Como se explica o fato de a família ter se tornado a instituição mais perseguida em nossa época? A ideologia de gênero decidiu fazer da família um viveiro de ódios, convertendo as relações entre os sexos — fundadas na complementaridade e no amor — em relações conflituosas de rivalidade e domínio. 

Para facilitar esta tarefa, favoreceu a redefinição do conceito de família, que se estende a diferentes formas de união, por frágeis ou inconsistentes que sejam, fundadas em contratos (não mais em compromissos) rescindíveis, como convém a uma nova utopia que prega a conquista da felicidade por meio da exaltação do desejo pessoal

Tampouco podemos esquecer algo que está relacionado a esse esforço de perseguição à família: a inversão das hierarquias humanas provocada pela priorização do trabalho como forma de “realização pessoal”.

Hoje se fala muito em conciliação entre vida laboral e familiar, mas para conciliar duas coisas de natureza distinta é necessário determinar primeiro uma hierarquia de preferências, estabelecendo o que é subalterno (por mais necessário que seja) e o que é primordial.

“A Fuga para o Egito”, por Giovanni Battista Tiepolo.

Uma vida que prioriza o trabalho em detrimento da família nada pode conciliar, porque quando se concede ao que é subalterno (por mais necessário que seja) a categoria de primordial, o que é primordial acaba se tornando subalterno. E não é possível construir nada de bom sobre essa subversão desnaturalizadora, como ocorre sempre que algo de natureza inferior é elevado a uma natureza superior.   

Seria possível afirmar, sem medo de incorrer numa hipérbole, que os gastos e cuidados que um governo destina à preservação e à defesa da instituição familiar são inversamente proporcionais aos que engordam o montante difuso destinado aos “temas sociais”.

Uma proteção zelosa da família reduziria todas essas perdas do sistema educacional que tanto preocupam nossos políticos — ao menos da boca para fora — e que de modo tão cruel sofrem nossos professores. Se os rapazes chegam nas aulas com uma série de conflitos, isso se dá em boa medida porque cresceram em famílias desestruturadas, disfuncionais, enfraquecidas até a inanição, transformadas em campos de discórdia ou em locais desérticos.

E a proliferação de problemas psíquicos entre a população atual, não teria muito a ver com a anulação desse cálido abrigo que a família é para nós perante as intempéries da vida? Por que ninguém se atreve a formular com clareza o vínculo existente entre muitas das recentes patologias sociais e a sistemática demolição da família?

Os perseguidores dessa milenar e grandiosa criação [i] costumam chamá-la de repressiva, tirânica e castradora, confundindo a família com suas versões deformadas, o que equivale a confundir a água com venenos que a contaminam; e, amparando-se nessa subversão das categorias, conseguiram caracterizar aqueles que a defendem como amantes das cadeias. 

É claro que amamos as cadeias! Amamos as cadeias vivas que preservam os laços de afeto, amamos as cadeias humanas que unem as gerações, amamos as cadeias de almas que garantem a transmissão de um legado espiritual

E amamos essas cadeias — que é como amar a vida — porque entendemos que a ruptura delas nos transforma em massa de manobra da engenharia social, em átomos perdidos que não são mais guiados pelos compromissos, mas pela exaltação dos interesses e dos desejos pessoais, e cuja consciência do isolamento e do abandono termina nos transformando em escravos alienados nas mãos do Leviatã.

Notas

Corrigimos aqui um deslize do autor, que chamou à família creación humana, quando é sentença certa em Teologia que “o matrimônio não foi instituído pelos homens, mas por Deus [...]. O matrimônio, como instituição natural (officium naturæ), é de origem divina. Deus criou o ser humano homem e mulher (cf. Gn 1, 27) e depositou na mesma natureza humana o instinto de procriação” (Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7.ª ed. Barcelona: Editorial Herder, 1969, p. 677).

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