dos ninivitas. Sendo onipotente, Ele poderia fazer tudo isso de outro modo, mas — parafraseando S. Agostinho — o Deus que nos criou sem a nossa ajuda não a dispensa para nos salvar.

Também hoje, Deus quer a nossa penitência. A Quaresma é um tempo litúrgico favorável para que nós, ouvindo a voz de Cristo, da sua Igreja, dos seus santos, dos seus sacerdotes, nos voltemos para nós mesmos, reconheçamos os nossos pecados e mudemos de mentalidade e de vida. Nem Jonas nem Jesus vieram para encontrar “elementos positivos” em nossos pecados, como hoje, infelizmente, muitos procuram fazer, às vezes dentro da própria Igreja. Não, a mensagem que vieram trazer — e que os santos têm repetido ao longo desses dois mil anos de história da Igreja — é apenas esta: “Se não vos converterdes, perecereis todos” (Lc 13, 5).

“Perecereis”, diz o Senhor. Mas entendamos bem: o que está em jogo não é a destruição de uma cidade, tampouco a morte física, o perecimento natural de nossos corpos. O que está em xeque é a nossa salvação eterna

Uma última coisa, a respeito da palavra “cilício”, presente na oração que transcrevemos acima: o uso desse instrumento jamais foi reprovado pela Igreja. Ninguém vai ouvir, hoje, recomendações públicas do uso específico do cilício; e quem o usa, evidentemente, tampouco sairá por aí anunciando o fato aos quatro ventos. O que precisamos saber é que se trata de um instrumento legítimo de penitência, e não de “tortura” — como tem procurado fazer crer, em nossa época, uma forte propaganda anticatólica.

Para quem quiser entender em que, de fato, consiste esse objeto e qual a sua finalidade, recomendamos que assistam ao vídeo a seguir, de nosso programa “A Resposta Católica”.

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O jejum da Quaresma purifica a Igreja
Liturgia

O jejum da Quaresma purifica a Igreja

O jejum da Quaresma purifica a Igreja

Segundo alguns dos Santos Padres, a prática de jejuar ao longo da Quaresma data dos Apóstolos. Mas, ainda que se trate de uma invenção posterior, é Deus quem usa esse tempo de penitência para purificar a sua Igreja.

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A maior diferença entre os tempos da Quaresma no calendário de 1962 e no de 1969 está na matéria do jejum. Com efeito, o calendário de 1962 pressupõe que os fiéis manterão o antigo jejum quaresmal de quarenta dias, ordenando a partir disso suas orações e leituras. É possível dizer inclusive que, no Missal antigo, as próprias da Quaresma servem justamente para a santificação individual através do jejum e da abstinência. O Missal de 1969, por outro lado, foi publicado na esteira da Constituição Apostólica de 1966 Paenitemini, do Papa Paulo VI, que tornou facultativo o jejum quaresmal [1]. 

Enquanto o Missal antigo fala da prática do jejum — mencionando-o, explicando-o e rezando por ele — em todos os dias da Quaresma até a Semana Santa (o Prefácio do rito tradicional para a Quaresma, usado diariamente desde as Cinzas até o Tempo da Paixão, é suplementado quase que todos os dias com referências adicionais ao jejum nas orações próprias), o novo Missal em apenas três ocasiões manda que se faça referência ao jejum dos fiéis [2]: 

  • na Quarta-feira de Cinzas (um dos dois dias obrigatórios de jejum que restaram no ano): “Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal. Por Nosso Senhor…”;
  • na Coleta para o 3.º Domingo da Quaresma: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...”; e 
  • na Oração sobre as Oferendas do Sábado da 5.ª Semana da Quaresma: Accépta tibi sint, Dómine, quaésumus, nostri dona ieiúnii, quae expiándo nos tuae gratiae dignos effíciant et ad sempitérna promíssa perdúcant. Per Christum., “Recebei, ó Senhor, nós vos pedimos, os dons do nosso jejum, a fim de que, em expiação, nos tornem dignos da vossa graça e nos conduzam às promessas eternas. Por Cristo…” [N.T.: infelizmente, na tradução litúrgica oficial do Brasil, não consta nesta oração a palavra “jejum”]. 

O Prefácio tradicional para a Quaresma, embora mantido no novo Missal como o 4.º do tempo, tornou-se facultativo; o 1.º Domingo da Quaresma do Novus Ordo refere-se ao jejum de Cristo no deserto, mas não há indicação de que os fiéis devam seguir-lhe o exemplo. Em geral, o novo Missal oferece poucas orientações a respeito do jejum e quase nenhuma oração por seu êxito.

As orações para o 1.º Domingo da Quaresma no Missal de 1962, por outro lado, ao mesmo tempo que pedem por um jejum frutuoso, explicam a importância dessa prática. A Coleta diz: 

Deus, qui Ecclésiam tuam ánnua quadragesimáli observatióne puríficas: praesta famíliae tuae: ut, quod a te obtinére abstinendo nítitur, hoc bonis opéribus exsequátur. Per Dóminum… — Deus, que pela observância anual da Quaresma purificais a vossa Igreja, concedei à vossa família assegurar pela prática das boas obras o que ela se esforça por obter de vós através da abstinência. Por Nosso Senhor...

Segundo alguns Padres da Igreja, o Grande Jejum da Quaresma foi iniciado pelos Apóstolos. Mas, ainda que se trate de uma invenção do século III ou IV, a Coleta afirma que é Deus quem usa esse tempo de jejum para purificar a sua Igreja. O jejum religioso é diferente do jejum médico, ou do que somos tentados a chamar jejum cosmético (fazer dieta com o fim de cultivar uma boa aparência): sua meta é purificar a alma. Mas, ao contrário do que pretendia Pelágio, a alma não pode purificar a si mesma; o êxito do jejum religioso depende inteiramente da graça de Deus

De modo similar, a Pós-comunhão do dia pede por uma purificação a vetustáte, “da vetustade” — isto é, das coisas antigas, das coisas passadas. A Coleta não estipula o que exatamente a família de Deus está procurando alcançar, seja pela abstinência, seja pelas boas obras, mas a oração de Pós-comunhão o faz, ao pedir que entremos “na posse comum do mistério da salvação” (in mystérii salutáris fáciat transíre consórtium).

“A Tentação de Cristo pelo Demônio”, de Félix Joseph Barrias.

A lógica operativa é similar, embora não idêntica, a “deixar o que é ruim e ficar com o que é bom”: a comida da qual nos abstemos não é má, mas o ato de se abster serve para corrigir um apego malsão aos alimentos. A bela Secreta põe desta forma: ut, cum epulárum restrictióne carnálium, a nóxiis voluptátibus temperémus; isto é, que, “pela restrição dos alimentos corporais” sejamos ajudados “a não cair nos prazeres pecaminosos”

Uma vez livres de prazeres nocivos ou viciosos, devemos preencher esse espaço com o que é bom. Com isso, somos lembrados do Evangelho que será o do 3.º Domingo da Quaresma: Lc 11, 14-28. Ele fala de um espírito impuro que, depois de ser exorcizado, retorna para uma casa limpa, porém vazia, com sete outros demônios. Em outras palavras: preencha a casa de coisas boas, antes que o mal retorne.

O jejum é, portanto, uma atividade importante, mas não se trata de um cura-tudo. Nosso Senhor menciona que alguns demônios só podem ser expulsos através de jejum e oração (cf. Mt 17, 21); os dois devem andar juntos. A Coleta pede a Deus que alcancemos pelas boas obras o que não pode ser alcançado pela abstinência: elas suplementam as deficiências do jejum; sem elas, de fato, a Quaresma não está completa. Vários Padres da Igreja ensinavam que o dinheiro poupado com o jejum devia ir para os menos afortunados. O Papa São Leão Magno coloca desta forma: “Possa a abstinência dos que jejuam ser o alívio dos pobres” (Serm., XIII). Nas palavras da bela liturgia maronita: “Quão esplêndido é o jejum, quando adornado com a caridade! Parti o pão generosamente com o que tem fome; do contrário, não é jejum o que fazeis, mas economia!” (Vésperas da Quinta-feira na Quaresma).

O Evangelho de hoje nos diz que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo demônio” por quarenta dias e quarenta noites (Mt 4, 1). Deixemo-nos guiar, pois, pelo Espírito da liturgia rumo ao deserto e confrontemos nossos demônios através do jejum, da oração e das boas obras.

Notas

  1. Para conhecer um pouco mais as mudanças que ocorreram ao longo da história nesta disciplina, desde os seus rigores primevos até as dispensas e relaxamentos atuais, cf. Dom Próspero Guéranger, El Año Litúrgico, v. II: Septuagésima, Cuaresma y Pasión. Trad. de los Monjes de Santo Domingo de Silos. Burgos: Editorial Aldecoa, 1956, pp. 127-153.
  2. A partir deste trecho, o texto foi levemente adaptado, aqui e ali, tendo em vista esclarecer melhor algumas coisas do original e trazer na íntegra referências apenas mencionadas.

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O demônio do aborto revela o seu nome
Testemunhos

O demônio do aborto revela o seu nome

O demônio do aborto revela o seu nome

Com arrependimento sincero, todos os pecados podem ser perdoados na Confissão. Isso não significa, porém, que os demônios deixem de imediato a vida das pessoas que os cometem. Especialmente se o mal de que estamos falando é o gravíssimo pecado do aborto.

Mons. Stephen RossettiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Este texto é um breve relato de exorcismo acompanhado pelo Monsenhor Stephen Rossetti, que exerce a função de exorcista na Arquidiocese de Washington, capital dos Estados Unidos, há mais de 12 anos. Ele mantém um sítio na internet Catholic Exorcism — onde conta muitos de seus casos (uma das quais, inclusive, já tivemos a oportunidade de comentar aqui).

Algumas pessoas podem achar o registro abaixo perturbador, e outras tantas talvez até reajam com ceticismo ao que é contado por este sacerdote. Pensamos, porém, que a experiência pessoal de um padre idôneo, que lida no dia a dia com os demônios, não deve ser simplesmente “descartada” como se nada fosse

Evidentemente, ninguém é obrigado a acreditar no que ele relata. Sua história não é um “artigo de fé católica”. Na verdade, porém, de que os demônios existem, e na ilicitude do aborto provocado, todos os católicos devemos crer: é o que ensina a Igreja de dois mil anos e é o que nos dita a própria lei natural, inscrita no coração de todo ser humano.


“Lúcia” está possuída e sendo torturada todas as noites pelos demônios. Eles a insultam, ferem-lhe o corpo com arranhões e queimaduras, afirmam que são seus donos e frequentemente torcem sua perna machucada, causando-lhe imensa dor. Os demônios são impiedosos e implacáveis.

Depois de várias sessões intensas de exorcismo, os demônios estavam enfraquecendo. Pareceu-me que eles poderiam estar vulneráveis o suficiente para serem compelidos, pelo poder de Jesus, a revelarem seus nomes. Saber os nomes dos demônios garante um poder adicional para expulsá-los e sugere que o tempo de sua saída está se aproximando.

Por isso, repeti várias vezes: Dicas mihi nomen tuum, “Dize-me o teu nome”. Essa frase é uma citação direta do Ritual de Exorcismo tradicional. O demônio resistiu fortemente. Finalmente, com grande relutância, ele entregou seu nome: Abizu.

A Virgem de Guadalupe.

Eu procurei saber sobre ele. Várias fontes concordam: Abizu (também soletrado Abizou, Obizu, Obizou ou Bizu) é o nome de um demônio “feminino” [1], no Oriente Próximo, acusado de causar abortos espontâneos e a morte de crianças.

Fazia todo o sentido. Infelizmente, Lúcia tinha realizado um aborto. Ela se arrependeu sinceramente, confessou-se e permaneceu em profunda contrição. Embora todo e qualquer pecado seja perdoado na Confissão, isso não significa que os demônios associados a esses pecados sejam imediatamente expulsos. Não raro, um tempo de purgação é necessário. Devido à gravidade do pecado e à morte trágica da criança — que esse pecado provocou —, seria uma luta expulsar aquele demônio.

Abizu zombou de Lúcia por ter feito um aborto. O demônio disse que ela nunca seria perdoada. Ele explorou seu profundo sentimento de culpa e tentou arrastá-la para a escuridão do desânimo e do desespero.

Esse é um comportamento tipicamente demoníaco. Os demônios não apenas nos tentam a cometer um pecado; se o praticamos, eles também nos insultam e envergonham por isso. Assegurei a Lúcia que seu pecado foi verdadeiramente perdoado e fizemos uma oração por seu bebê. Por causa disso, ela talvez precise também de aconselhamento pós-aborto e/ou de trabalhar com grupos de cura pós-aborto.

Durante a sessão, um dos exorcistas teve a inspiração de segurar um ícone de Nossa Senhora de Guadalupe, o que fez o demônio ter uma grande convulsão. Então, invocamos várias vezes este título de Nossa Senhora, e o demônio convulsionou em todos os momentos que o ícone foi colocado diante dele.

A eficácia dessa imagem sagrada não é por acaso. O ícone de Nossa Senhora de Guadalupe apresenta Maria grávida, e ela é frequentemente invocada com esse título para a proteção dos nascituros. Além disso, sob seus pés está um símbolo da lua e das trevas, uma referência ao diabo. Juan Diego, em cuja tilma apareceu a imagem, referiu-se a ela em sua língua nativa como: Te Coatlazopeuh, isto é, “aquela que esmaga a serpente”.

O aborto é um pecado grave. Mas Lúcia e todas as pessoas deveriam saber que existe uma fonte divina de cura e de paz. Além disso, temos em Nossa Senhora de Guadalupe uma grande defensora, que esmagou Abizu e trouxe-nos a cura de Deus. 

Nossa Senhora de Guadalupe, Rosa mística, rogai por nós!

Notas

  1. Os demônios não têm corpo físico nem sexo; portanto, tecnicamente, não podem ser classificados como “homem” ou “mulher” (N.A.).

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Liturgia das Horas, uma “escola de oração”
Liturgia

Liturgia das Horas,
uma “escola de oração”

Liturgia das Horas, uma “escola de oração”

O que é a oração das Horas canônicas e por que ela é tão importante, não só para os padres e religiosos, mas para todos os católicos? Conheça nesta matéria sete razões para começar a rezar a Liturgia das Horas — e transformar isso num hábito para a sua vida.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 15 minutos
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Nosso Senhor mandou a seus discípulos que rezassem sem cessar. E embora muitos deles, durante os dias da vida terrestre de Cristo, não tivessem conseguido vigiar com Ele e cumprir esse mandato com toda a fidelidade, o Espírito Santo cuidaria de ensinar-lhes esse ofício e, século após século, inspirar os sagrados pastores, seus sucessores, para que tirassem do tesouro das Escrituras coisas velhas e novas.

A Liturgia das Horas nasce justamente do coração orante dos discípulos de Jesus. Constitui primeiro um ato da Igreja de imitação do seu Esposo, que não deixou de rezar jamais, em privado e no Templo, em seu ministério público e no ápice de sua missão. Ao rezar as Horas canônicas, o Corpo dos fiéis se une à sua Cabeça mística, pois, na verdade,

a dignidade da oração cristã tem sua raiz na participação da mesma piedade do Unigênito para com o Pai e daquela oração que lhe dirigiu durante sua vida terrena e que agora continua, sem interrupção, em toda a Igreja e em cada um de seus membros, em nome e pela salvação de todo gênero humano (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas [IGLH], n. 7).

Isso significa que, seja qual for a oração que façamos, importa que sempre a façamos “por Cristo, nosso Senhor”. É por isso que o santo Rosário tem como eixo os mistérios da vida de Jesus; é por isso que as ladainhas sempre terminam com uma oração que o menciona; é por isso que a prece mais rezada pelos católicos, a Ave-Maria, tem no centro justamente o santíssimo nome de nosso Salvador. As nossas devoções só têm sentido se feitas “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Ele é o centro: é tornando-nos um com Ele que podemos nos dizer verdadeiramente cristãos.

Além dessas muitas orações privadas que podemos fazer, no entanto, existe também a oração pública da Igreja, em sua liturgia. E é justamente aqui que entra, junto com a Santa Missa, a Liturgia das Horas.

Mas por que mesmo a oração das Horas canônicas é tão importante? E por que ela deveria ser rezada não só por clérigos e religiosos, mas por todo o povo de Deus? É o que queremos apresentar a seguir: sete razões, simples, para que também você comece a rezá-la — e não só agora, na Quaresma, mas por toda a sua vida.

Estamos em guerra!

Por que a Liturgia das Horas?! Primeiro, porque estamos num combate espiritual e, se há uma coisa que os Salmos lembram o tempo todo, é isso. Escritos em sua maioria pelo rei Davi, essas orações estão intimamente ligadas aos percalços de sua vida como guerreiro e governante. A todo instante acossado por inimigos, ameaçado por povos estrangeiros, perseguido por membros de sua própria família, Davi travou numerosas batalhas, e no meio delas elevava confiante sua voz a Deus, pedindo-lhe que o ajudasse e livrasse do mal: 

O inimigo persegue a minha alma,
ele esmaga no chão minha vida
e me faz habitante das trevas,
como aqueles que há muito morreram.
Já em mim o alento se extingue,
o coração se comprime em meu peito (Sl 142 [143], 3s)!

Trechos como este estão hoje à inteira disposição da Igreja e de nós, que somos os seus membros, na luta contra os demônios e contra as pessoas e instituições que neste mundo, infelizmente, fazem as vezes deles e os representam. Falando, a propósito, das imprecações tantas vezes contidas nos Salmos (e que já tivemos a oportunidade de comentar aqui), D. Estêvão Bettencourt ensina o seguinte:

Para o cristão…, mesmo as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão. Não há dúvida, o discípulo de Jesus tem por lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (Mt 5, 39.44). Sem, porém, derrogar ao amor dos homens, ele pode, e deve, devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás; deve desejar a extirpação completa deste potentado e dos seus baluartes, baluartes que, em parte, são as tendências desregradas da própria natureza humana, em parte são tudo que há de mal disseminado em torno de nós. Que o cristão, pois, reze os salmos imprecatórios, tendo em vista os vícios e as instituições hodiernas inimigas do reino de Cristo, todas as instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no mundo. E contra tais esteios do mal não hesitará em proferir os salmos imprecatórios, do íntimo do coração, com a plenitude do seu amor para com Deus e o próximo [1].

Ou seja, a batalha do cristão não é apenas “contra os espíritos malignos nos ares” (Ef 6, 12). Na verdade, vai-se firmando, cada dia com mais clareza, uma espécie de encarnação do mal nas instituições, contra a qual também precisamos dirigir as nossas energias. Diante de um sistema a nível global que ataca a nossa fé, procura tirar as nossas liberdades, contaminar as nossas famílias, fazer uma verdadeira “lavagem cerebral” em nossos filhos, é preciso retomar a consciência de que somos Igreja, e Igreja militante

Sim, nós temos inimigos, mas não porque sejamos maus, violentos ou vingativos. O simples fato de amarmos Jesus e procurarmos seguir os seus Mandamentos é motivo suficiente para que o mundo nos odeie e persiga. Não sejamos, pois, ingênuos: estamos em guerra!

Sentimentos desordenados

Os nossos piores inimigos, porém, continuam sendo... nós mesmos. O mundo pode nos cercar de todos os lados, os demônios podem investir contra nós com todas as suas forças. Mas absolutamente ninguém tem o poder de nos arrastar ao pecado. Só nós, com o mau uso de nossa liberdade, podemos voltar as costas para Deus.

É, pois, porque temos os nossos sentimentos desordenados, em segundo lugar, que precisamos com urgência rezar a Liturgia das Horas. 

O rei Davi experimentou ao longo de sua vida todos os mesmos sentimentos que nos movem: amor e ódio, dor e prazer, alegria e tristeza, desespero e esperança, temor e coragem. Nenhuma dessas paixões escapou à consideração do salmista. Ao direcioná-las todas a Deus em oração, porém, essas realidades são ordenadas e “remediadas” por Ele

A verdade é que não podemos ficar simplesmente à mercê do que sentimos ou deixamos de sentir. Diferentemente dos animais, para os quais o instinto é um comando, nós podemos freá-lo e regular o nosso interior: 

Não queira ser semelhante ao cavalo,
ou ao jumento, animais sem razão;
eles precisam de freio e cabresto
para domar e amansar seus impulsos,
pois de outro modo não chegam a ti (Sl 31 [32], 8s).

Muitas pessoas não têm disciplina na oração, por exemplo, porque estão à mercê de gostos e de seu estado emocional: se não estão “com vontade”, não rezam, e enquanto a tal “vontade” não vem, ficam sem rezar. Isso pode durar dias, semanas, meses… Enquanto isso a vida passa, e nós ficamos longe de Deus.

A oração das Horas canônicas tende a remediar esse problema, na medida em que nos “obriga” a parar, de alguma forma, para que rezemos em momentos específicos do dia. Pois não podemos nos dirigir a Deus só quando estamos com ânimo e entusiasmo. Muito pelo contrário: nossa oração — como dito no início deste texto — deve ser perseverante, seja qual for a circunstância em que nos encontremos. Ao nos colocarmos diante de Deus para pronunciar os Salmos que desde sempre os seus filhos recitam, vamos nos surpreender em ver como eles “tocam” a nossa vida, lidando inclusive com a nossa mornidão e desânimo: 

Por que te entristeces, minh’alma,
a gemer no meu peito?
Espera em Deus! Louvarei novamente
o meu Deus Salvador (Sl 42, 5)!

Das profundezas, eu clamo a vós, Senhor,
escutai a minha voz (Sl 129, 1)!

O tempo consagrado a Deus

Afinal de contas, precisamos começar a fazer no tempo o que faremos por toda a eternidade, em terceiro lugar

Quem quer que comece a rezar a Liturgia das Horas facilmente se surpreende com a quantidade de “tempo perdido” que tinha antes de começar esse bom hábito. Nós nos iludimos muito com mil passatempos inúteis, e acabamos gastando boa parte do dia neles. Redes sociais, filmes e seriados na TV, conversas inúteis em WhatsApp e outros aplicativos de mensagens: se somarmos todo o tempo gasto com essas coisas, perceberemos o quanto andamos dispersos e desfocados, e como aquela história de que “não tínhamos tempo” para rezar não passava, na verdade, de desculpa esfarrapada.

A oração das Horas canônicas é, de fato, um prelúdio da vida eterna, onde só viveremos para amar e adorar a Deus. Ao nos levantarmos, rezamos as Laudes. No meio dos nossos trabalhos, a Hora média. O Sol se põe, é hora das Vésperas. Ao repouso precedem as Completas. Deste modo, toda a nossa vida é ritmada com esse louvor incessante a Deus

Essa consagração do tempo é importante porque, embora estejamos no tempo, somos da eternidade. Não fomos feitos para este mundo, para as coisas caducas aqui desta terra. Mas facilmente podemos cair nessa ilusão. A Liturgia das Horas age justamente como uma prevenção. Como ela nos mantém em contato contínuo com Deus, é um lembrete perene de que nossa alma precisa suspirar por Ele:

Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh’alma tem sede de vós,
minha carne também vos deseja,
como terra sedenta e sem água (Sl 62 [63], 2)!

Com isso, a oração das Horas canônicas também nos prepara para receber melhor o sacramento da Eucaristia, em quarto lugar. Pois quem não sabe que um alimento se torna muito mais saboroso quanto maior for o nosso desejo de comê-lo?

A salvação das almas

Em quinto lugar, mas nem por isso menos importante: precisamos santificar a nós e aos que estão sob os nossos cuidados

Quem reza a Liturgia das Horas nunca está sozinho: sua voz se faz uma com a de toda a Igreja. E, se é verdade que por muito tempo essa oração foi identificada apenas com os padres e religiosos — naturalmente, já que essas pessoas estão obrigadas por voto a rezá-la —, o Concílio Vaticano II deu um grande incentivo a que também os leigos a rezassem. (Convenhamos que o uso do vernáculo tornou muito mais acessível o Ofício Divino. O antigo era feito todo em latim, e nem todos têm aptidão, tempo e facilidade para aprender esse idioma e rezar nele.) Por isso, a Instrução Geral da Liturgia das Horas dispõe que: 

Os grupos de leigos, em qualquer lugar em que se encontrem reunidos, são convidados a cumprir essa função da Igreja, celebrando parte da Liturgia das Horas, seja qual for o motivo pelo qual se reuniram: oração, apostolado ou qualquer outra razão. Convém que aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, antes de tudo na ação litúrgica, e tenham presente que, mediante o culto público e a oração, atingem toda a humanidade e podem fazer muito pela salvação de todo o mundo (n. 27).

Como a oração de um simples fiel leigo pode atingir “toda a humanidade” e salvar “todo o mundo”? Ora, através do mistério da comunhão dos santos, que nos une não apenas aos santos do Céu, mas também a todos os nossos irmãos na fé, tanto aos que militam neste mundo quanto aos que padecem no Purgatório [2]! Como Igreja, fazemos parte de uma família, o Corpo místico de Cristo: nele, cada membro cuida do outro como se cuidasse de si próprio, pois é a saúde do organismo inteiro que está em jogo. À Cabeça, que é Cristo, todos nos dirigimos confiantes, pois foi Ele mesmo quem disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

Esse trabalho de intercessão é tão importante, que as as Laudes e Vésperas da atual Liturgia das Horas trazem sempre o momento das Preces, no qual podemos apresentar a Deus, além das petições designadas no livro litúrgico, também as que trazemos em nossos corações. 

O perigo do ativismo

Essa obra de pedir a intervenção de Deus nas nossas vidas é muito mais fecunda que as nossas ações, por melhores e sacrificadas que sejam. Pois nós fazemos só o que nos é possível, enquanto com nossa oração nós confiamos as coisas a Deus, que tudo pode.

É justamente para repelir o “ativismo”, em sexto lugar, que serve a Liturgia das Horas. Assim como Deus criou todo o universo em seis dias e no sétimo descansou, também nós precisamos descansar de nossos trabalhos. Mas não descansar no sentido moderno do termo; hoje em dia, o único repouso que as pessoas conhecem é o dos lazeres vãos e o do relaxamento moral. A verdade, porém, é que nada pode trazer mais paz e tranquilidade à nossa vida do que aqueles momentos em que ficamos a sós com Deus, na vida de oração.

É claro que a récita das Horas canônicas não substitui nossa vida de oração íntima com Deus. Trata-se antes de algo a mais, de um cuidado maior que damos a Deus, de pequenos gestos de carinho, pequenos “eu te amo” que lhe dizemos ao longo do nosso dia. A união, no entanto, que acontece na oração íntima é insubstituível — assim como carinhos e belas palavras não substituem o ato conjugal na vida matrimonial.

Repertório para nossa oração pessoal

Mas até nisso a Liturgia das Horas nos ajuda, dando-nos “repertório”, por assim dizer, para nossa oração pessoal. Eis o sétimo e último motivo para rezá-la. Como diz o Apóstolo, “não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26). Ora, que melhor auxílio nos poderia dar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade do que as palavras que Ela mesma inspirou os autores humanos das Escrituras a escrever?

É nos Salmos, nos Evangelhos, nas Cartas dos Apóstolos que encontramos material para meditação e preces com que invocar a Deus. Como na Liturgia das Horas não rezamos só com a voz (oração vocal), mas também com a mente (oração mental) — do contrário, como lembra S. Teresa, nem se poderia chamar a isso verdadeira oração —, nossa memória vai-se alimentando com o que recitamos e, depois, quando formos para a intimidade do nosso quarto, poderemos falar a Deus com muito mais liberdade e leveza, repetindo os versículos que aprendemos.

No fim das contas, com a oração das Horas canônicas, todo o nosso dia se transforma em um grande hino de louvor a Deus, pois as frases que guardamos se transformam em jaculatórias com as quais podemos nos dirigir a Ele sempre (especialmente os trechos dos Salmos mais frequentes no Saltério, como o 50, o 62, o 109 e todos os das Completas):

Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
Digo ao Senhor: “Somente vós sois meu Senhor:
nenhum bem eu posso achar fora de vós!

[...]

Ó Senhor, sois minha herança e minha taça,
meu destino está seguro em vossas mãos!
Foi demarcada para mim a melhor terra,
e eu exulto de alegria em minha herança!

Eu bendigo o Senhor, que me aconselha,
e até de noite me adverte o coração. 
Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,
pois se o tenho a meu lado não vacilo (Sl 15 [16], 1s.5-8).

Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia!
Na imensidão de vosso amor, purificai-me!
Lavai-me todo inteiro do pecado,
e apagai completamente a minha culpa!

Eu reconheço toda a minha iniquidade,
o meu pecado está sempre à minha frente.
Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei,
e pratiquei o que é mau aos vossos olhos (Sl 50 [51], 3-6)!

Por onde começar?

Quem compreendeu todos os porquês acima deve estar se perguntando agora: “Tudo bem, mas por onde eu começo?”

Nessa matéria, a internet e os telefones móveis são ferramentas de grande auxílio aos católicos que rezam: com uma simples pesquisa por “Liturgia das Horas”, é possível encontrar uma porção de sites que disponibilizam gratuitamente essa oração pública da Igreja, sem falar dos aplicativos de celular para todos os gostos. 

Apesar de toda essa facilidade e conveniência, seria muito bom possuir o livro físico e rezar com ele, ao invés de simplesmente acessar um app digital em meio à miríade de outras coisas que acessamos com nossos smartphones e computadores. A razão é muito simples: assim como o livro litúrgico é consagrado para o culto a Deus, “é importante fazer desse tempo sagrado uma experiência que está, ao menos em alguma medida, ‘separada’ das coisas comuns”. 

Cada um deve proceder, no entanto, na medida de suas possibilidades. Evidentemente, é muito melhor rezar pelo celular do que não rezar de forma alguma.

A quem quiser, e puder

Permitam-nos, enfim, uma última palavra sobre o antigo Ofício Divino, que vigorou até 1971. Quem quiser fazer a experiência de conhecer um pouco mais a língua latina e rezar as Horas canônicas tal como a Igreja as rezou ao longo da maior parte de sua história, não hesite em acessar o site Divinum Officium e unir-se às comunidades tradicionais que adoram a Deus de acordo com as antigas prescrições litúrgicas, em conformidade com o que estabeleceu o Papa Bento XVI na Summorum Pontificum.

A experiência com o antigo Breviarium Romanum é frutuosa por várias razões, mas uma em particular é digna de menção: a disposição do Saltério ao longo de uma única semana (e não em um mês, como acontece hoje) ajuda-nos a ganhar uma familiaridade ainda maior com os Salmos, a ponto de quem os reza, em questão de pouco tempo, saber de cor o dia e até a hora da semana em que serão recitados. O famoso Salmo 22, por exemplo, é rezado toda quinta-feira, na hora Prima; o 42, com o qual começa a Missa antiga, está sempre nas Laudes da terça-feira; o 138 — “Senhor, vós me sondais e conheceis…” — nunca sai das Vésperas da sexta-feira; e assim por diante. Se no rito novo isso já acontece com alguns Salmos (como dissemos acima), no rito antigo isso se dá com todos eles [3].

Seja, porém, na forma ordinária, seja na forma extraordinária do rito romano, o que interessa mesmo é que rezemos mais, e que rezemos bem. A Liturgia das Horas nos ajuda a fazer as duas coisas: ao mesmo tempo que nos põe incessantemente na presença do Senhor, convocando-nos a cantar o seu louvor “do nascer do sol até o seu ocaso” (Sl 112 [113], 3), constitui uma verdadeira “escola de oração”

E não há notícia de que alguém tenha se arrependido de “fazer matrícula” nela.

Notas

  1. D. Estêvão Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento. 4.ª ed. Aparecida: Santuário, 1990, p. 151.
  2. Vale a pena lembrar que, no antigo Ofício Divino, praticamente todas as Horas canônicas terminavam com a célebre oração pelos fiéis defuntos: Fidélium ánimae per misericórdiam Dei requiéscant in pace. Amen, “Que as almas dos fiéis defuntos pela misericórdia de Deus descansem em paz. Amém”.
  3. Outra coisa que salta aos olhos é o peso de determinadas orações antigas, em comparação com as reformadas. Na antiga festa de S. Nicolau, por exemplo, a Igreja pede expressamente a Deus que, eius méritis et précibus, a gehénnae incéndiis liberémur, isto é, “por seus méritos e preces, sejamos livres das chamas do inferno”. Nas Completas antigas, os sacerdotes traçam todas as noites sobre o peito o sinal-da-cruz enquanto dizem: Convérte nos, Deus, salutáris noster, et avérte iram tuam a nobis, “Convertei-nos, ó Deus da nossa salvação, e afastai para longe de nós a vossa ira”. Hoje em dia, palavras como esta raramente se vêem na liturgia, e até o célebre hino Dies irae deixou de ser cantado ao fim do ano litúrgico. (Ele tornou-se facultativo, mas, na prática, sabemos o que isso significa.) Como triste consequência de omissões assim, o que se percebe ao longo das últimas décadas é que certas verdades da fé católica, que deixaram de ser rezadas, também estão deixando de ser cridas — especialmente pelo clero e pelos religiosos, que sempre foram os que mais contato tiveram com a divina liturgia. Um antídoto para esse mal (ou uma “vacina”, se preferirem) talvez seja voltar, senão à letra, pelo menos ao espírito das orações antigas, que refletem, com mais solidez e integridade, o que a Igreja sempre creu e ensinou, em seu Magistério e na vida de seus santos e santas. Os fiéis católicos leigos preservaram a fé, em grande medida, graças às devoções particulares antiquíssimas que conservaram em suas casas, não obstante a desorientação geral que invadiu os templos católicos nos anos seguintes à reforma litúrgica pós-conciliar.

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