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Padre oferece o próprio câncer pelas vítimas de pedofilia do clero
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Padre oferece o próprio câncer
pelas vítimas de pedofilia do clero

Padre oferece o próprio câncer pelas vítimas de pedofilia do clero

Este padre pediu a Deus uma forma de reparar os crimes de pedofilia na Igreja e agora ele está oferecendo o próprio câncer como uma cruz pelas crianças abusadas. Conheça a história dele e entenda o significado da “expiação vicária” em Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Março de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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E se nesta Quaresma você resolvesse oferecer a Deus uma mortificação pelas vítimas de abuso sexual na Igreja? A ideia parece ousada, mas foi exatamente o que fez o padre John Hollowell, da diocese de Indianápolis, nos Estados Unidos.

Os escândalos de pedofilia, que causaram tanto sofrimento dentro e fora da Igreja nos últimos anos, também perturbaram a alma sacerdotal do padre Hollowell. Em 2001, quando ele ingressou no seminário, faltava pouco tempo para a primeira bomba estourar. Depois de a reportagem de The Boston Globe sobre a rede de abusos sexuais praticados por padres católicos vir a público, outros casos semelhantes apareceram em todo o mundo, como uma epidemia. E o jovem seminarista Hollowell assistiu àquilo tudo atônito, como se estivesse dentro de um prédio em chamas prestes a ruir.

O pe. John Hollowell, da diocese de Indianápolis (EUA).

Ainda assim, ele decidiu seguir em frente com a sua vocação. Em 2005, quando se encontrava em Roma para completar os estudos teológicos, Hollowell teve a chance de ouvir umas palavras de um sacerdote mais velho que residia no mesmo seminário, durante um “ano sabático”. Esse sacerdote lhe disse: “Quando entrei no seminário, eu era respeitado por minha família e todos estavam felizes por minha decisão. A Igreja dos Estados Unidos vivia a sua melhor época. Mas agora ela está na sua pior crise, e mesmo assim você escolheu ser padre. Obrigado”.

Hollowell foi então ordenado sacerdote com a convicção de que entraria num campo de batalha, onde a Igreja já não desfrutava do mesmo prestígio de antes. Em 2018, o escândalo de pedofilia envolvendo o ex-cardeal Theodore McCarrick voltou a assombrá-lo. Hollowell pôde testemunhar a dor de algumas vítimas de abuso, que lhe diziam: “Quando você for rezar por mim, por favor, reze também pelo padre que abusou de mim. Ele precisa de orações mais do que eu”. Cada história afetou-o profundamente, de modo que Hollowell decidiu pedir a Deus uma forma de expiar todo aquele sofrimento. Ele queria assumir uma parte da cruz pelas vítimas dos abusos sexuais praticados por sacerdotes.

E então veio a notícia: “Amigos, fui diagnosticado com um tumor cerebral. O prognóstico é muito bom”, comunicou recentemente o sacerdote em sua rede social, pegando todos de surpresa. Para padre Hollowell, a doença seria a oportunidade que havia pedido a Deus de sofrer pelas vítimas de pedofilia na Igreja. Em entrevista ao dr. Taylor Marshall, ele afirmou que viveria cada parte do tratamento (cirurgia, rádio e quimioterapia) como um ato de expiação pelos pecados dos padres contra tantos inocentes. “Eu adoraria ter uma lista de vítimas de abuso por padres para que pudesse rezar todo dia. E gostaria, se possível, de escrever-lhes uma nota para que saibam que estou rezando por eles”, acrescentou.

A “expiação vicária” de Cristo

A atitude heroica do padre John Hollowell recorda uma prática muito presente na história da Igreja, mas que acabou esquecida nas décadas mais recentes, por influência de uma teologia mais liberal. Trata-se da expiação vicária, pela qual Nosso Senhor assumiu nossos pecados e pagou o preço de seu sangue (cf. 1Pd 1, 18) pela libertação da humanidade. Do mesmo modo, os membros da Igreja, Corpo Místico de Cristo, são convidados a repetir esse gesto, oferecendo-se como sacrifício pela salvação dos pecadores. Foi o que fizeram grandes santos como Teresinha do Menino Jesus, Bernadette Soubirous, Pio de Pietrelcina, Verônica Giuliani, os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto e, mais recentemente, o jovem Carlo Acutis. Todos completaram na própria carne, como diz São Paulo, o que faltava “aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Os teólogos da Igreja procuraram desenvolver esse tema de vários modos, mas sempre preservando a realidade da cruz e do sofrimento assumido por Cristo como uma oferta de amor pela redenção dos homens, os quais deveriam seguir o mesmo caminho para a própria santificação. A partir da Reforma Protestante, todavia, a interpretação que Lutero deu à justificação cristã aboliu toda possibilidade de os fiéis participarem ativamente no mistério da Redenção. A eles estaria reservado apenas o acolhimento do sacrifício pela fé, sem a necessidade de qualquer esforço ou penitência pela santificação e salvação das almas. Em outras palavras, o homem poderia pecar tanto quanto quisesse, desde que tivesse uma fé ainda mais intensa em Cristo.

Um estudo da Comissão Teológica Internacional apresenta um resumo bem elaborado das consequências da teologia de Lutero para a doutrina da Redenção. O documento mostra que, para Lutero, a Encarnação seria como uma assimilação do pecado em si mesmo, pelo que Jesus se tornou o pior de todos os adúlteros, ladrões, blasfemadores e assassinos. Nesse sentido, a crucificação nada mais foi que um castigo divino. Os reformadores protestantes seguiram com a mesma ideia, embora com perspectivas diferentes. Em todo caso, esse tipo de teologia acabou apresentando uma face de Deus bem pouco misericordiosa e atraente. Afinal de contas, que tipo de pai derramaria uma ira tão violenta sobre o próprio filho?

Para desfazer essa imagem cruel de Deus Pai, os teólogos modernos desviaram o olhar da cruz para a ressurreição. Tal virada teológica pode ser observada, hoje, nas arquiteturas das igrejas pós-conciliares, que retiraram os crucifixos e, no lugar, puseram imagens do Cristo Ressuscitado ou do Bom Pastor. A reforma litúrgica também foi influenciada por esse movimento, na medida em que já não exige o crucifixo no centro do altar. Entre os teólogos que contribuíram para essa mudança de perspectiva está Karl Rahner, que em seu Curso Fundamental da Fé considera o “sacrifício expiatório” de Cristo como uma ideia válida para a Igreja primitiva, mas que “não oferece muita ajuda hoje para a compreensão daquilo que estamos procurando” [1].

Atualmente, chega-se ao ponto de negar a íntima relação entre a crucificação de Cristo e o sacrifício pascal. É o que advoga a teóloga Elizabeth Johnson, para quem a doutrina da satisfação seria apenas um exagero de Santo Anselmo, que teria interpretado a morte de Cristo a partir de seu contexto medieval. “Ninguém precisava morrer pelos nossos pecados”, afirma. Desse modo, ela faz sua própria contextualização do Evangelho, a fim de ampliar a redenção de Cristo para além do evento da cruz: trocando em miúdos, a cruz seria algo periférico, mera consequência de uma vida inteira que serviu para a redenção dos homens oprimidos e de toda a Criação. Com isso, Elizabeth Johnson põe abaixo a doutrina da satisfação e da expiação vicária.

Mas o resultado prático dessas teologias modernas, por mais bem intencionadas que sejam, é a covardia diante do sofrimento e a negação da gravidade do pecado. Porque se Deus não pode ser ofendido por nossas faltas, nem precisa de nossa reparação, então estão abertas as portas a todo tipo de malícias e blasfêmias. O aumento significativo dos ultrajes à religião, à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo e à Virgem Maria não é algo fortuito. Trata-se de uma consequência lógica da forma como os próprios cristãos lidam com os princípios do depósito da fé. Se eles mesmos não se importam com a honra pública de Deus — porque, segundo dizem, “Deus não precisa de advogado” —, o que podemos esperar das almas incrédulas?

Por conta dessa teologia que nega a necessidade da cruz, a doutrina dos méritos e da satisfação, muitos católicos deixaram de crer no Purgatório, de oferecer Missas pelos fiéis defuntos e de reparar suas próprias ofensas contra Deus.

O que precisa ser reparado

É verdade que o homem não pode ferir essencialmente a glória divina. Todavia, o pecado ataca a glória exterior de Deus, a sua influência e reino sobre nós, como explica o padre Garrigou-Lagrange. Em outras palavras, a imagem e semelhança de Deus em nós é desfigurada e, por isso, precisa ser reconstituída a partir da graça. E uma vez que o homem não pode, por si mesmo, restituir a vida trinitária em sua alma, então ele precisa de um Redentor, alguém capaz de fazer a mediação entre o Céu e a terra, um vigário para lutar em seu lugar contra as consequências do pecado.

É nesta dinâmica que a cruz se torna fundamental. Ela não é necessária em termos absolutos (simpliciter), porque Deus tem poder para salvar o homem com o estalar dos dedos. Mas diante da condição pós-lapsária da humanidade, que foi tomada pelo vírus do ódio a Deus, a cruz é necessária para revelar o supremo amor do Pai pelos seus filhos. A Paixão de Cristo é o supremo gesto de empatia, de solidariedade por aqueles que sofrem. Por isso, Jesus sempre deixou claro “que precisava ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, e ser morto; e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16, 21). E quando Pedro quis repreendê-lo, Jesus respondeu-lhe com palavras duríssimas: “Vá para trás de mim, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, pois não pensas de acordo com Deus, mas de acordo com os homens” (Mt 16, 23).

Essas mesmas palavras de Cristo bem se aplicariam a algumas teologias modernas que pensam mais de acordo com os homens do que com Deus. Elas simplesmente ignoraram o fato de que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). São João Paulo II explica magistralmente o significado da satisfação de Cristo por nós nesta passagem de uma de suas catequeses:

O sacrifício expiatório da Cruz faz-nos compreender a gravidade do pecado. Aos olhos de Deus o pecado não é nunca um fato sem importância. O Pai ama os homens e é profundamente ofendido pelas suas transgressões ou rebeliões. Embora estando disposto a perdoar, Ele, para o bem e a honra do homem mesmo, pede uma reparação. Mas é precisamente aqui que a generosidade divina se mostra do modo mais surpreendente. O Pai dá à humanidade o próprio Filho, para que ofereça esta reparação. Com isto mostra toda a gravidade abissal do pecado, pois requer a reparação mais alta possível, a que vem do seu próprio Filho. Ao mesmo tempo revela a grandeza infinita do seu amor, porque é o primeiro, com o dom do Filho, a trazer o peso da reparação.

Então Deus castiga o Filho inocente? Não há nisto manifesta violação da justiça? Procuremos compreender. É verdade que Cristo se substitui, de certo modo, à humanidade pecadora: Ele, de fato, toma sobre si as consequências do pecado, que são o sofrimento e a morte. Mas o que seria castigo, se este sofrimento e esta morte tivessem sido infligidos aos culpados, reveste um significado diverso quando são livremente assumidos pelo Filho de Deus: tornam-se oferta expiatória pelos pecados do mundo. Cristo assume, inocente, o lugar dos culpados. O olhar, que o Pai lhe dirige quando sofre na Cruz, não é um olhar colérico, nem de justiça punitiva; é um olhar de total complacência, que acolhe o seu sacrifício heroico (grifos nossos).

A redenção objetiva de Jesus precisa, por outro lado, ser acolhida pessoalmente, como livre disposição e oferta a Deus. Por isso, a Comissão Teológica Internacional explica que “o processo de redenção continua até o fim dos tempos, com novos indivíduos sendo, por assim dizer, ‘enxertados’ no Corpo de Cristo” (Algumas questões sobre a teologia da redenção, n. 40). Esses membros do Corpo de Cristo devem assumir a vida do Senhor, tornando-se vítimas de amor pela salvação da humanidade, ou seja, “os fiéis não devem fugir do sofrimento, mas encontrar nele um meio eficiente de união com a cruz de Cristo” (Id.). 

Para os sacerdotes, a identificação com o Cordeiro Imolado é um “imperativo categórico”. Eles, mais do que qualquer fiel, devem ser vítimas de amor. Até porque, como indica o padre Hollowell em sua entrevista ao dr. Taylor Marshall, foi justamente o afrouxamento na disciplina, a fuga das penitências e mortificações, por um medo freudiano de formar padres recalcados, que fez a Igreja mergulhar nos escândalos de pedofilia, com sacerdotes doentes de narcisismo, que se serviram da Ordem de Cristo para abusar de crianças. 

Em 1846, Nossa Senhora apareceu na cidade de La Salette, na França, para chorar sobre os crimes dos sacerdotes, pela falta de almas generosas que oferecessem um justo sacrifício pela eterna salvação das almas. Nas aparições seguintes, tanto em Lourdes como em Fátima, ela procurou por essas almas, pedindo aos pobres videntes — todos crianças — que oferecessem seus sacrifícios em reparação das ofensas contra o Coração de Jesus. Se, por um lado, essas aparições pertencem ao gênero das revelações privadas, elas têm, por outro, o imprimatur da Igreja, que as considera idôneas justamente por repetirem aquilo que é a mais tradicional expressão da fé católica. 

Aproveitemos, pois, o tempo oportuno da Quaresma para reparar tantas ofensas contra o Sagrado Coração de Jesus. A Igreja é um prédio em chamas, falava o padre John Hollowell numa homilia, e nós não podemos esperar que esse incêndio se apague sem a nossa ajuda. Todo membro do Corpo de Nosso Senhor pode contribuir para a restauração desse edifício se seguir o caminho de Jesus e acolher com amor a cruz de cada dia.

Referências

  1. Karl Rahner. Curso Fundamental da Fé. São Paulo: Paulus, 1989, p. 334.

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Lições da Semana Santa em tempos de pandemia
Liturgia

Lições da Semana Santa
em tempos de pandemia

Lições da Semana Santa em tempos de pandemia

Pessoas em todo o mundo estão sofrendo — com a doença, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou a separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os.

Michele ChronisterTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Eu vivo para a Semana Santa.

Sei que não estou só em meu amor pela Semana Santa e pelo Tríduo Pascal. Quando estudava na Universidade de Notre Dame, eu era um dos muitos estudantes que faziam fila às portas da Basílica do Sagrado Coração por horas antes de elas serem abertas para as liturgias do Tríduo. Eu não era a única que corria para garantir um lugar. E não era a única que tinha de se virar com qualquer espaço disponível — mesmo que esse lugar fosse no chão.

Assisti às liturgias do Tríduo em diferentes estados e dioceses, e embora poucas pessoas fossem tão extremas em seu entusiasmo quanto meus colegas de graduação da Notre Dame, em todas as paróquias das quais participei eu encontrava pessoas devotas das liturgias mais sagradas do ano. Desde que cheguei à idade da razão, perdi alguns dias específicos do Tríduo, mas jamais ele inteiro. Mesmo grávida e sofrendo de hiperêmese gravídica, não suportava a ideia de perder o Tríduo. 

Mas neste ano vejo-me na mesma situação de muitos leigos espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo — numa diocese em que as Missas públicas foram suspensas como parte de um esforço por “achatar a curva” e retardar a disseminação de uma pandemia. Este ano só poderei assistir às liturgias do Tríduo em meu laptop escorado num altar doméstico provisório na sala de estar

Porém, mesmo que a região onde moro não tivesse de seguir a política de confinamento e eu pudesse participar do Tríduo Pascal, não veria exatamente as mesmas belas práticas litúrgicas que havia memorizado no coração. Até as liturgias do Tríduo foram alteradas por causa da estranha época em que estamos vivendo.    

Não sou a única a lamentar por isso. As redes sociais estão cheias de leigos desolados por não poderem participar das liturgias do Domingo de Ramos, do Tríduo e até do Domingo de Páscoa.

Esse certamente não será o Tríduo que desejávamos; apesar disso, poderá ser o mais autêntico que vivemos até agora.

Um mistério re-presentado

O mistério pascal não é apenas um evento histórico que recordamos todos os anos. O propósito da Semana Santa e do Tríduo não é somente relembrar coisas que aconteceram dois mil anos atrás. Ao contrário, a Semana Santa torna presente outra vez aqueles mistérios sagrados. De fato, é isso que acontece toda vez que vamos à Missa. Quando o sacerdote eleva a hóstia na consagração, não é simplesmente como se estivéssemos ao pé da cruz — nós realmente estamos ao pé da cruz. O sacrifício de Cristo não ocorre várias vezes. Seu sacrifício único e perfeito foi suficiente. O dom da Missa está precisamente no fato de aquele sacrifício tornar-se presente outra vez para nós (“re-presentado”). Isso também faz parte do dom da Semana Santa. Por meio da celebração daquelas liturgias e Missas, compreendemos que somos uma parte do mistério pascal — uma realidade viva que ainda está se desvelando.

Nós tomamos parte no drama da Semana Santa todos os anos, mas é fácil cair no hábito de participar dele como espectador. É fácil enxergá-lo como mera comemoração do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo, sem lembrar do papel que somos convidados a exercer nesse mistério.  

Uma pandemia e um convite

Nos outros anos, tínhamos de encontrar formas de mantermo-nos concentrados durante a Semana Santa. No domingo, levávamos para casa os ramos distribuídos na Missa e os colocávamos atrás das imagens e crucifixos em nossos lares. Íamos à Missa, jejuávamos na Sexta-feira Santa, pedíamos que um padre abençoasse a refeição de Páscoa… mas parmanecíamos distraídos. Na ausência de sofrimento, é fácil esquecer que também precisamos da cruz

Mas este ano é diferente.

Pessoas de todos os lugares do mundo estão sofrendo — com a doença, a enfermidade de um ente querido, o cuidado dos que estão doentes, a solidão ou separação da família e de amigos. De repente, não estamos mais apenas lembrando os eventos da Semana Santa. Estamos vivendo-os. Como os Apóstolos, estamos separados da presença de Cristo, nossas igrejas estão fechadas e a Eucaristia não se encontra à nossa disposição. Estamos no Cenáculo, assustados; não ousamos ter esperança. Como todos os que estão ao pé da cruz, tentamos permanecer firmes, ainda que à beira do colapso. De repente, deparamos com muito sofrimento. De repente, o sofrimento tornou-se inevitável. 

Mas, quando estivermos em nossos próprios cenáculos na manhã do Domingo de Páscoa, é nosso dever escutar e permanecer em silêncio, a fim de que possamos ouvir o Cristo ressuscitado dirigir também a nós aquelas palavras de esperança: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14, 27).

Nesta Semana Santa, somos convidados a uma experiência muito real da cruz, abraçando seja qual for o sofrimento por que estejamos passando. Mas também somos convidados a lembrar que a cruz é, verdadeiramente, nossa única esperança. 

Cristo venceu a morte. E como fez com os Apóstolos, tomados pelo medo, Ele estende a mão para nós — aquela que porta suas chagas glorificadas — e nos diz: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

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As profecias sobre o coronavírus
Sociedade

As profecias sobre o coronavírus

As profecias sobre o coronavírus

Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. O que pensar a respeito de tudo isso?

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Com o surto do novo coronavírus no mundo, começam a surgir, aqui e ali, “profecias” apocalípticas, supostas “mensagens” de Nossa Senhora e outras formas de previsão sobre o futuro da humanidade. É natural que o ser humano se preocupe com o amanhã, sobretudo numa situação de calamidade pública. Mas é preciso critério para não nos deixarmos levar pelo pânico. A autenticidade dessas visões depende muito do quanto elas nos levam à verdadeira conversão do coração, provocada pelo temor de Deus, e não por um estado de desespero mundano.

No início dos anos 2000, falava-se muito sobre o fim do mundo, ou bug do milênio, que provocaria um verdadeiro caos na humanidade. Entre as tantas previsões “nostradâmicas” que havia, o Vaticano divulgou na mesma época o texto dos segredos de Fátima, “a mais profética das aparições modernas”, segundo o Cardeal Joseph Ratzinger. Pelo seu teor e contundência, a mensagem refletia “uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura”, afirmou Ratzinger à época, uma vez que tratava da salvação da humanidade. Todavia, isso não a isentou de controvérsias dentro e fora da Igreja.

O reconhecimento de uma autêntica profecia é comprometido pelo contexto da falsa profecia. Como notou o Papa Paulo VI, o povo não está mais inclinado a acreditar na Igreja e em seu ensino, mas “no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida”. É o que estamos vendo acontecer hoje, quando muitos estão se aproveitando do momento para emplacar agendas ideológicas e controlar a população através da coação. Essa situação só demonstra como o tema do profetismo é atual e muitíssimo relevante para uma adequada compreensão da realidade.

De algum modo, há um paralelo muito interessante entre o tempo atual e o tempo do profetismo bíblico, do qual se podem obter luzes para os nossos problemas. Precisamos entender, em primeiro lugar, que lugar ocupa o profeta no âmbito da fé e da sociologia, para depois reconhecermos a voz do verdadeiro mensageiro de Deus no meio de tantos outros intermediários, sobretudo no contexto de ameaças distópicas.

A missão do profeta

Diante de um Ocidente tão paganizado, podemos pensar na aliança de Deus com o povo de Israel. Quando este se esqueceu do seu compromisso, o Senhor levantou profetas para reconduzi-lo de volta ao caminho seguro da Palavra. Os profetas enfrentaram autoridades e, pior ainda, tiveram de disputar violentamente o coração dos homens, constantemente assediado por falsos visionários. Nos dias de hoje, essa mesma dificuldade é vivida pela Igreja, no confronto com aquilo que Paulo VI chamou de “profetismo profano”.

Na tradição bíblica, o profeta vai além das visões sobre o futuro. Ele faz parte da dinâmica da Revelação e, em razão disso, a sua mensagem precisa ser acolhida no conjunto do “depósito da fé”. A marca distintiva do profeta de Deus é, então, a de não servir simplesmente a uma curiosidade humana sobre o futuro, mas a de revelar a própria face do Senhor e, do mesmo modo, “o caminho para o autêntico ‘êxodo’, o qual consiste em que, em todos os caminhos da história, deve ser procurado e encontrado o caminho para Deus como autêntica direção” [1].

Neste sentido, o critério da autenticidade profética na tradição bíblica é a “homogeneidade ou, melhor, continuidade” [2]. Isso quer dizer que o profeta não é o homem dos “pruridos de novidades”, como diz São Paulo, mas alguém que coloca o povo numa linha em conformidade com a fé de sempre, a Promessa dos pais. Essa homogeneidade é, portanto, a da fé, “na proclamação do único e verdadeiro Deus... Na história sobretudo; na concordância entre a Palavra e a realidade como o tempo a revela, aos poucos” [3].

Com efeito, uma profecia não é verdadeira simplesmente porque apresenta uma série de calamidades e destruições. Ao contrário, é o dogma da fé que realmente importa. Por isso, a dificuldade de reconhecermos o verdadeiro profeta “evoca uma crise particularmente dolorosa com a qual se chocou a fé bíblica” [4]. Então entra em cena aquilo que é próprio da fé, segundo a fórmula clássica da Carta aos Hebreus: não é uma certeza experimental, no sentido das ciências naturais, mas “é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” (11, 1).

Deus levantou profetas ao longo da história para despertar o dom sobrenatural da fé no coração dos homens, uma vez que sem fé é impossível agradar a Deus. Na disputa atual entre “profetas de Deus” e “profetas profanos”, portanto, a fé dos Apóstolos é que deve ser o objeto principal. E, ainda que a Revelação já esteja encerrada e não se deva um assentimento necessário às revelações “privadas”, estas, quando verdadeiras, ajudam a Igreja a viver a Revelação de Cristo mais plenamente numa determinada época da história, de modo que “o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 67).

Neste sentido é que o Magistério, repetindo a indicação dos profetas do Antigo Testamento, também ilumina a inteligência dos fiéis, dando critérios de como saber reconhecer uma autêntica mensagem de Deus nos “sinais dos tempos”. Esses critérios referem-se, obviamente, à coerência da mensagem com aquilo que é a fé verdadeira, às qualidades pessoais do mensageiro, à isenção de erros com relação ao dogma e, finalmente, à devoção sadia e à abundância de frutos espirituais. Em suma, todo o movimento profético católico serve para assegurar que aquela dramática pergunta de Cristo tenha, afinal, uma resposta positiva: “Quando vier o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8).

Os católicos diante do coronavírus

À luz do que aprendemos, a crise do coronavírus deve ser encarada como uma oportunidade de profunda conversão e retorno à fé de sempre. Se as profecias têm um sentido, ele não pode ser outro senão o do restabelecimento da verdadeira religião em nossos corações. Não é hora para especulações apocalípticas e desespero, mas para a oração, o jejum e a caridade. Em muitos lugares, temos notícias de igrejas fechadas, mortes de sacerdotes e Missas canceladas. Diante disso, restam-nos a penitência e a expiação vicária, pedindo perdão a Deus pelas inúmeras vezes que sujamos a Igreja com nossos pecados, abusos litúrgicos e irreverências para com a Eucaristia, agora que muitos já nos encontramos privados dela. Porque é para isso que servem esses momentos: para nos distanciar do mundo e voltar nossas almas a Deus.

Temos de reconhecer nossa infidelidade à aliança com Deus. A blasfêmia tornou-se direito em muitos lugares e a idolatria tomou conta das almas. Sem dúvida, a humanidade já foi longe demais no desrespeito à lei natural, à lei de Deus. Essa crise mundial que nos angustia é, nesse contexto, uma chance de revermos nossa finitude, nossa pequenez e necessidade de um Deus verdadeiro, vivo, pessoal, que se compadece de seus filhos. É hora de voltarmos a esse Deus, voltarmos à fé de nossos pais, à fé de Abraão, pela qual inúmeros cristãos, antes de nós, deram a vida a fim de conservá-la intacta.

A perseverança na verdadeira fé é necessária porque ela é o alimento dos “eleitos”, aqueles por cujo testemunho Deus promete o encurtamento da tribulação. Ela é fundamental para nos preservar dos falsos cristos e falsos profetas que surgirão nesses dias, fazendo “grandes prodígios e maravilhas para enganar, se possível, até os eleitos” (Mt 24, 24). Jesus dá-nos a seguinte orientação: “Quando virdes, pois, a abominação desoladora, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo, os que estiverem na Judeia, fujam para as montanhas” (Mt 24, 15). Nas Sagradas Escrituras, a “montanha” é o lugar para o encontro com Deus. Subamos, portanto, às montanhas de nossas almas, às moradas mais altas do castelo, a fim de que Deus envie logo seus anjos, “com forte som de trombeta, para reunir seus eleitos desde os quatro ventos, de uma extremidade dos céus à outra” (Mt 24, 31).

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: do batismo à transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, p. 23.
  2. Louis Monloubou, Os profetas do Antigo Mandamento. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 77.
  3. Id., ibid.
  4. Id., ibid.

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A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo
Doutrina

A “tolice”
de quem se sacrifica pelo próximo

A “tolice” de quem se sacrifica pelo próximo

Nestes tempos de pandemia, o que mais precisamos é de padres como John Hollowell, que se dispôs a assumir uma cruz pela salvação do próximo. Mas o protestantismo distorceu tanto o significado do sofrimento, que agora muitos confundem amor com... tolice.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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As reações à nossa matéria sobre o padre que ofereceu o próprio câncer em expiação pelos pecados de pedofilia na Igreja foram bem interessantes, para dizer o mínimo. Da parte dos católicos, naturalmente, a notícia serviu para confirmar a doutrina da Igreja acerca do sofrimento redentor de Cristo, ao qual podemos nos unir os batizados com nossos próprios sofrimentos. Entre o público geral (aqui incluindo católicos mal catequizados), todavia, o gesto corajoso do padre John Hollowell foi visto com desconfiança e repulsa.

Entre os que não leram o texto (e ainda assim se sentiram no direito de julgar o padre, como se ele tivesse cometido algum crime) e os que o leram (mas não entenderam nada), houve, por exemplo, quem se perguntasse sobre a necessidade de toda aquela exposição. “Ele não poderia sofrer em silêncio?”, perguntou um leitor. Outros, mais incrédulos, questionaram como tal oferta serviria para apagar as cicatrizes de quem viveu o crime de pedofilia. “Isso é uma bobeira e um voto de tolo”, afirmou outro comentarista, dizendo que Deus “não recebe esse tipo de oração”.

O pe. John Hollowell, da diocese de Indianápolis (EUA).

Ao fim e ao cabo, a maior parte dos que se escandalizaram parecia ter a opinião comum (e protestante) de que ninguém precisa oferecer sacrifícios pelos outros porque, de fato, Jesus já ofereceu um sacrifício definitivo por nós na Cruz. No texto anterior, chegamos a comentar, ainda que brevemente, como essa visão unilateral sobre a Paixão de Cristo levou a uma revolução teológica que culminou na própria negação da necessidade da Cruz. Se tivessem se dado ao trabalho de ler o artigo com atenção, talvez esses leitores não nos teriam brindado com tantos comentários estabanados e grosseiros. 

Seja como for, o imbróglio nos dá a chance de voltarmos ao assunto com mais rigor e profundidade. O tema é de suma importância, sobretudo agora nos tempos de coronavírus, quando necessitamos de tantas almas dispostas ao sacrifício heroico pela salvação dos irmãos.

O caráter definitivo do sacrifício de Jesus

De que o sacrifício de Jesus na Cruz foi definitivo e suficiente para a salvação do gênero humano não há dúvida alguma. Apenas Nosso Senhor poderia expiar os pecados da humanidade, porque, pela união hipostática, somente Ele é o pontífice que une o céu e a terra, a natureza humana e a divina. “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16), afirma São João em seu Evangelho. Por isso, toda a vida de Jesus, mas especialmente a sua crucificação, serviram para redimir e dar um novo significado aos sofrimentos dos homens. Com a Cruz, explica São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, “Cristo aproximou-se do mundo do sofrimento humano, sobretudo pelo fato de ter ele próprio assumido sobre si este sofrimento” (n. 16).

Acontece, porém, que o sofrimento não foi erradicado do mundo após a crucificação de Jesus. Ele permanece aqui, no meio de nós, e afeta crentes e não crentes, homens e mulheres, adultos e crianças, como se fosse uma condição da natureza. Aquela “vida nova” que Jesus nos deu com a sua Paixão, diz o Catecismo da Igreja Católica, nós a trazemos “em vasos de barro”, porque “vivemos ainda na ‘nossa morada terrena’, sujeita ao sofrimento à doença e à morte” (n. 1420). Sim, continuamos a sofrer na nossa carne. Jesus morreu e, aparentemente, permanecemos na mesma: ainda há homicídios, guerras, doenças, depressão, histeria e outros tipos de dores, sejam físicas ou morais. Jesus ressuscitou, mas seguimos enterrando nossos familiares e amigos. Ele venceu o pecado, mas ainda existem Judas no meio do clero.

Notem que as mesmíssimas questões levantadas contra o padre John Hollowell podem também ser feitas a Jesus. Aliás, elas já são feitas por muitas pessoas que relativizam a atividade espiritual da Igreja, julgando-a uma alienação incapaz de erradicar a dor dos pobres, dos doentes e dos famintos. Com isso, nega-se o valor da oração e dos sacramentos. O certo, para esses senhores, seria a luta pela igualdade absoluta, de modo que todos os homens pudessem desfrutar dos bens materiais em idênticas condições. Infelizmente, esse pensamento ideológico e mentiroso também contaminou muitos dentro da Igreja, como foi o caso dos padres operários e teólogos da libertação.

Mas em que consistiu, então, a Paixão de Cristo?

É preciso entender, em primeiro lugar, que a Encarnação de Cristo e a sua Paixão não tinham o objetivo de inaugurar um “mundo melhor”, entendido como um paraíso utópico aqui na terra, onde todas as dores e contrariedades seriam sanadas. Nunca é o bastante lembrar destas palavras do Senhor: “Pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12, 8). Antes de tudo, Jesus veio para nos revelar a face amorosa de Deus, e apenas um coração muito duro, adverte o Papa Bento XVI, pode achar isso pouco [1].

“Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo”, insiste o Papa [2]. E é a partir dessa boa nova de Jesus que o sofrimento humano tem outra conotação. O nosso fardo se converte no fardo de Cristo: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 29-30).

Os sofrimentos do Corpo místico de Cristo

A pergunta que geralmente nos fazemos quando experimentamos alguma provação mais ou menos pesada, quando as coisas saem fora dos trilhos e não correspondem ao planejado, é: por quê? Por meio da Revelação, sabemos que a raiz do mal no mundo se deve ao pecado original. Por outro lado, a história de Jó mostrou também que o sofrimento não é simplesmente um castigo, mas uma situação da qual nem sequer os justos podem se furtar. E o profeta Isaías expôs o mesmo drama com toda clareza nos versos sobre o Servo sofredor, que “tomou sobre si nossas enfermidades” e “carregou-se com as nossas dores” (42, 2-6). Tratava-se de um homem inocente a quem, no entanto, não era estranho o sofrimento. Em razão disso, a Igreja jamais pretendeu dar uma resposta, em sentido estrito, à questão do sofrimento, que é um mistério dos desígnios de Deus para cada ser humano.

A Paixão de Jesus, consequentemente, não significou tanto uma resposta ao porquê do sofrimento quanto um para quê. O Filho do Homem veio para servir e fazer a vontade do Pai; Ele veio para assumir a natureza humana e torná-la participante da vida divina. Com isso, explica São João Paulo II, Jesus “não só realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido” (Salvifici Doloris, n. 19). A partir daí, todo membro do Corpo místico de Cristo pode, por meio da graça batismal, participar da obra da Redenção, oferecendo suas próprias dores para a salvação do gênero humano. Tal atitude não implica uma negação do sacrifício definitivo de Jesus, mas a aplicação desse mesmo sacrifício ao longo da história, em virtude da união mística de todo batizado à cabeça da Igreja, que é Jesus.

Assim se entende por que Nosso Senhor fez esta exigência a nós: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24). Ele não aboliu a cruz dos outros com a própria crucificação, mas permitiu que sofrêssemos ao seu lado pela redenção de todos os homens. O sofrimento pessoal, que antes era causa de angústia, tornou-se, com a Paixão de Jesus, causa meritória: podemos merecer a salvação de nossos irmãos, reparando seus pecados com a nossa oferta de amor. Por isso São Paulo exortava os cidadãos de Roma a oferecerem seus corpos “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. “É este o culto espiritual que lhe deveis prestar” (Rm 12, 1), insistia São Paulo; uma crença abstrata não é o bastante.

“A ajuda do padre” (Venezuela, 1962), fotografia de Hector Rondón Lovera.

Os textos do Novo Testamento estão repletos de versículos sobre a expiação vicária que os cristãos devem fazer como membros do Corpo místico de Cristo. Na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, lemos que “por toda a parte levamos sempre no corpo os sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo” (4, 8-11.14). Em outra passagem, o mesmo Apóstolo escreve acerca do conhecimento de Cristo: “Poderei conhecê-lo, a ele e à força da sua Ressurreição, e ser integrado na participação dos seus sofrimentos, transformado numa imagem da sua morte, com a esperança de chegar à ressurreição dos mortos” (Fl 3, 10-11). E o mesmo ensina São Pedro aos seus fiéis: “Alegrai-vos, antes, na medida em que participais nos sofrimentos de Cristo, para que também vos alegreis e rejubileis na sua gloriosa aparição” (1Pe 4, 13).

Alguém poderia afirmar, porém, que essa participação na Cruz de Cristo nada tem a ver com oferecimento de sacrifícios uns pelos outros. Mas as palavras de São Paulo, mais uma vez, não deixam dúvida: “Carregai os fardos uns dos outros; assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6, 2). O Apóstolo chega a ser ainda mais ousado, afirmando que completa na própria carne “o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24). Ele, obviamente, não nega a completude da Redenção, mas sabe que ela não se encerra com o evento histórico do Gólgota, mas deve se perpetuar misticamente em cada membro do Corpo místico. É o que diz São João Paulo II:

Isto significa apenas que a Redenção, operada por virtude do amor satisfatório, permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Nesta dimensão — na dimensão do amor — a Redenção, já realizada totalmente, realiza-se em certo sentido constantemente. Cristo operou a Redenção completa e cabalmente; ao mesmo tempo, porém, não a fechou: no sofrimento redentor, mediante o qual se operou a Redenção do mundo, Cristo abriu-se desde o princípio, e continua a abrir-se constantemente, a todo o sofrimento humano. Sim, é algo que parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o fato de ele solicitar a ser incessantemente completado (grifos nossos) (Id., n. 24).

Os efeitos da expiação vicária

No horizonte da Redenção está a transformação do gênero humano pelo amor. Jesus veio para cumprir a profecia do profeta Ezequiel: “Tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos” (36, 26). Os preceitos divinos se resumem a dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E é apenas pela graça batismal que o homem pode receber esse novo coração e mergulhar na Paixão redentora de Jesus para andar na sua lei e observar os seus preceitos.

A graça que recebemos no Batismo deve crescer conforme a nossa generosidade, dispondo-nos a amar Jesus no serviço aos nossos irmãos. Isso precisa gerar em nós a virtude da caridade, sem a qual é impossível agradar a Deus. Porque “se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres”, explica São Paulo, “e até entregasse meu corpo para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13, 3). O que importa na dinâmica do sofrimento, portanto, é a configuração a Cristo, que acontece por meio da aceitação de nossas dores pela salvação dos irmãos. Afinal de contas, “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Diante das dificuldades e injustiças que sofremos, nosso coração é frequentemente tentado a vacilar, escolhendo como resposta ora a vingança, ora a trapaça. Queremos ordenar as coisas à nossa medida, a partir de nossas ideias e paixões. Jesus, entretanto, mostrou-nos outro caminho e nos associou à sua Paixão para que pudéssemos dar testemunho da sua Cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1, 23). Ele nos fez entender que, diante de uma cruz inevitável, devemos abraçá-la amorosamente até o dia final, quando teremos nossa ressurreição.

O testemunho da cruz é sempre um remédio para os males do mundo e um conforto aos corações despedaçados. Por isso, toda pessoa que padece pode sentir-se amada novamente quando encontra alguém disposto a experimentar um pouco da dor alheia. É assim com doentes em fase terminal, é assim com pessoas depressivas, é assim com vítimas de alguma violência. Por mais que nossas mortificações não apaguem de fato a experiência dolorosa dos nossos irmãos, elas ao menos servem para nos conectar a eles, proporcionando-lhes alegria, amizade, compaixão e cuidado. Não se trata de julgar nossa dor como igual, maior ou menor que a deles, até porque não é uma competição. Trata-se de amar o outro e colocar-se em seu lugar como um amigo. Hoje chamam isso de empatia. Mas os católicos sempre o viveram como a Paixão de Cristo.

O oferecimento do padre John Hollowell é, portanto, a verdadeira oração que Deus recebe, o testemunho público do amor de Jesus e um gesto concreto de solidariedade por quem sofre. Certamente ele não substitui as medidas judiciais e assistenciais que devem ser tomadas contra os crimes que ocorreram. Mas, como outro Simão Cirineu, esse sacerdote se aproxima do Coração do próprio Cristo crucificado, que se ofereceu como vítima inocente pelos pecados de todos os homens.

É próprio da fé católica, especialmente entre os sacerdotes, a disposição a assumir uma cruz em benefício dos outros, como fizeram tantos padres e religiosos durante a peste negra; como fez São Maximiliano Kolbe, que se ofereceu aos nazistas no lugar de um judeu; como fez o padre Armindo Maria de Oliveira, que durante o surto de gripe espanhola em Cuiabá (MT) ofereceu-se a Deus como vítima para que nenhum de seus fiéis morresse pela enfermidade etc. Ao fazerem isso, esses homens não negaram o único sacrifício de Cristo, mas se uniram a ele pelo bem dos filhos de Deus.

E nada disso, nenhum desses exemplos é tolice. Isso se chama amor.

Referências

  1. Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007, p. 54.
  2. Id., ibid.

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Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações
Espiritualidade

Monges de Núrsia combatem
pandemia com procissões e orações

Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações

Na cidade onde nasceu São Bento, no coração da Itália, estes monges contam com o poder da oração para vencer o coronavírus. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

Martin BürgerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Escondidos nas montanhas da região central da Itália, os monges beneditinos de Núrsia estão combatendo a pandemia do coronavírus com orações e procissões diárias contra a peste.

“No período da tarde, saímos em procissão pela propriedade, portando relíquias da Vera Cruz, rezando para que sejamos libertos das ‘pragas, da fome e das guerras’, como faziam os antigos, que sabiam que essas tribulações muitas vezes surgiam juntas”, escreveu Dom Bento Nivakoff, OSB, prior da comunidade famosa por sua cerveja e por seu canto gregoriano.

“Todas as manhãs durante a Missa conventual solene, acrescentamos orações contra a peste”, explicou o monge.

O mosteiro está localizado nos arredores de Núrsia. Os monges seguem a liturgia tradicional da Igreja quando rezam o Ofício Divino e celebram a Missa. 

As orações contra a peste, encontradas na Missa votiva para a libertação da morte em tempo de peste, mostram que Deus não deseja “a morte do pecador, mas que se converta”. A Coleta pede a Deus: “Olhai benigno para o povo que a Vós retorna, e por vossa clemência dele afastai, enquanto vos é fiel, os castigos da vossa ira”.

A Secreta, oração feita antes do canto do Prefácio, implora a Deus que aceite o sacrifício da Missa oferecido pelo sacerdote, “a fim de por ela alcançarmos eficazmente o perdão de todo pecado e o sermos livres do risco de toda perdição”.

“Concedei, ó Deus e Salvador nosso, que o vosso povo seja livre dos terrores de vossa ira e protegido pela abundância de vossa misericórdia”, pede a oração final, conhecida como Pós-comunhão.

De acordo com o prior da comunidade, “a população da região da Úmbria está dispersa geograficamente, então aqui há menos casos de coronavírus do que no norte”. Porém, os monges sabem que a situação pode mudar rapidamente.

Como hoje as pessoas na Itália estão em grande medida confinadas em suas próprias casas, ele continuou, o escondimento do mundo “adquire um simbolismo quase sacramental durante essa crise extraordinária”.

Os monges estão acolhendo a celebração privada da Missa como um convite para a redescoberta do mistério “da eficácia invisível dela”, algo que foi esquecido na modernidade. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

“Durante séculos”, escreveu Dom Bento, “não foi possível ver de perto os mistérios do altar. Em certos períodos, cortinas eram usadas para ocultar os momentos mais importantes da Missa. Até hoje as orações solenes da consagração são pronunciadas num volume mais baixo — um sussurro — à medida que se desenvolve o drama da liturgia”.

A tragédia não é algo estranho para os monges de Núrsia. A vida monástica na região, terra natal de São Bento e Santa Escolástica, foi retomada apenas no ano 2000.

Até 2016, quando um forte terremoto atingiu Núrsia, os monges estavam vivendo no centro da cidade. Celebravam a Missa e rezavam o Ofício Divino na basílica de São Bento. A destruição decorrente do terremoto obrigou os monges a se transferirem para um antigo mosteiro capuchinho nos arredores da cidade, o qual havia sido danificado por um terremoto anterior. 

Em 2019, depois do início das obras e da construção da muralha, a comunidade acrescentou um lema no cume do mosteiro: Nova Facio Omnia (“Eu faço novas todas as coisas”). “Tirado do Livro do Apocalipse”, explicaram os monges em seu site, “ele descreve a Nova Jerusalém em todo o seu esplendor e enfatiza o que Cristo faz por todos os que cooperam com seu plano: ‘Eis que eu renovo todas as coisas!’”

Deveríamos estar dispostos a aprender as lições que Deus quer nos ensinar”, encorajou Dom Bento. “Uma grande tentação é exigir que Deus devolva aquilo que perdemos. Mas Deus planta sementes de vida nova no campo da tragédia. Todos nós devemos regá-las com nossas orações (tanto as públicas como as privadas), sacrifícios e, talvez, até com nossas vidas. Mas a morte não tem a última palavra.”

O autor conservador Rod Dreher afirmou que os beneditinos de Núrsia “sabem como permanecer firmes durante uma catástrofe. Temos muito a aprender com eles.”

“Como disse Dom Bento, agora todos temos de nos afastar do mundo e permanecer em nossos claustros domésticos para salvar vidas. Não devemos acomodar-nos a essa situação — quero dizer, jamais podemos achar que a igreja online seja outra coisa senão um simples fac símile da igreja de verdade”, comentou o autor do best-seller A Opção Beneditina, publicado em 2017.

“Apoio firmemente a exortação de Dom Bento para que meditemos sobre o que Deus está tentando nos ensinar com esse período de confinamento. O que significa descobrir (ou redescobrir) o mistério?”

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