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Pais 'se auto-exilaram da educação dos próprios filhos', diz o Papa
Educação

Pais 'se auto-exilaram da educação
dos próprios filhos', diz o Papa

Pais 'se auto-exilaram da educação dos próprios filhos', diz o Papa

Durante a tradicional catequese na praça de São Pedro, Francisco ressaltou a “vocação natural” da família na educação dos próprios filhos. “Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio e recuperarem a sua função educativa.”

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Maio de 2015Tempo de leitura: 2 minutos
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Os pais "se auto-exilaram da educação dos próprios filhos" e precisam resgatá-la das mãos dos "assim chamados 'especialistas'", disse o Papa Francisco.

No último dia 20 de maio, durante audiência geral com os fiéis, na praça de São Pedro, o Santo Padre sublinhou a "vocação natural" da família "para educar os filhos". Tomando como base as palavras do Apóstolo: "Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isto agrada ao Senhor. Pais, não irriteis vossos filhos, para que eles não percam o ânimo" (Cl 3, 20-21), ele comentou que "a relação entre pais e filhos deve ser sábia, profundamente equilibrada".

Mostrando proximidade às famílias destruídas pelo mal da separação, o Papa pediu aos pais que não transformassem os seus filhos em reféns. "Separastes-vos devido a muitas dificuldades e motivos, a vida deu-vos esta provação, mas os filhos não devem carregar o fardo desta separação", disse Francisco. "Que eles cresçam ouvindo a mãe falar bem do pai, embora já não estejam juntos, e o pai falar bem da mãe".

Depois, Sua Santidade alertou para o problema da "ruptura entre família e sociedade, entre família e escola":

"Multiplicaram-se os assim chamados 'especialistas', que passaram a ocupar o papel dos pais até nos aspectos mais íntimos da educação. Sobre a vida afetiva, a personalidade e o desenvolvimento, sobre os direitos e os deveres, os 'especialistas' sabem tudo: finalidades, motivações, técnicas. E os pais só devem ouvir, aprender a adaptar-se. Privados da sua função, tornam-se muitas vezes excessivamente apreensivos e possessivos em relação aos seus filhos, a ponto de nunca os corrigir: 'Tu não podes corrigir o teu filho!'. Tendem a confiá-los cada vez mais aos 'especialistas', até nos aspectos mais delicados e pessoais da sua vida, pondo-se de parte sozinhos; e assim, hoje, os pais correm o risco de se auto-excluir da vida dos próprios filhos. E isto é gravíssimo!"

O Santo Padre também reprovou os "intelectuais 'críticos'", que "silenciaram os pais de mil maneiras, para defender as jovens gerações contra os danos – verdadeiros ou presumíveis – da educação familiar". "A família foi acusada, entre várias coisas, de autoritarismo, favoritismo, conformismo e repressão afetiva que gera conflitos", disse o Pontífice.

Francisco também falou dos pais que, "raptados pelo trabalho e outras preocupações" e "confusos pelas novas exigências dos filhos e pela complexidade da vida moderna", ficaram "paralisados pelo medo de errar". O Papa encorajou as comunidades cristãs a "oferecer ajuda à missão educativa das famílias", "principalmente à luz da Palavra de Deus". "Até nas melhores famílias é preciso suportar-se uns aos outros, e é necessária tanta paciência para isto! Mas a vida é mesmo assim. A vida não se faz no laboratório, mas na realidade", ele disse.

Por fim, o Pontífice afirmou que "a boa educação familiar é a coluna vertebral do humanismo" e fez um apelo para que os pais resgatassem o "orgulho do seu protagonismo" na educação das crianças. "Chegou a hora de os pais e as mães voltarem do seu exílio — porque se auto-exilaram da educação dos próprios filhos — e recuperarem a sua função educativa. Oremos para que o Senhor conceda aos pais esta graça: a de não se auto-exilarem da educação dos seus filhos."

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Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!
Santos & Mártires

Não, Carlo Acutis
não era um jovem comum!

Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!

Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Enquanto alguns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 ele já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A beatificação do jovem Carlo Acutis chamou a atenção dos católicos no mundo inteiro. Na internet, há alguns meses, não se falava de outra coisa. O túmulo do beato, em Assis, recebeu a visita de mais de 40 mil pessoas só na primeira quinzena de outubro, mesmo em meio a severas restrições devido à pandemia do novo coronavírus. 

Infelizmente, porém, como acontece com seja qual for a devoção, a seja qual for o santo, poucas pessoas procurarão ir a fundo na história desse menino e fazer-se realmente devotas dele, imitando-lhe a vida e as virtudes.

O que é uma pena, pois a primeira biografia a seu respeito, escrita pelo italiano Nicola Gori, encontra-se facilmente à disposição em língua portuguesa no site Cultor de Livros, e todos os jovens católicos brasileiros fariam um bem enorme a si, a seus amigos, a seus familiares, a seus grupos de oração, a todos que os rodeiam, enfim, se procurassem ler e estudar a vida do agora beato Carlo.

Os santos não se improvisam!

Sim, pois não basta nutrir, com relação a ele, o entusiasmo superficial de quem se identifica com sua camisa polo, com seu tênis de marca, com seu amor por videogames ou com sua aptidão geral para as novas tecnologias. Todos esses aspectos contemporâneos do Carlo são, sem dúvida, um estímulo para nós, mas não devemos parar neles, pois a essência da santidade está em outras coisas, não nestas. A esse respeito, o escritor Peter Kwasniewski teceu algumas considerações muito relevantes, justamente ao escrever sobre os santos mais novos da Igreja:

No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

Trocando em miúdos: se o menino Carlo Acutis vier a ser canonizado, não será porque ele “manjava” de informática ou de jogos virtuais. Isso é acidental à santidade. (A propósito, se o quiséssemos imitar inclusive nesses aspectos, valeria a pena considerar também que, como penitência, Carlo não despendia em seu PlayStation 2 mais do que uma hora por semana — um tempo certamente bem inferior àquele com o qual estão acostumados nossos jovens. A santidade não se resume a isso, é certo, mas o exemplo é válido para reforçar a ideia: se vamos imitar o beato, que seja no que ele fazia de beatificante, e não só no que nos parece mais agradável ou atrativo!)

A pureza de Carlo

Comecemos a desenhar um retrato da santidade de Carlo a partir da pureza, que ele viveu com grande fidelidade, mesmo em meio aos inúmeros perigos que nossa época apresenta para a vivência dessa virtude. A mãe do menino e um rapaz que trabalhava em sua casa testemunham: ele “tapava os olhos com as mãos se passasse algum programa ou propaganda escandalosos na televisão” [1]. Os registros do computador que ele utilizava atestam a mesma delicadeza de consciência: nenhum vestígio de acesso a algum site da internet que fosse menos decente. 

No relacionamento com as meninas, seu comportamento era o apropriado para um rapaz de sua idade (lembrando que Carlo morreu com apenas 15 anos): nada de “namoricos” indevidos, nem de interesses precoces. O menino chegaria a declarar, com a maturidade própria de quem compreendeu o que significa amar a Deus de modo esponsal: “Nossa Senhora é a única mulher da minha vida!” [2].

Carlo Acutis, quando criança.

Esses fatos não estão muito além do que se deve esperar de um discípulo de Cristo, sim, mas precisam ser recordados a uma época como a nossa, que tanto avançou na degradação da sexualidade e que corrompeu a sua juventude praticamente sem deixar sobreviventes. O acesso à pornografia, por exemplo, nunca foi tão fácil como agora, e as crianças e adolescentes estão tendo contato com esse tipo de conteúdo cada vez mais cedo, com consequências seriíssimas para sua saúde mental, física e espiritual. 

Se quisermos ser verdadeiros devotos do beato Carlo Acutis, precisamos “correr atrás do prejuízo”, se já fomos manchados de alguma forma nessa matéria, procurando imitá-lo na penitência, já que perdemos a nossa primeira inocência [3]. Mesmo os que foram preservados, no entanto, não devem dormir jamais: quando o assunto são os pecados contra a castidade, confirma-se com ainda mais força que o nosso adversário “ronda como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8).

Os que já servem a Deus, enfim, seja na vocação do Matrimônio, seja no celibato ou na vida consagrada, podem aprender com Carlo a experiência do coração indiviso, que ele viveu como uma graça extraordinária desde a mais tenra idade. Será que nós temos real dimensão do que é um menino proclamar, de coração, que a Santíssima Virgem é a “única mulher” da sua vida? 

Deixemos que essa declaração íntima de amor, de uma criança a sua Mãe celeste, nos impressione e examine a consciência, elevando nossos corações ao alto, purificando nossa relação com Deus, ordenando, enfim, nossos amores nesta terra. Afinal de contas, a que outra pessoa nos uniremos por toda a eternidade, sem morte alguma que nos venha a separar, senão a Deus, Nosso Senhor?

Carlo já vivia aqui, nesta vida, o que ele agora experimenta no Céu.

Carlo e a eternidade

E como pensava no Céu o pequeno Carlo, como o queria, como ansiava por ele! Seu contato com tudo quanto era livro de espiritualidade, vida dos santos, revelações privadas, não tinha como motor uma simples curiosidade malsã e desordenada; não, era um desejo da vida eterna que o impulsionava

  • Quando lia sobre os milagres eucarísticos, era para aumentar seu fervor na participação da Santa Missa — à qual ele assistia todos os dias. 
  • Quando lia relatos extraordinários sobre o Purgatório, era para rezar mais pelas almas, para buscar mais intensamente o Céu e para se estimular no combate aos próprios vícios — dos quais, ele mesmo dizia, a gula e a preguiça eram os principais [4]. 
  • Quando lia sobre as mais diversas devoções que o tesouro de dois mil anos da Igreja lhe oferecia — fosse a devoção ao Sagrado Coração, à Divina Misericórdia, à Virgem de Fátima ou à de Lourdes —, era para crescer cada vez mais em amor a Jesus e Maria. 

Justamente porque tinha os olhos voltados para o alto, era visível em Carlo uma conformidade profunda com a vontade de Deus. Um colega de escola que passou anos ao seu lado conta: “Um aspecto dele que me tocou muito era que, além de uma fé que vi em poucos, tinha um senso de satisfação e de felicidade por cada momento da vida, fosse feliz ou triste: sempre encontrei em seu rosto um sorriso sem limites” [5]. 

Numa sociedade que se preocupa continuamente com o número crescente de suicídios entre seus jovens, não deixa de ser significativa mais essa característica do pequeno Carlo Acutis. Seu segredo, porém, não pode ser buscado neste mundo. Esse “senso de satisfação” que brilhava em seu rosto é um dom que recebem todos os que amam a Deus: para estes, de fato, tudo concorre para o bem (cf. Rm 8, 28); os santos sempre estão felizes, porque querem o que Deus quer. Quando são contrariados, homens da estirpe de Carlo Acutis — movidos, é claro, pela graça divina — não lamentam, nem reclamam: maduros que são, o que eles fazem é oferecer, doar-se.

Foi o que ele fez nos últimos dias de sua vida. Como viveu, Carlo morreu. Preparado por Deus ao longo de sua breve vida, a notícia da leucemia não foi um “baque” para ele, nem seus sofrimentos finais foram capazes de perturbá-lo e tirar-lhe a paz da alma. De fato, antes de ser internado em definitivo no hospital, com prontidão de espírito aquele jovem declarou (percebam como ele não perdia de vista a eternidade, como ele a desejava!...): “Ofereço todo o sofrimento que deverei padecer no Senhor pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao purgatório e entrar direto no céu” [6].

“Ofereço”, ele dizia. Eis aí uma palavra forte, que as pessoas não costumam esperar da boca de um adolescente. 

Mas Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Os que conviviam com ele já diziam: “Parecia ser mais velho do que era” [7]. Enquanto uns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 anos Carlo já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus. No hospital, se lhe perguntavam como estava, ele dizia: “Como sempre, bem!”. Nas palavras de uma enfermeira, “Carlo era uma daquelas pessoas que, quando alguém lhe oferece a mão, segura-a com amor e transmite serenidade, uma serenidade maior do que a que eu deveria lhe oferecer” [8].

Foi assim, aceitando plenamente os desígnios de Deus para si e fazendo-se tudo para os outros, que morreu, no dia 12 de outubro de 2006, o jovem Carlo Acutis.

Aos olhos do mundo, seu falecimento aos 15 anos pareceu, desde então, uma perda irreparável. Muitos dos que o conheceram não podiam se conformar com o fato de aquele menino, precoce em tudo, ser precoce também para morrer. Uma religiosa de clausura, porém, que conheceu Carlo, e que o viu receber precocemente a primeira Eucaristia o sacramento da Crisma, encontrou na Sagrada Escritura [9] o motivo para Deus levar tão cedo deste mundo aquele jovem rapaz: “Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade” (Sb 4, 13-14).

Notas

  1. Nicola Gori. Eucaristia, minha estrada para o Céu. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 42.
  2. Ibid., p. 81.
  3. Esse conhecido jogo de palavras encontra-se na oração que a liturgia da Igreja propõe para a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude.
  4. Nicola Gori, op. cit., p. 102.
  5. Ibid., 44.
  6. Ibid., p. 131.
  7. Ibid., p. 35.
  8. Ibid., pp. 133s.
  9. Ibid., p. 99.

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Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?
Virgem Maria

Se Maria é imaculada,
por que precisou se purificar?

Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?

Se Nossa Senhora é imaculada, pura de toda mancha de pecado, por que então ela precisou ser purificada no Templo, segundo a Lei de Moisés? Que sentido teve aquela purificação?

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Se Nossa Senhora é imaculada, por que ela precisou ser purificada? Qual o sentido desta purificação?”

Resposta: A resposta é simples e direta. O preceito mosaico de purificação das puérperas (isto é, das mulheres que acabaram de dar à luz) não tinha por finalidade purificá-las nem do pecado original (do qual, como sabemos, Maria foi preservada em sua concepção) nem de qualquer pecado atual (que ela, igualmente, jamais cometeu), mas de uma impureza legal, equiparada por Moisés à do período de menstruação (cf. Lv 12, 2), durante o qual era proibido aos judeus ter relações sexuais. Quanto ao período pós-parto, o que a Lei mandava era o seguinte:

Quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias, como nos dias de sua mens­truação. No oitavo dia, o menino será circuncidado. Ela ficará ainda trinta e três dias no sangue de sua purificação. Não tocará coisa alguma santa, e não irá ao santuário até que se acabem os dias de sua purificação. Se ela der à luz uma menina, será impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruação, e ficará sessenta e seis dias no sangue de sua purificação (Lv 12, 2-5).

A Virgem Maria, por conseguinte, observou a lei de purificação não para ser purificada de algum pecado, mas porque a Lei judaica considerava impuras (para certas atividades, como tocar objetos consagrados, ir ao Templo etc.) as mulheres durante 40 (no caso de nascer um menino) ou 80 dias (no caso de nascer uma menina) depois do parto. Por isso falamos de impureza legal, e não propriamente moral, já que se trata de uma condição em que a mulher se encontrava em virtude de uma prescrição da Lei. Também se consideravam legalmente impuros, por exemplo, os que passassem sem querer em cima de um sepulcro (cf. Nm 19, 16).

Há que notar, não obstante, que Maria Santíssima observou a Lei por humildade e obediência aos preceitos da justiça geral, embora não estivesse obrigado a alguns deles, como no caso do mandamento de purificação. Por quê? Porque ela, sendo Mãe de Deus puríssima e imaculada, concebeu milagrosamente por obra do Espírito Santo, razão por que também o seu parto foi extraordinário, imune de toda impureza (legal), corrupção (corporal) e sofrimento (físico) [1], como nos recorda um autor espiritual:

No quadragésimo dia após o nascimento de Cristo, por uma dupla causa subiu Maria, Mãe de Deus, ao Templo de Jerusalém, a fim de satisfazer dois mandamentos da Lei: dos quais o primeiro se refere ao oferecimento dos primogênitos (cf. Ex 13) e o outro, ao rito de purgação da puérpera (cf. Lv 12); e, de fato, a nenhuma destas leis estava obrigada a Virgem Mãe, que por elas era claramente eximida. Porque, com efeito, deviam oferecer-se os primogênitos que tivessem aberto o claustro materno; ora, Cristo, tendo saído do útero da Mãe, conservou-lhe intacto o claustro da virgindade. Além disso, deviam purgar-se as puérperas que tivessem concebido por sêmen; mas a Virgem castíssima concebera do Espírito Santo sem ajuda de varão. Quis, no entanto, cumprir ambos os mandamentos, submetendo-se à lei comum das mulheres, para que a humílima Virgem, sem dar sinais de nada singular, brilhasse para todos como exemplo de humildade [2].

Afinal, se cremos que ninguém menos que o Filho de Deus encarnado, a própria Santidade, se submeteu ao rito da circuncisão [3], apresentando-se publicamente como pecador — necessitado, portanto, da purificação do pecado, da justificação da fé (cf. Rm 4, 11) e da mortificação da carne [4] —, para nos dar um exemplo extraordinário de humildade e sujeição, que dificuldade teríamos em crer que sua Mãe, preservada por Ele da mancha do pecado, também se teria submetido livremente aos ritos da religião judaica, em sinal de humildade e santa obediência

E assim como Jesus, ao ser circuncidado, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Redentor, obrigando-se ao cumprimento de toda a Lei e derramando as primícias de seu Sangue, como se ainda Menino quisesse nos dar um penhor de tudo o que por nós verteria na cruz, também Maria, ao ser purificada, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Corredentora, recebendo por ocasião de um tão sublime exemplo a notícia e como que uma antecipação das dores que, dali a 33 anos, lhe afogariam o Imaculado Coração: “Uma espada transpas­sa­rá a tua alma” (Lc 2, 35).

Notas

  1. Cf. Pe. Gabriel M.ª Roschini, OSM, Mariologia. 2.ª ed., Roma: Angelus Belardetti, 1948, vol. 2, p. 259s.
  2. Pe. Frans de Costere, SJ, em: A. J. Haehnlein (ed.), Mariologia. Wirceburgi, sumptibus Stahelianis, 1859, p. 90s.
  3. O Angélico identifica sete razões de conveniência pelas quais Cristo, embora acima da Lei, devia ser circuncidado segundo a Lei (cf. STh III 37, 1c.): 1) para mostrar a verdade de sua carne humana; 2) para aprovar a circuncisão, instituída outrora por Deus; 3) para certificar que pertencia à descendência de Abraão, que recebera o mandamento da circuncisão em sinal da fé que tivera no Messias; 4) para não dar aos judeus motivo de o rejeitarem como a um incircunciso; 5) para nos dar um exemplo de obediência; 6) porque, tendo assumido uma carne de pecado (isto é, passível), não devia rejeitar o remédio pelo qual era costume purificar a carne do pecado; 7) para que, suportando em si mesmo o peso da Lei, livrasse a outros do jugo dela, como diz S. Paulo: “Deus enviou seu Filho, […] submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei” (Gl 4, 4s).
  4. Pe. H. Simón, CSSR, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 165s, n. 111: “A circuncisão externa do corpo”, para os judeus, “era símbolo e sinal da mortificação interna da concupiscência, além de um sacramento da Antiga Lei por força do qual, e em atenção à fé no futuro Messias, os membros do povo de Deus eram purificados do pecado original”.

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Purgatório: um grande ato de misericórdia
Doutrina

Purgatório:
um grande ato de misericórdia

Purgatório: um grande ato de misericórdia

Que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. Não nos esqueçamos dessa grande misericórdia.

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Celebramos recentemente o Dia de Finados, ao longo do qual rezamos para que todos os fiéis defuntos sejam libertos do Purgatório e levados à presença de Deus no Céu. Porém, nas últimas décadas, a crença no Purgatório tem passado por momentos difíceis. É claro que os protestantes rejeitam a doutrina, mas também muitos católicos (a maioria?) manifestam uma descrença prática. Afinal de contas, na maior parte dos funerais católicos o defunto é canonizado, pois se pressupõe que ele já está feliz no Céu, “olhando-nos lá de cima”, apesar do provável período que a maioria das pessoas mortas em estado de graça terão de passar no Purgatório.

Por que os católicos esqueceram o Purgatório? Porque minimizamos duas coisas: a gravidade de nossos pecados e a santidade de Deus. 

Um único pecado venial não perdoado ou qualquer pecado não reparado impede que a alma compareça à presença do Deus santíssimo. Quando Isaías viu a Deus em seu trono no Céu, exclamou imediatamente: “Ai de mim — gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!” (Is 6, 5). Isaías compreendeu como que por instinto que um pecador não é digno de estar na presença de Deus. Por quê? Porque, como ouviu os anjos cantar: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos!” (Is 6, 3), Deus é santo, o que quer dizer que Ele está separado da humanidade pecadora.

Então, que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. 

Como é o Purgatório? É aí que nossa santa, Catarina de Gênova, entra na história. As declarações oficiais da Igreja sobre o Purgatório são muito pontuais. Em suma, a Igreja diz duas coisas sobre o Purgatório:  

  • “As almas dos justos que no instante da morte ainda estão marcadas por pecados veniais ou por penas temporais devidas pelo pecado vão para o Purgatório” [1];
  • “Os fiéis vivos podem ajudar as almas do Purgatório por meio de suas intercessões (sufrágios)” [2].

Portanto, o Purgatório existe e nós podemos ajudar com nossas orações as almas que lá estão. Segundo a Igreja, isso é tudo o que sabemos com certeza. Duas coisas ainda estão abertas à especulação: o que é o Purgatório e quanto tempo as pessoas passarão nele. 

No entanto, Santa Catarina de Gênova nos dá uma ideia, pois ela teve visões do Purgatório para que pudéssemos saber mais a respeito desse misterioso estado em que entram tantas almas.

De acordo com Santa Catarina, o Purgatório é um lugar onde há mais alegria e mais sofrimento do que tudo o que conhecemos neste mundo. Essa descrição é incompreensível para nós; nesta terra, é difícil conceber algo que nos cause alegria e sofrimento — talvez o mais próximo disso seja o que a mãe sente durante o nascimento de um filho. Normalmente, pensamos na alegria como a ausência de sofrimento, mas no Purgatório os dois estados estão de algum modo integrados.

Essa combinação de alegria e sofrimento revela a essência do Purgatório nas visões de Santa Catarina de Gênova. As santas almas desejam ardentemente ver a Deus. Estão dispostas a suportar qualquer sofrimento necessário para isso. São Paulo nos diz em sua Primeira Carta aos Coríntios por que elas devem sofrer:

Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha,  a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) irá demonstrá-lo. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo (1Cor 3, 12-15).

As dores do Purgatório são comparadas ao fogo. Não é, porém, o fogo do inferno [3]; é o “fogo devorador” do próprio Deus (Hb 12, 29). De acordo com Santa Catarina, o fogo devorador refina o interior da alma no Purgatório, queimando as impurezas que se acumularam ao longo de uma vida de serviço irresoluto a Deus. Mas esse mesmo processo traz imensa alegria, pois a alma sabe que está se aproximando da completa união com Deus. Como diz Santa Catarina: “Novamente a alma percebe a tristeza de ser impedida de ver a luz divina; ao ser atraída por aquele olhar unificador, a alma instintivamente também deseja com ardor ficar livre” (Tratado sobre o Purgatório, c. 9).

Como a Sagrada Escritura, a razão e Santa Catarina deixam claro, o Purgatório é um grande ato de misericórdia. É o processo pelo qual nos tornamos aquilo que fomos criados para ser: imagens de Deus sem qualquer apego ou impureza oriunda do pecado. Não nos esqueçamos dessa imensa misericórdia, rezando pelas almas do Purgatório e começando a tarefa de nos desapegarmos do pecado nesta vida.

Notas

  1. Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7. ed. Barcelona: Herder, 1969, p. 707. 
  2. Ludwig Ott, op. cit., p. 481.
  3. Não é esta, porém, a opinião de S. Tomás, a qual, a bem da verdade, ele reputa apenas provável e mais conforme à doutrina dos santos e a revelações feitas a muitos. Para o Angélico, o purgatório seria um lugar inferior, de algum modo unido ao inferno, de maneira que o mesmo fogo que pune os réprobos purgaria os justos (cf. Quaestio de purgatorio, a. 2 c.) (Nota da Equipe CNP).

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Não me deixem ser cremado!
Doutrina

Não me deixem ser cremado!

Não me deixem ser cremado!

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina católica sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso.

Casey ChalkTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Há algo inexplicavelmente profundo no corpo sem vida e enterrado, mesmo quando sobram apenas ossos e pó depois de sua deterioração. Ele recorda ao homem sua mortalidade, ao mesmo tempo que sugere (por meio da tensão de um cadáver que se parece com um ente querido, mas já não é essa pessoa plenamente) algo transcendente sobre a condição humana. Na famosa cena do cemitério em Hamlet, os coveiros zombam dos falecidos, até que Hamlet aparece e, observando um crânio, lamenta: “Hélas, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio…”. Depois da morte de Cristo, mulheres choram sobre seu corpo sem alma e procuram honrá-lo com especiarias e lençóis brancos.

Desde então, os cristãos têm honrado os corpos sem vida dos santos. Nós também deveríamos honrar os nossos.

Os cristãos têm boas razões para realizar tais práticas, como observam Scott Hahn e Emily Stimpson em seu livro recém-publicado, Hope to Die: The Christian Meaning of Death and the Resurrection of the Body [“Esperança de morrer: o sentido cristão da morte e a ressurreição do corpo”, ainda sem tradução portuguesa]. Em essência, o homem é feito à imagem de Deus precisamente por ter um corpo e uma alma intelectual. Não se trata simplesmente de um corpo com uma alma sensível, como no caso dos outros animais, nem de um puro espírito inteligente, como no dos anjos. E, como nos diz Gn 1, 31, esse ente de corpo e alma era bombondade que o pecado poderia manchar, mas não apagar.

“Cristo Morto com os Anjos”, de Edouard Manet.

A Encarnação confirmou e elevou a bondade do corpo. O Verbo se fez carne por meio do vaso puro de Maria. Como declaravam os primeiros cristãos em sua crítica aos gnósticos antimaterialistas: como poderia ser má a carne, se Deus se dignou assumi-la para si? Por meio da Encarnação, Deus tornou possível a união do corpo humano à divindade, seja através do próprio Cristo, seja também, por extensão, através de nossa união com Ele.

Quando Jesus morreu e ressuscitou dos mortos, Ele foi visto não como uma aparição sem corpo, mas como um homem glorificado. Ao aparecer a Tomé, Ele diz: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé” (Jo 20, 27). Jesus vence a morte no corpo. Os primeiros cristãos traziam essa mensagem no coração, reconhecendo que seu próprio destino eterno estava imerso na mesma realidade. São João declara: “Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3, 2). São Paulo afirma: “Assim como reproduzi­mos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial” (1Cor 15, 49). 

Os sacramentos, particularmente a Eucaristia, são os meios para vivenciarmos essa união com o corpo ressuscitado de Cristo. Na verdade, como o sacerdote diz na epiclese, pão e vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Na Missa, nós entramos em comunhão com Cristo não apenas espiritual, mas fisicamente. Scott Hahn explica: “A transubstanciação é, com efeito, uma espécie de fusão nuclear. Ela põe em movimento um processo que criará algo completamente novo: um novo nós”. Com todo respeito a formas de doutrina e espiritualidade cristãs que espiritualizam demais o céu às custas de sua dimensão física, quando nossos corpos ressuscitarem no último dia, eles se unirão a nossas almas, como aconteceu com Cristo.

Essa concepção do corpo humano estava em flagrante conflito com as concepções do mundo antigo. Os pagãos procuravam satisfazer seus desejos corporais das formas mais glutônicas e luxuriosas, mas isso porque eles não achavam que seus corpos importassem. O corpo humano possuía uma perfeição, juvenil e efêmera, e depois que essa beleza desaparecia — particularmente após a morte —, sua degradação pútrida e repugnante deveria ser mantida a uma distância social segura. É por isso que tantos povos pagãos queimavam os corpos de seus mortos. É possível imaginar os participantes de um funeral pensando, enquanto viam o cadáver se transformar em cinzas: “Tu não precisarás disso no lugar para onde estás indo!”

A “obsessão” cristã com os cadáveres impressionava muitos povos antigos (certamente os romanos), que a consideravam bizarra e repugnante. Os cristãos honram os mortos, visitam seus túmulos, guardam seus ossos, e até os veneram e beijam! Mas esses atos de devoção só eram possíveis graças à doutrina cristã sobre a ressurreição, que tributa uma grande estima ao corpo humano, mesmo o corpo morto, pois ele ressuscitará um dia e será renovado. Às vezes era muito difícil convencer um pagão que se convertia a abandonar suas piras funerárias; Carlos Magno, o convertido que se tornou o primeiro Sacro Imperador Romano, fez da cremação um crime de pena capital!

Sim, como Scott Hahn observa, depois do império de Carlos Magno, “nenhum outro país ou poder europeu baniu ou permitiu explicitamente a cremação. Não era necessário fazê-lo. Ninguém queria ser cremado”. Então, a cristandade permaneceu de pé por um milênio. Foi somente no século XIX que diversos grupos — “radicais franceses, maçons italianos, socialistas alemães, bolcheviques russos, médicos ingleses e engenheiros civis americanos” — começaram a resgatar o interesse pela cremação. Muitos de seus defensores eram ateus e anticristãos declarados. Segundo o historiador Thomas Laqueur, “a ideia era que a cremação pusesse abaixo aquela comunidade milenar que enterrava seus mortos em solo sagrado, oferecendo, para tanto, uma alternativa vinda da história”. 

Alguns utilizavam razões sanitárias para argumentar a favor da cremação. Os cadáveres, diziam, poluem o abastecimento de água e liberam gases tóxicos no ar. Mais tarde, no século XX, passaram a usar argumentos ecológicos — diziam que a Terra não tinha espaço suficiente para abrigar os mortos da humanidade. O sepultamento também foi se tornando cada vez mais caro, às vezes atingindo valores proibitivos. Finalmente, o mundo globalizado encoraja a disseminação da cremação, já que outras tradições religiosas (o hinduísmo e o budismo, por exemplo) normalmente queimam seus defuntos. O efeito dessas forças é alarmante: em 1905, 99,9% dos britânicos eram sepultados. Em 2017, cerca de 77% foram cremados.

A posição da Igreja sobre a cremação sempre girou em torno de uma permissão relutante. Marco Minúcio Félix, um apologeta cristão do século III, escreveu: “Não tememos a perda pela cremação, embora adotemos o costume do sepultamento, mais antigo e superior”. Em 1300, por sua vez, o Papa Bonifácio reafirmou que a cremação era para bruxas e hereges, não para os fiéis cristãos. Essa posição foi consagrada como disciplina da Igreja no Código de Direito Canônico de 1917, que diz: “Os corpos dos fiéis defuntos devem ser sepultados, e sua cremação é proibida” (Cân. 1203, § 1). A Enciclopédia Católica, de 1908, explica que a cremação é “uma profissão pública da falta de religião e de materialismo”. 

Nada disso, porém, equivalia a uma censura doutrinal formal contra a cremação. Por isso o Papa Paulo VI pôde suspender de forma legítima a proibição da cremação em seu documento Piam et Constantem, de 1963. Como explica Scott Hahn, a instrução apostólica era uma concessão ao crescente número de cristãos que solicitavam a permissão da Igreja para realizar a cremação “por motivos de saúde, econômicos ou outras razões de ordem privada ou pública”. Mesmo assim, o sepultamento continuou normativo, como diz a instrução: “Devem ser tomadas todas as medidas para preservar a prática do reverente sepultamento do fiel defunto”. Os cristãos só poderiam agir de outro modo “quando forçados a fazê-lo por necessidade”.

Outros documentos da Igreja têm reiterado a relutante autorização de Paulo VI para a cremação. O novo Código de Direito Canônico, de 1983, explica que “a Igreja recomenda sinceramente a preservação do piedoso costume do sepultamento”, embora “não proíba a cremação”. Scott Hahn cita a escritora católica Patricia Snow, que afirma que a Igreja “encoraja, prefere veementemente e recomenda com sinceridade que os católicos continuem a piedosa e constante (piam et constantem) prática do sepultamento dos corpos dos fiéis defuntos”. Na verdade, depois que Snow escreveu isso, o Vaticano publicou em 2016 outro documento no qual recomendava “insistentemente” que o sepultamento era “acima de tudo a forma mais adequada de manifestar a fé e a esperança na ressurreição do corpo”. 

A Igreja não aprova a cremação; ela a permite. Porém, como no caso da doutrina da Igreja sobre a sexualidade, considerada por muitos rígida e intransigente, o caminho mais difícil é também o mais belo, humano e glorioso. O sepultamento cristão prega a ressurreição, a transformação e a glorificação do corpo humano. Diz Scott Hahn:

A cremação transmite lições sobre o corpo que são diretamente contrárias àquilo em que a Igreja realmente crê. Ela ensina que o corpo é descartável, que não é uma parte integral da pessoa humana. Além disso, ensina que o corpo perde o valor quando a alma se separa dele — que o corpo encerrou seu ciclo e não lhe resta mais nada. Não há ressurreição, transformação ou glorificação.

Sim, os católicos piedosos podem ser cremados em boa consciência. Talvez, em alguns casos, seja prudente ou até necessário fazê-lo. Mas estou com Scott Hahn. Quando eu morrer, quero que meu corpo seja uma mensagem flagrante de afirmação da vida eterna corpórea que Cristo conquistou para todos nós.

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