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Por que Jesus quis ser batizado?
Espiritualidade

Por que Jesus quis ser batizado?

Por que Jesus quis ser batizado?

Se São João Batista pregava um batismo de conversão e arrependimento, por que Jesus, que não tinha pecados nem precisava se converter, quis ser batizado por ele?

Pe. Antonio Royo MarínTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2018Tempo de leitura: 4 minutos
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Se João Batista pregava um batismo de conversão e arrependimento, como aprendemos das SS. Escrituras (cf. Mt 3, 1-2), por que Jesus, que não tinha pecados nem precisava converter-se, quis ser batizado por ele?

Recordemos, em primeiro lugar, a cena evangélica tal como a narra o evangelista S. Mateus:

Da Galiléia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. João recusava-se: “Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim!” Mas Jesus lhe respondeu: “Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa”. Então João cedeu. Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. E do céu baixou uma voz: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 13-17).

Vejamos agora as consequências de ordem teológica que se depreendem deste episódio da vida de Nosso Senhor.

Antes de tudo, é preciso afirmar que, à semelhança de todas as outras obras de Deus, foi muito conveniente que Cristo fosse batizado e recebesse o batismo de João.

Santo Tomás de Aquino oferece-nos as seguintes razões para provar a conveniência do batismo de Jesus (cf. S. Th. III, q. 39, a. 1, co.):

  1. Em primeiro lugar, Jesus, ao ser batizado, purificou a água, deixando-a limpa com o contato de sua carne santíssima e conferindo-lhe, assim, a virtude de santificar os que depois dele haviam de ser batizados. Por isso, podemos dizer que Jesus foi batizado, não para purificar-se, mas para purificar-nos.
  2. Além disso, embora Cristo não fosse pecador, assumiu a semelhança da carne de pecado, como diz S. João Crisóstomo, e quis, com o seu batismo, que todo o velho Adão submergisse nas águas da regeneração.
  3. Por fim, Jesus, modelo de todas as virtudes e fiel cumpridor da Lei tanto antiga como nova, quis fazer ele mesmo o que nós, por ordem sua, estamos obrigados a fazer. Assim, serviu-nos de exemplo e estimulou-nos a receber o verdadeiro batismo que ele havia de instituir mais tarde.

E foi conveniente que o Senhor recebesse justamente o batismo de João, e não o batismo cristão e sacramental, porque, estando cheio do Espírito Santo desde o primeiro instante de sua concepção, não precisava receber o batismo espiritual.

Desta forma, aliás, Jesus autorizava o batismo de João como preparação para o verdadeiro batismo e, como dito acima, nos estimulava com o seu exemplo a receber este último.

O batismo do Senhor, além disso, foi acompanhado de uma série de circunstâncias e sinais muito chamativos. Também eles foram convenientes e oportunos. Vejamos um por um.

  • Quanto à idade, foi muito razoável que Cristo se batizasse aos trinta anos, pois esta é a idade que, de um modo geral, se considera a mais perfeita, e foi nela que Jesus começou a pregar o Evangelho. Em todo caso, o batismo cristão deve ser recebido logo após o nascimento, para que o recém-nascido não seja privado da graça nem corra o risco de morrer sem este sacramento tão necessário.
  • Quanto ao lugar, foi conveniente e muito simbólico que Jesus se batizasse no rio Jordão, que os israelitas tiveram de atravessar para entrar na terra prometida. O batismo de Cristo, com efeito, nos introduz na verdadeira terra prometida, que é o Reino dos Céus.
  • Além disso, foi muitíssimo oportuno que, durante o batismo de Cristo, os céus se abrissem sobre ele, a fim de significar que, pelo batismo cristão, nos são abertas as portas do reino celestial, fechadas ao primeiro homem por causa do pecado.
  • Foi também convenientíssimo que o Espírito Santo descesse sobre o Senhor em forma de pomba, para significar que todo aquele que recebe o batismo de Cristo se converte em templo e sacrário do Espírito Santo, devendo, por isso mesmo, levar uma vida simples e pura como a de uma pomba.
  • Finalmente, foi conveniente que no batismo de Cristo se ouvisse a voz do Pai manifestando o seu agrado, uma vez que o batismo cristão se realiza pela invocação e o poder da Santíssima Trindade, e no batismo de Cristo se manifestou todo o mistério trinitário: a voz do Pai, a presença do Filho e a descida do Espírito Santo em forma de pomba.

Vale a pena notar ainda duas coisas. Em primeiro lugar, foi muito oportuno que Deus Pai se manifestasse pela voz, porque é próprio do Pai gerar o Verbo, que significa justamente “a Palavra”, de maneira que a própria voz emitida pelo Pai dá testemunho da filiação do Verbo.

Por fim, é preciso ter o cuidado de notar que a pomba que apareceu sobre Cristo simbolizava o Espírito Santo; mas de modo nenhum devemos crer que se tratava do próprio Espírito Santo manifestando-se de forma visível, pois ele não assumiu nenhuma natureza corpórea, diferentemente do Verbo, que assumiu na unidade de sua pessoa a natureza humana de Cristo.

Referências

  • Tradução e adaptação de Antonio R. Marín, Jesucristo y la Vida Cristiana. Madrid: BAC, 1961, pp. 276-278, nn. 248-249.

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Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente
Pró-Vida

Holocausto: tudo começou
com o assassinato do primeiro inocente

Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente

Agora, que 75 anos nos separam do fim do Holocausto, não nos esqueçamos o momento em que toda aquela tragédia começou. Tudo teve início quando o primeiro homem inocente foi, não obstante sua inocência, deliberadamente assassinado.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Este ano marca o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz, campo de concentração nazista. Localizado no território da Polônia ocupada pelos alemães, Auschwitz começou como um campo para prisioneiros políticos poloneses, mas tornou-se um epítome simbólico do Holocausto, o extermínio sistemático do povo judeu. Também ao longo deste ano celebraram-se vários aniversários na senda do Dia da Vitória na Europa (n.d.t.: o dia 8 de maio), dia da derrota do Terceiro Reich: entre eles, o aniversário da libertação do campo de concentração de Dachau, em 29 de abril.

S. João Paulo II, em sua Encíclica “Evangelium vitae”, caracterizou os tempos modernos como uma luta entre a “cultura da vida” e a “cultura da morte”. Embora ele tenha escrito a Encíclica em 1995, seria um erro pensar que a “cultura da morte” é um fenômeno exclusivo das décadas recentes.

Auschwitz recorda-nos que os regimes totalitários do séc. XX adotaram a morte como instrumento de política estatal, que solapou a inviolabilidade da vida humana de cada indivíduo. Judeus (e não apenas judeus) foram sujeitos à execução arbitrária nas mãos de nazistas alemães, não por um “crime” de que pudessem ser culpados (embora os alemães formalistas tenham criado “crimes” — inclusive “raciais” — para justificar o que faziam), mas porque as vítimas eram quem eram. Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto. Auschwitz foi simplesmente a encarnação de toda essa mentalidade.

“Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto.”

Autores contemporâneos insistem em restringir o termo “Holocausto” ao extermínio dos judeus europeus, à “Solução Final” da questão judaica (Endlösung der Judenfrage). Eu entendo o esforço por reconhecer a singularidade do que ocorreu aos judeus europeus, tanto em escopo quanto em grau.

Mas não podemos esquecer que a eliminação dos judeus europeus foi parte de uma agenda racial e eugênica muito mais ampla abraçada pelos nazistas, que começou muito mais cedo com o extermínio de cidadãos alemães da própria Alemanha, por considerar-se que viviam uma “vida indigna de ser vivida” (lebensunwertes Leben). Na verdade, essa mesma ideia surgiu treze anos antes dos treze anos de reino de terror que foi o nazismo: a expressão “lebensunwertes Leben” apareceu no título de um livro publicado em 1920 por… dois professores. 

O Holocausto foi uma encarnação particularmente cruel dessa ideia, mas ela não surgiu do nada: as sementes do Holocausto foram plantadas no momento em que o direito de uma vida inocente deixou de ser autojustificável; quando a vida inocente em si mesma deixou de ser motivo o bastante para que a protegessem; quando a vida inocente passou a precisar de um outro motivo para permanecer inviolável. A essência disso foi bem captada no filme Julgamento de Nuremberg (1961), na cena em que o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy) visita o nazista Ernst Janning (Burt Lancaster) em sua última cela prisional. “Aquelas pessoas… aqueles milhões de pessoas… eu nunca pensei que fosse chegar a tanto. Acredite”, declarou Janning. 

“Herr Janning”, respondeu Haywood, “chegou a tanto na primeira vez que você condenou à morte um homem que você sabia ser inocente”.

Embora Auschwitz tenha-se tornado um símbolo do extermínio dos judeus europeus, não nos podemos esquecer dos muitos outros crimes contra a vida humana praticados em toda a rede de campos de concentração montada pelos nazistas. Dachau era praticamente uma comunidade religiosa católica — ou mesmo um seminário —, e escreverei posteriormente sobre alguns daqueles sacerdotes que, em algum momento, partiram de Dachau para os Estados Unidos. Os ciganos também foram massacrados nos campos. Prisioneiros foram usados em experimentos “médicos” discutíveis — que estavam mais para sádicos (por exemplo, os “experimentos com água gelada” em Dachau, nos quais sacerdotes e prisioneiros de guerra soviéticos eram imersos em água gelada para ver quanto tempo sobreviviam e, assim, aplicar os dados colhidos desses Untermenschen, desses povos inferiores, ao pedigree da nação germânica, que sobrevoava, em bombardeiros, o gélido Atlântico Norte). O grau de colaboração de cientistas, em geral, e de médicos, em particular, com os nazistas era elevado. O dr. Josef Mengele era apenas o zênite daqueles que prostituíam suas profissões.

O desfecho da II Guerra Mundial levou, pelo menos, a um esforço temporário de proteger o direito à vida e a dignidade humana em instrumentos legais projetados pelos arquitetos da ordem pós-guerra. A nova constituição da Alemanha Ocidental, por exemplo, consagrou seu compromisso de abertura à “inviolabilidade da dignidade humana”. A ética médica do pós-guerra (por exemplo, o Código Internacional de Ética Médica da Associação Médica Mundial) exortou os doutores a sempre “respeitar a vida humana” e a obter [dos pacientes] consentimento informado. As lições do Holocausto foram universalizadas como uma ética da inviolabilidade da dignidade humana.

O Holocausto tem, é claro, uma dimensão única como testamento da dimensão letal do antissemitismo. Isso ninguém pode negar. Mas agora que celebramos o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz — tanto como símbolo da Solução Final quanto como nadir de um período de três meses e meio, em 1945, quando campos de concentração foram libertados e seus horrores dados a conhecer —, não nos esqueçamos de uma verdade fundamental: tudo isso começou quando o primeiro homem inocente foi, não obstante, deliberadamente assassinado.

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O lugar dos hipócritas no Inferno de Dante
Doutrina

O lugar
dos hipócritas
no Inferno de Dante

O lugar dos hipócritas no Inferno de Dante

“De todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”, pois por meio da mentira eles zombam de tudo o que é bom e profanam o que é sagrado. Mas também não há nada mais belo do que ver almas justas que lutam com fervor para se unir a Deus.

Maria CintorinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Certa vez, C. S. Lewis escreveu o seguinte: “De todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”. Ao refletir sobre tantas coisas que têm sido reveladas na Igreja, relacionadas com liderança medíocre, hipocrisia e comportamento escandaloso (para dizer o mínimo), fica difícil não pensar nas palavras de Lewis e recordar o Inferno de Dante, na Divina Comédia.

Em sua obra, Dante é guiado por Virgílio no Inferno e no Purgatório e, depois, por Beatriz no Céu. Ao longo da jornada, Dante testemunha os diferentes castigos que os maus sofrem no Inferno e as diversas alegrias dos bem-aventurados no Céu. Essa recompensa se destaca mais no Inferno. A técnica genial que Dante utiliza no poema reflete sua percepção da gravidade do pecado, um conceito que tem sido negligenciado em nossa época. Dante manifesta a realidade do pecado e suas principais consequências por meio das engenhosas punições aos diversos grupos de almas no Inferno e no Purgatório, pois os castigos refletem os crimes cometidos por elas na terra.

No Inferno, Dante testemunha coisas perturbadoras e fica apavorado com elas. Viaja por cada círculo infernal e vê como cada punição reflete um crime específico que as almas cometeram na terra: aqueles que pecaram por luxúria são forçados a pairarem no vento, perseguindo uns aos outros, sem descanso nem paz. Os assassinos são condenados a afundar num fervilhante rio de sangue e fogo, enquanto os hereges queimam numa tumba ardente por toda a eternidade. De todos os castigos descritos por Dante, talvez os mais apropriados sejam os impostos aos hipócritas e líderes corruptos.

“Os hipócritas”, por Gustavo Doré.

Dante põe essas pessoas nos lugares mais distantes do Inferno, na sexta cova do oitavo círculo (c. XXIII). Aqui, Dante fala de diversas figuras históricas que procuraram benefícios pessoais quando ocuparam posições de autoridade e governo. O principal pecador nessa cova é Caifás, o sumo sacerdote que defendeu a morte de Cristo com a desculpa de estar preocupado com o bem-estar de Israel. 

Os hipócritas que estão nessa cova são forçados a vestir belos mantos por fora. No entanto, é possível perceber que, vistos mais de perto, os mantos estão cobertos de chumbo por dentro. Assim, eles refletem a vida dos hipócritas na terra: cheia de corrupção e sujeira, mas mascarada por indivíduos que passam a aparência de ser ordenados, bem-intencionados e preocupados com o bem comum.    

Esses indivíduos ocultaram habilmente aqui na terra sua busca superficial por poder, aplausos e prazer. Esses desejos, aliados à busca por ganhos materiais, os consumiram a ponto de fazê-los dominar a arte de ter uma vida dupla. Suas vidas se transformaram, portanto, em mentiras ambulantes. Como, para eles, o prazer e o interesse próprio foram mais importantes do que a salvação, perderam toda fé e crença no eterno, usadas como meio para seu próprio benefício. O mistério do sobrenatural lhes foi obscurecido por desejos mundanos, e suas paixões desordenadas puseram em risco aquilo que é mais importante: suas almas imortais.  

O Inferno de Dante serve como alerta para todos, particularmente para os que ocupam cargos de liderança. Esta, por sua vez, não deveria ser buscada, não deveria ser vista como uma oportunidade para obter poder, riqueza ou reconhecimento, pois o poder traz consigo grandes responsabilidades, e são graves as consequências de fracassar no cumprimento dos deveres de ofício e de orientar mal a outros. Cristo faz um alerta aos Apóstolos sobre essas punições: “Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!” (Mc 9, 42). O mesmo princípio se aplica àqueles que, em virtude de seu cargo e exemplo, escandalizam os que estão à sua volta.

S. João Batista usa palavras duras para falar dos hipócritas e dos que provocam escândalo. Ele chama os fariseus de “raça de víboras”. Por quê? Porque são tão desonestos e ardilosos quanto a serpente no jardim do Éden. Escondem suas verdadeiras intenções, dando a aparência de bom ao que é vil e perverso. Do mesmo modo, Cristo usa palavras fortes contra aqueles que, por palavras ou ações, desorientam os outros. Jesus diz o seguinte sobre os hipócritas: 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade (Mt 23, 27-28).

Portanto, aqueles que, secretamente, não conseguem pôr em prática os ensinamentos da Igreja que eles mesmos pregam, ou que realizam boas ações apenas para serem elogiados, são comparados aos mortos, pois essas ações matam a vida da graça na alma. Por conhecer os perigos desse tipo de hipocrisia, Jesus alerta os discípulos contra os falsos profetas que se parecem com ovelhas, “mas por dentro são lobos arrebatadores” (Mt 7, 15).

Se tudo o que está acima pode ser dito dos maus religiosos, o que dizer dos bons? Embora C. S. Lewis observe com acerto que “de todos os homens maus, os maus religiosos são os piores”, é possível argumentar que de todos os homens bons, os bons religiosos, os cristãos fiéis, são os melhores, pois são capazes de avaliar suas vidas colocando-as numa perspectiva adequada e orientando-as para o bem. Homens devotos compreendem o horror do pecado, suas ramificações e efeitos; portanto, estremecem só de pensar em realizar qualquer ato mau. Por reconhecerem a seriedade do pecado e o escândalo por ele causado, têm consciência de como devem viver suas vidas para que Deus seja glorificado em tudo. Por seu compromisso diário de servir a Deus em suas palavras e ações, a vida dos homens justos testemunha silenciosamente o fato de que a salvação da alma imortal vale muito mais do que qualquer coisa oferecida pelo mundo, e que a luta para preservá-la é indispensável para a verdadeira felicidade do mundo que há de vir.  

Como os homens religiosos compreendem a futilidade desta vida, não buscam prazeres fugazes. Esforçam-se para viver cada dia cientes de que são “pó e ao pó voltarão”. Embora tenham consciência de serem fracos e pecadores, confiam na graça de Deus em sua luta diária para cumprir o chamado à santidade. Isso lhes permite compreender o propósito mesmo de sua existência, que, como explica S. Inácio de Loyola, é “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e desta forma salvar suas almas”. Nesse sentido, Deus está no centro das vidas dos homens justos, pois eles reconhecem que o mundo ao seu redor serve apenas como meio para um fim. Seu propósito de vida, fundamentado na realização da união eterna com Deus, molda cada um de seus desejos e faz com que se coloquem à disposição de Deus para trabalhar sem descanso a serviço dos outros.

Esses fiéis cristãos, cujas vidas são fundamentadas em Deus e enraizadas na lei moral, irradiam o amor de Deus para todas as pessoas com que deparam, fazendo com que Ele seja conhecido por todos. Seu testemunho genuíno da beleza do Evangelho vivido e da alegria que daí nasce inspira seus companheiros a buscarem a virtude, pois os homens são atraídos pelo bem por natureza. O Papa Leão XIII escreve sobre a importância de viver uma vida virtuosa e, assim, servir de bom exemplo para os outros. Ele observa que “dar um bom exemplo é a melhor maneira de cultivar nos homens o amor à virtude”. A integridade desse testemunho só pode ter eficácia se for autêntica: deve surgir do relacionamento com Cristo, do desejo e do comprometimento dos cristãos com a busca da santidade. Assim, os fiéis cristãos inspiram as vidas daqueles com quem convivem, por causa do verdadeiro testemunho que dão do Evangelho, de sua fidelidade a Cristo, de suas virtudes e transparência consigo e com os outros. São estas as redes involuntárias que atraem outras pessoas para eles e, em última instância, para Cristo.

Portanto, o exemplo dos bons religiosos é poderoso. O testemunho dos santos ao longo dos séculos, independentemente de suas personalidades ou vocações, mostra-nos que isso sempre foi verdade. Por meio de suas vidas e do alegre abandono ao serviço de Deus, os santos refletiram o amor divino para todas as pessoas com quem conviveram, tornando-se faróis da luz da fé no mundo. 

Embora C. S. Lewis afirme que não há nada pior do que religiosos perversos, que pela mentira zombam de tudo o que é bom e profanam o que é sagrado, não há nada mais belo do que ver almas justas que lutam fervorosamente para se unirem a Deus. O exemplo dos justos não só dá esperança à humanidade, mas também faz com que as pessoas se lembrem de seu objetivo celeste. Este é o poder dos homens justos: em tudo o que fazem, refletem Deus para os outros; e, ao fermentar o mundo com a Palavra de Deus por meio de suas palavras e exemplos, os justos revelam o Céu aos homens e assim levam a humanidade a Deus.

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Vida e martírio de São Mateus
Santos & Mártires

Vida e martírio de São Mateus

Vida e martírio de São Mateus

Quem foi o Apóstolo e evangelista São Mateus, antes e depois de conhecer Nosso Senhor? Onde Ele pregou após a Ressurreição e Ascensão de Jesus aos céus? E como foi o seu martírio? É o que nos contam estas piedosas páginas da tradicional “Legenda Áurea”.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe CNP21 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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1. Nome. — Mateus teve dois nomes, Mateus e Levi. Mateus quer dizer “dom precoce” ou “conselheiro”. Ou Mateus vem de magnus, “grande”, e θεός, “Deus”, como se se dissesse “grande para Deus”, ou então vem de manus, “mão”, e de θεός, significando “mão de Deus” [1]. Com efeito, a) ele foi um dom precoce por sua rápida conversão, b) foi conselheiro por sua salutar pregação, c) foi grande diante de Deus pela perfeição de sua vida e d) foi a mão de que Deus se serviu para escrever o seu Evangelho. — Levi quer dizer “retirado”, “colocado”, “acrescentado”, “incorporado”. Ele foi a) retirado de seu posto de cobrança de impostos, b) colocado entre os Apóstolos, c) acrescentado à comunidade dos evangelistas e d) incorporados ao catálogo dos mártires.

2. Gestas. — O Apóstolo, ao pregar na Etiópia, em uma cidade chamada Nadaber, encontrou dois magos, Zaroés e Arfaxat, que entusiasmavam os homens com seus truques, parecendo ter o poder de os privar da saúde e do uso de seus membros. Cheios de soberba, faziam-se adorar como deuses pelos homens. Tendo chegado a essa cidade e sido hospedado pelo eunuco da rainha Candaces, batizado com o nome de Filipe, o Apóstolo Mateus notou como o prestígio daqueles magos era pernicioso aos homens e, por isso, os quis converter.

O evangelista S. Mateus, pintado por Francisco Bayeu y Subías.

Quando o eunuco perguntou a S. Mateus como era possível que ele falasse e compreendesse tantas línguas, o Apóstolo explicou que, depois da vinda do Espírito Santo, recebera o conhecimento de todos os idiomas. Porque, assim como, por soberba, alguns quiseram edificar uma torre que chegasse ao Céu, mas viram-se forçados a interromper a construção por causa da confusão das línguas, os Apóstolos construiriam, não com pedras, mas com virtudes, pelo conhecimento de todos os idiomas, uma Torre para todos os que crerem subirem até o Céu.

Então, alguém veio anunciar a chegada dos dois magos, acompanhados de dragões que vomitavam fogo sulfúrico pela boca e pelas narinas, matando a todos os homens [2]. O Apóstolo, munindo-se com o sinal da cruz, foi com segurança em direção a eles. Mal o viram, foram os dragões deitar-se aos seus pés. Mateus disse então aos magos: “Onde está vossa arte? Despertai-os, se puderdes. De minha parte, se eu não me houvera encomendado ao Senhor, ter-vos-ia feito a vós o que pensáveis fazer comigo”. Como o povo se reunisse, Mateus ordenou que os dragões fossem embora em nome de Jesus, e eles partiram no mesmo instante sem fazer mal a ninguém. Ele começou então a fazer um grande sermão ao povo sobre a glória do Paraíso terrestre, afirmando ser mais alto do que todas as montanhas, estar próximo do Céu; que lá não há espinhos, os lírios e as rosas não fenecem, a velhice não existe, os homens permanecem sempre jovens, os coros dos anjos cantam; quando se chamam as aves, elas obedecem imediatamente. Acrescentou ainda que o homem fora expulso do Paraíso terrestre, mas que, pelo nascimento de Cristo, fora chamado ao Paraíso celeste.

Enquanto falava ao povo, ouviu-se de repente um alarido: eram choros pela morte do filho do rei. Ora, como os mágicos não o pudessem ressuscitar, convenceram o rei de que o menino fora levado na companhia dos deuses; por isso, era necessário erguer-lhe uma estátua e um templo. O eunuco mandou vigiar os mágicos e convocou o Apóstolo, o qual, depois de ter rezado, ressuscitou no mesmo instante o jovem. Por causa disso, o rei, chamado Egipo, mandou que se divulgasse por todas as suas províncias: “Vinde ver um deus oculto sob a aparência de homem!”

Muitos vieram com coroas de ouro e diferentes tipos de sacrifícios a serem oferecidos ao Apóstolo; mas Mateus os impediu, dizendo: “Homens, que fazeis? Não sou um deus; apenas um escravo do Senhor Jesus Cristo”. Então, com a prata e ouro que tinham levado, as turbas construíram em trinta dias uma grande igreja, na qual o Apóstolo permaneceu por trinta e três anos e converteu o Egito inteiro. O rei, sua mulher e todo o povo fizeram-se batizar; Ifigênia, a filha do rei, consagrou-se a Deus e foi posta à frente de duzentas virgens.

Depois disso, Hírtaco sucedeu ao rei, enamorou-se de Ifigênia e prometeu ao Apóstolo metade do reino, se ele a fizesse aceitá-lo em casamento. O Apóstolo lhe disse que fosse no domingo à igreja, segundo costume de seu predecessor, e, na presença de Ifigênia e das outras virgens, ouvisse sobre os benefícios do casamento. O rei se apressou em ir, alegre por supor que o Apóstolo pretendesse aconselhar o casamento a Ifigênia.

Quando as virgens e todo povo estavam reunidos, Mateus falou longamente sobre as vantagens de se casar, sendo muito elogiado pelo rei, crente que o Apóstolo dissera tudo aquilo para animar Ifigênia e convencê-la a se casar. Depois de pedir que se fizesse silêncio, o Apóstolo retomou o sermão, dizendo: 

É coisa boa o matrimônio, quando nele se guarda a fidelidade. Sabei, pois, os presentes que, se um escravo se atrevesse a raptar a esposa do rei, não somente ofenderia o rei como também mereceria a morte, não por ter-se casado, mas porque convecera a esposa de seu senhor a violar o matrimônio. E o mesmo aconteceria contigo, ó rei: saibas que Ifigênia tornou-se esposa do Rei eterno e está a Ele consagrada por um véu sagrado. Assim, pois, como poderias tu tomar a esposa de outrem mais poderoso e unir-se a ela pelo casamento?

Quando o rei ouviu isso, retirou-se da igreja, louco de raiva. O intrépido e firme Apóstolo exortou todos à paciência e à constância; em seguida, abençoou Ifigênia, que, trêmula de medo, prostrara-se diante dele com as outras virgens. Terminada a Missa solene, o rei enviou um carrasco, que com a espada atingiu Mateus, que se encontrava de pé, orando diante do altar com os braços estendidos para o Céu. E assim fez dele um mártir. 

Ao saber disso, o povo acudiu ao palácio do rei para o incendiar, e só com muita dificuldade os padres e diáconos puderam contê-lo. Depois, celebrou-se com alegria o martírio do Apóstolo.

Como o rei não conseguisse por nenhum meio fazer Ifigênia mudar de resolução — apesar da insistência dos magos e das mulheres que para isso lhe enviava —, mandou atear fogo em volta da casa da jovem, a fim de queimá-la junto com as outras virgens. No entanto, o Apóstolo apareceu e afastou o fogo, que acabou atingindo e consumindo o palácio inteiro do rei. Só conseguiram escapar o rei e seu filho único, o qual, porém, foi imediatamente possuído pelo demônio e correu ao sepulcro do Apóstolo, confessando os crimes de seu pai. O rei foi atacado por uma lepra terrível, que não podia ser curada, e ele se matou com a própria espada. O povo pôs no trono o irmão de Ifigênia, que fora batizado pelo Apóstolo. Ele reinou por setenta anos e foi substituído por seu filho, que ampliou enormemente o culto cristão e encheu toda a Etiópia de igrejas em honra de Cristo. Quanto a Zaroés e Arfaxat, desde o dia em que o Apóstolo ressuscitou o filho do rei, fugiram para a Pérsia, mas foram ali vencidos por Simão e Judas [3].

3. As virtudes. — Sobre o bem-aventurado Mateus se devem notar quatro coisas.

a) Primeira: a prontidão de sua obediência, pois no mesmo instante em que Cristo o chamou, ele abandonou seu ofício de publicano e, sem temer seus senhores, deixou inacabadas as listas de impostos para juntar-se a Cristo. Essa prontidão na obediência induziu alguns ao erro, como relata Jerônimo em seu comentário a essa passagem do Evangelho: 

Porfírio e o imperador Juliano acusam-no, enquanto historiador, de mentira e inabilidade, e chamam de loucura a conduta dele e de outros que se puseram sem demora a seguir o Salvador, como teriam, sem motivo algum, seguido qualquer outro homem. Ora, Jesus dera antes tantos sinais de suas virtudes, que sem dúvida os Apóstolos já O tinham visto antes de crer. Com efeito, o brilho e a majestade divinos reluziam em sua face humana e podia, à primeira vista, atrair os que O viam. Se se atribui ao ímã a força de atrair anéis e varetas, com muito mais razão o Senhor de todas as criaturas podia atrair a si aqueles que queria.

Assim falou Jerônimo.

b) Segunda: sua generosidade ou liberalidade, pois logo serviu ao Salvador um grande banquete em sua casa, banquete que foi grande não apenas porque foi lauto, mas por quatro outras razões. Primeira, pela decisão de receber a Cristo com grande amor e afeto. Segunda, pelo mistério contido naquela acolhida e assim explicado pela Glosa sobre Lucas: “Aquele que recebe a Cristo em sua casa é tomado por uma torrente de delícias e prazeres”. Terceira, pelos grandes ensinamentos que Ele deu ali, como: “Quero misericórdia, e não sacrifício”, e: “Os sãos não precisam de médico”. Quarta, pela importância dos convidados que estavam à mesa, a saber: Cristo e seus discípulos.

“A inspiração de S. Mateus”, por Caravaggio.

c) Terceira: sua humildade, que se manifestou em duas ocasiões. Primeira, quando confessou ser um publicano. Os outros evangelistas — diz a Glosa —, por um sentimento de pudor e respeito, não lhe dão nome; mas como todo justo é seu próprio promotor, ele se chama a si mesmo de Mateus e publicano, para mostrar que ninguém deve desesperar da salvação, pois ele, de publicano, foi transformado em Apóstolo e evangelista. Segunda, quando suportou com paciência as injúrias de que era alvo. Com efeito, quando os fariseus murmuravam de Cristo por ter-se alojado na casa de um pecador, Mateus poderia com razão responder: “Sois vós os miseráveis e pecadores, pois recusais o socorro do médico pensando que sois justos, enquanto eu não posso mais ser chamado de pecador, porque recorro ao Médico da salvação e lhe mostro minhas feridas”.

d) Quarta: a honra que seu evangelho recebe na Igreja, lido com mais frequência do que o dos outros evangelistas e considerado, junto com os Salmos de Davi e as Epístolas de Paulo, entre os livros da Escritura que mais são lidos na Igreja. A razão disso é que, segundo Tiago, há três gêneros de pecado: a saber: o de orgulho, o de luxúria e o de avareza. Paulo, que antes se chamava Saulo (nome derivado do soberbíssimo rei Saul), cometeu o pecado de orgulho quando perseguiu desenfreadamente a Igreja. Davi entregou-se ao pecado de luxúria, cometendo adultério e, em consequência desse primeiro pecado e crime, mandando matar a Urias, o mais fiel de seus soldados. Mateus cometeu o pecado de avareza, pois era publicano e atraído por lucros desonestos. O posto de cobranças (o τελώνῐον, de τέλος, que, segundo Beda, quer dizer “imposto”), diz Isidoro, é um lugar em um porto marítimo onde são recebidas as mercadorias do navios e pagos os ordenados dos marinheiros.

Ainda que se possa dizer que os três foram pecadores, a penitência deles foi tão agradável ao Senhor, que Ele não apenas lhes perdoou as faltas como os cumulou de múltiplos benefícios. Do mais cruel perseguidor fez o mais fiel pregador; de um adúltero e homicida fez um profeta e salmista; de um homem ávido por riquezas e avarento fez um Apóstolo e evangelista. É por isso que as palavras desses três são tão frequentemente lidas: que ninguém que deseje converter-se perca a esperança, ao ver em que transformou a graça aqueles que tão grandes foram na culpa.

4. Sua conversão. — Note-se que, segundo o beato Ambrósio, na conversão do bem-aventurado Mateus há certas particularidades a considerar a) do lado do médico, b) do lado do enfermo curado e c) do lado da maneira de curar.

“A vocação de S. Mateus”, por Caravaggio.

a) No médico houve três qualidades: a sabedoria que conheceu o mal em sua raiz, a bondade que empregou e o poder dos remédios, que puderam transformar tão subitamente. Ambrósio fala dessas três qualidades como se falasse em nome do próprio Mateus. Quanto à primeira: “Aquele que conhece o que está oculto pode tirar a dor de meu coração e a palidez de minha alma”. Quanto à segunda: “Encontrei o Médico que habita nos Céus e semeia os remédios na Terra”. Quanto à terceira: “Só aquele que não as experimentou pode curar minhas feridas”.

b) No enfermo que é curado, isto é, em Mateus, há três ponderações a serem feitas, segundo Ambrósio. Ele se livrou perfeitamente da doença, permaneceu grato àquele que o curara e, depois que recuperou a saúde, conservou-se sempre limpo. Por isso disse: “Já não sou mais aquele publicano: não sou mais Levi. Despojei-me de Levi quando me revesti de Cristo”, que é a primeira ponderação; “Odeio minha raça, fujo de minha vida, sigo apenas a ti, Senhor Jesus, que curaste minhas feridas”, que é a segunda; “Quem me separará do amor de Deus, que reside em mim? Será a tribulação, a miséria, a fome?”, que é a terceira.

c) Segundo o bem-aventurado Ambrósio, o modo de cura foi tríplice. Primeiro, Cristo o acorrentou; depois, cauterizou-o; por fim, livrou-o de todas as podridões. Daí dizer Ambrósio, como se fora o próprio Mateus: “Fui atado com os cravos da fé e os laços da caridade. Enquanto estou preso pelos vínculos do amor, tira, Jesus, a podridão de meus pecados; corta tudo o que encontrares de vicioso”. É o primeiro modo. “Teu mandamento será para mim um cautério, e se o cautério do teu mandamento queima, queima apenas a carne podre, o vírus do contágio. De modo que, se o medicamento atordoa, é para extrair a úlcera do vício”. É o segundo modo. “Vem rápido, Senhor! Corta as paixões ocultas e profundas. Abre depressa a ferida, para o mal não se agravar. Purifica tudo o que é fétido em um banho salutar”. É o terceiro modo.

O evangelho de Mateus escrito por sua mão foi achado no ano do Senhor de 500, junto com os ossos do beato Barnabé. Este Apóstolo levava consigo o evangelho e o punha sobre os enfermos, que eram todos curados tanto pela fé de Barnabé quanto pelos méritos de Mateus.

Referências

  1. Trata-se de etimologias populares. Na verdade, Matthæus (gr. Μαθθαῖος ou Ματθαῖος) é, provavelmente, a transcrição da forma hebraica Mattai, que significa “presente” ou “dádiva” de Deus (= donatus a Deo), à semelhança de Theodorus, Adeodatus (cf. “Matanias”, em 1Cr 9, 15). Alguns autores, de posição minoritária, derivam o nome do termo hebraico emeth (= fé), sob a forma Amittai (= “Fiel”, cf. Jn 1, 1, vulg. Amathi), tendo a letra Aleph se perdido por influência do aramaico.
  2. Sobre os “dragões” e outras coisas fantásticas de que falam muitas histórias da Legenda Áurea, verificar as considerações que fizemos em um texto sobre São Jorge e em outro sobre São Cristóvão.
  3. Para saber mais sobre os fatos da vida de S. Mateus após Pentecostes, leia-se a breve exposição sobre o seu evangelho na aula n. 5 do nosso curso exclusivo Evangelhos Sinóticos.

Notas

  • Este texto foi publicado a partir da tradução brasileira da Legenda Áurea (trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 778ss), mas não sem ser cotejado, antes, com o original latino e adaptado passim.

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O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!
Sociedade

O que é hedonismo?
Muito mais do que você pensa!

O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!

O hedonismo infectou profundamente a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, mas totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Alguns dias atrás, no Evangelho, Jesus expôs a necessidade de aceitar as cruzes da nossa vida e carregá-las (cf. Mt 16, 24). Ora, as cruzes não são apenas os grandes sofrimentos da vida, como doenças, a morte de um ente querido, a perda de um emprego e assim por diante. Existem também as cruzes diárias de autodisciplina, trabalho árduo, obediência, contratempos, consequências das nossas decisões, limites para o que podemos fazer e a cruz de resistir à tentação.

Em oposição a esse ensino do Senhor está o hedonismo. A maioria das pessoas hoje associa o hedonismo ao excesso sexual e talvez à bebida. Mas o hedonismo é uma noção muito mais ampla, e é por isso que S. Paulo disse: “Mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo (pedra de tropeço) para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1, 23). Para os judeus, Jesus crucificado era uma pedra de tropeço, pois eles acreditavam que qualquer pessoa pendurada em uma árvore era amaldiçoada por Deus (cf. Dt 21, 22s). Mas, para os gregos e romanos, a cruz era um absurdo, devido à filosofia hedonista difundida entre eles. Então, o que é hedonismo?

“Uma Festa Romana”, de Roberto Bompiani.

Hedonismo é a doutrina segundo a qual o prazer ou a felicidade são o único ou o principal bem da vida. Vem da palavra grega hēdonē, que significa “prazer”, e é semelhante à palavra grega hēdys, que significa “doce”.

É claro que o prazer pode ser desejado e, até certo ponto, procurado, mas não é o único bem da vida. Na verdade, alguns de nossos maiores bens e realizações exigem sacrifício: anos de estudo e preparação para uma carreira; sangue, suor e lágrimas para criar filhos.

O hedonismo busca evitar sacrifícios e sofrimentos a todo custo. É diretamente oposto à teologia da cruz. S. Paulo falou em seus dias dos inimigos da cruz de Cristo. Seu fim é a destruição; seu deus, o estômago; e eles se gloriam da própria desonra, com a mente voltada para os prazeres terrenos (cf. Fl 3, 18s). Como dissemos, ele também ensinou que a cruz era um absurdo para os gentios (cf. 1Cor 1, 23).

As coisas não mudaram, meus amigos. O mundo reage com grande indignação sempre que a cruz ou o sofrimento estão implícitos. Portanto, o mundo clamará, exasperado e perplexo, e perguntará, incrédulo, à Igreja: estais dizendo que uma mulher que foi estuprada deve levar a gestação até o fim, sem poder abortar? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa gay deve viver o celibato, sem nunca poder “casar” com seu amante do mesmo sexo? Sim, estamos. Estais dizendo que uma criança deficiente no útero deve ser “condenada” a viver no mundo, sem poder ser abortada e expulsa de sua (ou, mais precisamente, nossa) “miséria”? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa que sofre não pode ser sacrificada para evitar a dor? Sim, estamos.

A expressão de choque ante esse tipo de pergunta mostra o quão profundamente o hedonismo infectou a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, é totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro. Para o hedonista, uma vida sem prazer suficiente é uma vida que não vale a pena ser vivida, e qualquer um que busque estabelecer limites para os prazeres legítimos (e, às vezes, ilegais) dos outros é mesquinho, odioso, absurdo, obtuso, intolerante e simplesmente mau.

Quando o prazer é o único objetivo ou bem da vida, você, a Igreja ou qualquer pessoa não pode ousar estabelecer limites, muito menos sugerir que o caminho da cruz seja melhor ou obrigatório! Se você o fizer, será banido, silenciado, destruído.

Muitos católicos fiéis, nos bancos de nossas igrejas, estão profundamente infectados com a ilusão do hedonismo. Por isso, assumem uma postura de perplexidade, raiva e zombaria sempre que a Igreja aponta para a cruz e insiste na abnegação, no sacrifício e em fazer a coisa certa, mesmo quando o custo a ser pago é alto. Nas igrejas, em geral, o balançar negativo das cabeças é visível quando um padre ousa pregar que o aborto, a eutanásia, a fertilização in vitro e a contracepção são errados, independentemente do preço a pagar, ou quando se fala sobre a realidade da cruz. Os fiéis que nadam nas águas de uma cultura hedonista geralmente ficam chocados com qualquer coisa que possa limitar o prazer que desejam.

O hedonismo faz os mistérios cristãos centrais, da cruz e do sofrimento redentor, parecerem coisa de um planeta distante ou de um universo paralelo e estranho. A palavra que sai da boca de Jesus: “Arrependei-vos”, soa estranha ao mundo hedonista. Tanto, que este chegou até mesmo a “reconstruir” Jesus como alguém que quer que “sejamos felizes e contentes”. As vozes se elevam, mesmo entre os fiéis: “Deus não quer que eu seja feliz?” Ora, com base nisso, qualquer tipo de comportamento pecaminoso deveria ser tolerado, já que insistir no contrário é “difícil” e pode parecer “mau” falar da cruz ou de autodisciplina em uma cultura hedonista.

Trazer as pessoas de volta para o verdadeiro Jesus e a verdadeira mensagem do Evangelho, que apresenta a cruz como o caminho para a glória, exige muito trabalho e longas conversas. Devemos estar preparados para ter uma longa conversa com as pessoas.

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