O que é Purgatório? Esta pergunta surge em praticamente todo tipo de catequese — seja oferecida aos que já estão na Igreja ou aos que estão em processo de adesão. Em sala de aula, um catequizando poderia ganhar pontos fáceis com seus colegas (embora provavelmente não com os professores) respondendo que a própria catequese é um purgatório. Com certeza foi assim que me senti no curso de iniciação cristã para adultos que fiz ao entrar na Igreja, e muitos outros também.

Uma metáfora.Há até um certo sentido em que a metáfora da catequese pode funcionar. A catequese muitas vezes envolve preparar-nos para um novo estado na vida — o estado de um comungante, o estado de um crismado, o estado de pertença à Igreja. O propósito do Purgatório é nos preparar para o Céu.

Em ambos os casos, há um processo para nos ajudar a superar coisas que nos impediriam de entrar no novo estado. A catequese está focada diretamente em ensinar a fé (a ignorância dela ou a descrença são incompatíveis com o novo estado da pessoa). Com isso, também somos encorajados a abandonar padrões de comportamento pecaminosos (que são incompatíveis com a fé). O Purgatório se concentra diretamente na remoção das consequências que ficam dos pecados que cometemos em vida (sendo estes incompatíveis com o estado do Céu). Pelo que sabemos, também pode desempenhar um papel de corrigir ideias errôneas sobre a fé que alguém inocentemente sustentou em vida (sendo também estas inconsistentes com o estado do Céu).

Em ambos os casos, o processo de preparação para o novo estado nem sempre é agradável. Embora tanto a catequese quanto o Purgatório possam envolver alegria (respectivamente, a alegria de descobrir a fé e a de saber com certeza que se estará no Céu), o abandono de crenças nocivas e maus hábitos não é prazeroso. Por esta razão, convém rezar pelos que estão se preparando para seu novo estadoseja na sala de aula ou no Purgatório.

Limites da metáfora. — Mas nenhuma metáfora deve ser sustentada além de seus limites, e há limites definidos para esta. Dois em particular vêm à mente: primeiro, porque Deus está diretamente no controle do Purgatório, ele sempre funciona. Todos que vão ao Purgatório acabam indo para o Céu e ficando totalmente preparados para isso. Com a catequese, essa garantia não existe. Os que estão na catequese podem não entrar no estado para o qual estão sendo preparados (podem abandonar o caminho) ou podem não ficar devidamente preparados para o estado, mesmo que nele entrem (por causa de uma catequese deficiente).

“Nossa Senhora com o Menino Jesus, São Nicolau de Tolentino e as Almas do Purgatório”, de Bartolomeo Guidobono.

Em segundo lugar, mais uma vez, porque Deus está diretamente no controle do Purgatório, qualquer desconforto sentido pelos que nele estão é resultado de suas próprias escolhas erradas. Com a catequese, essa garantia não existe. Os catequistas podem aumentar o desconforto de seus alunos de várias formas — deixando de explicar com precisão a fé católica; explicando-a com precisão, mas de maneira confusa; ou deixando de adaptar a apresentação que fazem da fé às necessidades e preocupações de seus alunos.

(Um exemplo particularmente imperdoável deste último é a prática, em muitas paróquias, de “nivelar” todos os alunos por meio de um programa completo de iniciação para adultos, independentemente de sua origem. Uma pessoa que viveu por anos como membro ativo, devoto e catequizado de outra comunidade cristã tem necessidades catequéticas bem diferentes das de uma pessoa que nunca viveu como cristã.)

Ao cumprir sua tarefa, os catequistas devem ter em mente a advertência de São Tiago: quem se dá ao ofício de ensinar será julgado mais severamente (cf. Tg 3, 1). Os catequistas devem transmitir a fé católica de maneira precisa, clara e adequada às necessidades de seus alunos.

Purgatório e protestantismo. — Para este fim, existe um grupo especial de pessoas que os catequistas encontrarão com frequência e para os quais o Purgatório é um assunto particularmente sensível: são os convertidos do protestantismo à fé católica [1].

Embora a seção sobre o Purgatório no Catecismo da Igreja Católica tenha apenas três parágrafos (§ 1030-1032), a doutrina se apresenta como algo bem maior na mente de muitos protestantes. Isso porque o assunto do Purgatório foi uma das doutrinas a que os reformadores protestantes mais se opuseram. Ela até encontrou lugar nas 95 Teses de Martinho Lutero, ao contrário de outros conceitos, como o da justificação. À medida que as igrejas estatais protestantes foram estabelecidas e iniciadas, a reeducação forçada da população católica assumiu um lugar de destaque na pregação popular.

Esse é o caso até hoje. Sempre que a Igreja Católica é criticada em círculos protestantes — especialmente nos conservadores —, a doutrina do Purgatório está quase invariavelmente entre as dez principais “doutrinas antibíblicas” das quais a Igreja Católica é acusada. Isso significa que, para muitos candidatos à recepção na Igreja Católica, o assunto do Purgatório será particularmente sensível — um assunto sobre o qual eles poderão ter ouvido muitas críticas.

Por isso, os catequistas devem ter um cuidado especial ao apresentar a doutrina do Purgatório. Pois é muito fácil, por não compreender as preocupações especiais que os ex-protestantes têm sobre o Purgatório, o catequista confirmar alguns de seus piores temores com relação à Igreja, por meio de uma apresentação descuidada do ensinamento católico. Ao falar do Purgatório, é preciso proceder com cuidado.

Alguns falsos princípios. — Claro, uma tentação à qual os catequistas não devem ceder — sabendo que os ex-protestantes podem ser resistentes à doutrina — é minimizá-la. Desejando que a doutrina não seja uma pedra de tropeço para seus alunos, os catequistas podem facilmente dizer: “Dos quase 3 mil parágrafos do Catecismo, apenas três são dedicados ao Purgatório. Esta é uma doutrina muito sem importância”. Alguns catequistas podem ser tentados a retratá-la como uma crença opcional ou (pior ainda) como “algo em que não acreditamos mais”. Ambas as abordagens estão erradas porque se baseiam em uma premissa falsa: que o Purgatório não faz parte da doutrina em que os católicos devem acreditar.

A seção no Catecismo sobre o Purgatório é suficiente para demonstrar falsa a alegação de que “não acreditamos mais nisso”. E, embora seja verdade que a doutrina do Purgatório não está nem perto do topo da “hierarquia das verdades”, ela é todavia uma verdade — e uma que o Magisterium propôs infalivelmente à fé dos católicos. Os Concílios de Florença e Trento definiram infalivelmente a existência do Purgatório como um artigo de fé, então esta não é uma crença opcional. E ela tem consequências práticas, pois os que estão cientes da realidade do Purgatório provavelmente tomarão medidas para evitá-lo ou diminuí-lo, tanto para si quanto para os outros.

Ensino versus especulação. — Outro erro ao discutir a doutrina do Purgatório é confundir o que a Igreja ensina a esse respeito com a forma através da qual esse ensino tem sido comumente elaborado. Existem muitos elementos nas explicações comuns do Purgatório que são, de fato, especulação teológica ou metáfora, e não ensino da Igreja [2].

O que a Igreja ensina é que há uma purificação que ocorre após a morte para todos os que morrem na amizade de Deus, mas que não foram suficientemente purificados para a glória do Céu. Essa purificação pode envolver algum tipo de dor ou desconforto. E os fiéis na terra podem ajudar os que estão sendo purificados — através de suas orações, por exemplo, e da Missa.

A maioria das coisas adicionais que se ouve sobre o Purgatório são especulações teológicas ou metáforas. Por exemplo, a ideia de que o Purgatório ocorre em um “lugar” especial na vida após a morte é uma matéria de especulação. Nós não sabemos disso. E, por falar nisso, não sabemos como os conceitos de “lugar” ou “espaço” funcionam na vida após a morte.

Da mesma forma, a discussão sobre indivíduos que passam algum tempo no Purgatório também deve ser entendida com nuances. Assim como não sabemos como o espaço funciona no estado intermediário entre a morte e a ressurreição, também não sabemos como o tempo funciona. A doutrina comum entre teólogos medievais, como Santo Tomás de Aquino, é que os mortos existem num estado em que compartilham algumas das propriedades do tempo e algumas das propriedades da eternidade, sem que seja idêntico, porém, tanto a uma quanto a outra. De nossa perspectiva neste mundo, limitada pelo tempo, o Purgatório pode ser instantâneo, tendo uma “duração” existencial ao invés de temporal.

A Igreja também não diz ser literalmente verdadeira a imagem do Purgatório como um fogo purificador. O Catecismo observa apenas que, “fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador” e enfatiza que essa purificação é “completamente distinta do castigo dos condenados” (§ 1031). Isso sugere uma reserva considerável em relação à imagem do fogo no Purgatório [3].

“Onde está isso na Bíblia?” — Uma das questões mais urgentes que um convertido do protestantismo provavelmente terá sobre o Purgatório é onde ele pode ser fundamentado na Bíblia. Há várias passagens que merecem ser mencionadas.

Uma das mais famosas está no Segundo Livro dos Macabeus (12, 32-45), onde lemos que Judas Macabeu rezou e fez com que fosse oferecido um sacrifício por alguns de seus homens, que foram mortos lutando pelo Senhor. Era o equivalente, hoje, a rezar pelos mortos e mandar que se celebre uma Missa por eles.

O texto é explícito ao dizer que Judas Macabeu rezou e ofereceu sacrifícios “para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido” (v. 42) e para que os soldados “mortos fossem livres de suas faltas” (v. 46). O pecado em questão era o de usar amuletos pagãos, embora eles estivessem lutando pela causa do Senhor — como um soldado católico na batalha usando supersticiosamente um ankh egípcio, um yin-yang taoísta ou outro símbolo não-cristão como amuleto da sorte. O texto observa que os homens caídos de Judá “morrem piedosamente” (v. 45), pois estavam lutando pelo Senhor; eles simplesmente o fizeram com uma mistura de superstição. Cometeram um pecado venial, embora fundamentalmente estivessem do lado certo.

O texto prevê, portanto, que alguém pode morrer em estado de graça, mas ainda assim carregar as consequências temporais (temporárias, não eternas) dos pecados. Também prevê que as ações dos vivos (oração e sacrifício) podem ajudar os que se encontram nessa condição. Por essa razão, a passagem traz uma demonstração particularmente útil dos princípios envolvidos nos ensinamentos e na prática da Igreja com relação ao Purgatório.

Tão útil, de fato, que os reformadores protestantes julgaram necessário excluir este livro da Bíblia como uma forma de minar o ensino e a prática da Igreja. Isso significa que alguns convertidos do protestantismo vão hesitar em apelar para essa passagem, pois ela não está nas Bíblias que eles estão acostumados a usar. Para isso, existem três respostas.

A primeira seria esclarecer que este livro foi incluído nas Escrituras desde o início da história cristã. O Segundo Livro dos Macabeus faz parte da Septuaginta (o Antigo Testamento grego), que é a versão da Escritura que os Apóstolos e outros autores do Novo Testamento citaram mais de 80% das vezes. Além disso, algumas passagens do Novo Testamento aludem especificamente a este livro (Hb 11, 35b, por exemplo, refere-se a 2Mc 7). Quando se reuniram os primeiros concílios, que determinaram o cânon das Escrituras (como o concílio de Roma em 382 d.C., o primeiro a tratar do assunto), II Macabeus foi incluído na lista de livros junto com todos os outros. Foi para evitar essa doutrina que os reformadores protestantes acharam necessário remover das Escrituras um livro que antes fôra quase universalmente homenageado.

O segundo ponto é que II Macabeus é um livro pré-cristão, judaico. Portanto, não é nenhuma surpresa descobrir que os judeus, hoje, rezam por seus entes queridos que partiram. Por quase um ano após a morte de um falecido, os judeus devotos rezam uma oração conhecida como o Kadish dos Enlutados (a “Bênção do Enlutado”), pela purificação de seus entes queridos. A crença no Purgatório — uma purificação póstuma — faz parte da verdadeira religião desde antes da época de Cristo! Os judeus a aceitam, os católicos a aceitam, os ortodoxos orientais a aceitam, as outras Igrejas orientais a aceitam. Apenas as comunidades protestantes, que surgiram nos últimos 500 anos, a questionam.

A terceira resposta é mostrar que existem várias passagens do Novo Testamento, além de II Macabeus, que apoiam a doutrina do Purgatório. Esses textos refletem o fato de que, mesmo que o pecado seja perdoado, consequências dolorosas ainda precisam ser enfrentadas após a morte, antes que o indivíduo entre definitivamente na glória do Céu. Incluem-se as passagens em que Jesus alude ao pecado que não será perdoado nem nesta vida nem na próxima (cf. Mt 12, 32), sugerindo que alguns podem ser perdoados na próxima vida; e o aviso de que, depois de enfrentar o julgamento de Deus, uma pessoa pode ser punida até ter “pago o último centavo” (Mt 5, 26), sugerindo que, depois de pagar o último centavo, ela não mais será mais punida.

Um dos textos mais claros relativos ao Purgatório é 1Cor 3, 12-15, onde São Paulo adverte que “o fogo provará o que vale o trabalho de cada um” (v. 13). Quando se realizar esta prova de fogo, “se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (vv. 14-15). Escapar através das chamas não é uma coisa prazerosa. Assim, o Apóstolo indica que é possível chegar ao Céu, mesmo não seja a leve a provação por que se passe após a morte.

Pode-se salientar também que estaremos totalmente livres do pecado quando estivermos com Deus no Céu. De fato, as Escrituras dizem, a respeito de Deus: “Vossos olhos são por demais puros para verem o mal, não podeis contemplar o sofrimento” (Hab 1, 13); e a respeito da cidade celestial: “Nela não entrará nada de profano” (Ap 21, 27). Visto que muitos (a maioria!) de nós ainda nos encontramos bastante impuros na hora da morte, isso significa que, entre a morte e a glória, deve haver uma purificação.

Santificação. — Esse reconhecimento abre uma via importante para tornar inteligível, à mente protestante, o conceito de Purgatório. Embora a teologia católica use com frequência os termos justificação e santificação de uma maneira ampla e parcialmente coincidente, a teologia evangélica costuma traçar uma linha nítida entre as duas. Quando isso é feito, afirma-se muitas vezes que a justificação se refere ao perdão dos pecados, enquanto a santificação se refere à purificação de nosso comportamento, para que não cometamos mais pecados. (Isso não está totalmente de acordo com o uso desses termos na Bíblia, mas isso é outro assunto.)

Devido a esse uso, é possível explicar o Purgatório em categorias familiares aos protestantes. Mesmo depois de termos sido perdoados, ainda existem tendências e consequências pecaminosas que precisam ser enfrentadas. Mesmo após a justificação, haverá santificação.

Visto que seremos totalmente santificados (santos) no Céu, se morrermos imperfeitamente santificados, devemos ter nossa santificação consumada antes de entrarmos na glória do Céu. Se essa mudança tem alguma duração ou se é instantânea (como será para os cristãos que estiverem vivos no último dia; cf. 1Cor 15, 51-53; 1Jo 3, 2), a Igreja não diz [4]. Diz apenas que a transformação ocorre e que seremos completamente santificados.

O Purgatório, então, pode ser visto como o último estágio da santificação, quer aconteça ao longo do “tempo” ou todo de uma vez. E isso responde a outra dificuldade protestante comum a respeito do Purgatório: a questão de saber se ele “prejudica” a obra de Cristo. Os próprios protestantes reconhecem que, enquanto o perdão é uma coisa instantânea, a santificação é um processo. Isso não diminui todavia a obra de Cristo, que é, de fato, fortalecida e possibilitada por essa obra. Embora os protestantes geralmente vejam a santificação como um processo e a obra de Cristo como instantânea, a morte de Jesus na cruz é a causa de nossa santificação.

A linha de fundo é esta: tudo é graça de Deus. Toda ela nos vem por causa da morte de Cristo. Sem Ele, estaríamos condenados, mas, por causa de seu amor por nós, podemos ser perdoados e santificados, seja de uma vez ou não.

Uma coisa permanece verdadeira: quando estivermos unidos a Deus no Céu, estaremos totalmente perdoados e santificados, ambas as coisas. Se morrermos com o primeiro, mas sem o segundo, Deus garantirá que recebamos o dom da santidade completa antes de estarmos com Ele na glória.

Notas

  1. O autor fala a partir dos Estados Unidos, de colonização protestante. Mas, considerando a expansão cada vez maior das seitas anticatólicas em nosso país, não se pode ignorar, também aqui, o impacto que podem ter as doutrinas mantidas exclusivamente pela Igreja Católica — como o Purgatório (N.T., bem como as próximas).
  2. Cf., v.g., Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7.ª ed. Barcelona: Herder, 1969, pp. 707ss.
  3. “À pena de dano [no purgatório] se acrescenta — segundo doutrina geral dos teólogos — a pena de sentido. Tendo em conta a passagem de 1Cor 3, 15, os Padres latinos, os escolásticos e muitos teólogos modernos supõem a existência de um fogo físico como instrumento externo de castigo. Mas notemos que as provas bíblicas aduzidas em favor desta sentença são insuficientes. Os concílios, em suas declarações oficiais, somente falam das penas do purgatório, não do fogo do purgatório. Fazem-no assim por consideração aos gregos separados, que rechaçam a existência do fogo purificador” (Ludwig Ott, op. cit., p. 710).
  4. Sobre “como serão purificados os justos que estejam vivos quando sobrevier o fim do mundo”, cf. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la salvación. Madrid: BAC, 1961, p. 442. Santo Tomás ensina a esse respeito que “poderão ser instantaneamente purificados os que estiverem vivos por ocasião da conflagração universal”. Entre outras razões, porque “pouco precisarão de ser purificados, depois de já o terem sido pelos terrores e perseguições precedentes” e porque “o calor desse fogo [da conflagração final] ganhará em intensidade o que perder pela abreviação do tempo” (Suppl. 74 8, ad 5).

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