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O dia em que eu perdi o meu pai para a ideologia de gênero
Testemunhos

O dia em que eu perdi o meu
pai para a ideologia de gênero

O dia em que eu perdi o meu pai para a ideologia de gênero

De certo modo, eu perdi o meu pai naquele dia, quando ele me disse que queria se tornar uma mulher.

Denise ShickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Outubro de 2015
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Qual foi a sua maior preocupação quando você tinha nove anos de idade? Tentar memorizar a tabuada de multiplicação? Ter que comer alguns vegetais de que não gostava no almoço da escola? Talvez você tenha passado por algo mais sério. Talvez os seus pais tenham falado em se divorciarem. Quanto a mim, a minha maior preocupação nessa idade foi como guardar o segredo de meu pai, que ele me tinha revelado enquanto nos sentávamos sozinhos em uma colina, perto de nossa casa. De certo modo, eu perdi o meu pai naquele dia, quando ele me disse que queria se tornar uma mulher.

Enquanto eu tentava processar aquela revelação, ele me atingiu com outra. Disse-me que nunca quis ter tido filhos. Para ele, meus irmãos e eu tínhamos sido um erro, porque não viemos de acordo com os seus desejos.

As confissões dele deixaram-me confusa e ferida. No final das contas, eu só queria um pai que me amasse e cuidasse de mim, que fizesse com que eu me sentisse especial enquanto filha. Senti-me rejeitada e abandonada pelo meu próprio pai. A partir dos onze anos, ele começou a abusar de mim emocional e sexualmente. Mesmo assim, eu continuava a guardar o seu segredo a sete chaves, bem no fundo do meu coração.

Meu pai criou um ambiente dentro de casa que me fazia sentir como se estivesse pisando em pregos e agulhas. O ressentimento dele pelo fato de eu possuir algo que ele desejava tão profundamente para si – um corpo feminino – transformou-se em raiva e abuso. Como os seus desejos se intensificassem, ele começou a pegar emprestadas as minhas roupas. Várias vezes flagrei minhas roupas íntimas debaixo das toalhas do banheiro, ou no sótão – geralmente em lugares em que eu não estava. Aprendi a organizar as minhas roupas, de modo a descobrir se ele tinha mexido nas gavetas da minha cômoda. Quando eu confirmava que ele tinha usado determinada roupa, eu simplesmente não conseguia sequer trajar aquela peça novamente.

Como adolescente, eu precisava tomar cuidado com o modo como me vestia. Sempre tinha de perguntar a mim mesma como ele reagiria ao meu vestuário. Será que a roupa o faria sentir inveja, a ponto de ele "pegá-la emprestada" de mim (sem me pedir, é claro)? Comecei a odiar o meu corpo, pois era um lembrete constante daquilo em que o meu pai queria se tornar. Quando comecei a usar maquiagem, precisava bloquear as imagens que eu tinha dele aplicando maquiagem, sombra ou batom em si mesmo. Ele estava destruindo o meu desejo de tornar-me uma mulher.

Saí à procura de conforto em outros lugares. As aulas de dança e as festas noturnas nas casas de amigos deram-me oportunidades de procurar uma fuga emocional no álcool. Mesmo nos dias de aula, um amigo e eu às vezes nos encontrávamos no banheiro para compartilhar umas garrafas de Jack Daniel's. Eu tentava desesperadamente me encaixar em algum lugar, mas a verdade é que eu estava fazendo mal a mim mesma.

Eu estava tão sedenta do amor e da atenção do meu pai, que tentava preencher aquele vazio de outras maneiras. Tive treze namorados só na sétima série. Também tentei, inutilmente, acalmar o meu coração ferido com o álcool. Com quinze anos, estava lutando com minha própria sexualidade. Comecei a considerar seriamente o uso de drogas, mas Deus tinha outro plano, mandando para a minha vida um novo amigo, chamado Mark. Ele sempre me tratou com respeito e um coração genuinamente cuidadoso – justo o que eu tão desesperadamente queria, mas não recebia de meu pai.

Ansiosa para fugir do ambiente de minha casa na minha juventude, gastei mais e mais tempo com Mark, geralmente na sua casa, onde eu via como um pai de verdade cuidava de seus filhos. O pai de Mark me lembrava o meu tio. Os seus lares – o de Mark e o do meu tio – eram lugares onde as crianças se sentiam confortáveis e amadas de uma forma saudável. Quanto mais eu experimentava bons ambientes como a casa de Mark, mais certa eu ficava de que meus desejos por algo semelhante eram verdadeiros e possíveis. Minha casa não estava certa. Aquilo me chateava, mas eu tinha esperança de que uma boa vida familiar era algo possível de se alcançar.

Com a graduação do colégio se aproximando, eu precisava começar a planejar o meu futuro. Considerei ingressar nos militares: eu poderia viajar e fugir da vida da minha casa. Mas, ao invés disso, eu me apaixonei por Mark, e ele me pediu em casamento. Eu faria parte de uma família real, e nós dois começaríamos a nossa própria família de verdade – uma na qual os nossos filhos se sentiriam confortáveis sendo simplesmente crianças.

No dia do meu casamento, usando o vestido que minha mãe costurou para mim, e com os convidados sentados no santuário da igreja, meu pai e eu estávamos sozinhos no final do corredor, esperando para entrar. Ele olhou-me nos olhos e disse: "Eu queria que fosse eu a usar esse vestido".

Fixei meus olhos em Mark enquanto entrava pelo corredor, sabendo que estava prestes a fugir das terríveis influências de meu pai. Através de Mark, eu testemunhei o amor de Cristo, não apenas por mim, mas também pelo meu pai. Mark nunca foi ofensivo com ele, de maneira alguma. Ao contrário, ele entendia que meu pai precisava do amor saudável e da companhia de homens firmes e responsáveis – homens que sabiam e viviam o que um esposo e pai de família deveria ser. Infelizmente, meu pai rejeitou esses relacionamentos sadios. Mas a relação com meu amável e responsável esposo trouxe-me a cura.

Denise Shick.

Mesmo morando em nossa própria casa, Mark e eu frequentemente retornávamos para confortar minha mãe em seu estresse, por causa dos problemas que o meu pai criava com seus comportamentos estranhos e suas farras e gastanças periódicas. As enxaquecas e o cansaço permanente de mamãe a debilitavam muito, e ela decidiu aposentar-se, deixando papai como o único provedor da família. Suspeito que tamanha responsabilidade acabou o empurrando para a beira do abismo. Não muito depois da aposentadoria de mamãe, ele abertamente declarou sua intenção de abandoná-la e perseguir seu novo estilo de vida. Foi o que ele fez, deixando-a sem dinheiro e carregada de dívidas.

Treze anos depois, fui informada de que meu pai estava com câncer e vivendo os seus últimos dias. Quando descobri que ele estava tentando encontrar sua família, fiquei magoada com ele. Quem ele pensava ser, abandonando-nos e, então, à beira da morte, procurando o nosso amor e o nosso conforto? Mesmo assim, abateu-me a tristeza por saber que o meu sonho de ver o meu pai um dia voltando para a nossa família – como um verdadeiro esposo, pai e avô – estava prestes a morrer.

Visitei o meu pai algumas vezes no hospital durante os seus últimos meses. Vê-lo em um vestido feminino noturno e de slippers foi difícil, bem como ver todos aqueles ursinhos de pelúcia em seu quarto. As enfermeiras se referiam a ele com pronomes femininos, ou pelo nome que ele tinha escolhido: "Becky". Quando elas faziam isso, eu as corrigia. Dizia "ele" ou "meu pai". Eu olhava para ele com pesar, vendo a quê as suas escolhas o tinham levado. Assim que saí depois de uma visita, cometi o erro de olhar para trás. O meu pai estava tirando o seu sutiã.

Não fiquei surpresa em descobrir, depois da morte de papai, que ele estava em um relacionamento homossexual. Lembrei-me, então, da forma como ele olhava para os meus namorados. Fiz o que pude para ignorar isso. Era difícil lidar com a ideia de que ele acreditava ser uma mulher.

Todos aqueles anos eu ansiava por um pai de verdade, não por uma segunda mãe. Mas eu tinha uma mãe de verdade, e ela me ensinou o que é o amor materno. Ensinou-me a não desistir da vida. Dela, aprendi a importância de perseverar sob as mais difíceis situações que a vida pudesse apresentar. Sua fé inabalável em Deus fez com que ela superasse tudo. Eu trouxe esses ensinamentos para a vida de meus filhos. Fui agraciada em observar os relacionamentos entre pais e filhos do lado materno da minha família.

A cultura de hoje proclama que uma pessoa que escolhe "mudar de gênero" está sendo honesta e corajosa – veraz à sua natureza. Verdade? A verdade é o que se conforma com a realidade, e a realidade é que o meu pai foi abusado enquanto criança. Ele tinha problemas emocionais e de raiva e comportamentos obsessivos. Não surpreende que ele tenha escolhido fugir para uma identidade diferente. A verdade é que comportamentos aberrantes machucam famílias, e essas feridas têm efeitos em cadeia. A "realidade" é que os programas de TV que retratam o transgenderismo como "a mais nova conquista da liberdade humana e da autossatisfação" não estão contando a história toda – eu o digo por experiência.

Sei que há pessoas que, como eu, tiveram infâncias igualmente trágicas. Estamos juntos em acreditar que a fundação mais saudável para qualquer criança é ter um pai e uma mãe. Por favor, não desperdicem a oportunidade de aprender com o impacto que todas essas coisas têm na vida real das crianças. Podemos ser os primeiros, mas não seremos os últimos a levantar e falar a verdade.

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Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?
Cursos

Por que um curso sobre
“Os Quatro Temperamentos”?

Por que um curso sobre “Os Quatro Temperamentos”?

Deus quer que a semente da sua graça germine no terreno do nosso coração. Mas e nós? Que pedras e espinhos precisamos arrancar para que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos?

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019
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Com tantas aulas, episódios e textos à disposição, e com temas os mais variados, poderia talvez ficar em alguns a interrogação sobre o quê, afinal, é o site do Padre Paulo Ricardo, e a que fim se presta esse apostolado.

Se ainda resta dúvida, tratemos de eliminá-la de uma vez por todas: nossa preocupação é eminentemente espiritual, é levar os que nos visitam a buscar o unum necessarium de suas vidas, que é Deus. Para isto nossos cursos exclusivos, para isto tantas transmissões ao vivo, para isto homilias todos os dias, para isto as matérias em nosso blog: fazer as pessoas se encontrarem com Nosso Senhor Jesus Cristo e crescerem na intimidade com Ele. Nada menos.

É exatamente nesse quadro que se insere, pois, o mais novo curso que Padre Paulo Ricardo está preparando para os nossos alunos, sobre “Os Quatro Temperamentos”. 

É possível que você já tenha recebido algo a esse respeito nas redes sociais, mas expliquemos melhor aqui, e com uma frase de Santo Tomás de Aquino, a razão de ser desse conteúdo inédito: “Gratia non tollit naturam, sed perficitA graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa”.

Ou seja, o padre não virou psicólogo, nem coach, nem nada do gênero… O que acontece é que o processo da nossa santificação, embora seja sobrenatural e de iniciativa realmente divina, não se dá contra ou apesar de nós. A obra que Deus realiza nas almas acontece justamente a partir do barro de que somos feitos! Nas palavras de Santo Agostinho, “o Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. 

Dizendo ainda de outro modo, a semente da graça divina precisa germinar no terreno do nosso coração, mas, quanto a nós, quais são as pedras e os espinhos que precisamos arrancar, a fim de que a árvore da santidade crie raízes, cresça e dê os seus frutos? 

É justamente a essa pergunta que o conhecimento do seu temperamento pode proporcionar uma resposta. Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Quer saber melhor, então, como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã? Inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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“Eu posso falar com papai?”
Sociedade

“Eu posso falar com papai?”

“Eu posso falar com papai?”

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”.

Doug MainwaringTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2019
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Quando eu comecei a dar meus primeiros passos “fora do armário” [1] em meados dos anos 1990, um cara chamado Tex ofereceu-me um pequeno apanhado sobre sua vida entre um e outro drinque, num bar da cidade. A conversa teve um giro inesperado: ele explicou que o seu atual “parceiro” tinha-se mudado do outro lado do país, deixando para trás esposa e filhos. Tex atendia de vez em quando ao telefone de casa (isto foi antes dos celulares) e ouvia do outro lado uma pequenina voz a perguntar-lhe timidamente: “Eu posso falar com papai?” Era a filha de oito anos do seu “parceiro”, ligando de algum lugar do outro lado dos Estados Unidos. Tex disse ter ficado profundamente chocado ao se dar conta de que a filha de seu “parceiro” tinha de pedir permissão a um estranho para poder falar com o próprio pai.

Quando esta pequena menina me vem à cabeça, meus pensamentos acabam se dirigindo às várias pessoas nascidas de doadores de esperma, muitas das quais se fazem dia após dia a mesma pergunta em seus corações: “Eu posso falar com papai?”

Quando comecei a falar publicamente sobre os perigos do “casamento” homossexual para as crianças, achei difícil encontrar defensores do casamento “neutro” intelectualmente honestos o bastante para um debate ponderado. Foi então que me caiu a ficha: ao menos metade das pessoas que queriam rotular-me disto ou daquilo eram fruto de matrimônios fracassados.

Lá pelos idos de 2013, durante minha participação num painel de debates, um rapaz acusou-me de ser injusto com gays, lésbicas e seus filhos. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe na lata:

— Os seus pais se divorciaram quando você ainda era criança?

Ele ficou um pouco surpreso com uma pergunta tão pessoal:

— Sim — respondeu, já sem ares de arrogante.

— E você vive com sua mãe? — perguntei.

— Sim — disse ele.

— Você vê o seu pai com frequência?

— Não — disse —, eu quase nunca o vejo.

— Você sente falta dele? Gostaria de estar mais vezes com ele? 

— Claro, com certeza — respondeu, um pouco melancólico.

— O divórcio dos seus pais aumentou a sua felicidade ou a sua infelicidade? — perguntei.

— Minha infelicidade.

— Então, os seus pais acabaram com o seu lar e criaram novas estruturas que punham em primeiro lugar as necessidades deles, não as suas. Além disso, eram estruturas que promoviam a sua contínua infelicidade. Você aprendeu a conviver com isto porque, como uma simples criança, não tinha controle algum sobre as ações de seus pais; no entanto, essas novas estruturas não foram construídas tendo em vista as suas necessidades.

— Não, na verdade. Eu não tinha direito de voto nem nada; eu era apenas uma criança.

— Justamente — concluí. — Logo, que diferença há para os filhos de “casais” homossexuais, aos quais se negam um pai ou uma mãe? Você pensa realmente que ter “duas mães” ou “dois pais” é o mesmo que ter por perto uma mãe e um pai que o amam e cuidam de você? Sério mesmo? Ter uma mãe a mais em casa o deixaria verdadeiramente satisfeito, ou você ainda teria, lá dentro do coração, aquela pergunta por seu pai à procura de resposta? 

— Entendo. 

Então, por que você quer condenar outras crianças a não terem pai? Ou a não terem mãe?

Ele entendeu o meu ponto: não gostou nada, é verdade; mas o entendeu — e voltou para o seu lugar. Não faço ideia se ele mudou opinião; mas ele ao menos teve a chance de ouvir um ponto de vista diferente, e um que fosse razoável. 

Enquanto ia embora, pensava comigo mesmo: “Para ser intelectualmente honesto, não posso falar em público contra os perigos do casamento ‘neutro’ sem falar, ao mesmo tempo, contra o mal objetivo para as crianças que é o divórcio”. O divórcio é um perigo muitíssimo maior e muito mais generalizado para as crianças do que a possibilidade de ser criado sem mãe ou sem pai por um “casal” de gays ou lésbicas. Eu então suspirei: havia ainda muito o que consertar e pôr em ordem.

O pai pródigo

Alguns anos após o nosso divórcio, tornou-se comum que a minha ex-mulher me chamasse à sua casa devido a alguma birra do nosso filho. Ao chegar lá, encontrava um verdadeiro tumulto. Geralmente, ele se irritava por alguma coisa, e aquilo despertava um acesso de raiva totalmente desproporcional ao problema. Ele gritava e chorava e esperneava, então se trancava no quarto, sem deixar ninguém mais entrar. Era horrível assistir à cena. Felizmente, ele acabava se acalmando depois de um tempo e voltava ao normal.

A raiva do meu filho, por sua vez, gerava novas discussões com a minha ex-mulher. O que devíamos fazer a respeito do comportamento dele? Seria preciso medicá-lo? Ou o melhor seria dar-lhe uma surra? Ou quem sabe procurar um psicólogo?

Depois de o episódio se repetir algumas vezes, pareceu-me claro como água de que o meu filho estava precisando. Ele não tinha apenas um problema comportamental; ele precisava, isso sim, de uma única coisa: de que os seus pais estivessem juntos de novo e se amassem um ao outro. O “fatiamento” da nossa família havia gerado uma carga insuportável de estresse para aquela frágil alma de apenas quatro anos. E os seus pais eram os grandes responsáveis por isso, ainda que, para nós, o problema parecesse ser todo dele.

O nosso menino não tinha culpa alguma; era eu, com certeza, que a tinha.

Foram precisos alguns anos mais para que a minha ex-mulher e eu tomássemos jeito. Nesse meio tempo, os nossos filhos vieram morar comigo. Não era bem uma solução; era somente um paliativo para resolver aos poucos uma situação desconfortável. Embora isso tenha resolvido alguns problemas, também é verdade que gerou outros e permaneceu, no fim das contas, uma resposta insatisfatória.

Para justificar o divórcio e a existência de “duas famílias”, os adultos estávamos impondo uma charada, exigindo que todos à nossa volta (sobretudo os nossos filhos) fingissem que os nossos objetivos egoístas e a nossa incapacidade de “ajeitar as coisas” não eram nada de mais. No fundo, não tínhamos feito senão descarregar nossos problemas e disfunções sobre os nossos filhos. Estávamos aliviando o nosso próprio estresse pondo-o sobre os ombros das nossas crianças.

Felizmente, uma dúzia de anos mais tarde, nós finalmente deixamos de pretextos e voltamos a ser marido e mulher, casados e pais de seus filhos. Muitas feridas se têm cicatrizado desde então, algumas das quais foram uma surpresa até mesmo para nós. E jamais saberemos de que outros problemas em potencial os nossos filhos foram preservados.

Uma lição de Hollywood

Nunca antes na história as crianças tinham sido geradas com a intenção explícita de serem privadas ou de uma mãe ou de um pai. E no entanto as crianças que vêm a este mundo para satisfazer os desejos de “casais” de gays ou lésbicas nascem exatamente com essa finalidade. Elas vivem conscientes de que um de seus pais biológicos será para sempre um enigma, um fantasma.

Até pouco tempo atrás, viam-se as crianças como um puro dom de Deus; agora, porém, as novas leis que “redefinem” o matrimônio estão produzindo o triste resultado de crianças igualmente “indefinidas”, reduzidas a objetos do capricho de adultos. Por outro lado, as famílias destas crianças consistem, não já em seus antepassados, mas em um pequeno grupo de barrigas de aluguel, doadores e advogados que fazem as vezes do sexo ausente em “casamentos sem gênero”.

Dennis Quaid e Linsay Lohan em “Operação Cupido”.

Talvez soe estranho, mas um filme da Disney de 1998, Operação Cupido (refilmagem do clássico de 1961 estrelado por Hayley Mills), pode nos ensinar muito sobre o que acontece com crianças criadas por “dois pais” gays ou “duas mães” lésbicas.

No filme, duas meninas praticamente idênticas, Hallie Parke e Annie James, se cruzam por acaso num acampamento de verão. Elas logo descobrem ser irmãs gêmeas separadas na maternidade, e elaboram um plano para trocar de papéis e assumir uma o lugar da outra. Elas têm tanta vontade de conhecer seus pais que estão dispostas a mudar de aparência, o corte de cabelo, seu maneirismo, tom de voz e sotaque, e até mesmo a ir para outro país, simplesmente para passar alguns dias “clandestinos” com a mãe ou o pai que nunca conheceram.

Hallie vive com o pai na Califórnia, em uma linda mansão de encosta, com piscina e cavalariça. Ela tem um belo pai, que é também um excelente vitivinicultor. Hallie, em resumo, tem tudo; mas ela ainda anseia pela mãe que lhe foi negada. Enquanto isso, Annie vive em uma mansão num chique subúrbio londrino. A sua bela mãe é uma conhecida designer de moda. Elas têm vários mordomos e um chofer exclusivo para o seu carro de luxo; mas, ainda assim, Annie anseia pelo pai que lhe foi negado.

Ambas as meninas vivem um invejável conto de fadas. Mas, para quem assiste ao filme (e a maioria dos espectadores desfruta de muito menos bem-estar e segurança do que elas), o sentimento pelas duas é de tristeza, porque a cada uma falta ou o pai ou a mãe. Esta ironia é o argumento do filme.

É interessante também que a tia de Hallie vive na casa da sobrinha, servindo-lhe como uma espécie de “mãe substituta”, ao passo que o avô materno de Annie vive com a filha e a neta, fazendo as vezes da figura paterna para a menina. Muito embora esses maravilhosos e otimistas pais solteiros tenham por perto algum parente carinhoso do outro sexo, existe uma profunda lacuna nos corações de Annie e Hallie

No filme, os adultos são responsáveis por dividir as crianças. No caso dos filhos de casais “sem gênero”, os adultos são responsáveis por torná-las carentes, com uma carência que estará para sempre dentro dos seus corações. Crianças “fabricadas sob medida” para casais gays têm de enfrentar uma vida empobrecida desde o momento em que nascem, na medida em que dois homens as arrancam da sua “barriga de aluguel”, negando-lhes a única oportunidade que terão na vida de sentir o que é um abraço de mãe. Essa oportunidade perdida é a experiência mais próxima que terão estas crianças de tocar alguém que, de certa maneira, poderiam chamar de mãe.

À medida que forem crescendo, o desejo delas pela mamãe será ignorado, silenciado, desprezado. Porque, no fim das contas, o papai pensa não ter necessidade alguma de uma mulher em casa. E, se isso é assim, por que a teriam o seu filho ou a sua filha? O clamor de um filho pela mamãe, dessa forma, acaba se tornando um insulto para um pai que não quer se casar ou para um “casal” gay. Para a criança, o melhor parecerá sofrer em silêncio, a fim de não chatear o pai ou “os pais” com esses assunto “tabu”.

Todos nós temos de refletir com muito cuidado sobre as consequências, nem sempre intencionais ou deliberadas, que implica (ou que são propositalmente escondidas) a aceitação dos “matrimônios” homossexuais e o desinteresse persistente da nossa sociedade pelo divórcio e as famílias monoparentais. Nós, adultos, damos um grande bocejo quando estes temas entram em pauta. Mas as crianças, essas, sim, têm uma reação diferente: elas choram de noite até pegarem no sono.

Quando o que está em jogo é a paternidade, precisamos ser homens

Os homens divorciados, ou os homens que se “uniram” a outros homens para criar os próprios filhos, ou os que são doadores anônimos de esperma, todos estes seguem as pegadas de Esaú, com a diferença de que não é nosso o direito de primogenitura que estamos vendendo por um prato de lentilhas: é às nossas crianças que ele pertence. E nós, insensíveis, vendemos a preço de nada este que é o maior tesouro delas, o poder ser criado por seus pais biológicos, em uma família natural intacta.

Este mundo não precisa que os homens tomem mesquinhamente o que querem, sobretudo se o preço disso é o bem-estar dos nossos filhos. Espera-se que os homens façam justamente o contrário: os homens têm o dever de proteger os filhos da infelicidade, da solidão e de outros perigos. Homens de verdade não fazem de seus filhos as vítimas de seus próprios interesses. Homens de verdade protegem, cuidam, suportando o estresse e as dificuldades, em vez de as transferirem para os próprios filhos. Homens de verdade enfrentam os problemas cara a cara.

Quando o que está em jogo é a paternidade, a nossa cultura precisa que os homens sejam homens. Para alguns, isso pode exigir o abandono de alguns sonhos e dos nossos próprios desejos. No entanto, a nossa cultura está cada vez mais dominada por homens autocentrados e covardes. C. S. Lewis diria que a nossa é uma cultura de homens despeitados.

O Papa S. João Paulo II disse certa feita: “O pecado original, assim, intenta abolir a paternidade, destruindo-lhe os raios que permeiam o mundo criado, pondo em dúvida a verdade sobre Deus, que é amor”. Nestes tempos, o casamento, a família e inclusive o sexo biológico são subvertidos de todos os modos possíveis, e a paternidade, de modo particular, é objeto de ataques incansáveis e violentos. Cabe aos homens lutarmos corajosamente contra eles.

Os nossos filhos merecem mais e melhor. Eles não precisam de super-heróis; eles só precisam dos heróis silenciosos, discretos e ordinários de todo dia que atendam ao nome de “papai”— não pronunciado do outro lado do telefone, mas sussurrado ao nosso ouvido por quem estreitamos carinhosamente ao peito.

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A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II
Doutrina

A urgente atualidade de
uma carta do futuro Papa João Paulo II

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II

“É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”: eis o que escrevia ao Papa Paulo VI, em 1969, o Cardeal Karol Wojtyła.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2019
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No cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, ano passado, veio à luz pela primeira vez uma carta particular do então Cardeal Karol Wojtyła ao Papa Paulo VI, na qual o arcebispo polonês agradece ao pontífice pela encíclica. Na carta, Wojtyła faz sugestões concretas para uma instrução pastoral “absolutamente necessária” do Vaticano com o fim de superar as “dúvidas existentes” quanto à proibição do controle de natalidade, à natureza da vida conjugal e à autoridade dos ensinamentos papais.

Além de sua fascinante e franca explicação das principais controvérsias em torno da encíclica, esta carta — na verdade, um ensaio em tamanho e estilo — nos permite vislumbrar o que, mais tarde, seriam os ensinamentos do magistério do Papa São João Paulo II.

Ao escrever em 1969, poucos meses após a publicação da Humanae Vitae, o Cardeal Wojtyła viu claramente que as críticas ao conteúdo e ao estilo da encíclica feriam profundamente a missão da Igreja: “Desafiar a doutrina moral da Igreja em um campo tão importante como o tratado na encíclica pode ser o pontapé inicial de um processo, muito mais amplo, de pôr em xeque outros elementos da fé e da vida cristã”. 

Hoje, décadas mais tarde, podemos constatar a verdade inegável de tal afirmação.

Primeiro, com relação à fé e à vida cristã em geral, Wojtyła ressaltou o poder da Igreja de ensinar com autoridade sobre questões de moral. Isso porque, logo após a publicação de Humanae Vitae, teólogos dissidentes foram a programas de rádio e às páginas dos jornais a fim de minar a autoridade da Igreja para ensinar de forma vinculante em questões morais.

Vinte e cinco anos depois, já eleito Papa, João Paulo II aprovou a publicação da instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo, que buscava reorientar a teologia como vocação a serviço da Igreja, e não de ideologias mundanas.

De forma mais específica, Wojtyła mostrou-se resoluto, em sua carta de 1969, ao apresentar a Humanae Vitae como expressão da autoridade da Igreja em sua missão de ensinar: “A encíclica Humanae Vitae não é um documento solene que expressa uma doutrina ex cathedra; portanto, não contém nenhuma definição dogmática. No entanto, por ser um documento do ensino comum do Papa, tem caráter infalível e irrevogável. É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”.

Essa ênfase na infalibilidade do Magistério ordinário — os ensinamentos constantes e universais do Papa e dos bispos unidos a ele — tornar-se-ia a abordagem preferida do Papa João Paulo II para tratar as questões doutrinárias mais sensíveis do seu pontificado.

Em vez de emitir definições solenes, João Paulo II apelou ao Magistério ordinário da Igreja para ensinar de forma infalível, por exemplo, sobre a imoralidade do aborto, na Evangelium Vitae (1995), e acerca da restrição do sacerdócio somente aos homens, na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Usando este meio para ensinar com autoridade, João Paulo II mostrou que esses não eram apenas ensinamentos seus, mas da Igreja universal — mantidos sempre, em todos os lugares e por todos os fiéis.

Uma segunda grande preocupação enfatizada na carta de Wojtyła é “a consciência e sua relação com a lei moral”, uma vez que, após a publicação da Humanae Vitae, teólogos e pastores passaram a ensinar a muitos casais que era lícito usar o controle artificial da natalidade se suas consciências o considerassem aceitável.

Wojtyła condenou fortemente esse abuso da consciência, que não é “uma norma superior à lei moral”. E acrescentou: “Atribuir à consciência uma autonomia que lhe daria não apenas um papel normativo, mas também legislativo, seria contrário aos fundamentos tanto da lei natural quanto da lei divina. Essa autonomia seria equivalente a aceitar o subjetivismo e o relativismo nas questões morais”.

Cardeal Karol Wojtyla.

Essa compreensão distorcida da consciência tornou-se, desde então, moeda corrente e comum. Como Papa, o próprio João Paulo II assumiu a responsabilidade de levar a cabo o que havia sugerido a Paulo VI, e publicou, em 1993, sua encíclica sobre teologia moral, a Veritatis Splendor, que, sem dúvida, é um dos escritos mais importantes do seu pontificado. 

Nela João Paulo II mantém sua crítica aos que atribuem à consciência “a prerrogativa de determinar, de forma independente, os critérios do bem e do mal, para agir em função deles”. No cerne da encíclica, expôs a reta compreensão da consciência, que deve estar fundamentada na liberdade, na verdade e na lei natural (assuntos que ele já mencionara, mesmo que brevemente, na carta de 1969).

Em terceiro lugar, pode-se dizer que a carta de Wojtyła exortou Paulo VI a “expor a doutrina do matrimônio [...] com o fim de apresentar uma perspectiva correta e clara do tema do amor conjugal”. De modo particular, ele aludia à necessidade de “insistir no fato de que o casamento é uma vocação”.

Nesse contexto, o então cardeal descreveu o papel da fecundidade, da continência e do sofrimento no casamento. Ele bem sabia que assuntos tão essenciais não poderiam ser omitidos ou vistos como inadequados: “Portanto, cabe à mestra da moral e do ensino, que é a Igreja, compreender e destacar os limites que, na esfera dos valores sexuais, fazem a pessoa passar do ato dignamente vivido, para a atitude de usar e abusar do outro”.

Como Papa, João Paulo II não perdeu tempo em assumir essa postura: um ano após ser eleito, ele deu início a uma série de catequeses, hoje conhecidas como “Teologia do Corpo”, nas quais articulava o significado da sexualidade humana à luz da nossa dignidade como pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. Além disso, em 1981, apresentou, na Familiaris Consortio, sua visão de como deve ser vivida a vocação ao matrimônio.

A carta de Wojtyła, por si só, é excelente e permanece muito relevante para nós, mesmo já passados cinquenta anos. Nela, enfatiza-se a necessidade urgente de agirmos em relação a essas questões — necessidade que, nos dias de hoje, permanece urgente. Como Papa, Wojtyła não chegou a abordar de uma só vez todas essas questões; mas, no decorrer do seu pontificado, contemplou-as, com profundidade e clareza, em vários ensinamentos.

A carta, enfim, deixa claro um fato crucial: os principais ensinamentos do pontificado de São João Paulo II foram forjados em resposta à crise da verdade, que encontrou sua expressão mais aguda na Revolução Sexual.

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A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos
Liturgia

A liturgia não é
um grupo de estudos bíblicos

A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos

“A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.”

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
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Em algumas paróquias que celebram a Missa no rito de Paulo VI (às vezes chamado de rito ordinário ou Novus Ordo), a parte chamada de “Liturgia da Palavra”, composta de duas leituras, um salmo, um canto de aleluia, um evangelho, uma homilia que expõe as leituras, o Credo e a Oração dos Fiéis, se estende por um período consideravelmente mais longo do que a parte chamada “Liturgia Eucarística”, principalmente quando se escolhe a menor oração eucarística, a segunda.

Em geral, podemos dizer que esse estado de coisas é muito lamentável. Do ponto de vista prático, pode parecer que se esteja dizendo — de forma subliminar ou, talvez, até explicitamente — que a Missa é, fundamentalmente, para ouvir as Escrituras e sua explicação, e que a Santa Eucaristia consiste em um atrativo a mais, como um enfeite ou um “ponto de exclamação” para realçar a ação principal.

Quando isso acontece, presenciamos nada menos do que uma inversão total da ordem e proporção próprias das duas partes básicas da Missa. Não seria exagero chamar essa inversão de “protestantização”. Para os protestantes, a “Palavra de Deus” é um texto escrito em um livro sobre o qual eles se debruçam em suas “devoções”, trazem para a igreja, ouvem a leitura, ouvem pregações e levam para casa novamente, como se esse livro fosse o lugar exclusivo da Aliança de Deus. Mas isso não é o que Jesus realmente nos disse: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20). Portanto, a Nova Aliança é algo que existe na forma de um banquete de sacrifício. É quando participamos do seu Corpo e Sangue que nos encontramos mais perfeitamente com o próprio Cristo, da maneira que Ele se nos deixou.

A Palavra de Deus não é, primária e principalmente, um livro — nem mesmo os Evangelhos. Ela é o próprio Jesus Cristo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus [...]. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 1.14). A Liturgia da Palavra (escrita) existe em função da Liturgia Eucarística, na qual a Palavra Encarnada, “para nós homens e para nossa salvação”, entrega-se a nós, fazendo-nos participantes da sua divindade. A proclamação das Escrituras na Missa tem o propósito de preparar os adoradores para a comunhão com a Palavra encarnada, que é a fonte da palavra escrita, aquele de quem as Escrituras dão testemunho.

A liturgia — na Santa Missa, no Ofício Divino ou em qualquer outro rito sacramental — não consiste em um grupo de estudos bíblicos, não é uma oportunidade para folhear o Livro Sagrado e dar-lhe alguma atenção mais digna. A Escritura é proclamada para pregar “Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). É por isso que, em todos os santuários católicos adequadamente construídos, os olhos são atraídos para um crucifixo proeminente; e se a liturgia estiver bem ordenada, todos estaremos na mesma direção, voltados para o altar, o crucifixo, a abside e o Oriente, pois todos esses elementos simbolizam Cristo, que é o altar, a vítima, o Rei celestial, o norte de nossas vidas, aquele que foi, é e há de vir.

O objetivo de ler e pregar as Escrituras é acolher a Palavra, não a palavra escrita no papel, nem mesmo a palavra interior escrita no coração, mas, sim, Nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, que é “o poder e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 24). Essa realidade, expressou-a muito bem Louis Evely, ao afirmar:

A palavra de Deus não só revela, mas também age, ilumina e transforma. Ela é sacramentalmente eficaz. Toda semana nos reunimos solenemente para participar da eficácia de uma palavra singular de Deus. A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.

“Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”: quando o sacrifício, único e superabundante, do Calvário se faz presente em nosso meio pela consagração do pão e do vinho sobre o altar, nesse momento a Palavra de Deus — concebida pela Virgem Maria, pelo poder do Espírito Santo — é “proclamada” em sua realidade mais completa: o Verbo feito carne, o pão dos anjos, crucificado pelos nossos pecados, e ressuscitado para a nossa salvação.

Na Missa, se a “Liturgia da Palavra” não estiver em plena continuidade com a “Liturgia Eucarística”; se as leituras e a homilia não estiverem implícita ou explicitamente ordenadas ao mistério transcendente da fé, renovado sobre o altar e compartilhado pelos fiéis em sua comunhão mística com o Senhor, é certo que, em algum nível, a natureza da liturgia e suas partes não foi compreendida ou, pior ainda, foi propositalmente distorcida por causa de uma teologia errônea.

Da perspectiva correta, a Liturgia da Palavra — ou como era chamada, e ainda deveria ser, a “Missa dos Catecúmenos”, daqueles que devem ser instruídos no caminho da vida cristã — é uma antessala, uma promessa, uma preparação, um cultivo do terreno, um chamado para estar desperto e atento à voz de Jesus Cristo, a fim de nos prepararmos para recebê-lo em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. “Eis o Cordeiro de Deus”: eis aquele que a Escritura proclama nos profetas e nos salmos, nas epístolas e nos evangelhos. É por isso que a segunda parte da Liturgia era tradicionalmente chamada de “Missa dos Fiéis”, ou seja, daqueles que já creem nas palavras da Verdade, que são batizados em Cristo e estão prontos, agora, para receber o mysterium fidei, o mistério da fé: o próprio Cristo, em Pessoa, em seu Corpo glorioso.

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