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O que há de errado com a castidade?
Sociedade

O que há de errado com a castidade?

O que há de errado com a castidade?

O tema “castidade” está em alta. A desconfiança e o deboche da mídia com relação a ela também. Mas por que a pureza é algo tão temido pelos artistas e jornalistas brasileiros?

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A propósito do tema “castidade”, em alta nos últimos dias, uma cantora brindou-nos com o seguinte comentário: “Loucura… Imagina se os jovens no meio do carnaval vão escutar isso, se vão pensar nisso”. No ano passado, a mesma figura ganhou as manchetes por ter dito que faria sexo com qualquer coisa que lhe cruzasse o caminho: “Homem, mulher, cachorro. Não, cachorro não pode”.

Esclareçamos, antes de tudo, o óbvio. “Loucura” mesmo deve ser o diagnóstico para o estado mental de boa parte dos nossos artistas e jornalistas. É já uma insanidade, por si só, dar ouvidos aos palpites sobre a educação sexual dos jovens de uma “personalidade” para quem, ao que parece, a zoofilia é um tema tão pouco “tabu”, que vem à língua sem ruborizar a cara. A coisa, porém, se torna mais grave quando a mídia decide dar audiência a isso. Porque, afinal de contas, que tipo de conselho ou exemplo nos pode oferecer alguém assim? Que credibilidade deveríamos dar a ideias tão exóticas, quando não irresponsáveis, acerca de um tema tão delicado e complexo? É incrível que, na falta de boas reportagens, a imprensa insista uma e outra vez em dar voz a tais absurdos.

Se vivêssemos num país sério, os nossos artistas, que podem às vezes ter algum talento para o que fazem, teriam antes o bom senso de não opinar, com a autoconfiança de quem é especializado na matéria, sobre questões morais. A vida que leva essa casta olímpica de celebridades está tão distante da do homem comum, que ela não é, nem já parâmetro, mas nem sequer factível para a sociedade. Enquanto muitas delas brincam de pôr fogo em Roma, fazendo todo tipo de extravagâncias em nome da “arte”, cidadãos comuns precisam, sim, apagar o fogo de suas casas: o fogo, por exemplo, dos vícios que consomem hoje os seus filhos, vítimas de usuários de drogas que, em rodinhas de violão, escrevem sonetos à Lua como se fora isto o cume da expressividade “artística”. Não faz muito tempo, um programa de TV exibia outras dessas cantoras, que por cá se multiplicam como sarampo, fazendo apologia da maconha, com direito a dancinha obscena no meio de uma plantação de alface, uma alusão bastante hortaliça à droga. Tudo isso à luz do dia, para todo o mundo ver.

Faz, no entanto, muito tempo que a classe artística perdeu o juízo para os assuntos da realidade cotidiana, especialmente no que diz respeito à moral. No último Globo de Ouro, premiação anual da indústria cinematográfica, o humorista Rick Gervais — para que se veja que não é preciso ser teísta para ser sensato — destacou a hipocrisia dos artistas que fazem daquele momento uma espécie de comício. “Vocês não sabem nada sobre o mundo real, e a maioria de vocês passou menos tempo na escola do que a Greta Thunberg”, polemizou Gervais, insistindo em que os vencedores do prêmio não deveriam usar aquele espaço para fazer politicagem. “Apenas receba seu pequeno prêmio, agradeça ao seu agente e saia fora”, pediu.

Imaginem que tipo de conselho daria ele numa premiação de música no Brasil!

Seja como for, esses senhores exercem ainda uma forte influência sobre o povo simples (sobretudo entre os jovens), por conta da ilusão de seus espetáculos. E eles sabem muito bem disso. Eis por que usam e abusam da inocência alheia para promover toda sorte de erros, vícios e blasfêmias. Não é arte o que produzem, mas veneno para atiçar os instintos mais baixos e bizarros da natureza humana decaída. Trata-se, no fim das contas, de pura tática revolucionária para a degradação da sociedade, como descrevia o filósofo Mário Ferreira dos Santos: “Um acontecimento de real valia recebe uma atenção mínima, e ao lado abrem-se colunas para contar a vida semidelinquente de um playboy imbecil e tolo, que realizou façanhas estúpidas, que qualquer débil mental é capaz de fazer e até superar” [1].

Era ainda 1960 quando Mário Ferreira dos Santos começou a notar a invasão vertical dos bárbaros que avançava a passos largos contra a civilização brasileira. Ele viu estupefato como manejavam bem as armas da revolução, “com uma habilidade de estarrecer”, escreveu, “dispondo de meios capazes para tal, imprimindo ao trabalho corruptivo uma intensidade e um âmbito nunca atingidos em momento algum” [2].

Até esses dias, eram comuns programas infantis com apresentadoras exibindo seus corpos em trajes de banho. Na mesma linha, filmes da tarde mostravam obscenidades das mais grotescas sem qualquer preocupação. Disso passamos para os testes de DNA e fidelidade, com banheiras pornográficas, onde homens e mulheres se atracavam em frente às câmeras. Foi também quando surgiram as mulheres mascaradas, que assediavam o imaginário dos rapazes com todo tipo de provocação sexual. E o que temos hoje são reality shows que promovem assediadores, pedófilos e cantoras que falam de sexo com animais. A degradação não tem limites. Os cachorros que se cuidem…

Mais de 50 anos depois, a revolução pode considerar-se praticamente consumada. O divórcio, o adultério e a bestialidade estão aí, banalizados, já não se pensa mais em filhos e a castidade antes do casamento tornou-se objeto de escárnio. É por isso que a castidade, algo que a Igreja sempre ensinou, é vista com suspeita e deboche. Para os arautos da revolução, o sexo é tudo, e não há nada fora do sexo.

A verdade é que a fatura dessa revolução está custando muito caro. O mais recente relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/AIDS mostra que o Brasil teve um aumento de 21% no número de infectados pelo vírus. Também a média para o início da vida sexual entre os brasileiros é assustadora. No geral, meninos e meninas têm a primeira relação com apenas 13 anos, o que os expõe a uma série de riscos, como doenças e gravidez indesejada. Isso tudo sem falar da enorme taxa de casos de estupros e outros tipos de assédio.

Para a doutora Lilian Day Hagel, do Departamento de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, as razões para esse padrão de comportamento seriam, entre outras coisas, o excesso de estímulos e a banalização do corpo a que os jovens estão submetidos. “Antigamente, as experiências sexuais ficavam restritas a um ambiente. Agora, são rápida e impulsivamente compartilhadas com repercussão e alcance”, explicou ela numa entrevista.

De fato, a moda dos nudes e outros tipos de exposição sexual na internet se difunde cada vez mais. E afirmar que os números da ONU e de outras pesquisas se devem à falta de investimento em campanhas de “conscientização” sobre a necessidade do preservativo, como se um adolescente hoje em dia não soubesse nem o que é nem como usá-lo, é, para dizer o mínimo, ridículo. Os jovens sabem, sim, muito bem das doenças e da possibilidade de uma gravidez. O problema de fundo é que não estão nem aí, porque aprenderam a encarar o sexo como diversão e prazer fácil. Para eles, é apenas mais um passatempo como um jogo de Free Fire. Portanto, eles não vão usar camisinha e ponto, por mais que o Estado se meta nas salas de aula e faça propaganda a respeito.

É tudo uma questão de sociologia. Para promover o controle populacional, o sociólogo Kingsley Davis bem sabia que o investimento em anticoncepcionais e preservativos deveria ser periférico. O seu verdadeiro objetivo era mudar o comportamento das pessoas, descaracterizando o significado genuíno da sexualidade humana. Ele pregava abertamente: “É óbvio que, se se deve prevenir o crescimento excessivo da população, será necessário impor, de alguma forma, limites à família” [3].

Em outras palavras, seria necessário investir na desconstrução do matrimônio para promover uma insurreição sexual, completamente alheia à natureza do sexo entre um homem e uma mulher. E os resultados estão aí. Toda essa educação que resume a sexualidade ao prazer está na conta desse senhor e de tantos outros revolucionários da mesma agenda. Ao fim e ao cabo, a defesa dos preservativos não passa de fachada para um projeto muito mais ambicioso de engenharia social, que conta com o apoio, consciente ou inconsciente, de quase toda a imprensa e dos artistas. Trata-se de criar um novo padrão de sexualidade.

Por isso mesmo, Bento XVI dizia que a AIDS não pode ser enfrentada “só com dinheiro” e “com a distribuição de preservativos”, que só aumentam o problema. A questão é mais delicada e envolve um projeto de restauração da dignidade do homem; uma revolução às avessas, que desconstrua a ideologia de Kingsley Davis — essa, sim, uma loucura — e traga de volta a genuína identidade da família. E isso exige, explicava o Papa, “uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro”; e também “uma verdadeira amizade e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade à custa de sacrifícios, de renúncias pessoais, para estar ao lado dos doentes”.

Obviamente, uma renovação como essa não pode nem deve esperar pelo Estado. A legítima educação dos filhos é coisa que os pais precisam tomar para si como o bem mais precioso que eles têm em mãos. Se não houver sacrifício das famílias, empenho dos pais para educarem os filhos, proporcionando-lhes uma vida limpa, honesta, longe das más influências, qualquer outro esforço nessa matéria deve fracassar. Em 2007, Bento XVI já avisava aos brasileiros que era preciso dizer não aos meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento. Hoje esse aviso é mais atual do que nunca.

A castidade é uma virtude para gente heroica, que se recusa a ser um objeto descartável e tem a peito o desejo de desfrutar das delícias eternas antes de se perder nas delícias efêmeras. É mais ou menos como contava o jornalista católico Guy de Larigaudie, no livro Estrela de Alto Mar, acerca de um cavaleiro que encontrou uma bela jovem:

Devia ser uma mestiça. Tinha uns ombros esplêndidos e a beleza animal das mulatas, de lábios grossos e olhos imensos. Era bela, de uma beleza selvagem. Em verdade só havia uma coisa a fazer. Não a fiz. Tornei a montar o cavalo e parti a galope, sem me virar, chorando de desespero e de raiva. Penso que no dia do Juízo, se não tiver outra coisa a apresentar, poderei oferecer a Deus, como flores, todas essas carícias que, por amor d’Ele, eu não quis conhecer (grifos nossos) [4].

Homens assim não nascem em qualquer lugar. Homens dessa estirpe — como São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino ou mesmo o Venerável Carlo Acutis, que foram almas verdadeiramente puras e castas — só existem no cristianismo, dentro da Igreja Católica, porque são forjados pela graça e pela boa vontade. Por isso, é tarefa das famílias, em primeiro lugar, preservar no coração dos filhos um autêntico e saudável ambiente cristão. Não deixemos, pois, aos estranhos aquilo que é antes dever dos pais e da Santa Madre Igreja.

Referências

  1. Mário Ferreira dos Santos, Invasão Vertical dos Bárbaros. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 31.
  2. Id., p. 15.
  3. Kingsley Davis, Política Populacional: Os Programas Atuais Terão Sucesso?, de 10 nov. 1967.
  4. Guy de Larigaudie, Estrela de Alto Mar. Rio de Janeiro: Agir, 1969, 68p.

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Ladainha do Sagrado Coração de Jesus
Oração

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Nas 33 invocações desta litania em honra ao Sagrado Coração de Jesus, uma para cada ano de sua santíssima vida na terra, temos um verdadeiro guia de meditação para este mês de junho e, no fundo, para toda a nossa vida cristã.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Junho de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Em 1899, o Papa Leão XIII aprovou esta Ladainha do Sagrado Coração de Jesus para uso público. Sua estrutura constitui, na verdade, uma síntese de várias outras litanias que remontam ao século XVII. A versão final delas, aprovada pela Sagrada Congregação para os Ritos, perfaz um total de 33 invocações ao Coração divino de Nosso Senhor, um para cada ano de sua santíssima vida.

Quem recita devotamente esta oração lucra indulgências parciais (cf. Enchr. Indulg., conc. 22). Para acessar a versão latina da ladainha, clique aqui.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Coração de Jesus, Filho do Pai eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do Céu, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual o Pai põe todas as suas complacências, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de cuja plenitude todos nós participamos, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, desejado das colinas eternas, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, paciente e de muita misericórdia, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, propiciação por nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, saturado de opróbrios, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esmagado de dor por causa dos nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, feito obediente até a morte, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, transpassado pela lança, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de toda consolação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, delícias de todos os santos, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

V. Jesus, manso e humilde de coração,
R. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Oremos:
Deus eterno e todo-poderoso, olhai para o Coração do vosso diletíssimo Filho e para os louvores e satisfações que Ele, em nome dos pecadores, vos tem tributado; e, deixando-vos aplacar, perdoai aos que imploram a vossa misericórdia, em nome de vosso mesmo Filho, Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora
Virgem Maria

Como os primeiros cristãos
já veneravam Nossa Senhora

Como os primeiros cristãos já veneravam Nossa Senhora

Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos.

Charlie McKinneyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Os autores do Novo Testamento dedicam a maior parte de sua atenção a Jesus e seu ministério, não à mãe dele. São óbvias as razões para isso: Jesus é Deus, Maria não. Se a natureza e a supremacia divinas de Cristo não estivessem clara e solidamente estabelecidas, a devoção à sua mãe não faria sentido; pior, poderia se transformar no tipo de culto a divindades femininas, tão comum no antigo Oriente Próximo.  

O mesmo princípio era verdadeiro para a Igreja antiga. Primeiro, era necessário estabelecer a primazia de Cristo; do contrário, a alegação de que os seus membros formavam o próprio Corpo de Cristo soaria como loucura. Mesmo assim, encontramos reconhecimento e devoção à mãe de Jesus desde os tempos apostólicos [1].

A mais antiga evidência histórica que possuímos da devoção mariana vem das catacumbas. Esses túmulos de cristãos, espalhados por todo o mundo mediterrâneo, dão testemunho da afeição a Maria, da esperança em sua intercessão e da confiança do lugar ocupado por ela no Céu. Já no primeiro século depois de Cristo começou-se a incluir Maria em afrescos nas paredes das catacumbas romanas. Às vezes ela aparece com o seu Filho; em outras ocasiões, aparece sozinha. Imagens comuns incluem Maria como modelo de virgindade e em postura de oração. Também estão nas paredes cenas de Maria na Anunciação e na Natividade.

Um dos afrescos mais importantes encontra-se nas catacumbas de Santa Inês, em Roma. Maria aparece de pé entre São Pedro e São Paulo, com os braços estendidos para ambos. Desde os primórdios do cristianismo, sempre que esses dois apóstolos aparecem juntos, simbolizam a única Igreja de Cristo, uma Igreja de autoridade e evangelização, uma Igreja para judeus e gentios. A posição proeminente de Maria entre os dois ilustra que a Igreja apostólica a enxergava como mãe da Igreja.

As muitas imagens de Maria e a sua presença nas catacumbas também deixam claro que os primeiros cristãos não viam Maria apenas como uma pessoa histórica, mas como uma fonte de proteção e intercessão. O uso simbólico de sua imagem aponta para a realidade do relacionamento que tinham com ela. Como a consideravam mãe da Igreja, entendiam que ela estava associada a todos os cristãos, fazendo o que faria qualquer boa mãe, protegendo-os, ensinando-os e ajudando-os em suas orações.

Cerca de cem anos após a morte de Jesus, os líderes e mestres da Igreja antiga começaram a descrever Maria como “a nova Eva”. O que queriam dizer com isso?

No Gênesis, Adão não pecou sozinho. Sua esposa desobedeceu a Deus antes dele e o tentou, então, à desobediência. O homem perdeu a graça, e o pecado original debilitou a natureza humana por causa do pecado de Adão; Eva, porém, teve um papel instrumental na Queda.

O mesmo acontece na redenção do homem. A possibilidade de recobrar a graça, purificando-se do pecado original, veio pela morte salvífica de Cristo na Cruz, ao pé da qual, no entanto, estava a mulher que tornara possível a morte de Jesus, justamente por ter dado um “sim” à vida dele. Com seu fiat ao anjo Gabriel, Maria, tal como Eva, teve um papel instrumental e secundário na redenção humana.

São Justino Mártir († 165), o primeiro grande defensor da doutrina cristã na Igreja antiga, usou essa metáfora, descrevendo Maria como a “virgem obediente” em contraposição a Eva, a “virgem desobediente”:

[O Filho de Deus] tornou-se homem por meio da Virgem, [para] que a desobediência causada pela serpente pudesse ser destruída da mesma forma que foi originada. Pois Eva, quando era uma virgem incorrupta, concebeu a palavra que procedia da serpente, e criou a desobediência e a morte. Mas a Virgem Maria ficou cheia de fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe deu a boa nova […] e por meio dela Cristo nasceu.

Santo Irineu de Lyon († 202), outro grande defensor da ortodoxia cristã, também escreveu sobre Maria como a nova Eva que participou da obra salvífica de Cristo:

Assim como Eva, esposa de Adão, sendo ainda virgem, tornou-se por sua desobediência causa de morte para si e para toda a espécie humana, assim também Maria, desposada ainda virgem, tornou-se por sua obediência causa de salvação para si e para toda a humanidade […]. Dessa forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, pois aquilo que a virgem Eva atou por sua recusa em crer, desatou-o a Virgem Maria por sua fé. 

Mais tarde, Santo Ambrósio († 397) desenvolveu de modo mais profundo a compreensão cristã sobre a nova Eva:

Foi por meio de um homem e uma mulher que a carne [a humanidade] foi expulsa do Paraíso; foi por meio de uma virgem que a carne foi unida a Deus […]. Eva é chamada mãe da espécie humana, mas Maria foi mãe da salvação.

São Jerônimo († 420) resumiu de forma lapidar esse paralelo, ao escrever: “A morte entrou no mundo por meio de Eva; a vida, por meio de Maria”.

Além dessa compreensão sobre o papel de Maria na história da salvação, os primeiros séculos do cristianismo também nos proporcionam inúmeros exemplos de oração direta a Maria, como meio de intercessão para obter graças e a proteção de seu Filho.

Santo Irineu chamou Maria de “advogada” especial de Eva, que por meio da oração intercede pelo perdão e a salvação de sua antepassada, enquanto São Gregório Taumaturgo († 350) escreveu que Maria está no Céu rezando pelos que estão na terra.

Santo Efrém († 373), um dos maiores pregadores do Oriente, rezou diretamente a Maria em muitos de seus sermões, assim como São Gregório de Nazianzo († 389).

A partir da segunda metade do século IV, são abundantíssimos os exemplos de orações marianas, dos sermões de Santo Ambrósio aos de Santo Epifânio, Padre do oriente. A oração antiga mais completa a Maria remonta, porém, a um período ainda mais antigo: 250 d.C. É chamada de Sub tuum praesidium: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.”

Os primeiros cristãos sabiam que a mesma mulher que havia ninado o Menino Jesus, que o erguia quando caía e que segurou nos braços o seu corpo crucificado, também podia ajudá-los em suas próprias tribulações espirituais e temporais. Sua confiança e amor por Maria ficou mais do que evidente no ano 431, quando o Concílio de Éfeso — uma reunião oficial dos líderes da Igreja — defendeu formalmente o título de “Mãe de Deus”. Já havia catedrais dedicadas a ela em Roma, Jerusalém e Constantinopla, e depois do Concílio a devoção a Maria floresceu ainda mais no Oriente e no Ocidente. Orações, festas litúrgicas, ícones e pinturas marianas logo se espalharam por todo o mundo cristão. 

O lugar do Filho estava assegurado, sua Igreja estava estabelecida e fortalecida. Agora, as sementes da verdade sobre a sua mãe, sementes prefiguradas no Antigo Testamento, plantadas no Novo Testamento e cultivadas na Igreja antiga, finalmente poderiam frutificar. Nada do que havia surgido poderia diminuir, de modo algum, a verdade e a glória de Cristo. Em vez disso, os frutos da autêntica devoção mariana só poderiam mostrar de forma mais clara e bela as possibilidades oferecidas ao homem pela graça salvífica de Cristo.

Notas

  1. Para um estudo teológico sistemático, documentado e mais profundo dessa matéria, cf. “Tratado de la Madre del Redentor” in: Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. Barcelona: Editorial Herder, 1966, pp. 309-338 (Nota da Equipe CNP).

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“Nudes”: a intimidade que não nos pertence
Sociedade

“Nudes”:
a intimidade que não nos pertence

“Nudes”: a intimidade que não nos pertence

Até pouco tempo atrás, ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo. Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim...

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Há até pouco tempo, quando as pessoas ainda tinham um pingo de juízo (e amor-próprio), havia certo cuidado com a preservação da intimidade. Ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo, por razões óbvias.

Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim, e o que antes era reservado às relações entre quatro paredes agora virou de domínio público. Por exemplo, ninguém mais precisa recorrer a um filme indecente ou comprar revistas “adultas” para satisfazer a curiosidade malsã sobre o corpo alheio. Hoje, tanto as ditas “celebridades” quanto as pessoas comuns aderiram à cultura da nudez (ou dos nudes, como chamam), de modo que é quase impossível navegar pela internet sem deparar, aqui e ali, com algum seio despido ou coisa do gênero.

Os chamados “especialistas” deram a esse tipo de relacionamento o nome de sexting (sex + texting), ou seja, relacionar-se sexualmente por mensagens no celular. Mas, pontificam eles, não são só os parceiros sexuais que trocam fotos íntimas. Também amigos podem se “conhecer melhor”, com a diferença de que o objetivo, nesse caso, seria apenas uma “brincadeira” ou uma piada no meio de uma conversa séria; em outras palavras, um frexting (friend [amigo] + sexting).

Há ainda os que buscam alguma forma de libertação do corpo. Esses julgam que, postando fotos nuas na internet, sem qualquer edição, estão reivindicando respeito às suas formas e quebrando padrões de beleza. Trata-se talvez de uma “Marcha das Vadias” online.

Seja como for, a cultura dos nudes ganhou mais força nestes tempos de pandemia, inclusive com o respaldo de autoridades. A prefeitura de Nova Iorque, entre tantas outras, aconselhou os cidadãos da sua cidade a se masturbarem e procurarem “encontros por vídeo, sexting ou salas de bate-papo”. Para justificar a medida, os especialistas (sempre eles...) a defenderam como uma forma de “aliviar a tensão”, num movimento “natural” da sexualidade humana. Disse uma sexóloga numa entrevista: “A sexualidade é uma fonte de prazer importante para a vida humana e você pode obtê-lo sozinho, não precisa do outro. Num momento como esse, de isolamento, usar as ferramentas de tecnologia para essa busca é comum” (grifos nossos).

O fato é que essa moda tem causado sérias mudanças no comportamento sexual humano. Quando se interessam por alguém, os pretendentes não pensam mais em convidar o outro para sair ou em enviar flores e chocolates. O romance, o cavalheirismo, a delicadeza e a conquista saíram de cena. Afinal, se o que desejam unicamente é sexo, sexo é o que devem mostrar. E, graças à internet, essa relação nem precisa ser real: o que importa é conseguir prazer.

Em princípio, parece estranho que o ato humano que melhor expressa o vínculo de amor entre um homem e uma mulher seja reduzido a uma recreação virtual e egocêntrica. Mas, pensando em termos históricos, essa visão deturpada da sexualidade nada mais é do que a consumação de um movimento iniciado lá atrás, no Renascimento, quando o homem, assustado pela Peste Negra, descobriu no seu corpo um meio de autossatisfação. É o que relata o historiador Roland Mousnier: “A arte toma um caráter novo, o assunto principal é o homem, e no homem o belo corpo humano... Beleza do corpo humano, triunfo do homem em sua radiante força, horror ao sofrimento, à compaixão e à resignação” [1].

O Renascimento foi, em termos culturais, uma retomada da mentalidade pagã, na qual o ser humano é valorizado não pela sua pessoa, como na Idade Média, mas por suas glórias externas. Daí o surgimento da arte pornográfica como fuga das tensões e meio para exaltação do corpo. Com isso, os renascentistas julgavam fazer uma afirmação de si mesmos, colocando-se no centro das atenções, inaugurando uma nova religião: o humanismo. E assim saímos do Decamerão, de Boccaccio, para chegar ao sexting das redes sociais. Mutatis mutandis, o que há de comum entre uma coisa e outra é justamente a busca do prazer e a fuga da dor, ou seja, a valorização do homem pelo que lhe é exterior e, em consequência, o empobrecimento da capacidade humana de amar.

Esses efeitos negativos saltam aos olhos de qualquer um que esteja disposto a enxergar a verdade. Retratamos aqui há pouco tempo como a obsessão pela nudez, em nome de uma suposta arte, já causou estragos terríveis na vida de tantos artistas. “Depois de passar nove horas filmando cenas de sexo, fiquei tremendo, as lágrimas escorriam pelo meu rosto”, declarou Sienna Miller a respeito de sua atuação para o filme A lei da noite, de 2017. Mais recentemente, aliás, a atriz Dakota Johnson e o ator Jamie Dornan, protagonistas do filme Cinquenta tons de cinza, confessaram como era entediante gravar tantas cenas de sexo. Sim, porque nessas cenas, por mais “quentes” que elas pudessem parecer, não havia qualquer sentimento de amor, reciprocidade ou empatia envolvidos. E, sem isso, só resta mesmo o tédio.

O sexo, por si mesmo, para citar uma frase atribuída a Lord Chesterfield, resume-se a isto: “O prazer é momentâneo, a posição é ridícula e as despesas são exorbitantes”. Sem um sentido transcendente, sem os laços espirituais, a sexualidade acaba se convertendo num passatempo que, cedo ou tarde, perderá a graça como qualquer outro joguinho. Portanto, as pessoas podem até aliviar momentaneamente suas tensões com nudes, sextings ou frextings. Mas a única coisa que realmente obterão, no fim das contas, é uma exposição ridícula na internet e uma despesa exorbitante de tédio e frustração na alma.

Não é novidade que esse tipo de prática acabe envolvendo coisas ainda mais grotescas, que vão desde enviar uma imagem indecente para um programa de TV, causando a demissão de um apresentador, à divulgação de nudes não autorizados, seja de famosos, seja de anônimos, seja de menores de idade. O tédio gerado por relações sem amor só consegue produzir mais perversidade.

O problema de fundo é a velha doença da filáucia, o amor doentio de si mesmo, que leva ao desprezo de Deus e à construção da Babilônia. Buscando uma falsa felicidade, procurando aliviar suas tensões, os homens consentem em atos desonestos, tomando como elemento principal de sua natureza justamente os seus corpos e as suas paixões, aquilo que São Paulo chama de homem exterior. “Por onde”, ensina Santo Tomás, “não se conhecendo bem a si mesmos, a si mesmos não se amam verdadeiramente, mas amam-se pelo que se julgam ser” (STh II-II 25, 7). E se os homens se julgam apenas feras de carne e osso, animais selvagens que precisam saciar todos os seus impulsos, então a única coisa que poderão oferecer e receber é o amor de uma fera. Só aceitamos o amor que julgamos merecer.

O corpo (e, consequentemente, a sua sexualidade), por outro lado, é apenas um elemento do “composto” humano. A natureza espiritual é a dimensão mais importante, isto é, o homem interior. Nesse sentido, explica Santo Tomás, “os bons amam-se a si mesmos no concernente ao homem interior, por quererem conservá-lo na sua integridade. E lhe desejam os bens próprios dele, que são os espirituais; e também se esforçam para que os consiga” (loc. cit.). Nessa ordem, o Doutor Angélico esclarece que o corpo humano, porque foi criado por Deus, deve também ser amado com amor de caridade, pondo-o a serviço da virtude, conforme nos manda a Sagrada Escritura: “Oferecei os vossos membros a Deus como instrumento da justiça” (Rm 6, 13).

Mas se essa ordem é invertida, e o corpo se torna o objeto primeiro do amor humano, então, na verdade, não é a si mesmo que o homem ama, mas as suas paixões vergonhosas, que serão alimentadas pelos pecados. E esse amor carnal facilmente o conduzirá à morte, porque, como diz o salmista, “quem ama a iniquidade odeia a sua alma” (Sl 10, 6).

Basta pensar na quantidade imensa de sujeitos que, literalmente, se matam nas academias, enchendo os corpos de anabolizantes, ou em clínicas de cirurgia plástica, donde saem mais deformados que formosos, para vermos como esse ensinamento tradicional da Igreja não tem nada de moralismo ultrapassado. Trata-se, pelo contrário, da mais pura verdade sobre o ser humano.

Quando amamos alguma coisa de verdade e a valorizamos imensamente, quando temos um tesouro, por exemplo, nós costumamos guardá-lo a sete chaves, num cofre bem seguro ao qual só pessoas especiais têm acesso. E mesmo as joias caras, quando estão expostas, requerem todo cuidado, com segurança e iluminação especial. Apenas objetos de pouco valor são expostos em qualquer vitrine, sem nenhuma cerimônia ou deferência, para que qualquer um veja. Por isso, é impossível que da prática dos nudes, sexting, frexting et caterva alguém tire algo de bom para a própria dignidade, para a verdadeira realização de suas almas, porque não há amor ou respeito algum nisso. O que há, na verdade, é um profundo desprezo por Deus e um amor doentio pelo pecado. E o salário do pecado é um só: a morte.

É preciso pensar bem em tudo isso antes de sair por aí trocando nudes. Outro especialista [2] dizia que, no fundo, essa nova moda se deve a “um desejo de ser desejado, amado, confortado em tempos de incerteza e solidão que nos fragiliza e faz sentir mais vulneráveis, inclusive em termos afetivos”. Vemo-nos, portanto, na mesma encruzilhada dos tempos de Santo Agostinho: entre construir a Cidade de Deus, a Jerusalém celeste, ou a cidade dos homens exteriores, Babilônia. Já sabemos que tipo de amor cada uma tem a oferecer. Dependerá da nossa escolha a sorte da civilização pós-pandemia.

Notas

  1. Roland Mousnier. Le XVI et XVII siécles, Historie generale des civilizations. P.U.F., 1954, p. 30 (trad. de Gustavo Corção).
  2. As informações e citações deste artigo foram, em boa parte, retiradas dos jornais El País, G1 e UOL. Por conterem imagens e expressões bastante vulgares, no entanto, preferimos não apresentar diretamente os textos aqui.

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