É mandamento da lei de Deus “guardar domingos e festas de guarda”. É mandamento da Igreja “participar da Missa inteira nos domingos e outras festas de guarda”. Mas a Missa aos domingos está em crise, e não é de hoje. O “oitavo dia” — como o chamavam os Santos Padres — é visto mais como feriado que como dia de culto a Deus, mais como dia de lazer que como dia de reza.

O mais curioso é que o preceito dominical não é vivido por ser considerado difícil, mas justamente pelo contrário: o mandamento é trivializado, tornado banal, e então já não se observa. Com o perdão da expressão, parece ridículo que Deus ordene às pessoas que se mexam, deixem suas casas e dirijam-se à capela mais próxima para uma hora de Missa. Parece fácil demais, bobo demais. Como consequência, damos de ombros, fingimos que não é conosco e não obedecemos. Porque nos recusamos a acreditar que o Altíssimo se importe com coisa tão mixuruca.

“Deus inscreve os mandamentos em duas tábuas de pedra”, por Joseph von Fuhrich.
“Deus inscreve os mandamentos em duas tábuas de pedra”, por Joseph von Fuhrich.

E no entanto Ele se importa — desde o Antigo Testamento, quando fixou o sábado como dia de repouso (שַׁבָּת [shabbat], em hebraico, significa justamente isso), em memória de seu próprio descanso, quando criou o mundo (cf. Gn 2, 2-3; Ex 20, 8-11), e da libertação de Israel do Egito:

Observa o dia de sábado, para o santificares, como o Senhor teu Deus te mandou. Seis dias trabalharás, e farás todas as tuas obras. O sétimo dia é o do sábado, isto é, o dia do descanso do Senhor teu Deus. Não farás nele trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu escravo, nem a tua escrava, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o forasteiro que está dentro das tuas portas, para que o teu escravo e a tua escrava descanse, como tu. Lembra-te que também serviste no Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão poderosa e com braço estendido. Por isso te mandei que observasses o dia de sábado (Dt 5, 12-15).

Em memória da Ressurreição de Cristo, no Novo Testamento, este preceito mudou de sábado para domingo. E a Igreja, com o poder das chaves (cf. Mt 16, 18), há muito tempo estabeleceu que é ouvindo Missa inteira aos domingos e festas que, hoje, observamos esse mandamento. (O mandamento de reservar um tempo para Deus, portanto, é de direito divino; só a sua aplicação concreta é de direito eclesiástico. Em outras palavras: Deus legislou, e a Igreja complementou.)

Sim, Ele se importa. E isso não deveria ser novidade se acreditamos que Ele saiu dos céus, se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem — como dizemos no Credo. O próprio Criador do universo deixou o lugar de sua santa habitação para armar em meio a nós a sua tenda, tomar a nossa carne miserável, viver a nossa vida simples, experimentar as mesmas necessidades pelas quais passamos, conviver conosco. A segunda pessoa da Santíssima Trindade se fez homem e, embora já nos amasse desde sempre na eternidade, quis entrar no tempo para gastá-lo conosco: mais exatamente 33 anos; ou 12.045 dias; ou 289.080 horas. Como ação de graças por tão grande misericórdia, o que Ele nos pede? Esta ninharia: que a gente vá, uma hora por semana, à sua casa.

À objeção de que é algo fácil, e portanto irrelevante; simples, e logo dispensável, lembremo-nos da história bíblica de Naamã, o sírio, que, para curar-se de uma lepra, foi orientado por Eliseu a ir lavar-se sete vezes no rio Jordão. Quando recebeu a prescrição, o estrangeiro enfezou-se:

Eu julgava que ele sairia a receber-me e que, posto em pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, que me tocaria, com a sua mão, o lugar da lepra, e que me curaria. Porventura Abana e Farfar, rios de Damasco, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me lavar nelas e ficar limpo? (2Rs 5, 11-12)

Vejam como este aborrecimento é muito parecido com um argumento típico dos que não querem sair de casa para ir à igreja. Assim como Naamã teria preferido lavar-se nos rios de sua própria terra a banhar-se nas águas do Jordão, quem de nós já não ouviu frases como: “Deus está em todo lugar”; ou: “Não preciso ir à igreja para ser cristão”; ou ainda: “Eu rezo em casa”?

Ora, ninguém dirá que rezar em casa é ruim; quem o faz, deve continuar, e faz muito bem, pois a família é chamada a ser “Igreja doméstica”, onde se ensina a fé, onde se ama a Deus, onde se vive o amor concreto aos irmãos. Mas, se o Deus que pode curar em Damasco quer nos curar no seu rio; se o Deus que pode nos visitar em nossa própria casa prefere que nos dirijamos à dele — quem somos nós para dizer: “não concordo”, “não quero”, “não vou”? O Senhor não distribui a sua graça como julgar mais conveniente?

“Naamã lavando-se no Jordão”, por Cornelis Engebrechtsz.
“Naamã lavando-se no Jordão”, por Cornelis Engebrechtsz.

Os servos de Naamã entenderam a irritação do seu amo. Além da pressa que ele tinha em curar-se, é claro, o sírio achara a diretriz ridícula. Lavar-se no Jordão, e sete vezes, não parecia grande coisa. O imortal personagem de Bolaños, diria: “Isso é muito fácil, peça outra coisa”. Por isso, disseram-lhe: “Pai, ainda que o profeta te tivesse ordenado uma coisa muito difícil, tu devias sem dúvida fazê-la; quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás limpo” (2Rs 5, 13). Em outras palavras: “Se fosse algo difícil a ser feito, o senhor não o faria? Quanto mais isto, que é tão fácil!” Esses mesmos servos nos diriam: Deus só lhe manda que vá à igreja mais próxima e gaste com Ele uma hora do seu tempo. Se é tão fácil, por que não fazer?

Porque nosso amor é pouco, podemos responder, parafraseando São Josemaria Escrivá (cf. Caminho, 529). Afinal, quem não consegue enxergar que, se não gastamos tempo com alguém, com alguma coisa, não a amamos de fato? Quem gosta de Copa do Mundo, por exemplo, mas não assiste aos seus jogos, que tipo de fã é? O rapaz que diz gostar de uma moça, mas que não lhe manda mensagens, não deixa o seu mundo para ir atrás dela, que tipo de amor lhe tem? Assim, também, quem diz amar a Deus, mas não lhe dá o mínimo do seu tempo, como pode amá-lo de verdade? E Deus, como pode ser amado, se é sempre preterido — por uma viagem, por uma visita, por um trabalho de escola, por uma hora a mais de sono, por um jogo de futebol?

Aqui vemos como o terceiro e o primeiro mandamentos estão entrelaçados. Quem ama a Deus sobre todas as coisas, não deixa nada antepor-se a Ele, à Missa dominical, a esse modo de cultuá-lo que Ele mesmo estabeleceu. Quem reza o Terço, então, que continue a rezá-lo; quem faz novenas, que continue a fazê-las; quem tem suas orações rotineiras, não as abandone. Que todas essas coisas porém se acrescentem à Missa dominical, se somem àquela hora de lei, pois, de fato, não a substituem. Nada, absolutamente nada, pode substituir o encontro com Deus vivo, na liturgia da Palavra e na liturgia eucarística. A vida espiritual não se resume a isso, evidentemente, mas tem aí a sua base, o seu sustento, a sua pedra angular. 

“Jerusalém celeste”, por Jacobello Alberegno.
“Jerusalém celeste”, por Jacobello Alberegno.

Que muitos de nós, católicos, tenhamos nos esquecido disso; que nós, chamados a ser cives sanctorum et domestici Dei — “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19-22) —, prefiramos isolar-nos da Igreja, separar-nos do “convívio dos eleitos”, é algo que só se pode lamentar. No Evangelho mesmo, Jesus usa o exemplo de Naamã para mostrar como, muitas vezes, os peregrinos e estrangeiros recebem a Deus muito melhor que os de sua própria casa (cf. Lc 4, 24-27). Pois a familiaridade vai gerando desprezo, ao passo que a distância tende a preservar o zelo e a reverência

Talvez aqui devamos encontrar, aliás, uma das chaves pedagógicas do preceito dominical: deixamos o seio do lar, a intimidade da nossa casa, para cultuar a Deus em outro lugar, porque quase sempre, para nos achegarmos a Ele, precisamos sair de nós mesmos; e porque, assim como existe o tempo sagrado, separado para Deus, existe também o espaço sagrado, dedicado a Ele. Naamã precisou deixar os rios de sua terra. Também nós, que temos banheiro e chuveiro em casa, tivemos de ser transportados à igreja para receber o banho da regeneração espiritual, que só na igreja se recebe: o sacramento do Batismo. Temos alimento em casa — e o pão de cada dia, podemos até mesmo fazê-lo nós mesmos —, mas só na igreja recebemos o pão dos anjos, o Santíssimo Sacramento. Podemos rezar em casa, mas só na igreja, rodeado pelos que creem, antecipamos o mistério da Jerusalém celeste que desce do Céu, repleta de anjos e santos (cf. Ap 21, 2-4); podemos rezar em casa, mas só no altar se renova o sacrifício perfeitíssimo de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, por nossa salvação.

No fim da história que evocamos, Naamã foi ao Jordão, lavou-se e ficou curado. Oxalá também nós tenhamos a ousadia de fazer o simples, as pequenas coisas que Deus nos pede, para testemunharmos como Ele é grande. Pois “o que é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16, 10).


O que achou desse conteúdo?

Mais recentes
Mais antigos
Acesse sua conta
Informe seu e-mail para continuar.
Use seis ou mais caracteres com uma combinação de letras e números
Erro ao criar a conta. Por favor, tente novamente.
Verifique seus dados e tente novamente.
Use seis ou mais caracteres com uma combinação de letras e números
Verifique seus dados e tente novamente.
Boas-vindas!
Desejamos um ótimo aprendizado.