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Você picha Vieira, mas seu herói é o Che Guevara
Sociedade

Você picha Vieira,
mas seu herói é o Che Guevara

Você picha Vieira, mas seu herói é o Che Guevara

Se sobra spray para pichar o termo “descoloniza” na base da estátua do Padre Antônio Vieira, em Portugal, à colonização ideológica anticristã, à doutrinação comunista, nossas hordas pós-iluministas se rendem sem maiores problemas.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Até parece que o confinamento acabou. As ruas em muitos lugares do mundo ficaram cheias, e os veículos de comunicação, que antes não paravam de alardear a importância do distanciamento social (e de “ficar em casa”), de repente passaram a incentivar aglomerações sem pudor algum. 

Não que o coronavírus tenha deixado de circular e fazer vítimas. O que a mídia e as manifestações dos últimos dias dão a entender é que há ameaças maiores: são os fantasmas dos mortos, ou melhor, as estátuas deles

Nos Estados Unidos, os alvos foram monumentos dedicados a personalidades supostamente escravocratas, como Cristóvão Colombo; mas em Portugal foi uma estátua do Padre Antônio Vieira e, na Espanha, nada menos que uma escultura do Sagrado Coração de Jesus.

Estátua do Pe. Vieira, vandalizada em Lisboa.

Pegando emprestada essa triste imagem de demolição — sem dúvida, a mais lamentável de todas as noticiadas —, ousamos dizer o que está em xeque aqui é o próprio coração da civilização cristã, do que se costumava chamar “cristandade” — ou o que quer que dela tenha restado.

Como chegamos a esse triste estado de coisas, é uma pergunta para a qual várias respostas já foram elaboradas, passadas ao papel e até transformadas em livros. Está muito longe de nossa pretensão, evidentemente, esgotar essa discussão. Mas, se pudéssemos encurtar uma história que já leva séculos, poderíamos dizer, com muita simplicidade, que só estamos colhendo os frutos de nossa educação secular anticristã.

Sim, muitos dos manifestantes que saíram às ruas nos últimos dias denominam-se “antifascistas”. Mas, na falta de um Mussolini, alguém imagina que é a esmo que eles derrubam um colonizador europeu, picham um evangelizador católico e chegam a decapitar o próprio Jesus Cristo? 

Ninguém se engane, nada disso é aleatório. Anos de doutrinação ideológica geraram o que estamos vendo agora: um ódio visceral à fé cristã e a tudo o que ela construiu ao longo de dois milênios. Quem já não ouviu, por exemplo, que “o evolucionismo desbancou Deus”, que “a Igreja matou milhares na Inquisição e nas Cruzadas” e que “os europeus só vieram à América para saquear e escravizar”? Essas são, grosso modo, as mentiras maiores que nossas crianças e adolescentes aprendem nas escolas, mas no meio delas há muitas outras, menores, desde “pedacinhos no céu” que a Igreja vendia com as indulgências, passando por uma tal de Joana que teria sido eleita “papisa”, até gatos esfolados e mortos, com selo pontifício e tudo.

Os agentes de desinformação que passam essas histórias adiante são, eles mesmos, as primeiras vítimas da ignorância, mas nem por isso deixam de ter sua parcela de responsabilidade. A diferença é que esse tipo de fake news e “discurso de ódio” (para usar duas expressões correntes) o establishment não tem interesse algum em coibir. Muito pelo contrário.

A ideia de que a Igreja Católica aprovou e incentivou a escravidão dos negros, v.g., voltou a ser repetida nesses dias, como explicação para o vandalismo contra a estátua de Vieira em Portugal. Fomos atrás dos sermões a que seus detratores costumam se referir para o acusar de “racismo escravagista”, e deparamos, ao contrário, com o seguinte.

Primeiro, Nosso Senhor morreu para salvar a todos, inclusive os negros; eles são, portanto, filhos da Cruz e de Nossa Senhora:

Vós os Pretos, que tão humilde figura fazeis no mundo, e na estimação dos homens; por vosso próprio nome, e por vossa própria nação, estais escritos, e matriculados nos livros de Deus, e nas Sagradas Escrituras; e não com menos título, nem com menos foro, que de filhos da Mãe do mesmo Deus [...]. “Aos etíopes não enjeita a formosa Virgem, mas abraça-os como a pequeninos amando-os como filhos. Saibam pois que não desdenha ser chamada mãe pelos etíopes aquela que é Mãe do Altíssimo” (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XIV, 5).

Segundo, a escravidão é um fato deplorável: 

Os Israelitas atravessaram o Mar Vermelho, e passaram da África à Ásia, fugindo do cativeiro: estes atravessaram o Mar Oceano na sua maior largura, e passam da mesma África à América para viver, e morrer cativos. Infelix genus hominum (disse bem deles Mafeu) et ad servitutem natum, “Infeliz raça de homens, nascida para a servidão”. Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam, e tecem as mulheres, se fazem os comércios; naquela o que geram os pais, e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende, e se compra. Oh trato desumano, em que a mercancia são os homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das Almas alheias, e os riscos são das próprias (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 1)!

Terceiro, os escravos devem desobedecer a seus senhores, se eles lhes mandarem que façam coisas injustas:

Se o Senhor mandasse ao Escravo, ou quisesse da Escrava, coisa que ofenda gravemente a Alma, e a consciência; assim como ele o não pode querer, nem mandar, assim o Escravo é obrigado a não obedecer (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 3).

Quarto, os senhores e feitores que forem cruéis com seus escravos estão sujeitos à ira divina:

Qui in captivitatem duxerit, in captivitatem vadet (Ap 13, 10), “Todo aquele que cativar será Cativo”. Olhai para os dois polos do Brasil, o do Norte, e o do Sul, e vede se houve jamais Babilónia, nem Egito no mundo, em que tantos milhares de Cativeiros se fizessem, cativando-se os que fez livres a Natureza, sem mais Direito, que a violência, nem mais causa, que a cobiça, e vendendo-se por Escravos. Um só homem livre cativaram os Irmãos de José, quando o venderam aos Ismaelitas para o Egito; e em pena deste só cativeiro, cativou Deus no mesmo Egito a toda a geração, e descendentes dos que o cativaram, em número de Seiscentos mil, e por espaço de quatrocentos anos [...].

Estão açoutando cruelmente o miserável Escravo, e ele gritando a cada açoite, “Jesu, Maria, Jesu, Maria”, sem bastar a reverência destes dois nomes, para moverem à piedade um homem, que se chama Cristão. E como queres que te ouçam na hora da morte estes dois nomes, quando chamares por eles? Mas estes clamores, que vós não ouvis, sabei que Deus os ouve; e já que não têm valia para com o vosso coração, a terão sem dúvida sem remédio para vosso castigo (Sermões de Nossa Senhora do Rosário, XXVII, 8).

Obviamente, o Pe. Antônio Vieira não era ativista social; como sacerdote católico, suas preocupações não eram meramente políticas, mas morais e espirituais. Além disso, quase 400 anos nos separam, e seria grande anacronismo julgar uma personagem tão distante no passado com as lentes do presente.

Mas o problema aqui é muito maior do que uma simples descontextualização da história. No fundo, não importa se a Igreja (e Vieira com ela) tivesse ou não favorecido a escravidão. (Para remediar essa ignorância, bastaria ler um artigo esclarecedor na internet ou a carta In Supremo, do Papa Gregório XVI — que não só reitera a condenação da Igreja ao escravagismo, como mostra, ao longo da história, que esse instituto desapareceu entre nós com o florescer da cristandade, e só tornou a ganhar força com o renascer do paganismo.)

Estátua do S. Coração vandalizada em La Roda de Andalucía, província espanhola de Sevilha.

A questão de fato é cultural: nossos ideólogos não podem aceitar que os pregadores católicos, ao invés de deixar os indígenas americanos e os negros africanos em suas religiões, procurassem batizá-los e ensinar-lhes a fé cristã. O chilique não é com a escravidão; é com a colonização católica. Muito antes de Vieira e Anchieta, o problema são os Apóstolos. Vendo a estátua do Sagrado Coração sem cabeça, em Sevilha, podemos dizer ainda mais: o problema começa quando o próprio Deus cruza os abismos para fazer-se homem em Jesus Cristo. A modernidade até se dispõe a aceitar um Jesus “paz e amor”, um Jesus “iluminado”, um Jesus light; mas um Jesus que ensina, e que manda os seus discípulos saírem pelo mundo inteiro convertendo e batizando as pessoas (cf. Mt 28, 19–20), mudando-lhes a cabeça e transformando-lhes os costumes, esse Jesus é tudo o que a nossa sociedade relativista não pode tolerar.

Com a Igreja hoje acontece a mesmíssima coisa. O mundo está disposto a aceitar padres, missionários e leigos que façam uma obra filantrópica e social por onde passem… Mas ai de quem ensinar que a homossexualidade é pecado, ou ousar batizar um índio (ainda que com o consentimento dele): poderá ser denunciado pelo Ministério Público!

A regra é que os cristãos de verdade se sintam acuados e intimidados. O vandalismo a monumentos de figuras importantes da cristandade não é sem causa: eles atingem a “democracia dos mortos” para ameaçar os representantes vivos dela. Por isso, se um cristão estiver alinhado às ideias da moda, se empunhar a bandeira dos movimentos do momento — em outras palavras, se ele for um “cristão vendido” —, não há o que temer. Mas se ele ousar ler e aceitar os escritos dos santos antigos, os Sermões de Vieira ou os Evangelhos de Cristo (sem aquelas notas de rodapé que distorcem tudo), ele está em risco.

Pois o alvo, como já dito, é a colonização católica, a Igreja docente tradicional, os cristãos que ensinam. É inclusive com certa carga pejorativa que se usa, a esse respeito, os termos doutrinar e doutrinação. Contra ela, as hordas pós-iluministas se insurgem autodenominando-se “críticas” e “questionadoras”. Mas enquanto sobra spray para pichar o termo “descoloniza” na base da estátua de um célebre padre católico, à colonização ideológica anticristã, à doutrinação comunista, elas se rendem sem maiores problemas. São os jovens que picham Vieira sem nunca o haver lido, ao mesmo tempo que ostentam, orgulhosos, faixas socialistas e camisetas do Che Guevara.

É como dizia Chesterton: quem deixa de acreditar no Deus verdadeiro passa a acreditar em qualquer coisa. A consequência de termos substituído a velha instrução no seio da família e da Igreja pela educação secularista do Anticristo foi que, agora, temos um punhado de ateus que acreditam piamente nas mais estapafúrdias mentiras que lhes contam. Assim: 

  • numa sociedade que deixou de acreditar em Deus, Pai comum de todos os homens, não surpreende que ressurja com força o culto ridículo à própria “raça”: daí os supremacistas brancos e os movimentos negros radicais; 
  • numa sociedade que deixou de cultuar o Cristo, Deus feito homem, e a Virgem Maria, mulher e mãe de Deus, não surpreende que as dificuldades entre os sexos sejam potencializadas e transformadas em uma verdadeira guerra, com feminismos e feminicídios; 
  • numa sociedade que abandonou a fé na vida eterna, não surpreende que a meta tenha se tornado construir um paraíso aqui na terra: o comunismo, ou simplesmente um “mundo melhor”, uma “sociedade sem classes”, uma “terra sem males” etc;
  • numa sociedade que abandonou a sadia antropologia cristã, não surpreende que surjam aberrações como a ideologia de gênero, segundo a qual não passamos de pessoas aprisionadas num invólucro sexuado aleatório.

Em suma, ao lado do trabalho de desconstrução da verdade católica, caminha sempre a adesão às mentiras desse mundo. É uma filiação que tem preço, e nós infelizmente já o estamos pagando.

Do Sagrado Coração de Jesus, dois mil anos atrás, jorrou um rio de sangue e água, que por muito tempo saciou a humanidade e transformou a terra num lugar muito melhor de se viver. Homens e mulheres de todas as tribos, línguas e nações, unidos num só batismo, no ato de trabalhar por sua salvação eterna construíram uma civilização de que os antigos povos pagãos jamais foram capazes

Hoje, por obra de inúmeros anticristos que se levantam aqui e acolá, esse edifício está abalado e ameaça ruir. Mas, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, como disse o Senhor; se Ele é fiel às suas promessas, como sabemos que é; e se “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus”, a única coisa que os católicos devemos temer é a nossa própria covardia

Andemos, pois, sempre desconfiados de nós mesmos, voltemos a empunhar as armas espirituais que a Igreja desde sempre nos inculcou e mantenhamo-nos unidos a Cristo. Assim como Pedro foi instado a guardar sua espada na bainha, não caiamos na tentação de usar, na guerra em que estamos, as mesmas armas sujas de que se servem os inimigos: se eles trapaceiam, sejamos honestos; se eles mentem e difamam, sejamos verdadeiros; se eles odeiam, amemos. “O nosso dever não é vencer o mundo, ainda que seja por Cristo: o nosso dever é salvar a própria alma”, disse Henri de Lubac. “A nossa missão não é fazer a verdade triunfar, mas dar testemunho dela”.

Foi o que fizeram os santos, foi o que fizeram os mortos cuja memória temos a honra de venerar. E isso nos basta.

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Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança
Santos & Mártires

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mas é coisa de criança

Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança

Os últimos dias terrenos de Santo Tomás de Aquino, o maior Doutor que a Igreja já teve, foram marcados por uma fé semelhante à dos pequeninos — experiência mística que o transformou justamente no dia de São Nicolau.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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No dia 6 de dezembro de 1273, festa de S. Nicolau de Mira, S. Tomás de Aquino, o maior intelectual que a Igreja Católica já conheceu, passou por uma experiência mística transformadora, que o impossibilitou de dar sequência a seus projetos teológicos e, de fato, marcou o início do fim de sua carreira. Ele morreria três meses depois, na companhia dos monges cistercienses de Fossanova, em 7 de março, que continua a ser o dia tradicional de sua festa. Os cristãos que sabem que toda circunstância, grande ou pequena, é prevista pela divina Providência, podem razoavelmente perguntar: por que chegou o Doutor Angélico ao ápice de sua vida na festa de um santo cujos presentes de padroeiro são dados a criancinhas todo Natal?

Há uma resposta implícita nos relatos dos últimos dias de Tomás — relatos que são, nas palavras do Pe. John Saward, “tocantes de ler”: 

O homem grande e pesado, tão silente e sossegado quanto um bebê a adormecer; o doutor, enfim, sem sua pena de escrever. Pode-se ver Tomás e Reginaldo juntos: o amigo ansioso, mas enfim resignado, e o santo absorvido em contemplar a beleza de Deus. Do “testemunho fidedigno” de Reginaldo aprendemos que a última confissão de Tomás foi como a de um “menino de cinco anos de idade”, o que sugere não apenas a pureza própria da infância, mas também aquela inocente confiança que o Senhor aconselhou, por revelar seus mistérios não aos entendidos, mas aos pequeninos.

No inverno da peregrinação desta vida, na noite gélida da qual parece infinitamente distante o verão eterno do Céu, Deus vem com sua luz e calor para os homens e mulheres que são, em seus corações, pequenas crianças, dependendo dele e confiando nele seja qual for o clima que a estação ofereça. As riquezas de seu amor paternal, Deus as distribui com mais abundância sobre os pequenos, os quais, com seus olhos de maravilhamento, sua confiança confiante, seu fluxo interminável de perguntas, sua alegria inocente, atraem o divino olhar.

O Pe. Brian Davies escreve que S. Tomás

vai de questão em questão com uma ansiedade de tirar o fôlego. Ele está a todo momento perguntando “Por quê?” ou “O quê?” Pode-se dizer inclusive que todo o sistema do Aquinate repousa sobre uma questão. […] Deus, para ele, é uma resposta à perplexidade (admiratio), uma resposta que nos deixa com ainda mais perguntas que fazer.
Vitral retratando S. Tomás no mosteiro franciscano da capital dos EUA, Washington.

Que coisa pode haver mais típica de uma criança normal do que esse fluxo de perguntas que só se esgota quando os adultos perdem a paciência ou não sabem mais o que dizer? O exemplo de uma criança confiante e curiosa, que “pede, procura e bate”, é ao mesmo tempo o ponto de partida para a descoberta de Deus e o ponto de chegada ao Reino dos céus, onde quem pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate à porta, esta se lhe abre.

O Pe. John Saward de novo comenta: “No exercício de sua ciência, bem como na sua conduta de vida, o teólogo deve converter-se e tornar-se como uma criança, recuperando e preservando um senso de espanto diante da grandeza do que Deus revelou em seu Filho”.

O Salvador sela sua aliança nupcial com o puro de coração que busca o único necessário. Ser teólogo é apaixonar-se pela verdade de Deus, entregar-se com confiança e humildade a essa verdade que se antecipa a cada passo que vamos dar. O Pe. Thomas Gilby nos lembra da presença pessoal que dá à teologia o seu próprio significado: “A Palavra e o Espírito de Amor são enviados a nós, e todas as palavras da ciência da fé e afeições no seio da amizade divina são como que muitos ecos e refrações da sua presença”. O modelo e cumprimento da teologia é a visão beatífica — uma visão do infinitamente grande pelo infinitamente pequeno; do Criador que é Pai pela criatura que lhe é filha; do Salvador que é o Esposo pelo santo que o desposa.

O Pe. Martin Grabmann, biógrafo de S. Tomás, tenta pôr em palavras esta “teologia dos bem-aventurados”:

Seu conhecimento e amor totais estão ordenados em um ato contínuo e incessante em direção a Deus, divino Amor desvelado que eles contemplam face a face. Toda a sua vida e atividade são um êxtase eterno, bem-aventurado e inefavelmente brilhante de amor neste ver, desfrutar e abraçar o infinito Deus uno e trino.

Em seus sermões sobre o Credo Apostólico (a. 12), S. Tomás define a vida eterna como a união definitiva do homem com Deus, e isso significa ver Deus face a face, dar a Ele o perfeito louvor, gozar a satisfação superabundante de todo desejo e um deleite inimaginável: “conheceremos todas as naturezas das coisas, todas as verdades e tudo o que quisermos, e ali possuiremos tudo o que quisermos possuir”. A vida eterna traz consigo, além disso, a segurança perfeita, sem tristeza, trabalho ou temor, e a agradável companhia de todos os bem-aventurados: “De maneira que tanto aumente a alegria e o gozo de um quanto é o gozo de todos”.

Este é o paraíso que S. Nicolau de Bari alcançou pela prática da misericórdia, da humildade e da fidelidade que Deus derramou em seu coração. Este é o paraíso que S. Tomás de Aquino alcançou pela vivência das mesmas virtudes. Ambos se tornaram, cada um no tempo devido, grandes santos e sábios pregadores; mas só chegaram a isso depois de se tornarem pequeninos e loucos por causa de Cristo. Possamos nós, fazendo o mesmo aqui e agora, associar-nos a estes bem-aventurados em sua felicidade sem fim.

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Três coisas que as feministas esconderam de você
Família

Três coisas que
as feministas esconderam de você

Três coisas que as feministas esconderam de você

Se você é uma jovem mulher, concluindo seus estudos superiores ou prestes a entrar no mercado de trabalho, eis aqui três coisas sobre carreira que as feministas (e, com elas, toda a nossa cultura) fazem questão que você não saiba.

Jennifer BrysonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Contei recentemente, a um jovem solteiro de futuro, o conselho de carreira que costumo dar a jovens mulheres. Ele perguntou-me se eu poderia partilhar meu conselho com uma jovem mulher na qual ele está interessado. Eis aqui o meu conselho.

Prezada Joana,

Parabéns por sua graduação na faculdade. Você provavelmente pensa que o próximo passo é a carreira.

Este é o meu conselho profissional: a coisa mais importante que você pode fazer em sua vida, neste momento, é se casar e ter filhos. Para os católicos, eu ainda acrescentaria que é necessário discernir se o chamado é para a vida matrimonial ou religiosa. 

“Mas espere!”, dirá você. “Quero um conselho sobre carreira profissional”. 

Permita-me explicar.

Tal como os meus estudos em Stanford e Yale, seu curso universitário estava preparando você para ter uma carreira, não para ser uma pessoa humana (tal é a situação deplorável de boa parte da educação moderna). Você precisa fazer o seguinte: dar um passo atrás em sua educação universitária e refletir sobre o que significa ser humana — em seu caso, o que significa ser uma mulher.

Não confunda carreira com vocação. Carreira é, no melhor dos casos, algo que se encaixa na sua vocação, ou talvez apenas um conceito moderno vago. Seja como for, uma carreira não é um percurso de vida autossuficiente. Por isso, você precisa levar a sério o seu discernimento vocacional em vez de focar numa carreira. Na verdade, o tempo de Deus não é o nosso. Mas não se distraia com a ilusão de que uma carreira é uma vocação; não é. Não reforce sua busca por uma carreira, transformando assim a busca pela vocação numa reflexão tardia da qual você se ocupará “algum dia”. 

Estão diante de nós dois fatos fundamentais: seu corpo foi feito para gerar e educar filhos agora — não daqui a dez anos, mas agora —, e Deus criou você como ser humano, não como um autômato que procura uma carreira. Deus criou você e a ama tanto, que enviou seu único Filho para morrer por você; além disso, Ele explicou o que quer que você (na verdade, cada um de nós) faça com esta aventura da existência humana. Primeiro, “amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5); segundo, “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12, 31).

Isso significa que Deus chama cada um de nós à santidade. Nossa tradição católica nos dá dois caminhos principais para nos ajudar nisso: a vida religiosa e o sacramento do Matrimônio. Então, dentro de cada uma delas vem o discernimento de um caminho particular com uma comunidade integrada, a fim de podermos ajudar uns aos outros a permanecer focados no amor vertical de Deus e também exercitar diariamente o chamado horizontal para amar o próximo.

Como explicou Mary Cuff, “não existe vocação para a ‘vida de solteiro’”. Não acredito que Deus queira você errando sozinha por aí. Ao mesmo tempo, porém, é improvável que sua vocação simplesmente bata um dia à sua porta. Você precisará ser consciente e ter uma postura ativa de abrir o seu coração e a sua vida para isso.

Se a sua vocação é casar-se, tome como prioridade conhecer um homem com quem possa se casar. Agora. Não depois de seu próximo diploma ou de seu próximo emprego. Agora. Isso significa estruturar sua vida em torno dessa prioridade. Não busque uma carreira e suponha que o Sr. Certinho simplesmente aparecerá no meio do caminho. No Ocidente, as estruturas sociais que nos ajudavam a conhecer esposos estão danificadas ou inclusive desapareceram. Portanto, você deve ser proativa e criativa para compensar esses “tecidos conectivos” há muito desaparecidos. Conte para sua família e seus amigos que você quer se casar. Deixe que lhe apresentem pessoas (e não os repreenda quando um encontro arranjado for menos do que “espetacular”). Escolha onde morar levando em consideração o local onde houver maior probabilidade de conhecer homens qualificados. Reze e deixe que Deus forme a sua alma. Invista tempo em formação sobre o Matrimônio sacramental e seu verdadeiro sentido; você não aprenderá o que é o Matrimônio por osmose a partir do que é considerado casamento na cultura ocidental contemporânea. 

Agora, permita-me contar-lhe três segredos que as feministas não querem que você saiba.

“Alice no País das Maravilhas”, de George Dunlop Leslie.

Primeiro: não há problema algum em ser feminina. As feministas passaram décadas tentando aniquilar os nossos instintos mais básicos. Mas a realidade continua se impondo, e nós não devemos fugir dela. Nas histórias bem-sucedidas que eu escuto hoje, de mulheres que se casaram, é comum os homens falarem da alegria de ter conhecido uma mulher “amável” e “carinhosa” — noções que deixam as feministas em polvorosa. (Um alerta: cabe não confundir isso com paquera no escritório, algo que só estimula uma competição entre as mulheres para chamar a atenção dos homens, enviando a eles sinais confusos e inapropriados.)

Segundo: as feministas querem que você busque uma carreira só para que possam usá-la na promoção da própria agenda. Na busca das feministas pelo poder e autonomia das mulheres, é conveniente que elas tenham o maior número possível de mulheres no trabalho. Isso permite que elas insistam em sua busca fantasiosa pela imposição da paridade salarial, ou mesmo pelo domínio feminino nas instituições e profissões. Além disso, quanto maior for o número de mulheres no mercado de trabalho, maior será o número de futuras candidatas aos postos de chefia. As feministas não se importam com você. Elas apenas querem usá-la como bucha de canhão em sua tentativa de quebrar telhados de vidro.

Se você comprar o mito feminista da “carreira acima de tudo”, poderá ser elogiada por algumas de suas conquistas mundanas; mas, quando você morrer e se encontrar com seu Criador, essas coisas serão irrelevantes. Porém, no plano de recrutamento das feministas, elas retratam a carreira para meninas e jovens como um arco que passa por sucessivos momentos de glória. Sem dúvida, alguns empregos são relevantes em certos momentos, mas eles são a exceção, não a regra. A maioria dos chefes capitalistas e burocráticos quer apenas usar seu trabalho para seus próprios fins; em geral, você só encontrará trabalhos pesados em empregos medianos e o estresse causado pela dinâmica disfuncional presente nos escritórios, além de viver e envelhecer sozinha com o passar das décadas.

É óbvio que as mulheres podem contribuir (e de fato o fazem) profusamente para a vida pública. Palmas para isso! Mas as carreiras precisam servir à nossa vocação. Se invertermos as nossas prioridades, a carreira nos fará desviar de nossa vocação. Descubra sua vocação primeiro e então submeta a carreira a ela. Se Deus a chama ao Matrimônio e à maternidade, você pode buscar uma graduação e um desenvolvimento profissional posteriormente; pode inclusive fazer essas coisas em meio período enquanto os filhos são pequenos.

Isso me leva ao terceiro segredo que as feministas não querem que você conheça: a maternidade é um caminho nobre e honroso na vida.

Meu conselho sobre carreira profissional é o seguinte: você é chamada a algo muito maior que uma carreira. Se você tiver vocação para a vida religiosa, descubra onde essa vocação se desenvolverá. Se você ficar em casa de braços cruzados e pensando: “Um dia…”, não chegará a lugar algum. Se tiver vocação para o casamento, procure um marido que tenha uma compreensão sacramental do Matrimônio; que queira ajudar você a trilhar seu caminho vocacional de amor a Deus e ao próximo; e que quererá, também ele, viver a própria vocação de amar a Deus, Nosso Senhor, e ao próximo — vocação que começa com ele amando você.

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O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”
Liturgia

O Ofício Divino
e suas “repetições inúteis”

O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”

A liturgia e os Salmos estão repletos de repetições, mas seriam elas por acaso? Quem implora não deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, com insistência? Não é esta a origem do Pai-nosso e também das ladainhas?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Desde que eu li pela primeira vez as palavras da Sacrosanctum Concilium, n. 34, sobre como “repetições inúteis” (repetitiones inutiles) precisavam ser removidas da liturgia romana tradicional, tenho estado à procura de exemplos de repetição, seja ao rezar o antigo Ofício Divino — ou, para ser mais preciso, o ofício monástico tal como ele era na década de 1940 —, seja ao participar da Missa no usus antiquior, seja ao receber e observar outros sacramentos no rito antigo. Depois de mais de vinte anos de observação e reflexão, eu ainda não fui capaz de encontrar um único exemplo de repetitio inutilis [1]. 

Sim, sim, eu conheço os exemplos que as pessoas gostam de soltar e, em minha juventude tola, eu faria o mesmo. Soa elegante criticar as práticas litúrgicas que duram há séculos: “Sabe, esses pobres católicos eram tão conservadores que simplesmente mantinham esses costumes irracionais em voga, ainda que agora nós vejamos claramente que eles não fazem sentido algum. Muito melhor é otimizar o rito, torná-lo mais lógico”.

Esse ponto de vista juvenil foi substituído [n.d.t.: em mim] por uma apreciação crescente da sutileza dos elementos litúrgicos, grandes e pequenos — mesmo aqueles que parecem ter surgido “por acidente”. Como disse uma vez o Padre Pio: “Para Deus não existe isto a que se chama acaso”. Tal apreciação requer tanto paciência para buscar o significado das coisas quanto imaginação para enxergá-lo — duas realidades aparentemente bem raras em nossos tempos.

Exemplos do Ofício Divino

Após a hora Prima [2], lê-se o Martirológio e, depois, as orações antes de se iniciar o dia de trabalho. Estas começam com um triplo Deus in adiutorium meum intende, Domine ad adiuvandum me festina (“Vinde, ó Deus, em meu auxílio, socorrei-me sem demora”), seguido por um Gloria Patri, um Kyrie-Christe-Kyrie, um Pater noster, alguns versículos, outro Gloria Patri e uma oração.

Há muita repetição aqui. Eu não tenho nenhum arrazoado que oferecer, mas minha experiência, tendo-o rezado por muito tempo, é que este arranjo dá estabilidade e é muito apropriado para implorar o socorro de Deus no início dos trabalhos do dia. Quem implora deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, insistentemente. É esta a origem da oração que Jesus ensinou e de toda ladainha que jamais existiu. Rezar uma segunda vez a Oração do Senhor, apenas alguns instantes depois de a ter recitado ao fim da Prima, normalmente me alerta para o fato de que eu não a havia rezado a primeira vez com a devida atenção — o que me leva a tornar mais séria minha volta a ela. O mesmo se dá com a doxologia: resistindo à tentação de rezá-la rápido, é possível adentrar mais profundamente a origem e o fim de todas as nossas ações, a realidade suprema da Santíssima Trindade.

Um segundo exemplo, e um dos mais familiares, é o Benedicite [n.d.t.: o cântico de Daniel (3, 57-88.56), do domingo da I Semana do Saltério atual]. Pense numa oração repetitiva! Uma vez familiarizada com ela, no entanto — quando a pessoa percebe que está fazendo as vezes de toda a Criação, transformando suas silenciosas necessidades em louvor voluntário ao Senhor —, há um privilégio especial em pronunciar os versículos e um conforto na sucessão ritmada deles, como o movimento das ondas do mar: Benedicite omnia opera Domini, Domino: laudate et superexaltate eum in saecula. Benedicite, Angeli Domini, Domino: benedicite caeli, Domino.

As interrupções do padrão dispõem a uma retomada de atenção. Depois de dizer Benedicite dezessete vezes, nós dizemos: Benedicat terra Dominum; depois de mais oito Benedicite: Benedicat Israël Dominum; diz-se então Benedicite cinco vezes mais, até que se chegue a Benedicamus Patrem et Filium cum Sancto Spiritu e Benedictus es, Domine. Diz-se trinta vezes “bendizer” no imperativo, três no subjuntivo e “Bendito és”, uma vez, no indicativo. Uma notável numerologia trinitária e cristológica perpassa este hino, que a Igreja põe em nossos lábios como uma espécie de ladainha de bênçãos, admiravelmente adequada para os domingos e dias santos.

Um terceiro exemplo, também das Laudes, é a repetição diária dos Salmos 148, 149 e 150, que todos fizeram no Ocidente por pelo menos quinze séculos, mas que agora permanece apenas entre os monges e religiosas que retiveram seu antigo cursus. Esse trio de salmos põe em nossos lábios vinte e três vezes alguma forma de laus ou laudare, dando sentido ao nome Laudes e enfatizando essa hora como o principal ofício de puro louvor na Igreja. Há algo cativante e belo numa oração sem nenhum “valor de uso”, que não seja direcionada nem a obter um benefício nem a livrar-se de algum mal. A repetição “gratuita”, como alguém lhe poderia chamar, simboliza ao mesmo tempo o seu valor intrínseco e serve como um veículo para inculcá-lo em nós, seres impacientes e, com muita frequência, cheios de segundas intenções.

Um quarto exemplo é o refrão quoniam in aeternum misericordia eius, repetido vinte e sete vezes quando se recita ou se canta o Salmo 135. Um salmo louvando a misericórdia eterna de Deus faz ecoar ao longe a eternidade, com seu refrão imutável, assim como uma âncora mantém num lugar um navio, não obstante as ondas que o agitam. Pode ser difícil, às vezes, impedir que nossas mentes vagueiem à medida que repetimos a frase, mas obviamente o divino Mestre pensou esse salmo, assim como todos os outros, até a sua última letra, tendo em vista as necessidades espirituais de todos e cada um de seus discípulos.

Um último exemplo, e de caráter diferente dos outros, é a repetitividade indireta que se encontra no Salmo 118, recitado diariamente no Breviário Romano e uma vez por semana no monástico (dividido entre as pequenas horas do domingo e da segunda-feira). Não é preciso ter grande intimidade com o Salmo 118 para notar que ele é altamente repetitivo em seus conceitos, tecendo o salmista quantas variações de “lei, testemunhos, mandamentos, decretos, preceitos, juízos, ordens e palavras” lhe vieram à mente. A Igreja põe este salmo sempre diante de nós a fim de firmar nossas mentes vagabundas e corações rebeldes na lei imutável do Senhor, que é em última instância sua lei eterna, seu próprio ser, sua misericórdia manifestada a nós como regra de vida na qual encontraremos vida. A estrutura do salmo dá a entender que, em toda a variedade que vemos, em todas as vicissitudes que sofremos, e até na aparente falta de sentido do ciclo infinito de que fala o Eclesiastes, há uma ordem de sabedoria única, uma manifestação única do mistério do amor de Deus.

Até aqui eu falei apenas de repetição textual, mas um tratamento completo de nosso assunto teria de incluir repetições e aparentes redundâncias em pessoas, cerimônias, gestos e cantos.

O fim da repetição

Alguns desses elementos de repetição no Ofício Divino foram retidos no breviário de São Pio V e depois na Liturgia das Horas de Paulo VI, mas, infelizmente, muitos deles foram atenuados ou abandonados. Assim como a Missa foi simplificada pelos reformadores a fim de torná-la mais breve e autoexplicativa, transparente e acessível, também o Ofício foi simplificado e abreviado, tendo em vista um clero ocupado — não obstante o fato de que a maioria dos Padres conciliares, a julgar de seus discursos na aula, não apoiava nem grandes mudanças na Missa nem uma redução substancial do Breviário.

Depois de décadas de liturgia nova, porém, rezada lado a lado com uma espécie de sobrevivência inesperada da liturgia antiga, é possível não apenas conceituar, mas também experimentar como a tendência à simplificação, o abandono das formalidades e a rude rejeição de princípios estéticos acarretaram uma diminuição de disciplina e de impacto espiritual.

Mesmo o falecido Pe. Robert Taft, assumidamente antitridentino como era, admitia isto: 

O Ocidente deve aprender com o Oriente a redescobrir um senso de tradição, e parar de se emaranhar em seus próprios clichês. A liturgia deve evitar repetição? Mas se a repetição é da essência do comportamento ritual! A liturgia deve oferecer variedade? A variedade excessiva é inimiga da participação popular. A liturgia deve ser criativa? Mas criatividade de quem? É presunçoso, por parte de quem nunca manifestou a mínima criatividade em quaisquer outros aspectos da vida, pensar que é um Beethoven e um Shakespeare em matéria de liturgia [3].

O que ele não percebeu, no entanto, é que a liturgia, tal como chegou até nós, já é o equivalente a uma sinfonia de Beethoven ou a um romance de Shakespeare — se bem que numa escala muito superior. Como os ciclos de peças de mistério medievais, o culto católico tradicional tem uma profundidade, variedade, coloração e sutileza que desafiam explicações simplórias e resistem à simplificação. Padrões de repetição inteligente são um dos meios mais comuns e efetivos para se adquirir uma expressão formal de seriedade e uma intensificação crescente de desejo.

Se, na prática, a repetição retém sempre este valor, é uma matéria para exame de consciência, mas certamente não é difícil enxergar por que ela é uma característica de qualquer liturgia cristã histórica; ou melhor, de qualquer religião conhecida pelo homem. Dessa perspectiva, o expurgo implacável de repetições do Ofício Divino, da Missa e de tantos outros ritos é apenas mais um ângulo através do qual demonstrar o impulso essencialmente não-histórico, não-litúrgico e irreligioso por trás das reformas litúrgicas levadas a cabo no último século.

Notas

  1. Para entender com que espírito devem ser lidas quaisquer críticas às reformas litúrgicas do século passado, seria importante assistir às aulas do Pe. Paulo Ricardo O problema com o Missal de Paulo VI, de 22 ago. 2013, e Por que uma “reforma da reforma”?, de 27 ago. 2013. Dos textos delas destacamos as seguintes palavras do Cardeal Joseph Ratzinger: “[Que] se crie a impressão de que nada no Missal jamais poderá ser mudado, como se qualquer reflexão a respeito de possíveis reformas futuras fosse necessariamente um ataque ao Concílio — a uma tal ideia eu só poderia dar o nome de absurda” (n.d.t.).
  2. Deve-se notar, en passant, que só a supressão do antiquíssimo ofício da Prima já constitui, em si, razão suficiente para levantar sérias dúvidas sobre toda a campanha de revisão anunciada na Sacrosanctum Concilium, permitindo-nos enterrar de uma vez por todas a mentira de que a reforma litúrgica teve como finalidade “restaurar o antigo culto”. Cf. Wolfram Schrems, The Council’s Constitution on the Liturgy: Reform or revolution?, Rorate Caeli, 3 mai. 2018 (n.d.a.).
  3. Return to Our Roots: Recovering Western Liturgical Traditions: America, 26 mai. 2008 (n.d.a.).

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Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!
Espiritualidade

Nossa pátria é o Céu:
não temamos a morte!

Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!

“Importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso.”

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras da Sexta-feira da 34.ª Semana do Tempo Comum. Seu tom, no entanto, continua muito apropriado para este tempo do Advento, em que esperamos a vinda de Cristo.


Do tratado sobre a morte, de São Cipriano, bispo e mártir
(Cap. 18.24.26: CSEL 3, 308.312-314)

Superemos o pavor da morte com o pensamento da imortalidade

Lembremo-nos de que devemos fazer a vontade de Deus e não a nossa, de acordo com a oração que o Senhor ordenou ser rezada diariamente. 

Que coisa mais fora de propósito, mais absurda: pedimos que a vontade de Deus seja feita e quando ele nos chama e nos convida a deixar este mundo, não obedecemos logo à sua ordem! Resistimos, relutamos e, quais escravos rebeldes, somos levados cheios de tristeza à presença de Deus, saindo daqui constrangidos pela necessidade, não por vontade dócil. E ainda queremos ser honrados com os prêmios celestes a que chegamos de má vontade. Por que então oramos e pedimos que venha o reino dos céus, se o cativeiro terreno nos encanta? Por que, com preces frequentemente repetidas, suplicamos que se apresse o dia do reino, se maior desejo e mais forte vontade são servir aqui ao demônio do que reinar com Cristo?

“O Sonho de Jacó”, de Nicolas Dipre.

Se o mundo odeia o cristão, por que tu o amas, a ele que te aborrece, e não preferes seguir a Cristo que te remiu e te ama? João em sua carta clama, fala e exorta a que não amemos o mundo, deixando-nos levar pelos desejos da carne: “Não ameis o mundo nem o que é do mundo. Quem ama o mundo não tem em si a caridade do Pai; porque tudo quanto é do mundo é concupiscência dos olhos e ambição temporal. O mundo passará e sua concupiscência; quem, porém, fizer a vontade de Deus, permanecerá eternamente” (cf. 1Jo 2, 15-17). Ao contrário, tenhamos antes, irmãos diletos, íntegro entendimento, fé firme, virtude sólida, preparados para qualquer desígnio de Deus. Repelido o pavor da morte, pensemos na imortalidade que se lhe seguirá

Com isso, manifestamos ser aquilo em que acreditamos. Irmãos caríssimos, importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Abracemos o dia que designará a cada um sua morada, restituindo-nos ao paraíso e ao reino, uma vez arrebatados daqui e quebrados os laços terrenos. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso. O grande número de nossos queridos ali nos espera: pais, irmãos, filhos. Deseja estar conosco para sempre a grande multidão já segura de sua salvação, ainda solícita pela nossa. Quanta alegria para eles e para nós chegarmos nós até eles e a seu abraço! Que prazer estar ali, no reino celeste, sem medo da morte, tendo a vida para sempre! Que imensa e inesgotável felicidade!

Lá, o glorioso coro dos apóstolos; lá, o exultante grupo dos profetas; lá, o incontável povo dos mártires coroados de glória e de triunfo pelos combates e sofrimentos; lá as virgens vitoriosas, que pelo vigor da continência corporal subjugaram a concupiscência da carne; lá remunerados os misericordiosos, que pelos alimentos e liberalidades aos pobres fizeram obras de justiça, e, observando o preceito do Senhor, transferiram seu patrimônio terreno para os tesouros celestes. Para lá, irmãos caríssimos, corramos com ávida sofreguidão. Que Deus considere este nosso modo de pensar! Que Cristo olhe este propósito do espírito e da fé! Os maiores prêmios de sua caridade ele os dará àquele cujos desejos forem intensos.

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