Christopher Dawson (1889–1970), eminente historiador da cultura convertido ao catolicismo, desprezava a divisão da história secular e eclesiástica em três períodos: antigo, medieval e moderno. Para a história da Igreja, segundo seu erudito parecer, existem seis épocas, cada uma com duração de três ou quatro séculos. “Todas elas começam e terminam em crise”, escreve ele num de seus últimos livros, The Historic Reality of Christian Culture [“A realidade histórica da cultura cristã”, sem tradução no Brasil].
A partir do ponto de crise, cada período, exceto o primeiro, que vai de Pentecostes à conversão de Constantino, passa por três fases de crescimento e, depois, de decadência: intensa atividade espiritual e nascimento de novos apostolados, conquistas na Igreja e na cultura, ataques de inimigos internos e externos à Igreja, os quais degradam ou destroem essas conquistas.
Se estiver curioso sobre quais são as seis eras, recomendo a leitura deste livreto, incluído na íntegra em um maravilhoso volume de ensaios de Dawson editado por Gerald Russello. Por ora, merece especial atenção a sexta era descrita por Dawson, a qual começou com a crise da Revolução Francesa e continuava na época em que ele escreveu.
Dawson descreve os anos pós-Revolução como “uma atmosfera de derrota e desastre”:
Tudo teve de ser reconstruído a partir dos alicerces. As Ordens religiosas e os mosteiros, as universidades e faculdades católicas e, não menos importante, as missões estrangeiras foram todas destruídas ou reduzidas à miséria e à impotência. Pior ainda, a Igreja continuava sendo associada à impopular causa da reação política e à tradição do Antigo Regime.
Soa familiar?
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Segundo os critérios de Dawson, poderíamos considerar a crise pós-Vaticano II na vida, na teologia, na educação e na posição social da Igreja Católica como uma nova era da Igreja. O que aconteceu em 1789 aconteceu novamente na década de 1960, só que dessa vez os ataques vieram principalmente de inimigos internos.
A crise pós-conciliar provocou mudanças radicais em todos os aspectos da vida católica, a tal ponto que a Igreja parecia, para muitos, ter adentrado uma nova era. O teólogo Karl Rahner, que aparentemente não tinha lido Dawson, pensava assim: chamou o Concílio Vaticano II de alvorecer da terceira idade da Igreja.
Mas os critérios de Dawson para definir um período histórico distinto exigem que um certo tipo de mudança se siga à crise: uma resposta espiritual, acompanhada por novas iniciativas apostólicas, que reconduza a Igreja ao seu núcleo evangélico. Essas obras espirituais acabam por moldar o período, produzindo frutos eclesiais e culturais.
Embora não tão dramático quanto a obra de São Francisco ou a Contrarreforma, que impulsionaram épocas anteriores (pelo menos, não até agora), o espírito apostólico da futura sétima era da Igreja, que começou no Concílio Vaticano II, é marcado pelo que desejava o Concílio: um retorno às Sagradas Escrituras e à Tradição, utilizadas para unir os mundanos e os céticos a Cristo. A figura principal dessa nova era é o Papa São João Paulo II. Seu nome é Nova Evangelização.
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As obras apostólicas dessa nova época são físicas e virtuais, presenciais e online. Abrangem toda a gama da vida moderna: editoras, plataformas online, think tanks, institutos litúrgicos, renascimento da música e da arte sacras, escolas e universidades fiéis, novas comunidades religiosas que são tradicionais na essência e contemporâneas no estilo.
Neste início de uma nova era, ainda não podemos ver seus frutos. Mesmo em tempos de renovação, as ervas daninhas crescem junto com o trigo em todas as estações e em todos os solos. Dawson adverte que existe um intervalo de tempo entre a semeadura espiritual e a colheita cultural: “As conquistas espirituais de hoje encontram sua expressão social nas conquistas culturais de amanhã”.
Como estudioso de história que era, Dawson provavelmente hesitaria em identificar um novo período histórico enquanto estivesse vivendo nele. No entanto, uma vez que para os católicos “todas as épocas sucessivas da Igreja e todas as formas de cultura cristã são parte de um todo vivo, do qual ainda participamos como realidade contemporânea”, creio que Dawson nos perdoaria por querermos dar um nome ao nosso lugar na história. Nosso entusiasmo, energia e determinação atingem o auge quando enxergamos o tempo como o nosso tempo. Ao fazê-lo, cumprimos nossa vocação na história da salvação.
Essa é a maior história jamais contada. O grande contemporâneo de Dawson, J. R. R. Tolkien, expressou esse desejo de conhecer nossos papéis singulares em uma história mais grandiosa do que nós mesmos, enquanto Sam e Frodo sobem as escadas da Torre Negra (cf. As Duas Torres, capítulo 8).
Sam pergunta a Frodo: “Em que tipo de história teremos caído?”
“Não sei”, disse Frodo. “E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam”.
De repente, Sam percebe que Frodo e ele fazem parte da grande história que começou nos tempos mais remotos. “Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?”
“Não, [elas] nunca terminam como histórias”, disse Frodo. “Mas as pessoas nelas vêm e vão quando seu papel termina. Nosso papel vai terminar mais tarde — ou mais cedo.”
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Contribuir para a história da salvação, tal como narrada no sétimo capítulo, ou era, da Igreja, é a tarefa do discípulo católico de hoje. As eras subsequentes lerão o que construímos sem nunca saber nossos nomes. Ao desempenharmos nossos papéis em tempo real, acreditamos naturalmente que nossa época é a melhor e esperamos que nossas conquistas sejam as mais importantes da história.
Dawson e Tolkien sabiam muito bem disso. O servo não é maior que seu senhor. Na longa marcha da história, é a história de Cristo, e não a sua ou a minha, que faz a diferença verdadeira e duradoura no mundo. Portanto, apressemo-nos em desempenhar nossos pequenos papéis nesta sétima era, sabendo que, embora Cristo tenha escrito a história, Ele não a levará a cabo sem os nossos melhores esforços.

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