Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 13, 31-35)
Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.
Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: ‘Bendito aquele que vem em nome do Senhor’”.
No Evangelho de hoje, Jesus emprega uma das comparações mais ternas e repletas de amor de toda a Sagrada Escritura. Ele se apresenta como uma mãe cuidadosa, que ampara os filhos em meio aos perigos, e dirige-se para Jerusalém, dizendo: “Quantas vezes Eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste!” (Lc 13, 34).
Para compreendermos verdadeiramente essa comparação, é preciso conhecer um pouco o cuidado que tem a galinha com os seus pintinhos. Eu mesmo nunca havia compreendido plenamente o significado dessa imagem até que, por Providência divina, fui nomeado pároco da Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Barão de Melgaço, onde permaneci durante onze anos, a partir de 1996.
Certo dia, eu estava rio abaixo, em uma pequena comunidade chamada Estirão Comprido, na Capela São José, e almoçava na casa de uma ministra extraordinária da Comunhão. De repente, caiu um forte temporal, e imediatamente ela saiu para o terreiro para recolher os pintainhos, trazendo-os para dentro de casa e colocando-os em uma caixa cuidadosamente acolchoada com panos.
Perguntei-lhe o que estava fazendo, e ela respondeu: “Padre, se eles ficarem lá fora, expostos ao tempo, vão morrer de frio”. Foi então que compreendi o significado da imagem da galinha que recolhe os pintainhos debaixo das asas. Naquela idade, eles são extremamente frágeis e, diante do frio e da chuva, se permanecerem molhados e desamparados, podem morrer. Portanto, assim como os ovos se perdem se a galinha não os chocar e aquecer, também os pintinhos precisam ser acolhidos e protegidos sob suas asas.
Essa comparação, tão natural e evidente para Jesus e para os homens de sua época, pode parecer distante de nossa realidade, mas é por meio dela que Nosso Senhor quer revelar-nos o coração de Deus. Ora, nós somos como esses pintinhos: molhados, frágeis e, abandonados a nós mesmos, morreremos de frio. Logo, é necessário que alguém venha ao nosso encontro, recolha-nos e leve-nos para debaixo das asas daquela proteção benfazeja.
Foi exatamente isso que Jesus fez por nós ao vir a este mundo. Na Cruz, Ele abriu os braços e estendeu sobre nós, por assim dizer, as suas asas, a fim de que fôssemos defendidos dos males contra os quais, por nós mesmos, nada podemos. Afinal, o que podemos contra o poder de Satanás e de seus demônios? O que podemos contra a nossa própria maldade e malícia? O que podemos diante dos poderes articulados deste mundo?
Jesus lamenta que a nossa ingratidão nos leve a rejeitar justamente essa ternura, esse amor, esse carinho, esse amparo, essa proteção e essa salvação que Ele nos oferece. Por isso, diante de nossa miséria, Nosso Senhor adverte que não haverá salvação para nós enquanto não o reconhecermos e dissermos: “Bendito Aquele que vem em nome do Senhor”.
Cristo permanece de braços abertos, desejando acolher-nos sob as suas asas. Corramos, pois, ao seu encontro com confiança, buscando refúgio n’Aquele que jamais abandona os que a Ele recorrem. Coragem! Ele nos chama a permanecer junto de si, onde encontramos a força para vencer todo mal e a salvação de que tanto necessitamos.



















