Na semana passada, vimos que a Coleta do 4.º Domingo depois da Páscoa tem o objetivo de educar nossos afetos, pondo-os a serviço da “grande escola do amor” que é a Eucaristia. Nesta semana, observamos semelhante pedagogia nas orações do 5.º Domingo depois da Páscoa. Comecemos pela Coleta [i]:

Deus, a quo bona cuncta procédunt, largíre supplicíbus tuis: ut cogitémus, te inspirante, quæ recta sunt; et, te gubernante, éadem faciámus. Per Dóminum nostrum. — “Ó Deus, de quem todos os bens procedem; dai aos que vos suplicamos: pensar, por vós inspirados, o que é reto e, por vós dirigidos, fazê-lo [na prática]. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.

Trata-se de uma Coleta cheia de dinamismo. Todas as coisas procedem de Deus, o Espírito de Deus move os que lhe suplicam para que pensem em coisas corretas, e sua direção os move para que ajam retamente.

Os binômios inspiração–pensamento e direção–ação são coerentes. “Inspirar” (inspiro) quer dizer literalmente pôr em alguém sopro ou espírito (onde estão os pensamentos), ao passo que “dirigir” (guberno) significa literalmente pilotar uma embarcação ou conduzir de fora (onde residem as ações). Até nos poderíamos perguntar se a intenção é evocar uma imagem náutica: Deus sopra as velas (inspira) e assume o leme (dirige)… Em todo o caso, a petição final para fazermos o que é reto alinha-se com o tema da Epístola (cf. Tg 1,22-27): devemos pôr a Palavra em prática.

A Coleta é suplementada pela Pós-comunhão [ii]:

Tríbue nobis, Dómine, cælestis mensæ virtúte satiátis, et desideráre quæ recta sunt, et desideráta percípere. Per Dóminum nostrum. — “Dai-nos, Senhor, saciados pela virtude desta mesa celeste, desejar o que é reto e perceber o que desejamos. Por Nosso Senhor…”. 

Um paradoxo frequente das orações Pós-comunhão do rito romano tradicional é a descrição da Eucaristia como alimento que nos aumenta a fome. Vemos nisso um contraste entre saciedade e desejo: alimentados com a Eucaristia, pedimos fome do bem.

A petição também nos instrui a abordar as coisas retas. Na Coleta, pedimos a capacidade de pensar nelas e de as pôr em prática; aqui, pedimos que as desejemos e consigamos. Não são apenas as nossas inteligências e ações que devem ser retificadas, senão que nossos próprios corações devem apaixonar-se pelo que é reto, a fim de alcançarmos a felicidade.

É uma tentação comum pensar que a felicidade é simplesmente conseguir o que se deseja (se quiser uma boa casa, um bom carro e uma boa conta bancária e conseguir isso tudo, serei feliz). Essa perspectiva desconsidera um fator crucial. Como escreve Cícero:

Querer, com efeito, o que não convém, isso é de todos o mais miserável, nem tão miserável é não conseguires o que queres do que conseguir querer o que se não deve. Pois uma vontade depravada traz consigo mais mal do que os bens trazidos pela fortuna (Hortensius, frg. 39, cf. Agostinho, De Trinitate XIII, 5.8; De beata vita II, 10).

Ou, como diz sucintamente Santa Mônica quando Santo Agostinho lhe pergunta se são felizes todos os que conseguem o que desejam: 

Se é bom o que quer e deseja, é feliz; se, porém, quer o mau, embora o tenha, é miserável (Santo Agostinho, De vita beata II, 10).

A propósito, é oportuna uma lição sobre o que desejar e o que não desejar, pois imediatamente após o 5.º Domingo depois da Páscoa a Igreja observa as Rogações por três dias seguidos, período em que os fiéis pedem a Deus uma multidão de bênçãos e proteções. Mas — como diz o ditado — devemos ter cuidado com o que pedimos.

A Secreta, por sua vez, sem falar explicitamente do desejo ou das coisas retas, refere-se aos meios e aos efeitos de se desejar e conseguir o que é reto [iii].

Súscipe, Dómine, fidelium preces cum oblatiónibus hostiárum: ut per hæc piæ devotiónis offícia, ad cæléstem glóriam transeámus. Per Dóminum nostrum. — “Recebei, Senhor, as preces dos fiéis com as oblações das hóstias: a fim de que, por meio destes ofícios de piedosa devoção, alcancemos a glória celeste”.

A oração é rica em linguagem sacrificial: a palavra preces conota sacrifício [iv], assim como oblatio e hostia (oblação e vítima), obviamente. Officium, ou “ofício”, é no fundo o equivalente latino de “liturgia” [λειτουργία], serviço público oferecido em nome do povo. A Secreta vincula a liturgia sacrificial realizada na Terra à glória da liturgia celeste, e o pedido: “que alcancemos a glória celeste” pode ser lido como antecipação da festa da Ascensão, a qual celebra o trânsito de Nosso Senhor para a glória celeste, o que também nós queremos alcançar.

A glória é a recompensa por pensar, desejar e fazer o que é reto, e a glória celeste é a recompensa por pensar, desejar e fazer o que é reto aos olhos de Deus. Rezemos para que esse ofício litúrgico, escola de “piedosa devoção”, faça isso por nós.

Notas

  1. A análise do autor baseia-se no texto do rito antigo. Sobre isso, vale recordar o seguinte. Primeiro, o 5.º Domingo depois da Páscoa corresponde, no calendário atual, ao 6.º Domingo da Páscoa: como já dissemos noutra oportunidade, o calendário anterior à reforma de Paulo VI enfatizava a Páscoa e os domingos “depois” dela, enquanto o atual busca enfatizar o Tempo Pascal “com” os domingos nele incidentes. Segundo, esta oração Coleta, embora preservada na íntegra no rito novo, foi transferida para a Missa do 10.º Domingo do Tempo Comum (N.T.).
  2. Esta oração faz parte dos mais de 50% do Missal de 1962 completamente suprimidos pela reforma litúrgica (N.T.).
  3. Esta oração dita “Secreta” era feita em silêncio pelo padre, daí o nome que tinha na liturgia antiga. Agora ela é denominada de oração “Sobre as Oferendas”. Esta, em específico, é usada na liturgia atual no 7.º Domingo da Páscoa, na Terça-feira da 7.ª Semana da Páscoa e no 28.º Domingo do Tempo Comum (N.T.).
  4. Sr. Mary Pierre Ellebracht, Remarks on the Vocabulary of the Ancient Orations in the Missale Romanum (Dekker & Van de Vegt N.V.), 141.