Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 14, 1.7-11)
Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: “Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”.
O Evangelho de hoje é uma das páginas exclusivas do Evangelista São Lucas, na qual Jesus, durante um banquete na casa de um fariseu, conta a parábola dos convidados que procuram ocupar os primeiros lugares num casamento. Ele, então, ensina: “Quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’ [ascende superius]. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Lc 14, 10-11).
É importante que esse relato seja compreendido dentro de um contexto mais amplo. A partir do capítulo 9 do Evangelho de São Lucas, Jesus toma a firme decisão de subir para Jerusalém. Esse caminho rumo à cidade santa aponta, ao mesmo tempo, para a sua Ascensão aos Céus, narrada por São Lucas com particular destaque, e é a partir disso que conseguimos entender o ascende superius, isto é, o “subir mais alto” de que Jesus fala no Evangelho de hoje.
Mas qual é o caminho da exaltação? É justamente o caminho da humildade. No capítulo 2 da Carta de São Paulo aos Filipenses, encontramos esse mesmo itinerário, vivido primeiramente pelo próprio Cristo e proposto, depois, como caminho para todos nós: “Jesus, sendo igual a Deus, esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição humilde de servo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 9). Eis o caminho da humilhação.
Essa é a realidade que Jesus primeiro vive e, depois, ensina: “Por isso, Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Fl 2, 9). Ao humilhar-se, Cristo foi exaltado pelo Pai. Assim, compreendemos o sentido daquele convite feito no banquete: “Amigo, vem mais para cima” (Lc 14, 10): Deus eleva aquele que, diante d’Ele, soube ocupar o último lugar.
A humildade é uma das virtudes que estão na base de todo o edifício espiritual, e é a condição necessária para termos uma verdadeira vida espiritual. Afinal, se não estamos na humildade, não estamos na Verdade e, portanto, não temos uma visão verdadeira de nós mesmos.
Por que tantas pessoas passam anos e anos de sua vida rezando, frequentando a Igreja, e não progridem espiritualmente? Porque o caminho do progresso espiritual é um caminho para baixo, isto é, o caminho de humilhar-se diante de Deus, esconder-se e procurar os últimos lugares. Mas atenção: não se trata de procurar a humilhação diante dos homens numa espécie de falsa modéstia, já que isso pode transformar-se em vaidade.
Devemos nos humilhar diante de Cristo, cujo olhar penetra o mais íntimo do nosso coração e coloca-nos diante da verdade acerca de nós mesmos. Nesse sentido, Santa Teresa d’Ávila afirmava: “A humildade é caminhar na verdade”, ensinando que ser humilde significa consentir em permanecer diante de Deus tal como realmente somos, sem disfarces nem ilusões. E esse mesmo Deus que nos faz reconhecer a nossa miséria é também Aquele que, em sua misericórdia, toma-nos pela mão e eleva-nos, convidando-nos a ocupar um lugar em seu Reino.
Se não nos encontrarmos constantemente com a nossa própria pequenez, não nos abriremos à piedade do Senhor, nem estaremos preparados para o lugar que Ele nos reserva no Céu. Aprendamos, pois, a ocupar humildemente o último lugar, a fim de que um dia seja o próprio Deus a nos dizer: “Amigo, vem mais para cima”.




















