No futebol, o dia de hoje marca a primeira vez que Portugal e Marrocos se enfrentam nas eliminatórias de uma Copa do Mundo. Nas outras vezes, em 1986 e 2018, as duas seleções disputavam a fase de grupos: na Copa do México os marroquinos levaram a melhor e, em 2018, Cristiano Ronaldo marcou o único gol da vitória lusitana.

Na história, porém, os dois países já são velhos conhecidos um do outro. E não só pela proximidade geográfica, mas sobretudo pelas guerras políticas e religiosas que travaram no passado.

O assunto é relevante porque diz respeito diretamente à nossa fé católica e à nossa história enquanto colônia de Portugal. (Ainda que hoje os homens de Igreja não dêem tanto peso à sua fé quanto antigamente, e as autoridades civis muito menos.)

Uma origem cristã, e bélica

Como já tivemos a oportunidade de explicar noutra ocasião, o reino português nasceu sombreado pela Cruz de Cristo, e também pelo combate à religião islâmica. 

O escudo português que, não obstante a abolição da monarquia em 1910, manteve-se na atual bandeira do país, traz sempre cinco escudos azuis em forma de cruz — uma referência aos cinco reis mouros que o primeiro rei lusitano, Dom Afonso Henriques, venceu na Batalha de Ourique, depois de uma visão do próprio Cristo crucificado, nos seguintes termos:

Armado então com seu escudo e espada [...], pondo os olhos no Céu, viu da parte oriental um resplendor formosíssimo, o qual a pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutífero sinal da santa Cruz, e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multidão de anjos, os quais em figura de mancebos formosíssimos apareciam ornados de vestiduras brancas e resplandecentes, e pôde notar o infante ser a Cruz de grandeza extraordinária, e estar levantada da terra quase dez côvados.

Com o espanto de visão tão maravilhosa, com o temor e reverência devidos à presença do Salvador, pôs o infante as armas que levava, tirou a vestidura real, e descalço se prostrou em terra e, com abundância de lágrimas, começou a rogar ao Senhor por seus vassalos, e disse:

“Que merecimentos achastes, meu Deus, num tão grande pecador como eu para me enriquecer com mercê tão soberana? Se o fazeis para me acrescentar a fé, parece não ser necessário, pois vos conheço desde a fonte do Batismo por Deus verdadeiro, filho da Virgem sagrada, segundo à humanidade, e do Padre Eterno por geração divina. Melhor seria participarem os infiéis da grandeza desta maravilha, para que, abominando seus erros, vos conhecessem…”

O Senhor então com suave tom de voz que o príncipe pôde bem alcançar, lhe disse estas palavras:

“Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração nesta empresa, e fundar os princípios de teu Reino em pedra firmíssima. Tem confiança, porque, não só vencerás esta batalha, mas todas as mais que deres aos inimigos da Fé católica. Tua gente acharás pronta para a guerra, e com grande ânimo pedir-te-á que com título de rei comeces esta batalha; não duvides de o aceitar, mas concede livremente a petição porque eu sou o fundador e destruidor dos Impérios do mundo, e em ti e tua geração quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu nome notificado a gentes estranhas. E porque [=para que] teus descendentes conheçam de cuja mão recebem o reino, comprarás as tuas armas do preço com que comprei o gênero humano, o daquele porque fui comprado dos judeus, e ficará este reino santificado, amado de mim pela pureza da Fé e excelência da piedade” (António Brandão, Crónica de d. Afonso Henriques).

Esta última referência ao “preço” com que Cristo comprou o gênero humano, e foi “comprado dos judeus”, também se encontra na bandeira lusitana: em cada escudo azul há cinco moedas, totalizando as trinta com que Jesus foi vendido na sua Paixão. (A conta não é cinco vezes cinco, mas seis vezes cinco: ao fazer os dois riscos da cruz, temos de passar duas vezes pelo centro; ou seja, o escudo central e suas moedas são contados duas vezes.)

Azulejos retratando o Rei Afonso I e o Milagre de Ourique, no Liceu Literário Português, no Rio.

Hoje a história conta a Batalha de Ourique, mas omite o milagre que o precedeu (porque uma era pretensamente científica não pode aceitar Deus, muito menos um que se revele assim, a um rei beligerante). Seja como for, a bandeira portuguesa continua ostentando o escudo que comentamos (inclusive na Copa do Mundo), e a interpretação para os seus elementos nunca foi desmentida — tenha Cristo aparecido ou não a Afonso Henriques.

Uma origem carnal, e violenta

Neste breve exame histórico, precisamos entender que muitas guerras desta época não passavam de uma defesa e contra-ataque cristãos às investidas muçulmanas. Não se trata de “idealizar” ou “romantizar” a Idade Média, nem de “canonizar” todas as personagens históricas envolvidas na resistência aos infiéis (porque não eram tudo flores, nem foram todos santos), mas sim de retratar a verdade histórica, tantas vezes obscurecida nas salas de aula. 

Por exemplo, quem olha o mapa da expansão islâmica ainda nos primeiros 150 anos desde sua fundação, não pode conter o espanto: neste prazo a religião de Maomé conquistou toda a Península Arábica (onde fica o Catar, a propósito, sede da Copa de 2022), o norte da África e a Península Ibérica praticamente inteira — e só não dominou também a França porque encontrou Carlos Martel no meio do caminho.

O que explica um avanço tão rápido, e em tão pouco tempo, dos maometanos? 

Com sua leitura aguçada da realidade, Santo Tomás lembra que a difusão do cristianismo, lenta e gradual, foi muitíssimo diferente da que se deu com o islã. E explica o porquê: 

[Maomé] seduziu os povos com promessas referentes aos desejos carnais, excitados que são pela concupiscência. Formulou também preceitos conformes àquelas promessas, relaxando, desse modo, as rédeas que seguram os desejos da carne. [...] Também não apresentou sinais sobrenaturais. Ora, só mediante estes há conveniente testemunho da inspiração divina, enquanto uma ação visível, que não pode ser senão divina, mostra que o mestre da verdade está inspirado de modo invisível. Mas Maomé manifestou ter sido enviado pelo poder das armas, que também são sinais dos ladrões e dos tiranos. Ademais, desde o início, homens sábios, versados em coisas divinas e humanas, nele não acreditaram. Nele, porém, acreditaram homens que, animalizados no deserto, eram totalmente ignorantes da doutrina divina. No entanto, foi a multidão de tais homens que obrigou os outros a obedecerem, pela violência das armas, a uma lei (Contra Gentiles I 6).

Desde o primeiro milênio o Marrocos é um desses territórios tomados por califas e sultões. Diferentemente da Península Ibérica, que recuperou sua identidade cristã com as guerras da Reconquista, a lei que governa os marroquinos nunca deixou de ser o Corão. 

Encontros dramáticos

O Painel dos Cavaleiros, no Políptico de São Vicente, retrata os quatro filhos mais novos de D. João I. Fernando é o de preto.

Se bem que os católicos ibéricos tentaram... Tentaram fazer do Marrocos os primeiros domínios de suas Grandes Navegações; tentaram começar por seus vizinhos a expandir a fé e o Império. Os poucos sucessos obtidos se limitaram a algumas cidades da costa e não significaram muito. Mas as duas derrotas mais famosas dos portugueses foram amargas — “dramáticas” até (diria o narrador de futebol).

A primeira ficou conhecida como Desastre de Tânger, em 1437. 

Os portugueses estavam confiantes: tinham acabado de conquistar a cidade de Ceuta, em 1415, também no Marrocos. Guiava-os a “ínclita geração, altos infantes”, como cantou Camões: os filhos de Dom João I — dentre os quais ninguém menos que Henrique de Sagres, o grande promotor dos Descobrimentos.

Em Tânger, no entanto, as forças lusas fracassaram. Depois de uma série de assaltos à cidade, um vasto exército marroquino as desbaratou e obrigou à rendição. Tentou-se então um acordo: Ceuta seria devolvida aos muçulmanos e, em troca, os portugueses poderiam retornar em segurança para sua terra. Como garantia de que o negócio seria cumprido, ficou o infante D. Fernando nas mãos dos inimigos. Mas Portugal manteve Ceuta… e o filho do rei acabou perecendo em terra estrangeira, em 1443. O sacrifício renderia a ele a alcunha de “Infante Santo”. 

Em 1578 foi pior: na fatídica Batalha de Alcácer-Quibir, Portugal perderia não só o filho do rei, mas o próprio rei: Dom Sebastião. 

Aliás, foi no reinado dele que Luís Vaz de Camões compôs “Os Lusíadas”, e foi com as seguintes palavras que o escritor dedicou ao rei sua obra épica:

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade,
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande (I 6).
“Retrato do Rei D. Sebastião”, por Cristóvão de Morais.

Aqui o eu lírico chama a Sebastião o “novo temor da Maura lança” — isto é, dos mouros. Chama-lhe também “maravilha fatal da nossa idade” — fatal vem de fado, destino; ou seja, vê-se em Sebastião um rei predestinado para dar a Deus uma “parte grande” do mundo. E para que não restem dúvidas do caráter cruzado, evangelizador, das monarquias, viagens e batalhas de então, o povo português põe nele, por fim, a “certíssima esperança de aumento da pequena Cristandade”.

Muito belos propósitos, mui bem compostos versos, mas alguns anos depois o rapaz, com apenas 24 de idade, desaparece numa campanha militar no Marrocos, e sem deixar nenhum descendente para a Coroa. É a batalha de que falamos. 

Em decorrência disso, Portugal acaba anexada à Espanha, durante o período que ficou conhecido como União Ibérica. Nas mãos de seus adversários políticos, os portugueses criam em torno da figura do rei desaparecido uma aura de mistério e um culto tais que nem o Pe. António Vieira é poupado de sua influência. É o sebastianismo, uma mistura de religiosidade e messianismo político — que deve sempre nos alertar para os riscos de querer dar a César… o que é devido somente a Deus.

Uma festa luso-marroquina no Brasil

Hoje, alguns dos elementos de que falamos são rememorados anualmente num festival popular da cidade de Mazagão, no Amapá: a Festa de São Tiago, em 25 de julho. 

Mas por que esse apóstolo, e por que essa data?

Cisterna Manuelina, em Mazagão, no Marrocos.

Os mazaganenses poderão dizer muito melhor do que nós, mas há pelo menos duas razões para a data: primeiro, porque foi também num dia de São Tiago que Dom Afonso Henriques venceu os mouros na famosa Batalha de Ourique; e segundo porque São Tiago costumava aparecer miraculosamente em vários dos combates cristãos contra os muçulmanos na época da Reconquista — daí o título que lhe foi dado, e que permanece até hoje, de Matamoros (não muito politicamente correto).

Além disso, a cidade amapaense foi fundada, em 1770, para receber a população de uma cidade de mesmo nome, no Marrocos, que deixara de ser possessão lusitana. O lugar foi anexado à Coroa por Dom Manuel I, só dois anos depois do Descobrimento do Brasil, mas foi perdido durante os anos tirânicos do Marquês de Pombal. Hoje se chama El Jadida e abriga uma das sete maravilhas de origem portuguesa do mundo: a Cidade Fortificada de Mazagão — cuja Cisterna Manuelina é de cair o queixo (ao menos pelas fotos). 

Mas a cidade de Mazagão mesmo, com gente morando nela, trazendo o sangue luso-marroquino nas veias e fazendo festa católica nas suas praças, isso agora só é possível no Brasil.

Para muito além dos duelos futebolísticos que só acontecem de quatro em quatro anos, fazemos votos de que os católicos brasileiros e portugueses redescubram sua história e vocação. Este texto foi apenas um “tira-gosto”, mas há muito mais a ser lido, estudado e conhecido. Nesse sentido, a apreciação de “Os Lusíadas”, obra fundante de nossa língua, pode ser um excelente começo.  

Nada dispensa, porém, a adesão à que movia os nossos antepassados a cruzar os sete mares e fazer tudo o que fizeram. Pois só assim poderemos fazer, também nós, grandes coisas em nossas vidas — por mais pequenas e ordinárias que elas nos pareçam.