José María Pemán nos advertia, em uma de suas deliciosas terceritas [i], que “o mundo se tornou tão falso, tão artificioso e carente de lógica, que transformou-se numa espécie de cenário de teatro que apresenta na fachada um panorama escolhido mentalmente e, na parte de trás, é uma plataforma de madeira”. Mas Pemán viveu numa época em que a mentira ainda era uma ilusão de ótica reconhecível, que se desvelava com o simples ato de contorná-la e aproximar-se do andaime que a sustentava. Em nossa época tenebrosa e tresloucada, a mentira é um “metaverso” que abarca a todos nós. Há épocas entregues ao culto monomaníaco do dinheiro, da carne, do ódio a Deus ou ao homem; mas a nossa instaurou o culto totalitário da mentira, que compreende todos esses cultos perversos e ampara sob seu jugo todos os crimes. E assim, sob o jugo da mentira, subverte-se a ordem das coisas e o mundo é transformado num penoso manicômio.

A mentira se transformou, diabolicamente, em programa de vida, em força cósmica ou poder universal. Mente-se por ofício, de forma sistemática, com um orgulho presunçoso que só pode ser explicado do ponto de vista preternatural. Os meios de comunicação sempre foram partidários, sectários e parasitas deste ou daquele grupo. Mas somente em nossa época se transformaram em recipientes das propagandas mais grosseiras, dos rumores mais clamorosos, das incitações fingidas mais abusivas e grotescas. Somente em nossa época eles se dedicam com um frenesi tão entusiástico a semear a confusão babélica no mundo. E somente em nossa época aqueles que cultivam a mentira com rigor científico têm tanto lucro. As perversões mais grosseiras, as montagens mais maniqueístas, os embustes mais fantásticos e postos em circulação pelos gabinetes de guerra psicológica são divulgados com unânime fervor e aplaudidos com entusiasmo pelas massas idiotizadas, que assim exorcizam seus medos e se esquecem de que estão sendo saqueadas materialmente e corrompidas espiritualmente. E, para impor seu jugo, a mentira serve-se tanto do embuste histérico como do sentimentalismo bom-mocista, segundo lhe convém. Já não se trata de divulgar mentiras como recurso defensivo ou como subterfúgio. Agora, a mentira se pavoneia cheia de presunção, elabora teorias, faz alardes, sabendo que conseguiu impor o ofuscamento das consciências ao qual se referia Isaías: “Ai de vós os que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz, e a luz por trevas, que tendes o amargo por doce, e o doce por amargo!” (Is 5, 20)

A mentira hegemônica instaurada em toda parte, forte e inexpugnável, é transformada em salvo-conduto para cruzar as fronteiras da aceitação social. E aqueles que se atrevem a desmascarar seus artifícios ou não se resignam a ser vítimas de suas artimanhas são imediatamente censurados e classificados como réprobos. Ai da época que abraça a mentira e silencia seus profetas! Terminará presa nas trevas e não será perdoada.

Notas

  1. Coluna que o ensaísta espanhol publicava no jornal ABC e que ganhou esse apelido por ser a terceira página do caderno. (N.T.)