Vinde todos, irmãos, e reconheçamos aquele que nos criou, Nosso Senhor Jesus Cristo, bom, clemente e misericordioso, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 33, 11). Vigiai todos e estai preparados, pois não sabeis a hora em que virá Nosso Senhor. Vinde, ouvi-o dizer: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 3, 2).

Se o juízo está às portas, irmãos, é necessário muita lágrima, muito gemido, muita oração, feita não só hoje ou amanhã, pois a oração é tesouro imperecível de todo bem, é porto que não conhece tormenta, é causa de tranquilidade, é remédio da alma. A prece é salmodia, é santificação da alma e do corpo; abre, em suma, as portas do Céu, levando a Deus todo homem, pequeno e grande, rico e pobre, e a quem reza diariamente com toda a alma faz maior do que os anjos.

Mas o que está na boca de muitos? “Sou pecador, sem esperança, coberto de vergonha… Não posso levantar os olhos ao Céu, pois tenho pecado muito por palavras, atos e pensamento. Vivi na impureza todos os dias e horas da minha vida. Com que rosto, com que confiança vou entrar na igreja? Como vou abrir minha boca, má e impura? Como vou mexer os lábios para rezar? Por quais de meus pecados vou pedir perdão a Deus primeiro?”

É assim, então, que professas palavras satânicas? Aprende: — A quem chamou Cristo quando veio à terra, os justos ou os pecadores? Assim diz Ele: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13) à penitência. 

“São Jerônimo penitente”, por Lorenzo Lotto.

“Sou pecador”, dizes, “como vou entrar na igreja para me tornar justo?” Dizes bem: “Sei, mas não faço. De que adianta, afinal?” E eu te digo outra vez: — Quer faças, quer não faças, só entra na igreja, ouve as divinas Escrituras, escuta a leitura. Bem sei que, se entrares na igreja e ouvires os divinos Evangelhos, os doutos Apóstolos e os Santos Padres, mesmo que tenhas coração de pedra e alma de selvagem, cedo ou tarde te hás de arrepender, e com facilidade.

És pecador? Entra na igreja, curva-te, chora, lamenta, soluça, derrama lágrimas. Pecaste? Confessa a Deus os teus pecados. Dize-lhe somente isto: “Pequei”. Dize-o a Deus, que tudo conhece antes que suceda; dize-o a Deus, que penetra os corações e os rins, mas dize-o aqui, para não seres acusado, com vexame, diante de milhares de anjos e de homens. Dize-me o que é melhor: confessar-se hoje na igreja, somente a Deus e a teu pai espiritual, ou ser publicamente acusado mais tarde, diante de tantas miríades? És pecador? Dize somente isso, não te peço outra coisa. Chora apenas. Que necessidade te impede? que tribulação? que custo? Qual é a dificuldade de dizer um simples “pequei”?

“É que tenho vergonha”. Miserável! Quando pecaste, não tiveste vergonha, mas quando deves fazer penitência para te salvares, aí a tens? Quando te deitaste com a meretriz e fizeste uma obra má, não te envergonhaste, e agora te envergonhas? Quando pecavas, quando fornicavas e cometias adultério, não tinhas vergonha, mas quando te queres arrepender e alcançar a salvação, aí te envergonhas? Quando roubavas, quando oprimias as viúvas e desprezavas os pobres, não te envergonhavas, e agora te envergonhas? Quando juravas pelo santíssimo nome de Deus; quando dizias falso testemunho; quando perjuravas; quando, enfim, perpetravas todo mal e todas as perversidades odiadas por Deus, não tinhas vergonhas, e agora a tens? 

Oh! Temos […] um tal Senhor, e no entanto fazemos pouco caso nem nos convertemos. Cristo adverte: “Não roubes, não forniques, não cometas adultério, não mates, não dês falso testemunho; honra teu pai e tua mãe, ama o próximo como a ti mesmo; sê humilde, bom, compassivo, paciente, sem rixa e pacífico, para seres digno do Reino dos céus”, e não há quem o entenda, ninguém que lhe obedeça, ninguém que lhe dê atenção.

O diabo incita ao contrário, dizendo: “Sê adúltero. Mata, perjura e rouba. Sê desumano, blasfemo, inclemente, duro e corrupto. Sê avaro. Odeia os homens, e até mesmo a Deus. Sê traiçoeiro, injusto, cúpido. Sê ladrão, maledicente, mentiroso, detrator, perjuro”, e sabemos quantos lhe obedecem fazendo tudo isso, pois corremos como servos de mãos e pés atados, submetidos à natureza [caída]. Eis que consumimos toda a nossa juventude na companhia de demônios! Eis-nos envelhecidos e habituados ao pecado! Não podemos fazer o bem para alcançar o Reino dos céus; o diabo, porém, nos oferece o fogo e o suplício eternos, e para lá corremos!

“Maria Madalena penitente”, por Carlo Dolci.

Que faremos contigo, homem? Que queres? que desejas? Estar com Cristo ou estar com os demônios? Queres estar com Cristo? Então põe fim de uma vez por todas aos prazeres e às volúpias, à fornicação, ao furto e à embriaguez; põe fim aos roubos, põe fim às irreverências, à mentira, ao orgulho. Que ninguém te engane, pois nenhum dos que são tais entrará no Reino dos céus. 

Mas se desejas estar com os demônios, se queres entrar na geena de fogo, faze o que bem entenderes, leva a vida que desejares; ninguém te proibiu. Escolhe para ti o mundo e suas torpes concupiscências, a fornicação, o adultério, a embriaguez, a intemperança e toda volúpia diabólica; ninguém te impede. Os Evangelhos, com efeito, não te persuadem, a Lei não te torna mais temperante, os profetas não te instruem, os Apóstolos não te dão pudor, os conselhos dos Padres não te ajudam, a companhia dos irmãos não te emenda… 

Tu te tornaste um completo sem-vergonha, e teu rosto tornou-se o de uma meretriz. Recebe pois o teu prêmio já em tua vida; mas lá, no dia em que Cristo vier, não esperes nem salvação nem herança. Já não terás mais tempo quando, nu e desamparado, te apresentares ao tribunal de Cristo, reduzido a espetáculo para os anjos e para os homens! Lá serás visto tal qual és, e serás acusado de toda a tua iniquidade; de Deus não se ri, então ouvirás aquela triste voz: “Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; aí haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 22, 13).

Ora, quem não houvera de chorar um tal homem? quem não houvera de deplorar o que, por um prazer passageiro, será atormentado eternamente? Não vos enganeis, de Deus não se ri! Está escrito: “Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os salteadores possuirão o Reino de Deus” (1Cor 6, 9s).

Tendo isso tudo em mente, irmãos, abstenhamo-nos de tais perversidades, e de todo o coração não deixemos a penitência para depois, a fim de escaparmos da ira futura e obtermos os bens celeste e ternos. Que todos nós os alcancemos, pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. — A Ele a glória, com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Referências

  • O texto acima é uma tradução da versão latina da homilia ‘Περὶ εὐχῆς’, ou Sobre a oração (MG 62,737–740 = de Montfaucon XI/2 [1838] 890ss), falsamente atribuída a São João Crisóstomo. O texto grego se encontra disponível aqui. — A tradução bíblica utilizada é a do Pe. Matos Soares, disponível aqui.