O que São João Paulo II e Bento XVI têm em comum com G. K. Chesterton e Hilaire Belloc? O que eles têm em comum com J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis? A resposta é que eles trabalharam juntos de modo tão próximo, foram tão bons amigos, e agiram em união tão harmoniosa, que parecem quase inseparáveis. Não é possível olhar para um deles senão à luz do outro.

É por isso que George Bernard Shaw chamava Chesterton e Belloc de Chesterbelloc, enxergando neles uma única entidade colaborativa; e é por isso que Tolkien chamava Lewis de o “grande entusiasta”: sem o incentivo deste, aquele nunca teria terminado “O Senhor dos Anéis”, assim como a própria filosofia do mito de Tolkien foi instrumento crucial para a conversão de Lewis ao cristianismo. A dívida de Lewis para com Tolkien é esta: se não tivesse conhecido Tolkien, Lewis não teria se tornado cristão e não teria escrito “As Crônicas de Nárnia”. A dívida de Tolkien para com Lewis é esta: se não tivesse conhecido Lewis, Tolkien não teria terminado “O Senhor dos Anéis”. Paradoxalmente, temos de agradecer a Tolkien por Nárnia, e a Lewis pela Terra-Média. Tais são os ganhos, o poder e a glória, quando dois mundos firmam aliança.

A comparação entre a aliança de Chesterton e Belloc, e a de Tolkien e Lewis, com a dos dois grandes Papas, São João Paulo II e Bento XVI, ajuda-nos a entender o lugar e a importância de Bento como defensor resoluto da fé.

A eleição do Cardeal Ratzinger em 2005, como sucessor de São João Paulo II, foi recebida com luto e horror por aqueles teólogos hereges e católicos self-service cujas heresias e desvios ambíguos haviam sido condenados pelo novo Papa durante seus muitos anos enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Como de costume, esses lobos em pele de cordeiro uivaram em conluio com os lobos da mídia secular, unindo-se com os inimigos jurados da Igreja em seu ódio ao herói da ortodoxia, que os havia obrigado a recuar durante seus anos como servo fiel e destemido de São João Paulo II. Na guerra verbal que se seguiu à eleição do Papa, os inimigos da ortodoxia deram ao novo pastor alemão o título depreciativo de “rottweiler de Deus”.

Embora o santo e gentil Ratzinger não merecesse tal epíteto, era ironicamente oportuno: os lobos que queriam devorar o rebanho deviam mesmo odiar o pastor alemão que corajosamente os havia impedido de fazê-lo! A ironia é que esses inimigos do novo Papa estavam efetivamente atacando o Papa anterior, um santo prestes a ser canonizado, porque o Cardeal Ratzinger fora o aliado mais próximo e mais digno de confiança de São João Paulo II durante praticamente todo o seu pontificado. Ele foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em novembro de 1981, apenas três anos após a eleição de João Paulo, e foi mantido como braço direito dele pelo resto de seus muitos anos como Papa. Um ataque a Bento à época de sua eleição era, ipso facto, um ataque ao santo que fora Papa por mais de um quarto de século.


São João Paulo II fora, há muito, um grande admirador de Ratzinger. Lera todos os seus livros no original alemão e por muitos anos admirara sua inteligência e ortodoxia. O polonês carismático, então, fez do bávaro brilhante o seu braço direito, e os dois formaram uma dupla dinâmica para defender a doutrina, restaurar a tradição e fazer recuar o modernismo em ascensão. Sem a presença de Ratzinger, o papado de São João Paulo II não teria sido a força renovadora da tradição que logo em seguida se tornou. A união do futuro santo com seu futuro sucessor foi um casamento de mentes e corações feito no Céu.

Quase não há dúvidas de que um dos mais preciosos dons legados por Ratzinger à Igreja foi o seu trabalho incansável, tanto em palavras quanto em ações, para restaurar o esplendor da liturgia. Ainda em 1975, dez anos apenas depois do Concílio Vaticano II, Ratzinger escrevia sobre a necessidade de opor-se “ao relativismo racionalista, à confusão absurda e ao infantilismo pastoral” que estava degradando a liturgia “ao nível de uma festinha paroquial e à inteligibilidade de um jornal popular”.

Instado em 1984 a comentar sobre essas palavras fortes, quase dez anos depois que foram escritas pela primeira vez, Ratzinger foi indagado se ainda sustentava a mesma opinião. “Com certeza”, ele replicou, acrescentando que as coisas haviam se deteriorado ainda mais nos anos seguintes, a ponto de muitos outros “tesouros” litúrgicos terem sido “dilapidados”. A concordância de São João Paulo II com seu colaborador mais próximo ficou evidente no mesmo ano, quando ele concedeu um indulto especial, [através do documento] Quattuor Abhinc Annos, emitido pela Congregação para o Culto Divino, permitindo o uso do Missal anterior ao Vaticano II, publicado por São João XXIII em 1962. Quatro anos depois, em 1988, São João Paulo II publicou Ecclesia Dei, um motu proprio exortando os bispos a fazer “uso largo e generoso” do indulto de 1984 “em favor de todos os fiéis que o pedissem”.

A publicação do livro “O Espírito da Liturgia”, em 2000, pelo Cardeal Ratzinger, deve ser visto à luz do fomento ativo da tradição litúrgica por São João Paulo II. Seria impensável que Ratzinger quisesse escrever e publicar esse livro de importância basilar, numa época em que era visto como o conselheiro mais próximo e mais digno de confiança do Papa, sem ter recebido apoio e incentivo por parte dele. Nesta obra magistral, o futuro Papa conclamava a uma restauração dinâmica e corajosa do esplendor da herança litúrgica da Igreja. Ainda que estivesse convocando os fiéis ao silêncio na oração, ele os estava chamando à ação. Ainda que os estivesse convocando a se ajoelharem para a Comunhão, ele os estava exortando a se levantarem e lutarem pelas antigas tradições do culto católico. Aqui estava, afinal, uma figura proeminente na Igreja, o aliado mais próximo de São João Paulo II, pronto para enfrentar a luta contra os monstros da modernidade. Como um São Jorge do nosso tempo, vindo em defesa da Esposa de Cristo, uma verdadeira dama em apuros, ele empunhou a sua espada da verdade e a sua lança da razão numa batalha mortal contra o dragão do desnorteio.

Quase vinte anos após o motu proprio de São João Paulo II, um próprio motu proprio foi escrito por seu sucessor à luz “das súplicas insistentes dos fiéis, objeto já de longa deliberação pelo nosso predecessor”. Quando Bento fala dos esforços de São João Paulo II em socorro e em favor dos católicos tradicionais, está implícita a omissão de muitos bispos em conceder o indulto e atender à exortação de seu predecessor. Claramente, foi a negligência vergonhosa e lamentável da maior parte dos bispos do mundo, desafiando os desejos de um santo da Igreja, o que impeliu Bento a agir com seu próprio motu proprio — documento que, de fato, passou por cima dos bispos, libertando assim os padres tradicionais, e milhões de católicos amantes da tradição, da indiferença que os relegava à indigência, ou da hostilidade obstrutiva que lhes opunham os membros tíbios ou modernistas da hierarquia.

Concluamos esta celebração de São João Paulo II e Bento XVI voltando àquele que foi praticamente o último encargo cumprido pelo Cardeal Ratzinger antes de sua eleição como Papa. Na homilia que fez para o conclave papal, na segunda-feira, 18 de abril de 2005, dois dias antes de seu 78.º aniversário e um dia antes de sua eleição como sucessor de São Pedro, Ratzinger cunhou a expressão “ditadura do relativismo”, que encapsula o niilismo do zeitgeist [o “espírito do tempo”] com a mesma genialidade com que São João Paulo II cunhou a expressão “cultura da morte”, quase dez anos antes, em sua Encíclica Evangelium Vitae, publicada na festa da Anunciação de 1995. Em sua defesa infatigável da fé contra a cultura da morte e a sua ditadura do relativismo, esses dois grandes Papas uniram-se em vida assim como, podemos estar certos, estão unidos na eternidade. Possam eles interceder pelo Papa atual, para que ele tome parte no legado perene deixado à Igreja por esses dois pontificados consecutivos.


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