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Por que chamamos a Deus de “nosso Pai”?
Espiritualidade

Por que chamamos
a Deus de “nosso Pai”?

Por que chamamos a Deus de “nosso Pai”?

Ainda em preâmbulo à Oração do Senhor, Santo Tomás explica neste texto em que sentido Deus é chamado de Pai, expondo os deveres que temos seja para com Ele, enquanto filhos, seja para com o próximo, enquanto irmãos.

Santo Tomás de AquinoTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Agosto de 2017
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II․ "Pai"

3․ Em que sentido Deus é Pai․ — Aqui se nos deparam duas questões: saber em que sentido Deus é Pai e o que lhe devemos enquanto tal. Ora, Deus é chamado Pai (a) em razão do modo especial com que nos criou, fazendo-nos à sua imagem e semelhança, não impressas nas criaturas inferiores: "Não é ele teu Pai, teu Criador, que te fez e te estabeleceu?" (Dt 32, 6). Também o é (b) em razão de seu governo; ora, ainda que tudo esteja sob seu poder, a nós Ele governa como senhores, ao passo que as demais coisas são como escravas em suas mãos: "Sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência" (Sb 14, 3) e, como se lê no mesmo livro, "nos governais com muita indulgência" (Sb 12, 18). Deus é Pai, além disso, (c) a título de adoção, pois se às outras criaturas concedeu alguns pequenos dons, a nós transmitiu uma herança, porque nos fez filhos seus e, "se filhos, também herdeiros" (Rm 8, 17). Como diz o Apóstolo, "não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!" (Rm 8, 15) [1].

4․ O que a ele devemos․ — De nossa parte, devemos-lhe quatro coisas.

a) Em primeiro lugar, que o honremos: "Se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra?" (Ml 1, 6), a qual consiste em três coisas: (i) em relação a Deus, dar-lhe louvor, como canta o salmista: "Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor" (Sl 49, 23), que deve estar não só nos lábios, mas também no coração: "Esse povo", disse o Senhor <por boca do profeta>, "vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim" (Is 29, 13); (ii) em relação a si mesmo, guardar a pureza de corpo, <como exorta o Apóstolo>: "Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo" (1Cor 6, 20); (iii) em relação ao próximo, julgá-lo com equidade, como diz o Salmo: "Reina o rei poderoso que ama a justiça" (Sl 98, 4).

b) Em segundo, que o imitemos, uma vez que é nosso Pai: "Chamar-me-ás pai, e não cessarás de me seguir" (Jr 3, 19). Ora, imitamo-lo perfeitamente quando a ele nos assemelhamos em três aspectos: (i) no amor: "Sede, pois, imitadores de Deus como filhos muito amados. Progredi na caridade" (Ef 5, 1), e isso deve estar no coração; (ii) na misericórdia, pois o amor deve vir acompanhado de compaixão [2]: "Sede, portanto, misericordiosos" (Lc 6, 36), o que tem de manifestar-se em nossas obras; e (iii) na perfeição, pois o amor e a misericórdia devem ser perfeitos: "Portanto, sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5, 48).

c) Em terceiro lugar, que lhe sejamos obedientes: "Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas?" (Hb 12, 9). E isto por três motivos [3]: primeiro, (i) por seu domínio, já que ele é o Senhor: "Faremos tudo o que o Senhor disse e seremos obedientes" (Ex 24, 7); segundo, (ii) pelo exemplo que nos deu o verdadeiro Filho, ao fazer-se obediente ao Pai até a morte, como se diz na Epístola aos Filipenses (cf. Fl 2, 8); terceiro, (iii) porque nos é proveitoso: "Dançarei diante do Senhor que me escolheu" (2Sm 6, 21s) [4].

d) Por fim, que sejamos pacientes nas adversidades com que ele nos castiga, <como aconselha o rei Salomão>: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima" (Pr 3, 11s).

III. "… nosso…"

5․ O que devemos ao próximo․ — Com esta palavra se põem em evidência os nossos dois deveres para com o próximo. O primeiro é o (a) amor. Com efeito, visto que todos são filhos de Deus, temos de tratar o próximo como a um irmão: "Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê", diz São João, "é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20). O segundo é o (b) respeito, por ser ele filho de Deus: "Acaso não é um mesmo o Pai de todos nós? Não foi um mesmo Deus que nos criou? Por que razão somos pérfidos uns para com os outros?" (Ml 2, 10); "Adiantai-vos em honrar uns aos outros" (Rm 12, 10). <Assim temos de tratar o nosso semelhante>, por causa do fruto que recebemos daquele que "se tornou autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem" (Hb 5, 9).

Referências

  1. A noção de paternidade aplicada a Deus, diz Santo Tomás, só existe propriamente no seio da Santíssima Trindade, uma vez que o Pai gera o Filho ab æterno de sua própria substância, coigual e coeterno a si com a mesma glória e segundo a mesma natureza divina. Em S. Th. I, q. 33, a. 3, co., o Aquinate diferencia quatro tipos de filiação que podem atribuir-se às criaturas com respeito a Deus, não em sentido próprio e adequado (secundum rationem perfectam), mas em razão de certa semelhança (secundum aliqualem similitudinem), que pode ser: a) de vestígio, e assim ele é chamado Pai das criaturas irracionais (cf. 38, 28); b) de imagem, e assim ele é Pai das criaturas racionais (cf. Dt 32, 6); c) de graça, e deste modo ele é Pai dos homens que, sendo seus filhos adotivos, ordenam-se à herança da glória eterna pelo dom da graça que lhes foi concedido (cf. Rm 8, 16s); e d) de glória, e neste sentido Deus é Pai dos santos que já entraram na posse da herança eterna (cf. Rm 5, 2).
  2. Ao longo de S. Th. II-II, qq. 28-33, Santo Tomás trata dos efeitos imediatos, tanto internos quanto externos, do ato principal da virtude da caridade, que é o amor (dilectio). Entre os efeitos internos, o Angélico enumera a misericórdia, "uma virtude especial [...] que nos inclina a compadecer-nos das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto entristecem o nosso irmão e na medida em que podemos, além disso, ver-nos a nós mesmos em semelhante estado. É a virtude por excelência dentre todas as que se referem ao próximo; e o mesmo Deus manifesta em grau sumo sua omnipotência ao compadecer-se misericordiosamente de nossos males e remediar nossas necessidades" (A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 526, n. 366). O Aquinate chega a afirmar que, considerada em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes, visto que a ela pertence repartir com os outros e socorrê-los na necessidade, o que é característico de quem é superior. É por isto que se diz que ter misericórdia é próprio de Deus, que está acima de todas as criaturas. Mas, do ponto de vista do sujeito, a misericórdia só pode considerar-se a maior virtude se quem a possui for o mais eminente, sem ninguém acima que o socorra e tendo abaixo de si todos os demais. Ora, para quem tem um superior ao qual recorrer é melhor unir-se a ele do que suprir as necessidades de alguém inferior. Por isso, a caridade, pela qual nos unimos a Deus, essencial e soberanamente superior a todos, tem prioridade sobre a misericórdia, pela qual socorremos aos necessitados, acidental e circunstancialmente inferiores a nós (cf. S. Th. II-II, q. 30, a. 4, co.).
  3. A obediência, diz Santo Tomás, é uma virtude moral que nos dispõe a cumprir prontamente as ordens e preceitos de um superior (cf. S. Th. II-II, q. 104, a. 2, ad 3), seja ele outro homem ou o próprio Deus, a cujo império devemos sujeitar nossa vontade em razão de certa necessidade de justiça (ex quadam necessitate iustitiæ), visto que ele é o primeiro motor não só das coisas que se movem naturalmente, mas também de todas as vontades livres (cf. S. Th. II-II, q. 104, a. 4, co.).
  4. "Grandes são as vantagens da obediência tanto para a inteligência como para a vontade e o coração. — 1.ª) Para a inteligência: a) Certeza de conhecer e fazer infalivelmente a vontade divina. b) Certeza do socorro divino: Ego ero tecum (Ex 3, 21). c) Certeza de êxito: Omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28), ainda que o superior esteja equivocado. — 2.ª) Para a vontade: a) É fonte da verdadeira liberdade. Nada escraviza tanto como o apego à própria vontade. b) É fonte de fortaleza; para obedecer até ao heroísmo é preciso ser muito valente; c) É garantia de perseverança no bem. — 3.ª) Para o coração: a) Fonte de paz individual e coletiva. Que sossego no coração, que paz tão profunda reina em uma casa ou no mosteiro de pessoas obedientes! b) Princípio de ordem. Cada coisa em seu lugar: o superior, mandando; o súdito, obedecendo. Resultado: a paz (tranquillitas ordinis). c) Ausência de responsabilidade e escrúpulos: 'obedecí', única conta que temos de prestar a Deus" (A. Royo Marín, op. cit., pp. 581-582, n. 420).

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Namorar assim não é “radical demais”?
Testemunhos

Namorar assim não é “radical demais”?

Namorar assim não é “radical demais”?

Este casal, hoje unido em santo Matrimônio, decidiu ser radical e cortar de vez os “beijos longos e exagerados” de seu relacionamento. O que eles descobriram, ao final de tudo, foi o verdadeiro amor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2018
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E.C., aluno de nosso site, escreveu e enviou-nos a mensagem abaixo em 2015, quando ainda não estava casado. De qualquer modo, seu testemunho da época de namoro com certeza será um grande incentivo aos casais de namorados católicos, especialmente nestes tempos em que a doutrina moral da Igreja é muitas vezes vista como um mero “ideal”, distante e quase inatingível para as pessoas, ou “radical demais” para ser seguida fielmente, em todas as suas exigências.

Leiam todos os casais este brevíssimo testemunho e inspirem-se. Um namoro casto é sim possível, com a graça de Deus!


Olá! Eu e minha namorada escrevemos um texto para dar nosso testemunho de como o vídeo “Quais são as carícias permitidas no namoro?”, do programa A Resposta Católica, melhorou o nosso namoro. O narrador do texto sou eu, o rapaz da relação.

Quando comecei a namorar não entendia o que era castidade e pensava que era casto quem casava sem antes ter tido uma relação sexual. Comecei meu namoro com um pensamento mais ou menos assim: farei tudo, menos sexo.

Posso dizer que foi quase isso que aconteceu, porém, fui percebendo que algo não estava certo. Lembro-me de ter a consciência pesada depois dos encontros que tínhamos. Com o tempo percebi que as carícias que aconteciam durante esses encontros não eram certas e que estavam nos prejudicando. Mais: desagradavam a Deus. Resolvemos parar com elas e continuar apenas com os beijos, contudo os beijos que aconteciam eram longos e exagerados.

Durante esse tempo vi um vídeo do padre Paulo, não me lembro ao certo qual era, e nele entendi que um pecado sexual não está, necessariamente, no ato físico que acontece entre os parceiros, mas sim no que os dois estão realmente querendo, na intenção que move o ato; se a intenção tem como centro o prazer, há um problema, há um pecado, porque de uma forma ou de outra você acaba utilizando a outra pessoa como um objeto para conseguir o prazer desejado.

Surgiram, então, alguns questionamentos na minha cabeça, por exemplo: “Qual a intenção que há em mim quando beijo minha namorada? É por afeto? É para demonstrar carinho? É por prazer? Esses beijos nos fazem bem?” Eu não podia negar que, nos beijos longos que aconteciam, o afeto cedo ou tarde perdia significado e o que restava era a busca do prazer. Pensei várias vezes em parar com este tipo de beijo por entender que estavam errados, minha consciência me incomodava, não sabia o que fazer, porém eu pensava que seria radical demais parar com eles.

No meio disto eu vi o vídeo “Quais são as carícias permitidas no namoro?”. Relacionei o que o padre falou com as experiências que eu tive e percebi que eu estava utilizando minha namorada como um objeto de prazer. Eu não podia negar isso, essa era a verdade e ponto final. Assim, eu e ela conversamos sobre essa questão, decidimos parar com os beijos longos e fazer o que o padre disse.

O resultado da mudança foi esplêndido. O amor, a vontade de ver o outro crescer, a admiração entre nós, tudo isso aumentou muito, passamos a ficar muito mais felizes. O tempo, antes utilizado para algo impróprio ao namoro, agora é utilizado para conversas francas, filmes sadios e troca de conhecimentos. O carinho e afeto, demonstrados nos pequenos detalhes, são mais significativos e importantes.

Hoje, temos a certeza de que queremos o melhor um para o outro, que nosso relacionamento se traduz em companheirismo, em crescimento, em querer o melhor para o outro independentemente da satisfação pessoal. O sorriso em nosso rosto demonstra a felicidade e gratidão que sentimos. Podemos afirmar que, se pudéssemos, não hesitaríamos em voltar no tempo e namorar assim, regidos por um amor verdadeiro.

Muito obrigado, Padre Paulo Ricardo!

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E se fosse hoje o dia da sua morte?
Cursos

E se fosse hoje o dia da sua morte?

E se fosse hoje o dia da sua morte?

Um destino eterno aguarda todo homem que vem a este mundo: ou a glória do céu ou a amargura sem termo do inferno. Cabe a nós, no curso da vida presente, decidir para onde queremos ir.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2018
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Os católicos de hoje sofrem de um mal quase desconhecido das gerações passadas: uma total indisposição para pensar na morte e nas realidades que, queiramos ou não, nos aguardam a todos depois dela — os novíssimos.

Derivado do adjetivo latino novum, o termo é um aportuguesamento do superlativo novissimum, que significa o mesmo que “último” ou “final” em alguma ordem de coisas. No sentido em que aqui nos interessa, a expressão “novíssimos” refere-se às realidades últimas que, a partir da morte, estão à espera de todo ser humano: “Em tudo o que fizeres”, diz o Eclesiástico, “lembra-te dos teus novíssimos”, isto é, do teu fim, “e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

Neste derradeiro capítulo de nosso curso “Catequese para Adultos”, Padre Paulo Ricardo faz um estudo sobre a escatologia cristã e explica, de acordo com o que sempre ensinou a Igreja, o que é a morte e o juízo particular que a ela se segue, qual o destino eterno de toda alma e o que acontecerá no fim dos tempos com toda a humanidade.

O teaser acima contém trechos da aula 32, intitulada “Depois da morte vem o juízo”.

Você ainda não é nosso aluno? Então venha logo estudar a fundo e sistematicamente as coisas da fé! Embora mais de 80% de todo o nosso conteúdo de evangelização seja gratuito e aberto a todas as pessoas, a maior parte de nossos cursos é exclusiva para assinantes, pois são eles que ajudam a manter, com uma singela assinatura, todo o nosso apostolado na internet.

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A Igreja Católica é intolerante?
Doutrina

A Igreja Católica é intolerante?

A Igreja Católica é intolerante?

Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Mas condenar a verdade à tolerância é o mesmo que sentenciá-la ao suicídio. Entenda neste texto, extraído de um antigo sermão, em que sentido a Igreja Católica é intolerante.

Cardeal Pie20 de Setembro de 2018
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Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante.

Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade, e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

É da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas.

Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 são 4?

Nada é tão exclusivo, meus irmãos, quanto a unidade. Ouvi a palavra de São Paulo: Unus Dominus, una fides, unum baptisma. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma.

Assim, a unidade divina que resplandece por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico, cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: Se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca.

E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo.

O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o de sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um decreto do senado, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes.

Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie eius, “Eis que surge o Senhor, e os ídolos estremecem diante de sua face” (Is 19, 1).

Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium.

Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo de fé, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática.

Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos de fé? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade.

Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: “Eu sou a verdade”, Ego sum veritas, é necessário, por uma consequência inevitável, que a Igreja de Cristo conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos, meus irmãos, com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil.

Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo de fé o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rousseau foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins.

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras.

A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina, meus irmãos, que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França.

— A que ponto de loucura chegamos então?

— Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis, “Vós sois de vosso pai, o diabo”. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as expressões que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque tendes a unidade e, porque sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

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É possível provar a existência da alma?
Fé e Razão

É possível provar a existência da alma?

É possível provar a existência da alma?

A experiência interna da liberdade é uma prova clara de que a ação humana é especificamente distinta da de um animal ou de um computador e só pode ser explicada por referência a um princípio superior à matéria.

Padre Paulo Ricardo19 de Setembro de 2018
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Podemos provar a existência da alma humana? Dizemos provar, e não demonstrar, porque o que nos importa saber é se é possível, ao menos em certa medida, ter experiência da própria alma, de maneira que a existência dela se nos apresente como um fato provado, ou seja, como realidade vivida e incontestável. Antes porém de analisar a prova, convém entender o método em que ela se baseia.

Partimos aqui da comparação entre o que percebemos dentro de nós e o que vemos nos animais e computadores. Se pudermos constatar que algum fenômeno da interioridade humana — acessível a qualquer pessoa — é inexplicável em termos de pura neurologia animal ou de funções computacionais, então é forçoso reconhecer em nós a existência de um princípio de operações irredutível à matéria.

Visto isso, olhemos primeiro para os animais. Sabemos que a conduta dos demais seres vivos é instintiva; obedece, por assim dizer, a uma “programação” prévia que os determina a agir e reagir de forma padronizada diante de determinados estímulos. Ora, todo ser vivo possui, como instinto básico e inato, a tendência à autoconservação, que se traduz fundamentalmente como busca natural do prazer e repúdio natural da dor.

No caso dos animais irracionais, essa tendência se manifesta de modo mais ou menos automático, desprovida de um momento reflexivo prévio acerca de sua própria finalidade. Ainda que o comportamento animal, sobretudo nas espécies superiores, não seja simples automatismo — reflexo e involuntário —, é evidente que os animais não sabem o que fazem, como o fazem nem por que o fazem, o que revela que a sua conduta não é resultado de eleição. Daí que eles sejam incapazes, por um lado, de renunciar ao que lhes parece bom (um prazer, por exemplo) aqui a agora e, por outro, de considerar como um bem o que apreendem como mal (uma situação de perigo, uma dor etc.).

O ser humano, ao contrário, pode transcender e pôr entre parênteses sua tendência à autoconservação, reorientando livremente seus desejos e receios. De fato, todos nós experimentamos dia após dia essa liberdade interior, que nos permite atuar e escolher com relativa independência da nossa “programação” biológica e cerebral. Não estamos, noutras palavras, obrigados a agir conforme os impulsos de um desejo, já que podemos a qualquer momento pôr em cheque a bondade, a conveniência, a oportunidade, a possibilidade etc. daquilo que desejamos.

É por isso que somos capazes de renúncia, de sacrifício, de nos propor ideais e, inclusive, de nos sentir angustiados ante o horizonte de alternativas possibilitadas pela nossa vontade [1].

Esse livre dinamismo da conduta humana também evidencia que o homem não se comporta como um computador. Um computador, com efeito, só pode funcionar a partir do que já possui, ou seja, limitando-se ao que faz parte da sua configuração. Um computador só pode alterar a própria programação ou “aprender” novos comandos ou soluções se essas possibilidades já fizerem parte de sua estrutura, elaborada sempre por alguém distinto do mesmo computador.

Tudo isso nos indica claramente que a liberdade, um fenômeno que qualquer pessoa pode verificar dentro de si, está vinculada a uma dimensão do ser humano que não é material, que não encontra explicação plausível em nenhuma condição ou lei física, química, biológica ou eletrônica. A existência de um princípio interno e imaterial surge, assim, como exigência necessária para poder explicar a especificidade do nosso agir livre, o qual só pode ser efeito da atuação de uma alma espiritual.

“Esta afirmação”, obviamente, “em nada se opõe às leis naturais nem ao espírito científico; simplesmente afirma que, junto com as dimensões que podem ser estudadas pela ciência experimental, existem outras (as espirituais) que, por transcenderem o âmbito natural, também transcendem o âmbito das ciências. Trata-se, porém, de dimensões reais, que devem ser admitidas para explicar os dados da experiência” [2], realizável por qualquer um, e inclusive da própria ciência como atividade humana.

Referências

  1. Cf. J. A. García Cuadrado, Antropología Filosófica. 6.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2014, pp. 160-162.
  2. Mariano Artigas, Filosofía de la Naturaleza. 5.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2003, p. 272.

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