É mandamento da lei de Deus “guardar domingos e festas de guarda”. É mandamento da Igreja “participar da Missa inteira nos domingos e outras festas de guarda”. Mas a Missa aos domingos está em crise, e não é de hoje. O “oitavo dia” — como o chamavam os Santos Padres — é visto mais como feriado que como dia de culto a Deus, mais como dia de lazer que como dia de reza.
O mais curioso é que o preceito dominical não é vivido por ser considerado difícil, mas justamente pelo contrário: o mandamento é trivializado, tornado banal, e então já não se observa. Com o perdão da expressão, parece ridículo que Deus ordene às pessoas que se mexam, deixem suas casas e dirijam-se à capela mais próxima para uma hora de Missa. Parece fácil demais, bobo demais. Como consequência, damos de ombros, fingimos que não é conosco e não obedecemos. Porque nos recusamos a acreditar que o Altíssimo se importe com coisa tão mixuruca.
E no entanto Ele se importa — desde o Antigo Testamento, quando fixou o sábado como dia de repouso (שַׁבָּת [shabbat], em hebraico, significa justamente isso), em memória de seu próprio descanso, quando criou o mundo (cf. Gn 2, 2-3; Ex 20, 8-11), e da libertação de Israel do Egito:
Observa o dia de sábado, para o santificares, como o Senhor teu Deus te mandou. Seis dias trabalharás, e farás todas as tuas obras. O sétimo dia é o do sábado, isto é, o dia do descanso do Senhor teu Deus. Não farás nele trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu escravo, nem a tua escrava, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o forasteiro que está dentro das tuas portas, para que o teu escravo e a tua escrava descanse, como tu. Lembra-te que também serviste no Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão poderosa e com braço estendido. Por isso te mandei que observasses o dia de sábado (Dt 5, 12-15).
Em memória da Ressurreição de Cristo, no Novo Testamento, este preceito mudou de sábado para domingo. E a Igreja, com o poder das chaves (cf. Mt 16, 18), há muito tempo estabeleceu que é ouvindo Missa inteira aos domingos e festas que, hoje, observamos esse mandamento. (O mandamento de reservar um tempo para Deus, portanto, é de direito divino; só a sua aplicação concreta é de direito eclesiástico. Em outras palavras: Deus legislou, e a Igreja complementou.)
Sim, Ele se importa. E isso não deveria ser novidade se acreditamos que Ele saiu dos céus, se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem — como dizemos no Credo. O próprio Criador do universo deixou o lugar de sua santa habitação para armar em meio a nós a sua tenda, tomar a nossa carne miserável, viver a nossa vida simples, experimentar as mesmas necessidades pelas quais passamos, conviver conosco. A segunda pessoa da Santíssima Trindade se fez homem e, embora já nos amasse desde sempre na eternidade, quis entrar no tempo para gastá-lo conosco: mais exatamente 33 anos; ou 12.045 dias; ou 289.080 horas. Como ação de graças por tão grande misericórdia, o que Ele nos pede? Esta ninharia: que a gente vá, uma hora por semana, à sua casa.
À objeção de que é algo fácil, e portanto irrelevante; simples, e logo dispensável, lembremo-nos da história bíblica de Naamã, o sírio, que, para curar-se de uma lepra, foi orientado por Eliseu a ir lavar-se sete vezes no rio Jordão. Quando recebeu a prescrição, o estrangeiro enfezou-se:
Eu julgava que ele sairia a receber-me e que, posto em pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, que me tocaria, com a sua mão, o lugar da lepra, e que me curaria. Porventura Abana e Farfar, rios de Damasco, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me lavar nelas e ficar limpo? (2Rs 5, 11-12)
Vejam como este aborrecimento é muito parecido com um argumento típico dos que não querem sair de casa para ir à igreja. Assim como Naamã teria preferido lavar-se nos rios de sua própria terra a banhar-se nas águas do Jordão, quem de nós já não ouviu frases como: “Deus está em todo lugar”; ou: “Não preciso ir à igreja para ser cristão”; ou ainda: “Eu rezo em casa”?
Ora, ninguém dirá que rezar em casa é ruim; quem o faz, deve continuar, e faz muito bem, pois a família é chamada a ser “Igreja doméstica”, onde se ensina a fé, onde se ama a Deus, onde se vive o amor concreto aos irmãos. Mas, se o Deus que pode curar em Damasco quer nos curar no seu rio; se o Deus que pode nos visitar em nossa própria casa prefere que nos dirijamos à dele — quem somos nós para dizer: “não concordo”, “não quero”, “não vou”? O Senhor não distribui a sua graça como julgar mais conveniente?
Os servos de Naamã entenderam a irritação do seu amo. Além da pressa que ele tinha em curar-se, é claro, o sírio achara a diretriz ridícula. Lavar-se no Jordão, e sete vezes, não parecia grande coisa. O imortal personagem de Bolaños, diria: “Isso é muito fácil, peça outra coisa”. Por isso, disseram-lhe: “Pai, ainda que o profeta te tivesse ordenado uma coisa muito difícil, tu devias sem dúvida fazê-la; quanto mais agora que ele te disse: Lava-te e ficarás limpo” (2Rs 5, 13). Em outras palavras: “Se fosse algo difícil a ser feito, o senhor não o faria? Quanto mais isto, que é tão fácil!” Esses mesmos servos nos diriam: Deus só lhe manda que vá à igreja mais próxima e gaste com Ele uma hora do seu tempo. Se é tão fácil, por que não fazer?
Porque nosso amor é pouco, podemos responder, parafraseando São Josemaria Escrivá (cf. Caminho, 529). Afinal, quem não consegue enxergar que, se não gastamos tempo com alguém, com alguma coisa, não a amamos de fato? Quem gosta de Copa do Mundo, por exemplo, mas não assiste aos seus jogos, que tipo de fã é? O rapaz que diz gostar de uma moça, mas que não lhe manda mensagens, não deixa o seu mundo para ir atrás dela, que tipo de amor lhe tem? Assim, também, quem diz amar a Deus, mas não lhe dá o mínimo do seu tempo, como pode amá-lo de verdade? E Deus, como pode ser amado, se é sempre preterido — por uma viagem, por uma visita, por um trabalho de escola, por uma hora a mais de sono, por um jogo de futebol?
Aqui vemos como o terceiro e o primeiro mandamentos estão entrelaçados. Quem ama a Deus sobre todas as coisas, não deixa nada antepor-se a Ele, à Missa dominical, a esse modo de cultuá-lo que Ele mesmo estabeleceu. Quem reza o Terço, então, que continue a rezá-lo; quem faz novenas, que continue a fazê-las; quem tem suas orações rotineiras, não as abandone. Que todas essas coisas porém se acrescentem à Missa dominical, se somem àquela hora de lei, pois, de fato, não a substituem. Nada, absolutamente nada, pode substituir o encontro com Deus vivo, na liturgia da Palavra e na liturgia eucarística. A vida espiritual não se resume a isso, evidentemente, mas tem aí a sua base, o seu sustento, a sua pedra angular.
Que muitos de nós, católicos, tenhamos nos esquecido disso; que nós, chamados a ser cives sanctorum et domestici Dei — “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19-22) —, prefiramos isolar-nos da Igreja, separar-nos do “convívio dos eleitos”, é algo que só se pode lamentar. No Evangelho mesmo, Jesus usa o exemplo de Naamã para mostrar como, muitas vezes, os peregrinos e estrangeiros recebem a Deus muito melhor que os de sua própria casa (cf. Lc 4, 24-27). Pois a familiaridade vai gerando desprezo, ao passo que a distância tende a preservar o zelo e a reverência.
Talvez aqui devamos encontrar, aliás, uma das chaves pedagógicas do preceito dominical: deixamos o seio do lar, a intimidade da nossa casa, para cultuar a Deus em outro lugar, porque quase sempre, para nos achegarmos a Ele, precisamos sair de nós mesmos; e porque, assim como existe o tempo sagrado, separado para Deus, existe também o espaço sagrado, dedicado a Ele. Naamã precisou deixar os rios de sua terra. Também nós, que temos banheiro e chuveiro em casa, tivemos de ser transportados à igreja para receber o banho da regeneração espiritual, que só na igreja se recebe: o sacramento do Batismo. Temos alimento em casa — e o pão de cada dia, podemos até mesmo fazê-lo nós mesmos —, mas só na igreja recebemos o pão dos anjos, o Santíssimo Sacramento. Podemos rezar em casa, mas só na igreja, rodeado pelos que creem, antecipamos o mistério da Jerusalém celeste que desce do Céu, repleta de anjos e santos (cf. Ap 21, 2-4); podemos rezar em casa, mas só no altar se renova o sacrifício perfeitíssimo de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, por nossa salvação.
No fim da história que evocamos, Naamã foi ao Jordão, lavou-se e ficou curado. Oxalá também nós tenhamos a ousadia de fazer o simples, as pequenas coisas que Deus nos pede, para testemunharmos como Ele é grande. Pois “o que é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16, 10).
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