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Sexo antes do casamento é pecado? Nossa resposta a um desabafo
Doutrina

Sexo antes do casamento é
pecado? Nossa resposta a um desabafo

Sexo antes do casamento é pecado? Nossa resposta a um desabafo

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2016
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Em reação ao vídeo "Por que o sexo antes do casamento é pecado?", um rapaz nos direcionou a seguinte mensagem no Facebook:

"Sério, como a religião cega as pessoas. Então quer dizer que, se duas pessoas estão namorando há pelo menos, digamos, uns três anos, mas ainda não se uniram em sagrado matrimônio, com toda aquela hipocrisia (sic) de pompa e circunstância e o famoso clichê de 'até que a morte os separe', não podem fazer sexo?! Se o fizerem, então suas almas estão condenadas eternamente ao fogo do inferno? Então só se ama alguém de verdade se essas duas pessoas colocam uma porcaria (sic) de aliança de ouro no dedo um do outro? A maior prova de que casamento em si não significa nenhum pouco de prova de amor de verdade, é a quantidade desses que são destruídos por adultério ou traição.

Sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma. Sabe o que é verdadeiro pecado? Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho. Na própria Bíblia mesmo está escrito: 'Não julgueis, para não serdes julgados'! Então, sejam menos mesquinhos e respeitem a escolha de cada um, pois por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres nojentos (sic) e podres de alma. Em contrapartida, existem aqueles que não se casaram, fizeram sexo mesmo assim e se amam de verdade, sem pecado algum! Pronto, está dito, doa a quem doer."

O "desabafo" desse internauta é uma ocasião propícia para falarmos novamente da castidade no namoro, esse tema que se tornou tão complicado nos últimos tempos, até mesmo em ambientes cristãos. Assim como esse rapaz se dispôs a dizer o que pensa, "doa a quem doer", também nós faremos o mesmo aqui, pois acreditamos que, ao lado do dever de manifestar a verdade, os católicos têm a missão de repelir os erros que a contrariem. Os grandes doutores da Igreja, de fato, não "pregavam" apenas dos púlpitos das igrejas: eles debatiam e corrigiam, com caridade, quem quer que se encontrasse em algum caminho tortuoso. Assim, humildemente, esperamos que estas palavras ajudem as pessoas afastadas a se encontrarem com a fé e a aceitarem a doutrina moral da Igreja.

Como ponto de partida, tomemos a tese central de nosso comentarista: a de que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma".

Quem o autoriza a dizê-lo com tanta certidão?

Ninguém, absolutamente. Ele simplesmente põe a frase, mas a fonte é ele mesmo. Mais adiante, ele até cita uma passagem bíblica, mas, aparentemente, serve-se dela apenas como um recurso retórico. Se acreditasse no todo da revelação divina contido nas Sagradas Escrituras, nosso comentarista certamente não diria que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma", porquanto os primeiros cristãos já ensinavam, em consonância com a própria tradição judaica, que a fornicação é pecado (cf. At 21, 25; 1 Cor 6, 18; Gl 5, 19; Ef 5, 3).

Mas, a pergunta é importante, o que é verdadeiro pecado? Nosso comentarista tem um rol de bons exemplos: "Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho". Seguramente, não há o que questionar: essas coisas são realmente pecaminosas.

A questão que precisa ser colocada é: de que modo nosso comentarista chegou a essa conclusão? Como descobriu que tal e qual coisa são erradas, e o que faz com que ele as chame de pecado?

"Pecado" significa, de acordo com a Primeira Epístola de São João, "transgressão da Lei" (1 Jo 3, 4). Santo Agostinho é um pouco mais minucioso e, em uma definição que já se tornou célebre, diz: "Peccatum est dictum vel factum vel concupitum contra legem aeternam — O pecado é a palavra, a ação, ou o desejo contra a lei eterna" [1]. Para sabermos o que é pecado, portanto, é preciso que conheçamos essa "Lei" de que fala o apóstolo São João, essa "lei eterna" de que fala Santo Agostinho.

Mas o que fazer para conhecê-la?

São duas as suas fontes: a razão humana e a revelação divina.

A razão humana, porque a lei eterna de Deus reflete nas criaturas racionais uma outra lei, a que damos o nome de "natural": por ela, as pessoas são capazes de dizer, usando a própria razão, se determinados atos, palavras ou desejos são bons ou ruins; é por causa dessa lei, inscrita no próprio coração humano, que uma pessoa sem nenhuma instrução religiosa sabe, por exemplo, que matar, tomar a propriedade alheia, mentir ou "trair a quem se ama" são condutas más e devem ser evitadas. Não é necessário ser católico apostólico romano e ir à Missa todos os domingos para ter consciência de que determinadas coisas são pecado. Um esquimó que, sem culpa própria, nunca tenha ouvido falar de Cristo, pode muito bem "cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência" [2] — palavras do Catecismo da Igreja Católica.

A revelação divina da Lei, no entanto, era necessária não só para elevar o homem ao conhecimento da fé — que supera e transcende a nossa mera capacidade racional —, mas até mesmo para deixar sólidas aquelas verdades que poderíamos alcançar pelo simples uso de nossa faculdade racional, já que, com o pecado original, o ser humano ficou debilitado até mesmo para reconhecer a lei natural. Um dos motivos da revelação, portanto, foi a fraqueza da condição humana após a queda de Adão e Eva: com a mente turva e os sentimentos perturbados, ficou difícil para o homem alcançar as verdades de sua própria natureza.

O mal do sexo fora do casamento é uma dessas verdades que podem ser apreendidas com o simples uso da razão. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, ao dialogar com quem não era cristão em sua famosa obra Suma contra os gentios, reúne um monte de argumentos para mostrar que, sim, "a simples fornicação é pecado contra a lei divina" [3].

A fornicação é errada, portanto, não simplesmente "porque a Igreja quis assim". A razão humana testemunha a maldade do sexo fora do compromisso conjugal e, para confirmar a inquietude da nossa consciência, vem em nosso auxílio a revelação do próprio Deus, que condenou essa conduta ainda na Antiga Lei (cf. Dt 17, 23; Tb 4, 13), reiterando essa proibição na Nova Aliança, seja pelas palavras de seu Filho (cf. Mt 5, 28), seja pelas palavras dos Apóstolos (já referidas acima) e dos seus sucessores [4].

A palavra "proibição", no entanto, provoca arrepios e traz imagens sinistras à imaginação das pessoas. É justamente por estar associada ao advérbio "não" que a nossa sociedade tende a enxergar a castidade como um fardo pesado e custoso de se carregar. Anos a fio de doutrinação ideológica nas escolas somam a esse preconceito as fogueiras da Inquisição, a rigidez da educação religiosa e... o argumento está pronto: o que esses católicos querem, na verdade, é "controlar as mentes" das pessoas e castrar os seus impulsos sexuais!

Nesse momento, é preciso conter um pouco a própria imaginação (ou a memória, às vezes) e tentar enxergar as coisas como elas realmente são.

"Castidade" não é um conjunto de normas sexuais carregadas de sanções punitivas. É verdade que existe uma pena para quem livre e conscientemente se afasta de Deus. Das coisas que Nossa Senhora mostrou aos três pastorinhos de Fátima, em Portugal, uma das primeiras foi o inferno, que é para onde vão "as almas dos pobres pecadores" que não se convertem. Mais do que um temor (sadio!) do castigo eterno, porém, o Evangelho de Cristo veio trazer ao homem a lei do amor. É por isso que, no episódio do programa "A Resposta Católica" sobre o sexo antes do casamento, Padre Paulo Ricardo insiste bastante no fato de o sexo fora do casamento ser uma forma de usar o outro, não de amar! Para perceber isso, basta tirarmos as vendas passionais que temos diante dos olhos. Como pode ser amor o ato egoísta de duas pessoas que se entregam totalmente no sexo, mas, ao amanhecer do dia, cada um se levanta de volta para sua casa? Como pode ser "natural" a fornicação, se transforma uma pessoa em objeto, tanto mais quanto se procura de todos os modos evitar a possibilidade dos filhos? Como pode ser amor que uma menina perca a sua virgindade sem sequer saber se o outro está disposto a perder a sua vida por ela, colocando uma aliança em seu dedo — aliança que nosso comentarista chama de "porcaria"?

É verdade que uma aliança, por si só, não significa nada. Nisto nosso comentarista está certo, "por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres podres de alma". O sinal da aliança é importante, todavia, porque carrega consigo a imagem do compromisso: lembra que o amor não é uma simples atração, mas um ato firme da vontade, que quer o bem do outro e se dispõe a isso, sim, por toda a vida — "até que a morte os separe", porque as pessoas não são objetos para uso de "uma noite" e descarte logo em seguida.

O que Deus pede do homem e da mulher, no entanto, não é a "pompa e circunstância" de uma cerimônia luxuosa, não são um vestido e um terno caros, nem carreiras profissionais bem sucedidas ou salários suntuosos. Quando, para conter a epidemia dos "casamentos clandestinos", a Igreja sabiamente estabeleceu, usando o poder das chaves (cf. Mt 16, 19; 18, 18), que a celebração do casamento deveria ser feita "na presença do pároco" ou de outro sacerdote autorizado, ela foi bem simples em sua colocação:

"Se não se apresenta nenhum impedimento legítimo, proceda-se à celebração do matrimônio em presença da Igreja, na qual o pároco, interrogados o varão e a mulher e entendido seu mútuo consentimento, diga: 'Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo', ou use de outras palavras, segundo o rito aceito em cada província." [5]

Essa determinação foi feita pela Igreja no século XVI. É, portanto, uma lei eclesiástica, válida somente para católicos batizados [6]. Nela, como se pode ver, não consta nenhum luxo excessivo, nenhuma imposição de festa, nenhuma "pompa" abusiva, porque, no fim das contas, não é isso que importa para Deus. O importante é que o casal se ame (de verdade) e queira fazer a vontade divina em suas vidas, o que inclui evitar o pecado — pecado que não é o que um ou outro charlatão arbitrariamente define como tal, mas o que Deus desde a eternidade fixou em sua Lei e transmitiu aos homens, seja através da razão que eles possuem, seja através da revelação que a Igreja guarda como fiel depositária.

Para entender a fundo todas essas coisas, no entanto, nada é tão necessário quanto a . Sem ela, é até possível compreender este ou aquele ponto da doutrina moral católica — a indissolubilidade do matrimônio é outro exemplo de verdade que pode ser alcançada pelo uso de nossa razão [7] —, mas não se é capaz de admirar o conjunto da obra. Quem vê de fora os Dez Mandamentos até consegue enxergar a sua razoabilidade, mas, não tendo fé, fica no superficial: os Mandamentos não passam, então, de algumas "regrinhas de boas maneiras". Quem olha tudo isso, todavia, a partir do Evangelho, a partir da Encarnação do Verbo, a partir do fato de que o mesmo Deus que deu as tábuas da Lei a Moisés enviou ao mundo o seu Filho para dar também a nós a filiação divina pela graça, é capaz de enxergar um mundo completamente novo à sua frente. E isso — eis o que é mais extraordinário — não está reservado a uma pequena elite, a este ou aquele grupo especial, porque Deus o preparou para todos!

Só diante de todo esse conjunto é possível entender, por exemplo, que o pecado humano tenha consequências tão terríveis, como diz o Apóstolo: "O salário do pecado é a morte" (Rm 6, 23). Não se trata de coisa insignificante, de "bagatela", como o demônio e o mundo têm tentado pintar, a fim de seduzir e enganar as pessoas. A lama de imundície em que os homens de nosso tempo chafurdam é a prova viva de que não é a religião que "cega as pessoas", como diz o nosso comentarista; são os nossos sentimentos descarrilados que cegam a nossa razão e nos impedem de ver a realidade que dança, às vezes freneticamente, diante de nossos olhos. Como diz, aliás, o Papa Pio XII, o homem, não raro, procura persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que, no fundo, não deseja admitir que seja verdadeiro [8].

Para que as escamas caiam de nossos olhos, não nos vai adiantar "tomar" o lugar de Deus e tentar definir o que é certo e o que não é, o que é pecado e o que não é. Tudo já está escrito, não só no papel de alguns livros religiosos, mas na carne do nosso próprio coração. O que precisamos fazer é ouvir a voz de Deus, ter fé no que Ele nos revelou e nos arrependermos de nossos pecados.

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

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Tchau, moral! Adeus, virtude!
Sociedade

Tchau, moral! Adeus, virtude!

Tchau, moral! Adeus, virtude!

O ser humano não consegue viver sem um critério de como agir. Como o homem moderno rejeitou o cristianismo herdado de seus antepassados, restou-lhe apenas uma opção: eliminar a moral e a virtude da vida pública e substituí-las por simulacros.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2019
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Faz muito tempo que nossa nação renunciou ao ensino da moralidade [1]. Hoje, a palavra “moral” é pouco pronunciada, pois foi substituída por “valores”, um termo mais subjetivo e agradável aos ouvidos do que seu predecessor, que evoca padrões objetivos e um comportamento ordenado. A sorrateira mudança para “valores” ocorreu quase sem esforço depois que forças seculares expulsaram Deus de nossos sistemas escolares e da esfera pública.

Compreende-se melhor a moral quando uma ordem estabelecida confere a ela uma finalidade, e essa necessidade durante muito tempo foi suprida pela crença no Deus criador de um universo ordenado. Ora, não é de admirar que o comportamento humano tenha sofrido desvios preocupantes, uma vez que secularistas proeminentes passaram a negar a existência de qualquer finalidade no mundo ou na vida humana.

Agora a sociedade secular está presa numa armadilha criada por ela mesma. Por um lado, defende com ferocidade o direito de um indivíduo a “definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana”, segundo as infames palavras do juiz Anthony Kennedy [2]. Se uma pessoa quiser matar um bebê in utero, redefinir o matrimônio ou remodelar sua sexualidade, nenhuma lei ou instituição poderá impedi-la

Por outro lado, deve haver um código para regular o comportamento até certo ponto, a fim de evitar a anarquia. Portanto, no lugar da moral, que (aliada ao seu outro complemento esquecido: a virtude) outrora moldou o comportamento humano adequado desde dentro, os secularistas impõem leis externas para regular nosso comportamento a partir de fora.

Essas leis são de dois tipos: leis de consentimento e de controle. 

Atualmente, as leis de consentimento governam as relações sexuais, e agora que o matrimônio não é mais o território adequado para a sexualidade, elas têm se tornado cada vez mais necessárias. Sendo o consentimento o único padrão, os atos sexuais já não podem mais ser considerados certos ou errados. A única coisa que importa é saber se as partes envolvidas estão de acordo com o ato. A sexualidade humana é hoje governada por decisões subjetivas de indivíduos, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. Isso explica por que atualmente todo tipo de atividade sexual é permitido. Em nosso mundo secular, só pode haver crime quando uma pessoa não está de acordo com tal atividade. 

Leis de controle não limitam uma pessoa, mas uma situação, tal como a competência para possuir uma arma ou aumentar o preço do aluguel. Naturalmente, sempre houve leis desse tipo, e elas não são más em si mesmas. Porém, a versão atual delas se tornou imperativa para secularistas que, por causa de seus princípios, não podem dizer a uma pessoa como viver de acordo com a moral.

Consequentemente, a única alternativa deles é controlar situações potenciais, limitando a oportunidade que uma pessoa tem para prejudicar outra. Pela lógica secularista, não podemos ensinar a um homem o mandamento: “Não matarás”. Em vez disso, temos de dizer: “Não possuirás uma arma”. Negligencia-se discretamente o fato de as leis de controle serem uma imposição da vontade de uma pessoa sobre outra.

Em nosso mundo secular, há apenas uma forma de proteger os seres humanos de ações escandalosas: uma lei externa que obriga a pessoa a obedecer ou a sofrer as consequências. Se as pessoas aderissem aos padrões de consentimento e controle, viveríamos em harmonia. Ao menos é o que se espera. 

Na tradição católica, em contrapartida, a lei e as consequências penais são o último recurso para reprimir uma conduta imoral. Segundo essa tradição, há muitas ações imorais em si mesmas, para além da violação de consentimento. Sem dúvida alguma, o código moral cristão, tal como a lei civil, contém diversas formas negativas: “Não farás [isto ou aquilo]”. Não obstante, essas normas fazem parte de uma visão mais ampla a respeito do sentido da vida humana e, consequentemente, do modo como os seres humanos devem e não devem se comportar. 

Em vez de simplesmente coagir a vontade, tal como o faz a lei civil, o código moral cristão recorre ao intelecto, persuadindo-nos a aceitar como verdadeira uma visão a respeito da maneira como deveríamos viver. A obediência a esse código também tem uma recompensa positiva: a vida eterna com Deus no Céu. A lei civil subsiste para reprimir aqueles que rejeitam esse código.

A moralidade cristã se fortalece ainda mais quando as pessoas religiosas se esforçam para adquirir virtudes, ou o hábito de realizar boas ações. Tornamo-nos virtuosos ao realizar atos de virtude repetidas vezes, enraizando-os em nosso próprio ser. Pessoas realmente virtuosas não dependem mais de proibições negativas porque estão sempre motivadas a fazer a coisa certa em todas as situações. Pessoas virtuosas atingem um nível ainda mais elevado quando amam Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, escreve São Paulo: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei… Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 18.22-23).

Além da moral, nosso mundo secular descartou também a virtude, já que esta também implica um modo correto de viver. Em seu lugar, temos hoje campanhas de autoestima e exortações insípidas em prol da amabilidade. Essa defesa é bem-intencionada, mas é ineficaz porque carece de um fundamento razoável que explique por que as pessoas deveriam agir desta ou daquela maneira. O apelo não é direcionado ao intelecto, nem mesmo à vontade, mas às emoções, o que equivale a edificar a própria casa sobre a areia.

O ensino da moralidade e da virtude não é — nem jamais foi — uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, o ensino delas aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim. Quando reduzimos nossas defesas, nos tornamos mais vulneráveis ao ataque.

Não podemos esperar que a lei civil faça o trabalho realizado outrora por uma ordem moral razoável e por uma formação virtuosa do caráter. O experimento norte-americano [3] deu certo porque essas coisas estavam presentes durante a formação do país e em sua expansão, mesmo antes da chegada do primado do direito a algumas localidades anteriormente instáveis. A rejeição da moralidade e da virtude pela América secular pode bem ser o passo que arruinará nosso grande experimento.

Notas

  1. O autor fala desde os Estados Unidos. Mas, de modo geral, as considerações feitas por ele se encaixam como uma luva também em nossa situação (Nota da Equipe CNP).
  2. Anthony Kennedy foi, até 2018, juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, função equivalente à dos ministros de nosso Supremo Tribunal Federal (Nota da Equipe CNP).
  3. Como já dito, o autor fala a partir do lugar onde vive. A expressão “experimento norte-americano” (em inglês, the American experiment) faz referência a um conjunto de ideias que orientou a independência dos Estados Unidos em 1776, e que pode ser encontrado principalmente nos escritos dos chamados “pais fundadores” dos EUA (os Founding Fathers). À parte, porém, essa particularidade, o que aqui vai escrito se aplica perfeitamente bem a qualquer sociedade. Nenhuma nação pode prosperar, no verdadeiro sentido do termo, se não estiver edificada sobre “uma ordem moral razoável” e “uma formação virtuosa do caráter” (Nota da Equipe CNP).

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Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso
Espiritualidade

Nem uma sequer
de nossas amizades é por acaso

Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso

“Nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram”. Se temos bons companheiros na jornada desta vida, então temos o próprio Deus, visível e encarnado, caminhando conosco.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2019
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É consequência quase que natural, de um processo sério, maduro e verdadeiro de conversão, afastar-se das más amizades que se tinha antes e aproximar-se de outras pessoas que tenham em comum a vida de oração e a busca das virtudes. 

A razão disso é muito simples e consta na própria Sagrada Escritura: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). Não é possível começar a seguir a Cristo e continuar levando a vida do mesmo modo, de mãos dadas com o mundo e com os mundanos. Os que se fazem amigos de Deus devem fazer-se, isto sim, inimigos do mundo — porque o contrário também é verdadeiro: quem se entrega ao mundo, a última coisa que quer ouvir falar é de Deus, de sua Igreja e dos Mandamentos (cf. Tg 4, 4).

Numa sociedade pagã como a nossa, então, é cada vez mais contrastante o modo como o mundo se comporta com o que nos manda o simples Decálogo. Está tudo estampado, às claras, na maneira como as pessoas se vestem, na linguagem com que falam, nas músicas que escutam, nas coisas que admiram…

Só para dar um exemplo muito concreto: as músicas mais ouvidas nos serviços de streaming de música (e também nas rádios), o que se tornaram senão pornografia auditiva pura e simples? As referências abertas ao que deveria ser o mais íntimo dos atos humanos, a incitação ao adultério, à degradação da mulher e ao próprio abuso de menores... nunca foram tão virulentas. E as pessoas não estão escutando isso (como se fosse pouco…); elas estão “curtindo” também, e divulgando, e colocando essas músicas para serem tocadas nas festas de família, de formatura e de casamento, de modo que também seus filhos são colocados, na maior tranquilidade, para cantar e dançar as baixarias que lhes vão aos ouvidos. 

Ora, quando o pecado se torna assim público, como não exigir dos cristãos um rompimento igualmente público com determinados ambientes e grupos de pessoas, de “amigos” ou até mesmo de parentes próximos? Não se trata justamente daquela “fuga das ocasiões perigosas”, básica para vivermos não só, mas principalmente a delicada virtude da castidade cristã? Não vale aqui o ditado segundo o qual é “impossível não queimar-se no meio de uma fogueira” [1]?

À parte a roupagem nova de que o problema se reveste hoje, também Santa Teresa d’Ávila podia se interrogar, em seu tempo, a respeito das más amizades (Caminho de Perfeição, c. 6): “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo? É amor que há de acabar com a vida, pois, se um não guarda a lei divina, e, por conseguinte, não ama a Deus, diferentes hão de ser os seus destinos” [2].

Palavras difíceis de escutar estas, especialmente para uma época que deixou de acreditar na eternidade e no Inferno: “Diferentes hão de ser os seus destinos”. Mas a boa-nova de Cristo comporta essa divisão: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36). 

Radical essa divisão, alguém poderá objetar. E, no entanto, como já dito, essa inimizade não é invenção de nenhum ser humano, tampouco da Igreja; trata-se de um decreto divino mesmo, inscrito na própria natureza das coisas, tal como se apresentaram após a Queda. Na célebre frase de Santo Agostinho: “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus — a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si — a celeste” [3].

Comentando a passagem de Gn 3, 15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, São Luís Maria Grignion de Montfort ainda diz o seguinte em seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Santíssima Virgem (n. 52):

Deus estabeleceu apenas uma inimizade — porém irreconciliável —, que haverá de durar e chegará mesmo a aumentar na razão mesma em que o mundo se for aproximando do fim. Esta inimizade é entre Maria, Sua Mãe imaculada, e o diabo; entre os filhos e os servos da Santíssima Virgem e os filhos e seguidores de Lúcifer [4].

Desenganemo-nos, portanto, tentando conciliar o inconciliável. “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo?” É inevitável, entre os amigos de Deus e os que não querem saber dele, o distanciamento, a separação e, tantas vezes, até o ódio. (Não de nossa parte, porquanto Nosso Senhor nos pede que amemos inclusive nossos inimigos. Além disso, por mais afundada no pecado que esteja uma pessoa, sua alma imortal também foi comprada pelo Sangue de Cristo, e é nosso dever trabalhar por seu resgate, com oração, sacrifícios e, se houver esperança de emenda, também com apelos e “chamadas de atenção” [5].)

Mas também é verdade uma coisa: as pessoas que não estão na graça de Deus geralmente são as primeiras a não quererem para si a companhia dos justos. E por quê? Porque o comportamento destes é uma reprovação visível do modo como elas procedem. A roupa modesta da moça católica é a condenação explícita da roupa indecente da moça mundana, ainda que não lhe saia uma palavra da boca sequer. O católico que sai de um grupo de WhatsApp porque não concorda com a pornografia que seus contatos lhe mandam, excita o ódio destes mesmo sem fazer alarde algum. A família numerosa gerada por um casal católico aberto à vida é o “escândalo” da paróquia, e por aí vai. 

É lamentável, de fato, que tantos de nosso convívio, e até de nossa casa, estejam tão próximos de nós fisicamente, mas ao mesmo tempo tão distantes espiritualmente… Como já dito, porém, é isso o que acontece naturalmente quando se amam e se querem coisas opostas. Não adianta “forçar a barra” e querer estabelecer uma amizade a todo custo, pois nem os laços de sangue nem a proximidade física podem sanar o problema da discórdia, isto é, quando duas pessoas não têm o coração no mesmo lugar.

Por outro lado, que alegria não experimentamos quando fazemos um amigo, um único que seja, com o qual temos a graça de compartilhar os mesmos amores e as mesmas aversões (idem velle, idem nolle, como diz o adágio latino, “querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”). C. S. Lewis escreve que “a expressão típica de começo de amizade seria esta: ‘O quê? Você também? Eu pensava que era o único!’” [6]. Se o que os amigos têm em comum, então, é a busca por Deus, essa alegria é potenciada pela graça, e desde já o que se experimenta é um verdadeiro prelúdio da glória celeste, pois é este o destino comum para o qual eles caminham juntos

Para falar a verdade, o único modo de os amores humanos não descambarem para a idolatria é estando constantemente permeados pelo sobrenatural; a única forma de ordenarmos nossos afetos da forma devida é colocando-os sempre diante da Cruz de Cristo; a única maneira de amarmos retamente as pessoas neste mundo é procurando amar a Deus de todo o coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento (cf. Dt 6, 5; Lc 10, 27).  

Do contrário, assim como com qualquer coisa deste mundo, ficaremos sempre insatisfeitos e “saturados” de algum modo, porque nossa alma foi criada para um outro tipo de amizade, a amizade com Deus, fora da qual todas as nossas amizades não passam de “parcerias”, “coleguismos”, destinadas ao mesmo fim das coisas materiais: o túmulo. É por isso que Santa Catarina de Sena aconselhava: “Se quiserdes que uma amizade dure, se quiserdes beber por muito tempo neste copo, deixai que ele se encha sempre na fonte de água viva; de outro modo, não podereis mais saciar vossa sede” [7]. 

Aqui mora o cuidado, também, de não deixarmos as boas amizades que temos se perderem por falta de referência a Cristo, nosso Amigo primeiro e fundamental, com “a” maiúsculo. Assim como na vida de perfeição, não basta que deixemos de lado as más companhias, que nos levam para o pecado; é preciso que transformemos o convívio com nossos amigos de fé em um desejo comum cada vez mais intenso pelas coisas celestes, em uma doação mútua cada vez mais generosa de bens espirituais… E isso exige esforço, luta constante e sabe-se lá quantas “doses” (tantas vezes dolorosas) de correção fraterna!

O importante é não nos esquecermos da miséria de nossa condição e da meta para a qual caminhamos. Estamos numa peregrinação difícil, é verdade, a montanha íngreme que queremos subir tantas vezes se agiganta à nossa frente e parece impossível subir… Mas, se temos bons companheiros para nos ajudar nessa jornada, que nos encorajam a seguir adiante, que não nos deixam desanimar quando tudo já parece estar perdido, que não nos deixam voltar atrás quando teimamos em confiar menos na graça que em nossas próprias debilidades, então temos o próprio Deus, visível, encarnado, caminhando conosco

Pois também Ele não desiste de nós; o que Ele mais quer é a nossa salvação eterna; e é Ele quem, em sua providência, nos presenteia com boas amizades:

Do ponto de vista de Deus, [...] nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram, quer se encontrem ambas em estado de graça, quer só uma tenha a vida divina e possa por sua orações, sua atitude e seu exemplo levar a outra a retomar o caminho reto da eternidade. Não foi por acaso que José foi vendido por seus irmãos aos mercadores ismaelitas; Deus tinha decidido desde toda a eternidade que eles passariam ali a tal hora, nem mais cedo, nem mais tarde. Não foi por acaso que Jesus encontrou Madalena, ou Zaqueu, ou que o centurião romano se encontrava no Calvário [8].

Assim também, (não duvide!) não é por acaso nem um sequer de seus amigos!

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. 1. Madri: BAC, 1996, p. 446.
  2. Santa Teresa d’Ávila. Caminho de Perfeição (c. 6). Trad. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 53.
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28.
  4. São Luís M. Grignion de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Trad. de Raul Martins. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 36.
  5. Falamos de “esperança de emenda” porque, se previrmos que nossa correção fraterna será inútil ou, ainda, virá a causar mais prejuízo do que benefício a outra pessoa, Santo Tomás de Aquino ensina que é melhor abster-se (cf. STh II-II, 33).
  6. C. S. Lewis. Os quatro amores. Trad. de Estevan Kirschner. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 92.
  7. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 26.
  8. Ibid., p. 33.

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Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!
Família

Marido e mulher,
vocês pertencem um ao outro!

Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!

Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Novembro de 2019
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Nas rubricas da celebração do matrimônio presente no Book of Common Prayer [1], o homem, ao colocar a aliança no dedo da mulher, é orientado a dizer: “Com esta aliança, eu te desposo; com meu corpo, eu te venero; e com todos os meus bens terrenos, eu te provejo: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Os cônjuges doam-se a si mesmos porque pertencem um ao outro. O respeito mútuo entre eles e sua união ao longo da vida são uma ratificação da aliança escrita, naquele dia, em seus corações pelo dedo ardente do Espírito Santo; escrita com a palavra de todo seu ser e o peso absoluto do passado, do presente e do futuro, testemunhando a imortalidade da alma humana e a origem divina do seu amor. Se votos como esse não são possíveis, os seres humanos não podem ser considerados animais racionais, muito menos filhos de Deus.

O voto nupcial é uma imitação da fé da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Essa declaração perpétua — dita por Eva a Adão, por Sara a Abraão, por Rebeca a Isaac, por Raquel a Jacó, por Maria a José, por Cristo a seu Pai, e pela Igreja a Cristo — é o atestado solene de amor eterno, o triunfo do amor sobre a morte. “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6, 3).

É por isso que, para o cristão, o divórcio não é apenas cruel e errado, mas impossível e inconcebível. Tornar-se a vida e o destino de alguém, por meio de um “sim”, e depois dizer “não”, é apagar a liberdade genuína da vontade e aniquilar a própria identidade enquanto portadora de promessas. A liberdade só pode sobreviver em uma atmosfera de amor, e o amor em um contexto de compromisso incondicional; do contrário, em uma tempestade de acaso ou em um deserto de incerteza, eles não sobrevivem. 

Nos votos matrimoniais seriamente intencionados, o homem torna-se da mulher e a mulher torna-se do homem — nas palavras de São Paulo, “já não vos pertenceis” (1Cor 6, 19). Como pai e filho, esposo e esposa são interdependentes. Se o pai nunca tivesse existido, a possibilidade do filho também desapareceria. O divórcio do que é intrinsecamente unido é tão impossível quanto separar a racionalidade da humanidade. Nesse sentido, a rejeição do amor prometido (divórcio) é como a negação da fé religiosa (apostasia), que, por sua vez, é uma imagem da rejeição da razão (niilismo).

Pensemos na dedicação da Virgem Maria ao seu Filho. Ele pediu tudo a ela, e ela em nada lhe faltou. Quando um homem e uma mulher se comprometem diante de Deus, eles o fazem em vista de uma bem-aventurança futura da qual não desfrutamos no presente. A grandeza da fé consiste nessa entrega livre e incondicional a um amor que não vemos, mas em cuja palavra solene confiamos.

Imaginemos a esposa de um jovem que partiu para a guerra. Ela sabe que pode não tornar a vê-lo nunca mais; ela sabe que nada pode lhe dar certeza de sua fidelidade no exterior. Mas, se ela o ama, manterá o compromisso assumido na expectativa do reencontro

A Escritura diz que Jacó “serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram alguns dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29, 20). Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

No caso de nosso Divino Amado, Ele deseja se tornar conhecido por nós: Ele não nos deixou órfãos. Para compreender essa realidade, basta nos perguntarmos: por que a Encarnação? Por que as parábolas e a Paixão de Jesus Cristo? Por que milagres? Por que santos e estudiosos? Não são esses os buquês, as cartas de amor, as manifestações apaixonadas de Deus ao homem? Além disso, se Deus cria o universo em um transbordar fecundo de sua perfeita bondade, acaso tornará impossível para nós encontrá-lo? E quando for encontrado, acaso tornará impossível para nós permanecer com Ele?

Ao contrário dos sonhos efêmeros e das trágicas quedas do amor humano — que, por sua própria natureza, permanece sujeito à mudança —, o amor de Deus é imutável e eterno: Ele é fiel, Ele não trairá seus filhos. Estes lhe pertencem, e Deus quer que retornem a Ele, como o pai quer o filho pródigo de volta em seus braços, sob seu teto. Começamos nossa vida mortal em um estado de alienação em relação a Deus, de modo que toda a nossa vida é uma peregrinação para encontrar o caminho de volta para Ele. O Pai espera por nós com um banquete e, por nossa causa, Ele permitiu o sacrifício, não de um bezerro gordo, mas de seu próprio Filho, a fim de que possamos retornar a Ele com confiança e descansar a cabeça fatigada em seu peito, como o pobre mendigo Lázaro repousando no seio de Abraão.

Neste mundo, só o que nos resta é procurar a estrela e segui-la: precisamos seguir qualquer que seja a luz visível para nós com a fé inabalável dos Magos. Thomas Valpy French, avô do monsenhor Ronald Knox, escreveu estas palavras sobre suas batalhas espirituais: “Confesso que tenho estado bastante perplexo... só posso concluir que, quando a luz total não é dada, é preciso aceitar a melhor luz que se tem, e seguir em frente lentamente, com alguma hesitação, mas com confiança ainda maior”. É também nisso que consiste a atitude de permanecer na esperança e ser fiel às promessas de alguém, exspectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Iesu Christi, “esperando com alegria a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo”.

Notas

  1. Nota de tradução: o Book of Common Prayer é o livro de orações e celebrações utilizado pela Igreja Anglicana. Embora não seja um rito católico, o texto citado expressa de modo bem explícito a realidade da entrega mútua que se realiza no matrimônio.

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Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!
Padre Paulo Ricardo

Obrigado, padre, porque
o senhor escolheu morrer!

Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!

Neste dia em que nos alegramos pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade, o que nós queremos mesmo celebrar, Padre Paulo Ricardo, é a sua morte.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2019
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Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Às vésperas que estamos deste dia 7 de novembro de 2019, no qual teremos a alegria de celebrar o seu 52.º aniversário natalício, queremos mais uma vez agradecer a Deus pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade...

Mas, parando para pensar um pouco, o que nós queremos mesmo celebrar, padre, é a sua morte.

Obviamente, não estamos falando de sua morte física, tampouco sugerindo que sua vida não seja importante (o leitor entenda bem)... Acontece que, assim como uma vela não pode iluminar um cômodo sem se consumir, assim como uma árvore não pode crescer e dar fruto sem que antes a semente caia no chão e morra (cf. Jo 12, 24), a nossa alegria pelo dom da sua vida é ainda maior porque o senhor, um dia, escolheu morrer

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde muito cedo abandonou as próprias opiniões para crer “em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” e, assim, manter a fé que o senhor depois cuidaria de transmitir fielmente a nós, seus filhos. 

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde pequeno pensou no sacerdócio e quis fazer-se padre, renunciando a todos os projetos que o mundo tinha para si e preferindo a eles o altar do Sacrifício.

O senhor escolheu morrer, padre, quando se prostrou diante do altar do Senhor, no dia da sua ordenação e abraçou o santo celibato como caminho de santificação.

O senhor escolheu morrer, padre, quando tomou a decisão de usar sempre sua batina preta, como mortalha e sinal do “sacrifício de um homem” que deve ser todo sacerdote.

O senhor escolheu morrer, padre, quando, ao invés de se obstinar em seus erros passados, sempre fez questão de reconhecer as próprias culpas e fraquezas, preferindo voltar atrás a trair o “mistério da fé” que lhe foi confiado. 

O senhor escolheu morrer, padre, sempre que preferiu a palavra da Igreja à sua, a sabedoria dos santos à sua, cumprindo com isso o lema de nosso site: Christo nihil praeponere, “nada antepor a Cristo”.

O senhor escolheu morrer, padre, quando trocou uma “carreira” pela árdua missão de anunciar a verdade aos bárbaros da sombria era digital, que somos nós.

E por que o senhor escolheu isso?

O senhor escolheu morrer, padre, para que tantos de nós pudéssemos viver, tornando-se com isso imagem do próprio Cristo, que veio non ministrari, sed ministrare, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de muitos. 

Por tudo isso, muito obrigado, padre! Obrigado pelo dom da sua vida e por gastá-la conosco! Obrigado por ter escolhido morrer e por continuar a fazê-lo, dia após dia, no seu ministério! 

E obrigado por nos ensinar que é assim, morrendo, que a nossa vida ganha verdadeiro sentido… Graças a esse ensinamento, também nós, seus filhos, queremos morrer.

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